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Foi a 1º de janeiro de 1867 que o coronel Carlos e Morais
Camisão, nomeado pela presidência de Mato Grosso, assumiu o
comando dos desventurados soldados que, só mesmo profundo sentimento
de disciplina, pudera até então manter em forma. É Miranda quase
inabitável, rodeada como se acha, e numa extensão considerável, de
depressões que a menor chuva, num instante, inunda, até mesmo na
melhor estação, e que os raios solares, som a mesma rapidez,
enxugam. Privada de boa água, pois a do Miranda é sempre agitada e
lodosa, a disposição do terreno não oferecia ali, aliás, nenhuma
das condições militares às quais, em rigor, poderiam ter sido
sacrificadas as considerações higiênicas. E com efeito, ao longo
de um caudal, acessível a grandes embarcações, estendem-se margens
uniformemente baixas a que tiram toda a segurança estradas abertas.
Freqüente e energicamente pronunciara-se a comissão de engenheiros
contra maior demora neste foco de infecção; e já, por duas vezes,
em relatório, o assinalara o chefe da junta médica como a causa de
ruína da expedição, pois de contínuo diminuía o seu pessoal, quer
pela morte, quer pela dispensa forçada dos doentes. Continuava o
beribéri a fazer em nossas fileiras numerosas vítimas naquele lugar
ainda sujeito à influência dos grandes pantanais que a tropa acabara
de atravessar, entre o Coxim e Miranda.
Estava Miranda em ruínas quando nossas forças ali entraram. Ao
partirem haviam-na os paraguaios incendiado. Ardera parte das
construções, mas eram evidentes os sinais de decadência, anterior
ao incêndio que sucedera à primeira fase de desenvolvimento e
prosperidade. Ainda se mantinham de pé prédios cômodos e sobre o
local de velha fortificação, outrora bem construído quartel, então
muito deteriorado pelo fogo, fechava uma praça de onde saíam duas
ruas que iam acabar em frente à igreja paroquial, ambas ladeadas de
casas erguidas a pequena distância umas das outras.
Da matriz apenas subsistiam as paredes laterais, e arcabouço da
torre, o galo de folha-de-flandes e uma cruz esculpida no alto do
frontão. Fora edificada graças aos esforços de virtuoso
missionário italiano, Frei Mariano de Bagnaia, que não somente
nela empregara o produto das esmolas, por ele próprio recolhidas em
toda a vizinhança, com incomparável trabalho e ardor, como ainda ali
aplicara a modesta côngrua.
Os tristes destroços desta igreja, saqueada pelos paraguaio, que
até os sinos lhe tomaram, havia algum tempo antes presenciado uma cena
que nos parece merecer menção.
A 22 de fevereiro de 1865, deixando Frei Mariano as margens do
Salobro, onde se refugiara, ao aproximar-se a invasão, viera, de
moto próprio, entregar-se aos paraguaios, no intuito de lhes pedir
compaixão para com a desventurada paróquia. Ao chegar à vila,
fora-lhe o primeiro cuidado correr à matriz, objeto da sua mais viva
solicitude. Desolador espetáculo o esperava: altares derribados, as
imagens santas despojadas dos adornos, enfim todas as mostras da
profanação. Ao presenciá-lo, dele se apoderou tal sentimento de
indignação e desespero, que não pôde dominar-se. Imediatamente,
e em tom retumbante, à frente do chefe paraguaio e seus comandados,
pronunciou solene anátema contra os autores de tais atentados.
Ouviram-no todos cabisbaixos, como se esta voz severa fora a de algum
daqueles Padres que outrora lhes haviam catequizado os antepassados,
esforçando-se o comandante em convencer o missionário que os únicos
culpados eram os Mbaias (Índios).
Lavado em lágrimas, corria o santo homem de altar em altar, como
para verificar os ultrajes praticados contra cada um dos objetos de sua
veneração. Só após minuciosa constatação de todas as
indignidades cometidas se resignou a celebrar o santo sacrifício da
missa; e isto depois de tudo haver disposto para que a cerimônia se
pudesse realizar.
De cento e treze dias, foi a permanência da coluna em Miranda - de
17 de setembro de 1866 a 11 de janeiro seguinte. A 28 de
dezembro retirou-se um dos comandantes enviados da capital de Mato
Grosso, ele próprio atacado pela epidemia. A 31 de mesmo mês
apresentava-se em Miranda o coronel Carlos de Morais Camisão; e
no dia imediato, 1º de janeiro de 1867, assumia o comando, como
já o dissemos.
Enviou imediatamente a Nioc dos membros da comissão de engenheiros,
Catão Roxo e Escragnolle Taunay, a fim de examinarem as estradas e
o local e preparar ali acampamentos, tomando ao mesmo tempo algumas
disposições relativas à recepção de enfermos e ao armazenamento das
munições de guerra e da boca.
A 10 tornou pública a ordem de marcha.
