CAPÍTULO V. A RENOVAÇÃO DOS ESTUDOS EM TRÊS RENASCIMENTOS.

1. Este capítulo é um prolongamento do anterior, com o acréscimo de novos dados sobre as escolas e com informações particulares a respeito do renascimento das letras e dos estudos nos reinos de Carlos Magno, de Alfredo o Grande e de Otão o Grande. Entre essas magnitudes reais e imperiais avulta, evidentemente, a primeira. Entre os feitos que valeram a esses três notáveis governantes os epítetos de Grandes ou Magnos está a promoção do estudo e a restauração das escolas que em muitos lugares haviam desaparecido e que, em muitas regiões, não existiam em prejuízo dos seus habitantes, especialmente numa época de tanta insegurança, de agitações e de perigos sem conta.

2. A expansão muçulmana, após a morte de Maomé, desenvolveu-se de modo fulminante. No ano de 635 deu-se a capitulação de Damasco e no ano seguinte completou-se a conquista da Síria. Em 637 ou 638 os árabes tomaram Jerusalém e conquistaram a Mesopotâmia e a Pérsia. Em 641 ocuparam Alexandria e o Egito, tendo passado depois a dominar as possessões bizantinas da África do Norte. Os árabes assimilaram a cultura dos povos conquistados, tendo assimilado a ciência e a filosofia dos gregos, e a arte de gregos e persas, mas tendo imposto em troca a todos eles as suas instituições e a sua língua. O direito corânico substituiu o romano e o árabe suplantou o grego e o latim. Após a conquista de Cartago em 698, os muçulmanos dominaram o mar Mediterrâneo com os seus navios e, depois da conquista do Marrocos, invadiram a península ibérica. Em 711, sete mil berberes comandados por Tarik atravessaram o estreito de Gibraltar e, até o ano de 712, já haviam dominado toda a Espanha. De 720 a 737 atacaram a Gália, tomaram e saquearam as cidades de Autun, Avinhão, Lião e a Aquitânia, mas foram repelidos por Carlos Martel e Pepino, o Breve. Submeteram a Sicília a freqüentes ataques de 720 a 753 e tomaram Siracusa a 21 de maio de 878. Carlos Magno enfrentou-os nas fronteiras da Espanha e manteve-se na defensiva, pois não tinha navios e os árabes dominavam o mar. Na primeira metade do século IX os muçulmanos devastaram o litoral italiano e chegaram até a profanar a igreja de São Pedro em Roma, em 846. Aterrorizaram a campanha romana em 876 e 877, incendiaram e destruíram a abadia de Monte Cassino em 883, continuando no século seguinte com as suas incursões de pirataria no litoral italiano, e a Itália só escapou ao jugo dos árabes graças ao auxílio da frota bizantina. Acrescentem-se a esse quadro de desolação provocada pelos ataques dos sarracenos, as incursões pelos rios no século IX dos normandos, e por terra, dos eslavos, e ver-se-á que a situação do Ocidente era instável e precária e de modo algum propícia às artes pacíficas que só florescem, quando os homens vivem tranqüilos, sem medo e sem tensões, embora algumas pessoas de especial valor continuassem a estudar e a trabalhar, apesar das constantes ameaças dos piratas e dos bandoleiros que traziam o crime na própria natureza e na profissão. O comércio com o Oriente praticamente sumiu, as cidades ficaram anuladas, uma vez desprovidas de comércio, levantaram-se e fortificaram-se os castelos no campo. Em conseqüência, também, do domínio muçulmano resultaram alguns proveitos, quando muitos sírios se transladaram para Roma nos séculos VII e VIII, tanto que alguns s., tornaram panas, como Sérgio 1 (687-701) e Constantino I (708-715). Com eles emigraram para o Ocidente vários eruditos que trouxeram manuscritos e difundiram a língua grega. O papiro desapareceu, devido à supressão do comércio, e começou a surgir o pergaminho, embora os papas se abastecessem de papiro graças aos portos bizantinos de Nápoles, Gaeta, Amalfi e Veneza. Foi nessa época de luta e de enfraquecimento da vida social, após o período decadente dos merovíngios na Gália, que entrou em cena o rei dos francos, Carlos Magno, coroado imperador do Ocidente no dia de Natal do ano 800 pelo papa Leão III. Carlos Magno, desde que se tornara rei dos francos, já se apercebera da crise moral e religiosa na Igreja. Bispos e monges viviam como leigos em guerras e divertimentos. Exceto ínfimo número de leigos cultos, como alguns reis da Grã-Bretanha, a maioria dos clérigos e leigos viviam alheios à cultura latina e nos próprios mosteiros as cerimônias haviam perdido o brilho, pois os monges não sabiam cantar e pronunciavam erradamente o latim. Ora, Carlos Magno sentiu-se investido de missão superior, não só política, como religiosa e cultural e, por isso, dedicou a vida à unificação da Europa, à ilustração do povo e à reforma da Igreja.

