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Íamos, apesar de tudo, encetar a retirada. Sabia o inimigo que os
movimentos de nossa coluna, fosse qual fosse o sentido tomado, tinham
motivos a que era alheia a sua superioridade militar sobre nós. O
combate que nos entregara o seu acampamento abatera-lhe a presunção,
elevando ao mesmo tempo a confiança de nossa gente, em si própria,
à altura das provações que o futuro nos reservava, assim como das
que já experimentáramos.
Era indispensável a vantagem obtida sobre os paraguaios para que a
realidade de nossa situação se fizesse, sem murmuração, aceita dos
nossos soldados, distraindo-os da imprevidência causadora de tão
premente momento. Fácil sem dúvida achar pretextos para a falta de
víveres, tendo as informações dos refugiados podido iludir-nos
acerca dos recursos da região, mas a insuficiência de munições,
logo em começo de campanha, não podia deixar de constituir motivo de
injustificável censura pelo fato de que tudo de antemão devera estar
calculado pelos nossos chefes, muito embora os exaltassem o
entusiasmo, a paixão da glória e o amor da Pátria.
Quando, no dia seguinte, 8, o Sol se levantou lera um dia dos mais
serenos já estávamos em ordem de marcha com as mulas carregadas, os
bois de carro nas cangas, e tudo quanto restava de gado encostado ao
flanco dos batalhões, de modo a seguir todos os movimentos da coluna.
As sete da manhã, o corpo de caçadores desmontados, a quem competia
o turno da vanguarda, abriu a marcha, tendo a seguir bagagens e
carretas, circunstância que nos impediu de transpor facilmente um
riacho avolumado pelas chuvas dos dias antecedentes. Caindo um de
nossos canhões à água só o tiramos com grande dispêndio de tempo e
esforços. Nesta ocasião os ímpetos de sofreguidão do coronel
Camisão ameaçaram reproduzir-se. Conseguiu, contudo,
refreá-los; e desde ai janmais lhe notamos vestígios sequer da
antiga agitação; e sim, unicamente, uma solicitude sempre devotada
à salvação comum.
Avançávamos em boa ordem quando subitamente viva fuzilaria se fez
ouvir: era a nossa vanguarda que renteando um capão de mato fora
atacada por uma partida de infantaria, ali emboscada. Tinham algumas
balas vindo cair por cima das fileiras num grupo de mulheres que
marchavam tranqüilamente ao lado dos soldados; tal algazarra
provocaram que não sabíamos o que poderia ter sucedido. Pouco durou
este terrível tumulto; investindo resolutamente com o inimigo, nossa
gente o desalojou impelindo-o até o primeiro declive do planalto,
onde estava a fazenda da Laguna. Mas ali formaram-se os paraguaios
novamente, resistindo algum tempo, achegando-se logo depois, passo a
passo, dos cavalos; afinal, enquanto alguns, já montados,
disparavam, a todo dar de rédeas, outros fingiam resistir para
proteger os camaradas que fugiam a bom fugir, inteiramente derrotados.
Continuando a simular esta desordem aparente, pela qual procuravam
separar-nos uns dos outros, o mais que pudessem, vimo-los, pouco a
pouco, estacar com mais freqüência, sempre mais numerosos, à
medida que os reforços lhes chegavam. Ao mesmo tempo o nosso corpo de
caçadores, contra eles lançado, cada vez mais se isolava do resto da
coluna. Redobrou, então, de intensidade a fuzilaria.
O capitão Pedro José Rufino, que à testa dos caçadores
atravessara o ribeirão, depois da bagagem, e se encontrava mais perto
da vanguarda, embora ainda bastante longe, percebeu logo o estado de
coisas. Depois de expedir um oficial para pedir socorros, deu voz de
avançar; e ele próprio atirou-se, sem atentar a quem o
acompanhava, ao ponto do mais renhido entrevero. Chegou no momento em
que os paraguaios, após todas as suas evoluções de cavalaria,
simulando a fuga para depois ganharem terreno, subitamente voltaram,
carregando furiosamente. A principio surpresos, e algum tanto
perturbados, mas logo confiantes à voz de Rufino, formaram os nossos
quadrado em torno dos oficiais, segundo a ordem recebida; e destes
grupos, fora dos quais só havia morrer miseravelmente, sob o sabre e
a lança, despejaram-se descargas acompanhadas de aclamações
estrepitosas.
Enfim, cerrando fileiras, retomaram os caçadores movimento para a
frente no meio deste turbilhão de homens e cavalos, para se encostar
aos capões de mato aqui e acolá, se viam pelo campo. Encarniçada
onde, de ambos os lados, muitos mortos e feridos.
