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20. Mas há ainda outra razão para abraçarem o estado de
virgindade todos os que se querem dedicar completamente a Deus e à
salvação do próximo. Os santos padres enumeram todas as vantagens,
para o progresso na vida espiritual, de uma completa renúncia aos
prazeres da carne. Sem dúvida - como eles claramente fizeram notar
- tal prazer, legítimo no casamento, não é repreensível em si
mesmo; pelo contrário, o uso casto do casamento está nobilitado e
santificado por um sacramento. Todavia, tem de se reconhecer
igualmente que as faculdades inferiores da natureza humana, em
conseqüência da queda do nosso primeiro pai, resistem à reta razão
e algumas vezes até levam o homem a cometer atos desonestos. Como
escreve o Doutor Angélico, o uso do matrimônio "impede a alma de
se entregar completamente ao divino serviço".[27]
21. Para os ministros sagrados conseguirem essa liberdade espiritual
de corpo e alma, e para não se embaraçarem com negócios terrenos, a
Igreja latina exige-lhes que se obriguem voluntariamente à castidade
perfeita.[28] "Se tal lei - afirma nosso predecessor de imortal
memória Pio XI - não obriga de todo os ministros da Igreja
oriental, também entre eles o celibato eclesiástico é honrado e em
certos casos - sobretudo quando se trata dos mais altos graus da
hierarquia - é condição necessária e obrigatória". [29]
22. Deve notar-se, além disso, que não é apenas por causa do
ministério apostólico que os sacerdotes renunciam completamente ao
matrimônio. É também porque são ministros do altar. Pois, se já
os sacerdotes doAntigo Testamento se abstinham do uso do matrimônio
enquanto serviam no templo, com receio de serem declarados impuros pela
Lei, como o resto dos homens (cf. Lv 15,16-17;
22,4;1Sm 21,5-7),[30] com quanto mais razão não
convém que os ministros de Jesus Cristo, que todos os dias oferecem
o sacrifício eucarístico, se distingam pela castidade perpétua?
São Pedro Damião exorta os sacerdotes à castidade perfeita com
esta pergunta: "Se o nosso Redentor amou tanto a flor duma pureza
intacta, que não só quis nascer dum ventre virginal, mas quis
também ser entregue aos cuidados dum guarda virgem, e isso, quando
ainda criança vagia no berço, dizei-me: A quem quererá ele
confiar o seu corpo, agora que reina na imensidão dos
céus"?[31]
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