|
Fortalecido em sua primeira resolução, não pôde entretanto, o
coronel Camisão executá-la sem deixar perceber algumas das antigas
hesitações. Fora ele próprio que para 13 de abril marcara a
partida; adiou-se para o dia imediato, embora, desde o romper
d'alva, tudo estivesse pronto e o corpo do exército em ordem de
marcha. Só em hora avançada tornou conhecida a nova determinação,
a tal respeito estendendo-se em explicações que a todos espantavam,
provocando malignas interpretações, principalmente a propósito dos
pousos, que fixara. Dispusera-os com efeito de modo que a coluna
chegàsse a Bela Vista, ou em suas imediações, isto é na
fronteira, no sábado de Aleluia ou domingo de Páscoa, para que ali
se celebrasse esta solenidade. - "Assim diziam os críticos, os
tiros de peça, iniciais de nossa entrada em fogo, serão os mesmos
que geralmente acompanham a cerimônia religiosa: a iniciativa da
campanha será coberta pela festa".
Treze de abril foi, pois, ainda um dia perdido: gastaram-se as
horas da manhã em preliminares de viagem, inteiramente supérfluos, e
cujo único objetivo parecia procurar entreter os soldados. Estes,
aliás, a tudo se prestavam com a melhor disposição. Fizera-se
ouvir o hino nacional e uma explosão de entusiasmo o acolhera.
Vários ajudantes-de-ordens se despacharam então, cada qual do seu
lado, a ler uma ordem do dia. apelando para o patriotismo da coluna e
a lhe relembrar a confiança nos chefes. Enérgicas aclamações
estrugiram ainda, após esta proclamação, repetindo-se várias
vezes: chegara ao auge a animação. No entanto caíra a noite, que
se passou sem que nos houvéssemos movido. Viram todos comandante,
meditativo como sempre, passear na sombra, em frente à sua barraca,
por mais tempo e mais tarde do que geralmente fazia.
No dia seguinte, desfilou o corpo diante dele; com isto pouco a pouco
se animou. Já a vanguarda, contudo devia dar-lhe motivos de
reflexão, composta como e de homens de nossa cavalaria desmontada. E
com efeito já relatamos que não tínhamos mais cavalos, todos
vitimados na região de Miranda por uma epizootia do gênero da
paralisia reflexa que a nós mesmos, tão cruelmente, viera provar.
Quando muito pudera o serviço de faxina conservar alguns muares.
Faltava-nos o elemento primordial da guerra nestes terrenos, a
cavalaria; e não havia quem com isto se não impressionasse.
Malgrado a diferença de feição, a que se tinha: de resignar, nada
perderam os nossos caçadores do aspecto marcial. Após eles marchava
o 21.° batalhão de linha, precedendo uma bateria de duas peças
raiada depois o 20.° batalhão, outra bateria igual à primeira
acompanhada pelo 17.° de Voluntários da Pátria; e afinal as
bagagens, o comércio, com a sua gente e material, as mulheres dos
soldados, bastante numerosas.
Ocupava o gado o flanco esquerdo, com as carretas de munições de
guerra e de boca, massa confusa protegida por forte retaguarda.
Tínhamos o Miranda à frente; os soldados o atravessaram; uns
levantando acima d'água armas, cinturões patronas; outros sobre uma
ponte volante que os engenheiros acabaram de construir, auxiliando-os
neste trabalho urgente um 2.° tenente de artilharia, Nobre
Gusmão, jovem oficial, cheio de inteligência, que nes ocasião
demonstrou o zelo que mais tarde sempre pôs em destaque [3].
Mais de duas horas tomou esta travessia; neste ín rim havia o coronel
Camisão e seu estado-maior lido notícias que o correio de Mato
Grosso acabara de trazer nenhum comunicado, oficial ou privado,
relativo à ivasão do Paraguai pelo sul viera ao nosso comandan nem
coisa alguma que a tal fato se ligasse. Seriam, entanto, informes do
mais alto interesse, até mesmo indispensáveis no momento em que nos
aventurávamos à perigosa operação, sem que colimássemos prefixado
fim. Ás duas horas da tarde recomeçou a marcha, e, lentidão era
extrema: regulávamos o passo pelo dos bois que puxavam a artilharia e
ainda, de tempos a tempos todos estacavam, porque o próprio
Coronel, indo e vindo com o seu estado-maior, da frente à
retaguarda, punha-se com o óculo de alcance, a examinar as
cercantas, ora distraída ora muito atentamente. Surpreendia-nos
isto porque se jamais houve campos sem mistérios eram os que
atravessávamos. Estavam, então, inteiramente despidos;
recentemente incendiados neles perecera até a erva rasteira, de modo
que os atiradores distribuídos, no momento da partida, ao longo da
nossa coluna, para guardá-la, a ela se haviam incorporado,
dispensados dum serviço sem razão de ser.
