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1. Vamos estudar nesta segunda parte a educação na
primeira fase da Idade Média. De acordo com a
periodização apresentada no capítulo I, cabe-nos nela
examinar a história das idéias e dos fatos educacionais,
desde o fim do mundo antigo até ao século XII.
Parece-nos, pois, de bom aviso, delinear em breve
parágrafo os principais eventos dessa fase com as suas
respectivas datas, a fim de que os leitores disponham logo
à primeira vista de rápidos pontos de referência dos
fatos capitais para o nosso estudo, em meio à
multiplicidade de acontecimentos em época geralmente tão
desconhecida.
2. No ano 493: O chefe ostrogodo Teodorico,
general a serviço do imperador bizantino Zenão, fez
assassinar Odoacro, que reinava desde 476, e
tornou-se o senhor da Itália. Foram seus ministros
Cassiodoro Senator e Anício Mânlio Severino Boécio
que marcaram fundamente a educação medieval.
No ano 500: O Edito de Teodorico impôs o uso do
Direito Romano e o restabelecimento da organização
política e administrativa (senado, prefeito da cidade,
governadores de província, municipalidade).
No ano 527: Elevação de Justiniano a imperador da
Bizâncio.
No ano 529: Invasão persa do Império Bizantino.
Fechamento das escolas de Atenas. Fundação da Ordem
Beneditina.
No ano 565: Publicação do Código de Justiniano,
iniciado em 527.
No ano 534: A redação da Regra de São Bento
(em torno dessa data).
No ano 565: Morte de Justiniano.
No ano 568-572: Conquista da Itália do Norte
pelos lombardos.
No ano 590: Fundação do mosteiro de Luxeuil por
São Columbano. Irradiação da cultura irlandesa.
No ano 590-604: Pontificado de São Gregório
Magno, o papa que defendeu Roma contra os ataques e as
pretensões dos lombardos e bizantinos e promoveu a
conversão dos anglo-saxões.
No ano 596: Início da missão do monge beneditino
Santo Agostinho, na Grã-Bretanha.
No ano 630: Conquista de Meca por Maomé.
No ano 635: Fundação do mosteiro de Lindisfame.
No ano 642: Conquista de Alexandria pelos árabes.
No ano 669: Teodoro de Tarso torna-se arcebispo de
Cantuária e promove o estudo e a difusão da língua
grega.
No ano 678: Wilfredo de York inicia a
evangelização da Frísia. Da Inglaterra saem os
monges missionários - e entre eles destacou-se São
Bonifácio - que vão cristianizar Hesse, Turíngia e
Baviera na Germânia.
No ano 680: Pepino de Heristal torna-se chefe do
palácio na Austrásia e cessa o domínio merovíngio dos
reis indolentes.
No ano 711: Inicia-se a conquista da Espanha pelos
muçulmanos chefiados por Tarik que, em 719, já
havia tomado toda a península e destruído o reino
visigótico.
No ano 716: Primeira missão de São Bonifácio na
Germânia.
No ano 754: Estabelecimento da aliança entre o papa
Estêvão II e o rei dos francos, Pepino, o Breve,
e do Estado Pontifício que surgiu baseado no
preexistente Patrimônio de São Pedro.
No ano 756: Entrega do território do Estado
Pontifício a Estêvão II por Pepino, o Breve. É
a Doação de Pepino.
No ano 768: Morte de Pepino, o Breve, a quem
sucedem os filhos Carlos Magno e Carlomano.
No ano 771: Carlos Magno, único rei dos francos,
após a morte de Carlomano.
No ano 773: Aparição da numeração árabe.
No ano 774: Carlos Magno torna-se rei dos
lombardos.
No ano 782: Chegada de Alcuíno à corte de Carlos
Magno.
No ano 800: Na festa de Natal, coroação de
Carlos Magno pelo papa Leão III como Imperador
Romano do Ocidente. Nascimento do Sacrum Romanum
Imperium, reconstituição cristã do império desfeito
em 476.
No ano 814: A morte de Carlos Magno e a elevação
de Luís, o Piedoso.
No ano 827: Os sarracenos iniciam a conquista da
Sicília.
No ano 840: Morte de Luís, o Piedoso, e
conquista de Tarento pelos sarracenos.
No ano 842: Os Juramentos de Estrasburgo.
No ano 850: Estabelecimento dos normandos na
França.
No ano 863: Os apóstolos dos eslavos, São Cirilo
e São Metódio, iniciam a missão entre os morávios.
No ano 871-900: Reinado de Alfredo, o Grande,
o rei dos anglosaxões.
No ano 877: Capitular de Quierzy com o
reconhecimento legal do regime senhorial por Carlos, o
Calvo.
No ano 910: Fundação do mosteiro de Cluny, perto
de Mâcon na Borgonha.
No ano 936: Advento de Otão I, o Grande,
vencedor dos húngaros e eslavos.
No ano 962: Coroação de Otão, o Grande,
fundador do Santo Império Romano Germânico, pelo
papa João XII, reconstituindo-se o império de
Carlos Magno.
No ano 980: Início da conquista da Grã-Bretanha
pelos dinamarqueses.
No ano 980-1037: Vida do filósofo persa
Avicena.
No ano 987: Advento de Hugo, o Capeto.
No ano 992: Primeiro tratado comercial entre
Bizâncio e Veneza.
No ano 1029: Início do
principado normando na Itália.
No ano 1030: Começo do movimento comunal na
Itália e da ascensão da burguesia.
No ano 1033: Nascimento de Santo Anselmo de
Cantuária, em Aosta na Itália.
No ano 1066: Conquista da Inglaterra por Guilherme
da Normandia.
No ano 1079: Nascimento de Abelardo, o Cavaleiro
da Dialética.
No ano 1095: Pregação da Primeira Cruzada no
Concílio de Clermont.
3. Da queda de Roma em 476 e do ocaso do império
romano do Ocidente até ao surgimento da nova
civilização medieval no início do século XII,
estendem-se os séculos intermediários em que se contam
as agitações, as guerras, a insegurança e as
invasões, ao mesmo tempo em que se registra a
cristianização dos povos germânicos e se processa a
assimilação do patrimônio cultural antigo preservado
pela Igreja Católica. Como deixamos assentado em nosso
livro História da Educação na Antigüidade Cristã,
os povos germânicos da Idade Média receberam de modo
direto da antigüidade romana um patrimônio cultural de
conteúdo exclusivamente literário e jurídico, uma vez
que durante o Baixo Império o ensino da filosofia
desaparecera lentamente, devendo notar-se que nunca fora
popular entre os romanos, e a educação caracterizava-se
pelo predomínio da gramática e da retórica sob o
patrocínio de Quintiliano e Cícero, sobre serem
ínfimas as noções científicas que o Império romano
decadente deixara em herança à nova idade e à Europa
nascente. Esse saldo cultural da Roma antiga é muito
diferente da situação do Império bizantino onde, a par
das letras clássicas e do direito romano, floresceu a
filosofia e cultivaram-se as ciências no prolongamento de
uma tradição milenar. Por isso, quando os árabes
conquistaram antigas cidades do Oriente e grandes centros
culturais de Bizâncio, eles entraram incontinente em
contato direto com o saber grego que lhes serviu de
notável rampa de lançamento para o adiantamento
científico e filosófico. Acresce, ainda, que o
domínio muçulmano se baseou nos antigos centros urbanos,
sedes de atividade cultural, comercial e industrial,
enquanto os povos germânicos levaram um gênero de vida
agrária em ambiente conturbado por guerras e invasões.
