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1. Este capítulo é um prolongamento do anterior, com
o acréscimo de novos dados sobre as escolas e com
informações particulares a respeito do renascimento das
letras e dos estudos nos reinos de Carlos Magno, de
Alfredo o Grande e de Otão o Grande. Entre essas
magnitudes reais e imperiais avulta, evidentemente, a
primeira. Entre os feitos que valeram a esses três
notáveis governantes os epítetos de Grandes ou Magnos
está a promoção do estudo e a restauração das escolas
que em muitos lugares haviam desaparecido e que, em muitas
regiões, não existiam em prejuízo dos seus habitantes,
especialmente numa época de tanta insegurança, de
agitações e de perigos sem conta.
2. A expansão muçulmana, após a morte de Maomé,
desenvolveu-se de modo fulminante. No ano de 635
deu-se a capitulação de Damasco e no ano seguinte
completou-se a conquista da Síria. Em 637 ou 638
os árabes tomaram Jerusalém e conquistaram a
Mesopotâmia e a Pérsia. Em 641 ocuparam
Alexandria e o Egito, tendo passado depois a dominar as
possessões bizantinas da África do Norte. Os árabes
assimilaram a cultura dos povos conquistados, tendo
assimilado a ciência e a filosofia dos gregos, e a arte
de gregos e persas, mas tendo imposto em troca a todos
eles as suas instituições e a sua língua. O direito
corânico substituiu o romano e o árabe suplantou o grego
e o latim. Após a conquista de Cartago em 698, os
muçulmanos dominaram o mar Mediterrâneo com os seus
navios e, depois da conquista do Marrocos, invadiram a
península ibérica. Em 711, sete mil berberes
comandados por Tarik atravessaram o estreito de Gibraltar
e, até o ano de 712, já haviam dominado toda a
Espanha. De 720 a 737 atacaram a Gália, tomaram
e saquearam as cidades de Autun, Avinhão, Lião e a
Aquitânia, mas foram repelidos por Carlos Martel e
Pepino, o Breve. Submeteram a Sicília a freqüentes
ataques de 720 a 753 e tomaram Siracusa a 21 de
maio de 878. Carlos Magno enfrentou-os nas
fronteiras da Espanha e manteve-se na defensiva, pois
não tinha navios e os árabes dominavam o mar. Na
primeira metade do século IX os muçulmanos devastaram o
litoral italiano e chegaram até a profanar a igreja de
São Pedro em Roma, em 846. Aterrorizaram a
campanha romana em 876 e 877, incendiaram e
destruíram a abadia de Monte Cassino em 883,
continuando no século seguinte com as suas incursões de
pirataria no litoral italiano, e a Itália só escapou ao
jugo dos árabes graças ao auxílio da frota bizantina.
Acrescentem-se a esse quadro de desolação provocada
pelos ataques dos sarracenos, as incursões pelos rios no
século IX dos normandos, e por terra, dos eslavos, e
ver-se-á que a situação do Ocidente era instável e
precária e de modo algum propícia às artes pacíficas
que só florescem, quando os homens vivem tranqüilos,
sem medo e sem tensões, embora algumas pessoas de
especial valor continuassem a estudar e a trabalhar,
apesar das constantes ameaças dos piratas e dos
bandoleiros que traziam o crime na própria natureza e na
profissão. O comércio com o Oriente praticamente
sumiu, as cidades ficaram anuladas, uma vez desprovidas
de comércio, levantaram-se e fortificaram-se os
castelos no campo. Em conseqüência, também, do
domínio muçulmano resultaram alguns proveitos, quando
muitos sírios se transladaram para Roma nos séculos
VII e VIII, tanto que alguns s., tornaram panas,
como Sérgio 1 (687-701) e Constantino I
(708-715). Com eles emigraram para o Ocidente
vários eruditos que trouxeram manuscritos e difundiram a
língua grega. O papiro desapareceu, devido à
supressão do comércio, e começou a surgir o
pergaminho, embora os papas se abastecessem de papiro
graças aos portos bizantinos de Nápoles, Gaeta,
Amalfi e Veneza. Foi nessa época de luta e de
enfraquecimento da vida social, após o período decadente
dos merovíngios na Gália, que entrou em cena o rei dos
francos, Carlos Magno, coroado imperador do Ocidente
no dia de Natal do ano 800 pelo papa Leão III.
Carlos Magno, desde que se tornara rei dos francos, já
se apercebera da crise moral e religiosa na Igreja.
Bispos e monges viviam como leigos em guerras e
divertimentos. Exceto ínfimo número de leigos cultos,
como alguns reis da Grã-Bretanha, a maioria dos
clérigos e leigos viviam alheios à cultura latina e nos
próprios mosteiros as cerimônias haviam perdido o
brilho, pois os monges não sabiam cantar e pronunciavam
erradamente o latim. Ora, Carlos Magno sentiu-se
investido de missão superior, não só política, como
religiosa e cultural e, por isso, dedicou a vida à
unificação da Europa, à ilustração do povo e à
reforma da Igreja.
