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1. Na Introdução deste livro tivemos a oportunidade
de examinar alguns dos preconceitos a respeito da Idade
Média, mas foram apenas alguns e dos mais vulgares, e
com o que dissemos procuramos deixar o leitor atento a
outros dislates que correm mundo afora sobre assuntos do
período medieval. Ao começarmos agora a tratar das
escolas, do século V ao século XII, podemos
analisar uma das concepções errôneas divulgadas quanto
à educação medieval. Assim, Arnould Clausse cita um
outro Clausse, Roger, autor da obra Critique
matérialiste de l'éducation, e endossa-lhe o parecer
de que em Roma sob a República se pretendia formar
cidadãos romanos; sob o Império, funcionários,
enquanto a Idade Média tinha concepções ascéticas e a
Renascença, intenções liberais e humanas [133].
Note-se a disparidade das proporções: Roma, nos
períodos republicano e imperial, quer formar determinados
tipos humanos, o cidadão ou o funcionário público, ao
passo que a Idade Média tem concepções ascéticas e a
Renascença, intenções liberais e humanas. Deixemos
de lado as intenções liberais e humanas renascentistas,
por escaparem ao âmbito do nosso estudo atual, e
atenhamo-nos à Idade Média. Primeiro, cumpre
observar que seria o caso, após a citação dos ideais
pedagógicos de Roma, de se procurar determinar o tipo
humano que no período medieval se procurou formar em
diferentes épocas. Depois, pode asseverar-se que, se
a Idade Média teve concepções ascéticas, teve
também concepções filosóficas, tecnológicas,
jurídicas, políticas e educacionais e por isso a
sentença de Clausse é claudicante e estapafúrdia,
pois, do ponto de vista educacional, não fica bem claro
o que ele pretende dizer ou inculcar. Acresce que também
se pode afirmar da Renascença e dos séculos XVII,
XVIII, XIX e XX que tiveram e têm concepções
ascéticas. Algumas linhas após o asserto discutível,
Clausse passa a afirmar que, para formar clérigos, "a
Idade Média inscreverá à cabeça das suas hierarquias
axiológicas o desprezo dos bens terrestres e imaginará
uma cultura que se procurará pelos caminhos puramente
espirituais da Teologia" [134]. Tem-se a impressão
de que Arnould Clausse imaginou caracterizar muito bem o
espírito medieval, mas a sua expressão, com efeito,
parece-nos infeliz, máxime numa obra pedagógica.
Antes de tudo, é preciso ter em mente que o desprezo dos
bens terrestres, em comparação dos bens espirituais e
eternos, é um dos ensinamentos cristãos, admitidos e
válidos no fim do mundo antigo, durante a Idade
Média, na Renascença, nos séculos posteriores, nos
dias de hoje, e assim será até ao fim do mundo. Por
conseguinte, "o desprezo dos bens terrestres"
inscreve-se à cabeça das hierarquias axiológicas" dos
cristãos autênticos em qualquer tempo. Poder-se-ia,
então, afirmar, sob reservas, que a Idade Média fez
tal "inscrição" por ter sido um período histórico
profundamente cristão, embora o ensinamento evangélico
quanto à fugacidade das riquezas continue atual.
Dissemos que se poderia repetir a afirmação de Clausse
com reservas, pois ainda na primeira fase da Idade
Média não parece que os cavaleiros e os nobres, por
exemplo, tenham sempre inscrito o desprezo dós bens
terrestres à testa das suas valorizações existenciais.
A partir do século XII, então, o asserto cabe ainda
menos ao mundo medieval, quando se pensa nos
comerciantes, nos banqueiros, nos burgueses, nos
juristas e médicos que pensavam em enriquecer cada vez
mais. De tudo isso se colhe que é preciso ter cautela,
quando se procura caracterizar o espírito de uma época,
o caráter de um povo ou mesmo os ideais pedagógicos de
certo período histórico.
2. Pode asseverar-se que durante todas as fases da
Idade Média perdurou o ideal clássico quanto à
formação da personalidade devendo observar-se,
contudo, que acima desse objetivo natural impunha-se
sobranceiro o propósito de se plasmar o perfeito
cristão, o discípulo de Jesus Cristo que procura a
felicidade eterna através da crença no Evangelho, da
prática dos mandamentos, da aquisição das virtudes,
das mortificações, enfim, por meio do constante aumento
da vida em estado de graça, da vida sobrenatural iniciada
com o batismo. Esse era, e ainda é, o supremo objetivo
educacional do povo cristão. Do ponto de vista
pedagógico, como vimos em nosso livro História da
Educação na Antigüidade Cristã, Santo Agostinho
legou aos educadores medievais os princípios pelos quais
eles se pautaram quanto à orientação dos estudos: os
jovens devem dedicar-se ao aprendizado das artes liberais
e mecânicas e à filosofia, a fim de aproveitarem ainda
mais no estudo da Sagrada Escritura que ensina o que é
preciso saber e praticar para alcançar a vida eterna e
feliz [135]. Além desse objetivo educacional básico,
colimaram-se na Idade Média vários ideais
pedagógicos. Assim, como vimos no capítulo anterior,
o ideal da vida monástica. Os cavaleiros, por sua vez,
recebiam um tipo especial de educação, como ainda iremos
ver, e na qual se dava ênfase aos valores peculiares à
vida do guerreiro, isto é, à habilidade no manejo das
armas, à educação física, à coragem, à
fidelidade, etc. A partir do século XII, surgiram
as escolas das corporações de ofícios, com objetivos
preciso e técnicos, e no século XIII organizaram-se
os universidades com propósitos específicos. Portanto,
durante a Idade Média, além das metas educacionais
básicas e permanentes, houve ideais pedagógicos
variáveis, conforme as épocas, as instituições e a
situação histórica de um povo, tal como a Veneza
mercantil no século XI e seguintes, tão diferente da
Inglaterra ou da própria França na mesma época.
Aliás, esse panorama de constância e de relatividade
educativa no período medieval é um prospecto da
situação educacional noutros períodos históricos, uma
vez que, ao lado de objetivos e valores permanentes e
fundamentais de formação humana, erigem-se os ideais
relativos às instituições e à situação social de um
povo ou de uma comunidade.
