|
Lopes que, desde algum tempo, víramos perturbado a ponto de duvidar
de si, acabara, enfim, descobrindo onde estava, e orientando-se.
A vista de uma eminência, a distância, dissipara-lhe subitamente o
mistério apontando-a, deu-nos a certeza de que dois dias mais tarde
chegariamos à sua fazenda. "De lá se avista, afirmou, aquele pico
que os senhores vêem". Aos mais fracos e desanimados, reanimou esta
notícia. Chegados a 21 à estancia do Jardim, poderíamos, pelo
dia 25, entrar em Nioac antes dos paraguaios e preservar a vila de
novo saque, graças a esta marcha executada em onze dies, e não em
quinze.
Assim tínhamos muito próximo de nós o termo de tantas miserias,
quando outra novidade, mais terrível que tudo, veio agravar a
situação, além de qualquer pressão por mais sinistra que fosse:
circulou de repente pelo acampamento a notícia que nele havia cólera.
Já desde algum tempo tinham os doutores Quintana e Gesteira levado o
fato ao conhecimento do Coronel pouco depois morrera, com um dia de
moléstia apenas um índio terena recebido na enfermaria de Bela
Vista.
Supusera-se, a princípio, que seria mero cave esporádico; e sobre
o fato se guardara segredo, nada se podendo fazer, tudo nos faltando
para dominar o morto em todas as parades, enormes fogueiras se
acenderam supondo os soldados que se empregava um processo saneador da
atmosfera do pantanal. No silêncio consistia, realmente, o melhor
preservativo contra a propagação da peste. Mas a 18 rasgou-se o
véu do mistério: caíram três homens atacados pela epidemia e com os
mais graves sintomas, e, desde então, os nossos dois médicos que
haviam assistido à primeira irrupção da cólera no Rio de Janeiro,
julgaram imperioso dever não mais dissimular a verdade. Fora-nos
necessário, contudo, prosseguir na marcha, subitamente salteados de
mal-estar e desmaios caíram alguns soldados; o que provocou a
perturbação e a confusão gerais em nossas fileiras. Não se
caminhava mais. Os três homens já atingidos pelo flagelo
sucumbiram. Dentro em pouco estavam a carreta que nos restava e um
carroção de munições, que se lhe sdicionara, repletos de
enfermos, cujos gemidos por toda a parte apressavam o surto da
epidemia.
Teve este dia cruel uma tarde e uma noite como era de prever. A
20, pela manhã, o tempo, a princípio chuvoso, melhorou; e logo
tornou-se o sol ardente. Ainda caminharam menos os animais e os
homens mal se arrastavam, tendo a morte sob os olhos e no coração.
Haviam os paraguaios reconstruído a ponte e passando. Já à nossa
frente estavam, apenas dissipara o calor do dia o orvalho e secara a
macega.
Puseram-lhe fogo, e com tal êxito que não fosse um mato de
pindaíbas, felizmente provido d'água, teria a coluna sido colhida
pelo incêndio, Mal teve Lopes o tempo de nos alojar neste abrigo;
deu-nos o Coronel ordem de acampar. Atacados, até aí,
defendemo-nos como quem defende o refúgio derradeiro. Afinal obrigou
o tiro de nossos canhões o inimigo a retirar-se.
Tudo em volta de nós era fumo, trevas e vapores ardentes. Caiu um
de nossos soldados asfixiado. Outro, cego, no meio de um
redemoinho, metera-se entre os paraguaios, conseguindo, contudo,
graças à escuridão, safar-se e voltar sem ser reconhecido.
Neste dia fez a cólera nove vítimas. Assinalaram-se vinte casos
novos: o chefe dos Terenas, Francisco das Chagas, chegou moribundo
numa rede que sua gente carregava . Estavam estes desgraçados índios
no auge do terror, mas não podiam mais abandonar a coluna, ocupado
como se achava todo o campo por um inimigo que, quando os apanhava,
jamais deixava de os fazer perecer nos mais horríveis suplícios.
