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1. Com este capítulo, chegamos ao fim da segunda parte
deste livro. Como se pode verificar, temos examinado de
modo suave e sério, embora rápido, dado o caráter de
iniciação desta obra, alguns aspectos fundamentais da
educação na primeira parte da Idade Média. Após a
consideração de fatos cuidadosamente documentados,
podemos passar à consideração dos programas de ensino
vigentes nas escolas de modo sistemático ou na sociedade,
de modo tanto formal quanto difuso. Mais uma vez cumpre
ressaltar dois princípios que estabelecemos no início
deste livro. Primeiro, numa obra de iniciação à
história da educação medieval não se pode dizer tudo o
que se sabe ou há para saber. O aprendizado de qualquer
disciplina precisa respeitar as leis que regem a atividade
intelectual e os processos de aprendizagem e do ensino,
sobre haver a possibilidade de os alunos ou leitores
ávidos de conhecimentos poderem abeberar-se nas obras
recomendadas na bibliografia apensa a cada capítulo. É
preciso não esquecer jamais a verdade contida no anexim
latino: ars longa, vita brevis, a arte é longa e
complicada e a vida é tão curta! O que importa é
adquirir as noções básicas, os conhecimentos mínimos
que poderemos aumentar e enriquecer com o esforço, a
aplicação e a paciência. Sem esta nada se consegue de
bom na vida. Já se disse até que o gênio é sobretudo
uma grande paciência, pois muitos talentos se estiolam e
muitas pessoas inteligentes não progridem na vida cultural
por fraqueza de vontade, por falta de perseverança, por
não terem garra, como se diz popularmente. Quando a
inteligência se combina com a paciência e o talento com a
aplicação, então é ouro sobre azul.
2. O segundo princípio inscrito no pórtico desta nossa
História da Educação Medieval é que o estudante deve
fazer um grande esforço e ativar a própria fantasia, a
fim de imaginar uma sociedade de homens iguais a nós
mesmos por natureza mas diferentes pela situação social,
pelos hábitos e pela mentalidade. Como frisamos no
primeiro capítulo desta obra, não se pode querer nem
pretender que o homem antigo ou o medieval pensassem,
sentissem e agissem exatamente como nós, homens da era
espacial e da sociedade científica e tecnológica do
século XX. Assim, passemos a ilustrar esse princípio
com um exemplo. Imaginemos as incipientes nações
européias nos séculos VIII, IX, X e XI. São
quatrocentos anos de duração e essas centúrias
correspondem ao tempo que nos separa do início da
colonização do Brasil. Pois bem, como já vimos em
páginas anteriores, as cidades perderam nessa época todo
o relevo social; os sítios ou fazendas transformaram-se
em burgos ou castelos fortificados contra os contínuos
assaltos de invasores, piratas e bandoleiros. As tribos
germânicas ingressavam lentamente na órbita cultural da
tradição antiga e da religião cristã e o povo, de
fato, dividia-se em três classes: os guerreiros e
nobres, o clero e os trabalhadores do campo. Só depois
do ano mil é que vai aumentar e crescer a diferenciação
das classes sociais. Ora,. de regra, os guerreiros só
gostavam de lutar, caçar e divertir-se, embora
tivessem, também, as suas convicções e práticas
religiosas. Entretanto, nunca a vida no Ocidente foi
tão belicosa e daí a importância dos barões, dos
soldados e dos cavaleiros com as suas habilidades e os seus
costumes rudes. Muitos blasonavam a própria ignorância
e caçoavam dos letrados. Os servos e os camponeses
livres não tinham pretensões quanto aos estudos. Os
livros raríssimos em latim nada significavam para eles,
preocupados com a marcha das estações, com o amanho da
terra, o estado das culturas e a criação de animais,
tal como os guerreiros só tinham olhos para as armas, os
cavalos e a caça. Além disso, não havia jornais nem
revistas, enfim, vivia-se num mundo de tradições orais
donde a organização cultural que bafejara certas camadas
populares no Império romano já desaparecera por
completo, há séculos. Por conseguinte, o estudo, a
cultura e o ensino tornaram-se apanágio dos clérigos e
monges, tanto que durante séculos o termo francês
clerc, clérigo, foi sinônimo de intelectual e letrado.