3. Na sua campanha de defesa do reino franco e da
cristandade, Carlos Magno, segundo o seu biógrafo
Eginhardo, travou guerras com os saxões, com os
bretões, os lombardos, os eslavos, os avaros, os
normandos e os sarracenos, guerras que ele conduziu,
consoante o biógrafo, summa prudentia atque felicitate,
com suma prudência e felicidade. Carlos Magno reinou
durante 47 anos, fez 53 expedições militares, lutou
por oito anos com os avaros e guerreou durante trinta com
os saxões e só no decurso dessa última campanha
excedeu-se por um ato de crueldade no massacre dos saxões
em Verden. Ele desenvolveu a sua notável atividade
legislativa, através das Capitulares, nos últimos anos
da sua carreira, depois de 800, uma vez que, nascido
em 768, faleceu a 28 de janeiro de 814. O seu
reino, diz Kurth, foi o esforço mais consciencioso e
considerável que alguma sociedade já fez em prol da
civilização e "esse diretor dos estudos", no seu
século, e "promotor da literatura" começou por si
próprio a reforma que sonhou para os seus contemporâneos
[190]. A reforma da Igreja no reino franco, iniciada
no século VIII por São Bonifácio, através da
atividade missionária, da reunião de sínodos, da
criação de novos bispados e mosteiros, foi continuada
por Carlos Magno e por seu filho Luís, o Piedoso,
através de minuciosa legislação eclesiástica,
especialmente por meio da Admonitio Generalis de 789,
da capitular de 802 e de numerosos sínodos episcopais.
Entre outras medidas, Carlos Magno estabeleceu a vida
canônica para os sacerdotes da catedral, unificou a vida
monástica segundo a Regra Beneditina, regulamentou as
práticas litúrgicas e reforçou a observância das leis
através da instituição dos missi dominici,
funcionários leigos e membros do clero com o encargo de
fiscalizar a administração do Império. Na reforma
eclesiástica Carlos Magno contou com a valiosa
colaboração de eclesiásticos como Alcuíno, Paulo o
Diácono e São Bento de Aniana. Ele tratou, ainda,
de selecionar os bispos e os abades - pois muitos deixavam
a desejar sob todos os aspectos - e, para dispor de
pessoal qualificado, organizou na sua corte itinerante uma
escola para crianças, a fim de preparar boas gerações
de homens da Igreja e de funcionários imperiais, sobre
ter fundado com Alcuíno uma academia, a Academia
Palatina, que cultivou os estudos clássicos e difundiu
pelo Império a reforma das escolas ou a sua fundação.
Christopher Dawson observa no seu livro A Formação da
Europa que o ideal teocrático dominou o governo
carolíngio, de modo que o novo Estado franco, mais que
o bizantino, foi um Estado-Igreja onde bispos e
clérigos exerciam funções administrativas e onde o
imperador legislava em assuntos puramente teológicos e
eclesiásticos.
4. Como informa Eginhardo, no capítulo 19 da
biografia de Carlos Magno, este quis que os seus filhos
e filhas recebessem excelente educação, iniciando-se
nas artes liberais, "às quais ele próprio se
aplicava". Depois, os filhos, segundo o costume
franco, aprendiam a montar a cavalo, a manejar as armas e
a caçar, enquanto as filhas se dedicavam ao trabalho da
lã, ao manejo da roca e do fuso e a tudo quanto convém
à vida honesta. Graças à sua pertinácia, Carlos
Magno, além da língua materna, dominava perfeitamente
o latim e sabia muito bem o grego, estudou as artes
liberais, conhecia as obras-primas da literatura profana
e sagrada e, segundo Eginhardo, tinha predileção pela
Cidade de Deus de Santo Agostinho e só não
conseguiu, talvez devido à mão calejada pelo manejo da
espada, sobressair na habilidade caligráfica tanto que
fazia de travesseiro as tabuinhas e as folhas de
pergaminho, para se exercitar na caligrafia nas horas de
insônia [191]. Carlos Magno era profundamente
religioso, construiu igrejas e mosteiros, apreciava as
belas cerimônias litúrgicas e cercou-se de um vasto
círculo de eruditos eclesiásticos com os quais formou a
escola palatina. Os membros e mestres dessa academia
faziam literatura de corte, compunham poesias, epigramas
e enigmas e adotaram pseudônimos de origem clássica,
mitológicos ou religiosos. A figura máxima era a de
Alcuíno, monge anglo-saxão (c. 735-804),
conhecido por Flaccus na Academia. O visigodo Teodulfo
era Píndaro, Paulino de Aquiléia, Timóteo; o
franco Modoin era Naso; Carlos Magno era Davi;
Megenfred, camareiro real, era Thyrsis; o senescal
Andulfo era Menalco; o escanção ou copeiro Evrard ou
Eberardo era Nemias; o arcebispo Hildebald de
Colônia, Aarão; Béornrad, futuro arcebispo de
Sens, Samuel; Arn, bispo de Salzbourg, Áquila;
Riculfo, arcebispo de Maiença, Flavius Damoetas;
Adalardo, primo do rei e futuro abade de Corbie,
Antonius, e o seu irmão Wala, Arsenius; o diácono
Fridugísio, aluno de Alcuíno, Nathanael; Wizo e
Sigulf, dois outros alunos anglo-saxões de Alcuíno,
Candidus e Vetulus; um quarto aluno, Rigbodo,
Macherius.
Corydon era personagem não identificado e os
dois únicos leigos nesse brilhante círculo de letrados
foram poetas da corte: Eginhardo, apelidado Nardulus
por ser pequeno, é chamado de Bezeleel na Academia, e
Angilberto, Homero. Vê-se, pois, que além dos
pseudônimos literários como Virgílio, Horácio
(Flaccus), Homero, os pseudônimos clássicos eram
tomados das églogas de Virgílio, embora predominassem
por importância os bíblicos.
