CAPÍTULO VI. OS PROGRAMAS DE ENSINO E A CONSCIÊNCIA PEDAGÓGICA DA PRIMEIRA IDADE MÉDIA.

1. Com este capítulo, chegamos ao fim da segunda parte deste livro. Como se pode verificar, temos examinado de modo suave e sério, embora rápido, dado o caráter de iniciação desta obra, alguns aspectos fundamentais da educação na primeira parte da Idade Média. Após a consideração de fatos cuidadosamente documentados, podemos passar à consideração dos programas de ensino vigentes nas escolas de modo sistemático ou na sociedade, de modo tanto formal quanto difuso. Mais uma vez cumpre ressaltar dois princípios que estabelecemos no início deste livro. Primeiro, numa obra de iniciação à história da educação medieval não se pode dizer tudo o que se sabe ou há para saber. O aprendizado de qualquer disciplina precisa respeitar as leis que regem a atividade intelectual e os processos de aprendizagem e do ensino, sobre haver a possibilidade de os alunos ou leitores ávidos de conhecimentos poderem abeberar-se nas obras recomendadas na bibliografia apensa a cada capítulo. É preciso não esquecer jamais a verdade contida no anexim latino: ars longa, vita brevis, a arte é longa e complicada e a vida é tão curta! O que importa é adquirir as noções básicas, os conhecimentos mínimos que poderemos aumentar e enriquecer com o esforço, a aplicação e a paciência. Sem esta nada se consegue de bom na vida. Já se disse até que o gênio é sobretudo uma grande paciência, pois muitos talentos se estiolam e muitas pessoas inteligentes não progridem na vida cultural por fraqueza de vontade, por falta de perseverança, por não terem garra, como se diz popularmente. Quando a inteligência se combina com a paciência e o talento com a aplicação, então é ouro sobre azul.

2. O segundo princípio inscrito no pórtico desta nossa História da Educação Medieval é que o estudante deve fazer um grande esforço e ativar a própria fantasia, a fim de imaginar uma sociedade de homens iguais a nós mesmos por natureza mas diferentes pela situação social, pelos hábitos e pela mentalidade. Como frisamos no primeiro capítulo desta obra, não se pode querer nem pretender que o homem antigo ou o medieval pensassem, sentissem e agissem exatamente como nós, homens da era espacial e da sociedade científica e tecnológica do século XX. Assim, passemos a ilustrar esse princípio com um exemplo. Imaginemos as incipientes nações européias nos séculos VIII, IX, X e XI. São quatrocentos anos de duração e essas centúrias correspondem ao tempo que nos separa do início da colonização do Brasil. Pois bem, como já vimos em páginas anteriores, as cidades perderam nessa época todo o relevo social; os sítios ou fazendas transformaram-se em burgos ou castelos fortificados contra os contínuos assaltos de invasores, piratas e bandoleiros. As tribos germânicas ingressavam lentamente na órbita cultural da tradição antiga e da religião cristã e o povo, de fato, dividia-se em três classes: os guerreiros e nobres, o clero e os trabalhadores do campo. Só depois do ano mil é que vai aumentar e crescer a diferenciação das classes sociais. Ora,. de regra, os guerreiros só gostavam de lutar, caçar e divertir-se, embora tivessem, também, as suas convicções e práticas religiosas. Entretanto, nunca a vida no Ocidente foi tão belicosa e daí a importância dos barões, dos soldados e dos cavaleiros com as suas habilidades e os seus costumes rudes. Muitos blasonavam a própria ignorância e caçoavam dos letrados. Os servos e os camponeses livres não tinham pretensões quanto aos estudos. Os livros raríssimos em latim nada significavam para eles, preocupados com a marcha das estações, com o amanho da terra, o estado das culturas e a criação de animais, tal como os guerreiros só tinham olhos para as armas, os cavalos e a caça. Além disso, não havia jornais nem revistas, enfim, vivia-se num mundo de tradições orais donde a organização cultural que bafejara certas camadas populares no Império romano já desaparecera por completo, há séculos. Por conseguinte, o estudo, a cultura e o ensino tornaram-se apanágio dos clérigos e monges, tanto que durante séculos o termo francês clerc, clérigo, foi sinônimo de intelectual e letrado. Clérigos e monges precisavam saber ler e escrever para desempenhar o próprio ofício e corresponderem à sua vocação religiosa ou eclesiástica. Foi, desse modo, por um processo espontâneo que o clero regular e diocesano se tornou o depositário e o guardião da cultura antiga que se preservou para a posteridade, graças ao labor humilde, constante e impertérrito de clérigos, monges e monjas. Preste-se atenção, ainda, a um fato capital: o desejo de conhecer é inato no homem. Por isso, apesar das condições adversas, da carência de meios e de mil outras dificuldades, houve muitos guerreiros que se dedicaram ao estudo e se deleitavam com os livros nos intervalos dos combates, ao passo que muitos meninos e meninas, filhos de servos, receberam instrução nas escolas paroquiais e monásticas e foram saciar a sede do saber nas fontes remansosas dos claustros, tanto que muitos homens ilustres atingiram altas posições a partir da mais plana e baixa situação social, graças ao engenho, aos bons estudos, à aplicação perseverante, ao trabalho e ao reconhecimento lúcido dos adultos e superiores que sabiam recompensar o verdadeiro mérito para o bem da sua comunidade e do povo. Logo, não é de estranhar que, desde o início do renascimento carolíngio, em época de decadência cultural e de relaxamento de costumes, reis, imperadores e papas cuidassem de fazer reflorirem as escolas e de promover o estudo das letras divinas e profanas. E assim desenvolveu-se o mundo ocidental e foram surgindo os primeiros sinais e contornos da civilização que iria desabrochar esplêndida após o primeiro milênio da era cristã.

3. Já tivemos a oportunidade de assinalar, por várias vezes, o programa de estudos das escolas paroquiais, os estabelecimentos de nível elementar durante a Idade Média, freqüentados pelas crianças que não aprendiam a ler com os pais ou com os preceptores: leitura e primeiros elementos da escrita, tomando-se por texto principalmente os Salmos, doutrina cristã e o canto que servia para abrilhantar as cerimônias da Igreja. Conforme a região, a escola e o mestre, esses cursos elementares podiam admitir algumas variações.

4. Nas escolas monásticas e episcopais o currículo, antes da fase superior consagrada ao estudo da Sagrada Escritura, compunha-se das sete artes liberais, conforme o legado cultural romano, e a mediação dos enciclopedistas e autores didáticos que transmitiram a cultura antiga à Idade Média, como já o pudemos verificar no capítulo III. Convém advertir, no entanto, que é preciso ter certa cautela quanto à maneira de entender o significado das artes liberais. Após o renascimento da filosofia no Ocidente, depois do século XII, a introdução da filosofia aristotélica no currículo e o comentário da obra de Aristóteles por Santo Tomás de Aquino durante o século XIII, os estudiosos medievais tomaram perfeita consciência do significado e do alcance da expressão artes liberais, como o demonstrou com sobriedade e precisão Bernard J. Mullahy, C.S.C., no seu artigo The Nature of the Liberal Arts. Na primeira parte da Idade Média, no entanto, não se conheceu a obra aristotélica, exceto minguada porção da lógica e, ainda, através de expositores plenos de boas intenções mas de curto fôlego, e as artes liberales eram entendidas simplesmente no mesmo sentido com que hoje se fala de matérias do ensino ou de disciplinas curriculares. Por conseguinte, as artes liberais eram as matérias de ensino nas escolas episcopais e monásticas. Eram sete, tal como Marciano Capela as fixara nos Satyricon Libri IX, mais conhecidos pelo tema dos primeiros dois livros da obra: As Núpcias de Filologia com Mercúrio. O termo Satyricon provinha de satura, lanx, um prato cheio ou uma travessa de metal abarrotada de iguarias. Marciano Capela, como o vimos oportunamente, reduziu as nove disciplinas da enciclopédia de Varrão às sete artes liberais que foram matérias de ensino nas escolas monásticas e episcopais. Esse programa teve a sua formulação ainda mais simplificada nas Origines sive Etymologiae em vinte livros, obra redigida à volta de 600 por Santo Isidoro de Sevilha, sem se falar da magra pitança que Cassiodoro forneceu das sete artes nas suas Instituições Divinas e Seculares, e dos escritos lógicos e matemáticos devidos ao operoso e santo filósofo Boécio. No século IX Alcuíno compôs vários tratados sobre as artes dos quais só nos chegaram os referentes ao trivium, isto é, à gramática, à retórica e à dialética. O seu discípulo Rábano Mauro compôs em 819 um livro para a educação dos clérigos, o De Clericorum Institutione, em que ministra curtas instruções sobre as artes e publicou, também, a enciclopédia De universo. A obra De Clericorum Institutione divide-se em três livros e só no terceiro Rábano trata ligeiro das sete artes liberais a mostrar o que o clérigo deve saber dos estudos e das artes dos pagãos [220].