3. No mundo ocidental a organização escolar
principiou, ao que tudo indica, na Grécia macedônica,
em Alexandria e em Pérgamo. Segundo informação dada
por Leach, um Mimo de Herondas, o Mestre, descreve
pela primeira vez uma escola por volta do ano 250
a.C. Em Roma, a escola surgiu sob a influência grega
cerca de 260 a.C. ou por volta de 204 a.C.,
segundo Suetônio. A primeira data é indicada por
Plutarco e foi, então, diz ele, que se estabeleceram
as primeiras escolas de Roma graças a Spurius Carvilius
junto com o seu liberto grego. Suetônio, porém,
atribui a existência das primeiras escolas em 204
a.C. a Lívio Andrônico e a Ênio, o primeiro poeta
romano e ambos, gregos libertos, e a Crates de Malos,
embaixador grego de Pérgamo em 157 a.C. A
organização do ensino público, no entanto, foi
criação dos romanos. De acordo com Ozanam, a cultura
universal da Romanitas - eloqüente barbarismo cunhado
por Tertuliano - estendeu-se da Grã-Bretanha às
extremidades da Hungria, e o centro desse círculo
cultural veio a ser a nova potência do ensino público,
desconhecida nas idades anteriores. O Egito, diz
Ozanam, tinha as suas iniciações rodeadas de
mistérios. Em Atenas a instrução literária estava
entregue à dedicação e à cupidez dos sábios, mas na
Itália, país de disciplina, o ensino tornou-se uma
magistratura, agraciada com imunidades e privilégios
[136].
4. Vimos, em capítulo anterior, como a organização
do ensino público romano se desmantelou após as invasões
dos bárbaros, embora o declínio fosse gradual e o
cultivo das letras não desaparecesse completamente,
pois, apesar das invasões germânicas, as escolas
continuaram a existir. São Sidônio Apolinário, pai
de família, nascido em 431 ou 432 em Lião na
Gália, foi professor de gramática, funcionário
imperial, poeta e bispo, e escreveu duas cartas aos
professores das escolas de retórica de Vienne e
Périgueux. O seu epistolário proporciona excelentes
observações sobre os usos e costumes romanos e bárbaros
da sociedade galo-romana do século V. Já o poeta
latino Sedúlio lecionou filosofia na Itália na metade
do século V e o poeta Dracdncio foi professor de
retórica no fim do mesmo século. O estudo dos autores
clássicos prosseguiu durante o reinado de Teodorico, o
Ostrogodo, e Enódio, natural da Gália, bispo de
Ticinum (Pavia), em 513-521, testemunha a
existência de escolas de gramática e refere-se à escola
de Deutério em Milão. Fato comprobatório da
existência de escolas de gramática é a composição em
Constantinopla, no primeiro quartel do século VI, da
principal gramática latina, a de Prisciano, que
perdurou em mil manuscritos medievais [137]. Na mesma
época destacou-se Virgílio Maro, gramático em
Toulouse na Gália, enquanto Cassiodoro testifica o
cuidado oficial com as escolas de gramática na Itália
[138]. Por volta de 570, Venâncio Fortunato,
nascido em Treviso e estabelecido em Tours, escreveu a
biografia de São Martinho de Tours em versos onde conta
como ele foi educado em escolas de gramática e de
retórica. Essa época, todavia, era de transição e
de mudança, pois os estabelecimentos escolares
importantes ou eficientes eram cada vez mais raros e, à
medida que as instituições oficiais desapareciam,
estavam a surgir, entre o fim do século IV e o começo
do século V, as escolas paroquiais, sob administração
exclusivamente eclesiástica. Aliás, antes mesmo da
dasagregação do Império Romano, o ensino oficial
entrara em declínio. Assim, no fim do século IV,
Santo Agostinho, jovem professor, experimentou as
agruras do magistério em Roma e que ele diz não ter
conhecido na África, pois os estudantes se mancomunavam
para abandonar, de repente, as aulas, passando para
outro professor, a fim de não pagarem o devido salário
aos mestres, e desse modo eles faltavam aos compromissos e
desprezavam a justiça por amor ao dinheiro [139].
5. Segundo o Direito Canônico, a paróquia é uma
parte territorial da diocese com a sua igreja própria,
com a sua determinada população e com o seu competente
pastor incumbido da cura das almas [140]. De início,
as paroikiai confundiam-se com as dioceses governadas
pelos bispos. Aos poucos, as comunidades dividiram-se
em muitas igrejas nas grandes cidades e, a partir do
século III, havia igrejas também na zona rural,
continuando o bispo como o superior de todas as igrejas.
Os fiéis de uma cidade formavam uma paróquia e muitas
paróquias constituíam uma eparquia, província
eclesiástica governada pelo bispo, o metropolita, e que
coincidia com os limites do Império romano. O nome de
paróquia é muito sugestivo, pois os cristãos nas suas
comunidades consideravam-se estrangeiros e peregrinos na
terra, e o termo paroikia significa, de fato, estada ou
permanência em país estrangeiro.
6. Para bem entender a questão das escolas medievais,
é preciso saber que o clero se dividia, como ainda hoje,
em secular e regular. O clero secular ou diocesano é
constituído pelos sacerdotes que só prestam a Deus o
voto de castidade, podendo dispor dos próprios bens, e
sem se vincularem ao seu superior, o bispo, por voto de
obediência. Eles constituem o manípulo oficial dos
obreiros eclesiásticos, servem ao bispo de uma diocese
com quem assumem um compromisso de submissão, ao fazerem
o juramento de obediência, e por viverem a serviço do
povo de Deus nas paróquias, no borborinho do mundo,
saeculum, são chamados de padres
seculares. O clero
regular é como um corpo auxiliar da tropa oficial, do
ponto de vista administrativo. Ele abrange as ordens e
congregações cujos membros levam a vida em comum, sob a
orientação de um superior, prestam a Deus os três
votos de pobreza, castidade e obediência, e vivem de
acordo com a regra da sua corporação (regula. Donde,
clero regular).
7. A medida que as escolas oficiais e a dos mestres
particulares, literatores, foram desaparecendo, a
Igreja tomou providências quanto à formação dos
candidatos ao sacerdócio, a fim de lhes assegurar a
instrução mínima necessária ao desempenho do
ministério sacerdotal. O nível elementar desse ensino
era representado pelas escolas paroquiais e o superior,
pelas episcopais. A escola paroquial funcionava na igreja
matriz da paróquia ou na casa paroquial, e a escola
episcopal alojava-se na igreja catedral ou na residência
do bispo. Aliás, desde os primórdios da Igreja, no
período patrístico, os bispos tratavam de formar ao seu
lado os colaboradores do seu ministério pastoral, assim
como os concílios e os sínodos orientais e ocidentais
foram legislando a respeito dos requisitos para a
ordenação sacerdotal e para a imposição dos
ministérios. Por conseguinte, as escolas paroquiais e
as episcopais foram instituídas para a formação do
clero. No entanto, devido ao desaparecimento das escolas
públicas e à falta ou à raridade das particulares,
nelas também estudavam alunos que não se dedicariam mais
tarde ao sacerdócio e que, a certa altura dos estudos,
resolviam constituir família. Dispomos, a respeito
dessas escolas, de várias determinações provenientes
dos concílios durante os séculos medievais.
