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68. Entretanto, veneráveis irmãos, tanto a doutrina de Cristo,
única que pode dar aos homens uma base de fé que lhes alargue a vista
e lhes dilate divinamente o coração; única que pode remediar
eficazmente às hodiernas e gravíssimas dificuldades, como a
operosidade da Igreja em desenvolver e difundir tal doutrina são, às
vezes, alvos de infundadas suspeitas como se visassem abalar as bases
da autoridade civil ou usurpar-lhes os direitos.
69. Para desfazer tais suspeitas, declaramos com apostólica
sinceridade - confirmando todavia tudo o que o nosso predecessor Pio
XI, de veneranda memória, ensinou em sua encíclica Quas primas,
de 11 de dezembro de 1925, acerca da potestade de Cristo-Rei e
da sua Igreja - que a Igreja jamais visou nem visa a tais fins, e se
alarga os braços para este mundo não é para dominar mas para servir.
Não pretende ela intrometer-se no campo próprio das demais
autoridades legítimas, mas oferece-lhes o seu auxílio, a exemplo e
com o espírito do seu divino Fundador que "passou fazendo o bem"
(At 10,38).
70. A Igreja prega e inculca obediência e respeito às autoridades
terrenas que em Deus tem sua nobre origem, atendo-se ao ensinamento
de Cristo que disse: "Dai a César o que é de César" (Mt
22,21); não tem miras usurpadoras e canta na sua liturgia:
"não arrebata os reinos terrestres, Aquele que dá os reinos
celestes".[6] Não deprime as energias humanas, mas antes as
orienta para o que é magnânimo e generoso, e forma caracteres que
não transigem com a consciência. Ela, que civilizou os povos,
nunca se opôs ao progresso da humanidade, do qual se compraz e goza
com maternal ufania. O fim da sua autoridade declaram-no
admiravelmente os anjos que adejavam sobre o berço do Verbo
encarnado, quando cantavam glória a Deus e anunciavam paz aos homens
de boa vontade. Esta paz que o mundo não pode dar, deixou-a, por
herança aos seus discípulos o divino Redentor: "Deixo-vos a paz,
dou-vos a minha paz" (Jo 14,27); e assim, seguindo a
doutrina sublime de Cristo, por ele mesmo compendiada no duplo
preceito do amor a Deus e ao próximo, milhões de almas conseguiram
essa paz, conseguem-na ainda hoje e hão de consegui-la sempre. A
história, por um célebre orador romano sabiamente denominada "mestra
da vida",[7] há quase dois mil anos vem demonstrando a veracidade
da palavra da Escritura que afirma: "não terá paz quem resiste a
Deus" (cf. Jó 9,4). Porque somente Cristo é a "pedra
angular" (Ef 2,20), sobre a qual o homem e a sociedade podem
encontrar estabilidade e salvação.
71. Sobre esta pedra angular foi educada a Igreja, e por isso
contra ela nunca poderão prevalecer as potências adversas: "as
portas do inferno não prevalecerão" (Mt 16,18), nem poderão
nunca enfraquecê-la, porquanto as lutas, tanto internas como
externas, só poderão dar-lhe mais força e aumentar o número de
coroas das suas gloriosas vitórias. Ao contrário, qualquer outro
edifício que não tenha suas bases na doutrina de Cristo, apóia-se
sobre areia movediça e estará fadado a ruir miseramente (cf. Mt
7,26-27).
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