Clérigos e monges precisavam saber ler e escrever para
desempenhar o próprio ofício e corresponderem à sua
vocação religiosa ou eclesiástica. Foi, desse modo,
por um processo espontâneo que o clero regular e diocesano
se tornou o depositário e o guardião da cultura antiga
que se preservou para a posteridade, graças ao labor
humilde, constante e impertérrito de clérigos, monges e
monjas. Preste-se atenção, ainda, a um fato
capital: o desejo de conhecer é inato no homem. Por
isso, apesar das condições adversas, da carência de
meios e de mil outras dificuldades, houve muitos
guerreiros que se dedicaram ao estudo e se deleitavam com
os livros nos intervalos dos combates, ao passo que muitos
meninos e meninas, filhos de servos, receberam
instrução nas escolas paroquiais e monásticas e foram
saciar a sede do saber nas fontes remansosas dos
claustros, tanto que muitos homens ilustres atingiram
altas posições a partir da mais plana e baixa situação
social, graças ao engenho, aos bons estudos, à
aplicação perseverante, ao trabalho e ao reconhecimento
lúcido dos adultos e superiores que sabiam recompensar o
verdadeiro mérito para o bem da sua comunidade e do povo.
Logo, não é de estranhar que, desde o início do
renascimento carolíngio, em época de decadência
cultural e de relaxamento de costumes, reis, imperadores
e papas cuidassem de fazer reflorirem as escolas e de
promover o estudo das letras divinas e profanas. E assim
desenvolveu-se o mundo ocidental e foram surgindo os
primeiros sinais e contornos da civilização que iria
desabrochar esplêndida após o primeiro milênio da era
cristã.
3. Já tivemos a oportunidade de assinalar, por várias
vezes, o programa de estudos das escolas paroquiais, os
estabelecimentos de nível elementar durante a Idade
Média, freqüentados pelas crianças que não aprendiam
a ler com os pais ou com os preceptores: leitura e
primeiros elementos da escrita, tomando-se por texto
principalmente os Salmos, doutrina cristã e o canto que
servia para abrilhantar as cerimônias da Igreja.
Conforme a região, a escola e o mestre, esses cursos
elementares podiam admitir algumas variações.
4. Nas escolas monásticas e episcopais o currículo,
antes da fase superior consagrada ao estudo da Sagrada
Escritura, compunha-se das sete artes liberais,
conforme o legado cultural romano, e a mediação dos
enciclopedistas e autores didáticos que transmitiram a
cultura antiga à Idade Média, como já o pudemos
verificar no capítulo III. Convém advertir, no
entanto, que é preciso ter certa cautela quanto à
maneira de entender o significado das artes liberais.
Após o renascimento da filosofia no Ocidente, depois do
século XII, a introdução da filosofia aristotélica
no currículo e o comentário da obra de Aristóteles por
Santo Tomás de Aquino durante o século XIII, os
estudiosos medievais tomaram perfeita consciência do
significado e do alcance da expressão artes liberais,
como o demonstrou com sobriedade e precisão Bernard J.
Mullahy, C.S.C., no seu artigo The Nature of the
Liberal Arts. Na primeira parte da Idade Média, no
entanto, não se conheceu a obra aristotélica, exceto
minguada porção da lógica e, ainda, através de
expositores plenos de boas intenções mas de curto
fôlego, e as artes liberales eram entendidas simplesmente
no mesmo sentido com que hoje se fala de matérias do
ensino ou de disciplinas curriculares. Por conseguinte,
as artes liberais eram as matérias de ensino nas escolas
episcopais e monásticas. Eram sete, tal como Marciano
Capela as fixara nos Satyricon Libri IX, mais
conhecidos pelo tema dos primeiros dois livros da obra:
As Núpcias de Filologia com Mercúrio. O termo
Satyricon provinha de satura, lanx, um prato cheio ou
uma travessa de metal abarrotada de iguarias. Marciano
Capela, como o vimos oportunamente, reduziu as nove
disciplinas da enciclopédia de Varrão às sete artes
liberais que foram matérias de ensino nas escolas
monásticas e episcopais. Esse programa teve a sua
formulação ainda mais simplificada nas Origines sive
Etymologiae em vinte livros, obra redigida à volta de
600 por Santo Isidoro de Sevilha, sem se falar da
magra pitança que Cassiodoro forneceu das sete artes nas
suas Instituições Divinas e Seculares, e dos escritos
lógicos e matemáticos devidos ao operoso e santo
filósofo Boécio. No século IX Alcuíno compôs
vários tratados sobre as artes dos quais só nos chegaram
os referentes ao trivium, isto é, à gramática, à
retórica e à dialética. O seu discípulo Rábano
Mauro compôs em 819 um livro para a educação dos
clérigos, o De Clericorum Institutione, em que
ministra curtas instruções sobre as artes e publicou,
também, a enciclopédia De universo. A obra De
Clericorum Institutione divide-se em três livros e só
no terceiro Rábano trata ligeiro das sete artes liberais
a mostrar o que o clérigo deve saber dos estudos e das
artes dos pagãos [220].
