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Irremediável se afigurava a nossa situação. Os paraguaios, em
torno de nós, de observação, pareciam, como bem disse El
Semanario de Assunção, anexo a este narrativa, gozar sem perigo,
e tranqüilamente, do espetáculo de nosso aniquilamento pela fome e a
peste. Tínhamos, com efeito, diante de nós um grande rio
transbordado a nos cortar a única via de salvação.
A estação de abril a setembro não é a das águas; mas como se toda
a natureza se houvesse contra nós coligado, teis, desde 13 de
maio, haviam sido as chuvaradas que o Miranda intumescera de modo
assustador, bramindo e espumando sobre as raízes desnudadas das
árçores da barranca, não dando esperanças de permitir -vau antes
de alguns dias. Era, no entanto, para a QO-luna, o único meio
de o transpor. Não podíamos pensar em alçar uma ponte quando mal
dispúnhamos de gente suficiente para o serviço das guardas: homens,
no entanto, bem capazes ainda de ardor e energia num combate, mas não
de contínuo trabalho manual, como este que exige uma construção de
vulto. Estávamos, pois, sob os olhos dos paraguaios, segundo uma
expressão destes penes, como gado encurralado e destinado ao corte.
Malgrado, entretanto, o aspecto ameaçador do rio, lançaram-se à
água alguns nadadores intrépidos, impelidos pela fome, e, contra a
expectativa geral, após muitos esforços, atingiram a outra margem,
onde não encontraram vestíglo algum do inimigo. O que descobriram
foi a tranqüila morada de nosso valoroso guia rodeada de belo
laranjal, cumprimento, tão agradável quanto completo, das promessas
do velho e de todas as maravilhas que do seu pomar nos referira.
Não tardou que um dos primeiros exploradores dessa terra de
promissão, lembrando dos companheiras de miséria, tivesse a audácia
e o mérito de, sem detença, atravessar de novo o caudal. Com a
descrição animada de tudo o que defrontávamos - veio inflamar a
mente daqueles que ainda haviam conservado algum resquício de
iniciativa. Como a ausência, já muito sensivel, do chefe nos
deixasse larga autonomia, muitos foram os que, em tropel, correram à
beira-rio, para tentar a passagem. Muitos a experimentaram: os mais
fracos ou os menos favorecidos, traídos pelo desfalecimento,
desapareceram na correnteza; outros dali, contemplando os felizes
ocupantes da margem fronteira, tomaram-se como de desespero que quase
desfechou supremo golpe nos restos da disciplina, sobrevivente a tantos
desastres. Do próprio couro em que jazia quase agonizante ainda dava
ordens o Coronel, umas, por vezes, incoerentes e inexeqüíveis,
mas outras lúcidas, e práticas. Mandou que o corpo de caçadores a
pé, o único ainda não contaminado pelo espírito de
desorganização, atravessasse, quanto antes, o rio. Guarnecendo a
outra margem, devia impedir o saque do pomar até que ele,
comandante, ali pudesse ir ter a fim de proceder à justa
distribuição de quanto lá havia.
De acordo com esta prudente determinação, teve o capitão José
Rufino de fazer passar toda a sua gente - junta. Pensou, a
princípio, na construção de uma jangada, mas faltavam-lhe
materiais e, sobretudo, operários. Tomou-se de impaciência;
podia contar com toda a sua tropa afeita a hábitos de austera
disciplina e, em absoluto, obediente às suas ordens. Viu os
soldados porfiarem entre si, no afã de facilitar a passagem dos
oficiais. Foi ele próprio o primeiro a entrar dentro do couro, com
as quatro pontas levantadas e amarradas em forma de saco (o que se
chama pelota), a que um nadador puxa por uma corda presa entre os
dentes. Assim se pôs à frente daquela massa tumultuosa de homens.
Não os perdíamos de vista. Quando atingiram o meio da torrente,
ainda os ouvíamos, entre o marulho dos colchões, incitarem-se uns
aos outros. Houve, segundo nos pareceu, então, a todos, um
momento de luta e hesitação que nos fez por eles tremer, mas não
tardaram a reaparecer, descambando para a outra margem, embora com
grande descaída. Vimo-los, enfim, sãos e salvos chegar a fazenda
do Jardim: era um consolo e uma esperança.
Longe de amortecer, redobrara a cólera de violência. Crescia o
número dos enfermos e receávamos que, quando o rio baixasse, a ponto
de nos dar vau, não tivéssemos remédio senão abandonar segundo
grupo de moribundos, à mercê do inimigo inexorável; e só esta
idéia nos causava a angústia de um pesadelo. Acabara o corpo de
artilharia de se extinguir. Depois dos mais fracos tombados nos
primeiros dias, tocara a vez aos mais ro-bustos; caíam como para se
aniquilar a arma a que devêramos a salvação. Nada, entretanto, do
que pudesse evitar ou combater o mal haviam poupado os seus chefes.
Dava o tenente Nobre de Gusmão, constantemente o exemplo da
dedicação pelos enfermos, e os soldados imitando-o, entregavam-se
à prática de socorros mútuos que os demais corpos ignoravam.
