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1. Idade Média foi a expressão imprópria aplicada ao
período de mil anos que se iniciou no Ocidente com a
derrocada do Império Romano em 476, quando se deu a
queda de Roma sob o reinado de Rômulo Augústulo,
enquanto em Bizâncio se mantinha o Império Romano do
Oriente que se prolongaria até a queda de Constantinopla
sob os ataques dos turcos em 1453. Durante os mil
anos da nova idade, os bárbaros germânicos
converteram-se à religião cristã e assimilaram a
cultura romana que a Igreja lhes preservou. Surgiu,
assim, no cenário da política mundial a Europa com um
conjunto de nações que ainda hoje conduzem a
civilização, tal como a Alemanha, a França, a
Rússia, a Inglaterra, a Espanha, a Itália e as
demais, e que deram origem às modernas nações
americanas. Durante essa Primeira Idade, como Gustave
Cohen gostaria que se chamasse a Idade Média,
formaram-se as línguas e as literaturas das nações
modernas, como a portuguesa; forjou-se uma nova e
pujante civilização com as suas instituições típicas
tais como o parlamento, o júri, a universidade, a arte
gótica e as catedrais que assinalaram a civilização
européia. O historiador Roberto Lopez, no prefácio
da sua obra Nascimento da Europa, refere-se à Idade
Média como "essa grande caluniada" e considera o termo
Idade Média como o mais desastrado dentre inúmeros
rótulos apostos pelos historiadores a cortes arbitrários
do passado.
Ora, o cultor da História sabe hoje muito bem, e os
estudantes devem capacitar-se disso, por sua vez, que o
período medieval precisa ser estudado como qualquer outro
da história, tendo-se em mente que ele, como os
demais, apresenta feições típicas, assim como aspectos
positivos e negativos; que os homens medievais foram gente
como nós e que o termo Idade Média, apesar de
impróprio, já se tornou convencional, embora seja um
dos piores, como diz Pauphilet ao estudar o Mito da
Idade Média, pelo fato de parecer apenas ser uma
simples época intermediária, um corredor ou ante-sala
entre a Idade Antiga e a Moderna. Ele acrescenta que
esse termo tem tanto valor em si mesmo quanto um sinal
algébrico e que podemos usá-lo, desde que nos tenhamos
desembaraçado da ignorância e das prevenções que
outrora se lhe associaram.
2. Parece-nos ser de proveito resumir o que diz
Godefroid Kurth em seu opúsculo clássico "Qu'est-ce
que le Moyen Âge?" a respeito da origem do termo
impróprio de Idade Média. Diz ele que a definição
de Idade Média é puramente verbal e não passa de
tautologia pueril, já que a "Idade Média é uma idade
do meio ou intermediária". Isso ocorreu devido ao fato
de os historiadores terem transposto para o seu domínio de
estudos a terminologia usada pelos filólogos, ao
considerarem o desenvolvimento da língua latina, tendo as
palavras perdido o seu significado nessa transposição.
Os filólogos investigaram o desenvolvimento da língua
latina, verificaram-lhe as fases e deram nome a cada
uma. A primeira foi a do latim clássico - desde as
origens do Estado Romano até o reino de Constantino, o
Grande - falado pelos povos participantes da
civilização romana e no qual floriram as obras primas da
literatura. A segunda fase, que se estende até o reino
de Carlos Magno, foi a do latim bárbaro, após a
derrocada da civilização romana no Ocidente, quando os
povos germânicos desfiguraram o latim, mesclando-o com
as suas linguagens orais e dando origem aos modernos
idiomas europeus. Na última fase, iniciada após a
morte de Carlos Magno, os povos europeus servem-se das
línguas neolatinas ou dos idiomas germânicos trabalhados
pela influência latina, enquanto o próprio latim ficou
relegado aos livros no estado de língua morta. Os
filólogos denominaram a primeira fase de alta idade ou
idade superior, a segunda de idade média, e a terceira
de inferior ou ínfima. O termo Idade Média, por
conseguinte, de acordo com a etimologia e o significado
primitivo, só designou o período da latinismo situado
entre o reino de Constantino, o Grande, e o de Carlos
Magno. Tem-se disso confirmação no título do
célebre dicionário de Ducange: Glossarium mediae et
infimae latinitatis. A partir do século XVI, os
humanistas, certos de haverem regenerado a língua
latina, viram na sua época nova fase da latinidade e
confundiram a segunda e a terceira numa só idade de
decadência, de Constantino, o Grande, ao
Renascimento, que chamaram de média ou intermediária.
Os historiadores, por sua vez, sem nenhum espírito
crítico, passaram a tomar os séculos medievais como
intercalares do ponto de vista da civilização, e a
confusão das idéias seguiu-se à confusão dos termos.
Todavia, observa Kurth, a responsabilidade por essa
confusão coube propriamente aos pedagogos e não aos
historiadores. Embora o termo Idade Média já apareça
mencionado em 1639, foi Cristóvão Keller,
conhecido sob o seu nome latinizado de Cellarius, quem
introduziu por primeiro o termo no título de um dos seus
manuais escolares em 1688: Chr. Cellarii,
Historia Medii Aevi, a temporibus Constantini ad
Constantinopolim a Turcis captam deducta. Iena,
1688. Outro pedagogo, Loescher, retomou o termo
num manual em língua alemã, de 1725, e desde então
ele se consagrou no vocabulário do ensino e se disseminou
através da linguagem literária, em obras como as de
Voltaire (cf. Essai sur les moeurs, ch. 27),
Wieland e Goethe. Desse modo, fixou-se de maneira
imprópria a denominação de um período histórico que
não foi a fase intermediária entre a civilização antiga
e a moderna, mas um conjunto de séculos refertos de
eventos grandiosos e de transformações sociais do mundo
ocidental e que constituiu o início da civilização
moderna.
3. Do ponto de vista da História da Educação pode
adotar-se a seguinte periodização da Idade Média:
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a) a primeira fase após a queda do Império Romano do
Ocidente (476) até o reinado de Carlos Magno no
fim do século VIII, uma faixa de três séculos com a
mesma duração que no Brasil se estende de 1650 aos
nossos dias. Este, o período que os historiadores
ingleses denominam de Dark Ages.
b) A segunda fase alonga-se de 950 a 1200, ou
seja, do fim da linguagem carolíngia à concessão por
Felipe Augusto dos primeiros privilégios reais à
nascente universidade de Paris. Este período equivale
ao do apogeu da Idade Feudal.
c) A terceira fase abrange o século XIII e termina
com o gesto irreverente de Nogaret que assinala
simbolicamente o declínio da Idade Média.
d) A quarta e última fase caracteriza-se pelas
mudanças e convulsões sociais, pela transição do
feudalismo à monarquia, pela crise da cultura,
decadência das escolas e pelo surgimento do humanismo renascentista.
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Na primeira fase registra-se a decadência escolar do
mundo antigo, a implantação do monaquismo e a
transmissão da cultura romana aos povos germânicos
cristianizados. Na segunda assinalam-se os renascimentos
ou renovações da cultura nos reinados de Carlos Magno,
Alfredo, o Grande, e Otão, o cessamento das
invasões, o aumento da população, as grandes
transformações econômicas, a organização do
feudalismo e o renascimento do século XII. A terceira
fase constitui o apogeu da civilização medieval com o
florescimento das universidades, a constituição da
doutrina e do método escolásticos. A quarta fase,
finalmente, corresponde ao crepúsculo da Idade Média,
à decadência escolar e à crise da cultura do Ocidente,
época agitada e convulsa em que entra a surgir o
Renascimento, verdadeira idade média entre a Primeira
Idade da Civilização Ocidental e a Europa moderna.