5. A escola palatina começou no tempo de Pepino que
enviou clérigos a São João de Latrão, em Roma, a
fim de estudarem o canto e as artes liberais e incumbidos
de pedir livros ao papa Paulo V, e insistiu com os
bispos e os abades para que executassem as decisões
disciplinares dos concílios de Léptines e Soissons
[192]. A vida de Adalardo ensina-nos que ele recebeu a
mesma educação que os jovens nobres na escola do palácio
de Pepino. Aí, Carlos Magno hauriu os primeiros
rudimentos das artes liberais, cujo estudo veio retomar
aos quarenta anos com Pedro de Pisa e Alcuíno. Nos
primeiros tempos de Carlos Magno, a escola foi dirigida
pelos discípulos de Alcuíno, o anglo-saxão Béornrad
que recebeu em 777 a abadia de Echternach e o irlandês
José Scotus, e talvez lá se encontrasse outro
irlandês, Dungal, perito em astronomia. Após a
segunda expedição de Carlos Magno à Itália, vieram
com ele o lombardo Fardulfo em 776, como desterrado,
e os gramáticos Paulino e Pedro de Pisa em 776 ou
logo mais. Em 782, chegou à corte de Carlos Magno
Paulo Warnefried ou Paulo Diácono, poeta e
historiador. Nesse mesmo ano, ingressou na corte
carolíngia o monge Alcuíno que dirigiu a escola
episcopal de York desde 767 e que Carlos Magno
encontrou em Parma por feliz coincidência, em 781,
quando Alcuíno retornava de Roma com o pallium para o
seu arcebispo Eanberto de York. Quando Alcuíno passou
a dirigir o mosteiro de Tours em 796, a direção da
escola palatina passou a Eginhardo. Com a onda de
emigração espanhola em 780, vieram colaborar na corte
carolíngia os espanhóis que brilharam sob Carlos Magno
e Luís, o Piedoso, a saber: Teodulfo, Cláudio de
Turim, Prudêncio Galindo, Agobardo de Lião e
Floro de Lião.
6. Alcuíno foi o braço direito de Carlos Magno na
reforma eclesiástica, na restauração dos estudos e na
difusão da cultura. Alcuin, Alcuinus, Alcvinus
Alcuinus ou Albinus nasceu na Nortúmbria, de família
anglo-saxônica, estudou na escola episcopal de York que
veio a dirigir durante o episcopado do seu antigo mestre,
o arcebispo Aelberto. Foi ordenado diácono e nesse grau
do ministério eclesiástico permaneceu a vida inteira.
Quando foi a Roma solicitar o pallium [193] para o seu
arcebispo Eanberto que havia sucedido a Aelberto,
encontrou-se com Carlos Magno em Parma em 781.
Acolhido na corte franca, recebeu as abadias de
Frerrières e de Saint-Loup de Troves, participou da
academia palatina, animou o culto das letras e dirigiu a
escola do palácio. Encarregado por Carlos Magno,
combateu o adocianismo de Félix de Urge] e Elipando de
Toledo por meio de escritos e nos concílios de Francfort
de 794 e de Aix-la-Chapelle em 799 [194]. Em
796, obteve de Carlos Magno a abadia de São
Martinho de Tours onde passou a residir definitivamente a
partir de 801, tendo organizado preciosa biblioteca e
composto muitas obras de vários gêneros, inclusive
livros didáticos. Tinha paixão pelos livros e mandava
executar cópias admiráveis em manuscritos com letras
doiradas e desenhos coloridos, "quase tão fáceis de ler
quanto os nossos livros impressos" [195]. Além de ser
teólogo, poeta e filósofo, Alcuíno foi o dedicado
mentor da escola palatina na qual introduziu o trivium e o
quadrivium, tendo composto opúsculos didáticos como os
diálogos sobre gramática, ortografia, a retórica e as
virtudes, a dialética, a Disputa do jovem real e
nobilíssimo Pepino com o escolástico Albino, e mais um
outro escrito sobre a lua e o ano bissexto. Godefroid
Kurth esboça "a figura mansa e pensativa" de Alcuíno
que ele julga "o tipo mais eminente do professor
eclesiástico", para quem o ensino fazia parte do
sacerdócio, e afirma com plena razão que o tesouro do
saber antigo passou aos francos por intermédio do mestre
anglo-saxão [196]. Na sua famosa carta a Carlos
Magno, de 798, Alcuíno declara ao seu augusto
discípulo que Paris podia tornar-se uma nova Atenas na
França e muito superior à famosa cidade grega das
escolas, graças à doutrina cristã que permite
enriquecer e alcandorar as artes liberais com os sete dons
do Espírito Santo [197]. Numa carta anterior, de
796, o acadêmico Flaccus Albinus dirige-se ao
digníssimo rei Davi, dizendo-lhe, entre muitas
observações interessantes, que o tempo desta vida foge
veloz e não volta mais e, por isso, devemos tê-lo como
algo precioso e não o perder por negligência; e ele
passa então a descrever o ensino que ministrava na abadia
de Tours sobre exegese bíblica, artes liberais, a
gramática em primeiro plano, mas de modo especial a
astronomia. De seguida, Alcuíno celebra o louvor do
estudo e da sabedoria, "a coisa mais sublime para tornar
a vida feliz", nil esse ad beatam vitam sublimius
adipiscendam... e confessa que na manhã da vida
semeou o saber na Grã-Bretanha e, agora, no outono da
existência não o deixa de fazer na França [198]. O
mestre e conselheiro de Carlos Magno, o mentor
intelectual da Europa no século VIII, morreu em
Tours a 19 de maio de 804.
