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Fora a vila de Nioac abandonada pelo inimigo a 2 de agosto de
1866. Por toda a parte ali se viam vestígios do incêndio.
Poupadas, apenas, duas casas e uma pequena igreja de pitoresca
aparência. À primeira vista agrada o aspecto geral do lugar. De um
lado, o povoado e um ribeirão chamado Orumbeva; do outro, o rio
Nioac, cujas águas confluem cerca de 900 metros, para trás da
igreja, deixando livre, em torno desta, à direita e à esquerda, um
espaço duas vezes maior. Pequena colina fica-lhe em frente, a pouca
distância.
Ali chegamos às 11 horas de 24 de janeiro de 1867 acampando,
em ordem de batalha, com a direita encostada à margem direita de
Nioac; e a esquerda à mata do Orumbeva. Instalaram-se o
quartel-general e o trem à retaguarda, no local da vila, ocupando o
hospital as pequenas casas salvas do fogo e um grande galpão que às
pressas se construiu.
Serviu a nave da igreja - de onde se retirara tudo quanto ainda havia
de símbolos do culto - de depósito ao cartuchame e a todas as
munições.
Ergueram-se, de todos os lados, ranchos de palha, gurbis como lhes
chamam na Argélia, e, dentro em pouco, oficiais e soldados ali se
acharam tão bem instalados quanto as circunstâncias o permitiam. Um
bem-estar, desde vários meses ausente, o renovamento da existência
um sentimento de plenitude de vida a todos nós exaltava, e em todos se
transmutava na ânsia de sobressair, graças a algum brilhante feito
d'armas que chamasse a atenção do país para uma expedição desde
muito inativa. Reinavam no acampamento a esperança e a alegria.
Perigo havia, contudo, neste entusiasmo; e os que conheciam o
chefe, de si para si, indagavam, com secreto desassossego, qual lhe
seria a demonstração da iniciativa.
Ia-lhe no peito amarga lembrança que não conseguia remover da
mente. Ao abandonar o coronel Oliveira, comandante das armas da
província, a praça de Corumbá [1], embora estranho às
primeiras deliberações motivadoras desta precipitada retirada,
figurara neste triste episódio o coronel Camisão na qualidade de
comandante do segundo batalhão de artilharia; e, por tal motivo,
vira-se acoimado de solidariedade com este ato de fraqueza. Contra
ele servira-se a malevolência destas vozes cruéis, circulando, em
tal época, um soneto impresso, acerbo estigmatizador dos defensores
de Mato Grosso. Dentre os nomes nele apontados, lera o
próprio...
Subsistia a dor da afronta, profundamente magoado como se lhe achava o
pundonor militar. Com verdareira paixão aceitara o comando da
expedição. Seria, a seu ver, o modo de se reabilitar perante a
opinão pública e, desde tal momento, concebera o projeto não de se
manter na defensiva, como o critério o indicava, dada a exigüidade
dos recursos de que podia dispor, e sim de levar a guerra ao
território inimigo, fossem quais fossem as conseqüências.
Dia a dia. cada vez mais, tal idéia o empolgara. Sob, a
influência de legítimo ressentimento, tomou a feição da fixidez,
apesar da inata indecisão do caráter. Sinistro fadário o impelia ao
infortúnio.
Encontrava-se no arquivo da coluna um ofício do Ministro da Guerra
recomendado a marcha sobre o Apa logo que as conjunturas a tanto se
prestassem.
Ali enxergou, não o que exatamente havia, uma indicação
facultativa, mas a ordem de avançar, forma peremptória. Por mais
que se lhe fizessem observações: cego, graças a doentia
suscetibilidade, levava a mal que de menos contestável se lhe
objetasse.
Uma frase depreciativa a seu respeito pronunciada, imprudentemente
repetida, ainda lhe acirrou a inflexibilidade, tornando-o surdo a
quanto parecesse desviá-lo do projeto de invasão. Não era que lhe
não sopesasse as dificuldades; via, porém, os soldados cheios de
entusiasmo e já aguerridos; embalava-se na esperança de, à sua
testa, praticar grandes feitos; adestrava-os às manobras, por meio
de freqüentes exercícios, levava-os a empenhar combates simulados,
em que a artilharia representava ruidoso papel; e desta agitação
geral resultava uma animação de que ele próprio compartia.
Entretanto, algumas vezes também, percebia nitidamente que apenas
dispunha de uma vanguarda de exército em campanha; e era obrigado a
reconhecê-lo. As hesitações lhe voltavam então, e, chegado o
dia por ele próprio fixado para a arrancada das forças, achava sempre
motivo para o adiamento, embora precisasse invocar as razões na
véspera repelidas. Ora oficiava ao Ministro que nada podia
empreender sem cavalaria, e ora pretendia poder dispensá-la;
dolorosos embates entre a autoridade da razão clara e as inspirações
do orgulho magoado.
