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A picada que acabava de abrir o capitão Pisaflores dera já passagem
ao nosso guia que, vendo-se, afinal, nas divisas de sua
propriedade, dessa fazenda que tanto amava, e de que tão
freqüentemente falava - não pudera resistir ao ímpeto de a palmilhar
o mais depressa possível. Assim se adiantara com o filho e os
refugiados do Paraguai. Era a largura da picada suficiente para dar
passagem aos homens, mas não ainda aos armões e bocas de fogo.
Havia ainda a melhorar as rampas lodacentas do rio, o que pediria
tempo, dado o estado de fraqueza em que nos deixavam a moléstia e a
fome.
Foi só às dez da manhã de 25 que começamos a nos mover para
galgar a margem direita do Prata, onde ocupáramos uma eminência
dominadora de toda a circunvizinhança. Forçadamente, ia o
transporte ser extremamente lento; nem de outro modo seria possível.
Subiu o número de padiolas, que tinham de transpor o rio, a 96,
cada qual tomando oito homens que se revezavam, todos, aliás, de má
vontade, mostrando os mais recalcitrantes os pés esfolados e tintos de
sangue. De espada em punho exigiam os oficiais o cumprimento deste
dever, tanto mais penoso quanto dele se não podia esperar nenhum
resultado favorável; achando-se quase todos os enfermos, como de
antemão, fadados à morte. Sacrificava-se assim aos moribundos o
que ainda restava à coluna de força e futuro.
Já desde a irrupção da peste perdêramos muito mais de cem homens;
uns vinte acabavam de ser enterrados no acampamento que deixáramos e
com eles o tenente Guerra.
As duas da tarde e à custa de muito trabalho tudo estava na margem
direita, queimada, que fora a nossa última carreta e mortas as suas
juntas para que as comêssemos. Multiplicaram-se durante toda a tarde
os casos epidêmicos a ponto de se tornar impossível imaginar como
poderíamos avançar. Novo arranjo imaginado pelo comandante, para as
padiolas, levou ao desespero o descontentamento dos soldados, que nele
enxergaram um aumento de carga e de fadiga. Chegamos a pressentir que
entre eles se gerava a idéia de geral "salve-se quem puder".
Metendo-nos no mato, diziam, "ao menos alguns de nós chegarão a
Nioac; em todo o caso deixaremos de ser escravos de moribundos, pela
mor parte desvairados".
Entretanto tinha o inimigo vindo acampar no nosso último pouso. Veio
incomodar-nos uma partida de seus atiradores; também desvaneceu-se
logo diante de duas companhias nossas. Então, como nos achássemos
incapazes de pensar em perseguí-los, puseram-se os paraguaios a
esquadrinhar, com todo o vagar, todos os cantos do nosso último
acampamento. Como percebessem a existência de montículos
recentemente revolvidos, abriram as covas, delas exumando os
cadáveres para os despojar dos miseráveis andrajos, que depois,
violentamente, entre si disputavam. Houve mesmo quem se desse pressa
em os vestir. Permitiam-nos os óculos de alcance perceber claramente
tão revoltante espetáculo, que nos punha estupefatos como se
inacreditável miragem constituísse. Aí uma de nossas granadas
atiradas pela peça de Napoleão Freire que firmara a pontaria quando
eles estavam em grande número, no meio das sepulturas -
estourou-lhes exatamente sobre a cabeça, matando alguns. A outros
atirou nas covas, dispersou os restantes, e libertou aquele local de
sua presença. Tão justa represália velo trazer alguma animação ao
acampamento até o pôr do Sol deste triste dia.
À noite mandou chamar-nos o coronel Camisão. Já com os
comandantes dos corpos tivera várias conferências. Parecia
profundamente impressionado. Falou, contudo, sem acrimônia da
fatalidade que acompanhava os movimentos da coluna e várias vezes
repetiu o que sinceramente lhe ia n'alma: "para um chefe era a morte
preferível ao espetáculo que desde algum tempo tinha sob os olhos".
Queixou-se, em termos comedidos, sem aquele tom acerbo de outrora,
da escolha do caminho que o haviam obrigado a seguir. -"E Nioac?,
exclamava. E os nossos enfermos? Ah! quanto quisera eu estar no
lugar de um destes que acabaram!" Bem percebíamos que ainda tinha
qualquer coisa a nos dizer; retiramo-nos, contudo, sem que conosco
se abrisse.