5. Valafrido Estrabão (Strabo), que estudou no
mosteiro de Reichenau nos meados do século IX, deixou
um documento do mais subido valor a respeito dos programas
e da vida escolar no seu mosteiro, o Diário de um
Estudante, cujo manuscrito foi descoberto e analisado
criticamente no fim do século XIX e que Augusto
Messer traduziu para o alemão e publicou na sua
História da Pedagogia. Logo mais, destacaremos
algumas das informações preciosas prestadas pelo Diário
de um Estudante de Valafrido a respeito do ensino das
artes liberais e da vida numa escola monástica externa.
Uma das suas indicações é a de que monges da
Inglaterra, por exemplo, vinham, como mercadores que
alardeiam o mérito das suas mercadorias, oferecer-se
para ensinar grego, a fim de venderem a boa sabedoria aos
fregueses interessados. Ora, já sabemos perfeitamente
que os monges irlandeses durante a primeira Idade Média
foram os apóstolos do continente europeu e os seus mais
luzidos mestres. Foi devido ao magistério dos irlandeses
na Germânia que as artes liberais passaram a ser
designadas como Methodus Hybernica, ou seja, o método
irlandês. Além disso, os monges disseminaram o emprego
de versos mnemônicos, a fim de facilitar a retenção da
seqüência das artes. Assim: "Língua, tropus,
ratio, numerus, tonus, angulus, astra. Gram
loquitur, Dia vera docet, Rhe verba colorat,
Mu
canit, Ars numerat, Geo ponderat,
Ast colit astra."
6. O número sete era profundamente simbólico, uma vez
que são sete as petições do Padre-Nosso, sete os
Dons do Espírito Santo, sete os sacramentos e existem
sete virtudes, sete pilares da sabedoria e sete céus.
Ademais, cumpre observar que os mestres cristãos
retiraram às artes liberais a sua conotação social -
artes só para os homens livres - e com Cassiodoro
passaram a explicar que elas são liberais, porque se
expõem e se aprendem nos livros (liber=livro). Além
das sete artes liberais que os letrados deviam conhecer,
havia as sete artes mecânicas necessárias à vida social
e à utilidade dos homens: as artes da tecelagem, do
ferreiro, da guerra, da navegação, da agricultura, da
caça e da medicina, e às quais ainda se acrescentavam as
do teatro, da dança, da luta e da condução de
veículos. Até mesmo os requisitos para a sagração do
cavaleiro eram sete artes que constituíam o aprendizado
dos jovens nobres desde a infância como pajens e na
adolescência como escudeiros: equitação, esgrima,
torneio, luta, corrida, salto e arremesso da lança ou
noutro elenco: equitação, natação, tiro de flecha,
luta, caça, xadrez e versificação. Assim como as
artes mecânicas desbordaram do quadro tradicional com o
progresso econômico e as transformações sociais, as
artes liberais se multiplicaram e o seu âmbito ampliou-se
de modo notável a partir * do século XII, em
conseqüência da introdução da enciclopédia
aristotélica e da ciência muçulmana no Ocidente
cristão, o que levou ao surgimento de novas escolas e à
inserção de novas disciplinas nos programas de ensino.
Desde o século X, os fatos mais notáveis nesse plano
foram a projeção da dialética e da matemática.
7. A dialética começou a ser estudada com afinco na
Idade Média desde o período carolíngio, quando as
obras lógicas de Boécio começaram, de fato, a ser
lidas e estudadas. No fim do século X, Gerberto lhe
conferiu papel de relevo no ensino na escola episcopal de
Reims, Fulberto cultivou-a na escola episcopal de
Chartres, enquanto o seu ensino coruscava e atraía
alunos na escola monástica de Bec sob o impulso e a
direção dos italianos Lanfranco e Santo Anselmo.
Este último, por sinal, elaborou as primeiras obras de
teologia escolástica com o auxílio da lógica. Depois,
no século XII, houve a consagração da lógica com os
feitos notáveis de Abelardo, o "cavaleiro da
dialética", que redigiu alentado manual de Dialética
com os parcos recursos bibliográficos de que dispunha,
mas com a sua extraordinária inteligência e acuidade
mental. Abelardo assentou a sua cátedra de lógica na
escola claustral dos cônegos regulares de Santa Genoveva
em Paris donde exerceu a máxima influência na propulsão
dos estudos lógicos.
8. Ainda no século X intensificou-se o estudo da
matemática em Liège, Lobbes e Reims principalmente.