Era-lhe a atitude, aliás, sempre digna e firme; em todas as
questões administrativas trazia, sobretudo, o cunho de nobre
integridade. Não admitia uma diminuição ao prestígio de chefe e
sabia mantê-lo tanto mais quanto lhe assistia real singeleza e
amenidade.
Homem de quarenta e sete anos de idade, baixo e aparentemente
robusto, feições regulares, tez moreno-escura, olhos negros e
vivos, tinha larga testa e belo cranio, completamente calvo, que dos
paraguaios lhe valeu injuriosa alcunha. Sempre sério e preocupado,
era visto solitário, ou a conferenciar com o velho sertanista que nos
servia de guia, José Francisco Lopes.
Merece este ser apresentado ao leitor antes que o veja agir. Dentre
nós, os que tinham presentes os romances de Fenimore Cooper, nso
podiam, à vista do sertanejo brasileiro, o homem das solidões,
deixar de evocar a grande e singela figura de Olho de Falcão no
Último dos Moicanos.
Tivera, desde a infância, o pendor pelas entradas nos sertões
brutos. Contava-se também que um ato violento, da primeira
mocidade, lhe impusera, durante algum tempo, este modo de vida.
Viera depois a idade desenvolver-lhe todas as aptidões.
Prodigiosamente sóbrio, viajava dias inteiros sem beber, trazendo à
garupa da cavalgadura pequeno saco de farinha de mandioca, amarrado ao
pelego macio, que lhe forrava o selim. Jamais deixava o machado
destinado a cortar palmitos. Nascido na vila de Pinmi, em Minas
Gerais, dali, ao léu das aventuras, havia atingido todos os pontos
da área que se estende das margens do Paraná às do Paraguai. A
fundo conhecia as planícies que entestam com o Apa, divisa do Brasil
e do Paraguai. Numerosas localidades até então virgens do pé
humano, até mesmo selvagem, percorrera e a várias batizara (Pedra
de Cal, entre outras). Tomara, em nome do Brasil, posse, ele
só, de imensa floresta, no meio da qual chantara uma cruz,
grosseiramente falquejada, onde esculpira a inscrição P II
(Pedro Segundo), imponente madeiro, perdido no recesso dos
desertos. Criava a iniciativa do sertanista domínios ao soberano.
Numa viagem para estudar a navegação do rio Dourado, afluente do
Paraná, gravemente ferira a planta do pé, acidente de que jamais
pudera curar-se. Um dia. como lhe víssemos a chaga,
semicicatrizada, sempre a sangrar, disse-nos: "Prometeu-me o
governo dar-me, a título de recompensa, trezentos mil-réis, mas
nunca os pagou. Perdoei-lhe a divida; o que se me devia era uma
condecoração; já a tenho e nada mais quero".
Durante sete anos, com a família, residira no Paraguai; mas no
momento da invasão já estava de volta ao solo brasileiro, habitando,
à margem do rio Miranda, uma propriedade sua, que batizara Jardim,
fertilizada por seu trabalho e o dos filhos já crescidos. Ele e a
mulher, D. Senhorinha, generosamente hospedavam quantos ali fossem
ter.
Quando, em 1865, irromperam os paraguaios em território
brasileiro, conseguira escapar-lhes, mas único da família, que
caíra toda em poder do inimigo e fora transportada para a aldeia
paraguaia de Horcheta, a sete léguas da cidade de Concepción. Com
ela vivia o coração do velho guia.
Por todas estas razões, nele encontrou o coronel Camisão apaixonado
adepto. Desde que, dando-lhe a conhecer os seus projetos, acenou a
José Francisco Lopes com o ensejo de, como guia da expedição, ir
ter com a familia e vingar-lhe os agravos, empolgou o espirito do
sertanista brasileiro, que, apesar de todo o ardor, jamais perdeu,
contudo, a perfeita intuição das conveniências. Assim, nunca
esquecendo a modéstia da posição, freqüentemente dizia: "Nada
sei, sou sertanejo; os senhores que estudaram nos livros é que
sabem".
Era-lhe o orgulho num único ponto irredutível, no que tocava ao
conhecimento do terreno, legítima ambição, além do mais, pois
dela nos proveio a salvação. "Desafio, exclamava, todos os
engenheiros com as suas agulhas (bússolas) e plantas. Nos campos da
Pedra de Cal e Margarida sou rei. Só eu e os índios Cadiueus
conhecemos tudo isto".
Resolveu-se a partida de Nioac, embora já com grandes dificuldades
tivéssemos que lutar, sobretudo quanto ao abastecimento de gado.
Comunicou-se a ordem às tropas sem que se soubesse para onde se ia
marchar. Pensava a maioria que se tratava somente de alguma incursão
a fazer em território inimigo. Levava a coluna apenas o material
indispensável para um mês de ausência. Ficavam no acampamento as
mulheres dos soldados, exceto duas ou três.
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