Deixamos, ainda, estabelecido no nosso livro citado que
a orientação pedagógica da Idade Média iria obedecer
ao plano traçado por Santo Agostinho na sua obra De
Doctrina Christiana, que serviu de roteiro para os
estudos dos intelectuais cristãos e de ideário e programa
para as escolas. De acordo com o Mestre de Hipona, o
centro da aprendizagem é a Sagrada Escritura e para ela
se volta todo o interesse que possam merecer as artes
liberais, as línguas e as ciências, enquanto o termo
filosofia se conserva para designar principalmente a
concepção cristã da vida na acepção consagrada pelos
Santos Padres e adotada pelos autores monásticos [99].
4. O saber antigo preservou-se nos livros que os
mosteiros e as igrejas agasalharam carinhosamente. A sua
transmissão às gerações da Idade Média operou-se
por meio da cópia dos manuscritos e da elaboração de
manuais e enciclopédias por alguns autores do fim do mundo
antigo, tais como Santo Agostinho e Marciano Capela,
e por escritores do início da Idade Média, tais como
Cassiodoro, Boécio, Santo Isidoro de Sevilha e
São Beda, o Venerável. A obra de Santo Agostinho
agigantou-se no legado antigo e as suas diretivas
filosóficas e educacionais imperaram soberanas até ao
século XIII, e alguns dos seus tratados influíram
constante e diretamente nas escolas, como o De Doctrina
Christiana, o De Magistro, o De Civitate Dei, as
Confessiones e o De Musica, única obra completa que
restou da sua planejada enciclopédia sobre as artes
liberais. Marciano Capela, o retórico cartaginês
contemporâneo de Santo Agostinho, nasceu provavelmente
no fim do século IV. Ele escreveu uma enciclopédia em
prosa e verso, As Núpcias de Filologia com
Mercúrio, em nove livros. Os dois iniciais descrevem
as bodas de Filologia com Mercúrio, e os restantes
tratam das sete artes liberais simbolizadas por damas de
honor, serviçais de Mercúrio que Febo deu à
Filologia como presente de casamento. Note-se que as
núpcias descritas nos dois primeiros livros constituem um
símbolo muito significativo da cultura no fim do Baixo
Império. O conúbio de Filologia com Mercúrio
representa, sem dúvida, a aliança da perícia
literária, da arte gramatical, com a eloqüência. O
simples título da obra já impunha ou propunha um ideal e
um programa às escolas da Idade Média incipiente, a
saber, o culto da gramática e da retórica [100]. A
obra de Marciano Capela baseou-se na enciclopédia de
Varrão Sobre as Nove Disciplinas, mas o advogado
cartaginês só incluiu no seu livro as sete artes da
gramática, retórica, dialética, geometria,
aritmética, astronomia e harmonia (música) e deixou de
lado a medicina e a arquitetura, por se tratar de
disciplinas "ocupadas com as coisas mortais e terrestres
sem nada ter de comum com o céu". As personagens e os
símbolos propostos por Marciano Capela inspiraram os
artistas medievais, e as Núpcias de Filologia e
Mercúrio proporcionaram aos estudiosos e às escolas o
currículo que se conservaria inalterável, sujeito apenas
a ampliação e enriquecimento, até ao começo do século
XIII, quando se lhe acrescentaram disciplinas
filosóficas e científicas.
5. Flávio Magno Aurélio Cassiodoro Senator (cerca
de 485-580) nasceu em Scyllacium, a atual
Squillace, na Calábria, recebeu excelente educação
clássica, foi servidor dedicado dos reis ostrogodos,
tornou-se questor e secretário do rei Teodorico,
cônsul e, por fim, mestre de ofícios, isto é,
primeiro ministro. Por volta de 555, fundou o
mosteiro de Vivarium, monasterium vivariense, no
domínio de sua família, no golfo de Squillace na
Calábria, onde passou muitos anos de sua profícua e
longa existência, entregue à organização da biblioteca
e à redação de obras religiosas e eruditas. Cassiodoro
imprimiu à vida monástica do Ocidente o culto apaixonado
dos livros, o cuidado na cópia dos códices e o gosto
pelas letras profanas a serem cultivadas conforme as
recomendações de Santo Agostinho no De Doctrina
Christiana. Pode afirmar-se que Cassiodoro foi
sobretudo pedagogo. No prefácio do Livro I das
Instituições Divinas e Seculares diz o Senator que os
estudos das letras fervem com grande ardor e grande número
de homens crê adquirir com elas a sabedoria profana,
mundi prudentiam. "Aflijo-me, confessa, porque faltam
professores públicos de Sagrada Escritura." Ele
afirma haver instado com o papa Agapito para que, à
imitação de Alexandria e Nísibe, provido o dinheiro,
se fundassem em Roma escolas cristãs que acolhessem
mestres doutores, a fim de que a alma pudesse obter a
salvação eterna e a linguagem dos fiéis fosse adornada
com expressão límpida e puríssima [101]. Esse plano
revelou-se inviável, mas Cassiodoro fez o que pôde em
prol do seu ideal com a fundação de Vivarium, com a
organização de imensa biblioteca, do serviço de cópia
dos códices e com a redação das suas obras. Escreveu
uma Chronica destinada a enaltecer os godos, compilou
para o rei Teodorico o De origine actibusque Getarum,
história dos godos que completou sob Atalarico e cujo
texto se perdeu mas foi resumido pelo bispo godo Jordão
(Jordanes). Em 537 ele publicou a coleção de
cartas oficiais escritas enquanto estivera a serviço dos
reis ostrogodos, as Variae. Pouco antes de renunciar ao
seu cargo público, escreveu o tratado De anima
influenciado por Santo Agostinho e por Claudiano
Mamerto. Compôs, ainda, comentários aos Salmos, à
Epístola aos Romanos e também as Complexiones
Apostolorum, resumo de todo o Novo Testamento.
Cassiodoro elaborou, ainda, a Historia Ecclesiastica
Tripartita, compêndio das obras congêneres de
Teodoreto de Ciro, Sócrates e Sozômeno, já
traduzidas pelo colaborador de Cassiodoro, o monge
Epifânio. Essa obra serviu de manual de história
eclesiástica na Idade Média. Ele fez traduzir,
outrossim, as Antigüidades Judaicas de Flávio
Josefo. Aos 92 anos, redigiu o tratado De
orthographia, a pedido de monges que se dedicavam à
cópia de manuscritos. Deixou várias outras obras,
indicadas por Dom Cappuyns. A mais influente, no
entanto, e a mais significativa para a história da
educação, foram as Institutiones divinarum et humanarum
lectionum, compostas após a sua estada em
Constantinopla. No primeiro livro, Instituições
Divinas, Cassiodoro disserta sobre os livros da Sagrada
Escritura e o seu estudo e, no segundo, Instituições
Seculares, trata das sete artes liberais necessárias à
compreensão da Sagrada Escritura, tendo distinguido as
sermocinales, gramática, retórica e dialética, das
reales, aritmética, geometria, astronomia e música
[102]. Por último, convém assinalar que, através
das obras citadas nas Institutiones, pode refazer-se o
catálogo dos livros da biblioteca de Vivarium.
Indiscutivelmente, um dos grandes méritos de
Cassiodoro, para não dizer o maior, foi ter feito do
mosteiro não só uma escola teológica como um scriptorium
para a multiplicação das cópias da Sagrada Escritura,
dos Padres da Igreja, dos comentadores sacros e dos
grandes escritores profanos da antigüidade pois, conforme
diz Leslie W. Jones ao examinar a influência de
Cassiodoro sobre a cultura medieval, a qualidade do
estudo da teologia decaíra, já não se copiavam as
melhores obras da literatura clássica, e cada movimento
dos exércitos ostrogodos ou das ainda mais selvagens
"hordas imperiais" contra uma cidade ou uma vila
terminava na destruição de códices inestimáveis.
6. Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius,
estadista e filósofo, foi um dos maiores educadores da
Idade Média e, até ao fim do século XII, foi
indubitavelmente o reverenciado filósofo e lógico.