7. Consideremos agora as medidas tomadas por Carlos
Magno em prol das escolas e da promoção da cultura. O
primeiro documento de capital importância para a
renovação cultural do reino franco foi a Encyclica de
emendatione librorum et officiorum ecclesiasticorum, a
Carta-circular a respeito da correção dos livros e da
reta recitação do ofício divino, escrita entre os anos
de 776 e 784. Carlos Magno, ex Francorum et
Langobardorum ac patricius Romanorum, declara estar
empenhado em melhorar a situação das igrejas e lamenta o
estado geral de ignorância, e decide restaurar o estudo
das letras, tendo convidado os religiosos a se dedicarem
às artes liberais e proposto o seu exemplo pessoal de
estudioso dessas disciplinas. Informa haver providenciado
a correção exata, examussim correximus, dos textos
deturpados dos livros da Sagrada Escritura e, a exemplo
do seu pai Pepino que implantou nas igrejas da Gália a
cantilena sagrada segundo a tradição romana, ele tratou
de corrigir o texto do Ofício Divino recitado por
clérigos e monges, tendo contado para tal empreendimento
com o auxílio de Paulo Diácono que fez em dois volumes
a seleção dos melhores passos das obras dos Santos
Padres e dos escritores eclesiásticos. Carlos Magno
frisa que houve o máximo cuidado em depurar o texto
sagrado dos vícios de linguagem e dos "dissonantes
solecismos" [199]. Outro documento fundamental é a
carta-circular dirigida a Baugulfo, abade de Fulda, em
787, Encyclica de litteris colendis, a respeito do
ensino das letras. Carlos, rei dos francos e dos
lombardos, patrício dos romanos, dirige-se ao abade
Baugulfo, à sua congregação e aos fiéis entregues aos
seus cuidados. Ele declara ter julgado útil que os
bispados e os mosteiros, "cujo governo Cristo em sua
bondade lhe confiou", Christo propitio, ad gubernandum
comissa, além da ordem da vida regular e da observância
da santa religião, proporcionem o ensino das letras,
litterarum meditationes, aos que, por graça de Deus,
têm capacidade para aprender. Diz Carlos Magno que a
linguagem correta, recte loqui, agrada tanto a Deus como
a vida honesta e que mestres e alunos devem saber ordenar e
ornamentar as frases. Ele revela que nos últimos anos
recebeu dos mosteiros muitos escritos piedosos vasados em
linguagem espúria, sermo incultus, e que a língua
desprovida de erudição, lingua inerudita, não consegue
exprimir a contento os pensamentos inspirados por piedosa
devoção, e acrescenta que a compreensão da Sagrada
Escritura é prejudicada pela incompetência literária
"e todos nós bem sabemos que os erros em matéria de
significado são ainda mais perigosos que os erros das
palavras"; e ele espera que a ciência dos monges se
manifeste através da leitura e do canto, in legendo seu
cantando [200]. Do mesmo ano de 787 é o decreto
sobre as escolas de Osnabruck, dirigido a todos os fiéis
da santa Igreja por Carlos, rei dos francos e dos
lombardos, e vencedor dos saxões, necnon dominator et
Saxonum, e por meio do qual ele concede isenção de
taxas e lhes faz uma doação, contanto que os bispos
assumam o encargo das negociações que surgissem entre o
imperador dos romanos e o rei dos gregos e sustentassem
escolas de latim e de grego in perpetuum, para sempre, de
modo que nunca faltassem clérigos peritos nesses idiomas
[201].
Na Capitular Eclesiástica de 23 de março
de. 789, ele prescreve que os monges aprendam a
cantilena romana que servirá para o Ofício Divino,
segundo o desejo do seu pai Pepino, e, no mesmo ano de
789, recomenda aos pares que recrutem clérigos tanto
entre os filhos de homens livres, quanto entre os filhos
dos servos, e que as escolas monásticas e episcopais
proporcionem aos meninos o ensino da leitura, dos salmos,
do canto, do cômputo e da gramática, e que se utilizem
livros bem corrigidos cujos textos os meninos não devem
conspurcar na leitura ou na escrita. E se, porventura,
for necessário passar aos manuscritos o Evangelho, o
saltério e o missal, a cópia deve. ser feita com o
máximo empenho por homens adultos [202]. No Concílio
de Aix-la-Chapelle, em 802, Carlos Magno
determinou o programa dos estudos para os candidatos ao
sacerdócio [203]. Na Capitular de 803, prescreve
resumidamente que os padres conheçam a Sagrada
Escritura, o saltério, o ritual do batismo, o
penitencial, o cômputo e o canto [204]. Como se pode
verificar, através dos documentos, Carlos Magno
instaurou escolas, reformou mosteiros, prescreveu
programas e recomendou a cuidadosa formação dos
estudantes destinados ao sacerdócio ou à vida monástica
e ao preenchimento dos quadros da sua administração
imperial. Mas é preciso ter em mente, outrossim, que,
dadas as condições da época, eram essas as exigências
mais prementes no campo da instrução. Ademais,
lembre-se o mandamento promulgado por Teodulfo, bispo de
Orleães em 797 - e já citado anteriormente no §
11 do capítulo IV - para os padres dos burgos e das
aldeias manterem escolas gratuitas onde se dispensasse o
ensino das letras às crianças que os fiéis trouxessem
para receber instrução. E o Concílio de Arles de
813 determinou no cânon 19 que os pais e padrinhos
cuidassem de fazer com que os seus filhos e afilhados
fossem instruídos com a máxima diligência, erudire
summopere studeant [205].
