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Apenas assumiu o comando, publicou o major José Tomás Gonçalves
uma ordem do dia em que, apelando para a coragem e os sentimentos de
honra individuais para conjurar o perigo geral, assinalava, como
única tábua de salvação, a marcha rápida sobre Nioac, a todo o
transe. Imprimiu o tom vivaz desta proclamação um frêmito de
excitação moral útil para a restauração de um estado sanitário
que, dia a dia melhorava, e fazer seguir ao abatimento dos espíritos
as felizes disposições ardorosas do novo chefe. Recomeçando os
clarins a dar os toques de ordem, às horas fixas tocaram a recolher.
Já havia alguns dias que não os ouvíamos mais; e um único corneta
do quartel-general, tristemente, indicava a sucessso das horas. Mas
o que, sobretudo, causou viva e agradável surpresa foi, da outra
margem do rio, escutarmos as cornetas do nosso corpo de caçadores,
que nos davam o troco. Velava, pois, ainda, sobre nós, a regra
militar; cessara o isolamento. A distribuição de nossas forças
parecia tê-las dobrado, por toda a parte, restabelecendo a
confiança e o prestígio da disciplina
Desperta sempre uma mudança de chefe a atenção geral e poderosamente
a agita, à espera da primeira manifestação sensível. O que não
dissera a ordem do dia do novo comandante exprimiram-no os atos.
Tornara-se José Tomás Gonçalves a personificação da ordem e
era o seu órgão. Fez sentir-lhe a força a alguns recalcitrantes
que ousavam tentar desobedecer-lhe. Foi a repressão rápida, o que
para as turbas constitui o sinal da legitimidade do poder.
Estávamos a 30; fora dada a ordem de se transpor o rio e tudo se
determinara previamente. Regularizou-se o vaivem colocado. Soldados
que, isoladamente, haviam passado sem autorização foram chamados da
outra margem e reincorporados às unidades a que pertenciam após severa
admoestação por esta falta que, em campanha, e diante do inimigo,
facilmente se transmuta em crime contra a segurança geral. Um
sargento que, nesta ocasião, faltara ao dever foi imediatamente
rebaixado.
Bastou este ato de firmeza para reparar os males que os quatro dias de
moléstia do comandante haviam causado a disciplina. Fizera o coronel
Camisão o máximo empenho em a manter; mas ele não dispunha, como o
sucessor, nosso novo chefe, do dom de tornar fácil e agradável o
cumprimento do dever, graças aos modos afáveis; e embora estimado e
respeitado pelas tropas que nele viam um militar leal, vigilante,
dedicado aos interesses da justiça e da humanidade, como o gênio
concentrado lhe desse um aspecto habitualmente sofredor acabara como por
incutir que, com efeito, a desgraça sobre ele adejava, coisa que ele
próprio parecia recear. Nada há mais funesto ao crédito da
autoridade: seja este o nosso último conceito sobre tão atribulada
existência.
Quando, ao sinal convencionado, começou a passagem que, como já
dissemos, fora determinada, tivemos sob os olhos um espetáculo que
nada tinha de desinteressante.
Já se verificara, por meio de bons nadadores, a força de
resistência do cabo, sob pesos assaz consideráveis. Agora,
homens, em número sempre crescente, mas calculado, dele se
suspendiam mudando as mãos, enquanto os corpos, completamente
estirados pela velocidade da água à superfície, avançavam de
empuxão em empuxão acabando, não sem esforço nem perigo, por
atingir a margem oposta. Assim passou todo o 20.° batalhão.
Depois dele vimos coléricos tentar vencer o passo, e consegui-lo
não somente, como até ainda da prova se sairem alguns completamente
curados.
Alguns houve também que se afogaram; procurávamos no começo, por
meio de boas palavras, convencê-los a que esperassem; mas como
tivessem presenciado o abandono dos enfermos, ainda tão recente, não
lhes saia da mente a previsão de igual destino. Não houve
consideração que os levasse a aceitar manterem-se à retaguarda.
Teria sido preciso empregar a força para os conter; fora prudente e
justo deixá-los correr os riscos de um acaso cujos perigos queriam
afrontar como se alguma mercê implorassem.