4. Durante anos seguidos, ao começarmos o curso de
História da Educação Medieval, sempre deparamos nos
alunos com o inveterado preconceito contra a Idade
Média, haurido em fontes espúrias: professores
ignaros, compêndios de valor duvidoso, livros e artigos
sectários que teimam sempre em veicular a trôpega noção
das trevas medievais numa lamentável persistência no
erro, uma vez que não cabe, por justiça, aplicar a um
período de mil anos certos traços típicos e passageiros
das três primeiras centúrias. Aliás, este preconceito
não vem a ser fenômeno pasmoso num país que surgiu no
fim da Idade Média (1500) uma vez que, por
exemplo, ele se registra com a mesma freqüência e até
com mais intensidade em país tão culto e de tão fundas
raízes medievais como a França; tanto que a famosa
medievalista francesa Régine Pernoud, enfastiada com a
monumental tolice cevada pelos seus compatriotas, dedicou
o seu último livro, Pour en finir avec le Moyen Âge,
à confutação da cansativa balela.
O preconceito é um pseudoconhecimento, um juízo formado
sem o concurso da investigação e da reflexão pessoal,
um juízo anterior à própria experiência mas que é
sempre errôneo e injusto. Assim, apreciar uma pessoa
só através do que dela se diz, pode constituir um
preconceito, se a seu respeito se disseminou uma calúnia
ou retrato inverídico que o contato pessoal ou a devida
informação podem volatilizar incontinente. Portanto,
os preconceitos não são os conhecimentos verdadeiros e
justos adquiridos através da vida, mas os
pseudoconhecimentos, os juízos errôneos e injustos que
formamos através de conversas, leituras ou da atividade
fabuladora e inventiva da nossa própria imaginação.
Freqüentemente, na raiz do preconceito, mais do que o
hábito e a repetição inconsciente e irresponsável,
acham-se a prevenção e o ódio irracionais por causa de
motivos religiosos, de tradições absurdas e de
interesses pessoais. Assim, existem preconceitos de
classe, de raça e de religião. Ora, hoje está
comprovado à luz da investigação crítica que o período
medieval se tornou malsinado devido aos preconceitos
difundidos a partir do século XVI pelos humanistas e
pelos protestantes, e tio século XVIII pelos
enciclopedistas, vindo a ser determinado por motivos de
fanatismo cultural e religioso.
5. Ao estudioso da História, mais ainda do que ao
homem comum, cumpre combater os preconceitos e deles
desprender-se por amor à verdade e por dever de
justiça, pois eles impedem o reto conhecimento das
pessoas, das instituições, dos acontecimentos e das
coisas. Para isso, é preciso decisão e certa dose de
coragem, pois é evidente o prejuízo causado pelos
preconceitos, a sua periculosidade para a vida comum e
para o mundo da cultura. Bacon percebeu muito bem a
importância dessa questão e, por isso, põe em guarda
os pesquisadores da verdade quanto aos idola specus, os
ídolos da caverna, que impedem o acesso ao lídimo
conhecimento. É exatamente nesta intenção e nesta
perspectiva que se deve entender o que diz Bergson sobre o
mouvement retrograde du vrai no início da sua obra La
Pensée et le Mouvant. Com efeito, uma proposição
verdadeira tem validez universal no espaço e no tempo, a
não ser que ela não passe de um conhecimento falso, mas
admitido como se fosse verdadeiro. Mas o "movimento
retroativo da verdade" ocorre, quando pretendemos, por
exemplo, julgar os nossos longínquos antepassado, os
seus atos e as suas concepções, por meio dos nossos
critérios atuais e da nossa óptica contemporânea, o que
só nos pode conduzir à incompreensão do passado e a
juízos injustos sobre os homens de antanho. Está claro
que devemos reconhecer, como recomenda Régine Pernoud
na obra há pouco citada, que as pessoas na Idade Média
eram gente como nós, uma humanidade como a nossa, nem
melhor nem pior, que se deve estudar tão serenamente
quanto qualquer outra de diferentes períodos ou
idades [3]. Mas devemos levar em conta - e aqui
entra o cuidado, a precaução quanto ao "movimento
retroativo da verdade" - que essa humanidade de outras
épocas tinha a sua própria mentalidade, que não é
exatamente a nossa, e participava de uma cultura que não
se identifica ou quadra por inteiro com a do século vinte
em que vivemos. Desse modo, por exemplo, na sociedade
medieval profundamente cristã a heresia era equiparável
ao crime de lesa-majestade, haja vista a legislação de
Frederico II no começo do século XIII [4].
Durante as centúrias medievais, tal como na antigüidade
clássica, algum filósofo pôde discernir os direitos
inerentes à dignidade do ser humano, mas a concepção
vigente, a mentalidade comum e o espírito das
instituições permitiam aceitar, como uma convenção, o
instituto da escravatura ou da servidão. Aliás,
convém ter em mente que as primeiras declarações dos
direitos humanos datam apenas do século XVIII. Na
Idade Média, como aliás nos séculos XVI, XVII
e XVIII, na época dos humanistas e dos iluministas,
havia costumes e práticas atentatórios às mínimas e
mais comezinhas exigências da medicina e da higiene, haja
vista, para citar apenas três exemplos, a prática
exagerada e absurda das sangrias, a oposição levantada,
já no século XIX, às medidas de profilaxia
preconizadas por Pasteur ou a prevenção estulta e
agressiva contra as primeiras vacinas, fato corrente aqui
no Brasil ainda no começo do século XX. Ora, isto
nos deve esclarecer quanto às diferenças de mentalidade
entre os homens do nosso tempo e os de épocas transactas.
Por isso, ao se estudar a História, importa obter,
através de informações corretas, de fontes fidedignas,
de documentos autênticos, o conhecimento da mentalidade e
dos costumes vigentes nas épocas e regiões consideradas.
Além disso, deve-se acionar a própria fantasia para se
poder imaginar os homens de outros tempos nas suas
situações peculiares de vida, nas circunstâncias da sua
existência e, por fim, excitar em nós mesmos um
sentimento de "empatia histórica", para podermos
conceber e apreciar as pessoas de outras sociedades
passadas, com sua própria alma, com as suas concepções
e costumes. Isto é fundamental para que se possa
reconstruir mentalmente a vida passada das sociedades
humanas que nos deixaram um legado de idéias, crenças e
variadas tradições. Deste modo, ao mesmo tempo em que
estudarmos a humanidade passada, idêntica à nossa por
natureza, poderemos apreciá-la, também, enquanto
diferente acidentalmente de nós mesmos pela sua
mentalidade e pela sua cultura. Nas vicissitudes
históricas, o estudioso precisa saber discernir o Mesmo
e o Outro, o Permanente e o Transitório. Só assim
as suas investigações serão produtivas e os
conhecimentos crescerão cada vez mais adequados e
válidos.
6. O ensinamento bergsoniano a respeito do "movimento
retroativo da verdade" serve para alertar os estudiosos
quanto à errônea prescrição marxista para a
metodologia histórica e que Henri Lefebvre expõe na sua
obra La Fin de l'Histoire: "Marx indicou claramente
o procedimento do pensamento historiador. O historiador
parte do presente e não pode deixar de partir dele:
experiência prática, conceitos em via de explicação ...
O seu procedimento é inicialmente recorrente. Vai
do presente ao passado. Após o que retorna ao atual, a
partir desse momento analisado e conhecido, em vez de
oferecer à análise uma totalidade confusa" [5].