Evidentemente, muitas vezes as excelentes recomendações
e os oportunos decretos conciliares quanto às escolas
ficavam sem execução, tal como ocorre com as leis em
todas as épocas e em todas as nações e quando os planos
não passam mesmo de belos projetos. Todavia, através
das biografias de personagens desses vários séculos,
pode perceber-se como em muitas regiões esses decretos
foram executados e como, desse modo, se beneficiou a
educação nas cidades e nos campos.
8. Nos Estatutos do Concílio de Hipona, de 461,
deparamos com um cânon no qual se determina que os
clérigos não sejam ordenados sacerdotes e as virgens não
sejam consagradas antes dos 25 anos e que os clérigos
recebam instrução desde a infância com o objetivo de
professarem e difundirem a fé [141]. A 5 de novembro
de 529 - outra notável coincidência! O ano do
fechamento das escolas de Atenas por Justiniano e da
fundação da Ordem Beneditina - reuniu-se o concílio
de Vaison, concilium Vasense, convocado por São
Cesário de Arles. Nesse concílio de onze bispos junto
com o seu metropolita, foram decretados cinco cânones.
O primeiro trata da educação dos futuros clérigos e
assim reza: "Nas paróquias, todos os padres devem,
secundum consuetudinem quam per totam Italiam satis
salubrier teneri cognoscemus, segundo o salutar costume
que sabemos ter sido instaurado em toda a Itália,
acolher em suas casas os jovens leitores não casados, a
fim de instruí-los no canto dos salmos, nas lições
teológicas e na lei do Senhor, para que desse modo
preparem para si próprios dignos sucessores. Todavia,
se mais tarde o leitor quiser casar-se, não se lhe
deverá recusar a permissão" [142]. Esse cânon é
rico de informações. Note-se, primeiramente, que os
bispos do Concílio de Vaison se louvaram no costume
estabelecido em toda a Itália. Por conseguinte, eles
cuidaram de adotar na Gália uma instituição educacional
que já dera sobejas provas das suas vantagens, salubriter
teneri cognoscemus. Em segundo lugar, os párocos
deveriam ensinar aos jovens estudantes o canto dos salmos,
as verdades da fé e os mandamentos da Lei de Deus. É
claro que o aprendizado dos salmos e da doutrina religiosa
implicava o conhecimento dos rudimentos da leitura e da
escrita, mas o conteúdo do programa era de interesse
puramente eclesiástico. Por fim, no concílio de
Vaison ficou estabelecido que os estudantes, ao atingirem
a idade adulta, podiam renunciar ao sacerdócio e
constituir família pro carnis fragilitate, devido à
fragilidade carnal. A implantação das escolas
paroquiais na Gália representou progresso e vantagem para
o povo cristão, já que resolvia de modo prático a
maneira de instruir os futuros clérigos desde a
infância, conforme a determinação quanto aos estudos
clericais feita no cânon 45 dos Antigos Estatutos da
Igreja, à volta do ano 475 [143]. Parece-nos que
o "costume" das escolas paroquiais difundiu-se na
Itália em resposta à exigência do papa São Gelásio
I aos bispos da Lucânia, em 405, de não se admitir
a serviço da Igreja analfabetos, ignorantes ou aleijados
[144].
9. No século seguinte, em 527 ou em 531,
assistimos à criação de um verdadeiro seminário na
Espanha, por determinação do lI Concílio de Toledo
presidido por Montano, o metropolita toletano, assistido
por sete bispos espanhóis: Nebrídio de Egara, Justo
de Urgel, Pangário, Canônio, Paulo, Domiciano e
Maracino. A primeira decisão conciliar diz respeito à
educação dos candidatos ao sacerdócio e determina:
"Aqueles que, desde a infância, foram destinados por
seus pais ao estudo eclesiástico, logo depois de terem
recebido a tonsura ou o ministério de leitor, devem ser
educados por um preposto numa residência da igreja, sob a
vigilância pessoal do bispo. Quando completarem dezoito
anos, o bispo lhes perguntará, perante o clero e o
povo, se querem casar. Se eles escolherem, por
inspiração divina e com a graça da castidade, o estado
da continência e jurarem conservá-la, submeter-se-ão
ao jugo leve do Senhor, serão ordenados subdiáconos com
20 anos e diáconos aos vinte e cinco". Reza, ainda,
o cânon que, se após o casamento e em idade mais
avançada, com o consentimento da esposa, fizerem o voto
de continência, poderão ser admitidos às ordens sacras
[145].
10. No ano 666, no pontificado do papa Vitalino,
reuniu-se o concílio de Mérida, Concilium
Emeritense. O cânon XVIII dirige-se diretamente
aos párocos, lembrando-lhes que devem acatar as
decisões da Igreja e que, por estarem preocupados com o
recrutamento de clérigos que lhes servissem de
coadjutores, o santo sínodo havia resolvido que todos os
párocos, parochitani presbyteri, escolhessem na
localidade os clérigos que passariam a viver na sua igreja
e os educassem com toda a boa vontade, de tal modo que
pudessem cumprir dignamente o santo ministério e
dispusessem das habilidades imprescindíveis ao serviço
paroquial. Os párocos deveriam, ainda, proporcionar
aos clérigos comida e roupa e se, porventura, algum
pároco não viesse a cumprir com a sua obrigação, o
bispo deveria chamá-lo às contas e corrigi-lo [146].
11. No fim do século VIII, Teodulfo, bispo de
Orleães, transmitiu aos sacerdotes da sua diocese
várias capitulares com ordenações pastorais e, na
décima, estatuía que os presbíteros instaurassem
escolas no campo e na cidade, per villas et vicos e, se
algum fiel lhes confiasse os filhos para aprenderem as
letras, eles os deveriam receber e instruir com a máxima
caridade, sem exigir dos pais nenhum pagamento, exceto se
estes quisessem fazer alguma contribuição espontânea
[147]. Esse texto de Teodulfo é deveras precioso, uma
vez que não alude à formação dos clérigos, à
preparação de candidatos ao sacerdócio, mas contém
prescrições aos párocos, para que fundem escolas
gratuitas de primeiras letras onde dispensem o ensino a
quem o desejar, cum summa charitate. E muito importante
ressaltar que esse decreto episcopal inscreve-se no quadro
da reforma educacional do período carolíngio, quando se
promoveu com empenho a criação de escolas públicas e a
renovação dos estudos. Essas scholae publicae seriam,
de fato, apenas algumas escolas para clérigos, onde
outras crianças ou adolescentes também poderiam estudar,
pois Carlos Magno e os seus sucessores legislaram sobre a
educação através dos bispos e dos abades, numa época
tão conturbada por guerras e invasões, num regime
político onde os senhores se envolviam em contínuas
querelas, numa situação econômica que para as
populações do Ocidente raiava pela penúria e numa
sociedade que não comportava vida cultural intensa nem
escolas públicas como hoje as entendemos e possuímos.