Nesse tempo Herigério em Lobbes inventou um novo ábaco
- tábua de cálculos -diferente do romano usado nas
escolas monásticas e episcopais, que perdurou no ensino
até o século XIV. Na mesma época introduzem-se no
Ocidente e vão utilizar-se no ensino os algarismos
arábicos. Fere-se, então, por primeiro a luta dos
abacistas que preferem fazer cálculos por meio do ábaco e
dos algoristas que recorrem à pena e empregam os
algarismos arábicos. Desde o século XII, ademais,
cresce o saber com o ingresso no círculo cultural do
Ocidente da medicina árabe, das ciências exatas e de
mais noções matemáticas. Opera-se no mundo cultural
cristão um verdadeiro salto qualitativo para o qual
contribuíram de modo capital os tradutores. A esta
altura, convém assinalar outro fato muito importante para
a história da educação e dos currículos escolares: na
Idade Média as artes liberais ou as humanidades são as
matérias do ensino escolar que ajudam o homem a
libertar-se da ignorância e a evitar o erro, e elas
abrangem disciplinas literárias como a gramática e a
retórica, filosóficas como a dialética - que foi a
única representante da Filosofia no ensino durante
séculos - e científicas como as quatro artes do
quadrívio que se enriqueceram soberbamente, por ocasião
do renascimento cultural do século XII. A educação
intelectual dos jovens, portanto, era sadiamente
equilibrada com o estudo das letras, das ciências e da
filosofia, suavemente permeadas pelo espírito
sobrenatural do Evangelho, embora alguns centros como
Paris, Chartres e Orleães se especializassem mais no
ensino e no cultivo de certas disciplinas. Foram os
humanistas do grande Renascimento do século XV que
preferiram a expressão Humanitates à de Artes
Liberales e deram ênfase ao cultivo das línguas mortas
da antigüidade, o grego e o latim clássico, bem como à
história e à filosofia platônica em detrimento das
ciências exatas e da matemática. Data, pois, do
grande Renascimento dos séculos XV e XVI o excessivo
enaltecimento das letras e das passadas línguas da
Hélade e do Lácio em completo desacordo com a
tradição escolar medieval no ensino das sete artes, das
ciências e da filosofia. E, se mais não se fizera
pelas ciências no fim do período medieval, isso não foi
culpa nem deficiência, uma vez que o conhecimento
científico depende de recursos materiais e de implementos
técnicos que só no século XVII começariam a
surgir. Convém, no entanto, assinalar que Galileu se
serviu da luneta como Kepler, porque as lentes começaram
a ser polidas no século XIII quando, também,
muçulmanos e cristãos deram impulso às investigações
sobre a óptica.
9. No século XII, o cônego vitorino Hugo de São
Vítor, falecido em Paris em 1141, compôs a famosa
obra Didascálicon em que apresentou instrutiva
descrição das sete artes liberais, assim como das artes
mecânicas que ele incluiu, de forma inédita, no âmbito
da filosofia, outro fato digno de realce. Na mesma
época, o fino humanista que foi João de Salisbury fez
a defesa das artes do trivium no seu
Metalógicon, e ele
também proporciona valiosas informações sobre as
escolas, os mestres e os programas de Paris e de
Chartres. No século XIII, ante o surto esplêndido
das ciências e da filosofia, São Boaventura redigiu
com boa e piedosa intenção a sua Redução das Artes à
Teologia,
De reductione artium ad theologiam, em que se
pode discernir a convicção aceitável de que a ciência
sagrada sobrepaira as demais pela sua dignidade, mas que
não se pode admitir como a redução convincente das
ciências profanas e racionais à sabedoria sagrada e
sobrenatural, pois não convém confundir as ordens do
saber, distintas pela sua própria natureza.
10. Marciano Capela foi, de fato, quem apresentou e
ilustrou a concepção das sete artes liberais para os
estudiosos da Idade Média. A descrição que ele fez
de cada uma das artes inspirou os artistas e serviu para a
decoração das catedrais e para o embelezamento dos
manuscritos. A Gramática é uma matrona que viveu quase
a vida inteira na Ática e se apresenta revestida de manto
romano trazendo nas mãos um estojo de marfim com tinta,
penas e tabuinhas, a férula para castigar os maus alunos
e, ainda, um escalpelo para corrigir na língua e nos
dentes os vícios da linguagem e mais uma lima dividida em
oito partes por riscos doirados, símbolos das divisões
do discurso. A Dialética, de rosto esperto e bela
cabeleira, tem na mão esquerda uma serpente meio oculta
pelo vestido e, na direita, uma tabuinha de cera e um
anzol. A Retórica, a virgem mais imponente e bela,
armada como um guerreiro, marcha ao som das trombetas. A
Geometria é linda mulher cujo vestido ostenta as formas e
os movimentos dos astros, bem como a sombra da terra no
céu. Ela traz na mão direita um compasso (radius) e,
na esquerda, uma esfera. A Aritmética apresenta-se
com a cabeça resplandecente, a sua roupa traz
representações dos seres da natureza e os seus dedos
agitam-se como vermes inquietos. A Astronomia aparece
num globo de fogo, coroada de estrelas, com asas doiradas
e penas de cristal. Numa das mãos segura um instrumento
brilhante e, na outra, um livro em que se vêem os
caminhos dos deuses e os cursos dos astros. Por fim,
surge a Harmonia ou
Música com a sonora cabeça coberta
por folhas de ouro coruscante e revestida de lâminas que
retiniam ao menor movimento, de modo que ela é melodiosa
da cabeça aos pés. Entre tantos passos curiosos e
instrutivos da obra de Marciano Capela vale ressaltar os
louvores da Aritmética ao número sete, símbolo de
Minerva, pois sete são os círculos e os planetas, as
misturas dos elementos, os orifícios da cabeça que são
órgãos dos sentidos e os membros vitais do corpo:
língua, coração, pulmão, baço, fígado e os dois
rins. Além disso, a primeira parte do Livro VI dos
Satyricon Libri IX constitui um tratado de geografia.