3. Na sua campanha de defesa do reino franco e da cristandade, Carlos Magno, segundo o seu biógrafo Eginhardo, travou guerras com os saxões, com os bretões, os lombardos, os eslavos, os avaros, os normandos e os sarracenos, guerras que ele conduziu, consoante o biógrafo, summa prudentia atque felicitate, com suma prudência e felicidade. Carlos Magno reinou durante 47 anos, fez 53 expedições militares, lutou por oito anos com os avaros e guerreou durante trinta com os saxões e só no decurso dessa última campanha excedeu-se por um ato de crueldade no massacre dos saxões em Verden. Ele desenvolveu a sua notável atividade legislativa, através das Capitulares, nos últimos anos da sua carreira, depois de 800, uma vez que, nascido em 768, faleceu a 28 de janeiro de 814. O seu reino, diz Kurth, foi o esforço mais consciencioso e considerável que alguma sociedade já fez em prol da civilização e "esse diretor dos estudos", no seu século, e "promotor da literatura" começou por si próprio a reforma que sonhou para os seus contemporâneos [190]. A reforma da Igreja no reino franco, iniciada no século VIII por São Bonifácio, através da atividade missionária, da reunião de sínodos, da criação de novos bispados e mosteiros, foi continuada por Carlos Magno e por seu filho Luís, o Piedoso, através de minuciosa legislação eclesiástica, especialmente por meio da Admonitio Generalis de 789, da capitular de 802 e de numerosos sínodos episcopais. Entre outras medidas, Carlos Magno estabeleceu a vida canônica para os sacerdotes da catedral, unificou a vida monástica segundo a Regra Beneditina, regulamentou as práticas litúrgicas e reforçou a observância das leis através da instituição dos missi dominici, funcionários leigos e membros do clero com o encargo de fiscalizar a administração do Império. Na reforma eclesiástica Carlos Magno contou com a valiosa colaboração de eclesiásticos como Alcuíno, Paulo o Diácono e São Bento de Aniana. Ele tratou, ainda, de selecionar os bispos e os abades - pois muitos deixavam a desejar sob todos os aspectos - e, para dispor de pessoal qualificado, organizou na sua corte itinerante uma escola para crianças, a fim de preparar boas gerações de homens da Igreja e de funcionários imperiais, sobre ter fundado com Alcuíno uma academia, a Academia Palatina, que cultivou os estudos clássicos e difundiu pelo Império a reforma das escolas ou a sua fundação. Christopher Dawson observa no seu livro A Formação da Europa que o ideal teocrático dominou o governo carolíngio, de modo que o novo Estado franco, mais que o bizantino, foi um Estado-Igreja onde bispos e clérigos exerciam funções administrativas e onde o imperador legislava em assuntos puramente teológicos e eclesiásticos.

4. Como informa Eginhardo, no capítulo 19 da biografia de Carlos Magno, este quis que os seus filhos e filhas recebessem excelente educação, iniciando-se nas artes liberais, "às quais ele próprio se aplicava". Depois, os filhos, segundo o costume franco, aprendiam a montar a cavalo, a manejar as armas e a caçar, enquanto as filhas se dedicavam ao trabalho da lã, ao manejo da roca e do fuso e a tudo quanto convém à vida honesta. Graças à sua pertinácia, Carlos Magno, além da língua materna, dominava perfeitamente o latim e sabia muito bem o grego, estudou as artes liberais, conhecia as obras-primas da literatura profana e sagrada e, segundo Eginhardo, tinha predileção pela Cidade de Deus de Santo Agostinho e só não conseguiu, talvez devido à mão calejada pelo manejo da espada, sobressair na habilidade caligráfica tanto que fazia de travesseiro as tabuinhas e as folhas de pergaminho, para se exercitar na caligrafia nas horas de insônia [191]. Carlos Magno era profundamente religioso, construiu igrejas e mosteiros, apreciava as belas cerimônias litúrgicas e cercou-se de um vasto círculo de eruditos eclesiásticos com os quais formou a escola palatina. Os membros e mestres dessa academia faziam literatura de corte, compunham poesias, epigramas e enigmas e adotaram pseudônimos de origem clássica, mitológicos ou religiosos. A figura máxima era a de Alcuíno, monge anglo-saxão (c. 735-804), conhecido por Flaccus na Academia. O visigodo Teodulfo era Píndaro, Paulino de Aquiléia, Timóteo; o franco Modoin era Naso; Carlos Magno era Davi; Megenfred, camareiro real, era Thyrsis; o senescal Andulfo era Menalco; o escanção ou copeiro Evrard ou Eberardo era Nemias; o arcebispo Hildebald de Colônia, Aarão; Béornrad, futuro arcebispo de Sens, Samuel; Arn, bispo de Salzbourg, Áquila; Riculfo, arcebispo de Maiença, Flavius Damoetas; Adalardo, primo do rei e futuro abade de Corbie, Antonius, e o seu irmão Wala, Arsenius; o diácono Fridugísio, aluno de Alcuíno, Nathanael; Wizo e Sigulf, dois outros alunos anglo-saxões de Alcuíno, Candidus e Vetulus; um quarto aluno, Rigbodo, Macherius. Corydon era personagem não identificado e os dois únicos leigos nesse brilhante círculo de letrados foram poetas da corte: Eginhardo, apelidado Nardulus por ser pequeno, é chamado de Bezeleel na Academia, e Angilberto, Homero. Vê-se, pois, que além dos pseudônimos literários como Virgílio, Horácio (Flaccus), Homero, os pseudônimos clássicos eram tomados das églogas de Virgílio, embora predominassem por importância os bíblicos.

