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Este livro é consagrado ao estudo da educação
medieval, ou seja, à educação que existiu em
diferentes fases do período milenar em que começaram a
surgir as modernas nações européias.
O termo educação abrange tanto um certo tipo de
atividade desenvolvida pela geração adulta com relação
às crianças e aos jovens, e cristalizada em
instituições, quanto às idéias ou concepções
expendidas a respeito da formação humana. Ao se
estabelecerem esses dois significados de educação,
balizam-se as fronteiras entre as quais vai decorrer o
estudo da pedagogia, o exame das instituições e das
atividades educacionais e das idéias ou concepções
pedagógicas. Evidentemente, há um nexo íntimo entre
os diferentes elementos constitutivos de uma cultura.
Assim, a educação relaciona-se intimamente com as
letras, as ciências, as artes, a religião, a economia
e com as demais instituições sociais. Todavia, a
divisão do trabalho intelectual e o gradual parcelamento
dos planos do saber e da investigação científica
determinaram várias classes de ciências e, dentro de
cada uma delas, múltiplos ramos da complexa árvore em
que se exprimiu aos poucos determinada área do
conhecimento. Assim, temos ciências como a
Matemática, a Física, a Biologia, o Direito, a
História, etc. E esta, por exemplo, subdivide-se em
ramos conforme as idades, os povos e os vários aspectos
culturais considerados. Daí a História Antiga, a
Medieval, etc., a História da França e do Brasil,
a História da Igreja Católica, da Filosofia, das
Ciências ou a História da Educação. Por isso, é
ponto pacífico de epistemologia especial que a História
da Educação tem um objeto preciso e nítido: a
educação. Embora esse ramo da ciência histórica tenha
conexão com os demais, e ainda que se levem em conta
outras interferências sociais de um povo numa certa época
no processo educativo, não se pode pretender que essa
disciplina se transforme numa pansofia incomparável onde
se acolham todas as ciências, letras e artes. Pode-se
reconhecer o valor dos grandes literatos, dos cientistas,
dos governantes, dos líderes religiosos, dos artistas,
mas as suas obras só devem merecer contemplação num
estudo de História da Educação, se tiverem
efetivamente contribuído para o patrimônio das idéias
pedagógicas ou se tiverem influenciado as instituições
ou as atividades educacionais. Assim, poetas como
Homero ou Dante têm capital importância para o estudo
da educação da Grécia antiga e do século XIII
medieval, enquanto Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu
não tiveram o mesmo papel quanto à educação
brasileira, pois o fato de figurarem em livros de texto
atesta apenas o seu valor literário e não a sua
importância educacional. Aliás, é bom lembrar que
existe uma História da Cultura e que a História da
Educação não a pode substituir sob pena de perder a
própria individualidade.
Confessava, certa vez, um biólogo ser um medievalista
frustrado, mas desculpava-se com afirmar que no Brasil
é impossível estudar a Idade Média. Ora, se tal
afirmação fosse procedente, dever-se-ia asseverar
pari-passu ser impossível estudar no Brasil a História
Antiga, a História da Grécia, de Roma, da India,
etc. A História é uma ciência complexa e empolgante.
Uma pessoa não lhe pode esmiuçar todas as áreas, tal
como também ocorre na Biologia e nas demais ciências.
Não estamos mais na época renascentista, quando Pico
della Mirandola blasonava de discutir de omni re scibili,
sobre qualquer assunto. No domínio da História, como
nas outras ciências, há especialização de campos,
divisão do trabalho e da pesquisa. Um estudioso elege a
antigüidade para campo especial da própria
investigação, outro prefere a Idade Média ou o
século XVIII na Europa ou até mesmo em certa
nação européia. Quem se dedica ao estudo da
antigüidade vai aplicar-se mais, quem sabe, à
filologia, à paleografia, ao exame das fontes escritas
ou documentos ou preferirá, talvez, consagrar-se à
história das idéias, seja pesquisando documentos
inéditos e cotejando-os para a divulgação erudita,
seja encantonando-se no domínio da exegese dos textos já
descobertos e publicados. Deste modo, um brasileiro
interessado em História Medieval pode adquirir na
Europa os conhecimentos indispensáveis de paleografia e
dos monumentos medievais e consagrar-se a trabalhos de
crítica, enriquecendo com as suas pesquisas o mundo da
erudição ou dedicar-se, por exemplo, ao conhecimento
direto das obras artísticas da Idade Média. Mas ele
pode, também, permanecer no Brasil e, limitando as
suas pretensões, trabalhar com as fontes à
disposição, consagrando-se à investigação dos
documentos impressos e aplicando-se à elaboração de
trabalhos de síntese histórica, ou arrancando aos textos
alguns segredos latentes. Como diz Marrou em sua obra
Do conhecimento histórico, "um estoque determinado de
documentos representa uma massa inesgotável de
ensinamentos, porque existe um número indefinido de
perguntas diferentes a que estes documentos são
suscetíveis de responder, se forem bem interrogados. A
originalidade do historiador consistirá amiúde em
descobrir a maneira como tal grupo de elementos, que já
se consideravam bem explorados, pode passar a responder a
uma pergunta nova" [1]. Ora, qualquer estudioso do
Japão, da Colômbia ou do Brasil pode formular uma
nova pergunta a textos há muito publicados e bem
explorados e, com isso, contribuir para o enriquecimento
dos conhecimentos históricos.
