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72. Veneráveis irmãos, o momento em que vos chega às mãos esta
nossa primeira encíclica, bem pode ser qualificado, sob vários
aspectos, de uma verdadeira "hora das trevas" (Lc 22,53), na
qual o espírito da violência e da discórdia verte sobre a humanidade
a sangüinolenta ânfora de dores inomináveis. Será porventura
necessário assegurar-vos que o nosso coração, repassado de
compassivo amor, está nesta hora bem próximo de todos os seus
filhos, e especialmente dos atribulados, dos oprimidos e perseguidos?
Os povos arrastados para essa trágica voragem, que é a guerra,
estão ainda, por assim dizer, no "princípio das dores" (Mt
24,8), mas reinam já, em milhares de famílias, morte e
desolação, pranto e miséria. Do sangue de inúmeros seres
humanos, mesmo de não combatentes, desprende-se lancinante brado,
especialmente nessa dileta nação como a Polônia que, pela sua
fidelidade à Igreja, pelos seus grandes méritos na defesa da
civilização cristã, gravados em caracteres indeléveis nos fatos da
história, tem direito à simpatia humana e fraterna do mundo, e
aguarda, confiante na poderosa intercessão de Maria, "Socorro dos
cristãos", a hora de uma ressurreição que corresponde aos
princípios da justiça e da verdadeira paz.
73. O que aconteceu há pouco e o que ainda está acontecendo,
passara diante de nossos olhos como uma visão quando, havendo ainda
alguma esperança, nada deixamos de fazer do que nos sugeria o nosso
ministério apostólico e os meios que tínhamos à nossa disposição,
para impedir que se recorresse às armas e para conservar aberto o
caminho que levaria a um entendimento honroso para ambas as partes.
Convencidos de que o uso da força por uma das partes obrigaria a outra
a recorrer às armas, julgamos dever imprescindível do nosso
ministério apostólico e do amor cristão, fazer tudo o que
pudéssemos para poupar à humanidade toda e à cristandade os horrores
de uma guerra mundial, ainda que as nossas intenções e as nossas
vistas corressem risco de serem mal interpretadas. Os nossos
conselhos, se bem ouvidos com respeito, nem por isso foram seguidos.
E enquanto o nosso coração de pastor, cheio de amargura e
preocupação, observa o que se passa, como que aparece aos nossos
olhos a figura do bom pastor, que é como se devêssemos, em seu
nome, repetir ao mundo a queixa: "ah! se conhecesses a mensagem de
paz! Agora, porém, isso está escondido a teus olhos" (Lc
19,42).
74. No meio deste mundo, hoje em estridente contraste com a paz de
Cristo no reino de Cristo, a Igreja e os seus fiéis acham-se em
tempos e anos de provações, raramente conhecidos na sua história de
lutas e de sofrimentos. Mas em semelhantes ocasiões, quem se
conserva firme na fé e tem coração robusto, sabe também que
Cristo-Rei nunca lhe está tão próximo como na hora da provação,
que é a hora da fidelidade. Com o coração dilacerado pelos
sofrimentos de tantos dos seus filhos, mas ao mesmo tempo com aquela
coragem e firmeza que lhe vem das promessas do Senhor, a esposa de
Cristo vai ao encontro dessas ondas procelosas. Sabe que a verdade
que anuncia, e a caridade que ensina e pratica, serão os conselheiros
e cooperadores indispensáveis dos homens de boa vontade que desejem
reconstruir um mundo novo, fundado na justiça e no amor, apenas a
humanidade se canse de percorrer o caminho do erro e de provar os
amargos frutos do ódio e da violência.
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