CAPÍTULO II. QUESTÕES PRELIMINARES.

1. Em 1976 transcorreu o milésimo qüingentésimo aniversário da queda de Roma. O evento passou em silêncio. No entanto, esse fato histórico revestiu-se de profundo significado histórico, já que serviu para indicar o fim da Idade Antiga e o início da Idade Média.

2. Em 114 a.C. o Império Romano foi atacado pelos cimbros que vieram a ser derrotados por Caio Mário nas grandes batalhas de 102 e 101 a.C., e César, por sua vez, venceu Ariovisto que invadira a Gálio, mas o germano Armínio derrotou o cônsul Varo, destruindo-lhe um exército de três legiões no ano 9 d.C. Em 275 os germanos atravessaram o rio Remo e os alamanos instalaram-se nos "Campos Decumatos". Em 402, o imperador Honório transferiu a sua corte de Milão para Ravena, por razões de segurança.

Os bárbaros, há séculos, já se haviam infiltrado no Império como agricultores, funcionários, soldados e generais. No século V d.C., as tribos germânicas, acossadas pelos hunos, começaram a despenhar no rumo do sul: vândalos, suevos, burgúndios, alanos e visigodos. Estes últimos, chefiados por Alarico, saquearam Roma em 410. A notícia dessa calamidade inspirou a Santo Agostinho o famoso sermão De Urbis excidio, A destruição da Cidade (Roma), no qual ele compara a devastação e a pilhagem de Roma à destruição de Sodoma onde o Senhor Deus não achou cinqüenta, nem quarenta, trinta, vinte nem sequer dez justos para poupar a cidade.

No entanto, com Roma a situação foi diferente, pois nela havia muito mais de cinqüenta justos entre os fiéis, as monjas, os homens continentes e tantos servos e servas de Deus. Por essa razão, apesar dos estragos, dos incêndios, das rapinas, morticínios e maltratos, a cidade continuou a existir, e os fugitivos, os que se esconderam, puderam retornar e nela viver. Por isso, diz Santo Agostinho, não há dúvida de que Deus poupou a cidade de Roma, graças aos méritos dos seus justos. Além disso, a calamidade serviu para exercitar a paciência dos cristãos, enquanto o Senhor Deus lhes demonstrava a instabilidade e a caducidade das coisas deste mundo, incrementando-lhes a esperança nos bens eternos e na felicidade do céu [36].

3. O historiador Jordão, que escreveu sobre os godos na sua obra Getica em 551, diz que eles saíram da Escandinávia - por ele considerada uma ilha chamada Scandza - e caíram sobre a Europa como um enxame de abelhas. Essa ilha de Scandza, diz Jordão, é como uma fábrica de povos e reservatório de nações, quasi officina gentium aut certe vagina nationum [37].

4. No século IV o Império Romano estava assolado pelos bárbaros alamanos, burgúndios, francos, anglo-saxões, etc., e pelos godos que Halphen considerou "o mais formidável entre os povos germânicos", tomando o termo formidável na vera acepção de pavoroso e temível [38]. Além disso, nas fronteiras do Império irrompiam as tribos bérberes da África, as tribos árabes, em furiosas cavalgadas além do mar Vermelho, e mais ao norte agitavam-se os belicosos persas que só podiam ser chamados de bárbaros por serem estrangeiros em relação aos romanos. No século V, então, a invasão pacífica cedeu passo às grandes marchas de povos germânicos que em grandes invasões semearam a ruína e a morte por toda parte.

Como disse G. Bloch, "o Império curvava-se sob o peso dos seus vícios internos, mas foram os Bárbaros que lhe vibraram o último golpe e trouxeram a dissolução final" [39]. Mas, enquanto a desgraça se abatia sobre todo o Império, cristãos e pagãos tentavam explicar-lhes as causas, o peso e a extensão. Assim, o retórico Libânio na oração Para vingar Juliano, dirigida a Teodósio no ano de 378, afirma que as tropas romanas, os soldados e os generais não eram covardes mas continuavam a honrar os antepassados, e que a causa de desastres, como a derrota ante os persas, foi a manifestação da cólera de um deus a combater ao lado dos inimigos, suscitada pelo crime do sarraceno que golpeou o imperador Juliano e que, por certo, o assassino foi a mão executora de mandantes cristãos. Se esse crime fosse vingado, dizia o famoso retórico, e se os oráculos voltassem a ser consultados, Roma haveria de vencer [40]. Pobre Libânio que sonhava o inexeqüível e não se dava conta do crepúsculo dos deuses! São Jerônimo, por sua vez, tendo escrito a Heliodoro a tecer o elogio fúnebre de Nepociano, profere, a partir do capítulo 15 da sua epístola, a oração fúnebre do Império. Ao se referir às devastações causadas no Império Romano pelos godos, sármatas, cuados, alanos, hunos, vândalos e marcomanos, "essas feras" como os denomina, diz que a sua alma se horroriza ao narrar os desastres do seu tempo. Romanus orbis ruit, o mundo romano desmorona, reconhece o grande solitário de Belém, muito mais realista que o retórico antioqueno, e acrescenta que não se propôs escrever história, mas apenas "chorar brevemente as nossas misérias". Ele fala das matronas, das virgens consagradas a Deus, das pessoas livres e nobres que se tornaram escárnio das "feras", isto é, dos bárbaros e conta como foram aprisionados bispos, como foram assassinados sacerdotes e clérigos, as igrejas destruídas, os altares transformados em cavalariças, as relíquias dos mártires desenterradas, os mosteiros saqueados, as águas dos rios transformadas em sangue humano, etc. São Jerônimo achava que os bárbaros deviam a sua força aos pecados dos homens e exclama: nostris vitiis Romanus superatur exercitus, o exército romano é vencido pelos nossos vícios. E, como se não bastassem tantas desditas, prossegue, as guerras civis consumiram mais vidas que a espada inimiga. A descrição desses acontecimentos infaustos enseja ao grande Doutor reflexões sobre a teologia da história, e ele afirma que morremos a cada dia que passa, todos os dias mudamos e, no entanto, nós nos julgamos eternos... Nosso único lucro, afirma, é estarmos unidos pela caridade de Cristo [41]. Com muita clarividência, o ínclito Doutor aponta as causas da derrocada do Império Romano, além das várias outras que hoje se ressaltam: os vícios que carcomeram a fibra dos cidadãos romanos e as guerras civis que esgotaram o sangue das legiões e lhes enfraqueceram a resistência. Modernamente, G. Bloch veio a observar que o Império se encurvava sous le poids de ses vices internes, e o perigo a que não resistiu estava nas ambições e nas usurpações dos grandes chefes que levaram ao paroxismo as desuniões e as guerras civis que lavraram com freqüência e intensidade no Baixo Império [42].