Aqui no Brasil são, ainda, muito raros os estudos
originais a respeito da Idade Média. Mas, apesar do
biólogo pessimista, esses estudos já começaram a
aparecer. Em se tratando, porém, de História da
Educação Medieval, tudo está por fazer, à
diferença do que acontece, por exemplo, nos Estados
Unidos onde pululam medievalistas com trabalhos de fazer
inveja à própria Europa.
Um professor estrangeiro dizia-nos, certa vez, que para
acorrer às necessidades de textos escolares bastaria
traduzir um manual francês ou espanhol. Aliás, é o
que tem acontecido não só aqui no Brasil como em outros
países: a importação das idéias através da tradução
de manuais para uso escolar. Este recurso, no entanto,
imperou no tempo em que no Brasil inexistiam faculdades de
Filosofia, Ciências e Letras. Depois que se formaram
as primeiras gerações acadêmicas, não só as
traduções de textos escolares de alto nível se
multiplicaram e apuraram, como, também, começaram a
surgir trabalhos originais devidos aos engenhos
patrícios. E isso significa progresso cultural,
progresso do Brasil.
Não acalentamos a pretensão de apresentar nenhuma obra
grandiosa ou arrojada, mas sentimo-nos felizes em poder
sintetizar os nossos estudos e pesquisas a respeito da
Educação Medieval conduzidos através de quinze anos de
ensino dessa disciplina no Departamento de Pedagogia da
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP
e, depois, na sua Faculdade de Educação. Esperamos
que o nosso livro possa contribuir para o estudo dos
universitários obrigados a conhecer essa disciplina,
assim como pretendemos sugerir-lhes pistas para a
investigação e orienta-los na escolha de uma
bibliografia inicial que lhes permita gradativamente
avançar nesse campo de conhecimentos. Além disso, ele
poderá concorrer, outrossim, para satisfazer a sede de
conhecimentos de pessoas interessadas no estudo da cultura
medieval. De acordo, pois, com esses objetivos,
procuramos escrever uma obra que não se realce pelo apuro
da erudição - o que a reservaria apenas a um pequeno
grupo de leitores - e que não se restrinja, por outro
lado, a ser apenas um sumário de noções alinhavadas às
pressas ou resumidas de outros manuais. Nossa intenção
é oferecer ao leitor um livro prestativo em que o
interesse dos estudiosos da História da Educação na
Idade Média se beneficie dos esforços e reflexões
realizadas com dedicação numa vida consagrada à pesquisa
e ao magistério.
A prática pedagógica há muito nos adverte a respeito
das idéias errôneas, dos preconceitos e das fábulas
concernentes à Idade Média e que muitos alunos
assimilaram de professores desavisados, de livros eivados
de noções falsas e rejeitáveis ou de romances, fruto da
pura fantasia. Por essa razão, consagramos o primeiro
capítulo à consideração do conceito de Idade Média,
à psicanálise dos preconceitos contra ela acumulados e ao
exame das principais fábulas que a leviandade e a
ignorância insistem em perpetuar. De seguida,
apresentamos, no segundo capítulo, algumas noções
preliminares sobre temas importantes de História
Medieval, pois, ao se tratar da educação na Idade
Média, supõe-se que o estudante já conheça, pelo
menos de perfil, os principais eventos desse longo
período histórico. No entanto, o convívio diuturno
com os alunos revela-nos sempre que eles ignoram tudo ou
quase tudo a respeito de História Medieval. É
recomendável, por conseguinte, que ao se iniciar o
estudo da História da Educação na Idade Média
sempre se tenha à mão para consulta um bom tratado de
História Medieval, assim como alguma obra séria de
História da Igreja, uma vez que no medievo a religião
impregna as instituições e caracteriza a cultura. Neste
sentido, reservamos o segundo capítulo para o tratamento
de algumas questões preliminares de História Medieval.
Por fim, convém lembrar que tratamos neste livro de
muitos assuntos mas que não lhes esgotamos todos os
aspectos ou implicaçoes pois cada um de per si já
bastaria para um ou vários volumes. Nosso trabalho pode
considerar-se, com justiça e sem demasiada presunção,
como uma visão sintética da educação medieval, como
uma primeira introdução ao seu estudo e como estímulo ao
engenho e à argúcia dos leitores mais dispostos às
grandes aventuras do pensamento.
Convém, ainda, advertir o leitor que os nomes de
autores e obras citados no texto são indicados devidamente
na bibliografia que acompanha os capítulos.[2] Nela
figuram, ademais, algumas outras obras recomendáveis
para ulteriores estudos, mas sem termos a pretensão de
indicar uma bibliografia exaustiva, já que hoje existem,
à disposição dos estudiosos, excelentes repertórios
bibliográficos e os fichários especializados das
bibliotecas.
Por último, queremos informar aos leitores deste livro
que o seu estudo seria ainda mais proveitoso, se pudessem
ler, também, outra obra publicada por esta mesma
Editora Pedagógica Universitária, que redigimos na
intenção de fundamentar este livro. Trata-se da
História da Educação na Antigüidade Cristã. Não
se pode compreender a pedagogia medieval, nem se lhe pode
aquilatar a Filosofia da Educação sem o prévio
conhecimento do legado doutrinário dos Antigos e dos
Santos Padres. Aliás, até o século XIII, a
orientação educacional da Idade Média foi
visceralmente agostiniana e Santo Agostinho foi o último
Santo Padre e o grande inspirador do pensamento
medieval.
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