CAPÍTULO IV. AS ESCOLAS MEDIEVAIS ATÉ O SÉCULO XII.

1. Na Introdução deste livro tivemos a oportunidade de examinar alguns dos preconceitos a respeito da Idade Média, mas foram apenas alguns e dos mais vulgares, e com o que dissemos procuramos deixar o leitor atento a outros dislates que correm mundo afora sobre assuntos do período medieval. Ao começarmos agora a tratar das escolas, do século V ao século XII, podemos analisar uma das concepções errôneas divulgadas quanto à educação medieval. Assim, Arnould Clausse cita um outro Clausse, Roger, autor da obra Critique matérialiste de l'éducation, e endossa-lhe o parecer de que em Roma sob a República se pretendia formar cidadãos romanos; sob o Império, funcionários, enquanto a Idade Média tinha concepções ascéticas e a Renascença, intenções liberais e humanas [133]. Note-se a disparidade das proporções: Roma, nos períodos republicano e imperial, quer formar determinados tipos humanos, o cidadão ou o funcionário público, ao passo que a Idade Média tem concepções ascéticas e a Renascença, intenções liberais e humanas. Deixemos de lado as intenções liberais e humanas renascentistas, por escaparem ao âmbito do nosso estudo atual, e atenhamo-nos à Idade Média. Primeiro, cumpre observar que seria o caso, após a citação dos ideais pedagógicos de Roma, de se procurar determinar o tipo humano que no período medieval se procurou formar em diferentes épocas. Depois, pode asseverar-se que, se a Idade Média teve concepções ascéticas, teve também concepções filosóficas, tecnológicas, jurídicas, políticas e educacionais e por isso a sentença de Clausse é claudicante e estapafúrdia, pois, do ponto de vista educacional, não fica bem claro o que ele pretende dizer ou inculcar. Acresce que também se pode afirmar da Renascença e dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX que tiveram e têm concepções ascéticas. Algumas linhas após o asserto discutível, Clausse passa a afirmar que, para formar clérigos, "a Idade Média inscreverá à cabeça das suas hierarquias axiológicas o desprezo dos bens terrestres e imaginará uma cultura que se procurará pelos caminhos puramente espirituais da Teologia" [134]. Tem-se a impressão de que Arnould Clausse imaginou caracterizar muito bem o espírito medieval, mas a sua expressão, com efeito, parece-nos infeliz, máxime numa obra pedagógica. Antes de tudo, é preciso ter em mente que o desprezo dos bens terrestres, em comparação dos bens espirituais e eternos, é um dos ensinamentos cristãos, admitidos e válidos no fim do mundo antigo, durante a Idade Média, na Renascença, nos séculos posteriores, nos dias de hoje, e assim será até ao fim do mundo. Por conseguinte, "o desprezo dos bens terrestres" inscreve-se à cabeça das hierarquias axiológicas" dos cristãos autênticos em qualquer tempo. Poder-se-ia, então, afirmar, sob reservas, que a Idade Média fez tal "inscrição" por ter sido um período histórico profundamente cristão, embora o ensinamento evangélico quanto à fugacidade das riquezas continue atual. Dissemos que se poderia repetir a afirmação de Clausse com reservas, pois ainda na primeira fase da Idade Média não parece que os cavaleiros e os nobres, por exemplo, tenham sempre inscrito o desprezo dós bens terrestres à testa das suas valorizações existenciais. A partir do século XII, então, o asserto cabe ainda menos ao mundo medieval, quando se pensa nos comerciantes, nos banqueiros, nos burgueses, nos juristas e médicos que pensavam em enriquecer cada vez mais. De tudo isso se colhe que é preciso ter cautela, quando se procura caracterizar o espírito de uma época, o caráter de um povo ou mesmo os ideais pedagógicos de certo período histórico.

2. Pode asseverar-se que durante todas as fases da Idade Média perdurou o ideal clássico quanto à formação da personalidade devendo observar-se, contudo, que acima desse objetivo natural impunha-se sobranceiro o propósito de se plasmar o perfeito cristão, o discípulo de Jesus Cristo que procura a felicidade eterna através da crença no Evangelho, da prática dos mandamentos, da aquisição das virtudes, das mortificações, enfim, por meio do constante aumento da vida em estado de graça, da vida sobrenatural iniciada com o batismo. Esse era, e ainda é, o supremo objetivo educacional do povo cristão. Do ponto de vista pedagógico, como vimos em nosso livro História da Educação na Antigüidade Cristã, Santo Agostinho legou aos educadores medievais os princípios pelos quais eles se pautaram quanto à orientação dos estudos: os jovens devem dedicar-se ao aprendizado das artes liberais e mecânicas e à filosofia, a fim de aproveitarem ainda mais no estudo da Sagrada Escritura que ensina o que é preciso saber e praticar para alcançar a vida eterna e feliz [135]. Além desse objetivo educacional básico, colimaram-se na Idade Média vários ideais pedagógicos. Assim, como vimos no capítulo anterior, o ideal da vida monástica. Os cavaleiros, por sua vez, recebiam um tipo especial de educação, como ainda iremos ver, e na qual se dava ênfase aos valores peculiares à vida do guerreiro, isto é, à habilidade no manejo das armas, à educação física, à coragem, à fidelidade, etc. A partir do século XII, surgiram as escolas das corporações de ofícios, com objetivos preciso e técnicos, e no século XIII organizaram-se os universidades com propósitos específicos. Portanto, durante a Idade Média, além das metas educacionais básicas e permanentes, houve ideais pedagógicos variáveis, conforme as épocas, as instituições e a situação histórica de um povo, tal como a Veneza mercantil no século XI e seguintes, tão diferente da Inglaterra ou da própria França na mesma época. Aliás, esse panorama de constância e de relatividade educativa no período medieval é um prospecto da situação educacional noutros períodos históricos, uma vez que, ao lado de objetivos e valores permanentes e fundamentais de formação humana, erigem-se os ideais relativos às instituições e à situação social de um povo ou de uma comunidade.