11. No estudo da gramática usava-se o texto de Êlio
Donato (cerca de 350 d.C.) e o tratado de
Prisciano (séc. VI d.C.). Serviam de livros de
leitura obras interessantes e fáceis como as Fábulas de
Aviano e os Disticha Catonis, coleção de sentenças
morais provenientes de Comodiano, cristão africano, mas
atribuídas a Catão, o Velho (Censorius, o
Censor). Os capítulos começam por trechos poéticos,
pois os versos podiam ser gravados com mais facilidade e
ajudavam também à pronúncia exata das palavras.
Liam-se, ainda, as obras de Virgílio e Ovídio e na
prosa Tito Lívio, Suetônio, Orósio, Sêneca e
Cícero. Como faltavam livros - não havia imprensa -
os professores ditavam o texto aos alunos,
comentavam-nos, os passos seletos eram decorados e as
regras de gramática e retórica eram aplicadas nos
exercícios escritos e nos debates. O exercício em prosa
era o dictamen prosaicum e o exercício em versos, o
dictamen metricum. O curso de gramática era o mais longo
e, de regra, durava quatro anos. A retórica,
evidentemente, não podia mais ser ensinada como na
antigüidade, pois perdera a sua importância social e
profissional. Ensinava-s;: durante a Idade Média
através de exercícios de redação - dictamen prosaicum
- acompanhados pelo aprendizado de noções de direito e
de composição de cartas, uma vez que os barões
analfabetos precisavam de um clérigo instruído que
desempenhasse o papel de secretário e conselheiro [221].
12. Na primeira parte da Idade Média o ensino da
dialética foi muito minguado e anêmico. Usavam-se as
obras de Boécio, Cassiodoro, Marciano Capela,
Apuleio e alguns escritos lógicos de Aristóteles
traduzidos por Boécio [222]. O estudo teórico era
completado pelos exercícios práticos, os debates,
geralmente sobre assuntos teológicos. Além desses
estudos sermocinais, na primeira parte da Idade Média
os adolescentes estudavam canto e adquiriam algumas
noções de matemática e ciências. Eles aprendiam a
fazer contas e calculavam servindo-se dos dedos e do
ábaco. Dava-se atenção ao sentido místico dos
números, segundo a arcaica concepção pitagórica que
ajudaria a entender melhor certos passos bíblicos.
Ademais, o calendário eclesiástico requeria
conhecimentos astronômicos, para que se pudesse
determinar exatamente a data da Páscoa. Ao ensino da
astronomia juntavam-se algumas noções de cosmografia.
Estudava-se geometria geralmente pelo Livro VI da obra
de Marciano Capela e, a partir do fim do século X,
pela Geometria de Boécio. Foi, também, a obra
boeciana De musica que serviu de base para o estudo da
teoria musical. No curso de geometria estudava-se,
ainda, como já dissemos, a geografia com a utilização
dos escritos de Marciano Capela, Júlio Solinus
(início do séc. IV d.C.), de mapas antigos
de excursões pelo campo. Em algumas escolas
cultivavam-se as ciências naturais e recorria-se às
obras de Santo Isidoro de Sevilha, ao De universo de
Rábano Mauro e ao Phisiologus, obra procedente da
antigüidade. O ensino da religião começava desde o
nível elementar com o aprendizado das orações do
Pater, do Credo, dos Salmos, e prosseguia com o
estudo das Atas dos concílios, as obras dos Santos
Padres, e culminava com o estudo e a meditação profunda
da Sagrada Escritura.
13. No século VI Boécio denominou as artes
reales, matemática e ciências, que se referiam às
coisas, res - donde reales - de
quadrivium que, mais
tarde, se grafou
quadruvium [223].