5. Valafrido Estrabão (Strabo), que estudou no mosteiro de Reichenau nos meados do século IX, deixou um documento do mais subido valor a respeito dos programas e da vida escolar no seu mosteiro, o Diário de um Estudante, cujo manuscrito foi descoberto e analisado criticamente no fim do século XIX e que Augusto Messer traduziu para o alemão e publicou na sua História da Pedagogia. Logo mais, destacaremos algumas das informações preciosas prestadas pelo Diário de um Estudante de Valafrido a respeito do ensino das artes liberais e da vida numa escola monástica externa. Uma das suas indicações é a de que monges da Inglaterra, por exemplo, vinham, como mercadores que alardeiam o mérito das suas mercadorias, oferecer-se para ensinar grego, a fim de venderem a boa sabedoria aos fregueses interessados. Ora, já sabemos perfeitamente que os monges irlandeses durante a primeira Idade Média foram os apóstolos do continente europeu e os seus mais luzidos mestres. Foi devido ao magistério dos irlandeses na Germânia que as artes liberais passaram a ser designadas como Methodus Hybernica, ou seja, o método irlandês. Além disso, os monges disseminaram o emprego de versos mnemônicos, a fim de facilitar a retenção da seqüência das artes. Assim: "Língua, tropus, ratio, numerus, tonus, angulus, astra. Gram loquitur, Dia vera docet, Rhe verba colorat, Mu canit, Ars numerat, Geo ponderat, Ast colit astra."

6. O número sete era profundamente simbólico, uma vez que são sete as petições do Padre-Nosso, sete os Dons do Espírito Santo, sete os sacramentos e existem sete virtudes, sete pilares da sabedoria e sete céus. Ademais, cumpre observar que os mestres cristãos retiraram às artes liberais a sua conotação social - artes só para os homens livres - e com Cassiodoro passaram a explicar que elas são liberais, porque se expõem e se aprendem nos livros (liber=livro). Além das sete artes liberais que os letrados deviam conhecer, havia as sete artes mecânicas necessárias à vida social e à utilidade dos homens: as artes da tecelagem, do ferreiro, da guerra, da navegação, da agricultura, da caça e da medicina, e às quais ainda se acrescentavam as do teatro, da dança, da luta e da condução de veículos. Até mesmo os requisitos para a sagração do cavaleiro eram sete artes que constituíam o aprendizado dos jovens nobres desde a infância como pajens e na adolescência como escudeiros: equitação, esgrima, torneio, luta, corrida, salto e arremesso da lança ou noutro elenco: equitação, natação, tiro de flecha, luta, caça, xadrez e versificação. Assim como as artes mecânicas desbordaram do quadro tradicional com o progresso econômico e as transformações sociais, as artes liberais se multiplicaram e o seu âmbito ampliou-se de modo notável a partir * do século XII, em conseqüência da introdução da enciclopédia aristotélica e da ciência muçulmana no Ocidente cristão, o que levou ao surgimento de novas escolas e à inserção de novas disciplinas nos programas de ensino. Desde o século X, os fatos mais notáveis nesse plano foram a projeção da dialética e da matemática.

7. A dialética começou a ser estudada com afinco na Idade Média desde o período carolíngio, quando as obras lógicas de Boécio começaram, de fato, a ser lidas e estudadas. No fim do século X, Gerberto lhe conferiu papel de relevo no ensino na escola episcopal de Reims, Fulberto cultivou-a na escola episcopal de Chartres, enquanto o seu ensino coruscava e atraía alunos na escola monástica de Bec sob o impulso e a direção dos italianos Lanfranco e Santo Anselmo. Este último, por sinal, elaborou as primeiras obras de teologia escolástica com o auxílio da lógica. Depois, no século XII, houve a consagração da lógica com os feitos notáveis de Abelardo, o "cavaleiro da dialética", que redigiu alentado manual de Dialética com os parcos recursos bibliográficos de que dispunha, mas com a sua extraordinária inteligência e acuidade mental. Abelardo assentou a sua cátedra de lógica na escola claustral dos cônegos regulares de Santa Genoveva em Paris donde exerceu a máxima influência na propulsão dos estudos lógicos.

8. Ainda no século X intensificou-se o estudo da matemática em Liège, Lobbes e Reims principalmente. Nesse tempo Herigério em Lobbes inventou um novo ábaco - tábua de cálculos -diferente do romano usado nas escolas monásticas e episcopais, que perdurou no ensino até o século XIV. Na mesma época introduzem-se no Ocidente e vão utilizar-se no ensino os algarismos arábicos. Fere-se, então, por primeiro a luta dos abacistas que preferem fazer cálculos por meio do ábaco e dos algoristas que recorrem à pena e empregam os algarismos arábicos. Desde o século XII, ademais, cresce o saber com o ingresso no círculo cultural do Ocidente da medicina árabe, das ciências exatas e de mais noções matemáticas. Opera-se no mundo cultural cristão um verdadeiro salto qualitativo para o qual contribuíram de modo capital os tradutores. A esta altura, convém assinalar outro fato muito importante para a história da educação e dos currículos escolares: na Idade Média as artes liberais ou as humanidades são as matérias do ensino escolar que ajudam o homem a libertar-se da ignorância e a evitar o erro, e elas abrangem disciplinas literárias como a gramática e a retórica, filosóficas como a dialética - que foi a única representante da Filosofia no ensino durante séculos - e científicas como as quatro artes do quadrívio que se enriqueceram soberbamente, por ocasião do renascimento cultural do século XII. A educação intelectual dos jovens, portanto, era sadiamente equilibrada com o estudo das letras, das ciências e da filosofia, suavemente permeadas pelo espírito sobrenatural do Evangelho, embora alguns centros como Paris, Chartres e Orleães se especializassem mais no ensino e no cultivo de certas disciplinas. Foram os humanistas do grande Renascimento do século XV que preferiram a expressão Humanitates à de Artes Liberales e deram ênfase ao cultivo das línguas mortas da antigüidade, o grego e o latim clássico, bem como à história e à filosofia platônica em detrimento das ciências exatas e da matemática. Data, pois, do grande Renascimento dos séculos XV e XVI o excessivo enaltecimento das letras e das passadas línguas da Hélade e do Lácio em completo desacordo com a tradição escolar medieval no ensino das sete artes, das ciências e da filosofia. E, se mais não se fizera pelas ciências no fim do período medieval, isso não foi culpa nem deficiência, uma vez que o conhecimento científico depende de recursos materiais e de implementos técnicos que só no século XVII começariam a surgir. Convém, no entanto, assinalar que Galileu se serviu da luneta como Kepler, porque as lentes começaram a ser polidas no século XIII quando, também, muçulmanos e cristãos deram impulso às investigações sobre a óptica.

9. No século XII, o cônego vitorino Hugo de São Vítor, falecido em Paris em 1141, compôs a famosa obra Didascálicon em que apresentou instrutiva descrição das sete artes liberais, assim como das artes mecânicas que ele incluiu, de forma inédita, no âmbito da filosofia, outro fato digno de realce. Na mesma época, o fino humanista que foi João de Salisbury fez a defesa das artes do trivium no seu Metalógicon, e ele também proporciona valiosas informações sobre as escolas, os mestres e os programas de Paris e de Chartres. No século XIII, ante o surto esplêndido das ciências e da filosofia, São Boaventura redigiu com boa e piedosa intenção a sua Redução das Artes à Teologia, De reductione artium ad theologiam, em que se pode discernir a convicção aceitável de que a ciência sagrada sobrepaira as demais pela sua dignidade, mas que não se pode admitir como a redução convincente das ciências profanas e racionais à sabedoria sagrada e sobrenatural, pois não convém confundir as ordens do saber, distintas pela sua própria natureza.

