SEGUNDA PARTE


CAPÍTULO III. A TRANSMISSÃO DA CULTURA ANTIGA À IDADE MÉDIA.

1. Vamos estudar nesta segunda parte a educação na primeira fase da Idade Média. De acordo com a periodização apresentada no capítulo I, cabe-nos nela examinar a história das idéias e dos fatos educacionais, desde o fim do mundo antigo até ao século XII. Parece-nos, pois, de bom aviso, delinear em breve parágrafo os principais eventos dessa fase com as suas respectivas datas, a fim de que os leitores disponham logo à primeira vista de rápidos pontos de referência dos fatos capitais para o nosso estudo, em meio à multiplicidade de acontecimentos em época geralmente tão desconhecida.

2. No ano 493: O chefe ostrogodo Teodorico, general a serviço do imperador bizantino Zenão, fez assassinar Odoacro, que reinava desde 476, e tornou-se o senhor da Itália. Foram seus ministros Cassiodoro Senator e Anício Mânlio Severino Boécio que marcaram fundamente a educação medieval.

No ano 500: O Edito de Teodorico impôs o uso do Direito Romano e o restabelecimento da organização política e administrativa (senado, prefeito da cidade, governadores de província, municipalidade).

No ano 527: Elevação de Justiniano a imperador da Bizâncio.

No ano 529: Invasão persa do Império Bizantino. Fechamento das escolas de Atenas. Fundação da Ordem Beneditina.

No ano 565: Publicação do Código de Justiniano, iniciado em 527.

No ano 534: A redação da Regra de São Bento (em torno dessa data).

No ano 565: Morte de Justiniano.

No ano 568-572: Conquista da Itália do Norte pelos lombardos.

No ano 590: Fundação do mosteiro de Luxeuil por São Columbano. Irradiação da cultura irlandesa.

No ano 590-604: Pontificado de São Gregório Magno, o papa que defendeu Roma contra os ataques e as pretensões dos lombardos e bizantinos e promoveu a conversão dos anglo-saxões.

No ano 596: Início da missão do monge beneditino Santo Agostinho, na Grã-Bretanha.

No ano 630: Conquista de Meca por Maomé.

No ano 635: Fundação do mosteiro de Lindisfame.

No ano 642: Conquista de Alexandria pelos árabes.

No ano 669: Teodoro de Tarso torna-se arcebispo de Cantuária e promove o estudo e a difusão da língua grega.

No ano 678: Wilfredo de York inicia a evangelização da Frísia. Da Inglaterra saem os monges missionários - e entre eles destacou-se São Bonifácio - que vão cristianizar Hesse, Turíngia e Baviera na Germânia.

No ano 680: Pepino de Heristal torna-se chefe do palácio na Austrásia e cessa o domínio merovíngio dos reis indolentes.

No ano 711: Inicia-se a conquista da Espanha pelos muçulmanos chefiados por Tarik que, em 719, já havia tomado toda a península e destruído o reino visigótico.

No ano 716: Primeira missão de São Bonifácio na Germânia.

No ano 754: Estabelecimento da aliança entre o papa Estêvão II e o rei dos francos, Pepino, o Breve, e do Estado Pontifício que surgiu baseado no preexistente Patrimônio de São Pedro.

No ano 756: Entrega do território do Estado Pontifício a Estêvão II por Pepino, o Breve. É a Doação de Pepino.

No ano 768: Morte de Pepino, o Breve, a quem sucedem os filhos Carlos Magno e Carlomano.

No ano 771: Carlos Magno, único rei dos francos, após a morte de Carlomano.

No ano 773: Aparição da numeração árabe.

No ano 774: Carlos Magno torna-se rei dos lombardos.

No ano 782: Chegada de Alcuíno à corte de Carlos Magno.

No ano 800: Na festa de Natal, coroação de Carlos Magno pelo papa Leão III como Imperador Romano do Ocidente. Nascimento do Sacrum Romanum Imperium, reconstituição cristã do império desfeito em 476.

No ano 814: A morte de Carlos Magno e a elevação de Luís, o Piedoso.

No ano 827: Os sarracenos iniciam a conquista da Sicília.

No ano 840: Morte de Luís, o Piedoso, e conquista de Tarento pelos sarracenos.

No ano 842: Os Juramentos de Estrasburgo.

No ano 850: Estabelecimento dos normandos na França.

No ano 863: Os apóstolos dos eslavos, São Cirilo e São Metódio, iniciam a missão entre os morávios.

No ano 871-900: Reinado de Alfredo, o Grande, o rei dos anglosaxões.

No ano 877: Capitular de Quierzy com o reconhecimento legal do regime senhorial por Carlos, o Calvo.

No ano 910: Fundação do mosteiro de Cluny, perto de Mâcon na Borgonha.

No ano 936: Advento de Otão I, o Grande, vencedor dos húngaros e eslavos.

No ano 962: Coroação de Otão, o Grande, fundador do Santo Império Romano Germânico, pelo papa João XII, reconstituindo-se o império de Carlos Magno.

No ano 980: Início da conquista da Grã-Bretanha pelos dinamarqueses.

No ano 980-1037: Vida do filósofo persa Avicena.

No ano 987: Advento de Hugo, o Capeto.

No ano 992: Primeiro tratado comercial entre Bizâncio e Veneza.

No ano 1029: Início do principado normando na Itália.

No ano 1030: Começo do movimento comunal na Itália e da ascensão da burguesia.

No ano 1033: Nascimento de Santo Anselmo de Cantuária, em Aosta na Itália.

No ano 1066: Conquista da Inglaterra por Guilherme da Normandia.

No ano 1079: Nascimento de Abelardo, o Cavaleiro da Dialética.

No ano 1095: Pregação da Primeira Cruzada no Concílio de Clermont.

3. Da queda de Roma em 476 e do ocaso do império romano do Ocidente até ao surgimento da nova civilização medieval no início do século XII, estendem-se os séculos intermediários em que se contam as agitações, as guerras, a insegurança e as invasões, ao mesmo tempo em que se registra a cristianização dos povos germânicos e se processa a assimilação do patrimônio cultural antigo preservado pela Igreja Católica. Como deixamos assentado em nosso livro História da Educação na Antigüidade Cristã, os povos germânicos da Idade Média receberam de modo direto da antigüidade romana um patrimônio cultural de conteúdo exclusivamente literário e jurídico, uma vez que durante o Baixo Império o ensino da filosofia desaparecera lentamente, devendo notar-se que nunca fora popular entre os romanos, e a educação caracterizava-se pelo predomínio da gramática e da retórica sob o patrocínio de Quintiliano e Cícero, sobre serem ínfimas as noções científicas que o Império romano decadente deixara em herança à nova idade e à Europa nascente. Esse saldo cultural da Roma antiga é muito diferente da situação do Império bizantino onde, a par das letras clássicas e do direito romano, floresceu a filosofia e cultivaram-se as ciências no prolongamento de uma tradição milenar. Por isso, quando os árabes conquistaram antigas cidades do Oriente e grandes centros culturais de Bizâncio, eles entraram incontinente em contato direto com o saber grego que lhes serviu de notável rampa de lançamento para o adiantamento científico e filosófico. Acresce, ainda, que o domínio muçulmano se baseou nos antigos centros urbanos, sedes de atividade cultural, comercial e industrial, enquanto os povos germânicos levaram um gênero de vida agrária em ambiente conturbado por guerras e invasões. Deixamos, ainda, estabelecido no nosso livro citado que a orientação pedagógica da Idade Média iria obedecer ao plano traçado por Santo Agostinho na sua obra De Doctrina Christiana, que serviu de roteiro para os estudos dos intelectuais cristãos e de ideário e programa para as escolas. De acordo com o Mestre de Hipona, o centro da aprendizagem é a Sagrada Escritura e para ela se volta todo o interesse que possam merecer as artes liberais, as línguas e as ciências, enquanto o termo filosofia se conserva para designar principalmente a concepção cristã da vida na acepção consagrada pelos Santos Padres e adotada pelos autores monásticos [99].