5. A 2 de novembro de 472 morreu Olíbrio, e em junho de 474 Júlio Nepos triunfou de Glicério; e aí surgiu o chefe da milícia Orestes, o último dos generais que durante muitos anos faziam e desfaziam os imperadores. Ele tomou o poder, mas não ousou tornar-se o chefe supremo do Império, e instalou o seu filho Rômulo Augústulo no trono imperial a 31 de outubro de 475. Devido à sua idade de 13 anos, Rômulo foi chamado de Augústulo por Zenão, imperador do Oriente. Por notável coincidência ou por ironia da sorte, como diz Villari, o último imperador do Ocidente tinha o mesmo nome do primeiro rei - Rômulo - e o do primeiro imperador de Roma - Augusto [43]. O exército romano era composto de torcilingos, esciros, hérulos, e os soldados passaram a exigir um terço das terras que controlavam, a fim de se fixarem e terem a sua subsistência. Orestes recusou, e aí sobreveio a rebelião, os soldados abandonaram-no e aclamaram Odoacro rei, transportando-o sobre os escudos. Odoacro, rei dos hérulos ou dos torcilingos segundo Jordão na Gética, era um bárbaro do exército de Ricimero junto com o qual havia assediado Roma. Isso ocorreu - esse triunfo de Odoacro - a 23 de agosto de 476. O novo rei prometeu aos soldados o que haviam pedido, Orestes fugiu para Pavia, Roma foi pilhada durante três dias e, a 28 de agosto de 476, Orestes foi preso e morto em Piacenza. Odoacro foi, então, buscar Rômulo Augústulo em Ravena e confinou-o na vila Luculana em Pizzofalcone perto da antiga Nápoles, com uma pensão de 6.000 sólidos. Odoacro empacotou as insígnias imperiais e enviou-as a Bizâncio [44]. Caíra o Império Romano do Ocidente e começara a Idade Média. A irrupção das tribos germânicas através das fronteiras e a sua fixação nas províncias do Império do Ocidente marcaram o fim do mundo antigo e caracterizaram o início de novo período histórico. Por isso, quando Walsh discorre sobre o humanismo medieval, ele o concebe como a integração de elementos antigos tal como a sabedoria grega, a experiência da vida ou o senso de organização dos romanos e da Graça evangélica proveniente do Oriente com os novos fatores como a força dos germanos e a imaginação dos celtas [45]. Maurice De Wulf, por seu lado, observa que, na primeira parte da Idade Média, as novas raças dos celtas e teutões receberam passivamente a herança cultural e o legado jurídico e político de origem greco-romana mas que, desde o século IX, entraram a reagir ante o que lhes foi proposto e assimilaram o patrimônio tradicional sob a orientação da Igreja Católica [46].

6. Durante os primeiros séculos da Idade Média, o Cristianismo introduziu-se entre os povos bárbaros. A maior parte deles já aderira ao arianismo e, por isso, eram cristãos heréticos na época das grandes invasões. Assim, já eram cristãos os godos, os burgúndios, os vândalos e, depois, os lombardos. Os francos e os saxões eram pagãos.

A partir do fim do século IV, os missionários católicos converteram os francos à fé cristã, após o batismo do rei Clóvis, no Natal de 496, e os anglo-saxões dos sete reinos, por iniciativa do Papa São Gregório Magno (590-604). Durante o século VIII foram evangelizados outros germanos, isto é, os bárbaros que participaram das grandes invasões e haviam permanecido nas suas florestas. Nesse trabalho evangélico distinguiu-se o grande apóstolo da Germânia, São Bonifácio. Na primeira metade do século IX iniciou-se a conversão dos escandinavos à religião cristã, particularmente da Dinamarca e da Suécia, por obra de Santo Anscário ( + 865 ), mas a evangelização de seus povos só se concluiu no começo do século XI, no tempo de São Canuto, morto em 1035 e que foi rei da Dinamarca e da Inglaterra. No século IX a Igreja empenhou-se na conversão dos povos eslavos e nela se distinguiram principalmente os dois irmãos São Cirilo e São Metódio. A conversão da Rússia deveu-se ao rei Vladimir, batizado em 987, assim como Santo Estêvão trouxe os húngaros ou magiares para a Igreja Católica no fim do século. Juntamente com a evangelização, a Igreja distribuiu o ensino das letras e guardou o patrimônio cultural romano através de toda a Europa, graças ao labor indefesso dos monges beneditinos, razão pela qual a primeira parte da Idade Média, do ponto de vista educacional, já foi chamada de idade beneditina [47]. Relevo particular merece a Irlanda evangelizada por São Patrício, a qual se tornou católica durante o século V (431-461), com a sua vida religiosa centralizada nos mosteiros.

7. Enquanto o Império Romano do Oriente iniciava longa trajetória que só terminaria em 1453 com a queda da sua capital Constantinopla, as províncias do Império Romano do Ocidente (Itália, Gália, Bretanha, Espanha e África) foram caindo, no decurso do século V, em poder dos bárbaros. Os vândalos, na Bética (Espanha) desde 411, passaram para a África em 429 e dominaram Cartago (a Túnis atual) sob o comando do rei Genserico. Enquanto Santo Agostinho agoniava e morria, Hipona estava sitiada pelos vândalos que logo a expugnaram e puseram a ferro e fogo, conquistando de seguida as Baleares, a Córsega e a Sardenha, arrebatando aos romanos o "império do trigo". O reino vandálico foi destruída pelos bizantinos em 534 e os vândalos deixaram merecida fama de inaudita crueldade.

8. Os ostrogodos invadiram a Itália em 489 e o seu rei Teodorico fez com que assassinassem Odoacro em março de 493. Teodorico procurou conservar as antigas leis, tratou de acatar os senadores romanos e de agradar ao povo, cercou-se de sábios conselheiros, como Cassiodoro e Boécio, estimulou o desenvolvimento da agricultura, das letras e das artes, organizou o reino mais poderoso entre os bárbaros e fez de Ravena a sua capital, vindo a morrer em 526. O general bizantino Belisário tomou a Sicília em 535, Nápoles e Roma em 536, e o reino ostrogodo, sob os reis Tótila e Téia, sucumbiu ao poder dos bizantinos em 553.

9. Os visigodos, que haviam pilhado Roma em 410, estabeleceram-se na Aquitânia (o reino de Toulouse no sul da França) e o seu domínio abrangia a Península Ibérica, exceto nas regiões da Lusitânia onde o reino suevo perdurou até fins do século VI. Na Espanha Romana, conforme a divisão feita por Diocleciano em 293, havia quatro dioceses: a Tarraconense, a Cartaginense, a Galiza, a Lusitânia e a Bética. Após a derrota de Alarico lI em 507 por Clóvis, rei dos francos, em Vouillé, os visigodos instalaram-se na Espanha do século V ao VIII e constituíram o reino bárbaro mais notável do Ocidente. O rei Leovigildo (568-586) bateu os suevos e expulsou os bizantinos de Córdova, Medina Sidônia e Sevilha. No fim do século VI resolveu-se a oposição dos godos arianos aos hispanos-romanos com a conversão do rei Recaredo (586-601) ao catolicismo pelo bispo São Leandro, a abjuração dos visigodos ao arianismo e a sua submissão ao Papado (3. Concílio de, Toledo em 587). O domínio visigótico na Península Ibérica terminou em. 711 com a derrota e a morte do rei Rodrigo na batalha de La Janda diante dos árabes que submeteram a Espanha ao Califado de Damasco.