12. Em 817, nas célebres dietas sinodais de
Aix-la-Chapelle, Luís, o Piedoso, promoveu a
grande reforma no Estado e na Igreja, dividiu o império
entre os seus três filhos Lotário, Luís e Pepino e
promulgou o principal decreto da reforma eclesiástica, a
regra dos cônegos e das religiosas: De institutione
canonicorum e
De institutione sanctimonialium. Entre as
Regras do primeiro livro consta no capítulo 135 que os
meninos e os jovens educados na residência dos cônegos
deveriam ser vigiados, instruídos e confiados à guarda
de um cônego idoso e prudente e habitariam juntos num
edifício do atrium [148]. Por conseguinte,
ministrava-se educação a crianças e a adolescentes não
só nas paróquias isoladas dos campos como, também, nas
casas dos cônegos nas cidades, sabendo-se que estes eram
sacerdotes seculares a serviço do bispo de uma diocese,
que viviam em comum, tendo individualmente as próprias
atribuições pastorais. Os estatutos de
Aix-la-Chapelle referentes à vida canônica foram
inspirados pela Regra que São Crodegango dera aos
sacerdotes de Metz e de que falaremos adiante.
13. A Igreja Católica continuou a assumir nos
séculos seguintes a tarefa de ministrar o ensino
público e gratuito nas paróquias urbanas e rurais. Como
diz o insuspeito Durkheim, a Igreja tornou-se a única
educadora daqueles tempos naturalmente, sem premeditação
nem ambições, pois era a única instituição que, de
fato, tinha condições e meios para educar e instruir
[149]. O cânon 18 do XI Concílio Ecumênico, o
III de Latrão, em 1179, no pontificado de
Alexandre III, prescreveu que em toda catedral se
instituiria um benefício que permitisse custear os estudos
dos clérigos e dos escolares pobres que não deviam ser
privados de instrução devido à falta de recursos dos
pais [150]. Essa prescrição foi renovada pelo cânon
11 do XII Concílio Ecumênico, Quarto de
Latrão, no pontificado de Inocêncio III, onde se
declara a renovação do cânon 18 do XI Concilio
Ecumênico, para que se outorgue ensino gratuito aos
clérigos da catedral e a outros estudantes pobres,
aliosque scholares pauperes. Esse Concílio Ecumênico
de 1215 prescreveu que qualquer igreja, além da
catedral, com recursos suficientes, sustentasse um.
professor de gramática e que a igreja metropolitana
mantivesse um teólogo, a fim de ensinar aos padres e a
outros a Sagrada Escritura e o cuidado das almas [151].
Com essas referências aos concílios lateranenses dos
séculos XI e XII só quisemos ressaltar o princípio
da gratuidade do ensino aos estudantes pobres, tão
defendido por Teodulfo de Orleães no século VIII.
14. Outro tipo de escola na Idade Média foi a
episcopal ou catedralícia (por ficar instalada em
dependências da catedral) ou canônica (por ser dirigida
pelos cônegos que serviam à catedral). Desde os tempos
apostólicos, os bispos deviam com certeza tratar da
formação do clero, e durante o período patrístico eles
se valeram das escolas catequéticas para tal objetivo,
embora eles próprios tomassem a peito a educação dos
clérigos e os formassem no seu convívio diuturno. Uma
vez que os bispos residiam na sede urbana da diocese, os
-clérigos recebiam a sua formação na residência
episcopal. Na primeira fase da Idade Média, que
estamos a considerar, as escolas episcopais não tiveram
ressonância social e só lidavam com a educação
clerical, uma vez que o eixo da vida estava no campo, na
órbita do castelo e do mosteiro [152]. Desde o
renascimento do século XII, no entanto, com a
renovação e o desenvolvimento da vida urbana, as escolas
monásticas entraram a declinar, enquanto as episcopais
assumiram a liderança do ensino e foram as bases das
faculdades de artes e teologia no século XIII.
15. Parece-nos que a regularização da escola
episcopal ou o estabelecimento orgânico da formação dos
presbíteros remonta a Santo Eusébio de Vercelli,
bispo e fundador monástico que nasceu na Sardenha no
início do século IV e morreu em Vercelli a 1 de
agosto de 371, tendo sido nomeado bispo desta cidade em
344. Santo Eusébio organizou a vida comunitária
para o seu clero e é considerado o fundador dos cônegos
regulares. Entre os Antigos Estatutos da Igreja, à
volta do ano 475, ordenava-se o exame do candidato ao
episcopado e que se verificasse se era instruído,
litteratus, se conhecia a Lei de Deus e a Sagrada
Escritura. Um dos cânones prescreve que o bispo se
abstenha da leitura de livros pagãos e só perlustre os
heréticos durante algum tempo e por necessidade. Logo,
em seguida, se estatui que os clérigos recebam a devida
instrução, artificiola et litteras discant [153].
Conta Posídio que Santo Agostinho, quando bispo,
educava os clérigos na sua residência, onde eram
instruídos e recebiam alimentação e roupa [154]. No
século VIII, São Crodegango, bispo de Metz,
regulou a vida comum e canônica dos clérigos. Além de
promover a difusão do monaquismo beneditino,
preocupou-se com a formação do clero secular e promulgou
o parvum decretulum, o pequeno códice, isto é, a
Regula Canonicorum inspirada na
Regra de São Bento,
que São Crodegango adaptou às exigências da vida do
clero diocesano. A Regra dos Cônegos tinha
originalmente 34 capítulos, 86 nas redações
posteriores, foi retomada na substância pela Institutio
Canonicorum do Concílio de Aix-la-Chapelle, em
817, e influiu decisivamente na espiritualidade do
clero diocesano latino da Idade Média. O capítulo
48 da Regra original determina as normas para a
direção da escola episcopal onde um cônego se
encarregava da instrução e da formação espiritual dos
meninos e dos adolescentes [155].