3. No mundo ocidental a organização escolar principiou, ao que tudo indica, na Grécia macedônica, em Alexandria e em Pérgamo. Segundo informação dada por Leach, um Mimo de Herondas, o Mestre, descreve pela primeira vez uma escola por volta do ano 250 a.C. Em Roma, a escola surgiu sob a influência grega cerca de 260 a.C. ou por volta de 204 a.C., segundo Suetônio. A primeira data é indicada por Plutarco e foi, então, diz ele, que se estabeleceram as primeiras escolas de Roma graças a Spurius Carvilius junto com o seu liberto grego. Suetônio, porém, atribui a existência das primeiras escolas em 204 a.C. a Lívio Andrônico e a Ênio, o primeiro poeta romano e ambos, gregos libertos, e a Crates de Malos, embaixador grego de Pérgamo em 157 a.C. A organização do ensino público, no entanto, foi criação dos romanos. De acordo com Ozanam, a cultura universal da Romanitas - eloqüente barbarismo cunhado por Tertuliano - estendeu-se da Grã-Bretanha às extremidades da Hungria, e o centro desse círculo cultural veio a ser a nova potência do ensino público, desconhecida nas idades anteriores. O Egito, diz Ozanam, tinha as suas iniciações rodeadas de mistérios. Em Atenas a instrução literária estava entregue à dedicação e à cupidez dos sábios, mas na Itália, país de disciplina, o ensino tornou-se uma magistratura, agraciada com imunidades e privilégios [136].

4. Vimos, em capítulo anterior, como a organização do ensino público romano se desmantelou após as invasões dos bárbaros, embora o declínio fosse gradual e o cultivo das letras não desaparecesse completamente, pois, apesar das invasões germânicas, as escolas continuaram a existir. São Sidônio Apolinário, pai de família, nascido em 431 ou 432 em Lião na Gália, foi professor de gramática, funcionário imperial, poeta e bispo, e escreveu duas cartas aos professores das escolas de retórica de Vienne e Périgueux. O seu epistolário proporciona excelentes observações sobre os usos e costumes romanos e bárbaros da sociedade galo-romana do século V. Já o poeta latino Sedúlio lecionou filosofia na Itália na metade do século V e o poeta Dracdncio foi professor de retórica no fim do mesmo século. O estudo dos autores clássicos prosseguiu durante o reinado de Teodorico, o Ostrogodo, e Enódio, natural da Gália, bispo de Ticinum (Pavia), em 513-521, testemunha a existência de escolas de gramática e refere-se à escola de Deutério em Milão. Fato comprobatório da existência de escolas de gramática é a composição em Constantinopla, no primeiro quartel do século VI, da principal gramática latina, a de Prisciano, que perdurou em mil manuscritos medievais [137]. Na mesma época destacou-se Virgílio Maro, gramático em Toulouse na Gália, enquanto Cassiodoro testifica o cuidado oficial com as escolas de gramática na Itália [138]. Por volta de 570, Venâncio Fortunato, nascido em Treviso e estabelecido em Tours, escreveu a biografia de São Martinho de Tours em versos onde conta como ele foi educado em escolas de gramática e de retórica. Essa época, todavia, era de transição e de mudança, pois os estabelecimentos escolares importantes ou eficientes eram cada vez mais raros e, à medida que as instituições oficiais desapareciam, estavam a surgir, entre o fim do século IV e o começo do século V, as escolas paroquiais, sob administração exclusivamente eclesiástica. Aliás, antes mesmo da dasagregação do Império Romano, o ensino oficial entrara em declínio. Assim, no fim do século IV, Santo Agostinho, jovem professor, experimentou as agruras do magistério em Roma e que ele diz não ter conhecido na África, pois os estudantes se mancomunavam para abandonar, de repente, as aulas, passando para outro professor, a fim de não pagarem o devido salário aos mestres, e desse modo eles faltavam aos compromissos e desprezavam a justiça por amor ao dinheiro [139].

5. Segundo o Direito Canônico, a paróquia é uma parte territorial da diocese com a sua igreja própria, com a sua determinada população e com o seu competente pastor incumbido da cura das almas [140]. De início, as paroikiai confundiam-se com as dioceses governadas pelos bispos. Aos poucos, as comunidades dividiram-se em muitas igrejas nas grandes cidades e, a partir do século III, havia igrejas também na zona rural, continuando o bispo como o superior de todas as igrejas. Os fiéis de uma cidade formavam uma paróquia e muitas paróquias constituíam uma eparquia, província eclesiástica governada pelo bispo, o metropolita, e que coincidia com os limites do Império romano. O nome de paróquia é muito sugestivo, pois os cristãos nas suas comunidades consideravam-se estrangeiros e peregrinos na terra, e o termo paroikia significa, de fato, estada ou permanência em país estrangeiro.

6. Para bem entender a questão das escolas medievais, é preciso saber que o clero se dividia, como ainda hoje, em secular e regular. O clero secular ou diocesano é constituído pelos sacerdotes que só prestam a Deus o voto de castidade, podendo dispor dos próprios bens, e sem se vincularem ao seu superior, o bispo, por voto de obediência. Eles constituem o manípulo oficial dos obreiros eclesiásticos, servem ao bispo de uma diocese com quem assumem um compromisso de submissão, ao fazerem o juramento de obediência, e por viverem a serviço do povo de Deus nas paróquias, no borborinho do mundo, saeculum, são chamados de padres seculares. O clero regular é como um corpo auxiliar da tropa oficial, do ponto de vista administrativo. Ele abrange as ordens e congregações cujos membros levam a vida em comum, sob a orientação de um superior, prestam a Deus os três votos de pobreza, castidade e obediência, e vivem de acordo com a regra da sua corporação (regula. Donde, clero regular).

7. A medida que as escolas oficiais e a dos mestres particulares, literatores, foram desaparecendo, a Igreja tomou providências quanto à formação dos candidatos ao sacerdócio, a fim de lhes assegurar a instrução mínima necessária ao desempenho do ministério sacerdotal. O nível elementar desse ensino era representado pelas escolas paroquiais e o superior, pelas episcopais. A escola paroquial funcionava na igreja matriz da paróquia ou na casa paroquial, e a escola episcopal alojava-se na igreja catedral ou na residência do bispo. Aliás, desde os primórdios da Igreja, no período patrístico, os bispos tratavam de formar ao seu lado os colaboradores do seu ministério pastoral, assim como os concílios e os sínodos orientais e ocidentais foram legislando a respeito dos requisitos para a ordenação sacerdotal e para a imposição dos ministérios. Por conseguinte, as escolas paroquiais e as episcopais foram instituídas para a formação do clero. No entanto, devido ao desaparecimento das escolas públicas e à falta ou à raridade das particulares, nelas também estudavam alunos que não se dedicariam mais tarde ao sacerdócio e que, a certa altura dos estudos, resolviam constituir família. Dispomos, a respeito dessas escolas, de várias determinações provenientes dos concílios durante os séculos medievais. Evidentemente, muitas vezes as excelentes recomendações e os oportunos decretos conciliares quanto às escolas ficavam sem execução, tal como ocorre com as leis em todas as épocas e em todas as nações e quando os planos não passam mesmo de belos projetos. Todavia, através das biografias de personagens desses vários séculos, pode perceber-se como em muitas regiões esses decretos foram executados e como, desse modo, se beneficiou a educação nas cidades e nos campos.