A que causa devíamos atribuir esta irrupção da cólera ou, melhor,
a que causa não a atribuirmos? Seria talvez a came estragada que
éramos obrigados a comer, ou a fome curtida quando as náuseas venciam
o apetite, ou ainda o insuportável ardor dos incêndios que nos
escaldavam o sangue, quiçá a infecção oriunda de sodas as
substâncias vegetais que devorávamos, brotos, frutos verdes e
podres, ou também, enfim, a insalubridade do ar viciado pela água
estagnada dos charcos e lodaçais que naquela região tanto abundam.
Supunham alguns fosse o próprio inimigo o veiculador do morbo. É
muito possível que aos paraguaios houvessem acontecido - embora jamais
suportassem as mesmas privações que nós - porque, de seu exército
do Sul, dizimado pelo flagelo, tinham recebido reforços. Uma
circunstância ocorria fazendo-nos crer que também reinasse o mal em
suas fileiras: a frouxidão, para o fim, dos ataques, embora sempre
freqüentes.
No entanto, o número do Semanário de Assunção, anexo a esta
narrativa, nenhuma menção faz da epidemia na coluna paraguaia.
Para a noite caiu abundante chuva, agravadora de todos os nossos
padecimentos. Amontoados perto da pequena barraca dos médicos, sem
abrigo e ao ar livre, receberam os coléricos, nos corpos gélidos,
as bátegas que desabavam, de espaço em espaço. Era horrível ver
estes míseros, presos de agitação extrema, dilacerando os andrajos
com que procurávamos cobrí-los, rolando uns sobre os outros, a se
torcerem com caimbras, vociferando soltando brados, que se fundiam
numa só voz articulada: Água!
Tinham os médicos esgotado os recursos; a princípio zelosos e
ativos, desanimavam os enfermeiros ante o número crescente dos
enfermos e apesar da ordem que proibira o uso da água, como fatal,
davam-na alguma para satisfazer, um instante ao menos, aos
moribundos. A isto se limitavam os seus cuidados.
Apesar de tudo, recomeçamos a caminhar no dia 21. A carreta e o
carroção, com o dobro da lotação, de todos os lados deixavam
pender braços, pernas, cabeças onde já se imprimiam os sinais da
morte. Aos manchegos aos armões das peças igualmente atulhavam
desventurados recentemente atacados e já agonizantes.
Mas logo que a macega perdeu a umidade empre-ou-se novamente contra
nós o odioso expediente de guerra dos paraguaios. Cerca de um quarto
de légua de nossa última parada pareceu o incêndio, tangido por
esperta aragem, na iminência de nos envolver, exatamente no mesmo
lugar onde nos detivéramos e onde, de todo, se baldaria o zelo de
Lopes, se acaso uma mudança do vento não houvesse desviado aquele
furacão de chamas. Recomeçamos o lúgubre desfilar; mas ainda não
vencêramos meia légua, quando os bois da artilharia afrouxaram, por
não terem bebido, desde o acampamento do dia 19.
Estávamos felizmente num terreno cuja macega escapara ao fogo da
manhã, graças, provavelmente, à corrente de ar que nos salvara.
Era uma chapada extensa que, inesperadamente, se levantava de uma
depressão onde corre um riacho. Outra chapada, um pouco mais alta,
e voltada para o sul, ligava-se a um campo imenso, o mesmo que
Lopes, numa primeira incursão, batizara Campo das Cruzes; e no
fundo do qual se erguia a nossa baliza - o morro da Margarida. Tem o
perfil deste pico algo de notável em sua regularidade elegante. Já
da Bela Vista o avistáramos; agora o saudamos como a velho amigo.
Se tal foi a nossa impressão, teve Lopes outra muito mais viva,
ainda. Via-se, após tantas dúvidas cruéis, justificado no seu
foro íntimo. Restituíra-lhe a alegria toda a vivacidade da primeira
mocidade. Arrebentara naquele momento novo incêndio no campo;
vimo-lo correr, de archote em punho, para o combater, com armas
iguais, dizia. E conseguiu-o, varando por entre os cavaleiros
paraguaios, espalhados pelo campo e que quase o apanharam.
Estava, novamente, na plena posse de si, liberto da responsabilidade
que o acabrunhava e quando lhe observávamos quanto precisava
poupar-se, respondia que ninguém podia ir de encontro à vontade de
Deus, devendo cada qual entregar-se às mãos do Senhor.
