Rui Afonso da Costa Nunes

Professor de Filosofia
da Educação na FEUSP

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
NA IDADE MÉDIA


INTRODUÇÃO

Este livro é consagrado ao estudo da educação medieval, ou seja, à educação que existiu em diferentes fases do período milenar em que começaram a surgir as modernas nações européias.

O termo educação abrange tanto um certo tipo de atividade desenvolvida pela geração adulta com relação às crianças e aos jovens, e cristalizada em instituições, quanto às idéias ou concepções expendidas a respeito da formação humana. Ao se estabelecerem esses dois significados de educação, balizam-se as fronteiras entre as quais vai decorrer o estudo da pedagogia, o exame das instituições e das atividades educacionais e das idéias ou concepções pedagógicas. Evidentemente, há um nexo íntimo entre os diferentes elementos constitutivos de uma cultura. Assim, a educação relaciona-se intimamente com as letras, as ciências, as artes, a religião, a economia e com as demais instituições sociais. Todavia, a divisão do trabalho intelectual e o gradual parcelamento dos planos do saber e da investigação científica determinaram várias classes de ciências e, dentro de cada uma delas, múltiplos ramos da complexa árvore em que se exprimiu aos poucos determinada área do conhecimento. Assim, temos ciências como a Matemática, a Física, a Biologia, o Direito, a História, etc. E esta, por exemplo, subdivide-se em ramos conforme as idades, os povos e os vários aspectos culturais considerados. Daí a História Antiga, a Medieval, etc., a História da França e do Brasil, a História da Igreja Católica, da Filosofia, das Ciências ou a História da Educação. Por isso, é ponto pacífico de epistemologia especial que a História da Educação tem um objeto preciso e nítido: a educação. Embora esse ramo da ciência histórica tenha conexão com os demais, e ainda que se levem em conta outras interferências sociais de um povo numa certa época no processo educativo, não se pode pretender que essa disciplina se transforme numa pansofia incomparável onde se acolham todas as ciências, letras e artes. Pode-se reconhecer o valor dos grandes literatos, dos cientistas, dos governantes, dos líderes religiosos, dos artistas, mas as suas obras só devem merecer contemplação num estudo de História da Educação, se tiverem efetivamente contribuído para o patrimônio das idéias pedagógicas ou se tiverem influenciado as instituições ou as atividades educacionais. Assim, poetas como Homero ou Dante têm capital importância para o estudo da educação da Grécia antiga e do século XIII medieval, enquanto Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu não tiveram o mesmo papel quanto à educação brasileira, pois o fato de figurarem em livros de texto atesta apenas o seu valor literário e não a sua importância educacional. Aliás, é bom lembrar que existe uma História da Cultura e que a História da Educação não a pode substituir sob pena de perder a própria individualidade.

Confessava, certa vez, um biólogo ser um medievalista frustrado, mas desculpava-se com afirmar que no Brasil é impossível estudar a Idade Média. Ora, se tal afirmação fosse procedente, dever-se-ia asseverar pari-passu ser impossível estudar no Brasil a História Antiga, a História da Grécia, de Roma, da India, etc. A História é uma ciência complexa e empolgante. Uma pessoa não lhe pode esmiuçar todas as áreas, tal como também ocorre na Biologia e nas demais ciências. Não estamos mais na época renascentista, quando Pico della Mirandola blasonava de discutir de omni re scibili, sobre qualquer assunto. No domínio da História, como nas outras ciências, há especialização de campos, divisão do trabalho e da pesquisa. Um estudioso elege a antigüidade para campo especial da própria investigação, outro prefere a Idade Média ou o século XVIII na Europa ou até mesmo em certa nação européia. Quem se dedica ao estudo da antigüidade vai aplicar-se mais, quem sabe, à filologia, à paleografia, ao exame das fontes escritas ou documentos ou preferirá, talvez, consagrar-se à história das idéias, seja pesquisando documentos inéditos e cotejando-os para a divulgação erudita, seja encantonando-se no domínio da exegese dos textos já descobertos e publicados. Deste modo, um brasileiro interessado em História Medieval pode adquirir na Europa os conhecimentos indispensáveis de paleografia e dos monumentos medievais e consagrar-se a trabalhos de crítica, enriquecendo com as suas pesquisas o mundo da erudição ou dedicar-se, por exemplo, ao conhecimento direto das obras artísticas da Idade Média. Mas ele pode, também, permanecer no Brasil e, limitando as suas pretensões, trabalhar com as fontes à disposição, consagrando-se à investigação dos documentos impressos e aplicando-se à elaboração de trabalhos de síntese histórica, ou arrancando aos textos alguns segredos latentes. Como diz Marrou em sua obra Do conhecimento histórico, "um estoque determinado de documentos representa uma massa inesgotável de ensinamentos, porque existe um número indefinido de perguntas diferentes a que estes documentos são suscetíveis de responder, se forem bem interrogados. A originalidade do historiador consistirá amiúde em descobrir a maneira como tal grupo de elementos, que já se consideravam bem explorados, pode passar a responder a uma pergunta nova" [1]. Ora, qualquer estudioso do Japão, da Colômbia ou do Brasil pode formular uma nova pergunta a textos há muito publicados e bem explorados e, com isso, contribuir para o enriquecimento dos conhecimentos históricos.

