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Triste e pensativo, como antes do incêndio o víramos, marchava o
nosso guia à frente da coluna. Por vezes avançava demais, sem
prestar atenção ao perigo que podia correr, pois as volutas de vapor
e cinzas que no campo, se levantavam, caprichosamente e não raro nos
envolviam, nos impediam de ver cavaleiros paraguaios fazendo menção
de se aproximar. Também impressionado com a atitude inquieta de
Lopes, perguntou-lhe de chofre o Coronel se acaso seguíamos o
caminho direito, e se corriam as coisas como ele desejava. Só obteve
evasiva resposta, muito no caso de nos capacitar que ele, o guia,
perdera a firmeza, embora hesitasse em confessá-lo. Os que por
largo tempo comparticiparam da vida sertaneja têm um amor-próprio
muito maior que os demais homens. Provém-lhes este sentimento do
convívio com os selvagens, entre os quais, como se sabe, se revela
veemente pela inabalável firmeza com que suportam os mais cruéis
tormentos, infligidos pelo inimigo vencedor. Cerca de duas léguas
ainda, andamos assim, embora estrompados. Viera,
confidencialmente, dizer-nos o filho de Lopes que, a seu ver,
tínhamos de reconhecer volumoso caudal, chamado o rio das Cruzes.
Observaram-lhe que tais palavras davam como a entender que ao acaso
caminhávamos. Respondeu imediatamente que de fato não sabia pare
onde íamos; sobrava-lhe a consciência do erro cometido; não
ousava, contudo, abrir-se com o pai. Fora significar-lhe que não
mais sabia orientar-se em campo raso; e o respeito ao pai votado, ao
chefe da família, àquele que tantas vezes o guiara nas jornadas
através das solidões, obrigava-o ao silêncio. Este traço da vida
primitiva não poderíamos deixá-lo esquecido; fez-nos correr grande
perigo.
Quando o velho percebeu que duvidávamos de seus conhecimentos do
terreno, sobreveio-lhe grande desgosto, que não pôde ocultar.
"Não fora a perturbação deste atraso, murmurava, a própria
estrada por si nos guiaria; quando alguém, pelo campo, procura
caminho nunca deve parar".
Não consentiu que seguíssemos as indicações do filho; fora a seu
ver, uma infração às leis naturais e ao direito patriarcal.
Impediu-nos a noite, felizmente a cair, prosseguirmos em rumo
evidentemente incerto.
Apenas acampados, aliás, vimos que para nós o dia não acabara;
grande provação ainda nos esperava. Os compridos alagadiços que,
como dissemos, cortam esta campina haviam deixado a macega parcialmente
a arder. Consideráveis áreas ainda havia intatas, principalmente em
torno do ponto que atingíramos. O fogo que acabava de lhe ser ateado
já nos cegava e vinha-nos ao encontro, desta vez, porém, precedido
dos próprios paraguaios. Julgavam que um ataque cerrado obstaria à
manobra pela qual até então nos tínhamos defendido do incêndio.
Desfilou sua infantaria ao longo de um brejo, em que se apoiava o
nosso 21.° batalhão. Tendo pelas costas a fumaça, que nos
açoitava em cheio o rosto, graças ao vento que reinava,
lançaram-se sobre o flanco de nossa vanguarda. Se esta no primeiro
embate houvesse fraqueado e cedido, teríamos, provavelmente, sido
todos devorados pelas chamas. Mas longe de recuar, graças a
desesperado esforço, atirou com o inimigo, parte nos pantanos e parte
sobre o seu terrível auxiliar, o fogo, que rapidamente se
aproximava. Devem suas perdas ter sido grandes; pelo menos pôde o
capitão Pisaflores perceber pelas abertas do vento, nesse casos de
vapores e chamas, cavaleiros a correr arrastando cadáveres e feridos.