Ora, nessa concepção esconde-se grosso erro que é
preciso escarnar a bem da verdade. A História é a
ciência dos fatos passados da humanidade. A
interpretação desses fatos vale-se de todos os
conhecimentos atualmente disponíveis, mas depende
fundamentalmente dos documentos que proporcionam a visão
dos acontecimentos e cujo conteúdo não pode ser
extrapolado, assim como exige, a título de preceito
metodológico básico, que se analisem esses
acontecimentos ou fatos no quadro local e ambiental, na
situação cultural e nas circunstâncias em que se deram
ou ocorreram. Por isso, se o historiador, como é
natural, parte dos seus conhecimentos presentes, para
fazer análise e síntese histórica, ele não vai
pretender explicar o passado pelo presente, pois isso
engendra conclusões anacrônicas e completa distorção
das explicações dos fatos passados. Daí, o grande
erro marxista dos que pretendem impingir um conceito de
feudalismo aos regimes históricos que existiram na Europa
medieval, quando o certo é partir dos documentos para se
tirarem as conclusões a respeito do efetivo feudalismo
europeu durante a Idade Média [6].
7. No primeiro ensaio do seu livro Legs du Moyen
Âge, trata Pauphilet do "mito da Idade Média" que
se começou a formar desde o século XVII. Através
de certas obras, surgia a imagem de uma Idade Média
enérgica, leal e franca, incapaz de faltar à
sinceridade e à honra. Com o aparecimento do
romantismo, no século XIX, esplende ainda mais a
imagem ideal da Idade Média heróica, com a reverência
à mulher e os feitos gloriosos dos cavaleiros. Esse
"mito da Idade Média" constituiu uma exacerbação e
sublimação de certos aspectos positivos e notáveis da
civilização medieval, mas o seu exclusivismo e o seu
exagero acabavam por deixar no espírito dos leitores das
obras românticas uma idéia errônea, por incompleta, da
vida na Idade Média. Como adverte D. Manuel
Gonçalves Cerejeira na sua luminosa obra A Idade
Média na história da civilização: "Aos literatos
românticos faltou em regra o sentido histórico,
dando-nos uma Idade Média de convenção, muito
idealizada. Valem todavia como índices do novo estado de
alma, da diversa atitude dos espíritos" [7]. Ora,
diante dos preconceitos que caluniam e desfiguram a Idade
Média, e do mito romântico que a idealiza com exagero,
poderíamos falar da lenda negra e da lenda rósea a
respeito da civilização medieval. Todavia, é patente
a qualquer estudioso que nas publicações hodiernas a
lenda negra sobrepuja o mito da Idade Média e vigora
ainda com persistência nos artigos e referências
irresponsáveis de jornalistas e foliculários como,
também, nas falas levianas de locutores ou animadores de
televisão. Isso foi bem exposto, ainda, por Pauphilet
que no citado ensaio sobre "O mito da Idade Média"
demonstra como a lenda negra nasceu da hostilidade contra a
religião católica, pois na Idade Média o cristianismo
foi todo poderoso, e essa prevenção e tal hostilidade
são expressas claramente por Voltaire no seu Essai sur
les Moeurs "que com um ar de Resumo de história
universal é antes de tudo um requisitório contra a
Igreja" [8].
8. Durante o século XIX deu-se o nascimento da
historiografia moderna e a ciência histórica
inscreveu-se no rol das disciplinas positivas em que se
esgalha a árvore do saber factual. A luz da pesquisa
histórica rigorosa, empreendeu-se o estudo do período
medieval a ser considerado serenamente como qualquer
outro, e a investigação séria das fontes começou a
iluminá-lo e a espancar as trevas malévolas dos
preconceitos, assim como a atenuar a irisação da lenda
rósea. Contudo, já que o preconceito é alimentado
pelas paixões, a lenda negra continua a ser profundo
engano, difícil de erradicar. Daí os esforços de
certos historiadores em combatê-la em obras de teor de
apologética da História medieval, tal como o citado
Pauphilet na obra Legs du Moyen Âge, Gustave Cohen
em La Grande Clarté du Moyen Âge, Régine Pernoud
especialmente com os seus livros Lumière du Moyen Âge e
Pour en finir avec le Moyen Âge, e o grande humanista
português Gonçalves Cerejeira em sua obra A Idade
Média na história da civilização. Deixamos, pois,
assentado que a Idade Média européia é um período
histórico' a ser devidamente considerado como qualquer
outro; mas particularmente importante para nós
brasileiros, uma vez que o Brasil foi descoberto e
colonizado pelos portugueses no fim da Idade Média e de
Portugal herdou a religião, as tradições culturais e
os costumes de tal modo que, apesar das contribuições
indígenas e africanas, o núcleo da brasilidade é legado
europeu e lusitano. As nossas tradições escolares, por
exemplo, são de ascendência portuguesa e jesuítica e,
assim, de origem rigorosa e classicamente medieval.
9. Além do exorcismo dos preconceitos, a elucidação
do conceito de Idade Média no pórtico de um livro de
História da Educação ficaria incompleta sem o exame e
a refutação das fábulas ou lendas engendradas pelos
próprios preconceitos no bojo da lenda negra e alimentadas
pela falta de senso crítico e pela força de inércia das
tradições populares. Consideremos, portanto, as
principais fábulas mais difundidas pelos exploradores
desses produtos da fantasia que atravancam a estrada do
conhecimento histórico.
A mais ordinária das fábulas reza que a Idade Média
foi uma idade das trevas, uma época de barbárie.
Evidentemente, o termo trevas é apenas uma metáfora que
serviria para designar a ignorância difusa e persistente
num período de mil anos. Primeiro, releva notar que os
historiadores ingleses costumam assim denominar a primeira
fase da Idade Média, quando os povos germânicos
disseminados e fixados em vários rincões do Ocidente
desarticularam as estruturas da sociedade romana,
arruinaram as cidades, talaram as propriedades rurais e
destruíram a rede escolar estabelecida pelo Império
Romano do Ocidente. Nesses primeiros séculos medievais
as tribos germânicas guerreiam umas com as outras,
enquanto novas levas de bárbaros, como os lombardos,
despenham sobre a Itália e novas invasões, como as dos
sarracenos, põem em polvorosa o litoral europeu do Mar
Mediterrâneo. Nessa época de profunda perturbação
social os mosteiros beneditinos são as únicas ilhotas de
cultura onde ainda se escreve, copiam-se manuscritos;
onde se lê, se estuda e se conserva o legado cultural dos
romanos. Só a partir do reinado de Carlos Magno
recomeçou na Gália, e se iniciou na Germânia, a
renovação cultural, a recuperação das letras antigas e
a organização das escolas. As trevas metafóricas, por
conseguinte, aplicar-se-iam com propriedade e
justificativa à Gália e à Germânia, durante os
séculos V, VI e VII, e à Grã-Bretanha, com
exceção da Irlanda, até o começo do século
VIII, pois a Itália dos séculos VI VII,
apesar das guerras e da invasão lombarda, permanece um
foco de civilização, enquanto a península ibérica nos
séculos V, VI e VII foi um dos principais e mais
luzidos centros intelectuais e artísticos do Ocidente,
até que a Espanha sucumbiu ante os muçulmanos em
711. No século IX temos o renascimento carolíngio
na Gália e a renovação cultural na Grã Bretanha sob
o impulso de Alfredo, o Grande, enquanto no século X
se registra o renascimento otoniano na Germânia. A
partir do ano mil já surgem delineadas as feições da
sociedade feudal, ressurge o comércio, renova-se a vida
urbana, ocorre o renascimento cultural do século XII,
e a civilização medieval atinge o seu apogeu no século
XIII com o florescimento notável das universidades e
dos estudos. Como se pode colher desse rápido
conspecto, é erro grave e atestado de ignorância chamar
a Idade Média, um período de mil anos, de idade das
trevas e do obscurantismo. Acresce ainda que, enquanto
os povos germânicos iniciavam a vida das modernas nações
européias em regime plenamente agrário e conturbado por
lutas e invasões contínuas, nos confins da Europa
oriental persistia em sua brilhante trajetória o Império
Romano do Oriente, Bizâncio, que durou mil anos após
a queda de Roma, e onde uma civilização original brotou
da mescla da herança grega com as tradições científicas
e sociais do Egito, da Síria, da Pérsia e da
Mesopotâmia. Tenebrosos e incultos são, pois, os que
ainda se atrevem a caluniar o período medieval movidos
pelo sectarismo doentio ou pela triste insciência do que
deve o mundo moderno aos copistas monásticos da primeira
parte da Idade Média, e das realizações grandiosas
desse período histórico no campo das letras, da
filosofia, da religião, das técnicas, da arte e do
ensino. Como diz Cerejeira, "há uma história
lendária da Idade Média, que é curioso passar em
revista, ainda que não fosse senão como trecho pitoresco
da história da historiografia", e cuja gênese ele
explica ao dizer que a incompreensão da Idade Média a
partir da Renascença engendrou o desdém de que nasceu a
ignorância a que se deve a deformação lendária [9].