Dizia-lhe Ele que estávamos chegando ao termo de nossas
provações. "Saibamos morrer, acrescentava; dirão os
sobreviventes o que fizemos".
A 22 apenas andamos três quartos de légua, pois dependíamos
inteiramente das juntas que puxavam os canhões e ainda na véspera
quase não tivera o gado o que beber. Mal dera o minguado filete,
junto ao qual acampáramos, água bastante para os homens.
Tivemos de parar, forçadamente, junto a um brejo, cuja vestimenta
era bastante capaz de dar algum alento aos nossos animais. Aí ficamos
encostados a um mato que, felizmente, ia até um riacho chamado
Prata, o primeiro afluente meridional do Miranda, como Lopes no-lo
disse. Já, portanto, nos abeirávamos desse caudal, objeto de
tantos anseios.
Uma vez neste lugar, entendeu o Coronel que nada obstava informar a
gente de Nioac de nossa proximidade e da do inimigo. Estava o caminho
livre, pela mata do Prata, que se perde na do Miranda; não
correndo risco algum quem a atravessasse. Para esta comissão escolheu
dois homens corajosos, afeitos à vida do mato, caçadores sabidos
daquelas terras.
Fora o bilhete, que se lhes deu, endereçado ao coronel honorário
que comandava o depósito redigido em francês para, pelo menos,
escapar às probabilidades mais fortes de divulgação. Noticiava em
suma que a coluna batera em retirada; e, provavelmente, atingiria
Nioac antes do inimigo, convindo, no entanto, transportar para lugar
seguro e o mais depressa possível, as munições, os víveres, o
arquivo, e alguma bagagem dos oficiais. Era, sobretudo, necessário
que toda a tropa disponível marchasse às ordens do capitão Martinho
a emboscar-se para deter os paraguaios, caso aparecessem.
A 24 chegavam os mensageiros à colônia de Miranda ali encontraram
os negociantes que com a lentidão habitual haviam retrocedido, tendo
achado, ainda, avolumados pelas chuvas, os grandes rios, que
evitáramos graças à estrada pela fazenda do Jardim. Deixando este
comboio à retaguarda, a 27 atingiram Nioac os nossos correios, com
a missiva do comandante, divulgando o que em nosso acampamento haviam
presenciado, assim como todos os boatos sinistros de que se fizeram
ecos com mercadores em caminho.
A 25 progredimos cerca de légua e meia, considerável esforço,
pois os nossos soldados válidos quase todos se empregavam em carregar
as padiolas dos enfermos e destes padioleiros, vários, subitamente
atacados, em vez de ajudarem aumentavam a carga.
As contínuas convulsões dos agonia antes ainda e de tal modo
agravavam esta faina horrivelmente penosa que os soldados, estafados,
punham-se de repente, como à porfia com os coléricos, a soltar
selvagens gritos impacientes, ameaçando arriar e abandonar o fardo.
Só algumas redes, ocupadas por oficiais, conservavam certo decoro
lúgubre: jamais esqueceremos o belo rosto resignado do tenente
Guerra, moço exemplar, filho único de uma viúva que nunca o
tornaria a ver... Neste dia! ao incêndio precedeu um ataque de
atiradores . Repeliram-no alguns dos nossos e o fogo também passou;
mas o outro inimigo, a cólera, o adversário oculto, redobrou os
golpes com que nos feria, a ninguém perdoando desapareceu no mesmo dia
uma família inteira; pai, mãe e filho em horas fulminados juntos.
De inanição pereceu uma criança de peito que, dos braços da mãe
moribunda, passara aos do pai e deste aos de camaradas, que também
não tinham alimento algum.
Soubemos que dois soldados haviam enlouquecido. Assim se explicavam
os gritos, cujas notas estridentes se haviam associado aos ruídos que
habitualmente nos afligiam; lamentos, furores e desespero. Outro mal
começou: a deserção; desapareceram vinte e quatro soldados da linha
de defesa do acampamento.