10. Os burgúndios acabaram por fixar-se no território atual da Borgonha, uma vez que o seu rei Gondicário recebeu do imperador Honório em 413 o Franco-Condado e a Suíça e tiveram por capital Lyon ou Genebra até à sua dominação pelos francos em 534. Os seus reis eram romanizados e lutaram pelo imperador contra os visigodos. Os burgúndios e os romanos tinham a mesma condição jurídica.

11. Os francos fixaram-se no norte da Gália em 430. Dividiam-se nos grupos dos sálios, que viviam perto do mar, e ripuários, que habitavam junto ao Reno. Clóvis tornou-se o seu rei em 481 e, por ser descendente de Meroveu, os seus próprios descendentes vieram a ser chamados de merovíngios. Clóvis impôs a sua autoridade a todos os francos e derrotou os alamanos em Tolbiac em 496 quando, em virtude da promessa feita ao Deus cristão de sua esposa Clotilde, foi batizado e o seu povo se tornou católico. Do notável reino dos francos proveio a monarquia francesa.

12. A Grã-Bretanha, parcialmente conquistada pelos romanos com a sua população de caledonianos (pictos e escotos), logrianos e cambrianos, foi ocupada desde 455 por piratas bárbaros oriundos da Germânia, a saber, anglos, saxões e jutos que fundaram os sete reinos principais ou a Heptarquia anglo-saxônica: Kent, Sussex, Wessex, Essex (que teve por capital Londres), os quatro reinos saxões, e Nortúmbria, Estânglia e Mércia, os três reinos anglos.

13. Bizâncio atingiu o máximo esplendor sob ò reinado de Justiniano, o Grande (527-565), que se lançou à conquista da Itália que o Império Bizantino perdeu para os lombardos e os normandos. O Império Romano do Oriente sustentou guerras contra os persas sassânidas e os árabes, e estes se apoderaram da Síria em 638 e do Egito em 642. Os búlgaros e os sérvios conquistaram os territórios balcânicos. Os turcos seldjúcidas e os otomanos conquistaram a Anatólia, a Trácia e, por fim, o resto do Império Romano dó Oriente com a capital Constantinopla em 1453, data marcante, pois assinala o fim da Idade Média. Bizâncio recebeu a herança direta da língua e da cultura grega, preservou o legado cultural latino, reorganizou a legislação por meio da classificação e da edição das leis romanas constantes do Código de Justiniano: o Primeiro Código (529), com as "quinquaginta decisiones" (530), o Digesto ou Pandectas (533), as Instituições ou Institutas (533), e o Segundo Código (534). Essas antigas leis romanas foram publicadas em latim, ao mesmo tempo que os novos decretos, as Novelas, eram editados geralmente em grego, algumas em latim e outras em grego e latim. O nome dado ao conjunto dessas obras: Primeiro Código, Digesto, Institutas, Segundo Código e Novelas é o de Corpus Iuris Civilis (Conjunto do Direito Civil), expressão que só veio a ser usada no século XII. Constantinopla foi, ainda, a grande metrópole comercial do Mediterrâneo oriental, e a Igreja grega separou-se de Roma em 1054 sob o patriarca Miguel Cerulário.

14. Antes, durante e logo após a derrocada do Império Romano do Ocidente, o sistema clássico de ensino entrou em crise e sofreu um colapso definitivo. Na Gália a decadência começara, quando os bárbaros germanos cruzaram o Reno em 275, e a ruína das escolas já era completa no século VI. Na África a influência romana e a tradição cultural persistiram por mais tempo, e a educação antiga concentrou-se em Cartago e só veio a desaparecer por ocasião das invasões sarracenas. Na Grã-Bretanha o sistema educacional desmoronou e as trevas cobriram a ilha, desde a chegada violenta dos anglo-saxões pela metade do século V. O último e possante baluarte do sistema clássico do ensino foi a Itália, onde a educação em todos os níveis era ministrada nas várias cidades e onde os estudos superiores de retórica, direito e medicina podiam ser feitos em Milão, Ravena, Pavia e Roma. Pela metade do século VI os lombardos invadiram a Itália e abafaram a vida cultural que só começou a renascer no fim do século VII [48]. Apesar da barbárie implantada pelos lombardos pode dizer-se que na Itália o ensino tradicional dado por leigos e baseado na literatura profana nunca deixou de existir devido à força da tradição local, à semelhança do vernáculo com o latim e ao contato benéfico com a cultura bizantina, através das cidades gregas do sul da Itália [49]. Marrou, no seu livrinho inédito Décadence romaine ou antiquité tardive? IIe-IVe siècle, observa que juntamente com o apagamento das cidades diminui quase até à extinção a cultura dos letrados que Pierre Chaunu gosta de chamar de "o mundo da Escrita". Com efeito, pode-se falar de decadência quanto a tal aspecto, pois o Baixo Império dependia das municipalidades para a organização do ensino e, por isso, esse ensino oficial desapareceu com a chegada dos bárbaros. A partir dessa verificação, os humanistas do Renascimento expenderam o seu juízo sumário sobre a civilização da antigüidade tardia, mas o fato é que a cultura letrada, diz Marrou, jamais desapareceu totalmente, pois o Ocidente não esqueceu o latim como os egípcios olvidaram o segredo dos hieróglifos, e a escrita, desde o início da Idade Média, sempre conservou um papel importante [50].

15. No século passado, Giesebrecht, no seu livro Sobre os estudos das letras na Itália nos primeiros séculos da Idade Média, estabeleceu a perpetuidade dos estudos laicos na Itália, mas também procurou provar a impotência do ensino eclesiástico [51]. Frederico Ozanam tratou de corrigir essa visão distorcida e injusta do papel docente da Igreja na Idade Média no seu ensaio Des Écoles et de l'Instruction Publique en Italie aux Temps Barbares, tendo examinado o que sobrou das escolas romanas, as novas instituições criadas pela Igreja e a maneira como a instrução se difundiu nas fileiras do clero e nas últimas camadas do povo, quando o gênio italiano se manifestou de forma retumbante nos cantos de Dante e nos afrescos de Giotto [52]. Ozanam reconhece que as invasões bárbaras acarretaram a ruína das escolas mas aduz inequívocos testemunhos da perpetuidade do ensino e da cultura na terra italiana. Ele afirma que nem a queda da monarquia dos godos, nem a desolação de Roma entregue às violências de Tótila, Belisário e Narsés, nada, enfim, pôde sufocar o gosto do povo romano pelos prazeres do espírito, de tal modo que no sexto século se lia solenemente Virglio no fórum de Trajano onde os poetas contemporâneos recitavam as suas obras e o senado concedia um tapete de pano doirado ao vencedor dos combates literários [53]. Testemunho da persistência da escola clássica na Itália durante o século VI são as inscrições latinas das sepulturas dos papas e o fato de Bento Biscop fazer cinco viagens a Roma, trazendo na volta grande quantidade de livros. Pormenor eloqüente, ainda, depara-se nos decretos do concílio, que Ozanam identifica como de Latrão, em 680, e donde se colhe que o clero não se desabituara dos espetáculos dos mimos, derradeiro vestígio do teatro clássico [54]. Quando em 774 Carlos Magno foi pela primeira vez a Roma, figuraram na sua recepção estudantes de letras que empunhavam palmas e cantavam hinos.