5. A escola palatina começou no tempo de Pepino que enviou clérigos a São João de Latrão, em Roma, a fim de estudarem o canto e as artes liberais e incumbidos de pedir livros ao papa Paulo V, e insistiu com os bispos e os abades para que executassem as decisões disciplinares dos concílios de Léptines e Soissons [192]. A vida de Adalardo ensina-nos que ele recebeu a mesma educação que os jovens nobres na escola do palácio de Pepino. Aí, Carlos Magno hauriu os primeiros rudimentos das artes liberais, cujo estudo veio retomar aos quarenta anos com Pedro de Pisa e Alcuíno. Nos primeiros tempos de Carlos Magno, a escola foi dirigida pelos discípulos de Alcuíno, o anglo-saxão Béornrad que recebeu em 777 a abadia de Echternach e o irlandês José Scotus, e talvez lá se encontrasse outro irlandês, Dungal, perito em astronomia. Após a segunda expedição de Carlos Magno à Itália, vieram com ele o lombardo Fardulfo em 776, como desterrado, e os gramáticos Paulino e Pedro de Pisa em 776 ou logo mais. Em 782, chegou à corte de Carlos Magno Paulo Warnefried ou Paulo Diácono, poeta e historiador. Nesse mesmo ano, ingressou na corte carolíngia o monge Alcuíno que dirigiu a escola episcopal de York desde 767 e que Carlos Magno encontrou em Parma por feliz coincidência, em 781, quando Alcuíno retornava de Roma com o pallium para o seu arcebispo Eanberto de York. Quando Alcuíno passou a dirigir o mosteiro de Tours em 796, a direção da escola palatina passou a Eginhardo. Com a onda de emigração espanhola em 780, vieram colaborar na corte carolíngia os espanhóis que brilharam sob Carlos Magno e Luís, o Piedoso, a saber: Teodulfo, Cláudio de Turim, Prudêncio Galindo, Agobardo de Lião e Floro de Lião.

6. Alcuíno foi o braço direito de Carlos Magno na reforma eclesiástica, na restauração dos estudos e na difusão da cultura. Alcuin, Alcuinus, Alcvinus Alcuinus ou Albinus nasceu na Nortúmbria, de família anglo-saxônica, estudou na escola episcopal de York que veio a dirigir durante o episcopado do seu antigo mestre, o arcebispo Aelberto. Foi ordenado diácono e nesse grau do ministério eclesiástico permaneceu a vida inteira. Quando foi a Roma solicitar o pallium [193] para o seu arcebispo Eanberto que havia sucedido a Aelberto, encontrou-se com Carlos Magno em Parma em 781. Acolhido na corte franca, recebeu as abadias de Frerrières e de Saint-Loup de Troves, participou da academia palatina, animou o culto das letras e dirigiu a escola do palácio. Encarregado por Carlos Magno, combateu o adocianismo de Félix de Urge] e Elipando de Toledo por meio de escritos e nos concílios de Francfort de 794 e de Aix-la-Chapelle em 799 [194]. Em 796, obteve de Carlos Magno a abadia de São Martinho de Tours onde passou a residir definitivamente a partir de 801, tendo organizado preciosa biblioteca e composto muitas obras de vários gêneros, inclusive livros didáticos. Tinha paixão pelos livros e mandava executar cópias admiráveis em manuscritos com letras doiradas e desenhos coloridos, "quase tão fáceis de ler quanto os nossos livros impressos" [195]. Além de ser teólogo, poeta e filósofo, Alcuíno foi o dedicado mentor da escola palatina na qual introduziu o trivium e o quadrivium, tendo composto opúsculos didáticos como os diálogos sobre gramática, ortografia, a retórica e as virtudes, a dialética, a Disputa do jovem real e nobilíssimo Pepino com o escolástico Albino, e mais um outro escrito sobre a lua e o ano bissexto. Godefroid Kurth esboça "a figura mansa e pensativa" de Alcuíno que ele julga "o tipo mais eminente do professor eclesiástico", para quem o ensino fazia parte do sacerdócio, e afirma com plena razão que o tesouro do saber antigo passou aos francos por intermédio do mestre anglo-saxão [196]. Na sua famosa carta a Carlos Magno, de 798, Alcuíno declara ao seu augusto discípulo que Paris podia tornar-se uma nova Atenas na França e muito superior à famosa cidade grega das escolas, graças à doutrina cristã que permite enriquecer e alcandorar as artes liberais com os sete dons do Espírito Santo [197]. Numa carta anterior, de 796, o acadêmico Flaccus Albinus dirige-se ao digníssimo rei Davi, dizendo-lhe, entre muitas observações interessantes, que o tempo desta vida foge veloz e não volta mais e, por isso, devemos tê-lo como algo precioso e não o perder por negligência; e ele passa então a descrever o ensino que ministrava na abadia de Tours sobre exegese bíblica, artes liberais, a gramática em primeiro plano, mas de modo especial a astronomia. De seguida, Alcuíno celebra o louvor do estudo e da sabedoria, "a coisa mais sublime para tornar a vida feliz", nil esse ad beatam vitam sublimius adipiscendam... e confessa que na manhã da vida semeou o saber na Grã-Bretanha e, agora, no outono da existência não o deixa de fazer na França [198]. O mestre e conselheiro de Carlos Magno, o mentor intelectual da Europa no século VIII, morreu em Tours a 19 de maio de 804.