8. O herdeiro de Carlos Magno, seu filho Luís, o
Piedoso (+ 840), prosseguiu no império franco com
as reformas eclesiásticas que já empreendera na
Aqüitânia, mas a Igreja chamou a si a direção das
escolas que Carlos Magno restaurara e dirigira
ciosamente. Em 817, em Aix-la-Chapelle, foi
proclamada a Divisio Imperii que estatuía a sucessão
imperial. O filho mais velho Lotário, de 22 anos,
já ficava associado ao Império e foi coroado imperador.
Os outros dois teriam o título de reis. Pepino ficaria
com a Aqüitânia e Luís, o Germânico, com a
Baviera e as suas dependências da Áustria, Panônia e
Caríntia. O Concilio de 817 em Aix-la-Chapelle
tratou de regular os estudos [206]. Em 824 Lotário
promulgou a Constitutio pela qual a eleição do papa
devia ser aprovada pelo imperador do qual o Estado
pontifício passava, na verdade, a depender. Em
817, o Concílio de Aix-la-Chapelle, nos
estatutos relativos à Regra de São Crodegango,
determinou no cânon 45: "Não haverá no mosteiro
senão uma escola para os oblatos" [207]. Essa medida
foi tomada para assegurar a tranqüilidade da vida
monástica em cuja reforma se empenhara São Bento de
Aniana, o grande colaborador de Luís, o Piedoso. Na
Capitular de Attigny em 822, no entanto, o imperador
tomou sérias medidas quanto à educação, ao declarar:
"Desejamos reformar com o máximo empenho as escolas de
que nos descuidamos até aqui (hactenus), a fim de. que
todo homem, menino ou adulto, que se educa para alcançar
um grau eclesiástico, tenha um lugar determinado e um
mestre conveniente. É preciso, todavia, que os pais ou
os nobres senhores dos alunos se incumbam da sua
subsistência, para que não deixem de estudar, por causa
da pobreza. Mas, se não for possível reuni-los num
só lugar, devido à extensão da paróquia, o que
impediria a intervenção dos seus representantes, então
que se fundem escolas em dois ou três lugares, conforme a
necessidade e segundo os ditames da prudência". O
imperador determina, em continuação, que, se as bispos
não derem conta do recado por qualquer razão, caberá
aos senhores das localidades tomar as devidas providências
[208]. Noutra capitular de Aix-la-Chapelle, em
825, lembra o imperador Luís aos bispos e ao povo as
decisões de Attigny concernentes às escolas, assim como
a obrigação de os bispos zelarem pela sua manutenção
nos lugares convenientes [209]. Já em 824, o
Concilio de Paris lembrava que é dever do bispo manter
escolas, pois a Igreja deve contar com defensores
ilustrados, e o papa Eugênio II declarou estar
informado de que professores e gosto pelas letras
desapareciam, tendo determinado que se estabelecessem
professores e doutores para o ensino das letras e das artes
liberais e do dogma da Igreja em todas as dioceses,
paróquias e lugares onde isso fosse necessário [210].
Nas Constitutiones Olonnenses, de maio de 825,
Lotário afirma que o ensino desapareceu em certos lugares
completamente devido à incúria ou à incompetência dos
responsáveis e ele determina que os professores sejam
zelosos e assistidos para o bom cumprimento de sua tarefa e
aproveitamento dos alunos, e indica os lugares onde devem
estar estabelecidas as escolas, para que ninguém pudesse
alegar, contra o seu decreto, a distância das escolas ou
a falta de recursos [211]. No Concilio de Paris de
829, os bispos solicitam ao imperador o estabelecimento
de escolas públicas, scholae publicae nas três cidades
mais bem situadas, in tribus congruentissimis imperii
vestri locas... para que o esforço dispendido por
Carlos Magno, e agora por Luís, não ficasse
perdido. Essas escolas públicas, todavia, não eram
públicas no sentido atual do termo, mas estavam abertas
aos clérigos e aos monges de qualquer região.
9. No seu poema sobre a divisão do império, depois da
morte de Luís, o Piedoso, o diácono Floro de Lião
lamenta as desgraças da sua época: a opressão dos
pobres, continuis praedis plebes miseranda laborat, as
discórdias dos nobres, as violências e as rapinas, a
humilhação da Igreja, a falta de autoridade e de
ordem, nemo metum defert, sacras reverentia nulla est, e
lembra a época feliz que passou, quando havia um só
príncipe e um só povo e a lei e o juiz asseguravam a paz
das cidades; quando os jovens aprendiam a doutrina sagrada
e as crianças estudavam as artes literárias [212].