Tal o estado, cada vez mais deplorável, em que veio o dia 28
encontrar-nos. De tempos a tempos íamos examinar o nível das águas
para ver se baixava; pois seria isto a nossa única via de salvação.
Nada tínhamos que comer e a custo conseguíramos, a peso de ouro,
arranjar algumas laranjas que os nadadores mais ousados traziam com
largos intervalos. Foi este, aliás, o único conforto a que se não
mostraram insensíveis o coronel Camisão e o tenente-coronel
Juvêncio, na sede da agonia exasperada pela água.
Após a passagem do corpo de caçadores, cada vez mais considerável
se tornara o ajuntamento à beira-rio Todos os movimentos daquele
batalhão, na outra margem, acompanhados pelas nossas vistas
alongadas, nós os comentávamos. De tempos a tempos precipitava-se
alguém a nado ou arriscava passar em pelota para procurar reunir-se
aos camaradas, apesar das ordens em contrário. A morte de vários
soldados, afogados, mostrara a urgência de se manter, mais rigorosa
ainda, a proibição. Não houve, entretanto, ameaças nem
objeções capazes de dissuadir um capitão do 20.° que, todo
vestido, entrou numa pelota, conduzida por dois nadadores. Cria
poder com eles contar, mas, no meio do rio, como as forças lhes
faltassem, entregaram-no à correnteza Vimo-lo envidar longos
esforços para se manter à tona e depois submergir-se, pouco a pouco
a desaparecer, com gritos de desespero a que, à míngua de socorro,
respondiam os da multidão reunida no lugar de onde partira. Pouco
depois um nadador, chegando da margem
Era o receio infundado porém; pois é coincidência comum a todos os
caudais - depois de demorados nos transvasamentos pela própria
expansão - adquirirem, quando voltam ao leito, maior velocidade,
embora transitória, que progressivamente diminui, se se não renovam
as chuvas, até o momento em que as águas voltam ao regime normal.
Neste interim, e por causa da afluência dos soldados à beira-rio,
foi o nosso pouso ficando deserto. Em busca de lugar fresco haviam os
doentes transposto algumas braças de um pantano que nos envolvia o
acampamento e corrido mais longe arrumar-se num bosque, bastante
espesso, de ambos os lados de uma estrada aberta que era a de
Miranda. Haviam-nos seguido parentes e amigos e ali todos se
instalavam, como para ficar. Já varios soldados se tinham metido no
mato, a procura de caca, ouvindo-se os tiros que ao longe
disparavam. Supusemos a princípio fosse o inimigo, que não sabiamos
onde parava. Desaparecera, ou para preservar do contágio da epidemia
que conosco arrastávamos.
Neste mesmo dia 28 morreram algumas mulheres, mais desvalidas ainda
que os demais doentes, mais desprovidas de recursos e, por motivo de
sua natural fraqueza, mais ferreteadas pelos estigamas da miséria
absoluta.Quase não existia mais entre nós a autoridade. Fora,
desde o começo, frouxa às mãos do coronel Camisão, sempre que se
tornara precisa e iniciativa de uma decisão ou proceder a uma escolha
entre diversos alvitres e alternativas. Tornara-se, é certo, mais
firme quando os reveses nos acabunhavam, uns sobre outros; para o fim
antingira o heroísmo quando, com uma abnegação, cujo esforço
indubitavelmente lhe arrancara a vida, abandonara os enfermos para a
salvação da coluna. Desde, porém, que a cólera o atacara ia tudo
ao des-dará; sentíamos todos quanto nos era indispensável novo
chefe.
A 29 tornou-se evidente que o Coronel morreria. Por vezes,
vencera o sotrimento aquela dignidade que tanto zelara: "Dizem que a
água mata, exclamava, dêem-ma; quero morrer!" Caiu num estado
de torpor e sonolência e o corpo cobriu-se-lhe de manchas violáceas
sete e meia fez supremo esforço; levantou-se do couro em que estava
deitado, apoiou-se sobre o capitão Lago perguntou-lhe onde estava a
coluna, repetindo ainda que a salvara. Depois, voltando os olhos,
já vidrados, para o seu ordenança, exclamou em tom de comando:
"Salvador! dê-me a espada e o revólver". Procurou afivelar o
talim e exatamente nesta ocastão deixou-se rolar no chão murmurando:
"Façam seguir as forças, que vou descansar". E assim expirou.
A alguns passos dali, numa barraca a todos os ventos aberta,
achava-se o tenente-coronel Juvêncio. Recobrara um fio de voz e
livrara-se da horrível tortura das caimbras, queixando-se,
todavia, de forte dor no fígado. O tenente Catão, a quem do
melhor modo auxiliávamos fazia-Ihe continuamente aplicações novas,
que, contudo não o aliviavam. Tinha, constantemente, os nossos
nomes nos lábios para nos recomendar a família. Ao meio-dia
acalmou-se, caiu numa letargia entrecortada de sobressaltos, e, às
três horas, expirou depois de nos entregar, para a mulher e os
filhos, uma bolsinha de couro contendo algumas economias de campanha.