7. Consideremos agora as medidas tomadas por Carlos Magno em prol das escolas e da promoção da cultura. O primeiro documento de capital importância para a renovação cultural do reino franco foi a Encyclica de emendatione librorum et officiorum ecclesiasticorum, a Carta-circular a respeito da correção dos livros e da reta recitação do ofício divino, escrita entre os anos de 776 e 784. Carlos Magno, ex Francorum et Langobardorum ac patricius Romanorum, declara estar empenhado em melhorar a situação das igrejas e lamenta o estado geral de ignorância, e decide restaurar o estudo das letras, tendo convidado os religiosos a se dedicarem às artes liberais e proposto o seu exemplo pessoal de estudioso dessas disciplinas. Informa haver providenciado a correção exata, examussim correximus, dos textos deturpados dos livros da Sagrada Escritura e, a exemplo do seu pai Pepino que implantou nas igrejas da Gália a cantilena sagrada segundo a tradição romana, ele tratou de corrigir o texto do Ofício Divino recitado por clérigos e monges, tendo contado para tal empreendimento com o auxílio de Paulo Diácono que fez em dois volumes a seleção dos melhores passos das obras dos Santos Padres e dos escritores eclesiásticos. Carlos Magno frisa que houve o máximo cuidado em depurar o texto sagrado dos vícios de linguagem e dos "dissonantes solecismos" [199]. Outro documento fundamental é a carta-circular dirigida a Baugulfo, abade de Fulda, em 787, Encyclica de litteris colendis, a respeito do ensino das letras. Carlos, rei dos francos e dos lombardos, patrício dos romanos, dirige-se ao abade Baugulfo, à sua congregação e aos fiéis entregues aos seus cuidados. Ele declara ter julgado útil que os bispados e os mosteiros, "cujo governo Cristo em sua bondade lhe confiou", Christo propitio, ad gubernandum comissa, além da ordem da vida regular e da observância da santa religião, proporcionem o ensino das letras, litterarum meditationes, aos que, por graça de Deus, têm capacidade para aprender. Diz Carlos Magno que a linguagem correta, recte loqui, agrada tanto a Deus como a vida honesta e que mestres e alunos devem saber ordenar e ornamentar as frases. Ele revela que nos últimos anos recebeu dos mosteiros muitos escritos piedosos vasados em linguagem espúria, sermo incultus, e que a língua desprovida de erudição, lingua inerudita, não consegue exprimir a contento os pensamentos inspirados por piedosa devoção, e acrescenta que a compreensão da Sagrada Escritura é prejudicada pela incompetência literária "e todos nós bem sabemos que os erros em matéria de significado são ainda mais perigosos que os erros das palavras"; e ele espera que a ciência dos monges se manifeste através da leitura e do canto, in legendo seu cantando [200]. Do mesmo ano de 787 é o decreto sobre as escolas de Osnabruck, dirigido a todos os fiéis da santa Igreja por Carlos, rei dos francos e dos lombardos, e vencedor dos saxões, necnon dominator et Saxonum, e por meio do qual ele concede isenção de taxas e lhes faz uma doação, contanto que os bispos assumam o encargo das negociações que surgissem entre o imperador dos romanos e o rei dos gregos e sustentassem escolas de latim e de grego in perpetuum, para sempre, de modo que nunca faltassem clérigos peritos nesses idiomas [201]. Na Capitular Eclesiástica de 23 de março de. 789, ele prescreve que os monges aprendam a cantilena romana que servirá para o Ofício Divino, segundo o desejo do seu pai Pepino, e, no mesmo ano de 789, recomenda aos pares que recrutem clérigos tanto entre os filhos de homens livres, quanto entre os filhos dos servos, e que as escolas monásticas e episcopais proporcionem aos meninos o ensino da leitura, dos salmos, do canto, do cômputo e da gramática, e que se utilizem livros bem corrigidos cujos textos os meninos não devem conspurcar na leitura ou na escrita. E se, porventura, for necessário passar aos manuscritos o Evangelho, o saltério e o missal, a cópia deve. ser feita com o máximo empenho por homens adultos [202]. No Concílio de Aix-la-Chapelle, em 802, Carlos Magno determinou o programa dos estudos para os candidatos ao sacerdócio [203]. Na Capitular de 803, prescreve resumidamente que os padres conheçam a Sagrada Escritura, o saltério, o ritual do batismo, o penitencial, o cômputo e o canto [204]. Como se pode verificar, através dos documentos, Carlos Magno instaurou escolas, reformou mosteiros, prescreveu programas e recomendou a cuidadosa formação dos estudantes destinados ao sacerdócio ou à vida monástica e ao preenchimento dos quadros da sua administração imperial. Mas é preciso ter em mente, outrossim, que, dadas as condições da época, eram essas as exigências mais prementes no campo da instrução. Ademais, lembre-se o mandamento promulgado por Teodulfo, bispo de Orleães em 797 - e já citado anteriormente no § 11 do capítulo IV - para os padres dos burgos e das aldeias manterem escolas gratuitas onde se dispensasse o ensino das letras às crianças que os fiéis trouxessem para receber instrução. E o Concílio de Arles de 813 determinou no cânon 19 que os pais e padrinhos cuidassem de fazer com que os seus filhos e afilhados fossem instruídos com a máxima diligência, erudire summopere studeant [205].

