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57. E também verdade que, com o passar do tempo e a mudança
substancial das circunstâncias, não previstas e talvez nem sequer
previsíveis no ato da estipulação, um tratado ou algumas das suas
cláusulas podem tornar-se ou parecer injustas, inatualizáveis ou
muito onerosas a uma das partes; é claro que, se isso acontecesse,
dever-se-ia proceder oportunamente a uma discussão leal para
modificar ou substituir o tratado. Mas considerar os pactos, por
princípio, como efêmeros e arrogar-se tacitamente a faculdade de
rescindi-los unilateralmente quando não convenham mais, seria o mesmo
que anular a confiança recíproca entre os Estados. Mutilar-se-ia
assim a ordem natural, cavando-se ao mesmo tempo entre as nações
lamentáveis abismos de separação.
58. Hoje, veneráveis irmãos, todos contemplam com terror o
abismo a que levaram os erros por nós caracterizados e as suas
conseqüências práticas. Ruíram por terra as orgulhosas ilusões de
um progresso indefinido; e os que ainda cochilassem seriam
despertados, na trágica época que atravessamos, com as palavras do
profeta: "Ouvi, ó surdos, e vede ó cegos" (Is 42,18).
O que exteriormente parecia ordem, não era senão uma invasão
perturbadora e desbarato das normas de vida moral as quais, destacadas
da majestade da lei divina, haviam contaminado todos os campos da
atividade humana. Mas deixemos o passado e lancemos os nossos olhares
para o futuro que, segundo o que prometem os poderosos deste mundo,
apenas cessados os hodiernos e sangüinolentos encontros, consistirá
numa nova reorganização do mundo, fundada na justiça e na
prosperidade. Será verdadeiramente diferente tal futuro? Será
sobretudo melhor? No fim desta guerra, serão os tratados de paz e a
nova ordem internacional animados de justiça e eqüidade para com
todos? Serão animados daquele espírito que liberta e pacifica, ou
serão uma lamentável repetição dos erros antigos e recentes? Coisa
vã e demonstrada pela experiência, seria esperar uma mudança radical
exclusivamente do encontro bélico. A hora da vitória é sempre uma
hora de um triunfo exterior por parte de quem a consegue; mas é, ao
mesmo tempo, a hora da tentação, na qual o anjo da justiça luta com
o demônio da violência. O coração do vencedor endurece-se muito
facilmente; a moderação e uma longividente sabedoria deparam-se-lhe
como fraqueza; a exaltação das paixões populares, incitada pelos
sacrifícios e sofrimentos suportados, vela muitas vezes os olhos dos
responsáveis e faz-lhes desprezar a voz admoestadora da humanidade e
da eqüidade, sobrepujada ou aniquilada pelo inumano: "ai dos
vencidos!" Resoluções e decisões nascidas em tais circunstâncias
arriscam-se sempre a serem injustas se bem cobertas com o manto da
justiça.
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