Quanto à nossa vanguarda fez ela um movimento de recuo, depois de nos
ter dado, graças a sua dedicação, tempo de cortar a macega e
transportá-la para longe. E então, já no meio de nós outros,
estes homens estafados, a quem poderíamos chamar nossos salvadores,
caindo de cansaço e sofrimentos, com os rostos queimados, as goelas
secas, ardentes, deixaram-se ficar largo tempo estirados no chão sem
voz nem movimentos. Três dentre eles nem se ergueram mais; e muitos
outros para sempre ficaram enfermos e valetudinários.
Tendo-se formado de novo, após o incêndio, acamparam os paraguaios
numa colina, de onde nos dominavam; o repouso de que tanto carecíamos
não nos seria possível antes que deles nos desvencilhássemos.
Obrigou-os a nossa artilharia a ir procurar abrigo na vertente
oposta.
Caíra a noite. Havia um luar estupendo, cuja calma contrastava com
os clarões sinistros de alguns finais de incêndio, que ainda vagavam
pelo campo. Quando os nossos clarins deram afinal o toque de
descansar, ao longe responderam os dos paraguaios como um eco de
escárnio. Tudo parecia insultar-nos as misérias: reinava entre
nós a fome, com todas as suas torturas e o seu triste prelúdio, esse
desfalecimento que aniquila a coragem e a vontade. De tudo
carecíamos, oficiais e soldados. Vivíamos andrajosos, mas a
privação do calçado era em geral muito menos sensível a estes do que
aqueles, cujos pés estavam intumescidos e ensangüentados. Nesta
noite enregelou-nos o vento Norte, e ao mesmo tempo nos achamos
expostos a um desses orvalhos, que já nos haviam feito sofrer tanto e
isto quando ainda nos podíamos precaver com algumas roupas de
agasalho.
Como de costume, estávamos todos de pé, pela alvorada; mas como
nosso guia continuasse a mostrar-se irresoluto, a cada passo chamava o
filho a confabularem. Parecia até querer abandonar o rumo de leste,
insinuando que só o seguira até agora para contornar um alagadiço.
Afinal de repente, tomou a direção do nordeste. Pelo que pudemos
conjeturar, ficaram os paraguaios desnorteados com esta súbita
inflexão. A galope subiram alguns a colina onde devia estar o seu
comandante.
Não durou muito, aliás, que percebêssemos haver tornado ao caminho
verdadeiro. Daí a um quarto de légua atingimos a margem esquerda de
volumoso caudal que não era outro senão o rio das Cruzes. Já na
véspera o teríamos alcançado não fora a excessiva deferência do
filho e o orgulho do pai. Tivemos que parar, pois embora desse vau,
eram-lhe as barrancas demais escarpadas para que as carretas pudessem
parar sem prévio trabalho que nos devia tomar tempo. Os corpos da
vanguarda e do centro saíram, pois, de forma; e deixando a
retaguarda em linha, começaram a rampar as ribanceiras. Com muito
vigor desempenhou o batalhão de voluntários tão importante trabalho
(urgidos como estávamos pelo inimigo); e um dos seus oficiais,
José Maria Borges, muito estimado dos soldados pelo gênio alegre,
raros mais críticos momentos, bem mereceu de toda a coluna nesta
ocasião. Muito grato nos é testemunhá-lo.
Foi, graças a ele e à sua gente, que pelas duas da tarde,
tornou-se a passagem praticável. Ali estiveram em sério perigo,
sob as vistas dos paraguaios, que, durante esta parada forçada,
teriam com real vantagem podido atacar-nos.
Felizmente, e contra qualquer expectativa mantiveram-se imóveis em
ordem de marcha, prontos a nos seguir, enquanto procuravam alguns
dentre eles um vau a montante e outro a jusante para, quando nos
aproximássemos, incendiarem o campo. São habilíssimos, tanto o
sabíamos, neste gênero de manobras que entre eles chega a constituir
uma arte, com regras baseadas nos conhecimentos dos ventos e lugares,
arte, aliás, diabólica, quando empregada como arma de guerra.