4. O saber antigo preservou-se nos livros que os mosteiros e as igrejas agasalharam carinhosamente. A sua transmissão às gerações da Idade Média operou-se por meio da cópia dos manuscritos e da elaboração de manuais e enciclopédias por alguns autores do fim do mundo antigo, tais como Santo Agostinho e Marciano Capela, e por escritores do início da Idade Média, tais como Cassiodoro, Boécio, Santo Isidoro de Sevilha e São Beda, o Venerável. A obra de Santo Agostinho agigantou-se no legado antigo e as suas diretivas filosóficas e educacionais imperaram soberanas até ao século XIII, e alguns dos seus tratados influíram constante e diretamente nas escolas, como o De Doctrina Christiana, o De Magistro, o De Civitate Dei, as Confessiones e o De Musica, única obra completa que restou da sua planejada enciclopédia sobre as artes liberais. Marciano Capela, o retórico cartaginês contemporâneo de Santo Agostinho, nasceu provavelmente no fim do século IV. Ele escreveu uma enciclopédia em prosa e verso, As Núpcias de Filologia com Mercúrio, em nove livros. Os dois iniciais descrevem as bodas de Filologia com Mercúrio, e os restantes tratam das sete artes liberais simbolizadas por damas de honor, serviçais de Mercúrio que Febo deu à Filologia como presente de casamento. Note-se que as núpcias descritas nos dois primeiros livros constituem um símbolo muito significativo da cultura no fim do Baixo Império. O conúbio de Filologia com Mercúrio representa, sem dúvida, a aliança da perícia literária, da arte gramatical, com a eloqüência. O simples título da obra já impunha ou propunha um ideal e um programa às escolas da Idade Média incipiente, a saber, o culto da gramática e da retórica [100]. A obra de Marciano Capela baseou-se na enciclopédia de Varrão Sobre as Nove Disciplinas, mas o advogado cartaginês só incluiu no seu livro as sete artes da gramática, retórica, dialética, geometria, aritmética, astronomia e harmonia (música) e deixou de lado a medicina e a arquitetura, por se tratar de disciplinas "ocupadas com as coisas mortais e terrestres sem nada ter de comum com o céu". As personagens e os símbolos propostos por Marciano Capela inspiraram os artistas medievais, e as Núpcias de Filologia e Mercúrio proporcionaram aos estudiosos e às escolas o currículo que se conservaria inalterável, sujeito apenas a ampliação e enriquecimento, até ao começo do século XIII, quando se lhe acrescentaram disciplinas filosóficas e científicas.

5. Flávio Magno Aurélio Cassiodoro Senator (cerca de 485-580) nasceu em Scyllacium, a atual Squillace, na Calábria, recebeu excelente educação clássica, foi servidor dedicado dos reis ostrogodos, tornou-se questor e secretário do rei Teodorico, cônsul e, por fim, mestre de ofícios, isto é, primeiro ministro. Por volta de 555, fundou o mosteiro de Vivarium, monasterium vivariense, no domínio de sua família, no golfo de Squillace na Calábria, onde passou muitos anos de sua profícua e longa existência, entregue à organização da biblioteca e à redação de obras religiosas e eruditas. Cassiodoro imprimiu à vida monástica do Ocidente o culto apaixonado dos livros, o cuidado na cópia dos códices e o gosto pelas letras profanas a serem cultivadas conforme as recomendações de Santo Agostinho no De Doctrina Christiana. Pode afirmar-se que Cassiodoro foi sobretudo pedagogo. No prefácio do Livro I das Instituições Divinas e Seculares diz o Senator que os estudos das letras fervem com grande ardor e grande número de homens crê adquirir com elas a sabedoria profana, mundi prudentiam. "Aflijo-me, confessa, porque faltam professores públicos de Sagrada Escritura." Ele afirma haver instado com o papa Agapito para que, à imitação de Alexandria e Nísibe, provido o dinheiro, se fundassem em Roma escolas cristãs que acolhessem mestres doutores, a fim de que a alma pudesse obter a salvação eterna e a linguagem dos fiéis fosse adornada com expressão límpida e puríssima [101]. Esse plano revelou-se inviável, mas Cassiodoro fez o que pôde em prol do seu ideal com a fundação de Vivarium, com a organização de imensa biblioteca, do serviço de cópia dos códices e com a redação das suas obras. Escreveu uma Chronica destinada a enaltecer os godos, compilou para o rei Teodorico o De origine actibusque Getarum, história dos godos que completou sob Atalarico e cujo texto se perdeu mas foi resumido pelo bispo godo Jordão (Jordanes). Em 537 ele publicou a coleção de cartas oficiais escritas enquanto estivera a serviço dos reis ostrogodos, as Variae. Pouco antes de renunciar ao seu cargo público, escreveu o tratado De anima influenciado por Santo Agostinho e por Claudiano Mamerto. Compôs, ainda, comentários aos Salmos, à Epístola aos Romanos e também as Complexiones Apostolorum, resumo de todo o Novo Testamento. Cassiodoro elaborou, ainda, a Historia Ecclesiastica Tripartita, compêndio das obras congêneres de Teodoreto de Ciro, Sócrates e Sozômeno, já traduzidas pelo colaborador de Cassiodoro, o monge Epifânio. Essa obra serviu de manual de história eclesiástica na Idade Média. Ele fez traduzir, outrossim, as Antigüidades Judaicas de Flávio Josefo. Aos 92 anos, redigiu o tratado De orthographia, a pedido de monges que se dedicavam à cópia de manuscritos. Deixou várias outras obras, indicadas por Dom Cappuyns. A mais influente, no entanto, e a mais significativa para a história da educação, foram as Institutiones divinarum et humanarum lectionum, compostas após a sua estada em Constantinopla. No primeiro livro, Instituições Divinas, Cassiodoro disserta sobre os livros da Sagrada Escritura e o seu estudo e, no segundo, Instituições Seculares, trata das sete artes liberais necessárias à compreensão da Sagrada Escritura, tendo distinguido as sermocinales, gramática, retórica e dialética, das reales, aritmética, geometria, astronomia e música [102]. Por último, convém assinalar que, através das obras citadas nas Institutiones, pode refazer-se o catálogo dos livros da biblioteca de Vivarium. Indiscutivelmente, um dos grandes méritos de Cassiodoro, para não dizer o maior, foi ter feito do mosteiro não só uma escola teológica como um scriptorium para a multiplicação das cópias da Sagrada Escritura, dos Padres da Igreja, dos comentadores sacros e dos grandes escritores profanos da antigüidade pois, conforme diz Leslie W. Jones ao examinar a influência de Cassiodoro sobre a cultura medieval, a qualidade do estudo da teologia decaíra, já não se copiavam as melhores obras da literatura clássica, e cada movimento dos exércitos ostrogodos ou das ainda mais selvagens "hordas imperiais" contra uma cidade ou uma vila terminava na destruição de códices inestimáveis.

6. Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius, estadista e filósofo, foi um dos maiores educadores da Idade Média e, até ao fim do século XII, foi indubitavelmente o reverenciado filósofo e lógico. Nasceu em Roma entre 470 e 488 e morreu perto de Pavia cerca de 524. Estudou filosofia e ciências em Atenas e Alexandria. Atingiu o consulado em 510 no governo do rei dos ostrogodos, o ariano Teodorico, o Grande (475-526), de quem foi Mestre de Ofícios, cargo equivalente ao de primeiro ministro. Acusado de traição, sob a suspeita de aliança com os bizantinos, foi encarcerado e condenado à morte. Boécio projetou traduzir as obras de Platão e de Aristóteles e demonstrar, por meio de comentários, o acordo profundo do pensamento desses filósofos. A morte prematura impediu-lhe a realização do plano, mas Boécio consagrou-se como filósofo através da Consolação da Filosofia, obra de fundo neoplatônico e impregnada de estoicismo, escrita ao cárcere em seus últimos dias, em 5 livros em prosa e verso nos quais aponta estar a verdadeira fonte da felicidade na busca da sabedoria e no amor de Deus. O seu prestígio filosófico, ademais, escorou-se nas suas traduções e comentários. Boécio traduziu em 510 o De Interpretatione de Aristóteles sobre o qual compôs dois comentários em 511 e 513. Traduziu, também, e comentou em 510 as Categorias de Aristóteles e, antes de 505, escreveu um comentário à Introdução (Isagoge) às Categorias, de Porfírio, traduzida por Mário Vitorino. Mais tarde, em 509, fez nova tradução e outro comentário da Isagoge. Traduziu, ainda, os Tópicos e os Primeiros Analíticos de Aristóteles, comentou os Tópicos de Cícero e redigiu uma Introdução aos Silogismos Categóricos e mais um livro Sobre o Silogismo Categórico, outro Sobre o Silogismo Hipotético e O livro Sobre a Divisão, além de haver composto, cerca de 520, os tratados teológicos conhecidos por opuscula sacra, opúsculos sacros, em que aplica o raciocínio aos conhecimentos religiosos, valendo-se da filosofia na elaboração da doutrina sagrada, donde o epíteto de "Primeiro Escolástico" que lhe deu Grabmann. Aliás, como diz Rand, o programa inteiro da Escolástica já se acha em Boécio [103]. Foi um parágrafo do comentário boeciano à Isagoge de Porfírio que desencadeou o debate da famosa questão dos Universais. Boécio traduziu, ainda, obras científicas, compôs tratados de aritmética e de música e, por isso, talvez, Duchesne considerou-o "uma espécie de Arquimedes". Deve-lhe a filosofia as famosas definições de eternidade, interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio, a posse completa e ao mesmo tempo perfeita da vida interminável, e a definição de pessoa, rationalis naturae individua substantia, a substância individual de natureza racional. Boécio estabeleceu a distinção clássica entre o quod est, sujeito e suposto, e o quo est, como forma e essência, além de ter fixado em latim completo repertório de vocábulos filosóficos, como o demonstrou Grabmann [104]. Se Marciano Capela foi quem transmitiu à Idade Média o esquema das sete artes liberais, foi Boécio quem denominou as quatro disciplinas matemáticas de "quádruplo caminho para a sabedoria", quadrivium.

Pode avaliar-se o alto conceito que a Idade Média fez de Boécio, quando se sabe que Dante o colocou no quarto céu, o céu do sol, entre os teólogos que estão ao lado de Santo Tomás de Aquino, dizendo que a santa alma de Boécio é feliz por contemplar a Deus pois Boécio, o mártir, passou do exílio do mundo enganador à paz celestial [105].

7. Outro famoso transmissor da cultura antiga à Idade Média e um dos fundadores da civilização medieval pertence ao início do período e rebrilha como luminar da virtude e do saber na Espanha visigótica. Trata-se de Santo Isidoro de Sevilha que nasceu, provavelmente, entre 560 e 570, no seio de uma família cartaginesa que emigrara para Sevilha. Foi educado pelo seu irmão mais velho São Leandro, arcebispo de Sevilha, a quem sucedeu no mesmo sólio episcopal que dignificou durante 37 anos. Durante o seu fecundo episcopado reuniram-se vários concílios, tendo sido mais famoso o IV Concílio nacional de Toledo, em 633, de que participaram 62 bispos e que Santo Isidoro presidiu e influenciou profundamente. Entre outras medidas, esse concílio decretou a fundação de seminários em cada diocese para a formação dos jovens clérigos. Os estudantes bem dotados poderiam ser ordenados e os restantes deviam ser recolhidos a um mosteiro [106]. A atuação episcopal de Santo Isidoro foi tão notável que no Oitavo Concílio de Toledo, em 653, o seu discípulo São Bráulio de Saragoça o proclamou nostri saeculi doctor egregius, egrégio doutor do nosso século, in saeculorum fine doctissimus, o homem mais erudito dos últimos tempos, e glória atual da Igreja Católica [107]. Santo Isidoro foi amigo e conselheiro do rei Sisebuto, unificou a liturgia, regulamentou a vida monástica, escreveu obras exegéticas e teológicas. Foram-lhe atribuídas obras históricas como a Crônica, a História dos Reis Godos, Vândalos e Suevos, outras obras religiosas e Cartas. A sua obra mais famosa e mais alentada, no entanto, foram as Origens ou Etimologias, enciclopédia de conhecimentos profanos e religiosos, obra de profunda influência pedagógica e que Gilson denominou de Enciclopédia Britânica ou Larousse da Idade Média [108]. Santo Isidoro escreveu essa obra a pedido do rei Sisebuto e ela só foi editada, após a sua morte, pelo seu discípulo Bráulio de Saragoça. Santo Isidoro apresenta etimologias reais ou imaginárias e nos vinte livros da sua obra estuda as sete artes liberais, a medicina, o direito, os ofícios eclesiásticos, as verdades dogmáticas da fé cristã, a Igreja, a linguagem, os povos, os animais, a terra e as suas partes, os edifícios, as pedras e os metais, a guerra, os jogos, os pesos e as medidas, a agricultura, a roupa, os alimentos e os utensílios. Nesse vasto compêndio do saber humano a parte mais original do pensamento isidoriano, segundo Canals Vidal, é a doutrina sobre o direito [109], embora as Etimologias fossem obra de consulta assídua sobre todos os mencionados campos do saber. E é exatamente através dessa obra que Santo Isidoro se consagrou como grande transmissor da cultura antiga à Idade Média. Ele faleceu a 4 de abril de 636, deixou bem organizada a Igreja no reino visigótico e uma herança apreciável para o ensino nas escolas monásticas e episcopais.