8. Nos Estatutos do Concílio de Hipona, de 461, deparamos com um cânon no qual se determina que os clérigos não sejam ordenados sacerdotes e as virgens não sejam consagradas antes dos 25 anos e que os clérigos recebam instrução desde a infância com o objetivo de professarem e difundirem a fé [141]. A 5 de novembro de 529 - outra notável coincidência! O ano do fechamento das escolas de Atenas por Justiniano e da fundação da Ordem Beneditina - reuniu-se o concílio de Vaison, concilium Vasense, convocado por São Cesário de Arles. Nesse concílio de onze bispos junto com o seu metropolita, foram decretados cinco cânones. O primeiro trata da educação dos futuros clérigos e assim reza: "Nas paróquias, todos os padres devem, secundum consuetudinem quam per totam Italiam satis salubrier teneri cognoscemus, segundo o salutar costume que sabemos ter sido instaurado em toda a Itália, acolher em suas casas os jovens leitores não casados, a fim de instruí-los no canto dos salmos, nas lições teológicas e na lei do Senhor, para que desse modo preparem para si próprios dignos sucessores. Todavia, se mais tarde o leitor quiser casar-se, não se lhe deverá recusar a permissão" [142]. Esse cânon é rico de informações. Note-se, primeiramente, que os bispos do Concílio de Vaison se louvaram no costume estabelecido em toda a Itália. Por conseguinte, eles cuidaram de adotar na Gália uma instituição educacional que já dera sobejas provas das suas vantagens, salubriter teneri cognoscemus. Em segundo lugar, os párocos deveriam ensinar aos jovens estudantes o canto dos salmos, as verdades da fé e os mandamentos da Lei de Deus. É claro que o aprendizado dos salmos e da doutrina religiosa implicava o conhecimento dos rudimentos da leitura e da escrita, mas o conteúdo do programa era de interesse puramente eclesiástico. Por fim, no concílio de Vaison ficou estabelecido que os estudantes, ao atingirem a idade adulta, podiam renunciar ao sacerdócio e constituir família pro carnis fragilitate, devido à fragilidade carnal. A implantação das escolas paroquiais na Gália representou progresso e vantagem para o povo cristão, já que resolvia de modo prático a maneira de instruir os futuros clérigos desde a infância, conforme a determinação quanto aos estudos clericais feita no cânon 45 dos Antigos Estatutos da Igreja, à volta do ano 475 [143]. Parece-nos que o "costume" das escolas paroquiais difundiu-se na Itália em resposta à exigência do papa São Gelásio I aos bispos da Lucânia, em 405, de não se admitir a serviço da Igreja analfabetos, ignorantes ou aleijados [144].

9. No século seguinte, em 527 ou em 531, assistimos à criação de um verdadeiro seminário na Espanha, por determinação do lI Concílio de Toledo presidido por Montano, o metropolita toletano, assistido por sete bispos espanhóis: Nebrídio de Egara, Justo de Urgel, Pangário, Canônio, Paulo, Domiciano e Maracino. A primeira decisão conciliar diz respeito à educação dos candidatos ao sacerdócio e determina: "Aqueles que, desde a infância, foram destinados por seus pais ao estudo eclesiástico, logo depois de terem recebido a tonsura ou o ministério de leitor, devem ser educados por um preposto numa residência da igreja, sob a vigilância pessoal do bispo. Quando completarem dezoito anos, o bispo lhes perguntará, perante o clero e o povo, se querem casar. Se eles escolherem, por inspiração divina e com a graça da castidade, o estado da continência e jurarem conservá-la, submeter-se-ão ao jugo leve do Senhor, serão ordenados subdiáconos com 20 anos e diáconos aos vinte e cinco". Reza, ainda, o cânon que, se após o casamento e em idade mais avançada, com o consentimento da esposa, fizerem o voto de continência, poderão ser admitidos às ordens sacras [145].

10. No ano 666, no pontificado do papa Vitalino, reuniu-se o concílio de Mérida, Concilium Emeritense. O cânon XVIII dirige-se diretamente aos párocos, lembrando-lhes que devem acatar as decisões da Igreja e que, por estarem preocupados com o recrutamento de clérigos que lhes servissem de coadjutores, o santo sínodo havia resolvido que todos os párocos, parochitani presbyteri, escolhessem na localidade os clérigos que passariam a viver na sua igreja e os educassem com toda a boa vontade, de tal modo que pudessem cumprir dignamente o santo ministério e dispusessem das habilidades imprescindíveis ao serviço paroquial. Os párocos deveriam, ainda, proporcionar aos clérigos comida e roupa e se, porventura, algum pároco não viesse a cumprir com a sua obrigação, o bispo deveria chamá-lo às contas e corrigi-lo [146].

11. No fim do século VIII, Teodulfo, bispo de Orleães, transmitiu aos sacerdotes da sua diocese várias capitulares com ordenações pastorais e, na décima, estatuía que os presbíteros instaurassem escolas no campo e na cidade, per villas et vicos e, se algum fiel lhes confiasse os filhos para aprenderem as letras, eles os deveriam receber e instruir com a máxima caridade, sem exigir dos pais nenhum pagamento, exceto se estes quisessem fazer alguma contribuição espontânea [147]. Esse texto de Teodulfo é deveras precioso, uma vez que não alude à formação dos clérigos, à preparação de candidatos ao sacerdócio, mas contém prescrições aos párocos, para que fundem escolas gratuitas de primeiras letras onde dispensem o ensino a quem o desejar, cum summa charitate. E muito importante ressaltar que esse decreto episcopal inscreve-se no quadro da reforma educacional do período carolíngio, quando se promoveu com empenho a criação de escolas públicas e a renovação dos estudos. Essas scholae publicae seriam, de fato, apenas algumas escolas para clérigos, onde outras crianças ou adolescentes também poderiam estudar, pois Carlos Magno e os seus sucessores legislaram sobre a educação através dos bispos e dos abades, numa época tão conturbada por guerras e invasões, num regime político onde os senhores se envolviam em contínuas querelas, numa situação econômica que para as populações do Ocidente raiava pela penúria e numa sociedade que não comportava vida cultural intensa nem escolas públicas como hoje as entendemos e possuímos.