Às dez da noite vieram novamente chamar-nos, de sua parte. Deixamos
o couro que com o tenente-coronel Juvêncio compartíamos, e ambos
fomos com ele ter. Já estava o comandante em conferência com o major
Borges e o capitão Lago excogitando os meios de transportar os novos
doentes. Discutia-se a possibilidade de colocá-los em metades de
couros presos pelas beiras, à feição de cangalhas, que as mulas
carregadoras do cartu-chame deviam levar. Era a empresa
inexeqüível, quando mais não fosse, pelo acréscimo de carga que
assim recairia sobre os soldados, já exaustos. Defendeu ele esta
idéia com insistência e contra a opinião de todos nós. Ainda desta
vez nos separamos sem lhe conhecer o íntimo pensar.
Afinal, era cerca de meia-noite, e de novo convocou os comandantes e
os médicos. Acabara de tomar a suprema resolução com que, durante
os últimos dias, se embatera e cuja idéia, como recurso extremo,
lhe acudira ao espírito como ao de todos, sem que, contudo, houvesse
alguém ainda ousado exprimi-la.
Depois de, em concisas palavras, haver exposto o estado das coisas,
e a urgência da avançada rápida, sem a qual estávamos todos
perdidos e a impossibilidade, agora perfeitamente averiguada e
geralmente reconhecida, de levarmos mais longe os enfermos, declarou
aos comandantes que, sob a própria responsabilidade, e em obediência
a rigorosos ditames que lhe impunham este deveriam os coléricos,
exceto os convalescentes, ser abandonados nesse mesmo pouso! Não
houve uma só voz que contra esta decisão se levantasse. A si avocava
o coronel Camisão toda a responsabilidade. Longo silêncio acolheu a
ordem, sancionando-a.
Convidou, contudo, o Coronel aos médicos que lhe apresentassem
objeções, acaso inspiradas pelo dever profissional.
Depois de alguma reflexão, disse o Dr. Gesteira que não ousava
aprová-la nem a desaprovar, só lhe competia, então, o silêncio,
pois se de um lado tinha de atender ao seu juramento profissional, por
outro achava-se este, no caso atual, em contradição absoluta com a
sua consciência de funcionário público adido à expedição.
Como desvairado, ordenou, então, o Coronel que, à luz de fachos
imediatamente na mata vizinha se abrisse uma clareira, para onde seriam
os coléricos transportados e abandonados. Ordem terrível de dar,
terrível de executar; mas que, no entanto (forçoso é
confessá-lo), não provocou um único reparo, um único
dissentimento. Puseram os soldados, logo, mãos à obra como se
obedecessem a uma ordem comezinha; e - tão facilmente cede o senso
moral ante a pressão da necessidade - colocaram no bosque, com a
espontaneidade do egoísmo todos estes inocentes condenados, os
desventurados coléricos, muitos deles companheiros de longo tempo,
alguns até amigos provados por comuns padecimentos.
E, coisa que a muitos parecerá não menos espantoso os próprios
coléricos, desde os primeiros momentos, e sern que fosse necessário
recorrer a subterfúgios, resignadamente aceitaram este último golpe
da fatalidade.
Contribuíam provavelmente as dores do horrível mal para a
indiferença dos pacientes; ou talvez também a idéia do repouso
substituído às torturas dos solavancos da marcha; mas acima de tudo,
este desprendimento fácil da vida, próprio dos brasileiros e que
deles, tão depressa, faz excelentes soldados. Apenas pediam todos
um favor: que lhes deixássemos água. Dominados por tantas e tão
funestas impressões nós nos reuníramos em torno da barraca do
tenente-coronel Juvêncio. Chamaram-nos a atenção os seus
gemidos: acabara a moléstia de o saltear também! Já estava
irreconhecível com a voz demudada e sinistra. Foi o nosso primeiro
ímpeto correr à barraca dos médicos; dela voltávamos quando junto a
nós, reboou uma detonação, seguida de vários tiros das sentinelas
inimigas. Era o soldado de plantão do quartel-general que se
suicidara; horríveis caimbras havendo-o atacado, delas acabava de se
libertar.
Ocorreram todos estes ruídos sem que o tenente-coronel Juvêncio
desejasse conhecer-lhes os motivos e até sem que parecesse
percebê-los. Tomara-lhe, pouco a pouco, a agitação o caráter
de frenética alucinação.
Nós mesmos, ao seu lado, estafados pelo cansaço, esgotados por
tantos sobressaltos, mal conseguíamos combater um sono acabrunhador,
pejado de pesadelos, de desalento e carnificina.