Nasceu em Roma entre 470 e 488 e morreu perto de
Pavia cerca de 524. Estudou filosofia e ciências em
Atenas e Alexandria. Atingiu o consulado em 510 no
governo do rei dos ostrogodos, o ariano Teodorico, o
Grande (475-526), de quem foi Mestre de
Ofícios, cargo equivalente ao de primeiro ministro.
Acusado de traição, sob a suspeita de aliança com os
bizantinos, foi encarcerado e condenado à morte.
Boécio projetou traduzir as obras de Platão e de
Aristóteles e demonstrar, por meio de comentários, o
acordo profundo do pensamento desses filósofos. A morte
prematura impediu-lhe a realização do plano, mas
Boécio consagrou-se como filósofo através da
Consolação da Filosofia, obra de fundo neoplatônico e
impregnada de estoicismo, escrita ao cárcere em seus
últimos dias, em 5 livros em prosa e verso nos quais
aponta estar a verdadeira fonte da felicidade na busca da
sabedoria e no amor de Deus. O seu prestígio
filosófico, ademais, escorou-se nas suas traduções e
comentários. Boécio traduziu em 510 o De
Interpretatione de Aristóteles sobre o qual compôs dois
comentários em 511 e 513. Traduziu, também, e
comentou em 510 as Categorias de Aristóteles e,
antes de 505, escreveu um comentário à Introdução
(Isagoge) às Categorias, de Porfírio, traduzida
por Mário Vitorino. Mais tarde, em 509, fez nova
tradução e outro comentário da Isagoge. Traduziu,
ainda, os Tópicos e os Primeiros Analíticos de
Aristóteles, comentou os Tópicos de Cícero e redigiu
uma Introdução aos Silogismos Categóricos e mais um
livro Sobre o Silogismo Categórico, outro Sobre o
Silogismo Hipotético e O livro Sobre a Divisão,
além de haver composto, cerca de 520, os tratados
teológicos conhecidos por opuscula sacra, opúsculos
sacros, em que aplica o raciocínio aos conhecimentos
religiosos, valendo-se da filosofia na elaboração da
doutrina sagrada, donde o epíteto de "Primeiro
Escolástico" que lhe deu Grabmann. Aliás, como diz
Rand, o programa inteiro da Escolástica já se acha em
Boécio [103]. Foi um parágrafo do comentário
boeciano à Isagoge de Porfírio que desencadeou o debate
da famosa questão dos Universais. Boécio traduziu,
ainda, obras científicas, compôs tratados de
aritmética e de música e, por isso, talvez, Duchesne
considerou-o "uma espécie de Arquimedes". Deve-lhe
a filosofia as famosas definições de eternidade,
interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio, a
posse completa e ao mesmo tempo perfeita da vida
interminável, e a definição de pessoa, rationalis
naturae individua substantia, a substância individual de
natureza racional. Boécio estabeleceu a distinção
clássica entre o quod est, sujeito e suposto, e o quo
est, como forma e essência, além de ter fixado em latim
completo repertório de vocábulos filosóficos, como o
demonstrou Grabmann [104]. Se Marciano Capela foi
quem transmitiu à Idade Média o esquema das sete artes
liberais, foi Boécio quem denominou as quatro
disciplinas matemáticas de "quádruplo caminho para a
sabedoria", quadrivium.
Pode avaliar-se o alto conceito que a Idade Média fez
de Boécio, quando se sabe que Dante o colocou no quarto
céu, o céu do sol, entre os teólogos que estão ao
lado de Santo Tomás de Aquino, dizendo que a santa
alma de Boécio é feliz por contemplar a Deus pois
Boécio, o mártir, passou do exílio do mundo enganador
à paz celestial [105].
7. Outro famoso transmissor da cultura antiga à Idade
Média e um dos fundadores da civilização medieval
pertence ao início do período e rebrilha como luminar da
virtude e do saber na Espanha visigótica. Trata-se de
Santo Isidoro de Sevilha que nasceu, provavelmente,
entre 560 e 570, no seio de uma família cartaginesa
que emigrara para Sevilha. Foi educado pelo seu irmão
mais velho São Leandro, arcebispo de Sevilha, a quem
sucedeu no mesmo sólio episcopal que dignificou durante
37 anos. Durante o seu fecundo episcopado reuniram-se
vários concílios, tendo sido mais famoso o IV
Concílio nacional de Toledo, em 633, de que
participaram 62 bispos e que Santo Isidoro presidiu e
influenciou profundamente. Entre outras medidas, esse
concílio decretou a fundação de seminários em cada
diocese para a formação dos jovens clérigos. Os
estudantes bem dotados poderiam ser ordenados e os
restantes deviam ser recolhidos a um mosteiro [106]. A
atuação episcopal de Santo Isidoro foi tão notável
que no Oitavo Concílio de Toledo, em 653, o seu
discípulo São Bráulio de Saragoça o proclamou nostri
saeculi doctor egregius, egrégio doutor do nosso
século, in saeculorum fine doctissimus, o homem mais
erudito dos últimos tempos, e glória atual da Igreja
Católica [107]. Santo Isidoro foi amigo e
conselheiro do rei Sisebuto, unificou a liturgia,
regulamentou a vida monástica, escreveu obras exegéticas
e teológicas. Foram-lhe atribuídas obras históricas
como a Crônica, a História dos Reis Godos,
Vândalos e Suevos, outras obras religiosas e Cartas.
A sua obra mais famosa e mais alentada, no entanto,
foram as Origens ou Etimologias, enciclopédia de
conhecimentos profanos e religiosos, obra de profunda
influência pedagógica e que Gilson denominou de
Enciclopédia Britânica ou Larousse da Idade Média
[108]. Santo Isidoro escreveu essa obra a pedido do rei
Sisebuto e ela só foi editada, após a sua morte, pelo
seu discípulo Bráulio de Saragoça. Santo Isidoro
apresenta etimologias reais ou imaginárias e nos vinte
livros da sua obra estuda as sete artes liberais, a
medicina, o direito, os ofícios eclesiásticos, as
verdades dogmáticas da fé cristã, a Igreja, a
linguagem, os povos, os animais, a terra e as suas
partes, os edifícios, as pedras e os metais, a guerra,
os jogos, os pesos e as medidas, a agricultura, a
roupa, os alimentos e os utensílios. Nesse vasto
compêndio do saber humano a parte mais original do
pensamento isidoriano, segundo Canals Vidal, é a
doutrina sobre o direito [109],
embora as Etimologias
fossem obra de consulta assídua sobre todos os mencionados
campos do saber. E é exatamente através dessa obra que
Santo Isidoro se consagrou como grande transmissor da
cultura antiga à Idade Média. Ele faleceu a 4 de
abril de 636, deixou bem organizada a Igreja no reino
visigótico e uma herança apreciável para o ensino nas
escolas monásticas e episcopais.
8. Embora pertença à plêiade dos monges educadores
dos primórdios da Idade Média, São Beda, o
Venerável, merece ser contado entre os transmissores da
cultura antiga à Idade Média, devido à amplidão da
sua obra que serviu aos estudiosos tal como as de
Cassiodoro, Boécio e Santo Isidoro; e, assim como
este foi a luz da península ibérica, São Beda foi o
resplendor da Grã-Bretanha. Nasceu no reino da
Nortúmbria cerca de 672 ou 673 e morreu em 735.