12. Em 817, nas célebres dietas sinodais de Aix-la-Chapelle, Luís, o Piedoso, promoveu a grande reforma no Estado e na Igreja, dividiu o império entre os seus três filhos Lotário, Luís e Pepino e promulgou o principal decreto da reforma eclesiástica, a regra dos cônegos e das religiosas: De institutione canonicorum e De institutione sanctimonialium. Entre as Regras do primeiro livro consta no capítulo 135 que os meninos e os jovens educados na residência dos cônegos deveriam ser vigiados, instruídos e confiados à guarda de um cônego idoso e prudente e habitariam juntos num edifício do atrium [148]. Por conseguinte, ministrava-se educação a crianças e a adolescentes não só nas paróquias isoladas dos campos como, também, nas casas dos cônegos nas cidades, sabendo-se que estes eram sacerdotes seculares a serviço do bispo de uma diocese, que viviam em comum, tendo individualmente as próprias atribuições pastorais. Os estatutos de Aix-la-Chapelle referentes à vida canônica foram inspirados pela Regra que São Crodegango dera aos sacerdotes de Metz e de que falaremos adiante.

13. A Igreja Católica continuou a assumir nos séculos seguintes a tarefa de ministrar o ensino público e gratuito nas paróquias urbanas e rurais. Como diz o insuspeito Durkheim, a Igreja tornou-se a única educadora daqueles tempos naturalmente, sem premeditação nem ambições, pois era a única instituição que, de fato, tinha condições e meios para educar e instruir [149]. O cânon 18 do XI Concílio Ecumênico, o III de Latrão, em 1179, no pontificado de Alexandre III, prescreveu que em toda catedral se instituiria um benefício que permitisse custear os estudos dos clérigos e dos escolares pobres que não deviam ser privados de instrução devido à falta de recursos dos pais [150]. Essa prescrição foi renovada pelo cânon 11 do XII Concílio Ecumênico, Quarto de Latrão, no pontificado de Inocêncio III, onde se declara a renovação do cânon 18 do XI Concilio Ecumênico, para que se outorgue ensino gratuito aos clérigos da catedral e a outros estudantes pobres, aliosque scholares pauperes. Esse Concílio Ecumênico de 1215 prescreveu que qualquer igreja, além da catedral, com recursos suficientes, sustentasse um. professor de gramática e que a igreja metropolitana mantivesse um teólogo, a fim de ensinar aos padres e a outros a Sagrada Escritura e o cuidado das almas [151]. Com essas referências aos concílios lateranenses dos séculos XI e XII só quisemos ressaltar o princípio da gratuidade do ensino aos estudantes pobres, tão defendido por Teodulfo de Orleães no século VIII.

14. Outro tipo de escola na Idade Média foi a episcopal ou catedralícia (por ficar instalada em dependências da catedral) ou canônica (por ser dirigida pelos cônegos que serviam à catedral). Desde os tempos apostólicos, os bispos deviam com certeza tratar da formação do clero, e durante o período patrístico eles se valeram das escolas catequéticas para tal objetivo, embora eles próprios tomassem a peito a educação dos clérigos e os formassem no seu convívio diuturno. Uma vez que os bispos residiam na sede urbana da diocese, os -clérigos recebiam a sua formação na residência episcopal. Na primeira fase da Idade Média, que estamos a considerar, as escolas episcopais não tiveram ressonância social e só lidavam com a educação clerical, uma vez que o eixo da vida estava no campo, na órbita do castelo e do mosteiro [152]. Desde o renascimento do século XII, no entanto, com a renovação e o desenvolvimento da vida urbana, as escolas monásticas entraram a declinar, enquanto as episcopais assumiram a liderança do ensino e foram as bases das faculdades de artes e teologia no século XIII.

15. Parece-nos que a regularização da escola episcopal ou o estabelecimento orgânico da formação dos presbíteros remonta a Santo Eusébio de Vercelli, bispo e fundador monástico que nasceu na Sardenha no início do século IV e morreu em Vercelli a 1 de agosto de 371, tendo sido nomeado bispo desta cidade em 344. Santo Eusébio organizou a vida comunitária para o seu clero e é considerado o fundador dos cônegos regulares. Entre os Antigos Estatutos da Igreja, à volta do ano 475, ordenava-se o exame do candidato ao episcopado e que se verificasse se era instruído, litteratus, se conhecia a Lei de Deus e a Sagrada Escritura. Um dos cânones prescreve que o bispo se abstenha da leitura de livros pagãos e só perlustre os heréticos durante algum tempo e por necessidade. Logo, em seguida, se estatui que os clérigos recebam a devida instrução, artificiola et litteras discant [153]. Conta Posídio que Santo Agostinho, quando bispo, educava os clérigos na sua residência, onde eram instruídos e recebiam alimentação e roupa [154]. No século VIII, São Crodegango, bispo de Metz, regulou a vida comum e canônica dos clérigos. Além de promover a difusão do monaquismo beneditino, preocupou-se com a formação do clero secular e promulgou o parvum decretulum, o pequeno códice, isto é, a Regula Canonicorum inspirada na Regra de São Bento, que São Crodegango adaptou às exigências da vida do clero diocesano. A Regra dos Cônegos tinha originalmente 34 capítulos, 86 nas redações posteriores, foi retomada na substância pela Institutio Canonicorum do Concílio de Aix-la-Chapelle, em 817, e influiu decisivamente na espiritualidade do clero diocesano latino da Idade Média. O capítulo 48 da Regra original determina as normas para a direção da escola episcopal onde um cônego se encarregava da instrução e da formação espiritual dos meninos e dos adolescentes [155].