Nós os provocávamos contudo, e, de tempos a tempos, iam os nossos
obuses cair no meio deles. Era difícil compreender por que se haviam
desfeito da artilharia com a qual poderiam responder à nossa; coisa
que apenas faziam por meio de gritos e assuadas.
Galgáramos, neste ínterim, a margem oposta do rio, e ali, apenas
chegados, precisamos tomar providências contra o incêndio que nos
precedera e vinha ao nosso encontro. Apoiava-se a nossa esquerda ao
mato que orlava o rio e onde, felizmente, as árvores eram de natureza
menos combustível que a macega. Na ala direita, que também
estacara, foi o capim cortado e acamado com terra, com mais vagar e
cuidado desta vez, com mais ordem do que até então o fizéramos.
Acercou-se o incêndio, envolvendo-nos como sempre, de horríveis
rolos de fumo; mas as labaredas já não nos ofenderam tanto como das
outras vezes. Podíamos, além de tudo, valer-nos do rio onde,
lavados em suor, cobertos de pó e cinzas, íamos beber e
refrigerar-nos. Passado o fogo, limparam as nossas peças a
planície de paraguaios, que ainda por ali se mostravam; e,
conservando sempre a mata à esquerda, conseguimos avançar um pouco
para ocupar melhor posição.
No dia seguinte, 17, esteve o tempo nebuloso e frio. Soprou o
vento com violentas rajadas. Tornou-se a marcha muito penosa,
tivemos freqüentemente de rentear a macega incendiada, o que a espaço
nos forçava a paradas para limpar o chão. Procurávamos também
alcançar uns bosques que, com trabalho, atravessamos, porque ali
encontrávamos tocos e madeiras ainda de pé, que a custo podiam os
machados entalhar. Víamo-nos ao mesmo tempo apertados pela cavalaria
paraguaia à frente, nos flancos e pela retaguarda.
Sentia o comandante a paciência esgotada. Acusava o guia,
atirando-lhe a responsabilidade de todos os atrasos; mas como todas
exprobrações fossem ouvidas em respeitoso silêncio, acabava por
acalmar-se. Vencia a bondade natural e com o tom conciliador de quem
sofre e compartilha dos infortúnios alheios. "Não nos irritemos,
dizia, estamos a pagar os nossos erros".
Todo este dia andamos sempre à matroca. Com o conhecimento do
terreno perdera Lopes todo o espírito de iniciativa. Deixava-lhe o
filho transparecer crescente inquietação, sem proferir, contudo, um
único comentário. Tornou-se tamanha a fadiga dos bois carreiros de
nossa artilharia, que se negaram a ir além, deitando-se no chão.
Fizemos alto pois, forçadamente, no meio de pequeno capão, onde
apenas encontramos água insuficiente e má.
Não deixou o inimigo de vir à noite acampar a pequena distancia de
nós; e o 21.° batalhão, que ainda constituía a nossa
vanguarda, teve, desde então, de abrir tiroteio. Durante a noite
toda ladrou a canzoada dos paraguaios, que sempre andavam acompanhados
de matilhas. Mal lhes responderam os nossos cães, míseros restos de
uma malta a custo disputada à fome dos soldados.
A 18, desde a madrugada, começou copiosa chuva que não tardou em
ensopar o nosso pobre fato e nos predispôs mais tristemente para uma
marcha ainda mais lenta que a dos dias precedentes. Nem sempre caía
chuva com a mesma força, mas havia de vez em quando aguaceiros que
não tardavam em encharcar o solo, de modo tal que a cada passo ficavam
as carretas presas e retidas nos caldeirões que abriam. Que
espetáculo confrangedor o do grupo de nossos míseros enfermos, a
quem, sob desabaladas batesse no meio dos regatos que elas formavam,
tínhamos de deixar no chão!