10. Diz o provérbio que a mentira tem perna curta. E
nunca um anexim foi tão apropriado quanto este, quando se
considera a ridícula fábula de que o concílio de Mâcon
teria discutido a questão de saber se as mulheres têm
alma. Muito admira que pessoas sérias pudessem agasalhar
tal lenda e divulgá-la, ao atribuírem tamanha cegueira
e monstruosidade aos bispos reunidos num concílio que só
tratou dos deveres dos clérigos e dos fiéis. Nem vem ao
caso pretender suavizar a pílula com se restringir a
paternidade desse absurdo, ao se admitir que apenas um
bispo teria negado a alma às mulheres. Bastaria um pouco
de reflexão para se aquilatar a improcedência do aleive,
uma vez que jamais algum cristão duvidou da racionalidade
do ser humano, e já que não existe para os discípulos
de Cristo criatura mais excelsa, mais santa e próxima de
Deus que Maria Santíssima. Como imaginar, então,
que um bispo pudesse discutir a respeito da existência da
alma da mulher? Aceitemos, contudo, que um propalador
da lenda se escusasse, a observar que tal fenômeno teria
ocorrido, por incrível que pareça, no concílio de
Mâcon, na Gália, em 585. Ora, a cautela mais
elementar desse repetidor de patranhas seria procurar as
devidas informações e com tal propósito examinar as atas
do concílio de Mâcon que foram conservadas e se compõem
de vinte cânones. Por mais que se leiam e releiam essas
atas, não há o mínimo sinal do tal debate entre os
bispos nem da declaração do hipotético bispo misógino.
E não há sinal algum simplesmente porque no concílio de
Mâcon, em 585, jamais se agitou a questão de saber
se as mulheres têm alma. Só São Gregório de Tours
na sua Historia Francorum refere um episódio curioso
ocorrido num intervalo das sessões do concílio de Mâcon
em 585, e que poderia ter ensejado a algum espírito
malévolo ou a leitor desastrado a produção da fábula
[10]. Segundo São Gregório de Tours, houve nesse
sínodo um bispo que afirmava não se poder chamar a mulher
de homo, homem, já que em latim havia dois termos
diferentes para designar os seres de sexo diferente: vir e
femina. Acontece que o termo genérico homo se aplica
também indiferentemente tanto ao homem como à mulher,
embora tal uso fosse quase exceção. O bispo, por
conseguinte, num momento de pausa e recreio entre as
atividades conciliares, propusera aos seus pares uma
questão gramatical que eles deslindaram rapidamente.
Justificaram com dados bíblicos a procedência do emprego
do termo homo para designar homem e mulher, pois o livro
do Gênesis diz que no começo Deus criou o homem,
hominem, e o criou macho e fêmea e lhe deu o nome de
Adão que significa homem de terra (Gên. V, 2).
Ademais, Nosso Senhor Jesus Cristo foi chamado de
Filho do Homem, porque nasceu da Santa Virgem que é
mulher. E, no entanto, quando mudou a água em vinho,
disse-lhe: "Mulher, que há entre ti e mim?" Com
esses e outros testemunhos o bispo aquietou-se. Eis aí
a única informação sobre um episódio curioso por
ocasião do concílio de Mâcon em 585, mas ocorrido
fora das sessões. A luz da verdade afugenta as sombras e
os fantasmas das mulheres sem alma.
11. Outra fábula insustentável, divulgada até mesmo
por escritores sérios como Barônio nos seus Annales
Ecclesiastici e pelos autores da Histoire littéraire de
la France, assegura a existência dos terrores
supersticiosos do ano mil, quando um pretenso pânico
universal teria levado os povos europeus à inação e ao
torpor, de tal modo que os homens da segunda metade do
século X, crentes na proximidade do fim do mundo e
apegando-se apenas à temível e única esperança do
juízo final, não se dedicaram mais aos trabalhos do
corpo ou do espírito. O fato curioso e indicativo nessa
questão é que a primeira notícia dos pretensos terrores
do ano mil foi dada por Trithelm, no primeiro tomo do
Annales Hirsaugienses, quatrocentos anos depois do ano
mil. Há pouco mais de um século, o erudito beneditino
da abadia de Ligugé, Dom François Plaine,
pulverizou essa balela, asseverando no fim do seu
excelente artigo: "Numa palavra, os terrores do ano
1000 não passam nem mais nem menos de um mito"
[11]. Os dois grandes porta-vozes desse famoso boato
foram Sismondi, no terceiro tomo da obra De la chute de
l'Empire romain, e Michelet no tomo II da sua
Histoire de France. E na verdade foram esses escritores
do século XIX os que trombetearam bem alto a atoarda
dos pretensos terrores do ano mil. Como o demonstrou
irretorquivelmente Dom François Plaine, os analistas
contemporâneos do ano mil nada informam sobre o pretenso
pânico em torno do Primeiro Milênio e os famosos
cronistas posteriores, como Hermann Contracto
(1054), Sigeberto de Gembloux (1119) e o
grande enciclopedista Vicente de Beauvais (1480) ou
Rollevinck (1480), não mencionam os tais terrores
supersticiosos do fim do século X [12] : Os analistas
contemporâneos do ano mil do ano 1000 a 1050 -
nada consignaram sobre a crença supersticiosa no fim
próximo do mundo, pois, apesar dos profetas da
assombração, os cristãos sempre souberam, advertidos
por Jesus Cristo, que só o Pai conhece o dia e a hora
em que o fim do mundo há de ocorrer. O cronista João,
o Diácono, escrevia, por volta do ano 1010, que no
ano 1000 o imperador Otão passou à Itália com o
seu exército, através dós precipícios do grande lago
de Como. Nenhum dos analistas alemães menciona os
pretensos terrores do ano mil. Thietmar de Mersburg
(1018) chega a dizer que o ano mil foi para o mundo
uma aurora radiosa, "clarum mane illuxit saeculo".