16. O Concílio de Orleães, em 511, no reino
franco de Clóvis e no. pontificado do papa Símaco
XIII, recomenda que os sacerdotes diocesanos e os
clérigos convivam com o bispo e lhe escutem as lições,
procurando imitar-lhes as virtudes, a fim de se tornarem
promotores da glória de Deus [156]. No século
seguinte, na Espanha, o IV Concílio de Toledo em
633, pela voz de 62 bispos, declara que a
ignorância é a mãe de todos os erros e deve ser evitada
principalmente nos sacerdotes que têm o dever de instruir
o povo [157]. Esse cânon religa-se naturalmente ao do
II Concílio de Toledo (cf. nota 13 deste
capítulo) que determinou a fundação da escola episcopal
ou seminário, tal como a que Santo Isidoro instaurara
em Sevilha. No Concílio Romano, em 853, no
pontificado de Eugênio lI, os bispos levantam as vozes
em coro para denunciar a falta de professores e de cuidados
para com os estudos nas escolas episcopais de vários
lugares e determinam que se constituam professores e
doutores in universis episcopiis, em todas as escolas
episcopais, para o estudo das letras, das artes liberais
e da doutrina sagrada [158]. Colhe-se desse cânon do
Concílio Romano que as artes liberais constituíam
matéria do currículo das escolas episcopais.
17. Através do Império carolíngio, as escolas
episcopais mais famosas foram as de Tournai, Magúncia,
Reims, Sens, Tréveris, Lyon, Worms, Metz,
Orleães, Laon, Chartres e Paris. Na Espanha foram
as de San Salvador de Oviedo, León, Vich,
Gerona, Barcelona, Palência e Salamanca. Na
Inglaterra brilharam as escolas episcopais de York e de
Cantuária. York foi centro importante da Bretanha
romana, e um bispo de York participou do Concílio de
Arles em 314. As invasões anglo-saxônicas
destruíram a cristandade britânica que foi restaurada
pela missão de Santo Agostinho de Cantuária em
597, por iniciativa do papa São Gregório Magno.
A escola episcopal de York foi criada pelo primeiro bispo
dessa cidade, Paulino, e era escola de gramática e
canto. Deu-lhe novo impulso o arcebispo Egberto,
discípulo de São Beda, o Venerável, que fundou a
escola episcopal com a biblioteca, famosa no século
VIII, e influenciou a educação no império
carolíngio através de Alcuíno, seu ilustre
representante. Essa escola funcionou regularmente até a
conquista normanda, mas a sua biblioteca, que parece ter
sido a maior da Europa ocidental no século VIII, foi
destruída por um incêndio em 1069. A escola
episcopal de Cantuária foi fundada e desenvolvida por
Teodoro natural de Tarso na Cilícia, em 602, e que
sucedeu ao primeiro arcebispo inglês Dêusdedit,
falecido em 664. Por notável coincidência, o
Dêusdedit inglês teve por sucessor o Dêusdedit grego,
uma vez que tal é a tradução latina do nome Teodoro (o
que Deus deu, presente de Deus). Teodoro de Tarso,
com 67 anos, era um erudito grego, instruído nas
letras profanas e sagradas, em filosofia e direito.
Estudara em Atenas e chegou a Cantuária a 27 de maio
de 668 junto com o inglês Bento Biscop e o monge
Adriano, que foi o seu grande colaborador./Segundo o
historiador São Beda, Teodoro difundiu a instrução
propagou o conhecimento da língua e da literatura grega.
Desde aí, a Inglaterra foi morada predileta dos estudos
helênicos numa tradição, que jamais se desmentiu, de
culto aos clássicos da Hélade. A catedral de
Cantuária, até o século XI, foi inteiramente
servida pelo clero secular, tendo São Teodoro morrido
em 690 [159].
18. Em muitas dioceses da Europa, no início e no
decurso da Idade Média, as escolas episcopais foram
dirigidas por comunidades monásticas, ou melhor, os
clérigos seculares formavam-se entre os monges que
assessoravam o bispo, e este lhes proporcionava
instrução, exercício pastoral e bons exemplos. Tal
foi o caso famoso de Santo Agostinho, ainda na
antigüidade, e o de São Martinho de Dume no reino dos
suevos, o futuro Portugal, no começo da Idade Média
[160].
19. As escolas monásticas, que se derramaram pela
Europa na primeira parte da Idade Média, surgiram por
um processo espontâneo no interior dos cenóbios. Os
homens procuravam o mosteiro para se consagrarem
inteiramente a Deus pela imitação de Cristo, através
de uma vida de oração e trabalho. Ora, a prece e a
meditação implicam a leitura, o trato com os livros. O
trabalho intelectual e o manual exprimiram-se de forma
proveitosa na cópia e na reprodução dos manuscritos.
Por conseguinte, os monges deviam saber ler e possuir
instrução. As pessoas instruídas que ingressavam nos
mosteiros iam servir de mestres e formavam discípulos.
Os rudes, ignorantes, recebiam a instrução suficiente
para o cumprimento dos deveres monásticos. Acresce que
os mosteiros, como os da Ordem Beneditina desde a sua
origem, recebiam os pueri oblati, os meninos que lhes
eram ofertados pelos pais para se consagrarem a Deus na
vida monástica. Daí as escolas internas ou
interiores,
dentro do mosteiro, para a instrução dos postulantes,
os candidatos à vida monástica, e dos oblatos. A
medida, entretanto, que meninos e adolescentes eram
confiados aos mosteiros só para receberem instrução,
pois não tinham a intenção de ser monges nem os pais o
pretendiam, eles passavam a freqüentar também as escolas
internas como pensionistas ou para eles, em muitas
regiões, existia um edifício especial ou uma ala do
mosteiro, a schola exterior, fora do perímetro da
clausura, para que o bulício escolar não perturbasse o
silêncio monástico e a paz dos religiosos. Na escola do
mosteiro estudavam-se as sete artes liberais, segundo a
orientação dada por Santo Agostinho no De Doctrina
Christiana, e aplicavam-se os estudantes de modo intenso
à leitura e à meditação da Sagrada Escritura, de
acordo com as prescrições unânimes das Regras, como a
de São Bento, Sto. Isidoro e São Frutuoso. Para
a iniciação gramatical tomavam-se os salmos como texto
de leitura. Aliás, o ensino estava dirigido para o seu
conhecimento, assim como ao de toda a Bíblia. Dom
Jean Leclercq demonstra em sua obra L'Amour des Lettres
et le Désir de Dieu que não existe ratio studiorum
beneditino, mas um programa espiritual - razão pela qual
houve, às vezes, um problema dos estudas monásticos
-, e que a teologia monástica se elaborou com a
meditação da Sagrada Escritura, com o auxílio da
gramática e da retórica que propiciavam excelentes
recursos para a interpretação alegórica e para o alcance
do senso místico das palavras sagradas, sem que os monges
se tivessem valido predominantemente da dialética e da
filosofia, como o fez a teologia escolástica, sobre ser
a teologia dos monges feita em função da vida no
mosteiro, do seu apego ao passado e aos Padres da Igreja
e da própria experiência espiritual [161]. Com
efeito, a filosofia nunca foi o forte da educação
monástica. Antes de tudo, porque na primeira parte da
Idade Média não houve estudo da filosofia propriamente
dita, pois o seu ensino desaparecera ainda no fim do mundo
antigo e, depois, porque os monges não afinavam com o
seu conhecimento, já que o seu desiderato era
estritamente religioso, teológico, ascético e
místico. Aliás, tornou-se vera tradição monástica
entender por filosofia a própria vida monástica, como o
demonstramos em nosso livro Gênese, Significado e
Ensino da Filosofia no Século XII.