Além da cidade de Roma onde os papas patrocinavam as letras, estas floresciam, também, nas regiões bizantinas do sul da Itália. Em Nápoles, os filhos dos nobres estudavam a gramática e a retórica e, no início do século IX, um governador da cidade, o duque Sérgio, aprofundara-se tanto nos estudos clássicos que abria um livro grego e o lia corretamente em latim. Outro famoso centro bizantino e sede dos exarcas, a cidade de Ravena, conservou juntamente com as instituições municipais hábitos da civilização antiga como o uso do ouro e dos mosaicos nas igrejas e as esculturas nos túmulos com inscrições em versos. Aí o poeta Fortunato estudou gramática, retórica e direito. Além disso, quatro diplomas de Ravena, de 984 a 1036, mencionam professores leigos. Quando a invasão dos lombardos se abateu dos Alpes sobre a Itália, diz Ozanam, parecia que a torrente impetuosa ia esbarrondar a cultura e, no entanto, após um século, as cidades perduravam e as escolas continuavam abertas. Pelo ano 700 floresceu em Pavia o gramático Félix, honrado pelo rei Cuniberto, e quando o seu sobrinho Flaviano o substituiu no cargo foi, por sua vez, professor de Paulo Diácono que recebeu instrução no palácio dos reis, donde se infere a existência de escolas palatinas entre os lombardos, tal como entre os anglos-saxões e os francos. Nessas escolas formava-se uma elite de jovens que deviam assumir postos importantes na Igreja e no Estado. Quando o imperador Luís II visitou Benevento, havia na cidade 32 sábios. Em Lucca, capital de um duque lombardo, figuram nas atas de 737 e 798 dois professores leigos, e vários outros também aparecem entre os 17 médicos mencionados em diplomas dos séculos IX e X. Um documento de 823, ditado pelo notário Gausperto e redigido pelo escrivão Pedro, atesta a continuação do estudo do direito, sobre designarem cinco outros documentos, a partir de 755, pintores e ourives. Os professores leigos da Itália nos tempos bárbaros, prossegue Ozanam, eram os verdadeiros sucessores dos gramáticos e retóricos da antigüidade e viviam das espórtulas pagas pelos alunos, uma vez que não contavam mais com o patrocínio oficial, como na época do Baixo Império [55]. Além disso, convém ter em mente que nesse período, do século V ao XII, funcionaram escolas paroquiais e episcopais, assim como floresceram as escolas monásticas, como ainda iremos estudar.

16. É claro que, no turbilhão das invasões e nos tempos inseguros que se lhes seguiram, não havia condições para intensa atividade escolar, já que faltavam recursos humanos e meios para tal empresa, e uma vez que os bárbaros não primavam pela curiosidade intelectual. Temos disso dois testemunhos de peso. Por ocasião do Sexto Concílio Ecumênico de 680, os deputados de Roma levaram a Constantinopla a carta sinodal que o papa Agatão cum universis synodis subjacentibus concilio Apostolicae Sedis e cento e vinte e cinco bispos dirigiram ao imperador Constantino Pogonato e a seus irmãos. Nessa carta sinodal dizem os signatários da Itália, da Gália e da Inglaterra que era impossível encontrar nas fileiras do clero homens instruídos em virtude das perturbações e das guerras incessantes. De todas as partes, escrevem os bispos, as províncias são invadidas pelos bárbaros, e lá onde a Igreja perdeu os seus bens, os clérigos são obrigados a ganhar a vida com o trabalho das mãos. Todavia, reconhecem, eles permanecem firmes na fé, e este é o seu bem mais precioso [56]. Quanto à disposição dos bárbaros para os estudos, valha o desabafo de São Fulgêncio, um século antes, num tratado que escreveu para Trasamundo, rei dos vândalos, casado com Amalafrida, irmã de Teodorico: os bárbaros vândalos "reivindicavam a ignorância como sua propriedade" [57].

17. Ao tratar dos bárbaros romanizados, observa Pierre Riché que, de regra, eles não freqüentavam as escolas romanas, embora tivessem adotado o latim nas inscrições mortuárias e nos textos legais. Eles não apreciavam a teoria e os clássicos e preferiam as ciências aplicadas que lhes eram de proveito na administração. Assim, interessavam-se pelas aplicações de geometria: mecânica, agrimensura, arquitetura, e pelas aplicações da aritmética no estabelecimento das moedas, dos pesos e das medidas. No início do século VI cultivava-se a medicina - embora ela fosse tratada mais com caráter empírico - em muitas cidades da Gália meridional e da Itália, e a farmacopéia popular gozava de mais prestígio que a própria medicina. Os bárbaros dedicaram-se, também, ao direito, e os seus reis mandaram redigir os costumes dos respectivos povos, que vinham sendo transmitidos oralmente. Assim, o visigodo Eurico (466-484) mandou compor um código para o seu povo. O burgúndio Gondebaudo ordenou a compilação das constituições anteriores no Liber Constitutionum chamado de Lei Gobette. A fim de continuar a obra legislativa dos imperadores romanos, adaptando-lhes a leis às novas circunstâncias, recorreram os reis bárbaros a juristas romanos, e o burgúndio Gondebaudo, o visigodo Alarico II e o ostrogodo Teodorico mandaram compor "breviários" para o uso dos súditos romanos. Na Gália como na Itália, apesar da fama de Roma e de Ravena, o ensino do direito assumiu caráter bem prático, desligado da cultura geral e da retórica. A educação dos jovens era sobretudo militar e, em tempo de paz, constava principalmente de exercícios físicos e era completada com a formação moral ministrada através de exemplos dos heróis nacionais e da educação religiosa que consistia de instrução na doutrina cristã segundo o arianismo [58]. Finalmente, observa Riché, os próprios romanos acabaram por adotar o tipo de vida dos germanos e, sobre se trajarem como bárbaros, davam na educação dos filhos mais importância ao esporte que às letras. No entanto, os godos como os outros bárbaros estabelecidos no império civilizavam-se até demais, segundo Duchesne, pois em contato com a ociosidade romana contraíram vícios novos e perdiam as suas qualidades nativas [59]. Felizmente, nessa era caliginosa as letras encontraram guarida nos mosteiros onde os descendentes dos romanos e dos bárbaros, atraídos pelo ideal evangélico, confraternizaram na prática das virtudes, na oração comum, no estudo das letras e da Sagrada Escritura.