No ano mil, segundo os analistas ingleses, os
dinamarqueses refugiados na Normandia armaram a frota
temível que assolou a Inglaterra no ano seguinte. Os
analistas franceses, como Aimon de Fleury (1010),
Odoran de Sens (1020), Adhémar de Chabannes
(1030) e outros, não aludem ao pseudopânico do
primeiro milênio. Nenhuma notícia a tal respeito
depara-se ao investigador nas biografias particulares das
personagens mais eminentes da época (950-1040),
tal como São Mayeul, abade de Cluny (993), á
imperatriz Santa -Adelaide (999), o beato Abbon
de Fleury (1004), de São Bernward, bispo de
Hildesheim, ou de Roberto, o Piedoso, que reinou na
França de 997 a 1031. Portanto, os autores e os
documentos contemporâneos do ano mil não confirmam
absolutamente os pretensos terrores proclamados por
Michelet e Sismondi na Idade Moderna. Seria,
então, o caso de se proceder à avaliação das
autoridades referidas por esses dois historiadores. Ora,
no concílio de Trosly realizado em 909, Heriveu,
bispo de Reims, fez uma exortação moral em que aludiu
à responsabilidade dos bispos e às contas que deverão
prestar no fim do mundo ao Juiz supremo, alusão comum
nos sermonários cristãos de todos os tempos.
O opúsculo Libellus de Antichristo, composto cerca de
954, foi escrito, como confessa no prefácio o autor,
Adson, abade de Montèrender de Champagne, a fim de
satisfazer o intenso desejo da rainha de França,
Gerberge, de perscrutar as Escrituras. Daí examinar
Adson o obscuro tema do Anticristo, dizendo à rainha
que só Deus conhece a hora do juízo final.
Por volta de 960, apareceram dois visionários, um em
Paris e o outro na Turíngia, a anunciarem o fim do
mundo para o ano mil, tendo o primeiro sido refutado por
Abbon, o futuro abade de Fleury. Mas, em todos os
séculos cristãos não tem havido desses visionários?
As Testemunhas de Jeová em nossa época não vivem a
marcar e a remarcar constantemente a data do fim do mundo,
sem que isso traduza nenhum pânico universal, devido à
aproximação do segundo milênio? É verdade que o monge
Godwell diz na sua Crônica que no ano 1010 se
espalhou o rumor de que dessa o mundo ia acabar. Além
dessa data do boato, 1010, importa mais salientar que
Godwell redigiu a sua Crônica depois de 1224 ...
mais de duzentos anos após a difusão do rumor
hipotético. No entanto, a autoridade mais sólida
invocada para apoiar a, crença nos terrores do ano mil é
um texto famoso do cronista de Cluny, Raul Glaber. No
Livro III das suas Histórias, ele afirma que em
1030 no mundo inteiro, principalmente na França. e
na Itália, reedificaram-se igrejas, mesmo as que se
achavam devidamente localizadas. Era como se o próprio
mundo, diz Glaber, rejeitando a vetustez, os velhos
andrajos, viesse a revestir-se com a branca vestimenta
das igrejas. E logo o cronista acrescenta que as
escavações para a construção de novas igrejas
permitiram a descoberta dos corpos de muitos santos.
Ora, Raul Glaber assinala simplesmente a renovação da
arquitetura no início do século XI, quando a ogiva
começou a surgir, e nada afirma que justifique as
presunções temerárias dos apologistas dos terrores.
Ainda, mais, segundo os cálculos do cronista de
Cluny, o ano mil marcado no Apocalipse só poderia cair
em 1033, "um milênio após a Paixão do Senhor"
[13].
Para encerrar o exame desta fábula, convém ainda
ressaltar que às vésperas do ano mil, o clero, a
realeza, a nobreza e o povo se entregavam a intensas
atividades, fundações, missões, construção de
igrejas e às guerras de que surgiriam a conquista da
Inglaterra pelos normandos, e com as quais os cristãos
prosseguiam na Espanha a luta contra os muçulmanos e na
qual eram capitaneados por Sancho, o Grande, de
Navarra, e Afonso V das Astúrias.
12. Outra fábula, medieval muito divulgada e soez é
a do direito da pernada, prelibação, marqueta, mais
conhecida como "o Direito do Senhor". De fato,
jamais existiu esse direito nos códigos. De acordo com a
lenda, as noivas pagariam um tributo ao senhor com o seu
desvirginamento na noite de núpcias. Aos senhores
caberia a prelibação na primeira noite das jovens que se
casassem nos seus domínios. Tal como no caso das outras
lendas, foi apenas no século XVII que se ouviu falar
do "direito do senhor" como de privilégio feudal tão
difundido que as provas seriam dispensáveis. Ora, a
lenda abriu caminho graças à sua conotação escandalosa
e marota, o que lhe valeu no século XVIII inspirar a
peça de Beaumarchais, O Casamento de Fígaro. Além
desse pretenso direito não figurar em nenhum código ou
repertório de leis, os mestres, os moralistas, as
autoridades eclesiásticas, os teólogos, os concílios e
os homens de bem não deixariam passar sem protesto e
condenação tal costume pervertido e atentatório à lei
de Deus. No entanto, não houve protesto nem
condenação simplesmente porque não existiu tal abuso ou
direito absurdo. No século passado, no clima de
disseminação dessa lenda, ao descrever a mísera
situação do camponês no século XVI na Alemanha,
diz Engels que o senhor dispunha arbitrariamente da pessoa
do camponês, de sua mulher e filhas. Tinha o direito da
pernada [14]. Pode ser que isso tenha ocorrido na
pátria de Engels no início da Idade Moderna, na
época do renascimento e da reforma luterana. Quanto à
Idade Média, o assunto foi bem debatido e esclarecido
por Luis Veuillot, Schmidt e Foraz [15]. Veuillot
denomina o suposto direito feudal de maritagium que, de
fato, era um imposto devido pelo vassalo ao senhor por
causa do casamento. Esse imposto não era o direito do
senhor, mas um dos seus direitos ou privilégios [16].
O maritagium teve origem eclesiástica. A Igreja
aconselhava aos recém-casados a abstinência nos
primeiros dias do casamento, a fim de os noivos aprenderem
a dominar-se, a exercer o respeito mútuo e a praticar a
continência. Assim, um cânon do quarto concílio de
Cartago, confirmado por uma capitular de Carlos Magno,
rezava que os noivos permanecessem virgens na noite de
núpcias por reverência à bênção recebida do sacerdote
[17]. Entretanto, os fiéis que consideravam essa
prescrição muito severa, comutavam-na por alguma boa
obra ou esmola em dinheiro. Essa taxa é que figurou no
plano religioso durante a Idade Média como jus primae
noctis. Como diz Anatole de Barthélemy, "só a má
fé pôde dar outro significado a tal imposto que era
resgatado em dinheiro, em prestações ou levantado
durante o banquete nupcial" [18]. Do ponto de vista
civil, o maritagium era o imposto pago pelos vassalos ao
senhor por causa do casamento de estranhos com moças do
domínio ou de dependentes do mesmo domínio. No primeiro
caso, o imposto era pago no momento da celebração das
núpcias; e no segundo, em certos dias de festa no ano
seguinte ao casamento. Isto se explica devido ao fato de
o servo da gleba estar ligado à terra e não poder
abandoná-la para se estabelecer noutra, a não ser que o
senhor da terra recebesse uma compensação. O cardeal
Cerejeira explica muito bem esse direito feudal:
"Resultava, daqui, os casamentos entre pessoas de
terras diferentes estarem sujeitos à licença senhorial.
Por tais licenças se estabeleceu muitas vezes um imposto
que era percebido a título de "direito do senhor"; o
próprio casamento entre pessoas dum mesmo senhor deu
também lugar por vezes à recepção desse imposto. Este
direito do senhor, que ele se arrogava sobre os homens da
sua terra, traduzia-se às vezes por símbolos ou por
palavras que chocam a sensibilidade moderna mais apurada.