Escreveu a História Eclesiástica da Inglaterra,
talvez a melhor obra histórica da primeira parte da Idade
Média e um modelo do gênero. Deixou, ainda, um
opúsculo De rerum natura, esboço de enciclopédia
científica, escritos sobre gramática, música, temas
científicos, ortografia; comentários da Sagrada
Escritura, poemas latinos, homilias e cartas. São
Beda como que representou o fecho da era doirada dos
santos e gênios do monaquismo irlandês e inglês no qual
sobressaíram São Bento, o Bispo, e o helenista
Teodoro de Tarso, arcebispo de Cantuária, que
difundiu na Inglaterra o estudo do grego. A sua carta a
Egberto, arcebispo de York, embora seja um ideário dos
deveres episcopais, contém preciosos ensinamentos sobre a
moderação da língua. Diz são Beda que tanto a
meditação da Sagrada Escritura como os bons amigos
virtuosos ajudam-nos a conservar a pureza da língua e da
conduta, e que a pregação ao povo que desconhece o
latim, bem como as orações, devem ser feitas em língua
vulgar. São Beda confessa ter traduzido para o inglês
- lingua anglorum - o Pater e o
Credo, em benefício
dos sacerdotes incultos [110]. Tal como Santo Isidoro
foi o protótipo d.o sábio e do santo para a Espanha,
São Beda, o Venerável, encarnou para o mundo
anglo-saxão o ideal do saber e da virtude. A cena final
da sua vida foi o coroamento de unta existência consagrada
a Deus e aos livros e ficou como um programa ou
exortação para os estudiosos medievais. Essa
descrição figura no escorço biográfico escrito por
Cutberto, discípulo de São Beda, e remodelado no
século XI. O famoso mestre adoeceu na terça-feira
antes da festa da Ascensão, ensinou, ditou um dos seus
escritos ao secretário, convocou os confrades ao pé do
leito, dirigindo-lhes pias exortações in laetitia,
alegremente. Ao lhe observar o secretário que faltava
uma frase do texto, ditou-a rápido e exclamou: "Está
terminado". Terminara, com efeito, o ditado e a vida.
9. Finalmente, podemos citar, ainda, entre os
plasmadores da cultura medieval, o pseudo-Dionísio, o
Areopagita, e São João Damasceno. O
pseudo-Dionísio foi o autor desconhecido que assumiu o
nome do discípulo de São Paulo, provavelmente um monge
da Síria setentrional que viveu no fim do século V ou
no início do VI, em torno d.o ano 500 d.C. Esse
escritor anônimo influenciou profundamente a cultura
medieval, tendo transmitido a metafísica neoplatônica
aos escolásticos através da tradução latina que Escoto
Eriúgena fez das suas obras: Os Nomes Divinos, a
Teologia Mística, a Jerarquia Celeste, a Jerarquia
Eclesiástica e mais dez Cartas. Pode afirmar-se que o
pseudo-Dionísio, o Areopagita, difundiu o
neoplatonismo na Idade Média, tanto através das suas
concepções como da sua terminologia, de modo que
reforçou a orientação neoplatônica das obras de Santo
Agostinho. São João Damasceno, por sua vez, o
Chrysorrhoas, a torrente doirada, foi um monge que
nasceu em Damasco cerca de 645, morreu perto de
Jerusalém cerca de 750 e representou a presença do
aristotelismo no pensamento cristão de Bizâncio. Ele
escreveu grande obra dogmática, Pêquê Gnôseôs, a
Fonte do Conhecimento, em três livros. O primeiro, a
Dialética, é um tratado sobre as categorias de
Aristóteles e a questão dos Universais segundo a
Isagoge de Porfírio; o segundo é um elenco histórico
das heresias; e o terceiro é consagrado à fé ortodoxa.
Enquanto o pseudo-Dionísio, o Areopagita, difundiu o
neoplatonismo, o respeitável teólogo bizantino inculcou
nos escolásticos o gosto do aristotelismo, e essas duas
orientações foram integradas e assimiladas numa síntese
superior durante o século XIII na doutrina de Santo
Tomás de Aquino.
10. Convém, em tempo, lembrar com Régine Pernoud
que no início da Idade Média - época de Gregório de
Tours e de Radegunda na Gália - espalhou-se o livro
na forma com que ainda hoje se apresenta, o codex, que
substituiu o volumen, o rolo antigo de papiro ou
pergaminho [111]. Foi nas escolas e entre as seitas
religiosas, observa Piganiol, que se desenvolveu o uso
do livro com folhas, codex, desde o século IV, e só
as obras literárias antigas transcritas dos volumina de
papiro nos códices de pergaminho lograram sobreviver e,
por isso, diz ele, saudemos com reconhecimento a
aparição do livro [112]. De modo mais preciso ensina
D. Paulo Evaristo Arns que as valiosas obras cristãs
e pagãs foram preservadas, graças aos escritores
cristãos do século IV que escreveram no pergaminho,
material de escrita feito da pele de animais e cujo nome
procede, segundo antiga tradição, de Pérgamo, cidade
da Ásia Menor que floresceu cerca de 300 a.C.
[113]. McMurtrie explica com minúcias o aparecimento
dos livros no formato atual, de folhas ligadas e cosidas
de um lado, que se generalizaram no século IV da era
cristã, quando os juristas do Baixo Império Romano
verificaram que o códice era mais conveniente para os seus
livros de leis que o rolo, volumen. "No códice
(codex), explica McMurtrie, as folhas de pergaminho,
em vez de serem coladas pelas extremidades e depois
enroladas, dobravam-se para formar duas, e as coleções
ou grupos destas folhas dobradas ligavam-se pelos vincos"
[114]. O códice, tal como o rolo, era escrito à
mão e, por isso, estas duas espécies de livros antigos
são conhecidas, segundo a designação latina, por libri
ou codices manu scripti, livros ou códices escritos à
mão. Esses livros manuscritos passaram por grande
aperfeiçoamento na Irlanda nos séculos VI, VII e
VIII, graças à arte caligráfica e às maravilhosas
iluminuras feitas nos escritórios monásticos. A
execução caligráfica dos monges irlandeses, diz
McMurtrie, nunca foi ultrapassada em originalidade do
desenho e em habilidade de confecção, e o seu mais
célebre exemplar é o Livro de Kells que contém os
evangelhos em latim e foi classificado por mais de um
escritor como "o livro mais belo do mundo" [115].
Durante a Alta Idade Média, até o século XII, a
composição dos livros fazia-se principal ou
exclusivamente nos escritórios, scriptoria, dos
mosteiros onde essa arte manuscrita atingiu as
culminâncias com a preciosidade das iluminuras e com
notável habilidade caligráfica. No século XIII,
devido à necessidade de livros para o ensino
universitário, iniciaram-se a indústria e o comércio
livreiro em grande escala, pois o librarius, editor dos
códices manuscritos, não só mantém a livraria no
quarteirão da escola - o vendedor é o stationarius -
como trata de multiplicar os exemplares com o auxílio dos
estudantes pobres que faziam cadernos e transcreviam livros
a fim de ganhar dinheiro para custearem os estudos. O
aparecimento do códice de pergaminho no século IV de
nossa era. levou ao rápido desaparecimento do papiro que
predominara antes como material de escrita e começou a ser
substituído pelo papel, de início charta bombycina,
depois só bombycina, em 1231 charta papyri e, por
fim, papyrus em 1311 [116].
11. Na mesma época em que aparecia o códice, surgiu
também o estilo da escrita "uncial", da palavra uncia,
polegada, a duodécima parte de um pé, devido ao tamanho
exagerado das letras. O estilo uncial já deixa ver como
viriam a ser as minúsculas e predominou até o século
VIII ou IX. As antigas letras maiúsculas ficaram
reservadas para títulos de relevo, como os dos
capítulos, em latim capita, donde o atual nome de
"capitais". A partir do século V, a indústria do
livro desapareceu e a cópia dos livros refugiou-se nos
mosteiros. Daí o compartimento monástico dos
escritórios e o cuidado dos grandes mentores culturais da
época, como Boécio, Cassiodoro, Santo Isidoro de
Sevilha e São Beda, de comporem livros de ortografia.