16. O Concílio de Orleães, em 511, no reino franco de Clóvis e no. pontificado do papa Símaco XIII, recomenda que os sacerdotes diocesanos e os clérigos convivam com o bispo e lhe escutem as lições, procurando imitar-lhes as virtudes, a fim de se tornarem promotores da glória de Deus [156]. No século seguinte, na Espanha, o IV Concílio de Toledo em 633, pela voz de 62 bispos, declara que a ignorância é a mãe de todos os erros e deve ser evitada principalmente nos sacerdotes que têm o dever de instruir o povo [157]. Esse cânon religa-se naturalmente ao do II Concílio de Toledo (cf. nota 13 deste capítulo) que determinou a fundação da escola episcopal ou seminário, tal como a que Santo Isidoro instaurara em Sevilha. No Concílio Romano, em 853, no pontificado de Eugênio lI, os bispos levantam as vozes em coro para denunciar a falta de professores e de cuidados para com os estudos nas escolas episcopais de vários lugares e determinam que se constituam professores e doutores in universis episcopiis, em todas as escolas episcopais, para o estudo das letras, das artes liberais e da doutrina sagrada [158]. Colhe-se desse cânon do Concílio Romano que as artes liberais constituíam matéria do currículo das escolas episcopais.

17. Através do Império carolíngio, as escolas episcopais mais famosas foram as de Tournai, Magúncia, Reims, Sens, Tréveris, Lyon, Worms, Metz, Orleães, Laon, Chartres e Paris. Na Espanha foram as de San Salvador de Oviedo, León, Vich, Gerona, Barcelona, Palência e Salamanca. Na Inglaterra brilharam as escolas episcopais de York e de Cantuária. York foi centro importante da Bretanha romana, e um bispo de York participou do Concílio de Arles em 314. As invasões anglo-saxônicas destruíram a cristandade britânica que foi restaurada pela missão de Santo Agostinho de Cantuária em 597, por iniciativa do papa São Gregório Magno. A escola episcopal de York foi criada pelo primeiro bispo dessa cidade, Paulino, e era escola de gramática e canto. Deu-lhe novo impulso o arcebispo Egberto, discípulo de São Beda, o Venerável, que fundou a escola episcopal com a biblioteca, famosa no século VIII, e influenciou a educação no império carolíngio através de Alcuíno, seu ilustre representante. Essa escola funcionou regularmente até a conquista normanda, mas a sua biblioteca, que parece ter sido a maior da Europa ocidental no século VIII, foi destruída por um incêndio em 1069. A escola episcopal de Cantuária foi fundada e desenvolvida por Teodoro natural de Tarso na Cilícia, em 602, e que sucedeu ao primeiro arcebispo inglês Dêusdedit, falecido em 664. Por notável coincidência, o Dêusdedit inglês teve por sucessor o Dêusdedit grego, uma vez que tal é a tradução latina do nome Teodoro (o que Deus deu, presente de Deus). Teodoro de Tarso, com 67 anos, era um erudito grego, instruído nas letras profanas e sagradas, em filosofia e direito. Estudara em Atenas e chegou a Cantuária a 27 de maio de 668 junto com o inglês Bento Biscop e o monge Adriano, que foi o seu grande colaborador./Segundo o historiador São Beda, Teodoro difundiu a instrução propagou o conhecimento da língua e da literatura grega. Desde aí, a Inglaterra foi morada predileta dos estudos helênicos numa tradição, que jamais se desmentiu, de culto aos clássicos da Hélade. A catedral de Cantuária, até o século XI, foi inteiramente servida pelo clero secular, tendo São Teodoro morrido em 690 [159].

18. Em muitas dioceses da Europa, no início e no decurso da Idade Média, as escolas episcopais foram dirigidas por comunidades monásticas, ou melhor, os clérigos seculares formavam-se entre os monges que assessoravam o bispo, e este lhes proporcionava instrução, exercício pastoral e bons exemplos. Tal foi o caso famoso de Santo Agostinho, ainda na antigüidade, e o de São Martinho de Dume no reino dos suevos, o futuro Portugal, no começo da Idade Média [160].

19. As escolas monásticas, que se derramaram pela Europa na primeira parte da Idade Média, surgiram por um processo espontâneo no interior dos cenóbios. Os homens procuravam o mosteiro para se consagrarem inteiramente a Deus pela imitação de Cristo, através de uma vida de oração e trabalho. Ora, a prece e a meditação implicam a leitura, o trato com os livros. O trabalho intelectual e o manual exprimiram-se de forma proveitosa na cópia e na reprodução dos manuscritos. Por conseguinte, os monges deviam saber ler e possuir instrução. As pessoas instruídas que ingressavam nos mosteiros iam servir de mestres e formavam discípulos. Os rudes, ignorantes, recebiam a instrução suficiente para o cumprimento dos deveres monásticos. Acresce que os mosteiros, como os da Ordem Beneditina desde a sua origem, recebiam os pueri oblati, os meninos que lhes eram ofertados pelos pais para se consagrarem a Deus na vida monástica. Daí as escolas internas ou interiores, dentro do mosteiro, para a instrução dos postulantes, os candidatos à vida monástica, e dos oblatos. A medida, entretanto, que meninos e adolescentes eram confiados aos mosteiros só para receberem instrução, pois não tinham a intenção de ser monges nem os pais o pretendiam, eles passavam a freqüentar também as escolas internas como pensionistas ou para eles, em muitas regiões, existia um edifício especial ou uma ala do mosteiro, a schola exterior, fora do perímetro da clausura, para que o bulício escolar não perturbasse o silêncio monástico e a paz dos religiosos. Na escola do mosteiro estudavam-se as sete artes liberais, segundo a orientação dada por Santo Agostinho no De Doctrina Christiana, e aplicavam-se os estudantes de modo intenso à leitura e à meditação da Sagrada Escritura, de acordo com as prescrições unânimes das Regras, como a de São Bento, Sto. Isidoro e São Frutuoso. Para a iniciação gramatical tomavam-se os salmos como texto de leitura. Aliás, o ensino estava dirigido para o seu conhecimento, assim como ao de toda a Bíblia. Dom Jean Leclercq demonstra em sua obra L'Amour des Lettres et le Désir de Dieu que não existe ratio studiorum beneditino, mas um programa espiritual - razão pela qual houve, às vezes, um problema dos estudas monásticos -, e que a teologia monástica se elaborou com a meditação da Sagrada Escritura, com o auxílio da gramática e da retórica que propiciavam excelentes recursos para a interpretação alegórica e para o alcance do senso místico das palavras sagradas, sem que os monges se tivessem valido predominantemente da dialética e da filosofia, como o fez a teologia escolástica, sobre ser a teologia dos monges feita em função da vida no mosteiro, do seu apego ao passado e aos Padres da Igreja e da própria experiência espiritual [161]. Com efeito, a filosofia nunca foi o forte da educação monástica. Antes de tudo, porque na primeira parte da Idade Média não houve estudo da filosofia propriamente dita, pois o seu ensino desaparecera ainda no fim do mundo antigo e, depois, porque os monges não afinavam com o seu conhecimento, já que o seu desiderato era estritamente religioso, teológico, ascético e místico. Aliás, tornou-se vera tradição monástica entender por filosofia a própria vida monástica, como o demonstramos em nosso livro Gênese, Significado e Ensino da Filosofia no Século XII.