Alcuíno empregou o
termo trivium para nomear as artes sermocinais - de
sermo, palavra - e quadrivium para as artes reais. A
ele ou à sua escola atribuiu-se o comentário a
Horácio, Scholia Vindobonensia ad Horatii artem
poeticam, no qual parece ocorrer o mais antigo exemplo do
termo trivium junto com a expressão
quadruvium. Pio
Rajna, conclui que a divisão das sete artes liberais em
trívio e quadrívio já começara a ser usada no começo
do século IX. Ela não parece ser mais antiga do que
as Etimologias de Santo Isidoro e tudo indica que teria
sido introduzida, com efeito, por Alcuíno com o
objetivo de dividir os livros escolares de diferentes
disciplinas [224].
14. Não existe melhor ilustração sobre o andamento
de uma escola monástica, sobre o conteúdo do ensino das
artes liberais e de outras disciplinas, sobre os livros
escolares e os processos didáticos, que o Diário de um
Estudante, de Valafrido Estrabão, na escola externa
da abadia de Reichenau. Nenhum resumo ou paráfrase
dessa obra consegue substituir a leitura do texto deveras
precioso, e um documento único sobre a vida escolar no
primeiro quartel do século IX, durante o reinado de
Luís, o Piedoso. Não podemos transcrevê-lo nem
destacar as múltiplas informações de profundo
significado para o nosso estudo, mas vamos realçar alguns
passos muito elucidativos desse opúsculo que vem inserto
na História da Pedagogia de Messer [225]. Segundo
Valafrido, antes do curso das artes liberais, os meninos
aprendiam a ler. Eram todos da mesma idade, e
vornehmen wie geringen Standes,
de classe nobre e plebéia.
Atente-se para o pormenor. Os seus colegas eram nobres
e plebeus. O gering estudava ao lado do filho do conde ou
do aristocrata, vornehm, e todos aprendiam a ler em
livros latinos e em obras escritas em alemão: Darauf
bekam ich ein deutsches Büchlein, depois disso recebi um
livrinho em alemão. No outono havia férias, passeios e
divertimentos. Durante o inverno os alunos dedicavam-se
ao aprendizado da escrita e na primavera do ano 816,
com dez anos de idade, Valafrido passou a estudar com
magister Gerald, o professor de gramática. Vamos agora
citar os eventos mais salientes, de acordo com a
seqüência dos anos escolares. Ano 816. Os alunos
mais adiantados só conversam em latim fora das horas de
recreio e aos principiantes é facultado o uso do alemão.
O estudo inicial da gramática de Donato era feito sob a
orientação de um colega mais adiantado. No período
vespertino, tratava-se de aplicar as regras aprendidas de
cor pela manhã. De noite, ouvia-se a leitura de uma
passagem de história bíblica a ser cobrada pelo mestre na
manhã seguinte. A escola estava situada em edifício
próprio e entre ela e o mosteiro erguia-se a magnífica
catedral. Quando esta foi consagrada, a festa contou com
esplêndido coral que nos dá idéia da freqüência da
escola: cem educandos, zöglinge, da escola interna e
quatrocentos, da externa.
15. Ano 817. Valafrido passou ao estudo da segunda
parte da gramática e começou a leitura gradual do
Saltério. Em 818, exames sobre a matéria estudada
anteriormente e leitura das obras de Alcuíno, dos
Dísticos de Catão e da Métrica de São Beda.
Em 819, Valafrido recebeu a incumbência de instruir os
novos alunos, a fim de completar os seus estudos de
gramática. O seu mestre, por sua vez, explicou as
figuras da linguagem na Sagrada Escritura e nas obras
poéticas de Estácio e Lucano. Quem não tinha
vocação para o ensino dedicava-se à cópia de trechos
das gramáticas de Prisciano, Mário Vitorino e
Cassiodoro ou compunha frases em alemão sobre temas da
vida diária ou da Bíblia. Vinha então a
recapitulação da gramática, antes de os 32 alunos
passarem à classe de retórica. Todavia, alguns jovens
nobres, Adelige, voltavam para casa ou eram retirados da
escola por seus pais, a fim de serem instruídos nas artes
cavaleirescas que não recebiam atenção alguma na escola
monástica. Isso indica que os anos de gramática
perfaziam um vero curso de letras e de cultura geral. Em
820, começou o estudo da retórica nas obras de
Cassiodoro, Cícero e Quintiliano com muitos
exercícios de redação, e o estudo da história no
Martirológio, na Crônica de São Beda, e nas de
Eusébio de Cesaréia, São Jerônimo, Próspero,
Cassiodoro, Jordão e Melito, nas obras de Salústio
e Tito Lívio, ao mesmo tempo que se lia o Diálogo,
de Alcuíno, entre a Retórica e as Virtudes.