O imediato do corpo de caçadores, Antônio da Cunha deveu a vida à
dedicação de um dos seus soldados. Deu-se em outro ponto um
episódio freqüentemente relatado mais tarde. Parecia o capitão
Costa Pereira o alvo dileto dos assaltos de possante cavalariano;
quis com isto e, abrindo espaço, lançou-se fora do movido de tal
ímpeto que o adversário, intimidado, deu de rédeas a fugir, com
grande aplauso dos nossos.
Neste ínterim chegara, a toque-toque, o reforço pedido por José
Rufino; e isto precisamente quando lhe iam os cartuchos acabar.
Trazia um canhão a primeira companhia que entrou em linha; e uma de
suas granadas foi arrebentar no ponto em que mais se adensavam os
assaltantes. Esta arma, introduzida inesperadamente na ação,
produziu o costumeiro efeito. Espalhou imediatamente a desordem na
tropa já abalada pela aparição do socorro; e toda a cavalaria
paraguaia desapareceu, deixando um segundo acampamento em nosso poder.
Custou-nos isto quatorze mortos e muitos feridos.
Entre estes últimos não podemos esquecer um jovem soldado, Laurindo
José Ferreira, que, cercado por quatro inimigos e apenas tendo o
fuzil para se defender, todo golpeado de sabraços, com a mão
esquerda atingida, braço direito profundamente retalhado em diversos
lugares e o ombro quase arrancado por um lançaço, assim mesmo se não
rendeu. Só muito mais tarde veio a restabelecer-se de tantas
feridas; a firmeza na ambulância em nada lhe desmentira a bravura ante
o inimigo.
Fora o pessoal do nosso serviço médico muito perseguido pelas febres
palustres de Miranda. Haviam-nos deixado vários de seus membros;
além de tudo as nossas caixas de cirurgia e de farmácia tinham-se
todas perdido ou deteriorado, devido aos acidentes da viagem.
Puderam, contudo, os nossos feridos receber ainda todos os socorros
de que precisavam, graças aos esforços da engenhosa humanidade de que
foram alvos. Superintendera o comandante, sempre, este serviço, e
tivéramos a felicidade de conservar dois hábeis clínicos, os
doutores Quintana e Gesteira. Pertencia este último ao corpo
empenhado no embate de 6, e, sob as balas, dera provas de
dedicação e sangue-frio, como verdadeiro discípulo do grande
Larrey.
Os cadáveres paraguaios não arrastados pelo laço dos compatriotas
foram, todos, achados mutilados e de modo hediondo. A propósito de
tais profanações fez o Coronel violentas exprobrações aos índios,
acenando-lhes até com a pena capital, se acaso, dai em diante,
desrespeitassem os mortos. Tais a sua indignação e o pavor aos
selvagens incutido, que até o fim da campanha, ficamos livres de
semelhante espetáculo, e isto quando já o nosso chefe deixara de
existir.
Juntando o exemplo às palavras fez o coronel Camisâo inumar, sem
exceção, todos os corpos achados no campo de batalha, com o zelo da
escrupulosa piedade que tanto era da sua índole. Duas horas se
consagraram à triste contingência de entregar os nossos infelizes
patrícios à terra inimiga. Que tristeza vê-los assim desaparecer;
e que choque não deveria ter sentido um de nossos oficiais ao fazer
questão de sepultar, ele próprio, o irmão mais moço, Bueno,
voluntário paulista!
Cumprido este dever, recomeçamos a marcha, desta vez seguindo a
ordem recentemente adotada.
Dera-se uma peça ao corpo de caçadores, que ainda formava a
vanguarda; o 17.° batalhão, dos voluntários de Minas, que
também tinha um canhão, compunha a retaguarda. No centro, o
20.° batalhão e o 21.o, cada qual com a sua boca de fogo,
escoltavam, à direita e à esquerda, a bagagem flanqueada de duas
filas de carretas puxadas por bois. O conjunto desta massa movediça
parecia um grande quadrado que, em cada face, tinha um menor diante de
si; judiciosa formatura para nos proteger das cargas de cavalaria;
porquanto podiam as quatro frentes ser varridas pelo fogo cruzado de
nossa infantaria. Enfim, para maior segurança, linhas de atiradores
circulavam em torno do corpo do exército. Desde este primeiro dia
verificou-se quão vantajosa era tal disposição porquanto estava a
cavalaria inimiga, por toda a parte, em torno de nós: à frente,
sobre os flancos; atrás, ora longe, ora quase a nos tocar. Nossos
soldados, marchando sempre, afastavam-na por meio de descargas,
freqüentes, e tanto mais proficuas quanto ao resultado quanto mais se
aproximavam os paraguaios. Algumas de suas balas também atravessavam
as nossas fileiras, mas sem grande dano pela incerteza do tiro
disparado a galope. Entretanto, acabaram as balas de artilharia por
visitar-nos.