20. As legislações monásticas mais antigas
tratavam dos estudos e das escolas que, como dissemos, se
impuseram naturalmente à vida monacal. Conta Posídio
na Vida de Santo Agostinho que este, logo após a
ordenação sacerdotal, começou a viver com os
companheiros segundo o modo e a regra dados pelos santos
apóstolos [162]. Conforme o relato das Confissões
(Lib. VIII, VI, 15), Agostinho visitara um
mosteiro em Milão e outros em Roma e admirara a vida dos
santos homens entregues à oração, ao jejum, à
prática das virtudes em comunidade e ao trabalho manual.
Na sua Segunda Regra, ele prescreve várias horas de
estudo [163]. E na obra De opere monachorum o Bispo de
Hipona impõe aos seus monges o preceito do trabalho
[164]. Na Regula monachorum, composta de trechos
extraídos das obras de São Jerônimo e que serviu de
norma para várias ordens religiosas, podem ler-se muitos
passos com acentos fervorosos a respeito da leitura, do
estudo, da meditação da Bíblia e do manuseio dos
livros pagãos [165]. No mosteiro de Marmoutier,
fundado por São Martinho de Tours no século IV, os
monges mais velhos dedicavam-se à oração, enquanto os
mais jovens associavam às preces os exercícios de
caligrafia e a cópia de manuscritos, trabalho reservado
principalmente aos noviços que ainda não conseguiam rezar
por longo tempo e eram tentados pelo demônio da
preguiça. Depois de ter feito esse apontamento, Bardy
afirma que pela metade do século V não teriam existido
no Ocidente escolas monásticas propriamente ditas e que
os mosteiros recebiam pouquíssimos meninos destinados à
profissão monástica [166]. Essa orientação inicial
do monaquismo do Ocidente quanto à escola interna,
destinada aos candidatos à vida monástica, fora
antecipado pelas diretrizes traçadas por São Basilio,
o grande legislador oriental, a respeito da educação dos
meninos e meninas nos mosteiros masculinos e femininos e
dos.seus respectivos estudos [167]. São Basílio já
notara a conveniência de separar as residências dos
meninos e dos adultos nos mosteiros, tendo observado que
os jovens precisam de movimento e que os mais velhos não
devem ser perturbados [168]. Montalembert,
referindo-se ao abade Magloire, que na ilha de Jersey
dirigia a educação dos meninos nobres, conta que estes
iam recitar as suas lições, em alta voz, em meio aos
rochedos batidos pelas vagas, a fim de não perturbarem a
sesta dos professores [169].
21. Apesar da opinião de Bardy sobre as primeiras
escolas monásticas do Ocidente, Léon Maitre, autor
de obra notável sobre as escolas episcopais e
monásticas, declara que o ensino se recolheu nessas
escolas, logo que a voz dos retóricos romanos deixou de
ser ouvida, e elas foram os santuários e os refúgios
seguros da cultura intelectual, especialmente na Gália.
Enquanto a Irlanda fruía de tranqüilidade para os
estudos, a cultura se difundia na Grã-Bretanha e as
escolas eram florescentes em Pavia, Roma, Pisa e
Aquiléia, a Gália gemia e se afundava na ignorância
devido aos ataques muçulmanos, às rapinas ocorridas sob
Carlos Martel, à fraqueza do governo dos reis
merovíngios, às guerras civis e à pilhagem dos bispados
e das abadias [170]. A Gália só iria conseguir
superar essa lastimável situação com o advento de
Pepino, o Breve, e com as reformas política,
religiosa e educacional sob os carolíngios. E aí
começará a fase esplendorosa das escolas monásticas no
reino franco e na Germânia. Montalembert, encantado
com a floração dessas escolas, chega até ao exagero de
afirmar que "a educação foi o principal emprego da
atividade monástica durante toda a Idade Média"
[171], como se a Ordem Beneditina tivesse o mesmo
escopo das modernas congregações docentes. Na verdade,
pode-se reconhecer que a Regra de São Bento já
legisla quanto à educação das crianças e que a escola
acompanha a ereção dos mosteiros beneditinos, de tal
modo que, segundo afirmação do mesmo Montalembert,
"tout monastère était une école" [172].
22. Diz a Regra beneditina, no capítulo 70: "A
diligência da disciplina e guarda das crianças até
quinze anos de idade caiba a todos, mas, também isso,
com toda medida e inteligência" [173]. No capítulo
30, São Bento enuncia dois princípios pedagógicos.
Primeiro, "cada idade e cada inteligência deve ser
tratada segundo medidas próprias" e, segundo, quando
meninos e adolescentes cometerem alguma falta, "serão
punidos com muitos jejuns ou refreados com ásperas varas,
acris verberibus". O capítulo 37 da Regra aconselha
o espírito de compreensão, a misericórdia paia com os
velhos e as crianças no que tange à alimentação. O
capítulo 45 prescreve pancadas - açoites com varas por
certo -
infantes autem pro tali culpa vapulent
[174].