20. As legislações monásticas mais antigas tratavam dos estudos e das escolas que, como dissemos, se impuseram naturalmente à vida monacal. Conta Posídio na Vida de Santo Agostinho que este, logo após a ordenação sacerdotal, começou a viver com os companheiros segundo o modo e a regra dados pelos santos apóstolos [162]. Conforme o relato das Confissões (Lib. VIII, VI, 15), Agostinho visitara um mosteiro em Milão e outros em Roma e admirara a vida dos santos homens entregues à oração, ao jejum, à prática das virtudes em comunidade e ao trabalho manual. Na sua Segunda Regra, ele prescreve várias horas de estudo [163]. E na obra De opere monachorum o Bispo de Hipona impõe aos seus monges o preceito do trabalho [164]. Na Regula monachorum, composta de trechos extraídos das obras de São Jerônimo e que serviu de norma para várias ordens religiosas, podem ler-se muitos passos com acentos fervorosos a respeito da leitura, do estudo, da meditação da Bíblia e do manuseio dos livros pagãos [165]. No mosteiro de Marmoutier, fundado por São Martinho de Tours no século IV, os monges mais velhos dedicavam-se à oração, enquanto os mais jovens associavam às preces os exercícios de caligrafia e a cópia de manuscritos, trabalho reservado principalmente aos noviços que ainda não conseguiam rezar por longo tempo e eram tentados pelo demônio da preguiça. Depois de ter feito esse apontamento, Bardy afirma que pela metade do século V não teriam existido no Ocidente escolas monásticas propriamente ditas e que os mosteiros recebiam pouquíssimos meninos destinados à profissão monástica [166]. Essa orientação inicial do monaquismo do Ocidente quanto à escola interna, destinada aos candidatos à vida monástica, fora antecipado pelas diretrizes traçadas por São Basilio, o grande legislador oriental, a respeito da educação dos meninos e meninas nos mosteiros masculinos e femininos e dos.seus respectivos estudos [167]. São Basílio já notara a conveniência de separar as residências dos meninos e dos adultos nos mosteiros, tendo observado que os jovens precisam de movimento e que os mais velhos não devem ser perturbados [168]. Montalembert, referindo-se ao abade Magloire, que na ilha de Jersey dirigia a educação dos meninos nobres, conta que estes iam recitar as suas lições, em alta voz, em meio aos rochedos batidos pelas vagas, a fim de não perturbarem a sesta dos professores [169].

21. Apesar da opinião de Bardy sobre as primeiras escolas monásticas do Ocidente, Léon Maitre, autor de obra notável sobre as escolas episcopais e monásticas, declara que o ensino se recolheu nessas escolas, logo que a voz dos retóricos romanos deixou de ser ouvida, e elas foram os santuários e os refúgios seguros da cultura intelectual, especialmente na Gália. Enquanto a Irlanda fruía de tranqüilidade para os estudos, a cultura se difundia na Grã-Bretanha e as escolas eram florescentes em Pavia, Roma, Pisa e Aquiléia, a Gália gemia e se afundava na ignorância devido aos ataques muçulmanos, às rapinas ocorridas sob Carlos Martel, à fraqueza do governo dos reis merovíngios, às guerras civis e à pilhagem dos bispados e das abadias [170]. A Gália só iria conseguir superar essa lastimável situação com o advento de Pepino, o Breve, e com as reformas política, religiosa e educacional sob os carolíngios. E aí começará a fase esplendorosa das escolas monásticas no reino franco e na Germânia. Montalembert, encantado com a floração dessas escolas, chega até ao exagero de afirmar que "a educação foi o principal emprego da atividade monástica durante toda a Idade Média" [171], como se a Ordem Beneditina tivesse o mesmo escopo das modernas congregações docentes. Na verdade, pode-se reconhecer que a Regra de São Bento já legisla quanto à educação das crianças e que a escola acompanha a ereção dos mosteiros beneditinos, de tal modo que, segundo afirmação do mesmo Montalembert, "tout monastère était une école" [172].