As letras semi-unciais, no estilo das minúsculas,
manifestaram a tendência de ligarem certas combinações
de letras e foram aperfeiçoadas, por volta do ano
700, pelos monges irlandeses que criaram, diz
McMurtrie, uma escrita admirável, uma das mais belas
que já existiram. Essa escrita foi adotada pelos
escribas carolíngios do mosteiro de Tours onde se
desenvolveu a letra minúscula carolina (de Carolus
Magnus) e se generalizou o uso do espaço entre as
palavras para facilitar a leitura. Apesar do aparecimento
das elegantes letras góticas no século XII, os
humanistas do Renascimento, no início do século XV,
adotaram a minúscula carolina que, fixada nos tipos de
metal por Gutenberg, serviu de letra de imprensa, de
modo que os nossos livros e impressos de hoje têm uma
dívida notável para com os monges da Irlanda, da
Inglaterra e da Gália dos séculos VIII e IX. A
escrita carolina, ensina Dawson no seu livro A
Formação da Europa, parece ter surgido na abadia de
Corbie, na segunda metade do século VIII, tendo
sido aperfeiçoada no famoso scriptorium da abadia de
Alcuíno em Tours. A sua difusão, por certo,
deveu-se ao emprego que dela fizeram Alcuíno e os seus
monges nas transcrições dos livros litúrgicos,
executadas por ordem do imperador. Montalembert declara
na sua famosa obra Os Monges do Ocidente que a
transcrição dos manuscritos era a principal e mais
constante ocupação das beneditinas letradas e que não se
avaliam os serviços que prestaram à ciência e à
história as mãos delicadas das religiosas da Idade
Média. "Elas punham, diz ele, nesse trabalho uma
habilidade, uma elegância e uma atenção, que os
próprios monges não podiam atingir, e nós lhes devemos
alguns dos mais belos monumentos da maravilhosa caligrafia
dessa época" [117].
12. Os copistas medievais tinham os seus instrumentos
de trabalho, e os principais eram as penas e a tinta,
pois empregavam, também, facas, raspadoras, etc.,
para lidarem com o pergaminho e a encadernação. O
escriba antigo (antiquarius, librarius, scriptor,
scriba, notarius, clericus) usava o estilete de ponta
metálica para escrever nas tabuinhas de cera e a pena de
cana, calamus, nas "membranas" ou pergaminhos. No
império romano popularizara-se a pena de bronze ou de
prata, penna, pennula. Desde o século IV, época do
códice, o escriba passou a utilizar a pena de ganso. O
copista medieval usava no scriptorium a pena de cana, o
cálamo, que era conservada num recipiente cilíndrico de
madeira ou de metal, theca calamaria, theca canarum ou
calamarium. As penas eram guardadas num estojo comprido,
de acordo com o seu formato, a theca litteraria ou
calamarum. Esses recipientes podiam, ainda, comportar
um tinteiro, atramentarium, incausterium ou calamarium.
Guardava-se a tinta em chifres de veado (cornu), um
para tinta preta e outro para a vermelha, e eles eram
pendurados na parede ou colocados no vão de uma janela.
O copista experimentava a pena muitas vezes, robationes,
antes de iniciar o trabalho. A tinta era chamada
atranentum librarium para distingui-la da tinta do
sapateiro, atramentum sutorium. Quando era obtida por
cozimento chamava-se encaustum, incaustum ou tincta,
tingta, tinctura, de tingere, tingir. Desde o século
III ou IV, fabricava-se tinta preta com sais
metálicos, o sulfato de ferro e o sulfato de cobre. A
tinta vermelha era feita de cinabre, minério de
mercúrio, e servia para traçar letras ornamentais nos
títulos, no começo, incipit, e no fim, explicit, dos
textos, assim como para desenhar iluminuras. No período
carolíngio começou a ser usada a tinta doirada e a
prateada.
13. É preciso saber que o ensino medieval das letras,
ministrado por leigos na Itália e por monges no resto da
Europa, conservou a tradição literária do latim
clássico formado entre os romanos sob a inspiração grega
e que sobrevivera à ruína do Império romano do
Ocidente. Na sua conferência Como a língua latina se
tornou cristã, há mais de cem anos, dizia Frederico
Ozanam que o Cristianismo viera revitalizar o latim,
contribuindo para que se tornasse a língua da
especulação, pois a enriqueceu com muitos vocábulos
novos correspondentes a idéias abstratas [118]. Isso
foi possível, segundo Ozanam, graças à tradução
latina da Bíblia, a famosa Vulgata (tradução do
Antigo Testamento, exceto do Saltério, e revisão do
Novo Testamento, feitas por São Jerônimo), assim
denominada por ser um texto bíblico ao alcance de todos,
comum, usual, já que só os doutos podiam ter acesso aos
originais hebraico e grego. A Bíblia, prossegue
Ozanam, foi o princípio e o grande instrumento da
reforma do latim, ao introduzir, de um lado, as riquezas
poéticas do hebraico e, de outro, as riquezas
filosóficas do grego, e tanto a Bíblia como o
Cristianismo foram servidos por dois auxiliares, a
saber, os africanos e o povo semibárbaro, pois na
África nasceu a última geração de escritores que trouxe
para as letras o ardor do seu clima, tais como Cornuto,
Frontão, Nemesiano, Apuleio, Marciano Capela e os
grandes escritores cristãos: Tertuliano, São
Cipriano, Arnóbio e Santo Agostinho. Mas o povo
romano, recrutado de todas as barbáries, segundo
Ozanam, foi constituído, muito antes das grandes
invasões, por bárbaros de todas as procedências.
Ora, foi exatamente nas mais ínfimas camadas desse povo
que o Cristianismo conquistou os seus primeiros adeptos
que gravaram nas catacumbas inscrições grosseiras eivadas
de barbarismos e de solecismos. A filóloga Christine
Mohrmann, das universidades de Nimega e de Amsterdã,
observa que os lingüistas do século XX discordam de
Ozanam quanto às suas idéias sobre a decadência do
latim tardio, inspiradas pelas concepções filosóficas
da época, mas ela reconhece que Ozanam disse coisas
notabilíssimas sobre o modo como o Cristianismo
influenciou a evolução da língua latina [119].
Christine Mohrmann, por sua vez, ensina que se o
Cristianismo nos primeiros séculos da nossa era concorreu
para que o latim adotasse um cunho popular e para que se
operasse certa perda do rigor no sistema da língua, por
outro lado, após a desagregação do Império do
Ocidente, exerceu uma influência unificadora. Durante
os séculos VI e VII começou a esboçar-se o novo
sistema de ensino, reforçado no século VIII pelas
medidas tomadas por Pepino, o Breve, no tocante à
ortografia, obra continuada e aperfeiçoada por Carlos
Magno, e foi a partir da prossecução da tradição
literária do latim clássico, diz Mohrmann, que se
tomou consciência da existência de duas línguas
diferentes: o latim e a lingua rustica romana,
consciência que reponta através do confronto da língua
popular com um latim doravante artificial, orientado para
o passado clássico. Na Itália, a tradição da
latinidade literária manteve-se por mais tempo que na
Gália e, após a invasão lombarda, sobreviveu nos
grandes mosteiros, além do fato capital de Ravena,
Nápoles, Salerno e Roma jamais se haverem barbarizado
completamente [120]. O latim literário, portanto,
continuou a ser ensinado nas escolas medievais como
continuação normal do latim literário tardio do Baixo
Império e, como ensina Christine Mohrmann na sua
notável conferência O dualismo na latinidade medieval,
na Idade Média o latim não era língua morta cultivada
pelos sábios, mas língua viva das camadas superiores da
população e que deu origem às línguas modernas
neolatinas, influenciou as germânicas e foi por elas
influenciado. A camada superior da população que falava
e escrevia o latim medieval era a comunidade dos
intelectuais que formava uma verdadeira respublica
clericorum, tomando-se o termo clérigo na acepção
medieval de estudioso e intelectual. Por conseguinte,
diz Mohrmann, "o latim medieval é uma língua viva sem
ser a língua de uma comunidade étnica". É língua de
comunicação de uma elite, baseada na tradição
religiosa e cultural, língua de caráter erudito,
transmitida pela escola, em primeiro lugar língua escrita
e, secundariamente, língua falada, herdeira da
tradição paleocristã e da antigüidade clássica
[121]. A primeira herança foi alimentada pela liturgia
e a segunda, conservada pela escola. No século
XIII, o latim foi a língua internacional das
universidades e dos livros, a língua técnica do
ensinamento abstrato, da filosofia, da teologia, do
direito e das demais ciências.