Mas não tem nada que ver com o aviltante costume que se
disse. Que tivesse havido abusos por parte de senhores
brutais, basta conhecer a natureza humana para o
acreditar; e até o direito feudal nesses casos cominava
contra o senhor, muitas vezes, a perda da autoridade
sobre o servo (que ficava livre). Mas direito
reconhecido, não" [19]. Esta última observação
feita por Cerejeira é de importância capital, pois
foram os abusos cometidos por senhores prepotentes e
pervertidos que ensejaram o boato do direito da primeira
noite. Sempre houve libertinagem e violência entre os
homens. No regime feudal foi por ato injusto de força e
por corrupção condenável que alguns senhores se
apropriaram de uma serva ou da mulher de um vassalo na
noite de núpcias ou em outras ocasiões.
13. Outra fábula ridícula sobre a Idade Média foi
apregoada por Michelet no seu livro A Feiticeira [20].
Donde se colhe, atentando-se ademais para outras
intervenções do mesmo autor, que os próprios
historiadores tomam facilmente a nuvem por Juno,
especialmente se animados de espírito sectário. Segundo
Michelet, a Idade Média teria sido um período de mil
anos sem banho. Por certo, o historiador projetou no
passado medieval as características da Europa moderna,
máxime da França nos séculos XVI e XVII. A
sujeira dessa época é assaz conhecida. Haja vista que o
Rei-Sol, Luís XIV, em toda a sua vida tomou um
único banho e o requinte de elegância dessa época, como
observa Cerejeira, era lavar as mãos todos os dias com
sabão e o rosto quase com a mesma freqüência. Além
disso, no século XVII as latrinas se tornaram quase
desconhecidas e muitos nobres defecavam nas lareiras ou
usavam as cadeiras furadas em que se assentavam para
atender à natureza e para conversar ou dar audiências.
Não foi à toa que a França veio a notabilizar-se pela
fabricação dos perfumes. E ainda hoje, na Europa,
estranha-se o hábito de os brasileiros pretenderem banhos
diários, quando o costume europeu é o banho semanal.
Mas, segundo o arqueólogo Enlart, na Idade Média as
cidades tinham estabelecimentos de banhos; e só Paris em
1292 contava vinte e seis. A respeito do banho na
Idade Média, conclui Enlart: "Entre as numerosas
tradições romanas que os bárbaros aceitaram com gosto e
a Idade Média tinha a peito perpetuar, força é contar
o uso, senão quotidiano, pelo menos hebdomadário, dos
banhos, tal como os turcos continuaram a praticá-lo.
Não há nada mais falso nem mais injusto, do que
julgar, como se tem feito tanta vez, a Idade Média
pelo período que nos separa dela: nesta matéria,
especialmente, nada se parece menos com os hábitos dos
séculos XIII e XIV que a degradante porcaria do
século XVII. Esta mudança radical operou-se no
decorrer do século XVI; foi muito completa para poder
ser súbita" [21].
A medievalista Régine Pernoud, ao descrever a vida
quotidiana na Idade Média, revela que a banheira fazia
parte do mobiliário e afirma que talvez cause espanto nos
inventários medievais a menção de guarnições para
forrar o fundo das banheiras de madeira. "E que a Idade
Média, diz ela, contrariamente ao que se crê,
conhecia os banhos e tomava-os à beça" [22]. Além
disso, havia banhos públicos. Na cidade de Dijon, por
exemplo, havia três salas diferentes: a sala de banhos
propriamente dita, uma espécie de piscina, uma sala para
banho a vapor e uma outra de depilação, prática que os
Cruzados aprenderam com os árabes. A Idade Média
conhecia, também, as estações de água, os banhos
termais. Por fim, as obras literárias como o Romance
da Rosa, o de Godofredo de Bouillon e os de
Cavalaria, enquanto refletem os costumes sociais,
atestam o uso dos banhos. Cerejeira cita a cantiga 322
do Cancioneiro da Vaticana:
|
Se hoje o meu amigo
soubesse, iria migo,
que ao rio me vou banhar...
|
|
E a cantiga 888 indica os banhos de mar:
|
Quantas sabedes amar amigo
creydes comigo a lo mar de Vigo
e banhar-nos hemos nas ondas...
|
|
Um provérbio popular medieval ressaltava o banho como um
dos prazeres da existência:
|
Venari, ludere, lavari, bibere,
Hoc est vivere!
|
|
Caçar, jogar, banhar-se e beber, isso é viver!
14. Evidentemente, não nos é possível psicanalisar
todas as fábulas medievais neste capítulo.
Cingimo-nos, pois, à perquirição das mais famosas e
freqüentes, assim como selecionamos as que surgiram em
classe, durante anos, em nossas aulas de História da
Educação Medieval. Deixamos para o fim uma das mais
persistentes e fantasiosas e que obteve difusão no fim da
Idade Média graças aos próprios cronistas
eclesiásticos. Trata-se da lenda da papisa Joana, a
sábia e inescrupulosa mulher que no século IX teria
assumido o sólio pontifício. Segundo a fábula da
papisa Joana, teria existido um papa que foi mulher.
Isso teria ocorrido, segundo a versão mais corrente, no
século IX, quando a intrusa teria sucedido a Leão
IV que morreu em 855, e ela teria governado a Igreja
durante 2 anos, 7 meses e quatro dias. Na verdade,
quem sucedeu a Leão IV foi Bento III, e no rol dos
pontífices romanos nunca houve lugar para nenhuma papisa.
Essa fábula começou a difundir-se no século XIII,
foi piamente acreditada por muitos cronistas, mas veio a
ser criticada e rejeitada, desde o século XVI. Os
próprios protestantes, que dela haviam feito arma contra
a Igreja, puseram-na de lado, diante dos golpes
percucientes da crítica histórica. A partir do século
XIX, Doellinger, Félix Vernet, Herbert Thurston
e muitos outros vaporizaram a balela da papisa Joana que
ainda hoje corre mundo romanceada, devido aos seus
ingredientes românticos e escandalosos. As análises
críticas feitas pelos autores citados, e por outros,
foram resumidas por Vacandard em sumarento artigo sobre a
papisa Joana [23].
15. O motivo mais forte para a difusão da novela foi a
sua presença em documentos redigidos por sérios
escritores eclesiásticos mas desprovidos de espírito
crítico, numa época em que existiam crônicas mas que
ainda estava muito distante do momento em que a história
se converteria em rigorosa disciplina científica.
Note-se que o fato lendário teria ocorrido na metade do
século IX e que a sua divulgação se deu na metade do
século XIII, ou seja, medeia entre a ocorrência
lendária e a sua difusão escrita um período de
quatrocentos anos, tal como se um historiador de hoje
publicasse fatos acontecidos em 1570, sem que eles
figurassem em documento algum durante todos esses
séculos. A fábula surge pela primeira vez na Crônica
Universal de Metz (Chronica universalis Mettensis),
redigida cerca de 1250, provavelmente pelo dominicano
João de Mailly. O breve relato dessa Crônica atribui
o fato ao ano do Senhor de 1099, após o pontificado
de Vítor III, e diz que houve uma papisa que
dissimulou o seu sexo vestindo-se de homem. Era mulher
de notável inteligência - probitate ingenii - e
conseguiu tornar-se notário da cúria pontifícia,
cardeal e, por fim, papa. Um dia, ao montar a cavalo,
deu à luz um menino. Diante disso, a justiça romana
condenou-a a ser ligada pelos pés à cauda de um cavalo
que a arrastou meia légua fora da cidade, enquanto o povo
a lapidava. No lugar em que ela morreu foi sepultada e
no sepulcro colocou-se a inscrição: Petre, pater
patrum, papisse prodito partum. Sob o pontificado de
Joana teria sido instituído o jejum das Quatro
Têmporas, chamado o jejum da papisa [24].
