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39. Parece-nos útil dizer também alguma coisa dos que apartam a
juventude dos seminários e institutos religiosos, esforçando-se por
incutir a idéia de que hoje a Igreja tem maior necessidade do auxílio
e da profissão da vida cristã dos casados, vivendo no século como os
demais, do que dos sacerdotes e das religiosas, que por assim dizer se
separaram do mundo pelo voto de castidade. Semelhante idéia,
veneráveis irmãos, é completamente falsa e muito perniciosa.
40. Não é certamente intenção nossa negar a fecundidade do
testemunho que os esposos católicos podem dar, com o exemplo da vida e
a eficácia da virtude, em todos os lugares e circunstâncias. Mas
invocar esse motivo para aconselhar que se prega o matrimônio à
consagração total a Deus é inverter e transtornar a reta ordem das
coisas. Muito desejamos, veneráveis irmãos, que não só se
ensinem a tempo aos já casados ou aos noivos os deveres de pais e
mães, mas que se esclareçam também sobre o testemunho que devem dar
aos outros da sua fé e do exemplo das suas virtudes. Mas, como o
exige a consciência do nosso dever, não podemos deixar de reprovar em
absoluto os maus conselheiros, que apartam jovens de entrarem nos
seminários ou na vida religiosa, sob o pretexto que farão maior bem
como pais ou mães de família, professando a vida cristã publicamente
à vista de todos. Melhor fariam tais conselheiros exortando as
inúmeras pessoas casadas a cooperarem nas obras de apostolado, do que
teimando em apartar da virgindade os poucos jovens que desejam
consagrar-se ao divino serviço. A esse propósito lembra santo
Ambrósio: "Sempre foi próprio da graça sacerdotal lançar a
semente da integridade e excitar o amor da virgindade".[43]
41. Também julgamos dever notar que é completamente falso dizer
que as pessoas que professam castidade perfeita, deixam, em certo
modo, de pertencer à comunidade humana. As religiosas que dedicam a
vida toda a servir os pobres e os doentes, sem distinção de raça,
de categoria social ou religião, acaso não se associam intimamente a
essas desgraças e dores, e porventura não se compadecem delas como se
fossem verdadeiras mães? E o sacerdote não é o bom pastor, que, a
exemplo do divino mestre, conhece as suas ovelhas e as chama pelos seus
nomes? (cf. Jo 10,14;10,3). Ora foi exatamente a
castidade perfeita que permitiu que esses sacerdotes e religiosos, e
essas religiosas, pudessem se dedicar a todos e amar a todos por amor
de Cristo. E também os contemplativos e contemplativas, oferecendo
a Deus as suas orações e a sua própria imolação pela salvação do
próximo, contribuem muito para o bem da Igreja; mais ainda: como
nas circunstâncias presentes se dão ao apostolado e às obras de
caridade, segundo as normas estabelecidas pela nossa carta apostólica
Sponsa Christi,[44] merecem todo o louvor por este novo motivo;
nem podem ser considerados como estranhos à sociedade humana, pois
trabalham desses dois modos para o bem espiritual dela.
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