Ao cair da noite atingimos elevado cômoro. A 16 recomeçou a
marcha na mesma ordem, somente deviam os diferentes corpos alternar,
de um dia para outro, àtesta, ao centro e à retaguarda.
Seguíamos uma estrada formada de dois trilhos paralelos, espaçados
por três ou quatro palmos de capim e este estendendo-se a perder de
vista pelas planícies desnudadas. Uma outra moita, ou arbusto,
quando muito, surgiam de vez em quando. Só no horizonte se divisavam
uns capões. Estavam os dois trilhos bem batidos, tornando-se
visível que havia pouco por eles tinham passado e tornado a passar
cavaleiros e em contingentes avultados.
Desta estrada partiam, de distância em distância, outros rastos de
cavalos encaminhados para os acidentes do solo, que permitiam a visão
ao longe. Não se podia mais duvidar que o inimigo nos observava a
marcha.
Fomos acampar perto do morro do Retiro, onde ocupamos a vertente em
cuja base nasce o volumoso ribeiro do mesmo nome. É nesse lugar
admirável a natureza; corre a água emoldurada de palmares, entre
margens ligeiramente sinuosas, revestidas de relva curta e fina, da
mais bela cor esmeraldina.
Não longe dali residira outrora esta mesma D. Senhorinha, cuja
hospitalidade já gabamos. Achava-se, então, casada, em primeiras
núpcias, com um Lopes (João Gabriel), irmão do nosso valente
guia José Francisco, e falecido em 1849. Residindo só, com
os filhos, então crianças, numa zona fronteiriça, onde não há a
mínima segurança para os fracos, já fora outrora a viúva presa e
levada por um magote de paraguaios. Reclamada, ao cabo de algum
tempo, pela legação brasileira em Assunção e liberta, em
1850, contraíra, segundo o costume generalizado naquela terra,
segundo casamento com o cunhado, o nosso guia, que a estabelecera em
sua estância do Jardim. Ali, ao começar a invasão, de 1865,
fora de novo presa e internada no Paraguai.
A 17 de abril, pela manhã, deixamos o Retiro e, duas léguas à
frente, encontramos uma construção em forma de galpão ou cabana que
evidentemente acabava de ser abandonada por uma ronda inimiga.
Erguia-se-lhe ao lado um destes mastros de vigia a que os paraguaios
chamam mangrulhos, grosso esteio ou travejamento de toscos madeiros,
pelos quais trepam para descortinar, ao longe, os terrenos
circunvizinhos. Haviam os nossos índios Guaicurus avançado até
ali, anteriormente, num reconhecimento do tenente-coronel Enéias
Galvão. Desta vez fizeram os selvagens, nossos aliados, alegre
fogueira do tal mastro e da choupana.
Avisaram neste momento ao Coronel que o nosso comboio se atolara à
saída do Retiro. Decidiu imediatamente que, sem interromper a
marcha, iríamos esperá-lo a alguma distancia, à vanguarda. Foi o
que fizemos assentando acampamento exatamente no local onde existira a
fazenda de João Gabriel. Grosso contingente d' vanguarda
colocou-se em observação sobre uma culminância que dominava a
campina.
Quem comandava este destacamento era um capitão da guarda nacional do
Rio Grande do Sul, Delfino Rodrigues de Almeida, mais conhecido
pelo apelido paterno de Pisaflores, homem enérgico, a cuja bravura
todo prestávamos homenagem. Vimo-lo olhar fixamente para oeste; de
repente, partido de diferentes pontos, rebôou um grito: A
fronteira! Da elevação onde se achava destacamento avistava-se com
efeito a mata sombria da Apa, limite das duas nações.
Momento solene este, em que entre oficiais e soldado nâo houve quem
pudesse conter a comoção! O aspecto da fronteira que demandávamos a
todos surpreende que realmente era novo. Podiam alguns já tê-la
visto mas com olhos do caçador ou do campeiro, indiferente. A maior
parte dos nossos dela só haviam ouvido vagamente falar; e agora ali
estava à nossa frente com ponto de encontro de duas nações armadas,
e como campo de batalha.
|
|