Precisamos logo atravessar um alagadiço muito extenso; e, durante
esta longa travessia, não cessaram os paraguaios, que já haviam
ocupado todas as alturas dominantes, de atirar, embora sem nos causar
grande dano. As suas descargas de pelotão não tinham maior êxito
que os estrepitosos hurras com que as acompanhavam. Por vezes
chegaram-nos os dichotes com que nos insultavam a miseria. "Venham
tomar-nos o gado e fartem-se!" Algumas balas bem apontadas por
homens ávidos de vingança castigaram tais ironias.
Quase diariamente sucedia que o sol, fraco de manhã, após as noites
glaciais, tornava-se depois escaldante. Variação perene que
acabava arruinando-nos a saúde. Neste mesmo dia, acastelando-se a
oeste espessas nuvens, daí proveio cedo novo dilúvio, que
transformou em furiosa torrente um ribeirão já por si volumoso, que
Lopes não nos assinalara; e nos forçara a uma terceira parada, tão
cruel quanto as precedentes. Morríamos de frio; estávamos a
jejuar, e só com muito trabalho, à meia-noite pudemos ter fogo, à
custa de empilhar muita lenha verde que ardia quase sem labaredas.
Nauseante espetáculo revelou-nos, nesse lugar, quanto entre os
nossos soldados era a fome tremenda. Ia matar-se um boi estafado,
quase agonizante. Formara-se um círculo em torno do animal, cada
qual mais ansioso esperando o jacto do sangue, uns para o receberem num
vaso e o levarem, outros para o beberem ali mesmo. Chegado o
momento, atiraram-se todos a ele, os mais afastados e os mais
próximos. E assim era diariamente. Mal tinha o magarefe tempo de
cortar a rês; era quase necessário arrancar às mãos dos soldados os
nacos a fim de os levar ao local da distribuição. Os resíduos, as
vísceras, até o couro, tudo se despedaçava ali mesmo e era logo
devorado mal assado ou cozido; repulsivo pasto de que não podia deixar
de originar-se alguma epidemia.
Na manhã de 19 lançou o major Borges, sobre o ribeirão,
convertido em rio estreito, mas profundo, improvisada ponte que,
experimentada, não apresentou solidez bastante, obra que fora de
operários mais debilitados pela fome do que com efeito desprovidos de
ferramenta. Julgamos necessário reforçá-la com um tronco enorme de
aroeira, encontrado pelas vizinhanças. Foi só então que a
artilharia pôde sem acidente atravessar. Uma carreta única a
seguia: queimávamos as demais para entreter as fogueiras que nos
preservaram de completo tolhimento; e esta mesmo só fora poupada
porque podia prestar-se para o transporte dos feridos de uma para outra
margem.
Estava inundada a ribanceira que atingíramos e ainda várias vezes se
ensoparam os desventurados inválidos levantados a braço antes de
acomodados em padiolas ou cangalhas. Eram as mulheres que nos
acompanhavam setenta e uma, contadas à entrada da ponte. Iam todas a
pé, exceto duas, montadas em bestas; carregavam quase todas
crianças de peito ou pouco mais velhas. Por heroína passava uma e
todas a apontavam. Havendo-se encarniçado um paraguaio em lhe
arrancar o filho, tomara ela de um salto uma espada largada no chão,
e num ápice matara o assaltante. Mais infeliz vira outra o filhinho
recém-nascido espostejado por um inimigo, que pelas pernas lho
arrancara do colo. Traziam todas no rosto, aliás, os estigmas do
sofrimento e da extrema miséria. Ainda vinham algumas carregadas de
objetos provenientes do saque; mantas, ponchos, pesadas eapadas
paraguaias, baionetas e revólveres.
Caíra a noite; quando muito conseguíramos estabelecer-nos em frente
ao nosso acampamento da véspera; mas já era imenso termos atravessado
o rio.
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