8. Embora pertença à plêiade dos monges educadores dos primórdios da Idade Média, São Beda, o Venerável, merece ser contado entre os transmissores da cultura antiga à Idade Média, devido à amplidão da sua obra que serviu aos estudiosos tal como as de Cassiodoro, Boécio e Santo Isidoro; e, assim como este foi a luz da península ibérica, São Beda foi o resplendor da Grã-Bretanha. Nasceu no reino da Nortúmbria cerca de 672 ou 673 e morreu em 735. Escreveu a História Eclesiástica da Inglaterra, talvez a melhor obra histórica da primeira parte da Idade Média e um modelo do gênero. Deixou, ainda, um opúsculo De rerum natura, esboço de enciclopédia científica, escritos sobre gramática, música, temas científicos, ortografia; comentários da Sagrada Escritura, poemas latinos, homilias e cartas. São Beda como que representou o fecho da era doirada dos santos e gênios do monaquismo irlandês e inglês no qual sobressaíram São Bento, o Bispo, e o helenista Teodoro de Tarso, arcebispo de Cantuária, que difundiu na Inglaterra o estudo do grego. A sua carta a Egberto, arcebispo de York, embora seja um ideário dos deveres episcopais, contém preciosos ensinamentos sobre a moderação da língua. Diz são Beda que tanto a meditação da Sagrada Escritura como os bons amigos virtuosos ajudam-nos a conservar a pureza da língua e da conduta, e que a pregação ao povo que desconhece o latim, bem como as orações, devem ser feitas em língua vulgar. São Beda confessa ter traduzido para o inglês - lingua anglorum - o Pater e o Credo, em benefício dos sacerdotes incultos [110]. Tal como Santo Isidoro foi o protótipo d.o sábio e do santo para a Espanha, São Beda, o Venerável, encarnou para o mundo anglo-saxão o ideal do saber e da virtude. A cena final da sua vida foi o coroamento de unta existência consagrada a Deus e aos livros e ficou como um programa ou exortação para os estudiosos medievais. Essa descrição figura no escorço biográfico escrito por Cutberto, discípulo de São Beda, e remodelado no século XI. O famoso mestre adoeceu na terça-feira antes da festa da Ascensão, ensinou, ditou um dos seus escritos ao secretário, convocou os confrades ao pé do leito, dirigindo-lhes pias exortações in laetitia, alegremente. Ao lhe observar o secretário que faltava uma frase do texto, ditou-a rápido e exclamou: "Está terminado". Terminara, com efeito, o ditado e a vida.

9. Finalmente, podemos citar, ainda, entre os plasmadores da cultura medieval, o pseudo-Dionísio, o Areopagita, e São João Damasceno. O pseudo-Dionísio foi o autor desconhecido que assumiu o nome do discípulo de São Paulo, provavelmente um monge da Síria setentrional que viveu no fim do século V ou no início do VI, em torno d.o ano 500 d.C. Esse escritor anônimo influenciou profundamente a cultura medieval, tendo transmitido a metafísica neoplatônica aos escolásticos através da tradução latina que Escoto Eriúgena fez das suas obras: Os Nomes Divinos, a Teologia Mística, a Jerarquia Celeste, a Jerarquia Eclesiástica e mais dez Cartas. Pode afirmar-se que o pseudo-Dionísio, o Areopagita, difundiu o neoplatonismo na Idade Média, tanto através das suas concepções como da sua terminologia, de modo que reforçou a orientação neoplatônica das obras de Santo Agostinho. São João Damasceno, por sua vez, o Chrysorrhoas, a torrente doirada, foi um monge que nasceu em Damasco cerca de 645, morreu perto de Jerusalém cerca de 750 e representou a presença do aristotelismo no pensamento cristão de Bizâncio. Ele escreveu grande obra dogmática, Pêquê Gnôseôs, a Fonte do Conhecimento, em três livros. O primeiro, a Dialética, é um tratado sobre as categorias de Aristóteles e a questão dos Universais segundo a Isagoge de Porfírio; o segundo é um elenco histórico das heresias; e o terceiro é consagrado à fé ortodoxa. Enquanto o pseudo-Dionísio, o Areopagita, difundiu o neoplatonismo, o respeitável teólogo bizantino inculcou nos escolásticos o gosto do aristotelismo, e essas duas orientações foram integradas e assimiladas numa síntese superior durante o século XIII na doutrina de Santo Tomás de Aquino.

10. Convém, em tempo, lembrar com Régine Pernoud que no início da Idade Média - época de Gregório de Tours e de Radegunda na Gália - espalhou-se o livro na forma com que ainda hoje se apresenta, o codex, que substituiu o volumen, o rolo antigo de papiro ou pergaminho [111]. Foi nas escolas e entre as seitas religiosas, observa Piganiol, que se desenvolveu o uso do livro com folhas, codex, desde o século IV, e só as obras literárias antigas transcritas dos volumina de papiro nos códices de pergaminho lograram sobreviver e, por isso, diz ele, saudemos com reconhecimento a aparição do livro [112]. De modo mais preciso ensina D. Paulo Evaristo Arns que as valiosas obras cristãs e pagãs foram preservadas, graças aos escritores cristãos do século IV que escreveram no pergaminho, material de escrita feito da pele de animais e cujo nome procede, segundo antiga tradição, de Pérgamo, cidade da Ásia Menor que floresceu cerca de 300 a.C. [113]. McMurtrie explica com minúcias o aparecimento dos livros no formato atual, de folhas ligadas e cosidas de um lado, que se generalizaram no século IV da era cristã, quando os juristas do Baixo Império Romano verificaram que o códice era mais conveniente para os seus livros de leis que o rolo, volumen. "No códice (codex), explica McMurtrie, as folhas de pergaminho, em vez de serem coladas pelas extremidades e depois enroladas, dobravam-se para formar duas, e as coleções ou grupos destas folhas dobradas ligavam-se pelos vincos" [114]. O códice, tal como o rolo, era escrito à mão e, por isso, estas duas espécies de livros antigos são conhecidas, segundo a designação latina, por libri ou codices manu scripti, livros ou códices escritos à mão. Esses livros manuscritos passaram por grande aperfeiçoamento na Irlanda nos séculos VI, VII e VIII, graças à arte caligráfica e às maravilhosas iluminuras feitas nos escritórios monásticos. A execução caligráfica dos monges irlandeses, diz McMurtrie, nunca foi ultrapassada em originalidade do desenho e em habilidade de confecção, e o seu mais célebre exemplar é o Livro de Kells que contém os evangelhos em latim e foi classificado por mais de um escritor como "o livro mais belo do mundo" [115]. Durante a Alta Idade Média, até o século XII, a composição dos livros fazia-se principal ou exclusivamente nos escritórios, scriptoria, dos mosteiros onde essa arte manuscrita atingiu as culminâncias com a preciosidade das iluminuras e com notável habilidade caligráfica. No século XIII, devido à necessidade de livros para o ensino universitário, iniciaram-se a indústria e o comércio livreiro em grande escala, pois o librarius, editor dos códices manuscritos, não só mantém a livraria no quarteirão da escola - o vendedor é o stationarius - como trata de multiplicar os exemplares com o auxílio dos estudantes pobres que faziam cadernos e transcreviam livros a fim de ganhar dinheiro para custearem os estudos. O aparecimento do códice de pergaminho no século IV de nossa era. levou ao rápido desaparecimento do papiro que predominara antes como material de escrita e começou a ser substituído pelo papel, de início charta bombycina, depois só bombycina, em 1231 charta papyri e, por fim, papyrus em 1311 [116].