8. O herdeiro de Carlos Magno, seu filho Luís, o Piedoso (+ 840), prosseguiu no império franco com as reformas eclesiásticas que já empreendera na Aqüitânia, mas a Igreja chamou a si a direção das escolas que Carlos Magno restaurara e dirigira ciosamente. Em 817, em Aix-la-Chapelle, foi proclamada a Divisio Imperii que estatuía a sucessão imperial. O filho mais velho Lotário, de 22 anos, já ficava associado ao Império e foi coroado imperador. Os outros dois teriam o título de reis. Pepino ficaria com a Aqüitânia e Luís, o Germânico, com a Baviera e as suas dependências da Áustria, Panônia e Caríntia. O Concilio de 817 em Aix-la-Chapelle tratou de regular os estudos [206]. Em 824 Lotário promulgou a Constitutio pela qual a eleição do papa devia ser aprovada pelo imperador do qual o Estado pontifício passava, na verdade, a depender. Em 817, o Concílio de Aix-la-Chapelle, nos estatutos relativos à Regra de São Crodegango, determinou no cânon 45: "Não haverá no mosteiro senão uma escola para os oblatos" [207]. Essa medida foi tomada para assegurar a tranqüilidade da vida monástica em cuja reforma se empenhara São Bento de Aniana, o grande colaborador de Luís, o Piedoso. Na Capitular de Attigny em 822, no entanto, o imperador tomou sérias medidas quanto à educação, ao declarar: "Desejamos reformar com o máximo empenho as escolas de que nos descuidamos até aqui (hactenus), a fim de. que todo homem, menino ou adulto, que se educa para alcançar um grau eclesiástico, tenha um lugar determinado e um mestre conveniente. É preciso, todavia, que os pais ou os nobres senhores dos alunos se incumbam da sua subsistência, para que não deixem de estudar, por causa da pobreza. Mas, se não for possível reuni-los num só lugar, devido à extensão da paróquia, o que impediria a intervenção dos seus representantes, então que se fundem escolas em dois ou três lugares, conforme a necessidade e segundo os ditames da prudência". O imperador determina, em continuação, que, se as bispos não derem conta do recado por qualquer razão, caberá aos senhores das localidades tomar as devidas providências [208]. Noutra capitular de Aix-la-Chapelle, em 825, lembra o imperador Luís aos bispos e ao povo as decisões de Attigny concernentes às escolas, assim como a obrigação de os bispos zelarem pela sua manutenção nos lugares convenientes [209]. Já em 824, o Concilio de Paris lembrava que é dever do bispo manter escolas, pois a Igreja deve contar com defensores ilustrados, e o papa Eugênio II declarou estar informado de que professores e gosto pelas letras desapareciam, tendo determinado que se estabelecessem professores e doutores para o ensino das letras e das artes liberais e do dogma da Igreja em todas as dioceses, paróquias e lugares onde isso fosse necessário [210]. Nas Constitutiones Olonnenses, de maio de 825, Lotário afirma que o ensino desapareceu em certos lugares completamente devido à incúria ou à incompetência dos responsáveis e ele determina que os professores sejam zelosos e assistidos para o bom cumprimento de sua tarefa e aproveitamento dos alunos, e indica os lugares onde devem estar estabelecidas as escolas, para que ninguém pudesse alegar, contra o seu decreto, a distância das escolas ou a falta de recursos [211]. No Concilio de Paris de 829, os bispos solicitam ao imperador o estabelecimento de escolas públicas, scholae publicae nas três cidades mais bem situadas, in tribus congruentissimis imperii vestri locas... para que o esforço dispendido por Carlos Magno, e agora por Luís, não ficasse perdido. Essas escolas públicas, todavia, não eram públicas no sentido atual do termo, mas estavam abertas aos clérigos e aos monges de qualquer região.