10. Marciano Capela foi, de fato, quem apresentou e ilustrou a concepção das sete artes liberais para os estudiosos da Idade Média. A descrição que ele fez de cada uma das artes inspirou os artistas e serviu para a decoração das catedrais e para o embelezamento dos manuscritos. A Gramática é uma matrona que viveu quase a vida inteira na Ática e se apresenta revestida de manto romano trazendo nas mãos um estojo de marfim com tinta, penas e tabuinhas, a férula para castigar os maus alunos e, ainda, um escalpelo para corrigir na língua e nos dentes os vícios da linguagem e mais uma lima dividida em oito partes por riscos doirados, símbolos das divisões do discurso. A Dialética, de rosto esperto e bela cabeleira, tem na mão esquerda uma serpente meio oculta pelo vestido e, na direita, uma tabuinha de cera e um anzol. A Retórica, a virgem mais imponente e bela, armada como um guerreiro, marcha ao som das trombetas. A Geometria é linda mulher cujo vestido ostenta as formas e os movimentos dos astros, bem como a sombra da terra no céu. Ela traz na mão direita um compasso (radius) e, na esquerda, uma esfera. A Aritmética apresenta-se com a cabeça resplandecente, a sua roupa traz representações dos seres da natureza e os seus dedos agitam-se como vermes inquietos. A Astronomia aparece num globo de fogo, coroada de estrelas, com asas doiradas e penas de cristal. Numa das mãos segura um instrumento brilhante e, na outra, um livro em que se vêem os caminhos dos deuses e os cursos dos astros. Por fim, surge a Harmonia ou Música com a sonora cabeça coberta por folhas de ouro coruscante e revestida de lâminas que retiniam ao menor movimento, de modo que ela é melodiosa da cabeça aos pés. Entre tantos passos curiosos e instrutivos da obra de Marciano Capela vale ressaltar os louvores da Aritmética ao número sete, símbolo de Minerva, pois sete são os círculos e os planetas, as misturas dos elementos, os orifícios da cabeça que são órgãos dos sentidos e os membros vitais do corpo: língua, coração, pulmão, baço, fígado e os dois rins. Além disso, a primeira parte do Livro VI dos Satyricon Libri IX constitui um tratado de geografia.

11. No estudo da gramática usava-se o texto de Êlio Donato (cerca de 350 d.C.) e o tratado de Prisciano (séc. VI d.C.). Serviam de livros de leitura obras interessantes e fáceis como as Fábulas de Aviano e os Disticha Catonis, coleção de sentenças morais provenientes de Comodiano, cristão africano, mas atribuídas a Catão, o Velho (Censorius, o Censor). Os capítulos começam por trechos poéticos, pois os versos podiam ser gravados com mais facilidade e ajudavam também à pronúncia exata das palavras. Liam-se, ainda, as obras de Virgílio e Ovídio e na prosa Tito Lívio, Suetônio, Orósio, Sêneca e Cícero. Como faltavam livros - não havia imprensa - os professores ditavam o texto aos alunos, comentavam-nos, os passos seletos eram decorados e as regras de gramática e retórica eram aplicadas nos exercícios escritos e nos debates. O exercício em prosa era o dictamen prosaicum e o exercício em versos, o dictamen metricum. O curso de gramática era o mais longo e, de regra, durava quatro anos. A retórica, evidentemente, não podia mais ser ensinada como na antigüidade, pois perdera a sua importância social e profissional. Ensinava-s;: durante a Idade Média através de exercícios de redação - dictamen prosaicum - acompanhados pelo aprendizado de noções de direito e de composição de cartas, uma vez que os barões analfabetos precisavam de um clérigo instruído que desempenhasse o papel de secretário e conselheiro [221].

12. Na primeira parte da Idade Média o ensino da dialética foi muito minguado e anêmico. Usavam-se as obras de Boécio, Cassiodoro, Marciano Capela, Apuleio e alguns escritos lógicos de Aristóteles traduzidos por Boécio [222]. O estudo teórico era completado pelos exercícios práticos, os debates, geralmente sobre assuntos teológicos. Além desses estudos sermocinais, na primeira parte da Idade Média os adolescentes estudavam canto e adquiriam algumas noções de matemática e ciências. Eles aprendiam a fazer contas e calculavam servindo-se dos dedos e do ábaco. Dava-se atenção ao sentido místico dos números, segundo a arcaica concepção pitagórica que ajudaria a entender melhor certos passos bíblicos. Ademais, o calendário eclesiástico requeria conhecimentos astronômicos, para que se pudesse determinar exatamente a data da Páscoa. Ao ensino da astronomia juntavam-se algumas noções de cosmografia. Estudava-se geometria geralmente pelo Livro VI da obra de Marciano Capela e, a partir do fim do século X, pela Geometria de Boécio. Foi, também, a obra boeciana De musica que serviu de base para o estudo da teoria musical. No curso de geometria estudava-se, ainda, como já dissemos, a geografia com a utilização dos escritos de Marciano Capela, Júlio Solinus (início do séc. IV d.C.), de mapas antigos de excursões pelo campo. Em algumas escolas cultivavam-se as ciências naturais e recorria-se às obras de Santo Isidoro de Sevilha, ao De universo de Rábano Mauro e ao Phisiologus, obra procedente da antigüidade. O ensino da religião começava desde o nível elementar com o aprendizado das orações do Pater, do Credo, dos Salmos, e prosseguia com o estudo das Atas dos concílios, as obras dos Santos Padres, e culminava com o estudo e a meditação profunda da Sagrada Escritura.

13. No século VI Boécio denominou as artes reales, matemática e ciências, que se referiam às coisas, res - donde reales - de quadrivium que, mais tarde, se grafou quadruvium [223]. Alcuíno empregou o termo trivium para nomear as artes sermocinais - de sermo, palavra - e quadrivium para as artes reais. A ele ou à sua escola atribuiu-se o comentário a Horácio, Scholia Vindobonensia ad Horatii artem poeticam, no qual parece ocorrer o mais antigo exemplo do termo trivium junto com a expressão quadruvium. Pio Rajna, conclui que a divisão das sete artes liberais em trívio e quadrívio já começara a ser usada no começo do século IX. Ela não parece ser mais antiga do que as Etimologias de Santo Isidoro e tudo indica que teria sido introduzida, com efeito, por Alcuíno com o objetivo de dividir os livros escolares de diferentes disciplinas [224].

14. Não existe melhor ilustração sobre o andamento de uma escola monástica, sobre o conteúdo do ensino das artes liberais e de outras disciplinas, sobre os livros escolares e os processos didáticos, que o Diário de um Estudante, de Valafrido Estrabão, na escola externa da abadia de Reichenau. Nenhum resumo ou paráfrase dessa obra consegue substituir a leitura do texto deveras precioso, e um documento único sobre a vida escolar no primeiro quartel do século IX, durante o reinado de Luís, o Piedoso. Não podemos transcrevê-lo nem destacar as múltiplas informações de profundo significado para o nosso estudo, mas vamos realçar alguns passos muito elucidativos desse opúsculo que vem inserto na História da Pedagogia de Messer [225]. Segundo Valafrido, antes do curso das artes liberais, os meninos aprendiam a ler. Eram todos da mesma idade, e vornehmen wie geringen Standes, de classe nobre e plebéia. Atente-se para o pormenor. Os seus colegas eram nobres e plebeus. O gering estudava ao lado do filho do conde ou do aristocrata, vornehm, e todos aprendiam a ler em livros latinos e em obras escritas em alemão: Darauf bekam ich ein deutsches Büchlein, depois disso recebi um livrinho em alemão. No outono havia férias, passeios e divertimentos. Durante o inverno os alunos dedicavam-se ao aprendizado da escrita e na primavera do ano 816, com dez anos de idade, Valafrido passou a estudar com magister Gerald, o professor de gramática. Vamos agora citar os eventos mais salientes, de acordo com a seqüência dos anos escolares. Ano 816. Os alunos mais adiantados só conversam em latim fora das horas de recreio e aos principiantes é facultado o uso do alemão. O estudo inicial da gramática de Donato era feito sob a orientação de um colega mais adiantado. No período vespertino, tratava-se de aplicar as regras aprendidas de cor pela manhã. De noite, ouvia-se a leitura de uma passagem de história bíblica a ser cobrada pelo mestre na manhã seguinte. A escola estava situada em edifício próprio e entre ela e o mosteiro erguia-se a magnífica catedral. Quando esta foi consagrada, a festa contou com esplêndido coral que nos dá idéia da freqüência da escola: cem educandos, zöglinge, da escola interna e quatrocentos, da externa.