Havia,
ademais, comentário de trechos da Eneida de Virgílio,
das obras de Prudêncio e Fortunato e composição de
poemas latinos. Em 821, começou o estudo da
dialética nas obras de Alcuíno, Cassiodoro,
Porfírio, Boécio e São Beda. Prosseguiu-se na
leitura dos poetas e no estudo da história e havia prova
semanal. Os alunos que não apreciassem a lógica
estudavam o direito nos códigos de Teodósio, e dos
francos sálios e ripuários. No ano 822 houve
exercícios orais e escritos de retórica e de dialética e
composição poética em alemão, pois Carlos Magno
insistira muito com o abade Hato, para que se desse
importância à língua alemã, der deutschen Sprache.
Por fim, chegaram os exames. Em 822, procedeu-se
ao estudo da aritmética nas obras de Boécio e São
Beda e de cronologia bíblica e eclesiástica e, antes de
iniciarem o curso de geometria, muitos condiscípulos de
Valafrido abstiveram-se dos cálculos e separaram-se da
turma para se dedicarem ao estudo da medicina, das
ciências jurídicas ou das artes da pintura e da
escultura que se aprendiam com Irmãos em outra ala do
mosteiro. Quem queria, no entanto, estudar farmácia ia
ter com Dom Richram que tinha casa própria junto da
abadia e onde cultivava Heilkräuter, ervas medicinais,
preparava bálsamos e poções e, com o auxílio de outros
Irmãos, atendia aos doentes.
16. No ano 823, vinte alunos prosseguiram no estudo
da geometria em obras de Boécio, assim como no da
geografia através do Itinerário de Antonius, na
Cosmografia de Ethicus (sic) e nos escritos de São
Beda e Santo Isidoro, sobre manusearem mapas e
traçarem desenhos e figuras na areia do campo dos jogos e
efetuarem exercícios de agrimensura. Em 824,
iniciou-se o estudo da música nos livros de Boécio e
São Beda e o aprendizado de algum instrumento tal como o
órgão, a harpa, a flauta, a trompa, a cítara ou a
lira de três cordas. Com o erudito Dom Wetino
aplicou-se Valafrido ao estudo do grego, estudou a
gramática de Dositeu e leu a Ilíada de Homero num
manuscrito adquirido em Aqüisgrana von einem Griechen
aus Konstantinopel, de um grego de Constantinopla. No
ano 825, finalmente, completou-se o estudo das artes
liberais com o curso de astronomia baseado nas obras de
Boécio e de São Beda. Aí temos, pois, valiosa
cópia de dados sobre o conteúdo das sete artes liberais e
sobre os processos de ensino na escola monástica da abadia
de Reichenau no primeiro quartel do século IX e o
Diário de um Estudante de Valafrido é a voz de um
escolar que ainda ressoa fresca, juvenil e ardente lá do
remoto ambiente beneditino no tempo de Luís, o
Piedoso.
17. Peter Vossen escreveu um notável comentário ao
opúsculo poético de Walther von Speyer, Libellus
Scolasticus, relatório escolar do ano 984 concernente
à escola episcopal de Speyer. Evidentemente, o
Libellus Scolasticus em versos é muito menos informativo
que o Diário de Valafrido em boa prosa e escrito mais de
um século antes, mas ele também proporciona dados
valiosos a respeito de uma escola episcopal do fim do
século X. Valter de Speyer refere-se em versos e
metáforas ao aprendizado do alfabeto, do canto dos salmos
e da gramática: Grammaticis opibus me tertius applicat
annus, da dialética, da retórica, da aritmética,
rithmica summarum, da geometria, da música e da
astronomia, quinque parallelos Urania complicat orbes
[226].
18. Através de vários documentos, neste e nos
capítulos anteriores, pudemos verificar a gradual
aculturação dos povos germânicos do Ocidente e a
recuperação da cultura antiga em níveis cada vez mais
altos em relação ao que tivera nas épocas de decadência
posteriores às guerras e às invasões, embora os estudos
e as letras nunca se tenham eclipsado totalmente no mundo
ocidental. Essa situação da Idade Média Latina não
se pode comparar à do Império Bizantino no mesmo
período, uma vez que este herdou, cruzou, assimilou e
desenvolveu a cultura antiga grega e oriental sem solução
de continuidade, apesar de épocas de atonia cultural,
tanto que o famoso bizantinista Louis Bréhier observou
que, segundo os cronistas do século IX, a ignorância
reinou no império no século VIII até que Teófilo
descobriu Leão, o Matemático, que ele fez diretor da
escola estabelecida na igreja dos Quarenta Santos e,
depois, no palácio de Magnaura [227].
