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16. Esse vínculo de perfeita castidade consideraram-no os santos
padres como uma espécie de matrimônio espiritual da alma com Cristo;
e, por isso, chegaram alguns a comparar com o adultério a violação
dessa promessa de fidelidade.[15] Santo Atanásio escreve que a
Igreja católica costuma chamar esposas de Cristo às
virgens.[16] E santo Ambrósio diz expressamente da alma
consagrada: "É virgem quem possui a Deus como esposo".[17]
Mais ainda, vê-se pelos escritos do mesmo doutor de Milão,
[18] que, já no quarto século, o rito da consagração das
virgens era muito semelhante ao que a Igreja usa ainda hoje na
bênção matrimonial.[19]
17. Por isso os santos padres exortam as virgens a amarem com mais
ardor o seu divino Esposo do que amariam os próprios maridos, e a
conformarem, a todo o momento, pensamentos e atos com a vontade
dele.[20] Recomenda santo Agostinho: "Amai com todo o
coração o mais belo dos filhos dos homens: bem o podeis, porque o
vosso coração está livre dos vínculos do casamento... Se
tivésseis maridos, estaríeis obrigadas a ter-lhes grande amor;
quanto mais não estais obrigadas a amar aquele por cujo amor não
quisestes ter maridos? Esteja fixo no vosso coração inteiro aquele
que por vós está fixo na cruz".[21] Tais são aliás os
sentimentos e as resoluções que a própria Igreja exige das virgens
no dia da consagração, convidando-as a pronunciar estas palavras
rituais: "O reino do mundo e toda a sedução do século
desprezei-os por amor de nosso Senhor Jesus Cristo, que eu vi, que
eu amei, em quem confiei, a quem preferi".[22] É portanto o
amor, e só o amor, que leva suavemente a virgem a consagrar
completamente o corpo e a alma ao divino Redentor, segundo o
pensamento que são Metódio, bispo de Olimpo, atribui tão
belamente a uma delas: "Tu, Cristo, és tudo para mim. É para ti
que me conservo casta, e com a lâmpada acesa vou ao teu encontro, ó
meu Esposo".[23] Sim, é o amor de Cristo que persuade a
virgem a encerrar-se para sempre nos muros dum mosteiro, afim de
contemplar e amar, mais fácil e livremente, o celeste Esposo; e é
ele ainda que a leva a praticar, com todas as forças, até à morte,
as obras de misericórdia para o bem do próximo.
18. Acerca dos homens "que não se contaminaram com mulheres, pois
são virgens" (Ap 14,4), afirma o apóstolo são João:
"Estes seguem o Cordeiro para onde quer que ele vá" (Ib.).
Meditemos o conselho que lhes dá santo Agostinho: "Segui o
Cordeiro, porque também a sua carne é virgem... Com razão o
seguis, em virgindade de coração e de carne, para onde quer que ele
vá. Afinal, que é seguir senão imitar? Na verdade Cristo sofreu
por nós deixando-nos exemplo, como diz o apóstolo são Pedro,
'para seguirmos as suas pisadas'" (1Pd 2,21).[24] De
fato, todos esses discípulos e esposas de Cristo abraçaram o estado
de virgindade, como diz são Boaventura, "para se conformarem com
Cristo, seu esposo, a quem o mesmo estado torna as virgens
semelhantes".[25] Para o amor ardente que têm a Cristo não
podiam bastar os laços do afeto; era absolutamente necessário que
esse mesmo amor se mostrasse pela imitação das virtudes, que nele
brilham, e de modo especial pela conformidade com a sua vida, toda
dedicada à salvação do gênero humano. Se os sacerdotes, os
religiosos e as religiosas, se todos os que de um modo ou do outro se
consagraram ao serviço de Deus observam a castidade perfeita, é
afinal porque o divino Mestre foi virgem até à morte. Assim se
exprime são Fulgêncio: "É este o Filho unigênito de Deus, e
também filho unigênito da Virgem, esposo único de todas as virgens
consagradas, fruto, ornamento e prêmio da santa virgindade; dado à
luz corporalmente pela santa virgindade, e à santa virgindade unido
espiritualmente; ele torna fecunda a santa virgindade sem lhe destruir
a integridade, adorna-a de permanente beleza e coroa-a de glória no
reino eterno" [26]
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