16. O dominicano Estêvão de Bourbon (cerca de
1261) cita os versos da Crônica de Metz e modifica
duas palavras: Parce em lugar de Petre,
e prodere em
vez de prodito, donde a inscrição: Parce, pater
patrum, papisse procedere partum. Mas, como
contribuição pessoal à lenda, acrescenta que a papisa
foi inspirada pelo demônio [25].
17. O franciscano de Erfurt, cuja Chronica Minor se
estende até 1261, reproduz mais abreviadamente a
descrição da Crônica de Metz e aduz a intervenção do
demônio num consistório. Ao relatar os fatos do ano do
Senhor de 900, o frade menor de Erfurt declara que,
depois do papa Sérgio, houve um pseudopapa, cuius nomen
et anni ignorantur, mulher bonita, erudita e de refinada
hipocrisia. Diz o franciscano que, quando a papisa
estava grávida, o demônio divulgou o fato em público,
ao apostrofar o papa com o verso: "Papa, pater patrum,
papisse pandito partum"
[26]. Mais adiante acrescenta,
ainda, o cronista Menor Erfordiense que, de São
Pedro até o papa Inocêncio V, houve 197 papas,
excluídos Lino, Cleto e a mulher que foi papa [27].
18. Depois da Crônica de Metz, a segunda versão da
lenda, mais minuciosa e romanesca, acha-se na Crônica
de Martinho de Troppau, o Polonês, falecido em
1279. Enquanto Martinho viveu, publicaram-se duas
edições da Crônica: a primeira vai até Clemente
IV, cerca de 1268, e a segunda até Nicolau III
em 1277, e nenhuma delas contém a fábula da papisa,
que aparece na terceira transcrição feita entre 1278
e 1312 [28]. Essa versão se impôs ao mundo
católico graças ao prestígio do historiador Martinho,
o Polonês, que foi capelão e penitenciário de vários
papas, e o mais categorizado cronista do seu tempo. Pela
Crônica de Martinho sabe-se que a papisa se chamava
Johannes Anglicus e nascera em Mogúncia. Quando
adolescente, vestiu-se de homem e foi estudar em
Atenas. Progrediu tanto nas ciências e letras que se
transferiu para Roma onde se destacou como professor,
mestre dos mestres. Graças ao prestígio do saber e da
virtude, foi eleita papa. Todavia, engravidou, a
quodam diacono secretario suo impregnata est e, um dia,
quando ia de São Pedro à basílica de Latrão, deu à
luz entre o Coliseu e a igreja de São Clemente, morreu
no mesmo lugar e aí foi sepultada. Como,
posteriormente, os papas evitassem transitar por esse
caminho nas procissões, dizem que isso era devido ao
horror provocado pela lembrança do acontecimento. A
papisa teria sucedido a Leão IV, falecido em 855,
e teria reinado por 2 anos, 7 meses e 4 dias, tendo a
Santa Sé permanecido vacante durante um mês após a sua
morte. Foi de acordo com a versão de Martinho, o
Polonês, que a fábula da papisa Joana foi inserida com
variantes em vários manuscritos, dentre os quais os do
Liber Pontificalis.
19. Outro frade menor, denominado Martinho por
Eccard, na sua crônica Flores Temporum, redigida no
fim do século XIII, diz que a papisa se fez chamar de
João da Inglaterra - Johannes Anglicus -embora fosse
alemã, originária de Mogúncia. Ela teria dado à luz
entre a igreja de São Pedro e o Coliseu, ao fazer um
exorcismo. Ela perguntou ao demônio quando iria
abandonar o possesso, ao que o capeta respondeu com dois
versos, um deles tomado ao cronista de Erfurt:
|
Papa, pater patrum, papisse pandito partum
Et tibi tunc edam (dicam) de corpore quando recedam,
|
|
isto é,
Dize-me, ó Papa, pai dos pais, quando a papisa dará
à luz, e eu te direi quando vou sair do corpo do possesso
[29]. Depois de ter dado à luz, diz o cronista,
Joana morreu e, por isso, o papa sempre evita passar por
aquele caminho.
20. Boccacio, falecido em 1375, foi levado pela
fantasia e, por certo, inspirado em tradições
populares, pois se afastava da versão de Martinho, o
Polonês, e no capítulo 99 da sua obra De claris
mulieribus diz que a papisa era alemã e se chamava
Gilberta. Estudara na Inglaterra e chegou a ser papa
com o auxílio do demônio. Deu à luz, ao celebrar
missa, e terminou a vida na prisão.
21. Um manuscrito do século XIV, de autor
desconhecido, proveniente da biblioteca de Tegernsee, e
publicado por Doellinger, transformou profundamente a
lenda da papisa, conferindo-lhe uma configuração mais
novelesca e afastando-se da crônica de Martinho de
Troppau que o anônimo considera mentirosa, por haver
este afirmado que a papisa era alemã. Diz ele que esta
era grega, chamava-se Glância e não assumiu o nome de
Joana mas de Jutta [30]. Filha de um rei tessálio,
Glância tornou-se uma jovem erudita e na escola conheceu
um moço muito inteligente chamado Pircius.
Apaixonaram-se e sonharam casar, mas os pais lhes
recusaram o consentimento. O amor contrariado
inspirou-lhes a saída da fuga. Glância disfarçou-se
de homem e os dois foram para Atenas onde estudaram por
muito tempo, brilharam e se avantajaram a todos os
estudiosos gregos das ciências humanas e divinas. Por
fim, tomaram o caminho de Roma onde se impuseram aos
mestres pelo saber. Glância tanto se notabilizou pela
ciência e pela virtude que os romanos a aclamaram papa.
Ela, então, fez de Pircius cardeal, cardinalatur
Pircius amasius, e os dois prosseguiram em seus amores.
Jutta engravidou e quando, em procissão, ia celebrar
missa solene na igreja de São João de Latrão, deu à
luz um menino, e logo morreu de parto entre o Coliseu e a
igreja de São Clemente. Esse cronista germânico,
além da novela que é essencialmente o conteúdo dos
modernos romances sobre a papisa, contribuiu com duas
novidades para a fábula. Primeiro, ele diz que, desde
esse fato espantoso do parto papal, o papa sempre evitou o
caminho entre o Coliseu e a igreja de São Clemente e
que, desde então, se introduziu nova cerimônia nos
ritos da eleição pontifícia, uma vez que antes da
coroação se passou a proceder a um exame local da
anatomia do papa: "et ante coronationem papae semper
manibus virilia palpantibus exploratur, etc." [31].
A segunda novidade do cronista anônimo é o verso com que
ele encerra a sua conclusão moral: "Papa, pater
pauperum (patrum), peperit papissa papellum: Ó papa,
pai dos pobres, a papisa deu à luz um papinha".
23. Para confirmar a fábula da papisa Joana surgiu,
também, a lenda da cadeira estercorária que se ajusta ao
exame anatômico antes da coroação do papa, conforme o
apontamento do cronista germânico referido no parágrafo
anterior. A diferença entre esse relato e a lenda da
cadeira estercorária está em que o papa se assentava,
depois da sua eleição, numa cadeira de mármore sob o
pórtico da igreja. Era então elevado pelos dois
cardeais mais antigos que o pegavam sob o braço ao canto
da antífona: Suscitans a terra inopem et de stercore
erigens pauperem, Ele levanta do pó o desvalido, e do
esterco eleva o pobre (Salmo 112, 7). Do termo de
stercore proveio o adjetivo da expressão "cadeira
estercorária". Depois da elevação, o papa era
conduzido ao batistério da igreja São João de Latrão
onde se sentava numa cadeira de pórfiro e recebia as
chaves da basílica, como sinal do seu poder pastoral.