22. Diz a Regra beneditina, no capítulo 70: "A diligência da disciplina e guarda das crianças até quinze anos de idade caiba a todos, mas, também isso, com toda medida e inteligência" [173]. No capítulo 30, São Bento enuncia dois princípios pedagógicos. Primeiro, "cada idade e cada inteligência deve ser tratada segundo medidas próprias" e, segundo, quando meninos e adolescentes cometerem alguma falta, "serão punidos com muitos jejuns ou refreados com ásperas varas, acris verberibus". O capítulo 37 da Regra aconselha o espírito de compreensão, a misericórdia paia com os velhos e as crianças no que tange à alimentação. O capítulo 45 prescreve pancadas - açoites com varas por certo - infantes autem pro tali culpa vapulent [174]. Convém observar, ainda, que de início os monges eram religiosos com os três votos prestados a Deus e estáveis nos mosteiros, mas não eram sacerdotes, tanto que a Regra diz no capítulo 62: "Se o Abade quiser pedir que alguém seja ordenado presbítero ou diácono para si, escolha, dentre os seus, quem seja digno de desempenhar o sacerdócio". A atividade sacerdotal externa dos monges só começou mesmo, quando São Gregório Magno enviou missionários beneditinos para a Inglaterra e quando desta partiu São Bonifácio, a fim de pregar o Evangelho aos bárbaros da Germânia. Especialmente no início da Ordem Beneditina, portanto, os monges podiam estudar ou lecionar, assim como punir os alunos indisciplinados, sem serem sacerdotes. Ainda nos primeiros dias da comunidade beneditina, segundo o relato de São Gregório Magno, muitos patrícios e cristãos, nobiles et religiosi, confiaram a educação dos filhos aos monges: "Por esse tempo, também, começaram a afluir de Roma pessoas nobres e piedosas que lhe davam (a São Bento) os filhos, a fim de que os criasse para Deus todo-poderoso. Foi então que Equício fez a entrega de Mauro, e o nobre Tértulo, a de Plácido, flores das esperanças paternas. Mauro, adolescente que se distinguia pelos bons costumes, começou a prestar auxílio ao Mestre, enquanto Plácido ainda se achava em idade infantil." Mauro e Plácido, por conseguinte, prefiguram a vasta posteridade dos alunos das escolas beneditinas onde, conforme São Gregório Magno, seriam educados para o Deus Onipotente [175]. Sabe-se que as escolas dos mosteiros acolhiam tanto os nobres rebentos da aristocracia, quanto os pobres filhos dos servos. A "escola de serviço do Senhor", que São Bento concebeu e fundou, recebia os postulantes e dava-lhes os meios imprescindíveis à recitação do sagrado louvor e às pias meditações, à lectio divina, à contemplação sobrenatural a que chegava o monge com o auxílio da leitura da Bíblia, das obras dos Santos Padres e dos mestres da vida monástica. Por isso, diz São Bento, no capítulo 48 da Regra, que a ociosidade é inimiga da alma e os monges devem dividir o tempo livre, fora do Ofício Divino, entre o trabalho manual e a leitura espiritual, lectio divina, mas que serão verdadeiros monges quando viverem do trabalho das suas mãos a exemplo dos Pais e Apóstolos. "São Bento não quer dizer absolutamente, explica D. Ildefonso Herwegen, que o trabalho manual pesado seja da essência do estado monástico. Apenas alega o fato de que os antigos Padres praticaram semelhante trabalho e que, por isso, podem servir de modelo" [176]. Foi, portanto, em conseqüência do opus primarium, o louvor de Deus e o serviço do Senhor, que brotaram do tronco beneditino os ramos do trabalho intelectual e manual de que os monges foram modelos para pessoas e povos. A lectio divina implicava a leitura, a existência de biblioteca, a cópia de manuscritos e a composição de livros, manuscritos e livros também para vender e assim ajudar a subsistência do mosteiro. No entanto, toda a tradição beneditina, observa Dom Jean Leclercq, reproduzirá a existência de São Bento; scienter nescia, et sapienter indocta que preconiza o ensino da douta ignorância, que o vive e o conserva no patrimônio cultural da Igreja como paradoxo necessário [177].

23. Segundo Montalembert, se quiséssemos enumerar as principais escolas beneditinas, seria preciso nomear todas as grandes abadias, pois a maior parte delas constituía vastas casas de estudos freqüentadas por filhos de servos e de pobres e pelos da nobreza e dos homens livres. As mais famosas foram as de Monte Cassino, São Maximino de Trèves, Santo Albano de Maiença, Prüm, Fulda, Hirschau, Gandersheim. Nos mosteiros germânicos de São Gall, Reichenau, Murbach, Santo Emmeran de Ratisbona, Tegernsee, Benediktbeuern e Werden, cultivou-se a língua alemã que foi usada no ensino e nos livros. Através de glosas interlineares, os monges davam a tradução alemã dos termos latinos em textos bíblicos, canônicos e literários, sobre prepararem traduções de orações e trechos doutrinários. Os sábios monges alemães, segundo Schnürer, fixaram por escrito uma parte do tesouro poético do seu próprio povo como, à volta do ano 800, no mosteiro de Fulda se transcreveu o canto de Hildebrando, únicos salvados da epopéia germânica do antigo idioma alto-alemão. Na França notabilizaram-se as escolas monásticas de Fleury, Gorze, Corbie, Saint-Denis, Saint-Martin de Tours, Saint-Bénigne de Dijon, Saint-Vincent de Toul, Saint-Germain des Prés, Luxeuil, Aurillac, Saint-Remy de Reims, Fleury, Saint-Pierre de Gand. Na Espanha do século VII avultaram as de Agali, Asán, Cauliana, Santa Eulália de Mérida. Cerca de 570, no capítulo XI da sua Regula ad monachos, São Ferreol de Uzès declarava não ser lícito ignorar as letras a quem pretendesse reivindicar para si próprio o nome de monge [178]. As regras monásticas surgidas na península ibérica, fora da órbita beneditina, insistiam igualmente na existência das escolas, dos livros e do estudo. Santo Isidoro de Sevilha, ao tratar do trabalho dos monges na sua Regra, redigida entre 615 e 619, recomenda a leitura e proíbe aos monges os livros pagãos ou heréticos, "pois é preferível ignorar as suas doutrinas perniciosas a cair no laço dos seus erros por experiência própria". A Regra do visigodo São Frutuoso, redigida à volta de 646, prescreve a leitura e recomenda que os meninos recitem as lições diante dos decanos [179]. Além da Regula monachorum, São Frutuoso, que foi bispo de Braga, escreveu a Regra Comum, Regula Communis, para os mosteiros dúplices em que entravam famílias inteiras com filhos e filhas, mesmo de tenra idade [180].