15. Ano 817. Valafrido passou ao estudo da segunda parte da gramática e começou a leitura gradual do Saltério. Em 818, exames sobre a matéria estudada anteriormente e leitura das obras de Alcuíno, dos Dísticos de Catão e da Métrica de São Beda. Em 819, Valafrido recebeu a incumbência de instruir os novos alunos, a fim de completar os seus estudos de gramática. O seu mestre, por sua vez, explicou as figuras da linguagem na Sagrada Escritura e nas obras poéticas de Estácio e Lucano. Quem não tinha vocação para o ensino dedicava-se à cópia de trechos das gramáticas de Prisciano, Mário Vitorino e Cassiodoro ou compunha frases em alemão sobre temas da vida diária ou da Bíblia. Vinha então a recapitulação da gramática, antes de os 32 alunos passarem à classe de retórica. Todavia, alguns jovens nobres, Adelige, voltavam para casa ou eram retirados da escola por seus pais, a fim de serem instruídos nas artes cavaleirescas que não recebiam atenção alguma na escola monástica. Isso indica que os anos de gramática perfaziam um vero curso de letras e de cultura geral. Em 820, começou o estudo da retórica nas obras de Cassiodoro, Cícero e Quintiliano com muitos exercícios de redação, e o estudo da história no Martirológio, na Crônica de São Beda, e nas de Eusébio de Cesaréia, São Jerônimo, Próspero, Cassiodoro, Jordão e Melito, nas obras de Salústio e Tito Lívio, ao mesmo tempo que se lia o Diálogo, de Alcuíno, entre a Retórica e as Virtudes. Havia, ademais, comentário de trechos da Eneida de Virgílio, das obras de Prudêncio e Fortunato e composição de poemas latinos. Em 821, começou o estudo da dialética nas obras de Alcuíno, Cassiodoro, Porfírio, Boécio e São Beda. Prosseguiu-se na leitura dos poetas e no estudo da história e havia prova semanal. Os alunos que não apreciassem a lógica estudavam o direito nos códigos de Teodósio, e dos francos sálios e ripuários. No ano 822 houve exercícios orais e escritos de retórica e de dialética e composição poética em alemão, pois Carlos Magno insistira muito com o abade Hato, para que se desse importância à língua alemã, der deutschen Sprache. Por fim, chegaram os exames. Em 822, procedeu-se ao estudo da aritmética nas obras de Boécio e São Beda e de cronologia bíblica e eclesiástica e, antes de iniciarem o curso de geometria, muitos condiscípulos de Valafrido abstiveram-se dos cálculos e separaram-se da turma para se dedicarem ao estudo da medicina, das ciências jurídicas ou das artes da pintura e da escultura que se aprendiam com Irmãos em outra ala do mosteiro. Quem queria, no entanto, estudar farmácia ia ter com Dom Richram que tinha casa própria junto da abadia e onde cultivava Heilkräuter, ervas medicinais, preparava bálsamos e poções e, com o auxílio de outros Irmãos, atendia aos doentes.

16. No ano 823, vinte alunos prosseguiram no estudo da geometria em obras de Boécio, assim como no da geografia através do Itinerário de Antonius, na Cosmografia de Ethicus (sic) e nos escritos de São Beda e Santo Isidoro, sobre manusearem mapas e traçarem desenhos e figuras na areia do campo dos jogos e efetuarem exercícios de agrimensura. Em 824, iniciou-se o estudo da música nos livros de Boécio e São Beda e o aprendizado de algum instrumento tal como o órgão, a harpa, a flauta, a trompa, a cítara ou a lira de três cordas. Com o erudito Dom Wetino aplicou-se Valafrido ao estudo do grego, estudou a gramática de Dositeu e leu a Ilíada de Homero num manuscrito adquirido em Aqüisgrana von einem Griechen aus Konstantinopel, de um grego de Constantinopla. No ano 825, finalmente, completou-se o estudo das artes liberais com o curso de astronomia baseado nas obras de Boécio e de São Beda. Aí temos, pois, valiosa cópia de dados sobre o conteúdo das sete artes liberais e sobre os processos de ensino na escola monástica da abadia de Reichenau no primeiro quartel do século IX e o Diário de um Estudante de Valafrido é a voz de um escolar que ainda ressoa fresca, juvenil e ardente lá do remoto ambiente beneditino no tempo de Luís, o Piedoso.

17. Peter Vossen escreveu um notável comentário ao opúsculo poético de Walther von Speyer, Libellus Scolasticus, relatório escolar do ano 984 concernente à escola episcopal de Speyer. Evidentemente, o Libellus Scolasticus em versos é muito menos informativo que o Diário de Valafrido em boa prosa e escrito mais de um século antes, mas ele também proporciona dados valiosos a respeito de uma escola episcopal do fim do século X. Valter de Speyer refere-se em versos e metáforas ao aprendizado do alfabeto, do canto dos salmos e da gramática: Grammaticis opibus me tertius applicat annus, da dialética, da retórica, da aritmética, rithmica summarum, da geometria, da música e da astronomia, quinque parallelos Urania complicat orbes [226].

18. Através de vários documentos, neste e nos capítulos anteriores, pudemos verificar a gradual aculturação dos povos germânicos do Ocidente e a recuperação da cultura antiga em níveis cada vez mais altos em relação ao que tivera nas épocas de decadência posteriores às guerras e às invasões, embora os estudos e as letras nunca se tenham eclipsado totalmente no mundo ocidental. Essa situação da Idade Média Latina não se pode comparar à do Império Bizantino no mesmo período, uma vez que este herdou, cruzou, assimilou e desenvolveu a cultura antiga grega e oriental sem solução de continuidade, apesar de épocas de atonia cultural, tanto que o famoso bizantinista Louis Bréhier observou que, segundo os cronistas do século IX, a ignorância reinou no império no século VIII até que Teófilo descobriu Leão, o Matemático, que ele fez diretor da escola estabelecida na igreja dos Quarenta Santos e, depois, no palácio de Magnaura [227].

