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36. Reprovamos recentemente com tristeza a opinião que apresenta o
casamento como meio único de garantir à personalidade humana o seu
desenvolvimento e a sua perfeição natural.[40] Alguns afirmam,
de fato, que a graça, comunicada ex opere operato pelo sacramento do
matrimônio, santifica o uso do casamento a ponto de o tornar
instrumento mais eficaz que a mesma virgindade para unir as almas a
Deus, porque o casamento cristão é um sacramento, mas não o é a
virgindade. Nós declaramos porém essa doutrina falsa e nociva. Sem
dúvida, o sacramento concede aos esposos a graça de cumprirem
santamente o dever conjugal e reforça os laços do afeto recíproco que
os une; mas não foi instituído para fazer do uso do matrimônio o
meio mais apto, em si, para unir com o próprio Deus a alma dos
esposos pelos laços da caridade.[41] Quando o apóstolo são
Paulo reconhece aos esposos o direito de se absterem algum tempo do uso
do casamento para se entregarem a oração (cf. l Cor 7,5), não
é exatamente porque tal renúncia torna a alma mais livre para se dar
às coisas divinas e orar?
37. Finalmente, não se pode afirmar, como fazem alguns, que "a
ajuda mútua",[42] que os esposos procuram no matrimônio
cristão, é ajuda mais perfeita para conseguir a santidade do que a
apregoada solidão do coração das virgens e dos continentes. Pois,
não obstante a renúncia a tal amor humano, não se pode dizer que as
pessoas, que abraçam o estado de perfeita castidade, empobrecem por
isso mesmo a sua personalidade humana. De fato, recebem do próprio
Deus um socorro espiritual muito superior à "mútua ajuda" prestada
pelos cônjuges entre si. Dedicando-se completamente àquele que é
seu princípio e lhes dá a participação da sua vida divina, longe de
se diminuírem a si mesmos, só se engrandecem o mais possível.
Quem, com mais verdade que os virgens, pode aplicar a si aquelas
admiráveis palavras do apóstolo são Paulo: "Vivo, já não eu,
mas é Cristo que vive em mim"? (Gl 2,20).
38. Por esse motivo, a Igreja mantém sapientissimamente o
celibato dos padres; sabe que ele é e há de ser fonte de graças
espirituais e de união com Deus, cada vez mais íntima.
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