14. No término deste capítulo passamos agora a tratar
dos monges (monge, monacus, aquele que vive sozinho)
que foram, na vida prática e no labor teórico, lídimos
transmissores da cultura antiga à Idade Média. Nossa
intenção é caracterizar a natureza do monaquismo e
descrever as suas origens, pois o próximo capítulo sobre
as escolas será dedicado em grande parte a instituições
monásticas. Sabe-se que no Oriente, séculos antes do
Cristianismo, havia comunidades de homens ligados por
interesses religiosos e culturais, tais como os pugilos
religiosos da India e da China, os colégios sacerdotais
do Egito, a confraria pitagórica na Magna Grécia e os
essênios da Palestina. O monaquismo cristão, no
entanto. tem origem especial e não se prende a nenhuma
organização anterior. Devido à sua natureza de animal
social, os homens sempre se agruparam para a realização
consciente de propósitos e o alcance de determinados
objetivos. Nos primórdios da Igreja cristã, como o
atestam os Atos dos Apóstolos, os doze companheiros de
Jesus levaram vida comunitária, entregues à oração em
comum, à prática dos conselhos evangélicos e à
pregação, tal como tinham vivido ao lado de Nosso
Senhor Jesus Cristo, antes de se dispersarem por causa
da propagação da fé. Desde o início da vida cristã,
houve pessoas que apreciaram a vida retirada para cumprirem
com mais facilidade os mandamentos da Lei de Deus e a fim
de conservarem a paz de espírito. Na Igreja primitiva
surgiu e disseminou-se a instituição das virgens
cristãs, que já constituía a forma comunitária de uma
ordem religiosa [122]. Os monges começaram a surgir
como anacoretas (anacoreô, viver retirado) no
Oriente, desde o século III, e apareceram no
Ocidente durante o século IV. Primeiramente surgem,
pois, os anacoretas, homens que abandonavam as cidades e
as povoações, buscavam a solidão dos desertos,
praticavam a perfeita castidade e se entregavam a práticas
de piedade e de penitência. Aos poucos formaram-se
colônias de anacoretas sob a orientação de um abade
(abas, pai) e, por fim, organizou-se a vida
cenobítica, comunidade de monges que, sob a direção de
um abade, seguem uma regra e levam a vida em comum
(koinós, comum. Bíos vida). O monaquismo sempre
contribuiu para promover o fervor religioso e para fomentar
a cultura, mas na sua essência sempre foi um gênero de
vida especial, tendo por objetivo a perfeita vida
cristã, apostado a imitar a primitiva comunidade cristã
de Jerusalém.. Desde a sua origem, o monge é, como
ensina Thomas Merton, "um homem chamado pelo Espírito
Santo a renunciar aos cuidados, desejos e ambições dos
outros homens para dedicar toda a sua vida à procura de
Deus" [123]. No monaquismo, como em todas as outras
instituições, houve desvios e abusos desde o início,
mas ele sempre se manteve fiel à sua concepção
original, e em várias épocas surgiram poderosos
movimentos de reforma e de renovação. É preciso
assinalar, no entanto, as idéias errôneas que correm em
livros sobre a vida monástica. A mais comum nos livros
de história da educação é a que repõe a essência do
monaquismo nas práticas ascéticas. Ora, o ascetismo
(ascesis, exercício), conjunto de práticas
penitenciais como o jejum, o silêncio, as macerações e
os sacrifícios, nunca foi o ideal do monge nem a
essência da vida monástica. No Oriente os monges
recorreram a essas práticas, muitas vezes, com grande
intensidade, mas na Ordem Beneditina, a ordem
monástica por antonomásia do Ocidente, elas sempre
foram regidas pela discrição, o senso da medida e o
espírito de prudência. Desse modo, o ascetismo não é
a essência do monaquismo, mas uma das suas
manifestações e um meio a serviço do ideal. Por isso,
embora Paul Monroe reconheça acertadamente que do
século VI até o XVI a história do monaquismo é a
história da educação, ele erra, contudo, ao afirmar
que a idéia fundamental do monaquismo é o ascetismo
[124]. Afirmações desse jaez podem ser ditadas pela
impressão colhida nas biografias de certos monges
orientais. Muitos deles Cometeram excessos na prática
da penitência, tal como ao assumirem atitudes
excêntricas ou ao exagerarem no rigor das
mortificações. Havia os que viviam sujos e sem banho,
alguns até com aspecto animalesco; outros prolongavam
jejuns absurdos e acabavam por quedar exânimes, e houve
alguns que viviam nus, revestidos apenas dos cabelos,
mania a que só se podiam entregar os cabeludos, pois os
calvos não se poderiam permitir tal excentricidade.
Além dessas façanhas ascéticas, os monges do
Oriente, de regra, não prezavam os estudos profanos,
limitavam-se ao mínimo de instrução e só preconizavam
a leitura da Sagrada Escritura, embora também se
dedicassem à cópia de manuscritos religiosos. Segundo
Festugière, a maior parte dos monges do Egito, da
Palestina, da Síria e dos arredores de Constantinopla
foram pessoas simples, de origem humílima e sem cultura.
Explica o sábio dominicano helenista que a ignorância
desses monges orientais, o seu desprezo da cultura
antiga, em vez de aproximá-los de Deus, reduzia-os a
um estado de credulidade pueril que não é supra-racional
mas infra-racional, pois não querer usar da razão é,
infalivelmente, arriscar-se a ter o juízo falseado,
tomar por fim o que não passa de um meio e usar as suas
forças contra sombras [125].
15. O gênero de vida dos anacoretas desenvolveu-se
após o triunfo do Cristianismo e, pode dizer-se, na
fase do seu apogeu. O seu representante típico foi São
Paulo, o eremita, que faleceu em 347. As colônias
de anacoretas surgiram com a organização da comunidade de
anacoretas ou solitários no deserto do Egito, sob a
direção do abade santo Antão. Do Egito, pátria do
anacoretismo, esse gênero de vida trasladou-se para a
Palestina e difundiu-se na Ásia Menor. Santo
Hilarião dirigiu no deserto, entre o Egito e Gaza,
colônias monásticas com 2.000 discípulos. São
Maron, no fim do século IV, estabeleceu e orientou
colônias de anacoretas nas regiões libanesas. Esses
monges ficaram conhecidos como os maronitas do Líbano.
16. O primeiro organizador da vida cenobítica foi
São Pacômio que nasceu em 287, de pais pagãos, em
Sné (a Latópolis dos gregos) na Tebaida superior.
