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12. Daqui se segue - como os santos padres e os doutores da Igreja
claramente ensinaram - que a virgindade não é virtude cristã se não
é praticada "por amor do reino dos céus" (Mt 19,12); isto
é, para mais facilmente nos entregarmos às coisas divinas, para mais
seguramente alcançarmos a bem-aventurança, e para mais livre e
eficazmente podermos levar os outros para o reino dos céus.
13. Não podem, portanto, reivindicar o título de virgens as
pessoas que se abstêm do matrimônio por puro egoísmo, ou para
evitarem seus encargos, como nota santo Agostinho, [9] ou ainda
por amor farisaico e orgulhoso da própria integridade corporal: já o
concílio de Gangres condena a virgem e o continente que se afastam do
matrimônio por o considerarem coisa abominável, e não por se moverem
pela beleza e santidade da virgindade.[10]
14. Além disso, o apóstolo das gentes, inspirado pelo Espírito
Santo, observa: "Quem está sem mulher, está cuidadoso das coisas
que são do Senhor, como há de agradar a Deus... E a mulher
solteira e virgem cuida das coisas que são do Senhor, para ser santa
de corpo e de espírito" (1Cor 7,32.34). É essa,
portanto, a finalidade primordial e a razão principal da virgindade
cristã: encaminhar-se apenas para as coisas de Deus e orientar,
para ele só, o espírito e o coração; querer agradar a Deus em
tudo; concentrar nele o pensamento e consagrar-lhe inteiramente o
corpo e a alma.
15. Nunca deixaram os santos padres de interpretar desse modo a
lição de Jesus Cristo e a doutrina do apóstolo das gentes: pois,
desde os primitivos tempos da Igreja, consideravam a virgindade como
consagração do corpo e da alma a Deus. São Cipriano pede às
virgens que, "tendo-se consagrado a Cristo pela renúncia à
concupiscência da carne e tendo-se dedicado a Deus de alma e corpo,
não procurem agora adornar-se nem pretendam agradar a ninguém senão
a Deus".[11] E mais longe vai ainda santo Agostinho: "Não
honramos a virgindade por si mesma, mas por estar consagrada a
Deus... Nem nós louvamos nas virgens o serem virgens, mas o
estarem consagradas a Deus com piedosa continência".[12] Os
príncipes da sagrada teologia, santo Tomás de Aquino [13] e
são Boaventura, [14] apóiam-se na autoridade de santo
Agostinho para ensinarem que a virgindade não possui a firmeza de
virtude se não deriva do voto de a conservar ilibada perpetuamente.
E, sem dúvida, os que mais plena e perfeitamente põem em prática a
lição de Cristo neste particular são os que se obrigam com voto
perpétuo a observar a continência; nem se pode afirmar com fundamento
que é melhor e mais perfeita a condição dos que desejam conservar uma
porta aberta, para voltarem atrás.
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