19. Enquanto os povos cristãos do Ocidente e os novos invasores convertidos à fé cristã faziam os seus séculos de aprendizagem do Evangelho e da cultura clássica durante o período carolíngio e o século de ferro, os muçulmanos estabilizados no Oriente, na África e na Península Ibérica entraram em contato direto com o creme da cultura antiga, assimilando o saber clássico dos gregos, dos egípcios e dos persas e beneficiando-se, ainda, das realizações culturais bizantinas. Os seus chefes, os sultões, usaram de política habilíssima, favoreceram os estudos, as ciências e as artes; concederam honras e promoções aos sábios convertidos à religião muçulmana, de tal modo que os povos islâmicos, em pouco tempo, atingiram alto grau de desenvolvimento científico, técnico e econômico, o que ensejou o surgimento de nova e esplendorosa civilização. Como tivemos a oportunidade de ressaltar em livro anterior, a Síria exerceu papel de capital importância na transmissão do saber antigo aos muçulmanos: "A partir do século IV, foram traduzidos para o siríaco obras filosóficas, médicas, matemáticas e geográficas. Entre os anos de 750 e 850, os estudiosos sírios traduziram para o árabe as obras que durante duzentos anos haviam sido vertidas do grego para o siríaco. Essas traduções do siríaco para o árabe foram o resultado do trabalho espetacular dos sábios cristãos da Síria. Muitos deles viviam como médicos, diz Munk, na corte dos califas, e indicavam aos árabes os livros que lhes pudessem ser de interesse" [228]. Dois são os fatos mais salientes no surto cultural dos muçulmanos. Primeiro, eles revelaram notável poder de assimilação do patrimônio cultural helenístico e, segundo, deveram a oportunidade de tal assimilação e do encontro com o legado do saber antigo aos cristãos, notadamente aos sírios, de modo que no século XII, quando se deu o renascimento científico e filosófico do Ocidente, os cristãos receberam com juros o patrimônio transmitido anteriormente aos árabes. No período carolíngio, floresceram no Islão os pensadores de Bagdá: Al Kindi, falecido em 873; Al Farabi, que morreu em 949 ou 950, e o grande filósofo e médico persa Ibn Sina ou Avicena, que nasceu em 980 e viveu até 1037. Avicena escreveu obras médicas, grandes paráfrases de Aristóteles e uma notável enciclopédia filosófico-científica de cunho aristotélico e neoplatônico. Foi para divulgar a sua doutrina psicológica sobre o intelecto que Ibn Tufail compôs a curiosíssima novela pedagógica O Filósofo Autodidata em que descreve a vida de um super-Robinson Crusoe aviceniano, nascido por geração espontânea ou filho de princesa, enjeitado como Moisés e que aportou a uma ilha onde cresceu, viveu, pensou e aprendeu o que os maiores sábios em grandes centros de estudo jamais conseguiriam saber. No século XII viveu na Espanha o maior filósofo muçulmano, o pensador de Córdova Ibn Rosch, Averróis (1126-1198) que, junto com Avicena, tanto influenciou os escolásticos cristãos. Aliás, convém lembrar que o texto fundamental de matemática Cálculo de integração e equação, usado nas universidades européias até o século XVI e que introduziu no Ocidente a palavra álgebra, era de autoria do famoso matemático Al-Khwarizmi ou Muhammand ibn Musá (780-850).

20. Os muçulmanos patrocinaram atiladamente a fundação de escolas em seus domínios. A educação centralizava-se no elemento religioso do Alcorão. Em muitas escolas ministrava-se o ensino da ortografia, da gramática, da poesia e da redação, embora algumas se restringissem apenas à doutrina religiosa. O ensino superior constava de estudos de direito, gramática, literatura, retórica, ciências e filosofia, mas o centro continuava a ser o Alcorão e as Seis Coleções de Tradições referentes a Maomé. Embora fossem numerosos os mestres particulares que lecionavam gratuitamente, o ensino era dado nas madrasas ou colégios do Cairo, Damasco, Bagdá, Ispahán, Fez, Kairuán e Córdova e, depois, nas escolas superiores das mesquitas. Cumpre lembrar, no entanto, que no próprio século de ferro, os moçárabes levaram as suas escolas ao máximo esplendor em Córdova no ensino da teologia, da gramática e da poesia, escolas e ensino que aí prosperavam antes do surto das escolas muçulmanas.

21. Como já observamos anteriormente, a educação dos leigos nobres realizou-se na Idade Média através do aprendizado das artes cavaleirescas. Podemos esclarecer, no entanto, que a formação completa do nobre, segundo o ideal da cavalaria, só ocorrerá após o primeiro milênio da era cristã, para atingir o seu ápice nos séculos XII e XIII. Só então, pode considerar-se firmado o ideal cristão da cavalaria e o refinamento de maneiras dos melhores guerreiros, graças à difusão da lírica trovadoresca, da elegância e do amor cortês, do gosto poético e musical que se irradiaram da Provença e da França, enfim, por toda a Europa. É aí que no século XIII surge o mais perfeito elucidário dos deveres impostos pelo ideal da cavalaria na obra de Raimundo Lúlio, O Livro de Cavalaria. Além do carinho respeitoso pelas mulheres, do acatamento para com o clero, da sua missão de protetor dos pobres, o cavaleiro, sobre ser um valoroso soldado, deveria refulgir pelo espírito de fé, pela prática das virtudes e pela sincera piedade para com Deus. Nunca se deve deixar de ter em mente sobre esse assunto que uma coisa é o ideal altaneiro e outra, bem diferente, a realidade quotidiana. Carlos Magno e os seus sucessores legislaram com a melhor intenção sobre a fundação de escolas e a renovação dos estudos, mas houve uma distância imensa entre as Capitulares e o que foi feito ou estabelecido efetivamente. A Igreja Católica, por sua vez, propõe sempre a doutrina evangélica e a imitação de Cristo aos fiéis, mas os santos são raros, "rari nantes in gurgite vasto". Os membros de outras religiões cristãs carregam a Bíblia de um lado para outro e vivem a recitar versículos, mas a sua conduta, freqüentemente, discorda mais da Escritura que o sim do não. Por isso, não é de estranhar que a maioria dos cavaleiros não correspondesse ao modelo e às aspirações propostos por um São Raimundo Lúlio e que muitos não passassem, como reza antiga modinha popular, de "refinados gaviões". Mas havia um ideal do cavaleiro, tal como existe o do santo, do sábio, do artista e do cidadão exemplar. No tempo de Carlos Magno o súbito refinamento de maneiras na Academia Palatina não chegava a seduzir velhos guerreiros acostumados apenas à violência, aos urros e à bebedeira. Assim, no círculo cortesão de Carlos Magno aparece entre os convivas que escutam com enlevo os versos de Teodulfo o "membrosus Wibodus heros", o alentado guerreiro Wibodo que sacode a cabeçona com ar ameaçador e feroz e que, ao ser censurado pelo rei, se afasta capengando, "Vulcano no andar, Júpiter pela voz". Pois bem, apesar dos desprimores da condição humana, procedia-se com empenho à educação do cavaleiro. Dos sete aos quatorze anos o menino nobre era pajem educado por distinta matrona e virtuoso e instruído monge ou' clérigo. Dos quatorze aos vinte e um anos ele se tornava escudeiro, auxiliar do senhor e exercitava-se nas armas, nos combates e nos divertimentos. Aos vinte e um anos fazia a solene vigília de armas, participava da Santa Missa, recebia os sacramentos, lurava fidelidade ao seu suzerano e era sagrado cavaleiro em meio a solene cerimonial.

22. Na primeira parte da Idade Média os nobres recebiam a educação tradicional do seu povo já influenciada pela doutrina cristã e pelos fermentos clássicos da educação romana no período da decadência. Apesar de predominar fortemente a grosseria do bárbaro e a empáfia do soldado analfabeto, houve leigos nobres instruídos, particularmente na Itália, no reino franco no período carolíngio, na Grã-Bretanha desde o século VIII, na Germânia, na Flandres, na Itália e na Inglaterra a partir do século X, como o demonstrou sobejamente James Westfall Thompson em sua tese The Literacy of the Laity in the Middle Ages. Um traço saliente da instrução dos nobres e dos leigos foi a composição dos "Espelhos dos Príncipes", obra de educação moral e religiosa. Através desses "Espelhos", a Igreja cuidava de formar moralmente os governantes, recomendando-lhes a prática da justiça e o exercício das virtudes cristãs. Schnürer diz ver nesses escritos os inícios da literatura política da Idade Média. O abade Smaragdo, provavelmente irlandês, do mosteiro Saint-Mihiel-s-Meuse conta para Carlos Magno as virtudes dos reis do Antigo Testamento na sua obra Via Regia. Jonas, bispo de Orleães de 818 a 843, dedicou ao rei Pepino da Aquitânia, em 834, o seu Espelho de Paz, De institutione regia, em que enaltece o sentido cristão da realeza e enumera os direitos e os deveres dos reis. Noutra obra, a De institutione laicali ou Espelho Leigo, dedicada ao conde Matfredo de Orleães sobre os deveres morais das pessoas casadas, Jonas ensina aos senhores que não devem ambicionar os bens da Igreja particular localizada nos seus domínios.