Ele foi alistado à força nos exércitos imperiais e,
como soldado, conheceu o Cristianismo, cerca de 313,
quando foi visitado na prisão por cristãos. Iniciou-se
no anacoretismo sob a orientação de Palemão no Alto
Egito e, como contasse depois com grande número de
discípulos, organizou com eles o primeiro cenóbio: um
recinto fechado, uma Regra de vida, uma superior e
severa distribuição do tempo. Teria o curto serviço
militar sugerido a São Pacômio as vantagens da
disciplina e do método na vida comunitária? Ele chegou
a dirigir 7.000 monges e morreu em 347, depois de
ter fundado também mosteiros de monjas. No fim do
século V, havia no Próximo Oriente uns 50.000
monges, e o abade de grande número de monges
intitulava-se arquimandrita. As colônias dirigidas por
santo Hilarião transformaram-se em mosteiros de vida
cenobítica sob a forma de lauras, cabanas separadas e
independentes, situadas em recinto fechado, tal como
ainda hoje vivem os cartuxos do Ocidente, e o seu mestre
mais venerado foi santo Eutímio. O maior paladino do
monaquismo oriental foi São Basílio, que instituiu os
monges basilianos e, com o auxílio do amigo São
Gregório Nazianzeno, compôs a célebre Regra,
equivalente oriental da regra beneditina para os monges do
Ocidente. São Basílio, mais que aos exercícios
ascéticos das macerações, dava relevo à obediência,
e nos mosteiros basilianos a oração e os ofícios
litúrgicos entremeavam-se com o trabalho manual e
intelectual. Na Grécia tornou-se famoso o mosteiro do
monte Atos que influenciou profundamente o monaquismo
russo.
17. Os monges estilitas (stylos, coluna) chamavam a
atenção devido à excentricidade de viverem no alto de
colunas. São Simeão, por exemplo, viveu durante
trinta anos numa coluna e morreu em 459 e o seu
discípulo Daniel foi estilita por 34 anos. Os monges
reclusos (enclestoi) encerravam-se por toda a vida numa
cela (clausa ou reclusorium). A famosa pecadora
convertida, Taís, foi monja reclusa. Os acoimetas
(acoimêtoi, que não se deitam) floresceram cerca do
ano 400 às margens do Eufrates e o seu mentor foi
Santo Alexandre. Eram assim chamados não porque não
dormissem ou deitassem, mas porque se revezavam em grupos
dia e noite em vigília no cenóbio, prestando louvor ao
Senhor em adoração perpétua. Entre os "hereges da
vida monástica", no dizer de Llorca, contam-se os
sarabaítas que se entregavam à prática de
excentricidades no Egito; os remoboth, iluminados ou
quietistas, que ostentavam pretensa santidade para gozarem
do favor popular; os giróvagos que vagavam de um lugar
para outro sob o pretexto de maior santidade ou proveito
para o próximo e eram avessos à leitura e, por fim, os
pabulatores que propalavam alimentar-se de ervas e raízes
e vagabundeavam sem regra.
18. - Nos meados do século IV, o monaquismo foi
introduzido no Ocidente que teve, portanto, centros de
vida monástica, solitária e cenobítica, antes de São
Bento. Ao ser desterrado para o Ocidente, Santo
Atanásio, que conhecia e prezava as colônias de
solitários do Egito, levou em sua companhia os monges
Isidoro e Amônio e, assim, o monaquismo foi
introduzido na Itália. São Paulino de Nola,
falecido em 341, e Santo Eusébio de Vercelli, que
morreu em 371, fundaram os primeiros ascetérios
ocidentais. São Jerônimo passou alguns anos entre os
ermitãos da Tebaida e, ao chegar em Roma em 382,
passou a difundir o ideal eremítico. Com a sua
discípula Santa Paula fundou em Belém um duplo
mosteiro, um para homens, e outro para mulheres. O seu
êmulo, Rufino de Aquiléia, junto com Melânia
fundou, também na Palestina, um duplo mosteiro. Dos
escritos de São Jerônimo extraiu-se um conjunto de
normas para a vida monástica que se chamou de Regra de
São Jerônimo e deu impulso às ordens jeronimianas.
19. Santo Agostinho, feito sacerdote em 391,
estabeleceu em Hipona uma casa religiosa, misto de
mosteiro e seminário e, quando bispo, fez da sua
residência um verdadeiro cenóbio. Organizou a vida
monástica e a sua Regra serviu de base para muitas ordens
religiosas. Essa Regra é a Epístola 211, dirigida
a religiosas, e a Regra para os servos de Deus, em 12
capítulos, em que o santo bispo propõe princípios para
a vida comunitária de homens. Ela foi depois seguida
pelos Cônegos Regulares, adotada no século XII
velos Premonstratenses, no século XIII pelos
Dominicanos, Mercedários e Servitas e, mais tarde,
pelos Irmãos de São João de Deus, etc.
20. São Martinho de Tours fundou, cerca de 360,
o primeiro mosteiro da França no Ligugé, perto de
Poitiers e, depois de ser feito bispo, o célebre
mosteiro de Marmoutier. Não escreveu nenhuma Regra.
Relevo especial merece Santo Honorato que fundou, pelo
ano de 405, numa das ilhas de Lerins, perto de
Cannes (hoje região balneária e turística), um
centro de eremitas que transformou num célebre mosteiro,
foco irradiador de cultura religiosa nos séculos seguintes
e onde brilharam Hilário de Arles, Euquério de
Lyon, Lobo de Troyes, Cesário de Arles,
Salviano, Máximo e São Vicente de Lerins. O
segundo fundador monástico da Gália também não
escreveu nenhuma Regra. João Cassiano, que morreu em
435, passou alguns anos no Oriente sob a orientação
de mestres anacoretas e cenobitas e fundou depois em
Marselha o famoso mosteiro de São Vítor. Da sua
convivência com os Padres do deserto trouxe máximas,
casos e experiências que enfeixou em duas obras preciosas
para a vida monástica, as Instituições Cenobíticas e
as Conferências (Collationes), que influenciaram as
Regras compostas na Gália, na Itália e na Espanha e
constituem obras clássicas da espiritualidade monacal. O
primeiro legislador monástico da Gália foi São
Cesário de Arles (470 ou 471 - 27-8-542
ou 543) que escreveu duas Regras no século V: a
Regula monachorum e a
Regula sanctarum virginum, tendo
utilizado as obras de Santo Agostinho e de Cassiano.
21. O primeiro apóstolo da Irlanda foi São
Patrício que recebeu formação religiosa na escola do
mosteiro de São Martinho de Tours em Marmoutier e
entre os monges de Lerins. De volta à sua pátria, a
Irlanda, desde 432 dedicou-se à pregação da fé
cristã e fundou mosteiros entre os quais se destacou o de
Armagh. Em meados do século VI erigiu-se o grande
mosteiro de Bangor que chegou a contar 3.000 homens.
Parece que São Patrício não deixou Regra escrita.
Pode dizer-se que a Irlanda foi cristianizada e
civilizada exclusivamente pelos monges e até hoje é a
Ilha dos Santos, embora os atuais sejam um tanto
violentos. O espírito apostólico dos monges irlandeses
levou-os em caravanas evangélicas a missionar a
Inglaterra e várias regiões do continente europeu. O
representante mais completo do monaquismo irlandês foi
São Columbano, que nasceu entre 525 e 543 e
morreu a 23 de novembro de 615. Depois de ter
passado pelos mosteiros de Cluain-Inis e de Bangor,
fugiu para o continente a fim de escapar ao assédio das
mulheres e veio a enlaçar o monaquismo irlandês com o do
centro da Europa. Juntamente com os seus doze
companheiros, que carregavam em sacos de peles os seus
preciosos livros litúrgicos e os seus manuscritos, fundou
os mosteiros de Annegray, Luxeuil e Fontaines e, em
610, o mosteiro de Bobbio, entre Milão e Gênova,
que veio a enriquecer-se de volumes, pergaminhos e
códigos. São Columbano celebrizou-se pelas virtudes,
profecias, milagres, pelo gênio autoritário, e, por
que não dizer, meio atrabiliário, e pela força
hercúlea. Fato importante é que, ao fundar o mosteiro
de Luxeuil, iniciou uma nova atividade, a de instruir os
filhos dos nobres, ao mesmo tempo que evangelizava o povo
e lhe ensinava os trabalhos do campo [126].