18. Por causa do gênero de vida militar das tribos germânicas belicosas que se estabeleceram nas antigas províncias romanas e, também, por causa da decadência da vida urbana e da situação instável das populações do campo ante novos assaltos e outras invasões, o companheirismo, o comitatus germânico, somado à política romana da clientela - o cliente dependia de um senhor para a sua subsistência, em troca de serviços - transformou-se aos poucos, nos primeiros séculos medievais, no que se convencionou chamar, desde o século XVIII, de regime feudal, o sistema militar e político que se desenvolveu nos séculos VIII e IX e que atingiu o seu apogeu no século XIII. Esse efetivo feudalismo existiu só na Idade Média Ocidental e nos Estados orientais para onde o transplantaram os Cruzados latinos. O regime feudal, embora já se esboce entre os merovíngios, remonta à instituição da vassalagem carolíngia. O vassalo, explica Halphen, era o "cliente", o protegido de qualquer homem livre de alta categoria social, seu senhor ou patrão, e a quem ele jurava devotamento absoluto, colocando as suas mãos unidas entre as mãos do "senhor" (senior), ao lhe prometer absoluta fidelidade. Daí resultavam mais dois traços capitais do feudalismo: a livre associação de pessoas ligadas por juramentos mútuos de proteção e fidelidade e a entrega condicional e limitada pelo senhor ao vassalo de uma propriedade ou benefício que permitia ao dependente o cumprimento mais fácil dos seus deveres militares para com o suzerano [60]. Roberto Lopez salienta com perícia e precisão os aspectos essenciais do feudalismo, ao observar que nasceu da prática e não de princípios abstratos, e reconstruiu o Estado sobre as solidariedades voluntárias e particulares expressas nos ritos da vassalagem e do benefício. Pobres, servos, aventureiros, ricos, poderosos e nobres encomendavam-se ao chefe, juravam fidelidade e declaravam-se seus vassalos e o chefe em troca lhes assegurava proteção e apoio, concedendo-lhes terras, alfaias, animais e pessoas donde tirassem proveito, benefício ou, mais tarde, feudo. Desse modo, vassalagem e benefício tornaram-se sistema de governo, quando o vassalo passou a administrar e a defender o feudo, ante o desinteresse crescente do suzerano. Foi a partir do decreto da Assembléia Nacional francesa, de 11 de agosto de 1789, que destruiu, o "regime feudal" na França - resto anacrônico das instituições medievais na sociedade moderna - que o termo feudal assumiu conotação pejorativa, acentuada mais tarde pelo marxismo que o associou ao capitalismo num ato de supremo desprezo e condenação de avantesmas econômicos, de tal modo que os marxistas e comunistas trazem carimbada em seus cérebros a acepção pejorativa do termo feudal. No entanto, como observa Roberto Lopez, "o feudalismo foi um sistema de governo, como a democracia liberal ou o socialismo, aos quais deixou muitas ruínas a desobstruir, mas também material a recuperar. Hoje, é tão fácil criticá-lo como provar a superioridade do telefone sobre o pombo-correio; o que não impede que, antes da eletricidade, o pombo tenha prestado serviço" [61].

19. Convém destacar, a bem da verdade, que o feudalismo deixou, como diz Lopez, "material a recuperar", já que se está cansado de saber das ruínas que à democracia e ao socialismo coube desobstruir. Assim, o próprio Lopez assevera que o feudalismo foi, mais do que um sistema de governo, um modo de viver que marcou as nossas relações sociais, tanto que "é por causa das tradições feudais que chamamos à mulher que trabalha conosco de `minha senhora' e que devemos caminhar à sua direita, para o caso de a termos de defender com a nossa espada" [62]. Durante os séculos em que imperou esse regime militar do feudalismo registraram-se abusos, como em todas as épocas, mas floresceram virtudes notáveis como a lealdade enaltecida na Canção de Rolando e no Parsifal de Wolfram, a generosidade, a cortesia, a fina flor da civilização nascida no castelo e no domínio rural e um extraordinário senso de justiça que se impunha até mesmo aos representantes mais categorizados da hierarquia feudal, haja visto o famoso episódio da reivindicação feita por Ascelino ante o féretro de Guilherme, o Conquistador, a clamar por justiça, que o cronista Orderico Vital registrou na sua História Eclesiástica da Inglaterra e da Normandia e que Rui Barbosa descreveu com tanta eloqüência [63]. Régine Pernoud frisa muito bem a diferença entre a nossa sociedade e o mundo feudal. A sociedade contemporânea baseia-se no salário e as relações de homem a homem reduzem-se às do capital e do trabalho, de tal modo que o dinheiro é o "nervo essencial" das relações sociais, enquanto na Idade Média a sociedade é completamente diferente, por se fundamentar nas relações de homem a homem, na fidelidade de um lado e na proteção, de outro, e isso constitui a essência do liame feudal, pois nesse mundo a noção de trabalho assalariado, e até mesmo a de dinheiro, está ausente e eles são mesmo secundários [64]. E bem de notar, outrossim, que o feudalismo não se apresentava da mesma forma e com idêntica feição em todas as regiões da Europa medieval. Durante os séculos IX e X ele firmou-se na França e nos Países Baixos. Durante o XI os normandos introduziram-no na Itália meridional e na Sicília e ele chegou de forma atenuada ao norte da Itália. Na Inglaterra só se estabeleceu de modo completo após a conquista normanda na segunda metade do século XI. Os Cruzados levaram-no à Síria e aos estados estabelecidos no Oriente após a Primeira Cruzada (1096-1099). Na Germânia o feudalismo vingou durante o reinado de Frederico Barba-Roxa (1152-1190), nunca foi sólido na Escandinávia e propagou-se na Península Ibérica após a Reconquista [65], embora vários historiadores, como diz Oliveira Marques, tenham vindo "a criar e a defender um Portugal artificial, senhorial, não feudal, espécie de avis rara de incerta origem e difícil descrição", tal como o defendeu Alexandre Herculano no opúsculo célebre Da existência ou não-existência do feudalismo nos reinos de Leão, Castela e Portugal, 1875-1877 [66]. A vassalidade, ensina Oliveira Marques, achava-se perfeitamente estabelecida como instituição em Portugal nos séculos XIII, XIV e XV e as concessões régias em forma de benefício, os préstamos (prestimonia), pessoais de início, tornaram-se depois hereditários, de modo que pelos meados do século XIII havia em Portugal feudos semelhantes aos franceses e aos ingleses [67].

20. De acordo com Erich Fromm, a organização das sociedades obedeceria a um dos princípios, o patricêntrico ou patriarcal, e o matricêntrico ou matriarcal. O primeiro está condicionado à conduta do filho, e o amor do pai caracteriza-se pela justiça, podendo ser perdido e também reconquistado pelo arrependimento. O principio matricêntrico consubstancia-se na figura da mãe amorosa cujo amor é misericórdia e compaixão. Ora, todo homem e toda mulher precisam de justiça e de misericórdia. O ideal humano e social seria a síntese desses dois pólos masculino e feminino da justiça e da misericórdia que não se pode obter numa sociedade patriarcal, mas que existiu, diz Erich Fromm, em certo grau na Igreja Católica durante a Idade Média. A Virgem Maria e a Igreja, mãe extremosa, são as figuras maternais que encarnam o amor e a misericórdia, enquanto o papa e o clero, figuras paternas, representam a justiça e constituem os elementos de uma burocracia patriarcal, ficando o papa como o detentor supremo do poder e da justiça. Essa síntese dos princípios patricêntrico e matricêntrico fez da Idade Média um período notável pela unidade vital e pelo equilíbrio social tanto que, em correspondência aos elementos maternos, o processo da produção no seu relacionamento com a natureza caracterizou-se pela cooperação harmoniosa com ela, de modo que o trabalho do camponês e do artesão nunca foi um ataque à natureza nem o seu aviltamento ou exploração. Lutero, no século XVI, acabou de vez com essa síntese ideal dos princípios patricêntricos e matricêntricos e "estabeleceu uma forma puramente patriarcal de cristianismo no Norte da Europa, baseado na classe média urbana e nos príncipes seculares. A essência desse novo caráter social é a submissão à autoridade patriarcal, sendo o trabalho o único modo de obter amor e aprovação", sobre ter tal sistema social ensejado o aparecimento da religião industrial, nova religião secreta, a "religião cibernética" com o tipo de caráter mercantil, completamente incompatível com o cristianismo autêntico [68].