Neste ínterim haviam armas e cartuchame sido transportados, em
pelota, com alguns enfermos quase agonizantes, a quem este favor não
pudera ser recusado, no estado de agitação convulsiva em que os punha
a rapidez dos nossos preparativos e, principalmente, a partida de
outros coléricos que tinham tido forças para passar pelo cabo.
Achando o comandante que já havia bastante gente do outro lado do
rio, resolveu que, no dia seguinte, se transportassem as nossas
quatro peças de artilharia. No meio de todas as nossas calamidades
haviam-se elas constituído em motivo de viva inquietação.
Abandoná-las como troféus ao inimigo era inadmissível. Já
outrora, em conselho de guerra, deliberara o coronel Camisão a seu
respeito, daí resultando uma ata autorizando o comandante a
fazê-las, em caso de premente necessidade, desaparecer no leito de
algum caudal, à maior profundidade possível, de modo que se pudesse
sempre, mais tarde, ir buscá-las, acaso por elas se interessasse o
sentimento nacional. Conhecíamos os paraguaios, porém; que
precauções poderiam ocultar-lhes tal depósito? De sobra sabiam o
que teis armas lhes haviam custado para que elas pudessem escapar às
pesquisas prováveis que não deixariam de fazer.
Fosse como fosse, ainda não nos havia sido imposto tal sacrifício,
era, sobretudo, para salvar os canhões que o major José Tomás
Gonçalves tivera a idéla da instalação do cabo, e, tomado de
legítimo entusiasmo, assistira ao seu feliz ensaio.
A 31, com a mais viva animação, puseram todos mãos à obra;
não houve quem se não prestasse, quer para trazer à ribanceira a
primeira peça, quer para multiplicar os nós da amarração em torno
dos troncos de árvores da margem e os consolidar, quer ainda para a
fixação das polias que deviam facilitar o transporte.
Moveu-se, afinal, a boca de fogo e quando puxada, de modo a
escorregar ao longo do cabo, por diversas juntas de bois colocadas na
ribanceira oposta, pareceu seguir regularmente, estrepitosas
aclamações ergueram-se, em ambas as margens, acompanhando-a até
que saisse d'água. No meio da corrente tanto fizera o cabo boiar que
lhe receáramos o desaparecimento completo. Menos feliz foi a segunda
peça: escapou de uma das alças, arrancou as demais e caiu no fundo
do rio. Pouco faltou para que o cabo se não rompesse. Resistindo a
tão forte tensão e, de repente, liberto do peso que o
sobrecarregava, fustigou a água com enormes jactos de espuma,
deixando, contudo, o canhão no fundo d'água. Felizmente, a
nenhuma vida comprometeu o incidente que, em ambas as margens,
provocou intensa agitação.
Um soldado, cujo nome merece ser recordado, Damásio, ofereceu-se
imediatamente para mergulhar no ponto da imersão, e, tendo conseguido
reconhecer o fundo, pôde, após duas ou três emersões, para tomar
fôlego, passar em torno da peça uma corda de que se provera e serviu
para a puxar. Foi a lição aproveitada quanto aos cuidados tomados
com a amarração das demais bocas de fogo e apressou o resto da
operação, permitindo completar a passagem à tarde daquele dia e na
manhã seguinte.
A primeiro de junho, à tarde, achamo-nos todos, afinal, reunidos
em torno da casa de Lopes, no seu pomar por nós despojado dos
frutos, e logo, sem mais repouso ou alimento, recomeçamos a
caminhar. O inimigo, que passara para a margem direita, lançou
então os seus atiradores contra a nossa retaguarda. Comandava-o o
bizarro Pisaflores, que, com a costumada galhardia, não tardou em
repelir este novo assalto; o único inconveniente daí resultante foi
obrigar-nos a uma parada que nos deteve até a vinda da noite, que
nesta estação chega cedo. Embora não tivesse havido contramandado
algum, e apenas se interromposse a marcha, não foi sem alguma
surpresa que, logo após o toque de recolher costumeiro, ouvimos as
cornetas dar o sinal da partida imediata. Tornou-se a impressão
tanto mais viva e penosa quanto a escutidão se tornara mais profunda,
prenunciando-se próximo temporal e mais violento ainda. Cada qual,
no entanto, compreendeu a necessidade urgente de transpor, custasse o
que custasse, o espaço que nos separava da vila de Nioac, quando o
menor atraso de nossa parte podia causar-nos o aniquilamento total.