22. Na Espanha, onde nunca chegou o apostolado dos
monges irlandeses, já existia vida monástica no fim do
século IV, que floresceu no reino visigótico sob a
proteção de São Leandro, falecido em 600, e do
seu irmão Santo Isidoro, que morreu em 630,
fundadores de mosteiros e o segundo deles, autor da Regra
dos monges. A Regra mais influente, porém, foi
composta por São Frutuoso, bispo de Braga, para os
mosteiros da região galega. Além da Regra dos monges,
ele redigiu a Regra Comum para os mosteiros duplos.
Durante uns duzentos anos, e até mesmo depois de
iniciado o domínio muçulmano, não se introduziu na
Espanha nenhuma Regra estrangeira.
23. São Bento de Núrsia fundou a grande ordem
religiosa que se tornou a ordem monástica por antonomásia
do Ocidente, e a sua Regra absorveu ou eliminou as
outras. São Bento nasceu cerca de 480 em Núrsia na
Ombria, estudou em Roma, abandonou os estudos e viveu
solitário na gruta de Subiaco. Dirigiu, a pedido, um
mosteiro em Vicóvaro e, com os seus discípulos Mauro e
Plácido, fundou o mosteiro lendário, a célula-máter
da Ordem Beneditina, no cume do Monte Cassino, entre
Roma e Nápoles, em 529, no mesmo ano em que
Justiniano fechou as escolas de Atenas. Sublime
coincidência: cessava a função docente da escola pagã
e principiava a atividade educacional da escola cristã!
São Bento dirigiu-se, provavelmente já ordenado
sacerdote, a Cassino, para debelar o paganismo que ali
vicejava, e construiu o seu mosteiro em torno do templo
dedicado a Júpiter e a Apoio, que ele transformou em
igreja do Deus vivo, consagrando-a a São Martinho de
Tours e estabelecendo um oratório em honra de São
João Batista, o precursor da vida monástica. No
prólogo da sua Regra, inscreve São Bento a
característica essencial da sua Ordem: "Devemos
constituir uma escola de serviço do Senhor" [127].
Escola era, então, qualquer associação com finalidade
educacional, militar, coral ou palaciana. São Bento
frisa que a sua ordem monástica deve ser uma escola do
serviço do Senhor. Por isso, ele se apresenta
espontaneamente, no início do prólogo da Regra como pai
e mestre, e os seus monges, desde os primórdios da
Ordem Beneditina, começaram também a ser pais e
mestres da juventude estudiosa [128]. A irmã de São
Bento, Santa Escolástica, fundou o ramo feminino da
Ordem Beneditina, e os seus mosteiros foram as escolas
femininas da Idade Média.
24. São Bento exigiu dos monges a stabilitas loci, a
estabilidade no lugar, isto é, a permanência num
determinado mosteiro, e apontou como finalidade essencial
da Ordem o Opus Dei, o canto do louvor divino. Uma
vez que a Ordem no início se compunha principalmente de
irmãos leigos, havendo poucos sacerdotes só para
celebrar a santa Missa e administrar os santos sacramentos
e sabendo que a ociosidade é inimiga da alma, São
Bento prescreve, no capítulo 48 da Regra, o preceito
do trabalho manual e intelectual: "A ociosidade é
inimiga da alma; por isso, em certas horas devem ocuparse
os irmãos com o trabalho manual e, em outras horas, com
a leitura espiritual." Desse modo, conjugaram-se na
Ordem Beneditina o Opus Dei com o trabalho,
ora et labora.
O cardeal Schuster observa que os antigos
romanos consideravam o trabalho como um suplício para
escravos, e os bárbaros desprezavam-no como ocupação
inconveniente a um povo de guerreiros, enquanto São
Bento o sublimou à dignidade de religião [129], e
Benedicto Tapia de Renedo, O.S.B., faz ver que
São Bento, com a regulamentação preceptiva do
trabalho, iniciou uma verdadeira revolução pacífica,
econômica e moral, que se desenvolveu plenamente no
decurso dos séculos, graças ao labor estrênuo dos seus
filhos que se tornaram pais de povos e forjadores de
cristandades [130]. Já no século VI começou a
epopéia missionária beneditina, quando o papa beneditino
São Gregório Magno enviou Santo Agostinho e mais
39 monges para a conquista espiritual da Inglaterra.
Os mosteiros de São Columbano, por sua vez, acabaram
por adotara Regra de São Bento, e os próprios monges
beneditinos assimilaram o apreço dos monges irlandeses
pelos estudos, assim como a orientação cultural de
Cassiodoro que fez do Mosteiro de Vivarium, segundo
Schnürer, mais um centro de cultura literária do que
uma comunidade de ascetas devotados à oração e à
penitência [131].
25. Podemos agora acrescentar mais um esclarecimento
sobre outras idéias errôneas a respeito da vida
monástica. Pensam alguns que os monges seriam pessoas
frustradas que procuram a solidão dos mosteiros, devido
às desilusões amorosas ou ao desprezo dos seus
semelhantes ou até mesmo em busca de uma vida tranqüila.
Pode haver, com efeito, alguns casos particulares desses
tipos. Mas os monges são pessoas que fizeram e fazem
livremente a sua opção pela "vida silenciosa" e
penitente, por amor de Deus que transborda na caridade
para com o próximo. Não servem para os mosteiros as
criaturas frustradas, e eles não são um recanto de
sombra e água fresca, pois a vida retirada e mortificante
é rigorosa e exigente, é uma austera escola do serviço
do Senhor.
26. Desde o fim do mundo antigo e o início da Idade
Média, por conseguinte, os monges concorreram para a
transmissão do legado cultural antigo aos povos
germânicos das cristandades medievais. De um lado,
foram os principais propagandistas da religião cristã na
Europa, tendo evangelizado os anglo-saxões, os
teutões, os escandinavos, os eslavos e os húngaros.
Por outro lado, transmitiram-lhes, também, as obras
literárias e as concepções filosóficas e educacionais
dos romanos, especificamente através do benfazejo labor
dos copistas que asseguraram a preservação dos livros
antigos. Além disso, os monges difundiram, através da
Europa medieval, as técnicas do arroteamento e cultivo
do solo, de drenagem dos pântanos, da exploração
agrícola e da criação de animais, a arte da
construção, da medicina e da administração contábil,
sobre terem promovido as belas artes, e máxime as
atividades do ensino, área em que se agigantaram, ao
tecerem uma rede notável de escolas através da Europa.
Consagraram-se, outrossim, ao tratamento dos doentes e
à assistência aos peregrinos e viajantes, tendo exercido
o dever da hospitalidade, por recomendação da Regra.
No entanto, apesar de todos esses benefícios de ordem
cultural prestados à civilização européia, o objetivo
do monge sempre foi e continua a ser sobrenatural. Como
ensinou com ponderação e clarividência o sábio
Cassiano: "Convém que exerçamos as coisas acessórias
ou acidentais (sequentia), tal como os jejuns, a
anacorese, a meditação das Escrituras (e poder-se-ia
acrescentar, a cópia dos manuscritos, as obras de
assistência social, as escolas, etc.) tendo em mira o
fim principal, a saber, a pureza do coração que nada
mais é que a caridade... pela qual todo o resto deve
ser observado" [132].
27. Desde os primeiros dias da sua solidão, São
Bento foi procurado pelos patrícios de Roma e pelos
habitantes da redondeza, para lhes educar os filhos. Por
isso, a atividade educacional vem desde a origem da Ordem
Beneditina como uma das suas características acidentais e
por uma disposição da Providência divina. Em todo
mosteiro passou a existir, ao lado da escola interna em
que estudavam os monges, uma escola externa franqueadà a
todos os interessados e onde se aprendia a ler, escrever,
contar e a cantar, e na qual, aos poucos, veio a
organizar-se o ensino completo das artes liberais e da
própria filosofia, tanto quanto ela podia servir ao ideal
monástico da formação e, assim, a Ordem de São
Bento foi a educadora da Europa.
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