23. O irlandês Sedulius Scottus, de Liège, dedicou provavelmente ao rei da Lotaríngia, Lotário II, o seu Espelho dos Príncipes, De rectoribus christianis, composto entre 855 e 859. Sedúlio esboça as figuras do bote e do mau rei e ensina que o governo de um rei justo se assenta nos oito pilares da verdade, da perseverança, liberalidade, palavra afável, amizade com os bons, a diminuição dos impostos, a eqüidade nos juízos entre os ricos e os pobres, e o castigo dos maus. Como se vê, trata-se de um excelente espelho em que os governantes atuais poderiam mirar-se e instruir-se com muito proveito para o desempenho das suas tarefas em prol do bem comum. Foi às instâncias do rei Carlos, o Calvo, que Hincmar de Reims redigiu o Espelho Da pessoa e das funções reais, tendo organizado sobre o tema uma compilação dos ensinamentos dos Padres da Igreja. Ermoldo, o Negro, que compusera no exílio um poema épico em honra de Luís, o Piedoso, In honorem Hludowici Christianissimi Caesaris Augusti Ermoldi Nigelli exulis elegiacum Carmen, dedicou a Pepino, rei da Aquitânia, preciosos conselhos no gênero dos Espelhos. Depois de lhe elogiar as qualidades físicas, Ermoldo exorta Pepino a cuidar dos deveres do soberano e a não se deixar absorver só pelos prazeres da caça. Recomenda-lhe, outrossim, viver segundo a sabedoria dos antigos romanos, o amor e a justiça, procurar sobretudo o reino celeste e proteger a Igreja [229].

24. Não resta a menor dúvida, todavia, de que o mais perfeito Espelho da primeira idade Média foi o Manual de Dhuoda, e isso demonstra que as mulheres podiam igualar-se aos homens e aos clérigos mais instruídos e, por vezes, até mesmo superá-los. A nobre senhora Dhuoda começou a escrever um manual de alto valor educativo para o seu filho Guilherme, a 30 de novembro de 841, e terminou-o a 2 de fevereiro de 843. O livro compõe-se de 81 capítulos divididos em onze partes na edição crítica feita por Pierre Riché. Na primeira parte Dhuoda fala da sublimidade de Deus e do seu amor. Na segunda discorre sobre o mistério da Santíssima Trindade, sobre as virtudes teologais e a oração. Na terceira expõe a moral social; na quarta trata dos vícios e das virtudes e nisso o Manual se assemelha aos Espelhos escritos por Alcuíno, Paulino de Aquiléia, Jonas de Orleães e Hincmar. Na quinta parte Dhuoda descreve as tribulações humanas; na sexta aponta ao filho o caminho da perfeição através dos sete dons do Espírito Santo e das oito beatitudes; na sétima fala do nascimento e da morte carnal e espiritual; na oitava apresenta as intenções pelas quais Guilherme deve rezar; na nona Dhuoda disserta sobre a aritmologia sagrada; na décima alude à vida de Guilherme e da sua família e, por fim, na décima primeira ensina ao filho o modo de cantar os salmos. Como diz Riché, no seu estudo introdutório, o Manual é muito diferente dos Espelhos escritos por clérigos na mesma época. É, na verdade, o livro do perfeito aristocrata [230]. O Manual de Dhuoda é a obra mais original da pedagogia no período carolíngio e no seu gênero é única na primeira parte da Idade Média. No Manual a fidelidade a Deus, aos pais e ao rei é engrandecida e recomendada e Dhuoda assenta a educação nas profundas convicções religiosas para ajudar o filho a ser um homem de bem e um cristão esclarecido e coerente [231].

25. Pierre Riché num artigo interessante sobre a instrução dos leigos do IX ao XII século procurou esclarecer três pontos e, ao que me parece, com êxito diferente. Primeiro, ele indica que o melhor modo de conhecer a instrução dos leigos entre o século IX e o XII é o exame das assinaturas autógrafas de documentos oficiais, diplomas e Cartas (títulos de cartório), e ele verificou que a civilização da escrita predominou no sul da França, na Espanha e na Itália e que entre as assinaturas dos documentos cartorários não se acham apenas os nomes de aristocratas como, também, os de artesãos e cambistas. Com base nas vidas de santos e nos cartulários, Riché conclui que a instrução elementar dos leigos de condição média não foi negligenciada, que a tradição do ensino particular sempre foi viva e atuante e que as crianças recebiam a primeira instrução dos próprios pais ou de preceptores particulares, quando a família não as enviava para uma escola monástica, embora com o receio de que pudessem vir a ser atraídas pelo ideal monástico da vida. A segunda questão investigada por Riché, sem êxito me parece, refere-se às "escolas leigas" da Itália. As inferências no rumo de resposta positiva, feitas por Giesebrecht, Salvioli, Manacorda, Solmi e Bezzola, ele contrapõe a hipótese de que os únicos mestres do período teriam sido clérigos e monges. A tese dos autores que defendem a existência das escolas leigas na Itália, ao lado das clericais e monásticas, -e mais aceitável pois, como temos visto em capítulos anteriores, a tradição clássica e escolar antiga nunca desapareceu por completo na Itália e, o que me parece um argumento ponderabilíssimo, foi exatamente na Itália, mantenedora das antigas tradições escolares e em contínua relação com a cultura bizantina, que surgiram no século XI as escolas de caráter prático, de mestres leigos de gramática, de ars dictaminis e de retórica, que levariam ao estudo das leis com o renascimento do direito romano durante o século XII. E a primeira Faculdade cronologicamente na universidade medieval foi precisamente a de Bolonha, a escola de direito, e a faculdade mais laical da universidade na Idade Média. Por fim, Riché termina as suas investigações a examinar a diferença entre laicus e illiteratus. O clérigo é pessoa que pertence à hierarquia eclesiástica, enquanto o leigo é o cristão comum e filho da santa Igreja desde o batismo. O litteratus é a pessoa instruída na língua latina. Por isso, clérigo ou leigo podia ser litteratus, desde que soubesse latim. E podiam ser illiterati, sem serem ignorantes ou analfabetos, como a mãe de Guibert de Nogent, illiterata, que não sabia latim, mas ensinara seu filho a ler. Riché conclui o seu artigo a reconhecer que o desejo de cultura semelhante à dos clérigos não foi privilégio dos aristocratas, mas característica dos leigos de classe mais modesta e que também aspiraram à instrução e a receberam dos clérigos.

26. Em qualquer época a peça de resistência das escolas é a biblioteca. Esse termo de origem grega, Bibliothêkê, significava de início a loja onde se vendiam livros, mas a partir do Brucheion, a grande biblioteca de Alexandria, o termo passou a significar coleção de livros. Na idade Média a biblioteca era chamada de armarium, scrinium, libraria arca e, segundo Léon Maître, o termo armarium era o mais usual para designar o lugar em que se guardavam os livros. Em apêndice à sua obra Les Écoles Épiscopales et Monastiques en Occident avant les Universités, Maître faz um bosquejo das bibliotecas monásticas do século IX ao XIII. Na famosa abadia de São Galo (Saint-Gall), grande centro escolar, o catálogo só contém obras de interesse escolar. No século VIII damos com as obras de Donato, Prisciano, São Beda, Hipócrates, Galeno, etc. No século IX, com as obras de Apuleio, Plínio, Boécio, Cassiodoro, Santo Isidoro, Alcuíno, Rábano Mauro, Flávio Josefo, vários códigos e outros livros. No século X aparecem comentários sobre as Categorias de Aristóteles, clássicos como Pérsio, Ovídio, Lucano, Juvenal, Sêneca, Cícero, e ainda dicionários e outras obras. No século XI predominam obras lógicas de Aristóteles e Boécio e traduções alemãs de Aristóteles, Theotisca translatio Organi Aristotelis, da Consolação da Filosofia de Boécio, e clássicos como Horácio, Lucano e Salústio. No século XII aparecem os poemas de Claudiano.

27. Na biblioteca da abadia de Saint-Riquier havia no século IX duzentos e cinqüenta volumes com as obras dos Santos Padres e mais obras de literatura clássica, história, direito, etc. Na biblioteca de Corbie o catálogo registra um dicionário greco-latino do século VIII ou IX, a obra completa de Virgílio e manuscritos anteriores a 1200, de autores clássicos antigos e medievais, cobrem as áreas das artes liberais, inclusive as do direito e da medicina. Já no século VIII Alcumo descreve num poema, Versus de sanctis Euboricensis Ecclesiae, a biblioteca da catedral de York cujo cuidado lhe fora confiado pelo arcebispo resignatário Alberto a quem sucedeu Eanbaldus. A Alcuíno coube a esfera da sabedoria, a escola, a cátedra de mestre, os livros...

"Huic sophiae specimen, studium sedemque, librosque,
(Undique quos clarus collegerat ante magister)."