9. No seu poema sobre a divisão do império, depois da morte de Luís, o Piedoso, o diácono Floro de Lião lamenta as desgraças da sua época: a opressão dos pobres, continuis praedis plebes miseranda laborat, as discórdias dos nobres, as violências e as rapinas, a humilhação da Igreja, a falta de autoridade e de ordem, nemo metum defert, sacras reverentia nulla est, e lembra a época feliz que passou, quando havia um só príncipe e um só povo e a lei e o juiz asseguravam a paz das cidades; quando os jovens aprendiam a doutrina sagrada e as crianças estudavam as artes literárias [212]. Com a deposição de Luís, o Piedoso, e as lutas internas que separaram os filhos, esboroou-se a unidade do império que se fragmentou em partes caracterizadas, mais ou menos, da forma como ainda hoje se conservam pelo território e pela língua. Apesar da simpatia de Carlos, o Calvo, pelos sábios e pelos poetas, e do momentâneo brilho da sua escola palatina, a decadência escolar prosseguiu e agravou-se finalmente com as terríveis invasões dos normandos do primeiro quartel do século IX à metade do século X. Os monges que escapavam aos morticínios viviam tolhidos pelo pavor e pela insegurança nos mosteiros, onde mal luzia ainda o interesse pelos estudos. Do que foram as razias dos normandos, por exemplo, traçou um belo afresco Abbon na sua obra O Assédio de Paris pelos normandos em que ele descreve em versos caprichados as guerras do duque Eudes e dos parisienses com os invasores dinamarqueses, em 853, que com a sua ação predatória detiveram a gloriosa marcha cultural do mosteiro de São Martinho de Tours. Ainda que os concílios de Meaux, em 845, e o de Paris, em 846, renovassem a obrigatoriedade dos cânones dos concílios anteriores quanto ao ensino, as escolas decaíram, desapareceram e mal se conseguia ministrar instrução aos clérigos pois, devido principalmente à raridade dos mestres, a ignorância era calamitosa.

10. O Concílio de Valença, às instâncias do rei Lotário, decretou a restauração das "escolas de literatura divina e humana, assim como do canto eclesiástico" [213]. Em 859, o Concílio de Saponières exortou os príncipes e os bispos a fundarem por toda parte "escolas públicas", uma vez que diminuíram o estudo e a compreensão da Sagrada Escritura, devido à falta de cultivo das ciências divinas e humanas [214]. Temos assim documentado o declínio das escolas e a decadência dos estudos, desde o fim do primeiro quartel do século IX até ao fim do século X, em virtude da instabilidade social, dos ataques e das invasões dos normandos, búlgaros, sarracenos e húngaros que iriam levar a sociedade ao regime feudal. Como diz Roberto S. Lopez em O Nascimento da Europa (págs. 109-111), desde a queda do Império Romano do Ocidente jamais a Cristandade enfrentara inimigos tão numerosos e brutais, como os invasores dos séculos IX e X: os salteadores e os piratas muçulmanos que assolaram as ilhas do Egeu, tendo chegado até aos desfiladeiros da Suíça alpina; os normandos ou escandinavos, que pilharam o litoral do Atlântico e do Mediterrâneo, penetraram no interior da França e alcançaram os limites da Toscana, os territórios russos e os arredores de Constantinopla, enquanto os húngaros estendiam as suas correrias e as devastações, tendo ido até à Aquitânia e às proximidades de Roma. Nesse período, como é fácil perceber, não podia haver animada vida cultural e a chama do saber foi alimentada apenas no recesso de alguns grandes mosteiros e, depois, nas grandes escolas episcopais, quando, por exemplo, no fim do século X a escola episcopal de Reims foi engrandecida pelo famoso mestre Gerberto de Aurillac. Mas é preciso não desconhecer os nomes refulgentes de vários estudiosos de prol na primeira metade do século IX: Rábano Mauro no mosteiro de Fulda, que se tornou arcebispo de Maiença; Valafrido Estrabão (Strabo) em Fulda e em Reichenau; Cândido em Fulda, Bernardo em Hirsfeld; Ludberto e Hidulfo em Hirsauge; Carlos em Maiença; Alfredo em Hildesheim; Haimon em Alberstad; Loup de Ferrières; Freculfo de Lisieux; Grimaldo na ativa abadia de Saint-Gall; Sedulius Scotus em Liège e o famoso filósofo e teólogo João Escoto Eriúgena. No século XI começou a surgir, de fato, a Europa moderna, deram-se grandes e positivas transformações sociais, cresceu lentamente a população, ressurgiu o comércio, reanimaram-se as cidades e as escolas voltaram a florescer. Note-se que no século XI a mais famosa escola foi a da abadia de Bec onde espargiram luzes os italianos Lanfranco e Anselmo, grandes teólogos, peritos em dialética e que promoveram o renascimento dos estudos sagrados e profanos.