11. Na mesma época em que aparecia o códice, surgiu também o estilo da escrita "uncial", da palavra uncia, polegada, a duodécima parte de um pé, devido ao tamanho exagerado das letras. O estilo uncial já deixa ver como viriam a ser as minúsculas e predominou até o século VIII ou IX. As antigas letras maiúsculas ficaram reservadas para títulos de relevo, como os dos capítulos, em latim capita, donde o atual nome de "capitais". A partir do século V, a indústria do livro desapareceu e a cópia dos livros refugiou-se nos mosteiros. Daí o compartimento monástico dos escritórios e o cuidado dos grandes mentores culturais da época, como Boécio, Cassiodoro, Santo Isidoro de Sevilha e São Beda, de comporem livros de ortografia. As letras semi-unciais, no estilo das minúsculas, manifestaram a tendência de ligarem certas combinações de letras e foram aperfeiçoadas, por volta do ano 700, pelos monges irlandeses que criaram, diz McMurtrie, uma escrita admirável, uma das mais belas que já existiram. Essa escrita foi adotada pelos escribas carolíngios do mosteiro de Tours onde se desenvolveu a letra minúscula carolina (de Carolus Magnus) e se generalizou o uso do espaço entre as palavras para facilitar a leitura. Apesar do aparecimento das elegantes letras góticas no século XII, os humanistas do Renascimento, no início do século XV, adotaram a minúscula carolina que, fixada nos tipos de metal por Gutenberg, serviu de letra de imprensa, de modo que os nossos livros e impressos de hoje têm uma dívida notável para com os monges da Irlanda, da Inglaterra e da Gália dos séculos VIII e IX. A escrita carolina, ensina Dawson no seu livro A Formação da Europa, parece ter surgido na abadia de Corbie, na segunda metade do século VIII, tendo sido aperfeiçoada no famoso scriptorium da abadia de Alcuíno em Tours. A sua difusão, por certo, deveu-se ao emprego que dela fizeram Alcuíno e os seus monges nas transcrições dos livros litúrgicos, executadas por ordem do imperador. Montalembert declara na sua famosa obra Os Monges do Ocidente que a transcrição dos manuscritos era a principal e mais constante ocupação das beneditinas letradas e que não se avaliam os serviços que prestaram à ciência e à história as mãos delicadas das religiosas da Idade Média. "Elas punham, diz ele, nesse trabalho uma habilidade, uma elegância e uma atenção, que os próprios monges não podiam atingir, e nós lhes devemos alguns dos mais belos monumentos da maravilhosa caligrafia dessa época" [117].

12. Os copistas medievais tinham os seus instrumentos de trabalho, e os principais eram as penas e a tinta, pois empregavam, também, facas, raspadoras, etc., para lidarem com o pergaminho e a encadernação. O escriba antigo (antiquarius, librarius, scriptor, scriba, notarius, clericus) usava o estilete de ponta metálica para escrever nas tabuinhas de cera e a pena de cana, calamus, nas "membranas" ou pergaminhos. No império romano popularizara-se a pena de bronze ou de prata, penna, pennula. Desde o século IV, época do códice, o escriba passou a utilizar a pena de ganso. O copista medieval usava no scriptorium a pena de cana, o cálamo, que era conservada num recipiente cilíndrico de madeira ou de metal, theca calamaria, theca canarum ou calamarium. As penas eram guardadas num estojo comprido, de acordo com o seu formato, a theca litteraria ou calamarum. Esses recipientes podiam, ainda, comportar um tinteiro, atramentarium, incausterium ou calamarium. Guardava-se a tinta em chifres de veado (cornu), um para tinta preta e outro para a vermelha, e eles eram pendurados na parede ou colocados no vão de uma janela. O copista experimentava a pena muitas vezes, robationes, antes de iniciar o trabalho. A tinta era chamada atranentum librarium para distingui-la da tinta do sapateiro, atramentum sutorium. Quando era obtida por cozimento chamava-se encaustum, incaustum ou tincta, tingta, tinctura, de tingere, tingir. Desde o século III ou IV, fabricava-se tinta preta com sais metálicos, o sulfato de ferro e o sulfato de cobre. A tinta vermelha era feita de cinabre, minério de mercúrio, e servia para traçar letras ornamentais nos títulos, no começo, incipit, e no fim, explicit, dos textos, assim como para desenhar iluminuras. No período carolíngio começou a ser usada a tinta doirada e a prateada.

13. É preciso saber que o ensino medieval das letras, ministrado por leigos na Itália e por monges no resto da Europa, conservou a tradição literária do latim clássico formado entre os romanos sob a inspiração grega e que sobrevivera à ruína do Império romano do Ocidente. Na sua conferência Como a língua latina se tornou cristã, há mais de cem anos, dizia Frederico Ozanam que o Cristianismo viera revitalizar o latim, contribuindo para que se tornasse a língua da especulação, pois a enriqueceu com muitos vocábulos novos correspondentes a idéias abstratas [118]. Isso foi possível, segundo Ozanam, graças à tradução latina da Bíblia, a famosa Vulgata (tradução do Antigo Testamento, exceto do Saltério, e revisão do Novo Testamento, feitas por São Jerônimo), assim denominada por ser um texto bíblico ao alcance de todos, comum, usual, já que só os doutos podiam ter acesso aos originais hebraico e grego. A Bíblia, prossegue Ozanam, foi o princípio e o grande instrumento da reforma do latim, ao introduzir, de um lado, as riquezas poéticas do hebraico e, de outro, as riquezas filosóficas do grego, e tanto a Bíblia como o Cristianismo foram servidos por dois auxiliares, a saber, os africanos e o povo semibárbaro, pois na África nasceu a última geração de escritores que trouxe para as letras o ardor do seu clima, tais como Cornuto, Frontão, Nemesiano, Apuleio, Marciano Capela e os grandes escritores cristãos: Tertuliano, São Cipriano, Arnóbio e Santo Agostinho. Mas o povo romano, recrutado de todas as barbáries, segundo Ozanam, foi constituído, muito antes das grandes invasões, por bárbaros de todas as procedências. Ora, foi exatamente nas mais ínfimas camadas desse povo que o Cristianismo conquistou os seus primeiros adeptos que gravaram nas catacumbas inscrições grosseiras eivadas de barbarismos e de solecismos. A filóloga Christine Mohrmann, das universidades de Nimega e de Amsterdã, observa que os lingüistas do século XX discordam de Ozanam quanto às suas idéias sobre a decadência do latim tardio, inspiradas pelas concepções filosóficas da época, mas ela reconhece que Ozanam disse coisas notabilíssimas sobre o modo como o Cristianismo influenciou a evolução da língua latina [119]. Christine Mohrmann, por sua vez, ensina que se o Cristianismo nos primeiros séculos da nossa era concorreu para que o latim adotasse um cunho popular e para que se operasse certa perda do rigor no sistema da língua, por outro lado, após a desagregação do Império do Ocidente, exerceu uma influência unificadora. Durante os séculos VI e VII começou a esboçar-se o novo sistema de ensino, reforçado no século VIII pelas medidas tomadas por Pepino, o Breve, no tocante à ortografia, obra continuada e aperfeiçoada por Carlos Magno, e foi a partir da prossecução da tradição literária do latim clássico, diz Mohrmann, que se tomou consciência da existência de duas línguas diferentes: o latim e a lingua rustica romana, consciência que reponta através do confronto da língua popular com um latim doravante artificial, orientado para o passado clássico. Na Itália, a tradição da latinidade literária manteve-se por mais tempo que na Gália e, após a invasão lombarda, sobreviveu nos grandes mosteiros, além do fato capital de Ravena, Nápoles, Salerno e Roma jamais se haverem barbarizado completamente [120]. O latim literário, portanto, continuou a ser ensinado nas escolas medievais como continuação normal do latim literário tardio do Baixo Império e, como ensina Christine Mohrmann na sua notável conferência O dualismo na latinidade medieval, na Idade Média o latim não era língua morta cultivada pelos sábios, mas língua viva das camadas superiores da população e que deu origem às línguas modernas neolatinas, influenciou as germânicas e foi por elas influenciado. A camada superior da população que falava e escrevia o latim medieval era a comunidade dos intelectuais que formava uma verdadeira respublica clericorum, tomando-se o termo clérigo na acepção medieval de estudioso e intelectual. Por conseguinte, diz Mohrmann, "o latim medieval é uma língua viva sem ser a língua de uma comunidade étnica". É língua de comunicação de uma elite, baseada na tradição religiosa e cultural, língua de caráter erudito, transmitida pela escola, em primeiro lugar língua escrita e, secundariamente, língua falada, herdeira da tradição paleocristã e da antigüidade clássica [121]. A primeira herança foi alimentada pela liturgia e a segunda, conservada pela escola. No século XIII, o latim foi a língua internacional das universidades e dos livros, a língua técnica do ensinamento abstrato, da filosofia, da teologia, do direito e das demais ciências.

