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3. Se, à luz da eternidade, contemplarmos os acontecimentos
externos e internos que se desenvolveram nos últimos quarenta anos, e
lhes medirmos as grandezas e deficiências, aquela consagração
universal a Cristo-Rei, pelo seu sagrado significado, pelo seu
simbolismo exortador, pelo seu escopo de purificação e de
elevação, revela-se aos olhos do nosso espírito como tendente a
robustecer e defender cada vez mais as almas, ao mesmo tempo que, na
sua previdente sabedoria, visa a sarar e enobrecer a sociedade humana e
promover o seu verdadeiro bem.
Revela-se-nos também cada vez mais claramente, como uma mensagem de
exortação e de graça de Deus, dirigida não só à sua Igreja mas
também a um mundo hoje tão necessitado de sacudimento e de guia,
porquanto, imerso no culto do presente, vem desorientando-se cada vez
mais e esgotando-se na fria investigação de ideais puramente
terrenos; mensagem a uma humanidade que, em fileiras cada vez mais
numerosas, se destaca da fé em Cristo e, mais ainda, do
conhecimento e da observância da sua lei; mensagem contra uma
concepção do mundo, segundo a qual a doutrina de amor e de
abnegação do Sermão da montanha e a divina ação de amor da cruz
não passam de escândalo e de loucura. Como o precursor de Cristo
proclamava certo dia: "Eis o Cordeiro de Deus" (Jo 1,29),
advertindo que o Esperado das gentes, se bem que ainda desconhecido,
habitava entre os homens; assim o representante de Cristo,
esconjurando, dirigia o seu brado possante: "Eis o vosso Rei!"
(Jo 19,14) aos renegadores, aos duvidosos, aos indecisos, aos
hesitantes que, ou se recusavam a seguir o Redentor glorioso, sempre
vivo e operante na sua Igreja, ou seguiam-no descuidados e lentos.
4. Da difusão e arraigo do culto do divino coração do Redentor,
que teve esplêndido coroamento não só na consagração da
humanidade, ao findar do século passado, mas também na introdução
da festa da realeza de Cristo, por nosso imediato predecessor, [2]
de saudosa memória, advieram indizíveis bens a inúmeras almas: um
"rio cujos braços alegram a cidade de Deus" (Sl 45,5). Que
época, mais do que a nossa, teve necessidade de semelhantes bens?
Que época, mais do que a nossa, foi tão atormentada pela falta de
espiritualidade e profunda indigência interior, apesar do progresso
técnico e puramente civil? Acaso, não se poderá aplicar-lhe a
palavra reveladora do Apocalipse: "Pois dizes: sou rico,
enriqueci-me e de nada mais preciso. Não sabes, porém, que és tu
o infeliz; miserável, pobre, cego e nu" (Ap 3,17)?
5. Veneráveis irmãos! Existe acaso dever maior e mais urgente do
que anunciar... "as inescrutáveis riquezas de Cristo" (Ef
3,8) aos homens do nosso tempo? E haverá coisa mais nobre do que
desfraldar o vexilo real diante desses que têm seguido ou seguem
bandeiras falazes e conquistar para o glorioso vexilo da cruz aqueles
que dele desertaram? Que coração se não deveria abrasar e
sentir-se impelido a socorrer tantos irmãos e irmãs que, devido a
erros e paixões, incitamentos e prejuízos, se afastaram da fé no
Deus verdadeiro, destacando-se assim da jucunda e salutar mensagem de
Jesus Cristo? Quem quer que pertença à milícia de Cristo -
eclesiástico ou leigo - não deveria acaso sentir-se estimulado e
incitado a maior vigilância, a mais decidida defesa, ao ver que as
fileiras dos inimigos de Cristo cada vez aumentam mais, ao perceber
que os porta-vozes dessas tendências, renegando ou praticamente
descurando as verdades vivificadoras e os valores contidos na fé em
Deus e em Cristo, partem sacrilegamente as tábuas dos mandamentos de
Deus para substituí-las com tábuas e normas que excluem a
substância ética da revelação do Sinai, o espírito do Sermão da
montanha e da cruz? Quem poderia, sem sentir profunda aflição,
observar como tais desvios preparam uma trágica messe, justo no meio
daqueles que, nos dias de tranqüilidade e segurança se alistam entre
os sequazes de Cristo, mas que - infelizmente cristãos mais de nome
que de fato - quando se trata de perseverar, de lutar, de sofrer, de
afrontar as perseguições claras ou simuladas, tornam-se vítimas da
pusilanimidade, da fraqueza, da incerteza, e apavorados diante dos
sacrifícios impostos pela sua profissão cristã, não encontram a
força necessária para beber o cálice amargo dos fiéis a Jesus
Cristo?
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