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14. Como vigário daquele que, numa hora decisiva, diante do
representante da mais alta autoridade terrena de então, pronunciou a
grande palavra: "Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da
verdade; quem está pela verdade, ouve a minha voz" (Jo
18,37), de nada nos sentimos mais devedores ao nosso cargo, e
também ao nosso tempo, como de, com apostólica firmeza, "dar
testemunho da verdade". Este dever implica necessariamente a
exposição e a refutação dos erros e das culpas humanas que devem ser
conhecidas para que se torne possível a cura: "conhecereis a verdade
e a verdade vos tornará livres" (Jo 8,32). No cumprimento
deste nosso dever, não nos deixaremos influenciar por considerações
terrenas, nem nos deteremos diante de difidências e contrastes, de
recusas e incompreensões, nem diante do temor de desprezos e falsas
interpretações. Animar-nos-á sempre aquela paternal caridade
que, enquanto sofre pelos males que afligem seus filhos, não deixará
de indicar-lhes o remédio, esforçando-nos por imitar o divino
modelo dos Pastores, o Bom Pastor Jesus Cristo que é, a um
tempo, luz e amor: "Seguindo a verdade com amor" (Ef 4,15).
15. No início da caminhada que leva à indigência espiritual e
moral dos tempos presentes, estão os esforços nefastos de não poucos
para destronar Cristo, o desapego da lei da verdade, que ele
anunciou, da lei do amor, que é o sopro vital do seu reino. O
reconhecimento dos direitos reais de Cristo e a volta de cada um e da
sociedade à lei da sua verdade e de seu amor são o único caminho de
salvação.
16. Enquanto escrevemos estas linhas, veneráveis irmãos,
chega-nos a apavorante notícia que se desencadeara o terrível tufão
da guerra, não obstante todos os nossos esforços para
esconjurá-lo. A nossa caneta como que hesita em prosseguir, quando
imaginamos o abismo de sofrimentos de inúmeras pessoas, às quais
sorria ainda ontem, no ambiente doméstico, um raio de modesto
bem-estar. O nosso coração enche-se de angústia, ao prevermos
tudo o que poderá medrar da tenebrosa semente da violência e do
ódio, depositada hoje nesses sulcos sangüinosos que a espada acaba de
abrir: Mas, mesmo diante destas apocalípticas previsões de
desventuras iminentes e futuras, achamos que é nosso dever sugerir
àqueles em cujos corações se aninha ainda um sentimento de boa
vontade, que elevem os olhos ao único do qual deriva a salvação do
mundo, ao único; cuja mão onipotente e misericordiosa pode fazer
cessar esta tempestade, ao único, cuja verdade e cujo amor podem
iluminar as inteligências e inflamar os corações de tão grande parte
da humanidade imersa no erro, no egoísmo, nos contrastes e na luta,
e reorganizá-la no espírito da realeza de Cristo.
17. Talvez nos sej a lícito esperar - e Deus o permita - que
esta hora de máxima indigência seja também uma hora de retificação
do pensar e sentir de muitos que até agora palmilhavam, com cega
confiança, o caminho semeado de erros modernos, sem suspeitarem quão
insidioso e falso era o terreno que pisavam. Muitos talvez, que não
compreendiam a importância da missão da Igreja, perceberão melhor
agora os seus avisos, por eles descurados na falsa segurança de tempos
passados. As angústias do presente são uma apologia do
cristianismo, e não poderia ser mais impressionante. Do gigantesco
vórtice de erros e movimentos anticristãos originaram-se frutos tão
amargos que constituem uma condenação, cuja eficácia supera qualquer
confutação teórica.
18. Horas de tão penosa desilusão são muitas vezes horas de
graça, uma "passagem: do Senhor" (Ex 12, 11) nas quais;
à palavra do Salvador: "Eis que estou à porta,e bato" (Ap
3;20) abrem-se as portas que, de outra maneira, se conservariam
fechadas. Bem sabe Deus com que amor comipassivo, com que santa
alegria o nosso coração se volta para aqueles que, em meio de tão
dolorosas experiências, sentem nascer em si o imperioso e salutar
desejo da verdade, da justiça e da paz de Cristo. Mas também por
aqueles que aguardam ainda a luz superna que os ilumine, o nosso
coração não conhece senão amor, e de nossos lábios não se
desprendem senão preces ao Pai das luzes pedindo-lhe que faça
resplandecer em suas almas, indiferentes ou inimigas de Cristo, um
raio daquela luz que transformou um dia Saulo em Paulo, daquela luz
que demonstrou sempre a sua força misteriosa mesmo nos tempos mais
difíceis para a Igreja.
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