Convém observar, ainda, que de início os monges eram
religiosos com os três votos prestados a Deus e estáveis
nos mosteiros, mas não eram sacerdotes, tanto que a
Regra diz no capítulo 62: "Se o Abade quiser pedir
que alguém seja ordenado presbítero ou diácono para si,
escolha, dentre os seus, quem seja digno de desempenhar o
sacerdócio". A atividade sacerdotal externa dos monges
só começou mesmo, quando São Gregório Magno enviou
missionários beneditinos para a Inglaterra e quando desta
partiu São Bonifácio, a fim de pregar o Evangelho aos
bárbaros da Germânia. Especialmente no início da
Ordem Beneditina, portanto, os monges podiam estudar ou
lecionar, assim como punir os alunos indisciplinados, sem
serem sacerdotes. Ainda nos primeiros dias da comunidade
beneditina, segundo o relato de São Gregório Magno,
muitos patrícios e cristãos, nobiles et religiosi,
confiaram a educação dos filhos aos monges: "Por esse
tempo, também, começaram a afluir de Roma pessoas
nobres e piedosas que lhe davam (a São Bento) os
filhos, a fim de que os criasse para Deus
todo-poderoso. Foi então que Equício fez a entrega de
Mauro, e o nobre Tértulo, a de Plácido, flores das
esperanças paternas. Mauro, adolescente que se
distinguia pelos bons costumes, começou a prestar
auxílio ao Mestre, enquanto Plácido ainda se achava em
idade infantil." Mauro e Plácido, por conseguinte,
prefiguram a vasta posteridade dos alunos das escolas
beneditinas onde, conforme São Gregório Magno,
seriam educados para o Deus Onipotente [175]. Sabe-se
que as escolas dos mosteiros acolhiam tanto os nobres
rebentos da aristocracia, quanto os pobres filhos dos
servos. A "escola de serviço do Senhor", que São
Bento concebeu e fundou, recebia os postulantes e
dava-lhes os meios imprescindíveis à recitação do
sagrado louvor e às pias meditações, à lectio divina,
à contemplação sobrenatural a que chegava o monge com o
auxílio da leitura da Bíblia, das obras dos Santos
Padres e dos mestres da vida monástica. Por isso, diz
São Bento, no capítulo 48 da Regra, que a
ociosidade é inimiga da alma e os monges devem dividir o
tempo livre, fora do Ofício Divino, entre o trabalho
manual e a leitura espiritual, lectio divina, mas que
serão verdadeiros monges quando viverem do trabalho das
suas mãos a exemplo dos Pais e Apóstolos. "São
Bento não quer dizer absolutamente, explica D.
Ildefonso Herwegen, que o trabalho manual pesado seja da
essência do estado monástico. Apenas alega o fato de
que os antigos Padres praticaram semelhante trabalho e
que, por isso, podem servir de modelo" [176]. Foi,
portanto, em conseqüência do opus primarium, o louvor
de Deus e o serviço do Senhor, que brotaram do tronco
beneditino os ramos do trabalho intelectual e manual de que
os monges foram modelos para pessoas e povos. A lectio
divina implicava a leitura, a existência de biblioteca,
a cópia de manuscritos e a composição de livros,
manuscritos e livros também para vender e assim ajudar a
subsistência do mosteiro. No entanto, toda a tradição
beneditina, observa Dom Jean Leclercq, reproduzirá a
existência de São Bento; scienter nescia, et
sapienter indocta que preconiza o ensino da douta
ignorância, que o vive e o conserva no patrimônio
cultural da Igreja como paradoxo necessário [177].
23. Segundo Montalembert, se quiséssemos enumerar as
principais escolas beneditinas, seria preciso nomear todas
as grandes abadias, pois a maior parte delas constituía
vastas casas de estudos freqüentadas por filhos de servos
e de pobres e pelos da nobreza e dos homens livres. As
mais famosas foram as de Monte Cassino, São Maximino
de Trèves, Santo Albano de Maiença, Prüm,
Fulda, Hirschau, Gandersheim. Nos mosteiros
germânicos de São Gall, Reichenau, Murbach, Santo
Emmeran de Ratisbona, Tegernsee, Benediktbeuern e
Werden, cultivou-se a língua alemã que foi usada no
ensino e nos livros. Através de glosas interlineares,
os monges davam a tradução alemã dos termos latinos em
textos bíblicos, canônicos e literários, sobre
prepararem traduções de orações e trechos
doutrinários. Os sábios monges alemães, segundo
Schnürer, fixaram por escrito uma parte do tesouro
poético do seu próprio povo como, à volta do ano
800, no mosteiro de Fulda se transcreveu o canto de
Hildebrando, únicos salvados da epopéia germânica do
antigo idioma alto-alemão. Na França
notabilizaram-se as escolas monásticas de Fleury,
Gorze, Corbie, Saint-Denis, Saint-Martin de
Tours, Saint-Bénigne de Dijon, Saint-Vincent de
Toul, Saint-Germain des Prés, Luxeuil,
Aurillac, Saint-Remy de Reims, Fleury,
Saint-Pierre de Gand. Na Espanha do século VII
avultaram as de Agali, Asán, Cauliana, Santa
Eulália de Mérida. Cerca de 570, no capítulo
XI da sua Regula ad monachos, São Ferreol de Uzès
declarava não ser lícito ignorar as letras a quem
pretendesse reivindicar para si próprio o nome de monge
[178]. As regras monásticas surgidas na península
ibérica, fora da órbita beneditina, insistiam
igualmente na existência das escolas, dos livros e do
estudo. Santo Isidoro de Sevilha, ao tratar do
trabalho dos monges na sua Regra, redigida entre 615 e
619, recomenda a leitura e proíbe aos monges os livros
pagãos ou heréticos, "pois é preferível ignorar as
suas doutrinas perniciosas a cair no laço dos seus erros
por experiência própria". A Regra do visigodo São
Frutuoso, redigida à volta de 646, prescreve a
leitura e recomenda que os meninos recitem as lições
diante dos decanos [179]. Além da Regula monachorum,
São Frutuoso, que foi bispo de Braga, escreveu a
Regra Comum, Regula Communis, para os mosteiros
dúplices em que entravam famílias inteiras com filhos e
filhas, mesmo de tenra idade [180].
24. Portugal deve a São Martinho Dumiense a
sementeira pujante da vida eclesiástica e do monaquismo
nos longínquos tempos do reino dos suevos, no século
VI, aonde ele teria aportado cerca de 550. Ele
nasceu na Panônia, que abrangia parte da Hungria, da
Áustria e da Iugoslávia atual, no primeiro quartel do
século VI, e morreu a 20 de março de 579. São
Martinho colaborou com o rei Teodomiro na conversão dos
suevos ao catolicismo. Fundou o mosteiro de Dume, onde
veio a ser bispo a 4 de abril de 556. Essa
diocese-mosteiro foi caso único no Ocidente e São
Martinho foi eleito, também, bispo de Braga em
569, mas sem abandonar o bispado de Dume. Ele
compôs vários opúsculos ascético-morais,
canônico-litúrgicos e poéticos. Ao primeiro grupo
pertencem os livrinhos de moral inspirados nas obras de
Sêneca. São os chamados opúsculos senequistas.