Nova organização dera ao corpo de exército. Anteriormente
dividia-se em duas brigadas, cada qual composta de três corpos. Mas
tanto uma como outra estavam tão reduzidas, que as manobras, baseadas
sobre um número certo de homens, se haviam tornado quase
impraticáveis. Pela fusão de todas em uma brigada de mil e
seiscentas praças, ficou o estado-maior aligeirado, e não sem
vantagens para o erário público, de pessoal supérfluo. Tal
medida, desde muito reputada útil, teve geral aprovação.
Moveu-se a força a 11; e, pela primeira vez, as peças de
artilharia montada, puxadas por bois, acompanharam a marcha da
infantaria.
Saíram os diferentes corpos da vila de Miranda completamente
fardados, armados e providos de munições, libertos,
pressentiam-no, das provações a que se submeteram, desvanecidos
daquele sentimento de disciplina que tudo os fizera suportar, embora
exercitando-se, cada vez mais, no manejo das armas. O que estes
homens pediam era um clima salubre que os revigorasse e os pusesse em
condições de agir. E este iam encontrá-lo em Nioac, a 210
quilômetros a sudesde de Miranda.
Era a estrada larga e corria ao longo de magníficos bosques, onde
predominavam os umbus balsâmicos, espalhando ao longe o perfume das
flores abertas, os piquis, carregados de frutos, e as inesgotáveis
mangabeiras.
São mui belos os acidentes do terreno; os ribeirões e riachos, a
correrem volumosos por toda a parte, ofereciam excelente água. Já
não mais pousávamos os olhos sobre as tristonhas perspectivas dos
pântanos. Pelo contrário, nos comprazíamos agora em contemplar
verdejantes campinas, trechos que apresentavam os mais poéticos
aspectos, à sombra de poderosos contrastes luminosos. Até Lauiad
ruma a estrada, diretamente, para leste. A partir deste ponto toma a
direção sul-sudeste. O panorama que então subitamente se desdobra
é realmente grandioso. Aos pés do espectador, vasta campina a que
embelezam magníficos acidentes; além, as grandes orlas da mata que
acompanham as sinuosidades das belas águas do Aquidauana; ao longe a
extensa serra de Maracaju, com os píncaros escavados, refletindo os
esplendores do Sol, e coroando toda esta massa prodigiosa, azulada
pela distância. Foi este ponto, com razão, chamado pelos
Guaicurus Campo Belo (Lauiad).
Parece apanágio dos povos civilizados o sentimento admirativo; pelo
menos bem raro é nos homens primitivos a sua manfiestação exterior.
No entanto, as grandes linhas de um quadro majestoso da natureza
conseguem, às vezes, vencer a feição material do selvagem, unindo
ao autor da obra o rude espectador maravilhado. O primeiro Guaicuru
que sobre esta região encantada deitou os olhos, não pôde conter a
exclamação de surpresa; com a voz gutural e cavernosa pronunciou a
palavra Lauiad, que para sempre a assinalou.
A quatro léguas de Lauiad está a Forquilha, onde o Nioac conflui
com o Miranda.
São todos estes panoramas de incomparável beleza. Uma eminência,
entre outras, de onde se dominam as margens cheias de mata do Uacogo,
do Nioc e do Miranda, enlaçando a planície em suas curvas
convergentes, oferece aspecto que sobrepuja ainda, se possível, o
panorama da Lauiad. Tão brilhante, tão suave a luz que a toda
aquela paisagem cobre que, involuntariamente, vem a imaginação
emprestar a sua magia a este irresistível conjunto dos encantos da
terra e do céu. Apertadas entre altas ribanceiras, cobertas de
taquaruçus, correm as águas frescas do Nioac sobre um leito quase
contínuo, de grés vermelho, disposto em grandes lajes; e, em
vários lugares, é a ação da correnteza sobre a pedra tão
notável, que se recomenda à atenção e ao estudo do geólogo. Mas
quem, sábio ou artista, não acharia farta messe nestes campos
admiráveis? Na extensão das dez léguas que separam a Forquilha de
Nioc têm os terrenos nível inferior aos que precedem Lauiad, muito
embora jamais possam, em tempo algum, ser invandidos pela
inundação. São, pelo contrário, secos e cobertos de pedregulho,
como de macadame natural. Nos cerrados surgem os piquis,
freqüentes; há também uma grande árvore que se cobre de bagas
açucaradas e agradáveis, a que chamam fruta-de-veado. Não se
mostram os jacarandás, também, aí raros.
Realizou-se a marcha para Nioac com muita ordem e regularidade.
Eram alguns doentes transportados em redes, outros em cangalhas
semelhantes aos cacolets usados pelo exército francês na Argélia e
da invenção de Larrey, no Egito. Grandes serviços nos prestou
este excelente modo de transporte. Suavizou, até, os últimos
momentos do capitão Lomba, do 21º batalhão, que morreu ao
chegar, supremo sacrifício, oferecido ao mau fado da nossa longa
permanência em Miranda.
A benigna influência do planalto que atingíramos fez desaparecer
completamente a epidemia. Restabeleceram-se do pronto os doentes:
não tornamos a ver aquelas terríveis dormências, sinais precursores
do mal que tantas vítimas causara.
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