Atravessávamos, então, o terreno lamacento, fundo, de planície
cortada de estreitas esplanadas, paralelos umas às outras, e uma
peça paraguaia de 3, sucessivamente assestada nestes pontos, abriu
fogo contra nós; mas, ou porque a sorte neste particular ao menos nos
favorecesse, ou graças à inexperiência dos artilheiros inimigos,
iam-lhe os projetis enterrar-se na lama que nos rodeava; ou,
então, os menos inofensivos caiam no meio do nosso gado com mais
estrépito do que prejuízo.
Os nossos soldados, cuja primeira impressão fora bastante viva, não
tardaram a rir do que viam e até as próprias mulheres acharam nisto
assunto de mofa comparando estas balas, que faziam repuxar a água,
aos limões-de-cheiro do velho carnaval brasileiro. Demais tinhamos
boa réplica á "palavra do bronze"; da linguagem imaginosa do velho
Lopes.
Ainda neste dia não desmentiu a nossa artilharia sua superioridade.
As nossas peças raiadas de calibre 4, La Hitte, bem assentes,
perfeitamente sólidas, eram manobradas, com a maior regularidade,
por suas guarnições que, desde o Taboco, com elas se exercitavam.
Havia entre elas bons artilheiros. É preciso acrescentar os nossos
oficiais da arma de artilharia, tão hábeis quanto bravos, todos
dignos êmulos uns dos outros, cada qual se esforçava por melhor
manobrá-las: João Tomás Cantuária, Marques da Cruz,
Napoleão Freire e Nobre Gusmão. Tal porfia sobremodo interessava
aos soldados, incutindo-lhes ardor novo cada tiro que bufam ao seu
artilheiro predileto. Assim caminhamos dia todo num caos de fumaça e
poeira, com grande trépito, e no meio das aclamações dos nossos,
de agudos e ferozes do inimigo, mugidos do gado, da pólvora,
desordem dos homens e das coisas.
Declinava o Sol quando percebemos distintamente morro da Margarida,
o mesmo que já de outro ponto observáramos do forte de Bela Vista,
marco de reconhecimento que desta vez nos brilhou aos olhos com um raio
de esperança. Fizéramos duas e meia léguas sob o fogo continuo e
cansativo, muito embora pouco mortífero.
A mata da margem do Apa-Mi nós a escolhêramos para o pouso daquela
noite. Íamos atingi-la quando verificamos que a bateria montada dos
paraguaios desde muito se adiantara pela esquerda, achando-se agora
postada em frente à nossa vanguarda. Varriam suas balas a margem onde
íamos ficar encurralados, pois havia pouco fora destruida a ponte ali
existente. Era tempo que os nossos canhões, penosamente arrastados
até o alto da eminência aposta à que o inimigo ocupava, começassem
a fazer-se ouvir. Não tardaram a obrigar que os paraguaios, cuja
peça de 3 foi até desmontada, calassem o fogo.
Este combate, que pôs termo ás refregas do dia, não durou menos de
uma hora. Não foram consideráveis as nossas perdas, um morto apenas
e alguns feridos. Podíamos, pois, considerar como vantagem as
provas que de sua firmeza, a proteger a bateria, nos dera o 20.°
batalhão. Pareceu-nos o fogo paraguaio melhor dirigido do que até
então, mas nossa gente não arredou pé. Eram, entretanto, simples
recrutas valetudinários, saidos de Goiás, verdade é que comandados
por valente oficial, o capitão Ferreira de Paiva. Ficamos sabendo
o que podiamos esperar da coragem e da abnegação de todos para o resto
da retirada. Neste ínterim, os membros da comissão de engenheiros
estabeleciam a ponte. Trabalharam rapidamente, sob as vistas do
comandante. Cumprimentou-os pelo serviço e foi o primeiro a passar.
Todo o resto da coluna o acompanhou sem maior detença e veio acampar
à margem direita do Apa-Mi. Mas já patrulhas de cavalaria
paraguaia, que haviam atravessado o rio, a jusante de nós, estavam a
observar-nos.
Caira noite, profundamente escura. Estávamos estrompados de
cansaço, a vista escura e o espírito abalado por tantas e tão
variadas impressões cujas imagens acabavam por se confundir. Não
houve quem armasse tenda ou barraca. Dormimos em grupos, formados
quase ao acaso, de três, quatro ou mais, conchegados uns aos
outros, cobertos em comum por capotes, ponchos, mantas, com quanto
encontráramos; cada qual com o fuzil, o revólver ou a espada ao
alcance da mão e o chapéu desabado sobre os olhos, para se resguardar
do orvalho, tão copioso que tudo encharcava.
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