11. Com a dinastia dos carolíngios desponta e firma-se no Ocidente o césaro-papismo, regime político em que imperadores ou reis pretendem o senhorio absoluto tanto no domínio temporal e civil como no espiritual e no eclesiástico. Carlos Magno foi a encarnação perfeita do soberano césaro-papista. É evidente que tal regime político é errôneo, injusto, pretensioso e fadado a gerar as piores conseqüências para a vida religiosa, como a história testifica nos casos do regalismo moderno na Áustria, em Portugal, e no Império brasileiro. Nos séculos VIII e IX, no entanto, graças ao espírito de fé, às boas intenções e à fidelidade à Igreja de um Carlomano, de um Carlos Magno ou de um Luís, o Piedoso, as atitudes césaro-papistas, apesar de semearem princípios que mais tarde só medrariam em tribulações para o povo cristão, tiveram o condão de gerar benefícios imediatos para a cristandade porque, infelizmente, o clero deixava muito a desejar. Muitos párocos eram escolhidos pelo senhor do domínio a que pertencia a igreja. Os reis e os nobres nomeavam também bispos e abades. Padres havia que ignoravam até o rito do batismo, só se preocupavam com a própria subsistência material, enquanto os bispos de origem nobre viviam mais como grandes senhores do que como eclesiásticos. Os maus costumes e a ignorância lavravam no seio do clero, sacerdotes não obedeciam aos bispos, as irregularidades reinavam nas abadias e os bispos não só bancavam os grandes senhores como procediam, às vezes, mais levados pelas paixões do que pelo seu dever de ofício, já que não se podia falar em dever de vocação onde esta muitas vezes jamais existira. Carlomano com o auxílio de São Bonifácio; Carlos Magno secundado por Alcuíno e por uma plêiade de monges e prelados de escol, e Luís, o Piedoso, com a valiosa colaboração de São Bento de Aniana, o grande reformador monástico da época, trataram de remediar a situação e daí as resoluções dos concílios e as capitulares em prol da reforma da Igreja.

12. Um fato é líquido e certo. O movimento cultural suscitado por Carlos Magno perdurou até o século X e deixou frutos permanentes por muito mais tempo. Dentre as grandes realizações do renascimento carolíngio, além das que se deram na arte, por exemplo na arquitetura, cumpre destacar o desenvolvimento da letra minúscula e a ênfase dada aos estudos clássicos. Como já observamos em capítulo anterior, a nova escrita de caracteres latinos, que simplificou a ortografia, deveu-se aos monges irlandeses e desenvolveu-se a partir da velha escrita cursiva romana, própria dos negócios e da burocracia. As escritas minúsculas da Gália merovíngia, sob a influência irlandesa e pela necessidade caligráfica das profissões, deram origem ao tipo de letra minúscula que se tornou comum na Europa ocidental, tendo sobrepujado a escrita visigótica florescente na Espanha do VIII ao XII século, a beneventana, do sul da Itália (Benevento), e que teve por centro Monte Cassino, assim como a escrita corrente na costa adriática sob a influência bizantina. A multiplicação dos manuscritos por ocasião do renascimento carolíngio determinou o notável desenvolvimento da escrita que parece ter surgido na abadia de Corbie na metade do século VIII e ter alcançado o máximo refinamento na escrita peculiar à abadia de São Martinho de Tours sob a direção de Alcuíno. Esse feito carolíngio influenciou a escrita dos humanistas do Renascimento italiano, de modo que os nossos atuais caracteres latinos de imprensa derivam diretamente da minúscula carolina. Pode-se formar idéia dos trabalhos humanísticos e dos altos estudos no renascimento carolíngio através da primorosa síntese feita por Reynolds e Wilson [215]. Nos mosteiros do período carolíngio, particularmente em Corbie, organizaram-se bibliotecas com manuscritos fidedignos dos clássicos como Lucano, Estácio, Terêncio, Juvenal, Tibulo, Horácio, Claudiano, Marcial, etc. No mosteiro de Lorsch, fundado em 764, havia obras raras de Cícero, Tito Lívio, Sêneca, Virgílio, Lucano, Frontão e Gélio. Outras obras clássicas foram copiadas e transmitidas à posteridade pelos copistas de Fulda, Hersfeld, Corvey, Fleury. No campo dos estudos bíblicos, Lupus de Ferrière cotejava manuscritos com espírito crítico e já fora antecipado por Teodulfo de Orleães, abade de Fleury, que fizera uma edição da Vulgata em que traçava comparações com o texto hebraico e usava a sigla na margem para assinalar as fontes das suas variantes [216].

13. Como diz Hodgkin na História dos Anglo-Saxões, nos séculos VIII e IX a desordem era normal, devido ao mundo em ebulição de que se destacaria um dia a nova sociedade feudal. Mas no reino de Alfredo as invasões bárbaras haviam sacudido o Estado nos seus fundamentos. Os infortúnios do reino de Alfredo, o Grande, não resultavam apenas de contínuas guerras, como se deviam, também, à desmoralização interna, produzida por invasões crônicas, invasões terríveis que se davam a cada nova década. Alfredo, o Grande, rei dos Anglo-Saxões, nasceu em 849, assumiu o trono de Wessex em 871, depois de se haver notabilizado contra os dinamarqueses nas batalhas de Ashdown e Basing, e passou a maior parte do resto da vida a repelir as invasões dos normandos. Estes, por fim, comprometeram-se a evacuar o Wessex e o seu chefe Guthrum foi batizado em 878, e uma parte do reino ficou tranqüila, enquanto Alfredo enfrentava os inimigos ao norte do Tâmisa, os quais acabou por rechaçar. No período final do reinado, assim como no intervalo dessas grandes guerras, Alfredo suscitou, tal como Carlos Magno, notável renascimento cultural nos seus domínios. Sempre foi devotado à Santa Igreja, protegeu as ordens religiosas, favoreceu a reforma eclesiástica, restaurou a justiça e preparou para o seu povo um código profundamente religioso, renovou os quadros da administração, reanimou os estudos e fundou escolas. A imitação de Carlos Magno, soube cercar-se de sábios estrangeiros e teve como colaboradores Grimbaldo, João, o Velho Saxão, e o gaulês Asser que veio a escrever a biografia do seu valoroso soberano. O próprio Alfredo, sobre ser grande guerreiro, distinguiu-se pela inteligência e pelos méritos literários. Com o auxílio de Asser traduziu do latim para o anglo-saxão várias obras de real valor para leigos e eclesiásticos: a Consolação da Filosofia de Boécio, a História Eclesiástica de São Beda, o Venerável, as Histórias de Paulo Orósio, a Pastoral de São Gregório, uma parte dos Solilóquios de Santo Agostinho e, provavelmente, deixou ainda uma tradução dos Salmos e uma coleção de provérbios. Cheio de benemerência, Alfredo, o Grande, faleceu a 28 de outubro de 901. Segundo Asser, na escola palatina de Alfredo estudavam jovens nobres e plebeus que liam obras escritas em latim e em saxão [217].