Começa, então, a apresentação do catálogo da biblioteca. Diz Alcuíno que aí se acham os vestígios dos antigos Padres da Igreja, o legado greco-romano e o que o povo hebraico bebera da fonte superna hebraicus vel quod populus bibit imbre supernus, e o que a África espargiu com lâmpada fulgente. Pode verificar-se pelo relato versificado de Alcuíno que a biblioteca da catedral de York estava bem apetrechada à volta do ano 776, como se colhe dos nomes dos autores dos quais destacamos os de Jerônimo, Hilário, Ambrósio, Agostinho, Atanásio, Gregório Magno, Basílio, João Crisóstomo e outros Padres da Igreja, Boécio, Plínio, Aristóteles, Cícero, Virgílio, Estácio, Lucano, Donato, Prisciano, etc., e ainda muitos outros que não são enumerados, invenis alios perplures, lector... [232].

28. Havia muita disparidade nos acervos das bibliotecas monásticas e episcopais. Quando uma sede episcopal ou uma abadia eram dirigidas por um homem sábio, letrado e dinâmico, a biblioteca enriquecia-se, como ocorreu em York. Quando um mosteiro possuía escola, a biblioteca do mosteiro ampliava-se por força dos estudos e até se constituía biblioteca especial para os alunos. Havia, porém, mosteiros pobres e com poucos livros, só os estritamente necessários, como aconteceu na Lusitânia na época difícil dos suevos e da ocupação muçulmana. Segundo Frei José Mattoso, os monges dispunham da Bíblia, de obras dos Santos Padres, de algumas obras históricas e canônicas. No mosteiro de Leça, por exemplo, havia um exemplar das Etimologias de Santo Isidoro, mas sempre nas outras casas religiosas tudo era muito escasso e muito pobre, "magros vestígios que através dos séculos são na sua humildade o sinal da luta pela sobrevivência do espírito num meio e numa época em que a defesa da própria vida era mais urgente" [233]. Thomson analisa, em erudito artigo a situação da biblioteca da abadia de Santo Edmundo de Bury nos séculos XI e XII e nota que até 1080 ela mas com o advento de um abade ilustrado, era pequena e acanhad Anselmo (1121-1148), ela se transformou e enriqueceu com as coleções de autores clássicos e patrísticos, comparável às grandes bibliotecas de Cantuária, Clúnia e Corbie. Apesar da sua atualização com a aquisição de modernas obras bíblicas e teológicas, o seu objetivo era o estudo contemplativo da Sagrada Escritura. As obras de dialética não gozavam de popularidade, embora houvesse interesse, pela poesia, pela história e por obras jurídicas e médicas [234].

29. Como já tivemos a oportunidade de assinalar, os monges dedicavam-se no scriptorium à cópia e à reprodução dos preciosos manuscritos, assim como à publicação de obras de escritores da casa ou de quem lhes confiasse a tarefa da edição. É este o momento de esclarecermos uma questão à qual se alude de vez em quando com malícia, quando se faz referência ao plágio entre os autores medievais. Antes de tudo, convém saber e proclamar que o plágio é tão antigo quanto a escrita, e é processo muito em voga entre os plumitivos atuais. Na sua grande obra sobre Santo Isidoro de Sevilha menciona Jacques Fontaine a freqüência das citações e de segunda mão e sem indicação do autor, feitas pelo famoso autor das Etimologias [235]. São Beda, no entanto, era escrupuloso quanto à citação das fontes. Veja-se o que ele diz sobre o assunto no prólogo do seu comentário sobre o Evangelho de São Lucas [236]. O que acontece, e quase todos ignoram, é que os editores modernos não têm tido o cuidado de transcrever as notas marginais que se acham nos manuscritos [237]. Sem embargo disso, havia cópias voluntárias e involuntárias e casos de plágio deliberado mas, como observa De Ghellinck S.J., a propriedade literária não era respeitada, máxime quando se tratava de quaestiones anônimas. Muitos mestres apropriavam-se do que liam, tanto que no caso dos glosadores não é fácil identificar os mútuos empréstimos e quer nesse domínio quer nos da teologia dogmática, do direito canônico, da pregação, havia quanto à propriedade literária "uma sem-cerimônia desconcertante para os modernos" [238]. Finalmente, vale a pena saber o que ensina Moses Hadas sobre a antigüidade clássica do plágio, ao referir as queixas de Aristófanes e Isócrates contra os seus plagiadores e ao analisar tal fenômeno entre os letrados do período helenístico [239].

30. Se considerarmos agora a consciência pedagógica da primeira parte da Idade Média, poderemos verificar, à luz de tudo quanto havemos estudado até este momento, que os educadores medievais prolongaram e completaram as concepções pedagógicas dos Santos Padres exaradas no fim do mundo antigo, mas lhes aperfeiçoaram a herança com estabelecerem novas instituições adequadas aos seus objetivos religiosos e culturais. Vale a pena evocar o ensinamento de Otto Willmann, quando compara as primitivas instituições educacionais dos cristãos com as instituições docentes da antigüidade clássica. Lehranstalten des klassischen Altertums, zeigen die altchristlichen, de que se distinguem por três notas típicas: as instituições cristãs não são apenas agências de instrução, mas estabelecimentos educacionais, Erziehungsanstalten, algo totalmente estranho ao sistema escolar greco-romano. Em segundo lugar, no mundo antigo os alunos estudavam diferentes disciplinas com vários mestres em distintos locais de ensino particular, enquanto os cristãos ministravam tal ensino num estabelecimento conveniente com os vários mestres irmanados pelo mesmo ideal religioso e organizavam o currículo sob a luz e a inspiração da instrução religiosa, religiösen Unterweisung. Finalmente, enquanto instituições da Igreja Católica, as escolas têm o caráter de estabelecimentos públicos, öffentlicher Charakter, ao contrário das antigas que formavam um agregado frouxo de empresas particulares. Ora, essas notas típicas da escola cristã antiga, segundo Otto Willmann, acham-se plenamente encarnadas nas instituições educativas medievais e nelas alcançaram a sua plena expressão levadas a intenso desenvolvimento e apuro [240]. Na Idade Média a religião era, com efeito, a mola propulsora de toda a atividade pedagógica; o estudo e a investigação não tinham finalidade em si mesmos, mas endereçavam à busca da perfeição cristã; enfim, como diz Willmann, o elemento religioso ocupava a posição central na vida interior da Idade Média cristã [241].

31. O famoso sociólogo Émile Durkheim na sua obra L'Évolution Pédagogique en France faz afirmações equivalentes à de Otto Willmann e adianta uma outra mais avançada que a do ilustre pensador e pedagogo alemão e de todo procedente. A escola no início da Idade Média, afirma Durkheim, constitui grande e influente novidade que se distingue da antiga por traços nitidamente recortados. Sem dúvida, ela herdou da civilização pagã a matéria do ensino que foi, por sua vez, elaborada de modo todo novo com resultados nunca vistos. Mas - e aí está a mais forte e original declaração de Durkheim - c'est à ce moment que l'École au sens prope du mot, apparut, foi nesse momento, no começo da Idade Média, que a Escola, no sentido próprio da palavra, apareceu, pois a Antigüidade teve mestres, mas não teve verdadeiras escolas, já que "a escola não é apenas o lugar onde um professor ensina, mas é um ser moral e impregnado de certas idéias, de certos - sentimentos, um meio que envolve tanto o mestre quanto os alunos. Por isso, a Idade Média em pedagogia foi inovadora" [242].

32. O currículo das escolas medievais culminava com o estudo da Sagrada Escritura e a convicção de que só a Bíblia contém a verdadeira e salutar sabedoria foi externada pelo autor anônimo da Vida de São Maximino, abade de Micy. Diz ele que a sabedoria não consta das disciplinas de um certo trivium, isto é, da lógica, da física e da ética, que constituiriam o saber supremo. Isso, diz ele, não passa de ilusão dos sábios deste mundo que pereceram por causa da sua loucura, por não conhecerem a sabedoria de Deus. "Nós, porém, prossegue, rejeitamos essa insânia e dispomos da verdadeira física nas narrações históricas da Escritura; da verdadeira lógica na contemplação da fé, da esperança e da caridade, e da verdadeira ética na prática dos preceitos divinos. A verdadeira sabedoria só se encontra entre os cristãos... O primeiro tipo a representar essa filosofia foi Salomão e no nosso século e no lugar em que vivemos Deus suscitou Maximino como o modelo acabado de tal sabedoria"[243].