24. Portugal deve a São Martinho Dumiense a sementeira pujante da vida eclesiástica e do monaquismo nos longínquos tempos do reino dos suevos, no século VI, aonde ele teria aportado cerca de 550. Ele nasceu na Panônia, que abrangia parte da Hungria, da Áustria e da Iugoslávia atual, no primeiro quartel do século VI, e morreu a 20 de março de 579. São Martinho colaborou com o rei Teodomiro na conversão dos suevos ao catolicismo. Fundou o mosteiro de Dume, onde veio a ser bispo a 4 de abril de 556. Essa diocese-mosteiro foi caso único no Ocidente e São Martinho foi eleito, também, bispo de Braga em 569, mas sem abandonar o bispado de Dume. Ele compôs vários opúsculos ascético-morais, canônico-litúrgicos e poéticos. Ao primeiro grupo pertencem os livrinhos de moral inspirados nas obras de Sêneca. São os chamados opúsculos senequistas. Escreveu, também, A Correção dos Rústicos, instrução sobre a vida paroquial e de combate ao paganismo remanescente nas aldeias. São Martinho traduziu do grego para o latim - pois viajara pelo Oriente e convivera com os monges - uma coleção anônima de apotegmas que se denominou Aegyptiorum Patrum Sententiae, e o seu discípulo em Dume, Pascásio, traduziu também do grego outra coletânea anônima, De vitis Patrum [181]. Segundo Fortunato de Almeida, "data pelo menos do século VII a prática de se educarem meninos nos mosteiros da Lusitânia e é provável que seja mais antiga"[182]. Depois de tratar dos monges de São Martinho de Dume e de São Frutuoso de Braga que foram pregadores, copistas de livros e mestres de meninos, Mário Martins assevera que, à distância de mais de mil anos, "esses monges iam educando a consciência do povo português, davam-lhe interioridade e sensibilidade religiosa, uma maneira cristã de encarar a existência, uma tabela de valores" [183]. Frei José Mattoso não deixa de concordar com esse ponto de vista, apesar de certo pessimismo pois, embora diga que a produção literária portuguesa anterior a 1150 seja paupérrima e só inclua alguns anais e vidas de santos, reconhece que os antigos monges portucalenses arrotearam o terreno para o florescimento da cultura. Eles cultivaram o latim e a música, mantiveram bibliotecas, estudaram o direito civil e o canônico, promoveram o ensino das primeiras letras, redigiram crônicas, estudaram a Bíblia e as obras dos Santos Padres e prepararam o caminho que haviam de perlustrar um Santo Antônio, um Mestre João de Deus, um Mestre Vicente, um Silvestre Godinho ou um Pedro Hispano [184].

25. Ozanam saudou a Itália como "o último asilo da antigüidade e o primeiro foco de luz da Idade Média" [185]. Ozanam tinha razão, mas Hanson também tem a sua, quando considera a Irlanda como "o último asilo das letras" no início da Idade Média [186]. Os mosteiros irlandeses iniciaram o seu extraordinário desenvolvimento, desde o século IV e, tal como os italianos e os ibéricos, recrutaram os seus membros na classe camponesa, ainda que fossem dirigidos por herdeiros de famílias nobres ou reais. As escolas monásticas da Irlanda substituíram as escolas tradicionais dos drúidas e dos bardos. Conforme Hanson, quando São Patrício chegou à Irlanda, já havia escolas de letras, de direito, de história, de poesia, de arte, e a seu lado foram surgindo e florescendo as escolas dos mosteiros. No fim do século VI, a Irlanda permanecia indene às invasões e as suas escolas sobreviveram às lutas dos clãs e aos ataques dos dinamarqueses, ministrando o ensino da gramática, da retórica e da poética latina junto com o da língua grega e da filosofia. Os irlandeses, chamados então de Scoti, ganharam o continente em pacífica invasão de missionários e letrados, depois de haverem difundido o Evangelho e as letras na Grã-Bretanha. Hanson cita os luzentes centros escolares de Clogher, Glendalough, Armagh, Aran, Monastereven, Monasterboyce, Clonard, Glasnevin, Bangor e outros, e declara perentório que no século VI a Irlanda inteira se transformara praticamente numa universidade [187].

26. As escolas monásticas da Grã-Bretanha tomaram impulso no século VII e resplandeceram no seguinte, tendo fornecido mestres famosos aos reinos continentais e à corte de Carlos Magno [188]. Santo Aldelmo, discípulo do monge irlandês Maidulfo, de Teodoro de Tarso e de Adriano, foi abade de Malmesbury na região de Wessex e morreu bispo de Sherborne em 709, depois de quatro anos de episcopado, tendo nascido de nobre prosápia cerca de 639 ou 640. Foi poeta, escreveu várias obras e animou a escola do mosteiro de Malmesbury, tendo reunido alunos irlandeses e anglo-saxões. Biscop Baducing, mais conhecido por Bento Biscop, fundou o famoso mosteiro duplo de Wearmouth-Yarrow, sob a influência de Roma, situado perto de York na. Nortúmbria. Esteve várias vezes em Roma, donde trazia muitos livros e obras de arte. A sua obra foi continuada por Ceolfrido, mas o mais ilustre florão do mosteiro de Wearmouth-Yarrow foi São Beda, o Venerável, que, segundo Schnürer diz com toda a razão, "foi um dos maiores e melhores mestres que teve a Idade Média". Finalmente, convém lembrar que na Grã-Bretanha floresceram de modo notável as escolas e as letras nos mosteiros femininos que Montalembert celebra com entusiasmo no tomo V da sua obra Os Monges do Ocidente.

27. A Regra de São Bento difundiu-se gradualmente através da Europa e substituiu as outras que vigoraram por algum tempo em muitas regiões. Os monges cumpriram a sua missão precípua e elevaram a Deus o solene louvor em nome da humanidade, durante os séculos difíceis e turbulentos da primeira parte da Idade Média e, por força das circunstâncias, tornaram-se os seus educadores.

Com todos os percalços das empresas humanas, os beneditinos deram conta da sua tarefa e concretizaram durante as centúrias medievais a visão profética do seu fundador. Segundo o relato de São Gregório Magno, o abade e diácono Servando foi visitar São Bento. De noite, o santo recolheu-se ao seu aposento no alto da torre e Servando ocupou um quarto no pavimento inferior. Diante da torre situava-se a grande morada onde os discípulos de ambos descansavam. Enquanto estes dormiam, São Bento em vigília piedosa, antecipando-se às orações noturnas, de pé junto à janela, rezava a Deus onipotente. Subito, intempesta noctis hora respiciens, de repente, àquela alta hora da noite, ao olhar para fora, ele viu projetar-se do alto uma luz que, difundindo-se em torno, afugentava as trevas da noite e brilhava com tal esplendor que, a fulgurar no meio da escuridão, era mais clara que a luz do dia, ut diem vinceret lux [189]. Querendo alguém por testemunha, São Bento chamou em alta voz pelo diácono Servando, duas ou três vezes, e este acorrendo subiu, olhou para o alto e ainda logrou divisar tênues rastos de luz. Tal como Servando, nós mal percebemos hoje, através dos documentos, vestígios da claridade que a Ordem Beneditina espargiu em ondas de evangelização, de testemunho evangélico, de cultura e de instrução, através da Idade Média, e que ela continua, fiel à intenção do seu glorioso Patriarca, a emitir suavemente do remanso do claustro.