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22. Narra o santo evangelho que, ao crucificarem Jesus,
"escureceu-se toda a terra" (Mt 27,45); pavoroso símbolo do
que acontece e continua a acontecer espiritualmente onde a
incredulidade, cega e orgulhosa de si mesma, exclui Cristo da vida
moderna, especialmente da vida pública, e abalando a fé em Cristo
abala também a fé em Deus. E por conseguinte, os valores morais,
pelos quais em outros tempos se julgavam as ações privadas e
públicas, acaram como que em desuso. A tão decantada laicização
da sociedade, que tem feito progressos cada vez mais rápidos,
subtraindo o homem, a família e o Estado ao benéfico e regenerador
influxo da idéia de Deus e do ensino da Igreja, fez ressurgir, em
regiões onde por espaço de tantos séculos brilharam os fulgores da
civilização cristã, indícios, cada vez mais claros, mais
distintos e angustiosos de um paganismo corrompido e corruptor:
"Quando crucificaram Jesus obscureceu-se toda a terra".[3]
23. Muitos talvez, ao se afastarem da doutrina de Cristo, não
tiveram plena consciência de serem enganados pela falsa miragem de
frases brilhantes que proclamavam tal afastamento como um libertar-se
da escravidão a que julgavam estar antes sujeitos; nem previam as
amargas conseqüências da triste permuta entre a verdade, que
liberta, e o erro que escraviza; nem pensavam que, renunciando à
infinitamente sábia e paternal lei de Deus e à unificadora e nobre
doutrina de amor de Cristo, se entregavam ao arbítrio de uma pobre e
mutável sabedoria humana. Falavam de progresso quando retrocediam;
de elevação, quando se degradavam; de ascensão ao amadurecimento,
quando caíam na escravidão; não percebiam a vaidade de todo o
esforço humano em substituir a lei de Cristo por alguma outra coisa
que a igualasse: "tornaram-se fátuos nos seus arrazoados" (Rm
1,21).
24. Enfraquecida a fé em Deus e em Jesus Cristo, ofuscada nos
ânimos a luz dos princípios morais, fica a descoberto o único e
insubstituível alicerce daquela estabilidade e tranqüilidade, daquela
ordem externa, e interna, privada e pública, única que pode gerar e
salvaguardar a prosperidade dos Estados.
25. É verdade também que nos tempos em que a Europa se irmanara
com ideais idênticos recebidos da pregação cristã, não faltaram
dissídios, desordens e guerras que a desolaram; mas talvez nunca se
tenha experimentado tão agudamente o desalento dos nossos dias sobre a
possibilidade de conciliação; viva era então a consciência do justo
e do injusto, do lícito e do ilícito, que facilita os
entendimentos, enquanto freis o desencadear das paixões e deixa aberta
a via a um honesto acordo. Nos nossos dias, ao contrário, os
dissídios provêm não somente do ímpeto de paixões rebeldes, mas de
uma profunda crise espiritual que subverte os sãos princípios da moral
privada e pública.
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