Com a deposição de Luís, o Piedoso, e as lutas
internas que separaram os filhos, esboroou-se a unidade
do império que se fragmentou em partes caracterizadas,
mais ou menos, da forma como ainda hoje se conservam pelo
território e pela língua. Apesar da simpatia de
Carlos, o Calvo, pelos sábios e pelos poetas, e do
momentâneo brilho da sua escola palatina, a decadência
escolar prosseguiu e agravou-se finalmente com as
terríveis invasões dos normandos do primeiro quartel do
século IX à metade do século X. Os monges que
escapavam aos morticínios viviam tolhidos pelo pavor e
pela insegurança nos mosteiros, onde mal luzia ainda o
interesse pelos estudos. Do que foram as razias dos
normandos, por exemplo, traçou um belo afresco Abbon na
sua obra O Assédio de Paris pelos normandos em que ele
descreve em versos caprichados as guerras do duque Eudes e
dos parisienses com os invasores dinamarqueses, em
853, que com a sua ação predatória detiveram a
gloriosa marcha cultural do mosteiro de São Martinho de
Tours. Ainda que os concílios de Meaux, em 845, e
o de Paris, em 846, renovassem a obrigatoriedade dos
cânones dos concílios anteriores quanto ao ensino, as
escolas decaíram, desapareceram e mal se conseguia
ministrar instrução aos clérigos pois, devido
principalmente à raridade dos mestres, a ignorância era
calamitosa.
10. O Concílio de Valença, às instâncias do rei
Lotário, decretou a restauração das "escolas de
literatura divina e humana, assim como do canto
eclesiástico" [213]. Em 859, o Concílio de
Saponières exortou os príncipes e os bispos a fundarem
por toda parte "escolas públicas", uma vez que
diminuíram o estudo e a compreensão da Sagrada
Escritura, devido à falta de cultivo das ciências
divinas e humanas [214]. Temos assim documentado o
declínio das escolas e a decadência dos estudos, desde o
fim do primeiro quartel do século IX até ao fim do
século X, em virtude da instabilidade social, dos
ataques e das invasões dos normandos, búlgaros,
sarracenos e húngaros que iriam levar a sociedade ao
regime feudal. Como diz Roberto S. Lopez em O
Nascimento da Europa (págs. 109-111), desde a
queda do Império Romano do Ocidente jamais a
Cristandade enfrentara inimigos tão numerosos e brutais,
como os invasores dos séculos IX e X: os salteadores e
os piratas muçulmanos que assolaram as ilhas do Egeu,
tendo chegado até aos desfiladeiros da Suíça alpina;
os normandos ou escandinavos, que pilharam o litoral do
Atlântico e do Mediterrâneo, penetraram no interior da
França e alcançaram os limites da Toscana, os
territórios russos e os arredores de Constantinopla,
enquanto os húngaros estendiam as suas correrias e as
devastações, tendo ido até à Aquitânia e às
proximidades de Roma. Nesse período, como é fácil
perceber, não podia haver animada vida cultural e a chama
do saber foi alimentada apenas no recesso de alguns grandes
mosteiros e, depois, nas grandes escolas episcopais,
quando, por exemplo, no fim do século X a escola
episcopal de Reims foi engrandecida pelo famoso mestre
Gerberto de Aurillac. Mas é preciso não
desconhecer os nomes refulgentes de vários estudiosos de
prol na primeira metade do século IX: Rábano Mauro
no mosteiro de Fulda, que se tornou arcebispo de
Maiença; Valafrido Estrabão (Strabo) em Fulda e
em Reichenau; Cândido em Fulda, Bernardo em
Hirsfeld; Ludberto e Hidulfo em Hirsauge; Carlos em
Maiença; Alfredo em Hildesheim; Haimon em
Alberstad; Loup de Ferrières; Freculfo de Lisieux;
Grimaldo na ativa abadia de Saint-Gall; Sedulius
Scotus em Liège e o famoso filósofo e teólogo João
Escoto Eriúgena. No século XI começou a surgir,
de fato, a Europa moderna, deram-se grandes e positivas
transformações sociais, cresceu lentamente a
população, ressurgiu o comércio, reanimaram-se as
cidades e as escolas voltaram a florescer. Note-se que
no século XI a mais famosa escola foi a da abadia de
Bec onde espargiram luzes os italianos Lanfranco e
Anselmo, grandes teólogos, peritos em dialética e que
promoveram o renascimento dos estudos sagrados e profanos.
11. Com a dinastia dos carolíngios desponta e
firma-se no Ocidente o césaro-papismo, regime
político em que imperadores ou reis pretendem o senhorio
absoluto tanto no domínio temporal e civil como no
espiritual e no eclesiástico. Carlos Magno foi a
encarnação perfeita do soberano césaro-papista. É
evidente que tal regime político é errôneo, injusto,
pretensioso e fadado a gerar as piores conseqüências para
a vida religiosa, como a história testifica nos casos do
regalismo moderno na Áustria, em Portugal, e no
Império brasileiro. Nos séculos VIII e IX, no
entanto, graças ao espírito de fé, às boas
intenções e à fidelidade à Igreja de um Carlomano,
de um Carlos Magno ou de um Luís, o Piedoso, as
atitudes césaro-papistas, apesar de semearem princípios
que mais tarde só medrariam em tribulações para o povo
cristão, tiveram o condão de gerar benefícios imediatos
para a cristandade porque, infelizmente, o clero deixava
muito a desejar. Muitos párocos eram escolhidos pelo
senhor do domínio a que pertencia a igreja. Os reis e os
nobres nomeavam também bispos e abades. Padres havia que
ignoravam até o rito do batismo, só se preocupavam com a
própria subsistência material, enquanto os bispos de
origem nobre viviam mais como grandes senhores do que como
eclesiásticos. Os maus costumes e a ignorância lavravam
no seio do clero, sacerdotes não obedeciam aos bispos,
as irregularidades reinavam nas abadias e os bispos não
só bancavam os grandes senhores como procediam, às
vezes, mais levados pelas paixões do que pelo seu dever
de ofício, já que não se podia falar em dever de
vocação onde esta muitas vezes jamais existira.