14. No término deste capítulo passamos agora a tratar dos monges (monge, monacus, aquele que vive sozinho) que foram, na vida prática e no labor teórico, lídimos transmissores da cultura antiga à Idade Média. Nossa intenção é caracterizar a natureza do monaquismo e descrever as suas origens, pois o próximo capítulo sobre as escolas será dedicado em grande parte a instituições monásticas. Sabe-se que no Oriente, séculos antes do Cristianismo, havia comunidades de homens ligados por interesses religiosos e culturais, tais como os pugilos religiosos da India e da China, os colégios sacerdotais do Egito, a confraria pitagórica na Magna Grécia e os essênios da Palestina. O monaquismo cristão, no entanto. tem origem especial e não se prende a nenhuma organização anterior. Devido à sua natureza de animal social, os homens sempre se agruparam para a realização consciente de propósitos e o alcance de determinados objetivos. Nos primórdios da Igreja cristã, como o atestam os Atos dos Apóstolos, os doze companheiros de Jesus levaram vida comunitária, entregues à oração em comum, à prática dos conselhos evangélicos e à pregação, tal como tinham vivido ao lado de Nosso Senhor Jesus Cristo, antes de se dispersarem por causa da propagação da fé. Desde o início da vida cristã, houve pessoas que apreciaram a vida retirada para cumprirem com mais facilidade os mandamentos da Lei de Deus e a fim de conservarem a paz de espírito. Na Igreja primitiva surgiu e disseminou-se a instituição das virgens cristãs, que já constituía a forma comunitária de uma ordem religiosa [122]. Os monges começaram a surgir como anacoretas (anacoreô, viver retirado) no Oriente, desde o século III, e apareceram no Ocidente durante o século IV. Primeiramente surgem, pois, os anacoretas, homens que abandonavam as cidades e as povoações, buscavam a solidão dos desertos, praticavam a perfeita castidade e se entregavam a práticas de piedade e de penitência. Aos poucos formaram-se colônias de anacoretas sob a orientação de um abade (abas, pai) e, por fim, organizou-se a vida cenobítica, comunidade de monges que, sob a direção de um abade, seguem uma regra e levam a vida em comum (koinós, comum. Bíos vida). O monaquismo sempre contribuiu para promover o fervor religioso e para fomentar a cultura, mas na sua essência sempre foi um gênero de vida especial, tendo por objetivo a perfeita vida cristã, apostado a imitar a primitiva comunidade cristã de Jerusalém.. Desde a sua origem, o monge é, como ensina Thomas Merton, "um homem chamado pelo Espírito Santo a renunciar aos cuidados, desejos e ambições dos outros homens para dedicar toda a sua vida à procura de Deus" [123]. No monaquismo, como em todas as outras instituições, houve desvios e abusos desde o início, mas ele sempre se manteve fiel à sua concepção original, e em várias épocas surgiram poderosos movimentos de reforma e de renovação. É preciso assinalar, no entanto, as idéias errôneas que correm em livros sobre a vida monástica. A mais comum nos livros de história da educação é a que repõe a essência do monaquismo nas práticas ascéticas. Ora, o ascetismo (ascesis, exercício), conjunto de práticas penitenciais como o jejum, o silêncio, as macerações e os sacrifícios, nunca foi o ideal do monge nem a essência da vida monástica. No Oriente os monges recorreram a essas práticas, muitas vezes, com grande intensidade, mas na Ordem Beneditina, a ordem monástica por antonomásia do Ocidente, elas sempre foram regidas pela discrição, o senso da medida e o espírito de prudência. Desse modo, o ascetismo não é a essência do monaquismo, mas uma das suas manifestações e um meio a serviço do ideal. Por isso, embora Paul Monroe reconheça acertadamente que do século VI até o XVI a história do monaquismo é a história da educação, ele erra, contudo, ao afirmar que a idéia fundamental do monaquismo é o ascetismo [124]. Afirmações desse jaez podem ser ditadas pela impressão colhida nas biografias de certos monges orientais. Muitos deles Cometeram excessos na prática da penitência, tal como ao assumirem atitudes excêntricas ou ao exagerarem no rigor das mortificações. Havia os que viviam sujos e sem banho, alguns até com aspecto animalesco; outros prolongavam jejuns absurdos e acabavam por quedar exânimes, e houve alguns que viviam nus, revestidos apenas dos cabelos, mania a que só se podiam entregar os cabeludos, pois os calvos não se poderiam permitir tal excentricidade. Além dessas façanhas ascéticas, os monges do Oriente, de regra, não prezavam os estudos profanos, limitavam-se ao mínimo de instrução e só preconizavam a leitura da Sagrada Escritura, embora também se dedicassem à cópia de manuscritos religiosos. Segundo Festugière, a maior parte dos monges do Egito, da Palestina, da Síria e dos arredores de Constantinopla foram pessoas simples, de origem humílima e sem cultura. Explica o sábio dominicano helenista que a ignorância desses monges orientais, o seu desprezo da cultura antiga, em vez de aproximá-los de Deus, reduzia-os a um estado de credulidade pueril que não é supra-racional mas infra-racional, pois não querer usar da razão é, infalivelmente, arriscar-se a ter o juízo falseado, tomar por fim o que não passa de um meio e usar as suas forças contra sombras [125].

15. O gênero de vida dos anacoretas desenvolveu-se após o triunfo do Cristianismo e, pode dizer-se, na fase do seu apogeu. O seu representante típico foi São Paulo, o eremita, que faleceu em 347. As colônias de anacoretas surgiram com a organização da comunidade de anacoretas ou solitários no deserto do Egito, sob a direção do abade santo Antão. Do Egito, pátria do anacoretismo, esse gênero de vida trasladou-se para a Palestina e difundiu-se na Ásia Menor. Santo Hilarião dirigiu no deserto, entre o Egito e Gaza, colônias monásticas com 2.000 discípulos. São Maron, no fim do século IV, estabeleceu e orientou colônias de anacoretas nas regiões libanesas. Esses monges ficaram conhecidos como os maronitas do Líbano.