14. O século X foi designado com razão de século obscuro ou século de ferro, devido à espantosa decadência da vida sob os aspectos do governo e da cultura. Nessa época, na Itália e na França principalmente, reinavam infrenes rudeza e embrutecimento sem paralelo e em quase toda parte imperavam a violência e o terror [218]. Apesar de tal situação caótica na Itália e na França, ainda no primeiro quartel do século X, deu-se portentosa reação na Alemanha, estabelecendo-se de modo sólido o reino germânico, e Otão I, reconhecido rei da Itália, depois de haver sido coroado rei em Aix-la-Chapelle, foi sagrado imperador em Roma por João XII na igreja de São Pedro a 2 de fevereiro de 962. Ele assegurou a ordem no Império e o respeito aos direitos da Igreja. O novo Império Germânico pretendia prolongar o de Carlos Magno e durante três séculos foi o guardião do Ocidente. Otão I contou com o valioso auxílio de homens eminentes no episcopado, como o seu irmão Bruno, arcebispo de Colônia e duque de Lorena; Ulrico de Augsburgo, Conrado, Gebardo, Volfrango de Ratisbona, Adalberto de Praga, e outros. Esses varões de Plutarco foram os artífices do "renascimento otoniano" e os promotores do progresso e da elevação moral do Império Romano Germânico.

15. A corte de Otão 1 tornou-se um refulgente centro cultural. Otão só aprendeu a ler e a escrever após a morte da primeira esposa, Edite, em 946, mas falava o saxão, o eslavo, o "romance", que era provavelmente o francês, mas nunca soube latim. Desde que esteve na Itália pela primeira vez em 951, convidou sábios italianos para ensinarem na Alemanha: Gonzon de Novara que trouxe na bagagem uma biblioteca de 100 volumes, e Estêvão de Pavia que lecionou na escola episcopal de Würzbourg. Devido, ainda, às embaixadas de vários países e aos refugiados, como Ratério de Verona e Liudprand, a corte de Otão I foi cosmopolita e o maior centro cultural da época. O imperador descobriu e promoveu o famoso sábio Gerberto de Aurillac que o ajudou com os seus conselhos e a sua operosidade, assim como lhe influenciou o filho e o neto, e este o fez eleger Papa. Traço marcante do renascimento otoniano foi a renovação das escolas monásticas e episcopais onde se formava a nata intelectual do Império [219]. Entre os mosteiros distinguiu-se o de São Galo (Saint- ilustrado pelo poeta e hinólogo sacro Notquero, o Gago (Bal- Equeardo I e Equeardo II e, ainda, Notquero, o Físico, e Notquero Labéu ou Teutônico que redigiu obras de erudição para as escolas em língua alemã. E foi exatamente no fim do século de ferro que brilhou o engenho feminino da monja Rosvita do mosteiro de Gandersheim que, além de poesias e obras hagiográficas, compôs comédias à imitação de Terêncio, a fim de provar que as mulheres nada ficam a dever aos homens quanto à inteligência. E foi, ainda, na Saxônia que Widukind, do mosteiro de Corvey, escreveu as valiosas Res Gestae Saxonicae.

16. Gerberto de Aurillac, o símbolo da cultura científica da época, que estudara matemática na Espanha islâmica, veio a ser o glorioso papa Silvestre lI (999-1003). A maioria dos monges tornou-se clerical e consagravam-se aos estudos, enquanto os monges leigos assumiam as tarefas profanas ou mecânicas. E no século X reponta a grande reforma monástica do Ocidente que teve por eixo a abadia de Clúnia (Cluny) que difundiu pela França, Itália, Alemanha e Inglaterra os princípios da renovação monástica. Apesar das provações passadas, clareava o horizonte a aurora de melhores tempos. Como reza um dístico do século X, em língua romance e citado por Roberto S. Lopez, "a aurora sobre o mar obscuro traz o sol. Depois, passa a colina, olha, e as trevas iluminam-se". Ultrapassado o primeiro milênio da era cristã, o mundo ocidental assumiu contornos definidos e a civilização européia despertou à sombra dos claustros e junto das catedrais.