Carlomano com o auxílio de São Bonifácio; Carlos
Magno secundado por Alcuíno e por uma plêiade de monges
e prelados de escol, e Luís, o Piedoso, com a valiosa
colaboração de São Bento de Aniana, o grande
reformador monástico da época, trataram de remediar a
situação e daí as resoluções dos concílios e as
capitulares em prol da reforma da Igreja.
12. Um fato é líquido e certo. O movimento cultural
suscitado por Carlos Magno perdurou até o século X e
deixou frutos permanentes por muito mais tempo. Dentre as
grandes realizações do renascimento carolíngio, além
das que se deram na arte, por exemplo na arquitetura,
cumpre destacar o desenvolvimento da letra minúscula e a
ênfase dada aos estudos clássicos. Como já observamos
em capítulo anterior, a nova escrita de caracteres
latinos, que simplificou a ortografia, deveu-se aos
monges irlandeses e desenvolveu-se a partir da velha
escrita cursiva romana, própria dos negócios e da
burocracia. As escritas minúsculas da Gália
merovíngia, sob a influência irlandesa e pela
necessidade caligráfica das profissões, deram origem ao
tipo de letra minúscula que se tornou comum na Europa
ocidental, tendo sobrepujado a escrita visigótica
florescente na Espanha do VIII ao XII século, a
beneventana, do sul da Itália (Benevento), e que
teve por centro Monte Cassino, assim como a escrita
corrente na costa adriática sob a influência bizantina.
A multiplicação dos manuscritos por ocasião do
renascimento carolíngio determinou o notável
desenvolvimento da escrita que parece ter surgido na abadia
de Corbie na metade do século VIII e ter alcançado o
máximo refinamento na escrita peculiar à abadia de São
Martinho de Tours sob a direção de Alcuíno. Esse
feito carolíngio influenciou a escrita dos humanistas do
Renascimento italiano, de modo que os nossos atuais
caracteres latinos de imprensa derivam diretamente da
minúscula carolina. Pode-se formar idéia dos trabalhos
humanísticos e dos altos estudos no renascimento
carolíngio através da primorosa síntese feita por
Reynolds e Wilson [215]. Nos mosteiros do período
carolíngio, particularmente em Corbie, organizaram-se
bibliotecas com manuscritos fidedignos dos clássicos como
Lucano, Estácio, Terêncio, Juvenal, Tibulo,
Horácio, Claudiano, Marcial, etc. No mosteiro de
Lorsch, fundado em 764, havia obras raras de
Cícero, Tito Lívio, Sêneca, Virgílio,
Lucano, Frontão e Gélio. Outras obras clássicas
foram copiadas e transmitidas à posteridade pelos copistas
de Fulda, Hersfeld, Corvey, Fleury. No campo dos
estudos bíblicos, Lupus de Ferrière cotejava
manuscritos com espírito crítico e já fora antecipado
por Teodulfo de Orleães, abade de Fleury, que fizera
uma edição da Vulgata em que traçava comparações com
o texto hebraico e usava a sigla na margem para assinalar
as fontes das suas variantes [216].
13. Como diz Hodgkin na História dos
Anglo-Saxões, nos séculos VIII e IX a desordem
era normal, devido ao mundo em ebulição de que se
destacaria um dia a nova sociedade feudal. Mas no reino
de Alfredo as invasões bárbaras haviam sacudido o
Estado nos seus fundamentos. Os infortúnios do reino de
Alfredo, o Grande, não resultavam apenas de contínuas
guerras, como se deviam, também, à desmoralização
interna, produzida por invasões crônicas, invasões
terríveis que se davam a cada nova década. Alfredo, o
Grande, rei dos Anglo-Saxões, nasceu em 849,
assumiu o trono de Wessex em 871, depois de se haver
notabilizado contra os dinamarqueses nas batalhas de
Ashdown e Basing, e passou a maior parte do resto da
vida a repelir as invasões dos normandos. Estes, por
fim, comprometeram-se a evacuar o Wessex e o seu chefe
Guthrum foi batizado em 878, e uma parte do reino
ficou tranqüila, enquanto Alfredo enfrentava os inimigos
ao norte do Tâmisa, os quais acabou por rechaçar. No
período final do reinado, assim como no intervalo dessas
grandes guerras, Alfredo suscitou, tal como Carlos
Magno, notável renascimento cultural nos seus
domínios. Sempre foi devotado à Santa Igreja,
protegeu as ordens religiosas, favoreceu a reforma
eclesiástica, restaurou a justiça e preparou para o seu
povo um código profundamente religioso, renovou os
quadros da administração, reanimou os estudos e fundou
escolas. A imitação de Carlos Magno, soube
cercar-se de sábios estrangeiros e teve como
colaboradores Grimbaldo, João, o Velho Saxão, e o
gaulês Asser que veio a escrever a biografia do seu
valoroso soberano. O próprio Alfredo, sobre ser grande
guerreiro, distinguiu-se pela inteligência e pelos
méritos literários. Com o auxílio de Asser traduziu
do latim para o anglo-saxão várias obras de real valor
para leigos e eclesiásticos: a Consolação da
Filosofia de Boécio, a História Eclesiástica de
São Beda, o Venerável, as Histórias de Paulo
Orósio, a Pastoral de São Gregório, uma parte dos
Solilóquios de Santo Agostinho e, provavelmente,
deixou ainda uma tradução dos Salmos e uma coleção de
provérbios. Cheio de benemerência, Alfredo, o
Grande, faleceu a 28 de outubro de 901. Segundo
Asser, na escola palatina de Alfredo estudavam jovens
nobres e plebeus que liam obras escritas em latim e em
saxão [217].