16. O primeiro organizador da vida cenobítica foi São Pacômio que nasceu em 287, de pais pagãos, em Sné (a Latópolis dos gregos) na Tebaida superior. Ele foi alistado à força nos exércitos imperiais e, como soldado, conheceu o Cristianismo, cerca de 313, quando foi visitado na prisão por cristãos. Iniciou-se no anacoretismo sob a orientação de Palemão no Alto Egito e, como contasse depois com grande número de discípulos, organizou com eles o primeiro cenóbio: um recinto fechado, uma Regra de vida, uma superior e severa distribuição do tempo. Teria o curto serviço militar sugerido a São Pacômio as vantagens da disciplina e do método na vida comunitária? Ele chegou a dirigir 7.000 monges e morreu em 347, depois de ter fundado também mosteiros de monjas. No fim do século V, havia no Próximo Oriente uns 50.000 monges, e o abade de grande número de monges intitulava-se arquimandrita. As colônias dirigidas por santo Hilarião transformaram-se em mosteiros de vida cenobítica sob a forma de lauras, cabanas separadas e independentes, situadas em recinto fechado, tal como ainda hoje vivem os cartuxos do Ocidente, e o seu mestre mais venerado foi santo Eutímio. O maior paladino do monaquismo oriental foi São Basílio, que instituiu os monges basilianos e, com o auxílio do amigo São Gregório Nazianzeno, compôs a célebre Regra, equivalente oriental da regra beneditina para os monges do Ocidente. São Basílio, mais que aos exercícios ascéticos das macerações, dava relevo à obediência, e nos mosteiros basilianos a oração e os ofícios litúrgicos entremeavam-se com o trabalho manual e intelectual. Na Grécia tornou-se famoso o mosteiro do monte Atos que influenciou profundamente o monaquismo russo.

17. Os monges estilitas (stylos, coluna) chamavam a atenção devido à excentricidade de viverem no alto de colunas. São Simeão, por exemplo, viveu durante trinta anos numa coluna e morreu em 459 e o seu discípulo Daniel foi estilita por 34 anos. Os monges reclusos (enclestoi) encerravam-se por toda a vida numa cela (clausa ou reclusorium). A famosa pecadora convertida, Taís, foi monja reclusa. Os acoimetas (acoimêtoi, que não se deitam) floresceram cerca do ano 400 às margens do Eufrates e o seu mentor foi Santo Alexandre. Eram assim chamados não porque não dormissem ou deitassem, mas porque se revezavam em grupos dia e noite em vigília no cenóbio, prestando louvor ao Senhor em adoração perpétua. Entre os "hereges da vida monástica", no dizer de Llorca, contam-se os sarabaítas que se entregavam à prática de excentricidades no Egito; os remoboth, iluminados ou quietistas, que ostentavam pretensa santidade para gozarem do favor popular; os giróvagos que vagavam de um lugar para outro sob o pretexto de maior santidade ou proveito para o próximo e eram avessos à leitura e, por fim, os pabulatores que propalavam alimentar-se de ervas e raízes e vagabundeavam sem regra.

18. - Nos meados do século IV, o monaquismo foi introduzido no Ocidente que teve, portanto, centros de vida monástica, solitária e cenobítica, antes de São Bento. Ao ser desterrado para o Ocidente, Santo Atanásio, que conhecia e prezava as colônias de solitários do Egito, levou em sua companhia os monges Isidoro e Amônio e, assim, o monaquismo foi introduzido na Itália. São Paulino de Nola, falecido em 341, e Santo Eusébio de Vercelli, que morreu em 371, fundaram os primeiros ascetérios ocidentais. São Jerônimo passou alguns anos entre os ermitãos da Tebaida e, ao chegar em Roma em 382, passou a difundir o ideal eremítico. Com a sua discípula Santa Paula fundou em Belém um duplo mosteiro, um para homens, e outro para mulheres. O seu êmulo, Rufino de Aquiléia, junto com Melânia fundou, também na Palestina, um duplo mosteiro. Dos escritos de São Jerônimo extraiu-se um conjunto de normas para a vida monástica que se chamou de Regra de São Jerônimo e deu impulso às ordens jeronimianas.

19. Santo Agostinho, feito sacerdote em 391, estabeleceu em Hipona uma casa religiosa, misto de mosteiro e seminário e, quando bispo, fez da sua residência um verdadeiro cenóbio. Organizou a vida monástica e a sua Regra serviu de base para muitas ordens religiosas. Essa Regra é a Epístola 211, dirigida a religiosas, e a Regra para os servos de Deus, em 12 capítulos, em que o santo bispo propõe princípios para a vida comunitária de homens. Ela foi depois seguida pelos Cônegos Regulares, adotada no século XII velos Premonstratenses, no século XIII pelos Dominicanos, Mercedários e Servitas e, mais tarde, pelos Irmãos de São João de Deus, etc.

20. São Martinho de Tours fundou, cerca de 360, o primeiro mosteiro da França no Ligugé, perto de Poitiers e, depois de ser feito bispo, o célebre mosteiro de Marmoutier. Não escreveu nenhuma Regra. Relevo especial merece Santo Honorato que fundou, pelo ano de 405, numa das ilhas de Lerins, perto de Cannes (hoje região balneária e turística), um centro de eremitas que transformou num célebre mosteiro, foco irradiador de cultura religiosa nos séculos seguintes e onde brilharam Hilário de Arles, Euquério de Lyon, Lobo de Troyes, Cesário de Arles, Salviano, Máximo e São Vicente de Lerins. O segundo fundador monástico da Gália também não escreveu nenhuma Regra. João Cassiano, que morreu em 435, passou alguns anos no Oriente sob a orientação de mestres anacoretas e cenobitas e fundou depois em Marselha o famoso mosteiro de São Vítor. Da sua convivência com os Padres do deserto trouxe máximas, casos e experiências que enfeixou em duas obras preciosas para a vida monástica, as Instituições Cenobíticas e as Conferências (Collationes), que influenciaram as Regras compostas na Gália, na Itália e na Espanha e constituem obras clássicas da espiritualidade monacal. O primeiro legislador monástico da Gália foi São Cesário de Arles (470 ou 471 - 27-8-542 ou 543) que escreveu duas Regras no século V: a Regula monachorum e a Regula sanctarum virginum, tendo utilizado as obras de Santo Agostinho e de Cassiano.

21. O primeiro apóstolo da Irlanda foi São Patrício que recebeu formação religiosa na escola do mosteiro de São Martinho de Tours em Marmoutier e entre os monges de Lerins. De volta à sua pátria, a Irlanda, desde 432 dedicou-se à pregação da fé cristã e fundou mosteiros entre os quais se destacou o de Armagh. Em meados do século VI erigiu-se o grande mosteiro de Bangor que chegou a contar 3.000 homens. Parece que São Patrício não deixou Regra escrita. Pode dizer-se que a Irlanda foi cristianizada e civilizada exclusivamente pelos monges e até hoje é a Ilha dos Santos, embora os atuais sejam um tanto violentos. O espírito apostólico dos monges irlandeses levou-os em caravanas evangélicas a missionar a Inglaterra e várias regiões do continente europeu. O representante mais completo do monaquismo irlandês foi São Columbano, que nasceu entre 525 e 543 e morreu a 23 de novembro de 615. Depois de ter passado pelos mosteiros de Cluain-Inis e de Bangor, fugiu para o continente a fim de escapar ao assédio das mulheres e veio a enlaçar o monaquismo irlandês com o do centro da Europa. Juntamente com os seus doze companheiros, que carregavam em sacos de peles os seus preciosos livros litúrgicos e os seus manuscritos, fundou os mosteiros de Annegray, Luxeuil e Fontaines e, em 610, o mosteiro de Bobbio, entre Milão e Gênova, que veio a enriquecer-se de volumes, pergaminhos e códigos. São Columbano celebrizou-se pelas virtudes, profecias, milagres, pelo gênio autoritário, e, por que não dizer, meio atrabiliário, e pela força hercúlea. Fato importante é que, ao fundar o mosteiro de Luxeuil, iniciou uma nova atividade, a de instruir os filhos dos nobres, ao mesmo tempo que evangelizava o povo e lhe ensinava os trabalhos do campo [126].