Recomeçamos, pois, a marcha, indo à vanguarda o capitão José
Rufino, que conhecia bem o caminho. Por mais sombria e tempestuosa
que estivesse a noite não nos ocultava a estrada que diante de nós se
abria, larga e plana. Caminhávamos a passo dobrado. Restavam-nos
poucos doentes, havendo vários falecido nos dias antecedentes, e
entre eles o alferes Muniz. No entanto os soldados que se revezavam
em carregar as padiolas começavam a murmurar ameaçando
desvencilhar-se da carga.
Este princípio de insubordinação que tudo poderia arruinar, não
teve, contudo, tempo para progredir. Avisado, caiu o comandante, a
todo galope e de espada desembainhada, sobre os rebeldes,
encontrando-os a implorar perdão.
Desde este momento reinou o silêncio na coluna, em obediencia às
ordens dadas. Subitamente, no meio da estrada, surgiu uma patrulha
paraguaia, a quem o zunir do vento e o ribombo do trovão haviam
encoberto qualquer suspeita de nossa aproximação; e, ainda, sem que
os seus cães, a ladrar, ou o gado, a mugir, houvessem dado o
alarma. Caminhando à frente da coluna, mandou nosso comandante que
estacássemos e deu ordem que nos preparássemos a carregar à baioneta
sobre o acampamento inimigo.
Mas já este a toda a pressa se retirava, deixando-nos o passo
livre, nem tempo teve de reunir todo o gado que tangia;
estremalharam-se alguns bois que apresamos; circunstância para nós
de inestimável valor; era a própria vida. Apesar da urgência que
nos impelia a avançar, não foi possível recusar aos soldados o tempo
necessário para carnear algumas das reses apanhadas e comer um pouco da
carne, às pressas assada.
Carregou-se o resto para as necessidades futuras. Atravessando o
posto abandonado, tomaram os soldados o que ainda ali havia de víveres
e até couros, que a penúria de dias precedentes lhes fazia considerar
como último e precioso recurso contra a inanição.
Recomeçando a caminhar acompanhou-nos a chuva ainda, sem que a nossa
marcha por isto se atrasasse, embora, de tempos a tempos, nos
víssemos forçados a estacar à espera da artilharia. Nos lugares
piores retardava-se e, com ela, o batalhão da retaguarda,
encarregado de a escoltar. Daí, freqüentemente, resultava, para a
nossa marcha, perturbação tanto maior quando as ordens eram
transmitidas ao longo da coluna, por meio de agudos gritos, sujeitos a
interpretações diversas. Avançamos, apesar de tudo, até às
quatro da madrugada. Dado, então, o sinal de alto, estrompados, e
quase sonambulos deixamo-nos cair no chão enrolados nos ponchos
encharcados como o capim e que nos servia de colchão.
Duas horas mais tarde, às seis, estávamos de pé e graças ao que
havíamos ingerido, sentindo-nos mais fortes prosseguimos, sob um
céu sereno e uma atmosfera tépida, a nossa intérmina caminhada para
Nioac, por toda a parte percebendo, sobre a estrada, onde os
paraguaios nos precediam, o rasto de seus cavalos.
Desde a última parada atravessávamos cerrado matagal, onde os
soldados, já não mais temendo o ataque da cavalaria, marchavam com
segurança, mais atastados uns dos outros. Sabíamos que o campo raso
só o veríamos depois de Canindé. Foi às duas da tarde que
avista-mos a mata desse nome, que é o do rio que a corta. A ele
chegamos às três, tendo vencido sete léguas, motivo de espanto
geral, dada a fraqueza em que nos achávamos.
Ao atravessarmos o rio deparou-se-nos o cadáver de um capataz de
carretas, chamado Apolinário, a quem os paraguaios acabavam de
matar. Pertencia ao comboio daqueles mascates parados na Machorra,
à espera de notícias e que, com os boatos dos combates de 8 e 9 de
maio, segundo os quais passáramos como perdidos, cuidaram de
retroceder. Vinte dias tinham gasto para atingir o Canindé, onde
encontraram os boiadeiros que ali nos deviam entregar uma boiada, mas,
antes de nossa chegada, haviam uns e outros caído às mãos do
inimigo.
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