21. Marrou chama a atenção para o caráter aristocrático da civilização antiga, onde tudo se organizava em benefício de uma elite social, para assegurar a "felicidade" de uma casta de ociosos [69]. No ensaio sobre O Ocidente cristão e a queda do Império, Christopher Dawson já observara que a sociedade romana não passava de elaborada superestrutura erguida sobre alicerces débeis e instáveis, pois a civilização urbana dessa época era essencialmente a de uma classe ociosa, de uma sociedade de consumidores, que se mantinha à custa do trabalho escravo e da servidão rural, estando o camponês escravo ou livre sujeito à terra que cultivava e que lhe era defeso abandonar [70]. Na sua brilhante obra A Formação da Europa, o mesmo historiador inglês explica que a transformação da sociedade romana começou nos fins do século II da nossa era, quando as municipalidades e a classe média entraram em declínio, passando a existir duas classes, a dos proprietários de terras e a dos camponeses. As finanças imperiais dependiam do imposto conhecido por capitatio, imposto por cabeça, pessoal, devido pelos homens livres que não fossem proprietários de imóveis, imposto que também era conhecido por jugatio, imposto predial que recaía sobre o jugum ou, nas províncias ocidentais, a centúria que eqüivalia ao arrendamento feito por um camponês. Os rendeiros livres forneciam trabalho gratuito ao poderoso senhor, e os escravos e os rendeiros acabaram por se fundir numa só classe servil de camponeses. Donde se colhe, conclui Dawson, que antes da queda do Império estava já a aprestar-se uma sociedade semi-feudal [71]. Desde o século II d.C., confirma Bühler, começou a servidão hereditária da gleba imposta aos camponeses, até mesmo aos que antes eram livres pequenos proprietários ou arrendatários. Os lavradores foram obrigados a trabalhar a terra durante a vida inteira e, ao morrer, esse encargo passava ao seu herdeiro, e eles estavam sujeitos a um senhor territorial ou grande arrendatário de terras do Estado [72].

22. Após o período das grandes invasões, esse regime social acentuou-se na Europa incipiente com a decadência das cidades e a transformação das antigas províncias romanas numa sociedade agrária dominada pelos chefes militares que distribuíam terras aos seus parentes e soldados em troca de seus serviços pessoais. Esses bens, doados pelos chefes militares, foram chamados de feudo, termo germânico que significava gado e que foi aplicado ao antigo beneficium, terra dada em remuneração de serviços. Aquele que o recebia, o vassus, o vassalo, usufruía da terra senhorial para viver e sustentar os seus homens e alimentar os seus cavalos. No século XI o termo feudo designava o simples rendimento das terras, e no fim do século XII, as rendas monetárias. Senhoria era o território no qual o titular exercia os vários direitos de poder público: justiça, política, exército, etc. Essa instituição surgiu no fim da época carolíngia com a disseminação da nobreza em cargos governamentais e administrativos que se tornaram vitalícios e hereditários, quando na origem haviam sido temporários e de título meramente pessoal. Distinguiase, no entanto, senhoria de feudo, pois um senhor podia dar uma terra sem conceder os direitos de poder público. Todavia, as duas instituições acabaram confundindo-se, de modo que no fim do século XIII já eram, de fato, inseparáveis [73]. No Portugal da Idade Média, como ensina Oliveira Marques, assim como na França, senhoria veio a significar o mesmo que feudo, e as terras dos nobres eram as honras que gozavam de imunidades e eram livres de quaisquer encargos [74]. O historiador lusitano indica o fundamento legal dos três estados típicos da sociedade medieval: a nobreza que guerreia, o clero que reza e o povo que trabalha, ao citar o preâmbulo ao título LXIII do Livro I das Ordenações Afonsinas: "Defensores são uns dos três estados que Deus quis por que se mantivesse o mundo, cabem assim como os que rogam pelo povo chamam oradores, e aos que lavram a terra per que os homens hão de viver e se mantêm, são ditos mantenedores, e os que hão de defender são chamados defensores" [75]. Aliás, Oliveira Marques esclarece muito bem que houve feudalismo em Portugal, assim como no resto da Europa, em hora esse regime se apresentasse mais puro e completo na França. Diz ele que o Portugal da Idade Média apresentava características próprias e outras provenientes de fatores que resultaram da Reconquista, da tradição moçárabe e islâmica, e essas características devem ser interpretadas e compreendidas em comparação com os outros países europeus e com os estados muçulmanos. "Foi por, em geral, se recusarem a fazê-la, diz Oliveira Marques, que quase todos os historiadores portugueses (com muitos dos seus colegas espanhóis) vieram a criar e a defender um Portugal artificial, "senhorial, não-feudal", espécie de avis rara de incerta origem e difícil descrição. Uma vez posta de parte a idéia de um feudalismo monolítico e geograficamente delimitado, a interpretação do estado português da Idade Média e dos começos da era moderna deixa de se apresentar como enigma, embora continuando a levantar numerosos e inumeráveis problemas" [76]. Aliás, no tocante à vida e às instituições medievais, é preciso sempre ter muito cuidado no uso de termos empregados para séculos distantes, uma vez que as instituições evoluíram desde a sua origem e que entre o ano 901 e 1201, quando começa o Século de Ouro da Idade Média correm trezentos anos, o mesmo intervalo que nos separa da corte de Luís XIV e da guerra com os holandeses no Brasil.