Escreveu, também, A Correção dos Rústicos,
instrução sobre a vida paroquial e de combate ao
paganismo remanescente nas aldeias. São Martinho
traduziu do grego para o latim - pois viajara pelo
Oriente e convivera com os monges - uma coleção
anônima de apotegmas que se denominou Aegyptiorum Patrum
Sententiae, e o seu discípulo em Dume, Pascásio,
traduziu também do grego outra coletânea anônima, De
vitis Patrum [181]. Segundo Fortunato de Almeida,
"data pelo menos do século VII a prática de se
educarem meninos nos mosteiros da Lusitânia e é
provável que seja mais antiga"[182]. Depois de tratar
dos monges de São Martinho de Dume e de São Frutuoso
de Braga que foram pregadores, copistas de livros e
mestres de meninos, Mário Martins assevera que, à
distância de mais de mil anos, "esses monges iam
educando a consciência do povo português, davam-lhe
interioridade e sensibilidade religiosa, uma maneira
cristã de encarar a existência, uma tabela de valores"
[183]. Frei José Mattoso não deixa de concordar com
esse ponto de vista, apesar de certo pessimismo pois,
embora diga que a produção literária portuguesa anterior
a 1150 seja paupérrima e só inclua alguns anais e
vidas de santos, reconhece que os antigos monges
portucalenses arrotearam o terreno para o florescimento da
cultura. Eles cultivaram o latim e a música, mantiveram
bibliotecas, estudaram o direito civil e o canônico,
promoveram o ensino das primeiras letras, redigiram
crônicas, estudaram a Bíblia e as obras dos Santos
Padres e prepararam o caminho que haviam de perlustrar um
Santo Antônio, um Mestre João de Deus, um Mestre
Vicente, um Silvestre Godinho ou um Pedro Hispano
[184].
25. Ozanam saudou a Itália como "o último asilo da
antigüidade e o primeiro foco de luz da Idade Média"
[185]. Ozanam tinha razão, mas Hanson também tem a
sua, quando considera a Irlanda como "o último asilo
das letras" no início da Idade Média [186]. Os
mosteiros irlandeses iniciaram o seu extraordinário
desenvolvimento, desde o século IV e, tal como os
italianos e os ibéricos, recrutaram os seus membros na
classe camponesa, ainda que fossem dirigidos por herdeiros
de famílias nobres ou reais. As escolas monásticas da
Irlanda substituíram as escolas tradicionais dos drúidas
e dos bardos. Conforme Hanson, quando São Patrício
chegou à Irlanda, já havia escolas de letras, de
direito, de história, de poesia, de arte, e a seu lado
foram surgindo e florescendo as escolas dos mosteiros. No
fim do século VI, a Irlanda permanecia indene às
invasões e as suas escolas sobreviveram às lutas dos
clãs e aos ataques dos dinamarqueses, ministrando o
ensino da gramática, da retórica e da poética latina
junto com o da língua grega e da filosofia. Os
irlandeses, chamados então de Scoti, ganharam o
continente em pacífica invasão de missionários e
letrados, depois de haverem difundido o Evangelho e as
letras na Grã-Bretanha. Hanson cita os luzentes
centros escolares de Clogher, Glendalough, Armagh,
Aran, Monastereven, Monasterboyce, Clonard,
Glasnevin, Bangor e outros, e declara perentório que
no século VI a Irlanda inteira se transformara
praticamente numa universidade [187].
26. As escolas monásticas da Grã-Bretanha tomaram
impulso no século VII e resplandeceram no seguinte,
tendo fornecido mestres famosos aos reinos continentais e
à corte de Carlos Magno [188]. Santo Aldelmo,
discípulo do monge irlandês Maidulfo, de Teodoro de
Tarso e de Adriano, foi abade de Malmesbury na região
de Wessex e morreu bispo de Sherborne em 709, depois
de quatro anos de episcopado, tendo nascido de nobre
prosápia cerca de 639 ou 640. Foi poeta, escreveu
várias obras e animou a escola do mosteiro de
Malmesbury, tendo reunido alunos irlandeses e
anglo-saxões. Biscop Baducing, mais conhecido por
Bento Biscop, fundou o famoso mosteiro duplo de
Wearmouth-Yarrow, sob a influência de Roma, situado
perto de York na. Nortúmbria. Esteve várias vezes em
Roma, donde trazia muitos livros e obras de arte. A sua
obra foi continuada por Ceolfrido, mas o mais ilustre
florão do mosteiro de Wearmouth-Yarrow foi São
Beda, o Venerável, que, segundo Schnürer diz com
toda a razão, "foi um dos maiores e melhores mestres que
teve a Idade Média". Finalmente, convém lembrar que
na Grã-Bretanha floresceram de modo notável as escolas
e as letras nos mosteiros femininos que Montalembert
celebra com entusiasmo no tomo V da sua obra Os Monges
do Ocidente.
27. A Regra de São Bento difundiu-se gradualmente
através da Europa e substituiu as outras que vigoraram
por algum tempo em muitas regiões. Os monges cumpriram a
sua missão precípua e elevaram a Deus o solene louvor em
nome da humanidade, durante os séculos difíceis e
turbulentos da primeira parte da Idade Média e, por
força das circunstâncias, tornaram-se os seus
educadores.
Com todos os percalços das empresas humanas, os
beneditinos deram conta da sua tarefa e concretizaram
durante as centúrias medievais a visão profética do seu
fundador. Segundo o relato de São Gregório Magno, o
abade e diácono Servando foi visitar São Bento. De
noite, o santo recolheu-se ao seu aposento no alto da
torre e Servando ocupou um quarto no pavimento inferior.
Diante da torre situava-se a grande morada onde os
discípulos de ambos descansavam. Enquanto estes
dormiam, São Bento em vigília piedosa,
antecipando-se às orações noturnas, de pé junto à
janela, rezava a Deus onipotente. Subito, intempesta
noctis hora respiciens, de repente, àquela alta hora da
noite, ao olhar para fora, ele viu projetar-se do alto
uma luz que, difundindo-se em torno, afugentava as
trevas da noite e brilhava com tal esplendor que, a
fulgurar no meio da escuridão, era mais clara que a luz
do dia, ut diem vinceret lux [189]. Querendo alguém
por testemunha, São Bento chamou em alta voz pelo
diácono Servando, duas ou três vezes, e este acorrendo
subiu, olhou para o alto e ainda logrou divisar tênues
rastos de luz. Tal como Servando, nós mal percebemos
hoje, através dos documentos, vestígios da claridade
que a Ordem Beneditina espargiu em ondas de
evangelização, de testemunho evangélico, de cultura e
de instrução, através da Idade Média, e que ela
continua, fiel à intenção do seu glorioso Patriarca,
a emitir suavemente do remanso do claustro.
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