33. Outro importante aspecto da consciência pedagógica da Idade Médica acha-se na descoberta da criança, nas intuições psicológicas notáveis dos monges beneditinos que souberam assim transformar os métodos da pedagogia antiga. Eles não consideraram as crianças e os adolescentes com a doentia mentalidade jansenista, não os concebiam apenas como seres propensos ao mal e ao pecado, mas à luz do Evangelho discerniram o amor que Jesus consagrou às crianças e o exemplo que deixou para os educadores cristãos da juventude [244]. Sempre restam o fato claro e a verdade inconcussa de que os monges não tinham como primeiro objetivo do seu instituto a educação da infância e da juventude. O seu fim, como já vimos, é outro. As exigências sociais e as circunstâncias levara-mos à execução de tal missão educacional que se acrescentou, per accidens, à finalidade básica da escola do serviço do Senhor.

34. O mais clássico testemunho do conhecimento psicológico das crianças e dos jovens, e do método a ser usado na sua educação pelos beneditinos parece achar-se no famoso Comentário de Paulo Warnefriede ou Paulo Diácono à Regra de São Bento. Diz ele que dez meninos da escola monástica devem ser assistidos por três ou quatro professores, debent decem infantes tres vel quattuor magistros habere. O mestre, recomenda Warnefriede, deve agir com moderação quanto aos meninos, temperanter agere, e não chicoteá-los demais nem maltratar, mas devem antes exercer sobre eles a máxima vigilância. Ora, isso lembra perfeitamente, com a antecedência de um milênio, o método preventivo de São João Bosco. O castigo só deveria ser aplicado aos meninos díscolos e recalcitrantes. O mestre, diz Paulo Diácono, deve levar os meninos a passear pelo campo, ao menos uma vez por semana ou por mês, para que eles possam brincar durante uma hora sob a vigilância do superior. Além disso, o abade lhes deve proporcionar boa alimentação, servindolhes peixes, leite, ovos e carne; esta, por ocasião do Natal, Páscoa e de outras festas. Aos meninos fracos deve ser, dada carne freqüentemente. Ademais, cuide o abade de lhes fornecer a roupa conveniente. E quando o menino tiver conduta exemplar, o abade não se furte a elogiá-lo em público durante o Capítulo, para que assim ele passe a amar ainda mais a vida de santidade. Paulo Warnefriede apresenta, ainda, o seguinte quadro das idades do homem: infância, até os sete anos; meninice, até os quatorze; adolescência, até os vinte e oito; juventude, até aos cinquenta e seis; velhice, até os setenta e seis. Postea, decrepitas, em seguida vem a decrepitude. Esse quadro, evidentemente, muito nos conforta, e imagino que meus leitores na sua maioria sejam adolescentes, enquanto eu me consolo com a minha juventude [245].

35. A convicção de que o homem é um peregrino neste mundo em busca de união com Deus na vida eterna reluz num lanço da epístola 133 que Loup de Ferrières escreveu ao seu parente, o monge Ebrard que lhe solicitara uma boa palavra, útil ou, pelo menos, deleitável. Depois de reconhecer que lhe é agradável verificar o renascimento da ciência na sua região, reviviscentem in his nostris regionibus sapientiam quosdam studiosissime colere pergratum habeo, Loup de Ferrières afirma que muitas pessoas, preocupadas com o discurso elegante, esquecem o que é mais importante e vantajoso, a saber, a honestidade dos costumes: "Tememos as faltas da linguagem e tratamos de corrigi-ias, mas não damos importância às nossas faltas que multiplicamos. Por isso, se cuidamos de polir a linguagem, convém muito mais que tratemos de adquirir a honestidade e a justiça" [246]. Foi assim a primeira Idade Média: idade de fé, com os homens a construírem a cidade terrena de olhos postos na celeste com o primado absoluto da Sagrada Escritura nos caminhos, viae (trivium, quadrivium), da sabedoria. Nessa primeira parte da Idade Média a consciência do cristão enriqueceu-se com as experiências e os ensinamentos dos monges, com a tradição monástica de São Bento e com a doutrina de Santo Agostinho, ao mesmo tempo em que assimilava o legado cultural romano. A vida do homem sobre a terra, segundo o Patriarca dos monges do Ocidente, deve decorrer na escola do serviço do Senhor e os estudos, conforme o autor do tratado De doctrina christiana, devem servir para a leitura mais esmerada e proveitosa da Bíblia que indica aos homens o caminho da salvação. Como resultado de toda essa atividade religiosa e escolar, de toda a semeadura. feita durante séculos com sangue, suor e lágrimas, ao dobrar o cabo do primeiro milênio cristão, o Ocidente entrou numa nova era de florescimento cultural e de crescimento interior do homem. Durante o século XII, como o demonstrou Chenu, uma das maiores descobertas, e o denominador comum de todas elas, foi a do homem como sujeito, "um dos epicentros da gestação de um homem novo", graças ao desenvolvimento da moral da intenção pela qual "o valor de nossas ações e os juízos que elas reclamam, perante Deus e os homens, regram-se não radicalmente pelos objetos, bons ou maus em si mesmos - nos casos de um roubo, de um homicídio ou de um ato carnal - mas pelo consentimento interior (consensus / intentio) que nós lhes damos, pois é a vontade de praticar um ato proibido que constitui o mal, ainda que ela não consiga praticá-lo efetivamente" [247]. O maior fautor dessa descoberta da moral da intenção foi Abelardo, um pioneiro na exploração da interioridade cristã através do novo caminho que Gilson denominou socratismo cristão [248].

36. Aliás, foi Gilson com a sua perícia habitual quem esboçou no livrinho Reason and Revelation in the Middle Ages o esquema clássico das relações da razão com a fé no regime cristão da Idade Média. Ele demonstra que os estudiosos medievais, sob tal aspecto, se abrigam numa das três famílias espirituais que se formaram em torno da questão. A primeira, que principiou no período patrístico, foi a da primazia da fé cujos membros acreditavam que a Revelação viera substituir todo o conhecimento humano. Os seus representantes foram Tertuliano e Taciano, por exemplo, no mundo antigo e, entre outros, São Bernardo, São Pedro Damião e os "espirituais franciscanos" na Idade Média. A segunda família é a da primazia da razão, fundada pelo muçulmano espanhol Averróis que criou um racionalismo puramente filosófico em reação consciente contra o teologismo dos crentes islâmicos. No Ocidente cristão esse nacionalismo foi representado pela família dos averroístas latinos que formaram dois grupos. O primeiro contou com Sigério de Brabant e Boécio de Dácia no século XIII, averroístas em filosofia, mas sinceros na sua fé cristã. O segundo foi dirigido e celebrizado por Jean de Jandun e Marsílio de Pádua, ambos racionalistas e descrentes. Finalmente, houve uma terceira família espiritual, a da harmonia entre a razão e a revelação, cujo fundador e representante exemplar foi Santo Tomás de Aquino. Segundo o ensinamento do Angélico Doutor, há verdades que o homem descobre por si mesmo, por meio do seu raciocínio, e daí o conhecimento vulgar, científico e filosófico, e há outra espécie de saber que o homem não encontra com os seus próprios recursos, mas recebe de Deus através da revelação, e que ele trata de organizar, de elaborar e de aprofundar por meio da reflexão, e daí as verdades da fé e a sagrada teologia.

37. Num verdadeiro vôo de pássaro, temos estado a esquadrinhar as grandes linhas da educação na primeira parte da Idade Média. Pudemos estudar alguns assuntos e obter vários esclarecimentos de molde a suscitar-nos o apetite por maiores conhecimentos. Muitas coisas foram passadas por alto e muitos temas sedutores mal foram sugeridos. Enfim, a obra foi iniciada e estão abertos os caminhos para quem quiser aprender. Para a luz poder brilhar no firmamento do século XIII, como iremos ver, foi preciso antes a noite estrelada e a aurora cor de rosa da primeira Idade Média.