22. Na Espanha, onde nunca chegou o apostolado dos monges irlandeses, já existia vida monástica no fim do século IV, que floresceu no reino visigótico sob a proteção de São Leandro, falecido em 600, e do seu irmão Santo Isidoro, que morreu em 630, fundadores de mosteiros e o segundo deles, autor da Regra dos monges. A Regra mais influente, porém, foi composta por São Frutuoso, bispo de Braga, para os mosteiros da região galega. Além da Regra dos monges, ele redigiu a Regra Comum para os mosteiros duplos. Durante uns duzentos anos, e até mesmo depois de iniciado o domínio muçulmano, não se introduziu na Espanha nenhuma Regra estrangeira.

23. São Bento de Núrsia fundou a grande ordem religiosa que se tornou a ordem monástica por antonomásia do Ocidente, e a sua Regra absorveu ou eliminou as outras. São Bento nasceu cerca de 480 em Núrsia na Ombria, estudou em Roma, abandonou os estudos e viveu solitário na gruta de Subiaco. Dirigiu, a pedido, um mosteiro em Vicóvaro e, com os seus discípulos Mauro e Plácido, fundou o mosteiro lendário, a célula-máter da Ordem Beneditina, no cume do Monte Cassino, entre Roma e Nápoles, em 529, no mesmo ano em que Justiniano fechou as escolas de Atenas. Sublime coincidência: cessava a função docente da escola pagã e principiava a atividade educacional da escola cristã! São Bento dirigiu-se, provavelmente já ordenado sacerdote, a Cassino, para debelar o paganismo que ali vicejava, e construiu o seu mosteiro em torno do templo dedicado a Júpiter e a Apoio, que ele transformou em igreja do Deus vivo, consagrando-a a São Martinho de Tours e estabelecendo um oratório em honra de São João Batista, o precursor da vida monástica. No prólogo da sua Regra, inscreve São Bento a característica essencial da sua Ordem: "Devemos constituir uma escola de serviço do Senhor" [127]. Escola era, então, qualquer associação com finalidade educacional, militar, coral ou palaciana. São Bento frisa que a sua ordem monástica deve ser uma escola do serviço do Senhor. Por isso, ele se apresenta espontaneamente, no início do prólogo da Regra como pai e mestre, e os seus monges, desde os primórdios da Ordem Beneditina, começaram também a ser pais e mestres da juventude estudiosa [128]. A irmã de São Bento, Santa Escolástica, fundou o ramo feminino da Ordem Beneditina, e os seus mosteiros foram as escolas femininas da Idade Média.

24. São Bento exigiu dos monges a stabilitas loci, a estabilidade no lugar, isto é, a permanência num determinado mosteiro, e apontou como finalidade essencial da Ordem o Opus Dei, o canto do louvor divino. Uma vez que a Ordem no início se compunha principalmente de irmãos leigos, havendo poucos sacerdotes só para celebrar a santa Missa e administrar os santos sacramentos e sabendo que a ociosidade é inimiga da alma, São Bento prescreve, no capítulo 48 da Regra, o preceito do trabalho manual e intelectual: "A ociosidade é inimiga da alma; por isso, em certas horas devem ocuparse os irmãos com o trabalho manual e, em outras horas, com a leitura espiritual." Desse modo, conjugaram-se na Ordem Beneditina o Opus Dei com o trabalho, ora et labora. O cardeal Schuster observa que os antigos romanos consideravam o trabalho como um suplício para escravos, e os bárbaros desprezavam-no como ocupação inconveniente a um povo de guerreiros, enquanto São Bento o sublimou à dignidade de religião [129], e Benedicto Tapia de Renedo, O.S.B., faz ver que São Bento, com a regulamentação preceptiva do trabalho, iniciou uma verdadeira revolução pacífica, econômica e moral, que se desenvolveu plenamente no decurso dos séculos, graças ao labor estrênuo dos seus filhos que se tornaram pais de povos e forjadores de cristandades [130]. Já no século VI começou a epopéia missionária beneditina, quando o papa beneditino São Gregório Magno enviou Santo Agostinho e mais 39 monges para a conquista espiritual da Inglaterra. Os mosteiros de São Columbano, por sua vez, acabaram por adotara Regra de São Bento, e os próprios monges beneditinos assimilaram o apreço dos monges irlandeses pelos estudos, assim como a orientação cultural de Cassiodoro que fez do Mosteiro de Vivarium, segundo Schnürer, mais um centro de cultura literária do que uma comunidade de ascetas devotados à oração e à penitência [131].

25. Podemos agora acrescentar mais um esclarecimento sobre outras idéias errôneas a respeito da vida monástica. Pensam alguns que os monges seriam pessoas frustradas que procuram a solidão dos mosteiros, devido às desilusões amorosas ou ao desprezo dos seus semelhantes ou até mesmo em busca de uma vida tranqüila. Pode haver, com efeito, alguns casos particulares desses tipos. Mas os monges são pessoas que fizeram e fazem livremente a sua opção pela "vida silenciosa" e penitente, por amor de Deus que transborda na caridade para com o próximo. Não servem para os mosteiros as criaturas frustradas, e eles não são um recanto de sombra e água fresca, pois a vida retirada e mortificante é rigorosa e exigente, é uma austera escola do serviço do Senhor.

26. Desde o fim do mundo antigo e o início da Idade Média, por conseguinte, os monges concorreram para a transmissão do legado cultural antigo aos povos germânicos das cristandades medievais. De um lado, foram os principais propagandistas da religião cristã na Europa, tendo evangelizado os anglo-saxões, os teutões, os escandinavos, os eslavos e os húngaros. Por outro lado, transmitiram-lhes, também, as obras literárias e as concepções filosóficas e educacionais dos romanos, especificamente através do benfazejo labor dos copistas que asseguraram a preservação dos livros antigos. Além disso, os monges difundiram, através da Europa medieval, as técnicas do arroteamento e cultivo do solo, de drenagem dos pântanos, da exploração agrícola e da criação de animais, a arte da construção, da medicina e da administração contábil, sobre terem promovido as belas artes, e máxime as atividades do ensino, área em que se agigantaram, ao tecerem uma rede notável de escolas através da Europa. Consagraram-se, outrossim, ao tratamento dos doentes e à assistência aos peregrinos e viajantes, tendo exercido o dever da hospitalidade, por recomendação da Regra. No entanto, apesar de todos esses benefícios de ordem cultural prestados à civilização européia, o objetivo do monge sempre foi e continua a ser sobrenatural. Como ensinou com ponderação e clarividência o sábio Cassiano: "Convém que exerçamos as coisas acessórias ou acidentais (sequentia), tal como os jejuns, a anacorese, a meditação das Escrituras (e poder-se-ia acrescentar, a cópia dos manuscritos, as obras de assistência social, as escolas, etc.) tendo em mira o fim principal, a saber, a pureza do coração que nada mais é que a caridade... pela qual todo o resto deve ser observado" [132].

27. Desde os primeiros dias da sua solidão, São Bento foi procurado pelos patrícios de Roma e pelos habitantes da redondeza, para lhes educar os filhos. Por isso, a atividade educacional vem desde a origem da Ordem Beneditina como uma das suas características acidentais e por uma disposição da Providência divina. Em todo mosteiro passou a existir, ao lado da escola interna em que estudavam os monges, uma escola externa franqueadà a todos os interessados e onde se aprendia a ler, escrever, contar e a cantar, e na qual, aos poucos, veio a organizar-se o ensino completo das artes liberais e da própria filosofia, tanto quanto ela podia servir ao ideal monástico da formação e, assim, a Ordem de São Bento foi a educadora da Europa.