14. O século X foi designado com razão de século
obscuro ou século de ferro, devido à espantosa
decadência da vida sob os aspectos do governo e da
cultura. Nessa época, na Itália e na França
principalmente, reinavam infrenes rudeza e embrutecimento
sem paralelo e em quase toda parte imperavam a violência e
o terror [218]. Apesar de tal situação caótica na
Itália e na França, ainda no primeiro quartel do
século X, deu-se portentosa reação na Alemanha,
estabelecendo-se de modo sólido o reino germânico, e
Otão I, reconhecido rei da Itália, depois de haver
sido coroado rei em Aix-la-Chapelle, foi sagrado
imperador em Roma por João XII na igreja de São
Pedro a 2 de fevereiro de 962. Ele assegurou a ordem
no Império e o respeito aos direitos da Igreja. O novo
Império Germânico pretendia prolongar o de Carlos
Magno e durante três séculos foi o guardião do
Ocidente. Otão I contou com o valioso auxílio de
homens eminentes no episcopado, como o seu irmão Bruno,
arcebispo de Colônia e duque de Lorena; Ulrico de
Augsburgo, Conrado, Gebardo, Volfrango de
Ratisbona, Adalberto de Praga, e outros. Esses
varões de Plutarco foram os artífices do "renascimento
otoniano" e os promotores do progresso e da elevação
moral do Império Romano Germânico.
15. A corte de Otão 1 tornou-se um refulgente
centro cultural. Otão só aprendeu a ler e a escrever
após a morte da primeira esposa, Edite, em 946, mas
falava o saxão, o eslavo, o "romance", que era
provavelmente o francês, mas nunca soube latim. Desde
que esteve na Itália pela primeira vez em 951,
convidou sábios italianos para ensinarem na Alemanha:
Gonzon de Novara que trouxe na bagagem uma biblioteca de
100 volumes, e Estêvão de Pavia que lecionou na
escola episcopal de Würzbourg. Devido, ainda, às
embaixadas de vários países e aos refugiados, como
Ratério de Verona e Liudprand, a corte de Otão I
foi cosmopolita e o maior centro cultural da época. O
imperador descobriu e promoveu o famoso sábio Gerberto de
Aurillac que o ajudou com os seus conselhos e a sua
operosidade, assim como lhe influenciou o filho e o neto,
e este o fez eleger Papa. Traço marcante do
renascimento otoniano foi a renovação das escolas
monásticas e episcopais onde se formava a nata intelectual
do Império [219]. Entre os mosteiros distinguiu-se o
de São Galo (Saint- ilustrado pelo poeta e hinólogo
sacro Notquero, o Gago (Bal- Equeardo I e Equeardo
II e, ainda, Notquero, o Físico, e Notquero
Labéu ou Teutônico que redigiu obras de erudição para
as escolas em língua alemã. E foi exatamente no fim do
século de ferro que brilhou o engenho feminino da monja
Rosvita do mosteiro de Gandersheim que, além de poesias
e obras hagiográficas, compôs comédias à imitação de
Terêncio, a fim de provar que as mulheres nada ficam a
dever aos homens quanto à inteligência. E foi, ainda,
na Saxônia que Widukind, do mosteiro de Corvey,
escreveu as valiosas Res Gestae Saxonicae.
16. Gerberto de Aurillac, o símbolo da cultura
científica da época, que estudara matemática na
Espanha islâmica, veio a ser o glorioso papa Silvestre
lI (999-1003). A maioria dos monges
tornou-se clerical e consagravam-se aos estudos,
enquanto os monges leigos assumiam as tarefas profanas ou
mecânicas. E no século X reponta a grande reforma
monástica do Ocidente que teve por eixo a abadia de
Clúnia (Cluny) que difundiu pela França, Itália,
Alemanha e Inglaterra os princípios da renovação
monástica. Apesar das provações passadas, clareava
o horizonte a aurora de melhores tempos. Como reza um
dístico do século X, em língua romance e citado por
Roberto S. Lopez, "a aurora sobre o mar obscuro traz
o sol. Depois, passa a colina, olha, e as trevas
iluminam-se". Ultrapassado o primeiro milênio da era
cristã, o mundo ocidental assumiu contornos definidos e a
civilização européia despertou à sombra dos claustros e
junto das catedrais.
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