Depois, assentado noutra cadeira de pórfiro, devolvia
as chaves. Essas cadeiras eram furadas, por serem
assentos antigos que haviam servido para banhos públicos e
que eram usadas na cerimônia pontifícia devido ao seu
valor. Ora, a fábula da papisa levou à confusão da
cadeira estercorária com o assento furado,
transformando-os ou, melhor, fundindo-os numa cadeira
furada que servia para o exame anatômico, antes da
coroação papal. Como diz Vacandard, essa lenda
ridícula e grosseira divulgou-se desde o fim do século
XIII e apareceu nas Visões do dominicano Roberto de
Uzès falecido em Metz em 1296. O cronista William
Brevin, por volta de 1470, afirmou que a
verificação anatômica era feita por dois clérigos que
anunciavam o resultado em voz alta, ao que o clero e o
povo respondiam: Deo gratias!
24. Não é de admirar a difusão e a vitalidade da
fábula da papisa Joana pois, além do seu toque
romanesco, ela foi espalhada pelos melhores católicos,
tal como os cronistas das duas ordens mais devotadas à
Santa Sé, os dominicanos e os franciscanos. Todavia,
a crítica histórica veio provar que tal fábula não
tinha fundamento histórico e não passa de fantasia
burlesca. A personagem recebeu vários nomes e, assim
mesmo, só a partir do século XIV. A época da sua
vida varia, também, segundo os cronistas. Martinho, o
Polonês, diz que a papisa teria reinado entre o papa
Leão IV, falecido em 855, e Bento III. O
franciscano de Erfurt coloca-lhe o pontificado em
915; Estêvão de Bourbon, em 1100, e João de
Mailly situa-o depois de Vítor III que morreu em
1087, mas sem dizer quando. De fato, não é
possível indicar uma data precisa para esse pontificado,
simplesmente porque não ocorreu. Quanto à inscrição
P. Pat. Pat. P. P. P. numa pedra junto com a
estátua de uma mulher com a criança ao colo, que
representava uma espécie de sacerdotisa com o seu filho,
inscrição que originou os versos já mencionados, a
explicação é singela. P (um nome próprio,
provavelmente Papirius),
Pater Patrum (título dado
aos sacerdotes de Mitra) e os três últimos P
exprimiriam a fórmula: propria pecunia posuit, às
suas custas ou com o seu dinheiro. Assim, as letras
dariam a inscrição prosaica: "Papírio assentou (esta
pedra) para o Pai dos Pais, às suas próprias
custas". Mas, como na Idade Média já não se liam
as inscrições romanas, inventou-se o verso que
anunciava o parto da papisa.
O fato de os papas evitarem nas procissões de São
Pedro ao Latrão a rua onde se achava a estátua da
mulher com a criança e a pedra com a inscrição devia-se
à estreiteza do beco que não proporcionava espaço para o
cortejo pontifício e não, conforme a fábula, ao horror
inspirado ao papa pela vista da estátua e da inscrição.
Se a fábula não tem fundamento histórico, se não
passa de ficção novelesca, assim como os apêndices da
cadeira estercorária, do enigma da estátua, da
inscrição e da procissão papal, que fator teria ativado
as imaginações na elaboração da fábula?
25. A Igreja atravessou uma crise terrível por volta
do ano mil. Durante o século X três mulheres,
Teodora, esposa de Teofilacto, e as suas duas filhas,
Marózia e Teodora, manipularam o papado a seu
bel-prazer, e entre os papas dessa época contam-se
quatro pontífices chamados João: João X
(914-928), João XI (931-936),
João XII (955-964) e João XIII
(965-972). O descrédito do papado levava muita
gente a dizer: "Temos mulheres por papas". Bento de
Santo André do Monte Soracto, após a eleição de
João XI, diz na sua Crônica que Roma esteve sob o
podei de uma mulher (Marózia) e por ela foi governada
[32]. Essa senhora apontada por Bento de Santo
André como parenta de João XI, Johannes, pois era
sua mãe, foi naturalmente chamada de Johanna, Joana.
Outra hipótese profundamente sugestiva como geratriz da
fábula da papisa Joana é a identificação da lenda da
mulher-patriarca de Constantinopla com a papisa Joana de
Roma, cabendo à primeira a primazia do boato. Pode-se
ler na Patrologia latina de Migne a carta do Papa São
Leão IX a Miguel Cerulário, patriarca de
Constantinopla, na qual o Sumo Pontífice denuncia o
rumor de que a sede patriarcal de Constantinopla teria
sido ocupada por uma mulher. O papa diz que a enormidade
e o horror de tal crime, assim como a benevolência
fraterna "non permittit nos credere", não lhe permite
acreditar nisso, mas observa que o uso de promover
eunucos, contra os cânones da Igreja, à clericatura e
ao patriarcado tornava tal fato verossímil e possível.
Se a lenda da papisa Joana já estivesse em
circulação, Miguel Cerulário não perderia a ocasião
de aproveitar tão valioso recurso, em resposta à
denúncia do boato quanto à mulher-patriarca. Publica
fama non dubitat asserere, escrevia o papa Leão IX.
Ademais, a Crônica de Salerno confirma essa lenda.
Reza a velha Crônica: "Houve naquele tempo um homem
bom e justo, patriarca de Constantinopla, que amava
tanto uma sobrinha que a tomou a seu serviço como eunuco e
que a enfeitava com trajes magníficos. Na iminência da
morte, o patriarca recomendou a sobrinha aos cuidados da
sua corte. E, como ninguém sabia que se tratava de
mulher, elegeram-na patriarca, presulem elegerunt, e
ela governou a Igreja de Constantinopla durante um ano e
meio. Mas o demônio em sonho revelou a Aríquio, duque
de Benevento, o sexo do novo patriarca
constantinopolitano, e o príncipe enviou apocrisiários
(legados) a Constantinopla para desvendar o mistério
propalado pelo demônio. Fez-se a investigação - illi
vero curiosius indagarunt - apurou-se a verdade - et
tunc pestis ipsa quievit - e a abominação terminou"
[33].
Foi muito fácil, diz Vacandard, confundir a
mulher-patriarca de Constantinopla com uma mulher papisa
de Roma, tanto mais que os patriarcas assumiam de boa
vontade o título de pontífices ecumênicos [34].
Voltando à lenda da papisa Joana, La Grande
Encyclopedie afirma que a sua inanidade não provoca mais
dúvida em ninguém e que a única questão é quanto à
sua origem [35].
Depois desse exame perfunctório de algumas lendas a
respeito da Idade Média, convém refletir sobre os
malefícios da falsidade, da falta de senso crítico e da
desídia na investigação dos fatos duvidosos. O ideal
do investigador é a verdade das coisas. O historiador,
por sua vez, aspira à verdade dos fatos. De nada vale
pretender ocultar ou disfarçar os acontecimentos ou
inventar balelas sob qualquer pretexto. O que interessa
é, tanto quanto possível, saber realmente o que no
passado se pensou, se disse, se fez e o que aconteceu.
Quanto ao futuro nós podemos fazer projetos e construir
mundos imaginários, mas o conhecimento do passado impõe
a verificação exata, sincera e pura. Podemos envidar
esforços a fim de caprichar na interpretação dos fatos,
mas o que não podemos fazer é alterá-los ou
inventá-los conforme os impulsos do coração ou os vôos
da fantasia. Na pesquisa histórica os documentos são o
ponto de partida, e o investigador sério não teme jamais
a verdade dos fatos.
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