Durou a noite inteira a trasladação das vítimas, até os primeiros
albores do dia. Neste momento de agonia dos míseros abandonados,
veio o velho guia Lopes, de regresso, desde a véspera, da excursão
às suas terras anunciar a morte do filho, de cuja moléstia já nos
noticiara. Tremia-lhe a voz, mas conservava uma atitude calma.
"Meu filho morreu, disse ao Coronel, e desejo sepultá-lo em terra
minha. 1: um pequeno favor que por ele, e por mim, solicito; sua
vida, como a minha, pertencia à expedição. Deus, que tudo
determina, salvou-o várias vezes da mão dos homens para tomá-lo
hoje".
Tudo, a cada momento, se entenebrecia em torno de nós. Nada mais
digno de inspirar a simpatia e a compaixão do que o aspecto do
Coronel, depois da ordem que dera, e se cumpria enquanto
começávamos a marchar.
Pesar, remorso? perturbação de espírito, na apreciação dos
motivos que o haviam feito agir e parecia estar a debater intimamente,
quando já as suas ordens estavam no domínio dos fatos consumados?
Certo é que, pálido como um espectro, parava, para ouvir, como
involuntariamente.
Por mais silenciosos e tristes houvessem sido os preparativos, não
foi sem gritos e ruídos estranhos ao ouvido e cuja causa assombrava o
espírito, que chegou o momento do abandono. A todos nós foi
intolerável. Deixávamos entregues ao inimigo mais de cento e trinta
coléricos, sob a proteção de um simples apelo à sua generosidade,
por intermédio destas palavras escritas, em letras grandes, sobre um
cartaz pregado num tronco de árvore: "Compaixão para com os
coléricos!"
Pouco tempo após nossa partida e já fora do alcance da vista, veio
um estrépito de viva fuzilaria apertar-nos os corações. E que
clamores indescritíveis, então, ouvimos! Ninguém de nós ousava
olhar para o eompanheiro!
Pelo que depois nos contou um dos pobres abandonados, salvo
milagrosamente, vários enfermos (ele não sabia bem se houvera ou
não geral chacina) se haviam soerguido convulsamente e, reunindo
todas as forças, corrido para nós. Nenhum, porém, conseguira
atingir-nos, devido à fraqueza física ou à crueldade do inimigo.
Nossa coluna tinha, contudo, demorado a marcha, instintivamente,
como à sua espera.
Já os nossos armões estavam sobrecarregados de novos enfermos, de
permeio com os convalescentes; e o corpo de exército, tomado do mais
sombrio desespero, vencera, apesar do cansaço, duas léguas! A
necessidade do repouso deteve-o à margem de volumoso ribeirão que
atravessava as dependências da estancia do Jardim.
O filho de Lopes, até então transportado num reparo de peça, e
escoltado pelos amigos companheiros de cativeiro no Paraguai, foi
enterrado à margem direita. O pai que, enquanto se abria a
sepultura, se mantivera a alguma distância, disse, ao lhe contarem
que o solo estava muito úmido e até encharcado: "Agora que
importa? Entreguem à terra o que lhe pertence!"
Voltava pouco depois colocar-se-nos ao lado, pálido e como exausto
do cansaço, dominando-se contudo. Sob os nossos olhos se dilatava a
sue imensa propriedade; assinalou-nos diversos pontos, por ele
consagrados pelas recordações da vida plácida que ali fora a sua.
Naquele ponto, ao longe iam sues vacas beber a água de um solo
nitroso. Em outro encontrava o seu gado, do qual parte era meio
alçado, pastagens das melhores que o detinham ou logo o faziam
voltar. Outros lugares despertavam-lhe imagens de cenas patriarcais;
dominava-o febril expansão que não conseguia reprimir.
Quando o deixamos, justamente preocupados, e apressurados pelo
encontro do tenente-coronel Juvêncio, vimos que nada mais havia a
esperar do estado em que se achava e como tanto receávamos. Indo
levar notícias ao comandante, qual não foi o nosso pavor quando o
encontramos, ele próprio, por sua vez, atacado.
Deitado de costas na macega, com o chapéu no rosto desde que se
levantou e descobriu, para nos falar, vimo-lo irremediavelmente
perdido; os estigmas da cólera sobre ele se haviam impresso.
Conservava, no entanto, uma calma que a situação tornava
admirável. "Vou morrer, também, pronunciou; era fatal. Salvei
a expedição. O Sr. que o sabe, há de o dizer".
Ao recomeçarmos a marcha, nem sequer experimentou montar a cavalo,
carregaram-no para um armão, onde o puseram ao lado do tenente
Sílvio, já agonizante; dois cadáveres, um perto do outro.