Numa cova aberta, sob grande árvore, no meio da mata, enterrou-se
o Coronel com o seu uniforme e insignas. Em outra cova, imediata, e
à direita, foi o corpo do tenente-coronel Juvêncio colocado pelos
seus companheiros da comissão de engenheiros e alguns oficiais do corpo
de artilharia. Jamais se nos varrerá da memória esta lúgubre
cerimônia a que a escuridão da noite e da mata ainda mais soturna
tornavam. Eram quase sete horas quando de lá voltamos. Descansam os
nossos infelizes chefes à esquerda do Miranda, a alguma distância da
entrada do bosque e em altura correspondente a estância do Jardim, à
margem direita. Se lhes não profanarem os túmulos é de esperar
que, um dia ou outro alguma cruz de material duradouro, com uma
inscriçao, aponte à memória dos brasileiros o lugar que recebeu os
despojos destas nobres vítimas do dever [6].
Providências sabiamente combinadas seguiram de perto a morte do
coronel Camisão. Cumpria não surgisse alguma rivalidade que
mantivesse a autoridade incerta. Fora, era certo, já prejulgada a
questão dos postos em comissão, por dois ofícios do Ministro da
Guerra, datados do ano anterior. Neles declarara o governo não ter
aprovado que o tenente-coronel em comissão, Enéias Galvão,
simples tenente nos quadros do exército, comandasse, como chefe
interino de uma brigada, oficiais mais antigos que ele e até
capitães. O posto efetivo na primeira linha era evidentemente,
pois, uma condição de preferência e o mais antigo capitão, de todo
o corpo expedicionário, vinha a ser José Tomas Gonçalves, aliás
major em comissão. Parecia assim o único que, de acordo com as
instruções ministeriais, estava nos casos de suceder ao
tenente-coronel Juvêncio, substituto legal do coronel Camisão,
mas que também desaparecera.
Para evitar qualquer dissídio na eleição foram os tenentes
Napoleão Freire e Marques da Cruz, a pedido de todos, ter com o
tenente-coronel, em comissão, Enélas, convencendo-o da
conveniência que, nas nossas circunstâncias, havia, para se evitar
maior demora, de alegar ele moléstia que o forçasse a passar a outro
oficial, momentaneamente, o comando do seu batalhão. A boa vontade
com que abriu mão de pretensões, pelo menos especiosas, que nos
poderiam ter criado embaraços, valeu-lhe a bem merecida gratidão de
todos os camaradas. Reuniu-se, ao meio-dia, o conselho dos
comandantes. Sem o menor preâmbulo, para firmar os seus direitos, e
com este tom de confiança que subjuga, este ar de superioridade
indiscutida, a que se prestava a sua fisionomia vivaz e inteligente,
anunciou o major José Tomás Gonçalves a morte do coronel Camisão
e a do tenente-coronel Juvêncio, seu imediato legal. Daí lhe
resultara a obrigação de assumir o comando, como o capitão mais
graduado em antiguidade. Nada lhe foi objetado. Deu-se parte da
moléstia do tenente-coronel em comissão, Enéias, assim como se
notificou a entrega do comando do seu corpo a seu imediato: o major em
comissão Jose Maria Borges.
Esta transmissão de poderes, regulada pela razão e o direito, e
habilmente subtraida ao jogo das paixões que podiam despertar, obteve
completa sanção na aprovação de todo o corpo do exército.
Havia, neste ínterim, baixado o rio, já oferecendo contínuo vau,
embora muito difícil ainda, devido à rapidez das águas. Teve o
novo comandante a idéia de assegurar a comunicação de uma para outra
margem por meio de cabo fortemente amarrado às árvores de ambas as
barrancas.
Desde o momento em que funcionou este vaivém chegaram as laranjas,
copiosamente. Teve a sua abundância este primeiro efeito de distender
estômagos desde muito vazios. Eram, por vezes, devoradas com casca
e tudo, no ardor da fome e da sede que nos consumia. Sua maturidade e
doçura convidava-nos, aliás, ao abuso, mas os princíplos
medicinais que residem na essência da casca agiram mais eficazmente
ainda: diminuiu a epidemia, e quase cessou. Haveria nisto mera
coincidência? Já Lopes, contudo, nos predissera esta melhoria do
estado geral. Certo é que foram coléricos vistos - a mor parte dos
quais se curaram passar longas horas a devorar montes de laranjas de que
mal deixavam alguns restos.
Ainda neste dia vimos chegar ao acampamento, quase nu, e semelhante a
um cadáver, um dos desvalidos abandonados de 26, que, no próprio
excesso do terror encontrara restos de vitalidade que o salvaram.
Caminhara de noite arrastando-se pelos mais espessos cerrados, e
seguindo-nos as pegadas. Nem sempre conseguira contudo, evitar os
paraguaios, que, vendo o estado em que o pusera a moléstia, se
contentavam por divertimento com o moerem de pancadas. Como lhes
pedisse que o não matassem respondiam: "Não matamos defuntos,
queremos é o teu comandante". E atiravam o mísero ao solo com o
conto das lanças Assim pôde o pobre homem voltar ao nosso grêmio,
após sofrimento a que poucos organismos teriam podido resistir
[7].
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