23. A princípio, a nobreza era classe aberta. Os nobres eram soldados profissionais que dispunham de recursos para guerrear a cavalo. Logo ela incluiu, também, os funcionários graduados do serviço real e ligados ao rei. Por fim, ela abrangeu os grandes proprietários. No século XIII tornou-se uma casta fechada. Muitos senhores tornavam-se monges ou sacerdotes diocesanos, geralmente dignitários da Igreja, enquanto os camponeses que recebiam a clericatura perdiam a condição de servos. Uma pessoa tornava-se servo pelo nascimento e a sua diferença quanto ao camponês livre era mais de reputação do que de efetiva vantagem econômica. Os servos ligados à gleba adquiriam a liberdade, quando o senhor os alforriava individual ou coletivamente através de um comprovante escrito ou quando se refugiava num lugar "franco", com igreja, mosteiro ou cidade livre. Em certas regiões, como na Borgonha e na Champanha, a serva que desposasse um homem livre tornava-se livre também. Em alguns lugares, o servo declarava não confiar mais no senhor, abandonava os seus bens e recobrava a liberdade. Ademais, merece realce especial o caráter patriarcal da organização senhorial que tornava a vida do servo muito diferente e bem melhor do que a dos escravos da antigüidade, dos negros das colônias dos séculos XVII e XVIII e dos obreiros da grande indústria no começo do século XIX, como ensina Pirenne, no capítulo III da sua clássica História Econômica e Social da Idade Média. Diz ele que o senhor não pensava em produzir além das suas necessidades. O camponês vivia tranqüilo sem temer a expulsão da sua terra que era hereditária e o vilão gozava das vantagens da segurança. Em Portugal, o povo compreendia os cavaleiros vilãos, pequenos proprietários que podiam armar-se para a guerra; os peões ou camponeses livres que combatiam a pé e os malados que lavravam a herdade alheia às ordens de outrem viviam ao lado dos servos e dispunham da sua pessoa, embora vivessem em condições precárias [77]. A entrada na nobreza, em pleno regime feudal, fazia-se pela porta iniciática da ordem da cavalaria e na qual era proibido ao vilão ingressar. Por outro lado, pelas regras da cavalaria, era vedado ao nobre dedicar-se ao comércio e às atividades lucrativas. Raimundo Lúlio diz no Livro da Ordem da Cavalaria que o escudeiro deve ser muito rico para poder ser chamado cavaleiro e viver à farta, pois, do contrário, podia tornar-se ladrão, traidor e homem afeito a todos os vícios contrários à Ordem da Cavalaria, a fim de acudir às próprias necessidades [78]; e Hearnshaw afirma que a cavalaria inculcou o ideal do serviço social, serviço sem remuneração [79]. As atividades lucrativas só constituirão tentação geral para os nobres, a partir do século XII, quando o co- mercio ressurgir e reanimar as cidades e o dinheiro vier a ser o único meio de obter as coisas boas da vida. Mas, então, o lucro' será uma tentação para o nobre, mas sempre algo divergente dos ideais e repulsivo à dignidade da cavalaria. Antes, porém, dg. nova época de ascensão social do burguês e de consagração do comerciante, quem trabalhava mesmo na sociedade feudal era o camponês que lavrava a terra e, como observa ainda Oliveira Marques, "lavrar a terra" era expressão de sentido alegórico, e o lavrador, o símbolo do obreiro por ser o trabalhador por excelência [80]. Além de ganhar o pão com o suor do rosto, tal como o prescrevo a Bíblia, o camponês pagava aos senhores diversos impostos tais como, em Portugal, o foro - prestação-base nas terras exploradas a prazo ou a foro - direituras, eirádega, jantar, jugada, serviços braçais ou jeiras, corvéias - jornadas de trabalho gratuito para o senhor - e o dízimo para a Igreja.

24. É preciso lembrar, todavia, que muitos nobres e cavaleiros não correspondiam ao seu retrato ideal e, como observou Raimundo Lulio, desonravam a Ordem da Cavalaria. Joaquim Ferreira descreve com vivas cores os abusos cometidos por muitos nobres: a violência a explodir em exibições de ferócia verdadeiramente barbaresca, as guerras entre solares, os homicídios e os raptos violentos, o desrespeito aos decretos do rei e às regalias municipais. "A lei, diz ele, não os amedrontava, nem era suficiente para subjugar o poderio anárquico dos fidalgos. E neste meio barbarengo brotou a ordem da cavalaria! Como nos pântanos floresce o nenúfar, a mais delicada instituição da Idade Média irradiou destes homens viciados no emprego da força muscular, sôfregos de domínio" [81]. Na cavalaria, tal como no cristianismo, na ordem monástica e na universidade, existem ideais alevantados dos quais ficam muito distantes os homens na sua encarnação quotidiana e rotineira podendo, por isso, comparar-se os cavaleiros sem mácula aos santos e sábios que não fulgem a todo instante no céu da nossa vida. A Igreja Católica esforçou-se durante séculos para civilizar os bárbaros e amansar os soldados rudes e boçais que lutavam a cavalo. Na evolução da instituição da cavalaria ela conseguiu dar-lhes um tom evangélico, introduzindo o rito religioso para a ordenação do cavaleiro, enaltecendo-lhe as virtudes peculiares, elaborando um código de conduta, sobre tomar várias medidas para coibir as arbitrariedades e as violências dos cavaleiros que freqüentemente não passavam de bandidos e salteadores. Como diz Hearnshaw, o cavaleiro do primeiro período normando não era indivíduo simpático e ninguém gostava dele, pois roubava os bens da Igreja, desafiava a disciplina eclesiástica e aterrorizava o povo com as suas exações e comportamento desalmado [82]. A fim de se defender, e ao povo, contra as injustiças e as violências dos barões, a Igreja lançou os movimentos da Paz de Deus e da Trégua de Deus. A Paz de Deus, Pax Dei foi o recurso excogitado pela Igreja para salvaguardar a paz contra o hábito belicoso dos cavaleiros que promoviam constantes guerras privadas sem respeitarem lugares nem épocas e prejudicando os inocentes e os fracos. Os concílios de Charroux (989) e de Puy (990) ditaram leis contra os ataques à mão armada e as pilhagens que vitimavam os pobres e os mercadores. O bispo de Puy reuniu os cavaleiros da região e obrigou-os a jurar que não oprimiriam os pobres e as igrejas, não lhes roubariam os bens e devolveriam o que já haviam furtado. Assim o fez, também, o bispo de Limoges seguido pelos bispos da Aquitânia, pelos barões e pelo duque da Guiana em 997 e pelo concílio de Poitiers no ano 1000. A Paz de Deus estendeu-se pela França e pela Flandres, foi prestigiada pelo rei Roberto, o Piedoso, na assembléia de bispos e nobres em 1010, e os concílios de Verdum em 1016, de Limoges em 1031 e de Bourges em 1038 impuseram a Paz de Deus sob pena de excomunhão aos que destruíssem igrejas, roubassem clérigos, monges e mercadores, arrasassem campos e vinhas, açoitassem aldeões e roubassem bois, vacas, asnos, porcos, ovelhas, etc. Inspirados por Santo Odilão, abade de Cluny, os bispos da Provença no concílio de 1041, na diocese de Elna, promulgaram a Trégua de Deus, Tregua Dei, suspensão de qualquer guerra ou combate desde a quarta-feira de tarde à segunda-feira de manhã e durante os tempos sagrados do Advento, Quaresma, Páscoa e Pentecostes. Esse uso espalhou-se na Normandia, na Inglaterra, na Espanha e na Alemanha e nesta, máxime, por obra de Henrique III. O concílio de Clermont, em 1095, promulgou a Trégua de Deus por três anos, e os três concílios ecumênicos de Latrão (IX, X, XI) em 1123, 1139 e 1179 prescreveram-na para toda a Igreja. "Temos de reconhecer, no entanto, diz Villoslada, que, se as intenções foram excelentes, os resultados sempre foram medíocres" [83].