Aqui no Brasil são, ainda, muito raros os estudos originais a respeito da Idade Média. Mas, apesar do biólogo pessimista, esses estudos já começaram a aparecer. Em se tratando, porém, de História da Educação Medieval, tudo está por fazer, à diferença do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos onde pululam medievalistas com trabalhos de fazer inveja à própria Europa.

Um professor estrangeiro dizia-nos, certa vez, que para acorrer às necessidades de textos escolares bastaria traduzir um manual francês ou espanhol. Aliás, é o que tem acontecido não só aqui no Brasil como em outros países: a importação das idéias através da tradução de manuais para uso escolar. Este recurso, no entanto, imperou no tempo em que no Brasil inexistiam faculdades de Filosofia, Ciências e Letras. Depois que se formaram as primeiras gerações acadêmicas, não só as traduções de textos escolares de alto nível se multiplicaram e apuraram, como, também, começaram a surgir trabalhos originais devidos aos engenhos patrícios. E isso significa progresso cultural, progresso do Brasil.

Não acalentamos a pretensão de apresentar nenhuma obra grandiosa ou arrojada, mas sentimo-nos felizes em poder sintetizar os nossos estudos e pesquisas a respeito da Educação Medieval conduzidos através de quinze anos de ensino dessa disciplina no Departamento de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e, depois, na sua Faculdade de Educação. Esperamos que o nosso livro possa contribuir para o estudo dos universitários obrigados a conhecer essa disciplina, assim como pretendemos sugerir-lhes pistas para a investigação e orienta-los na escolha de uma bibliografia inicial que lhes permita gradativamente avançar nesse campo de conhecimentos. Além disso, ele poderá concorrer, outrossim, para satisfazer a sede de conhecimentos de pessoas interessadas no estudo da cultura medieval. De acordo, pois, com esses objetivos, procuramos escrever uma obra que não se realce pelo apuro da erudição - o que a reservaria apenas a um pequeno grupo de leitores - e que não se restrinja, por outro lado, a ser apenas um sumário de noções alinhavadas às pressas ou resumidas de outros manuais. Nossa intenção é oferecer ao leitor um livro prestativo em que o interesse dos estudiosos da História da Educação na Idade Média se beneficie dos esforços e reflexões realizadas com dedicação numa vida consagrada à pesquisa e ao magistério.

A prática pedagógica há muito nos adverte a respeito das idéias errôneas, dos preconceitos e das fábulas concernentes à Idade Média e que muitos alunos assimilaram de professores desavisados, de livros eivados de noções falsas e rejeitáveis ou de romances, fruto da pura fantasia. Por essa razão, consagramos o primeiro capítulo à consideração do conceito de Idade Média, à psicanálise dos preconceitos contra ela acumulados e ao exame das principais fábulas que a leviandade e a ignorância insistem em perpetuar. De seguida, apresentamos, no segundo capítulo, algumas noções preliminares sobre temas importantes de História Medieval, pois, ao se tratar da educação na Idade Média, supõe-se que o estudante já conheça, pelo menos de perfil, os principais eventos desse longo período histórico. No entanto, o convívio diuturno com os alunos revela-nos sempre que eles ignoram tudo ou quase tudo a respeito de História Medieval. É recomendável, por conseguinte, que ao se iniciar o estudo da História da Educação na Idade Média sempre se tenha à mão para consulta um bom tratado de História Medieval, assim como alguma obra séria de História da Igreja, uma vez que no medievo a religião impregna as instituições e caracteriza a cultura. Neste sentido, reservamos o segundo capítulo para o tratamento de algumas questões preliminares de História Medieval. Por fim, convém lembrar que tratamos neste livro de muitos assuntos mas que não lhes esgotamos todos os aspectos ou implicaçoes pois cada um de per si já bastaria para um ou vários volumes. Nosso trabalho pode considerar-se, com justiça e sem demasiada presunção, como uma visão sintética da educação medieval, como uma primeira introdução ao seu estudo e como estímulo ao engenho e à argúcia dos leitores mais dispostos às grandes aventuras do pensamento.

Convém, ainda, advertir o leitor que os nomes de autores e obras citados no texto são indicados devidamente na bibliografia que acompanha os capítulos.[2] Nela figuram, ademais, algumas outras obras recomendáveis para ulteriores estudos, mas sem termos a pretensão de indicar uma bibliografia exaustiva, já que hoje existem, à disposição dos estudiosos, excelentes repertórios bibliográficos e os fichários especializados das bibliotecas.

Por último, queremos informar aos leitores deste livro que o seu estudo seria ainda mais proveitoso, se pudessem ler, também, outra obra publicada por esta mesma Editora Pedagógica Universitária, que redigimos na intenção de fundamentar este livro. Trata-se da História da Educação na Antigüidade Cristã. Não se pode compreender a pedagogia medieval, nem se lhe pode aquilatar a Filosofia da Educação sem o prévio conhecimento do legado doutrinário dos Antigos e dos Santos Padres. Aliás, até o século XIII, a orientação educacional da Idade Média foi visceralmente agostiniana e Santo Agostinho foi o último Santo Padre e o grande inspirador do pensamento medieval.