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26. Entre os multíplices erros derivados da fonte envenenada do
agnosticismo religioso e moral, queremos chamar a vossa atenção,
veneráveis irmãos, para dois de modo especial, que são, a bem
dizer, os que tornam quase impossível, ou ao menos precária e
incerta, a convivência pacífica dos povos.
27. O primeiro desses erros perniciosos, hoje largamente
difundidos, é o esquecimento daquela lei de caridade e solidariedade
humana, sugerida e imposta, quer pela identidade de origem, e pela
igualdade da natureza racional em todos os homens, sem distinção de
povos, quer pelo sacrifício da redenção oferecido por Jesus Cristo
sobre a cruz ao Pai celeste em favor da humanidade pecadora.
28. De fato, logo na primeira página, narra-nos a Escritura com
grandiosa simplicidade que Deus, para coroar a sua obra criadora, fez
o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1,26-27); e diz-nos
a mesma Escritura que o enriqueceu de dons e privilégios
sobrenaturais, destinando-o a uma eterna e inefável felicidade.
Mostra-nos, além disso, como do primeiro casal tiveram origem os
outros homens, dando-nos a seguir, com insuperável plasticidade de
linguagem, a divisão em vários grupos e a sua dispersão pelas
diversas partes do mundo. Mesmo quando se afastaram do seu Criador,
Deus continuou a considerá-los como filhos que, segundo o seu
misericordioso desígnio, deveriam um dia gozar ainda da sua amizade
(Gn 12,3).
29. O Apóstolo das gentes faz-se depois arauto desta verdade,
que irmana os homens numa grande família, quando anuncia ao povo grego
que Deus "tirara de um único tronco toda a progênie dos homens,
para que povoassem toda a superfície da terra, e determinara o curso
da sua existência e os limites das suas habitações, a fim de que
procurassem o Senhor" (At 17,26). Maravilhosa visão que nos
faz contemplar o gênero humano na unidade de uma origem comum em
Deus: um só "Deus e Pai de todos, aquele que está acima de
todos, por todos e em todos" (Ef 4,6): na igualdade de
natureza, igualmente constituída em todos de corpo material e alma
espiritual e imortal; na unidade do fim imediato e da sua missão no
mundo; na unidade de habitação, a terra, de cujos bens, por
direito natural, todos os homens podem valer-se a fim de sustentar e
desenvolver a vida; na unidade do fim sobrenatural, o próprio Deus,
a que todos devem tender; na unidade dos meios para conseguir tal fim.
30. E o mesmo Apóstolo mostra-nos a humanidade na unidade de
relações com o Filho de Deus, imagem do Deus invisível, no qual
foi criado tudo o que existe; na unidade do resgate de todos operado
por Cristo que, fazendo-se mediador entre Deus e os homens,
mediante sua santa e acerbíssima paixão restituíra à humanidade a
primitiva amizade de Deus: "Pois há um só Deus e um só mediador
entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus" (1Tm 2,5).
31. E para tornar mais íntima tal amizade entre Deus e a
humanidade, este mesmo mediador divino e universal de salvação e de
paz, no sagrado silêncio do Cenáculo, antes de consumar o
sacrifício supremo, deixou cair de seus lábios divinos a palavra que
vem sendo repetida no correr dos séculos, suscitando ao mesmo tempo
heroísmos de caridade em meio de um mundo vazio de amor e dilacerado
pelo ódio: "Eis o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como
eu vos amei" (Jo 15,12).
32. Verdades sobrenaturais estas, que estabelecem bases profundas e
solidíssimos vínculos de união, reforçados pelo amor de Deus e do
divino Redentor, do qual recebem todos a saúde "pela edificação do
corpo de Cristo, até que cheguemos todos a unidade da fé, ao pleno
conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito, segundo
a medida da plenitude de Cristo" (Ef 4,12-13).
33. À luz desta unidade de direito e de fato de toda a humanidade,
os indivíduos não nos aparecem desligados entre si, como grãos de
areia; mas sim unidos por relações, diversas com o variar dos
tempos, mas orgânicas, harmoniosas e mútuas, por natural e
sobrenatural destino e impulso. E os povos, evoluindo e
diferenciando-se segundo as diversas condições de vida e de cultura,
não são destinados a quebrar a unidade do gênero humano, mas sim a
enriquecê-lo e aformoseá-lo, com a comunicação dos seus dotes
peculiares e com aquela recíproca permuta dos bens, possível e ao
mesmo tempo eficaz somente quando um mútuo amor e uma caridade
vivamente sentida venha unir todos os filhos do mesmo Pai e todos os
redimidos pelo mesmo sangue divino.
34. A Igreja de Cristo, fidelíssima depositária de uma
sabedoria divina e educativa, não pode cogitar nem cogita em criticar
ou menosprezar as características especiais que cada povo guarda, com
ciosa devoção e compreensível ufania, e considera como patrimônio
precioso. O seu escopo é a unidade sobrenatural no amor universal,
sentido e praticado, e não a uniformidade, exclusivamente exterior,
superficial, e por isso mesmo debilitante. A Igreja saúda jubilosa
e acompanha com seus votos maternais todas as diretrizes e solicitudes
que visem a criterioso e ordenado desenvolvimento de forças e
tendências particulares e têm suas raízes nos mais recônditos
escaninhos de cada estirpe, contanto que não contrastem com os deveres
da humanidade derivados da unidade de origem e comum destino. Na sua
atividade missionária, a Igreja vem afirmando repetidamente que tal
norma é a estrela polar do seu apostolado universal. Inúmeras
pesquisas e investigações de pioneiros, realizadas com sacrifício,
amor e dedicação pelos missionários de todos os tempos,
propunham-se facilitar a compreensão interior e o respeito das
diversas formas de civilização, e tornar fecundos os valores
espirituais por meio da pregação viva e vital do evangelho de
Cristo. Tudo o que em tais usos e costumes não seja
indissoluvelmente ligado a erros religiosos, será sempre benevolamente
examinado, e quando possível, promovido e tutelado. E o nosso
imediato predecessor, de santa e veneranda memória, ao aplicar tais
normas a uma questão de singular delicadeza, tomou decisões generosas
que elevaram um monumento à vastidão do seu intuito e ao ardor do seu
espírito apostólico. É escusado dizer-vos, veneráveis irmãos,
que entendemos prosseguir por esta via sem a menor hesitação. Todos
aqueles que passam a fazer parte da Igreja, qualquer seja a sua origem
ou língua, devem saber que têm igual direito de filhos na casa do
Senhor, onde impera a lei e a paz de Cristo. De acordo com estas
normas de igualdade, a Igreja consagra as suas solicitudes à
formação de numeroso clero indígena e ao aumento gradual do
episcopado indígena. E para dar uma prova destas nossas intenções,
escolhemos a iminente festa de Cristo-Rei para elevar à dignidade
episcopal sobre o túmulo do príncipe dos apóstolos, doze
representantes de diversos povos e estirpes.
35. Entre os dilacerantes contrastes que dividem a família humana,
possa este ato solene proclamar a todos os nossos filhos, esparsos pelo
mundo, que o espírito, o ensino e a obra da Igreja nunca poderão
ser diversos daquilo que pregava o Apóstolo das gentes: "E vos
revestistes do homem novo, que se renova para o conhecimento segundo a
imagem do seu Criador. Aí não há mais grego e judeu, circunciso e
incircunciso, bárbaro; cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo e
em todos" (Cl 3, 10-11).
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