25. A propósito da Idade Média fala-se da divisão dos homens em humiles e potentes, os pobres e os poderosos ou os ricos. Mas seria ridículo apresentar essa divisão social, como se ela fosse típica da Idade Média, uma vez que tal é a partição social da humanidade, desde os albores da História. Aliás, desde que surgiu no fim do mundo antigo, o cristianismo contribuiu para melhorar a sorte dos humiles, isto é, dos pobres, órfãos, viúvas, estrangeiros e condenados das prisões e das minas, assim como se distinguiu pelo alto conceito que teve da dignidade do trabalho [84]. No início da Idade Média já se organizara a assistência aos pobres. Nos séculos V e VI, vigorava na Itália o regime da diaconia e na Gália difundira-se o sistema da matrícula dos pobres, lista de necessitados inscritos oficialmente numa paróquia, a fim de receberem auxílio da Igreja que contava nessa época com grandes recursos. No século VII a matrícula começou a tornar-se rara nas cidades da Gália, mas persistiu no campo e acabou por se confundir com o xenodochium, asilo para os pobres, os doentes e os peregrinos [85] e que, principalmente na primeira parte da Idade Média, se tornou uma dependência dos mosteiros. Segundo a Regra Beneditina, o hóspede deve ser acolhido como o próprio Cristo: "Mostre-se principalmente um cuidado solícito na recepção dos pobres e peregrinos, porque, sobretudo na pessoa desses, Cristo é recebido[86].

26. Finalmente, podemos referir-nos à escravidão na Idade Média. Como o reconhecem com franqueza e propriedade, na sua História da Igreja, Bihlmeyer e Tuechle, na Idade Média a escravidão perdurou tenazmente junto com o comércio de escravos, principalmente prisioneiros de guerra. Sob a influência do Cristianismo e com a transformação das condições econômicas, muitos escravos tornaram-se servos da gleba e a sua situação tendeu a melhorar à medida em que o espírito cristão impregnava as instituições. Como o reconheceu o direito justinianeu nas Institutas, a escravidão era instituição do direito das gentes que deixava o homem sob o domínio de outro, mas contra a exigência da natureza, contra naturam [87]. Ora, como observa Minnerath, os cristãos aceitaram como elementos deste mundo as estruturas sociais romanas, particularmente a escravidão, mas introduziram o espírito de caridade nas relações entre os irmãos [88]. Na época feudal, no mais ínfimo degrau da escala social achavam-se os servos domésticos, vernaculi, e os artesãos, operarii, que pouco se distinguiam dos antigos escravos, eram tratados cruelmente e chicoteados pela mínima falta. A Igreja não aprovava esse estado de coisas, mas procurava transformá-lo [89]. Na certeira verificação feita por Leclercq, os primeiros cristãos pretendiam purificar os costumes e a sua preocupação moral voltavase para a ação individual, e as instituições apareciam como estruturas exteriores à pessoa e, portanto, remotas e intangíveis, enquanto a vida pessoal decorria no seu contexto [90]. Só no século XX é que a Igreja Católica passou a contestar, por injustas, as próprias estruturas sociais pois, como reza a constituição pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II, "a ordem social e o seu progresso devem coordenar-se incessantemente ao bem das pessoas, pois a organização das coisas deve subordinar-se à ordem das pessoas e não ao contrário", ordem que deve desenvolver-se continuamente, construída sobre a justiça e animada pelo amor. "Para se cumprirem tais exigências, devem-se introduzir uma reforma da mentalidade e amplas mudanças sociais"[91].

27. A verdade é que o Cristianismo proclamou a igualdade de todos os homens. Como diz São Paulo, "não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus. E se vós sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa" [92]. No entanto, São Paulo não investe contra a malsinada instituição social da escravidão, mas recomenda paciência aos escravos e bondade aos seus senhores [93]. Contudo, a semente fora lançada e, observa José De Maistre, "a religião começou a trabalhar sem descanso para abolir a escravidão" [94]. De Maistre cita o famoso passo de Voltaire em que este filósofo iluminista exalta a memória do papa Alexandre III, por ter declarado em nome do concílio que todos os cristãos devem ser isentos da servidão [95]. Godefroid Kurth tem páginas magistrais sobre a Igreja e a escravidão na Idade Média. Diz ele que os bárbaros, habituados ao luxo e aos costumes refinados dos romanos, haviam aprendido a arte de se fazerem servir e precisavam de escravos, e que a Igreja interveio com prudência e firmeza sem pretender resolver a questão imediatamente. A luz das atas dos concílios, Kurth assinala as medidas tomadas pela Igreja em favor dos escravos aos quais ela reconheceu a dignidade de homens e de cristãos [96]. Aliás, desde o início da Idade Média, os apóstolos dos bárbaros bateram-se pela libertação dos escravos, tanto que um dos títulos dados pelos hagiógrafos da época aos santos é o de "redentor dos cativos", como nos casos de Aidano de Lindisfarne, Amando de Tongres, Cesário de Arles ou Germano de Paris. Régine Pernoud observa que os exemplos de servos elevados às dignidades eclesiásticas ou leigas mostram que as comunidades religiosas não consideravam os camponeses como uma reserva cômoda de mão-de-obra ou de irmãos conversos [97]. Em Lumière du Moyen Âge, a mesma autora ressalta várias personagens que se elevaram na escala social graças aos próprios méritos e ao sistema aberto de ascensão social propiciado pela Igreja. Diz ela que na Idade Média havia pouca diferença na educação proporcionada a crianças de condições diversas, pois os filhos dos menores vassalos eram educados no solar do senhor junto com os do suserano, e os dos ricos burgueses submetiam-se ao mesmo aprendizado que o mais humilde dos artesãos, se pretendiam manter, por sua vez, a loja paterna. Além disso, muitos homens de humilde extração projetaram-se na vida social do seu tempo, tais como Sugério, filho de servos, que governou a França durante a cruzada de Luís VII; Maurício de Sully, bispo de Paris que fez construir Notre Dame, nasceu de um mendigo; São Pedro Damião, famoso reformador e sábio, guardou porcos na infância, e um dos luminares da ciência medieval, Gerberto de Aurillac, foi pastor; o papa Urbano VI era filho de um modesto sapateiro, enquanto o grande papa Gregório VII era filho de um cabreiro.

28. Alexandre Herculano salienta que o cristianismo pela sua índole admirável promoveu a libertação das classes servas, "fazendo coar lentamente nos ânimos a idéia da dignidade moral do cristão... A liberdade humana converteu-se num princípio universal, a servidão num fato excepcional. Ao terminar o século XIII, pode-se afirmar, sem receio de que os monumentos venham desmentirnos, que a escravidão pessoal só existia para um número insignificante de produtores, de obreiros, os sarracenos cativos na guerra, que não tinham podido remir-se" [98]. Sem embargo disso, permaneceram na Europa quistos locais de servidão na França, na Alemanha e alhures, o que é perfeitamente compreensível em termos de cobiça humana quando no Brasil, na segunda metade do século XX, e perto do ano 2000, os jornais ainda noticiam casos de escravidão rural.