Era-lhe a impassibilidade completa; mãos cruzadas sobre o peito com
o chapéu desabado sobre os olhos, procurava subtrair-se aos raios do
Sol deslumbrante que a esta triste cena iluminava. Queixando-se
Juvêncio de tão ofuscante claridade, corremos em busca de um
guarda-sol que vimos aberto; não conseguimos reprimir um grito de
dor, encontrando sob este abrigo um dos mais amáveis moços da
coluna, o alferes Mirá, que expirava por entre indizíveis
padecimentos. De manhã ainda o víramos válido e bravo; derreado
agora, sobre o cavalo, mal se sustinha entre os braços de um
patrício e amigo, o capitão Deslandes, que não tardaria em o
entregar à terra.
Determinou-se o ponto do pouso: no meio da mangueira de Lopes.
Estava a findar o desempenho completo da missão do velho guia e este
dever parecia ser o último liame que à vida o prendia. Dissera-nos
algumas horas antes: "Reparem neste campo verde-escuro; é o meu
retiro. Não chegarei até lá. Os senhores é que breve estarão em
Nioac".
Enfraquecido, arcado, caminhava cabisbaixo sobre o arção da sela.
Escaparam-lhe de repente os estribos e rolou ao chão, assaltado pela
cólera. Colocado sobre um reparo, reanimou-se um pouco, e ainda
assim dirigiu a marcha. Como o genro, Gabriel, quisesse atalhar por
um capão, recomendou com voz sumida: "Contornem o mato, que é
muito sujo". Ao cair da noite estávamos à vista da colina, ao pé
da qual se acha o retiro, o antigo local do rodeio de gado da
estância, que Lopes de longe nos mostrara. Declinava o Sol, do
seu disco grandes raios alaranjados se desferiam, na fímbria do
horizonte, realçando a mais admirável perspectiva, tão bela que a
memória no-la reproduz ainda agora. Estes esplendores eternos da
natureza ainda mais pungentes nos tornavam o sentimento de nossa
próxima ruína. Absorvia-nos esta contemplação quando um
esquadrão paraguaio chegou a galope com a intenção de cortar nalgum
lugar a nossa linha indecisa e descontínua. A parada instintiva que,
por toda a parte, se realizou, preservou-nos do ataque.
Acampamos naquele local, tendo vencido quatro léguas de estafante
marcha, privados como fôramos de alimentos e de sono; tangia-nos a
necessidade e entramos nos cercados do retiro.
Foram o coronel Camisão, o tenente-coronel Juvêncio e o guia
Lopes instalados num galpão arruinado, perto do qual acendemos
grandes fogueiras, para ver se os aquecíamos. Alguns limões e
laranjas, que lhes foram dados, acalmaram-lhes um pouco a sede.
Quis ainda o Dr. Gesteira experimentar um medicamento. "Dr.,
disse-lhe o Coronel, trate dos soldados. Não se canse inutilmente
comigo, sou homem morto". A calma não o abandonou um só momento.
Quando muito deixava escapar alguns gemidos surdos, ao sofrer torturas
cujo exacerbamento fazia gritar e estrebuchar os companheiros de
agonia. Passou-se a noite, para todos, numa agitação enorme.
Aos lamentos respondiam outros lamentos; aos horrores da moléstia
acresciam os desfalecimentos da fome.
Na manhã de 27 ainda de nós se aproximou o inimigo, fazendo
menção de nos disputar a passagem do ribeirão a que dá o nome o
retiro. Conteve-se, porém, ante a atitude do 17.° de
voluntários, que formava a nossa retaguarda, e assim continuou a
nossa marcha, como a da véspera. Já sem voz, era o coronel
Camisão carregado sobre um reparo de peça, Lopes sobre outro e o
tenente-coronel Juvêncio, assim como vários outros oficiais e
inferiores, em redes. Durante a última parade três haviam morrido.
A meia légua do retiro atingimos afinal a margem do Miranda,
demasiado abatidos e acabrunhados, porém, para podermos experimentar
a alegria com que contáramos. Via-se, à margem oposta, a casa do
guia, o teto hospitaleiro onde o vianjante sempre encontrara boa
acolhida e a abundância de tudo. No momento de ali chegar expirou o
nobre velho, insensível à vista daquilo que tanto amara. Foi
enterrado no meio do nosso acampamento, em terra que era sua.
Os amigos lhe puseram sobre a sepultura tosca cruz de madeira.
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