E no entanto impossível lhes era escapar à morte pela fome ou às
mãos do inimigo. A datar deste dia não houve, no mato, moita onde
se não escondesse algum fugitivo. Abandonaram-nos os nossos índios
Guaicurus, não conseguindo mais detê-los o receio do fado que os
aguardava, se os paraguaios os apanhassem.
Tais os incidentes que entre nós ocorriam. Embora dizimados,
serenamente mantinham os oficiais o espírito geral da corporação;
uns procuravam os outros reuniam-se, trocavam palavras amigas e de bom
conselho. Esta serenidade d'alma só era natural entre homens de
têmpera especial como José Tomás Gonçalves, Pisaflores e
Marques da Cruz; ou excepcionalmente fortes como Lago, Catão e
José Rufino. A mesma atitude impassível tornava-se em outros
igualmente notada, embora menos energicamente constituídos. Tomava,
no tenente-coronel Juvêncio, laivos de melancolia ao lembrar-se da
família. Quanto ao comandante este se reconcentrava em sua dignidade
e no sentimento do dever. Aproximava-se a hora em que, a tal
respeito, nos daria as mais extraordinárias provas.
Na manhã de 24 uma chuva torrencial, e contínua, não tardou em
transformar em atoleiro o solo argiloso sobre o qual acampáramos. O
vento áspero e impetuoso lançava-nos verdadeiras enxurradas. Assim
mesmo partiu Pisaflores, o bravo rio-grandense, à testa de cem
homens, a um quarto de légua, à margem do Prata, abrir uma picada
num lugar indicado por Lopes. Este serviço, rapidamente executado,
deu aos trabalhadores o ensejo de descobrir na mata palmitos em
profusão, inesperado recurso que levou o comandante a mandar que
estacássemos, porque também ali estava o solo mais seco. Nao
pôde, entretanto, a marcha recomeçar antes das cinco da tarde, e o
que foi este deslocamento de posição só uma palavra traduz:
desolação. Observando-nos de muito perto assaltaram-nos os
paraguaios, com vaias e tiros, a que tratávamos de responder do
melhor modo. Mas o que mais penoso foi, ao atravessarmos grande
charco, o banho gelado em que até a cinta afundamos. Rompeu-se a
formatura; nem sequer nos víamos mais. A espessa escuridão que
sobreviera seguiu-se a noite, sem intervalo, uma destas noites
propícias aos desastres e aos crimes: a mais de um doente afogaram os
seus carregadores.
As oito horas passara o grosso da coluna acampando então, às dez
veio a retaguarda ocupar o seu posto. Até tarde, pela noite
adentro, chegaram retardatários, condutores de carretas extraviadas e
até coléricos que haviam podido pôr-se de pé, depois de atirados
das padiolas ao chão.
Deu-se, entretanto, uma cena que à memória consola evocar. Entre
as padiolas, onde prostrados se achavam soldados, uma houvera que a
queda de um dos padioleiros ia submergir no pantano, prestando-se os
demais três, talvez, a este caso que os libertava do fardo, quando
um quarto apoio, o ombro de um oficial, se apresentou para salvar o
infeliz que ia perecer. O tenente Clímaco dos Santos Sousa, autor
deste ato de altruísmo, teve, em prêmio, os louvores de nós
todos.
Fôramos ficar em terreno menos lodoso; mas muito tempo decorreu antes
que pudéssemos acender a lenha encharcada.
Era felizmente resinosa. Oh! com que alegria saudamos as primeiras
chamas! Qualquer lugar junto destas fogueiras era cobiçado; quase
todos conseguiram, contudo, aboletar-se, sãos e enfermos
misturados. Morreram até dois coléricos ali. Foram os cadáveres
removidos, eram heranças a receber, lugares de calor. Apareceram
logo os palmitos que os mais ágeis dos nossos tinham corrido pedir aos
trabalhadores do capitão Pisaflores, apenas se sentiram um pouco
alentados pelo fogo foi o alimento prontamente cozido sobre brasas na
cinza e cada qual teve o seu quinhão, uns mais, outros menos.
Nunca se desmentiram os hábitos hospitaleiros da mesa brasileira, nem
ali nem em parte alguma; e até mesmo nas mais terríveis conjunturas.
|
|