19. Enquanto os povos cristãos do Ocidente e os novos
invasores convertidos à fé cristã faziam os seus
séculos de aprendizagem do Evangelho e da cultura
clássica durante o período carolíngio e o século de
ferro, os muçulmanos estabilizados no Oriente, na
África e na Península Ibérica entraram em contato
direto com o creme da cultura antiga, assimilando o saber
clássico dos gregos, dos egípcios e dos persas e
beneficiando-se, ainda, das realizações culturais
bizantinas. Os seus chefes, os sultões, usaram de
política habilíssima, favoreceram os estudos, as
ciências e as artes; concederam honras e promoções aos
sábios convertidos à religião muçulmana, de tal modo
que os povos islâmicos, em pouco tempo, atingiram alto
grau de desenvolvimento científico, técnico e
econômico, o que ensejou o surgimento de nova e
esplendorosa civilização. Como tivemos a oportunidade
de ressaltar em livro anterior, a Síria exerceu papel de
capital importância na transmissão do saber antigo aos
muçulmanos: "A partir do século IV, foram
traduzidos para o siríaco obras filosóficas, médicas,
matemáticas e geográficas. Entre os anos de 750 e
850, os estudiosos sírios traduziram para o árabe as
obras que durante duzentos anos haviam sido vertidas do
grego para o siríaco. Essas traduções do siríaco para
o árabe foram o resultado do trabalho espetacular dos
sábios cristãos da Síria. Muitos deles viviam como
médicos, diz Munk, na corte dos califas, e indicavam
aos árabes os livros que lhes pudessem ser de interesse"
[228]. Dois são os fatos mais salientes no surto
cultural dos muçulmanos. Primeiro, eles revelaram
notável poder de assimilação do patrimônio cultural
helenístico e, segundo, deveram a oportunidade de tal
assimilação e do encontro com o legado do saber antigo
aos cristãos, notadamente aos sírios, de modo que no
século XII, quando se deu o renascimento científico e
filosófico do Ocidente, os cristãos receberam com juros
o patrimônio transmitido anteriormente aos árabes. No
período carolíngio, floresceram no Islão os pensadores
de Bagdá: Al Kindi, falecido em 873; Al
Farabi, que morreu em 949 ou 950, e o grande
filósofo e médico persa Ibn Sina ou Avicena, que
nasceu em 980 e viveu até 1037. Avicena escreveu
obras médicas, grandes paráfrases de Aristóteles e uma
notável enciclopédia filosófico-científica de cunho
aristotélico e neoplatônico. Foi para divulgar a sua
doutrina psicológica sobre o intelecto que Ibn Tufail
compôs a curiosíssima novela pedagógica O Filósofo
Autodidata em que descreve a vida de um super-Robinson
Crusoe aviceniano, nascido por geração espontânea ou
filho de princesa, enjeitado como Moisés e que aportou a
uma ilha onde cresceu, viveu, pensou e aprendeu o que os
maiores sábios em grandes centros de estudo jamais
conseguiriam saber. No século XII viveu na Espanha o
maior filósofo muçulmano, o pensador de Córdova Ibn
Rosch, Averróis (1126-1198) que, junto com
Avicena, tanto influenciou os escolásticos cristãos.
Aliás, convém lembrar que o texto fundamental de
matemática Cálculo de integração e equação, usado
nas universidades européias até o século XVI e que
introduziu no Ocidente a palavra álgebra, era de autoria
do famoso matemático Al-Khwarizmi ou Muhammand ibn
Musá (780-850).
20. Os muçulmanos patrocinaram atiladamente a
fundação de escolas em seus domínios. A educação
centralizava-se no elemento religioso do Alcorão. Em
muitas escolas ministrava-se o ensino da ortografia, da
gramática, da poesia e da redação, embora algumas se
restringissem apenas à doutrina religiosa. O ensino
superior constava de estudos de direito, gramática,
literatura, retórica, ciências e filosofia, mas o
centro continuava a ser o Alcorão e as Seis Coleções
de Tradições referentes a Maomé. Embora fossem
numerosos os mestres particulares que lecionavam
gratuitamente, o ensino era dado nas madrasas ou colégios
do Cairo, Damasco, Bagdá, Ispahán, Fez,
Kairuán e Córdova e, depois, nas escolas superiores
das mesquitas. Cumpre lembrar, no entanto, que no
próprio século de ferro, os moçárabes levaram as suas
escolas ao máximo esplendor em Córdova no ensino da
teologia, da gramática e da poesia, escolas e ensino que
aí prosperavam antes do surto das escolas muçulmanas.
21. Como já observamos anteriormente, a educação
dos leigos nobres realizou-se na Idade Média através
do aprendizado das artes cavaleirescas. Podemos
esclarecer, no entanto, que a formação completa do
nobre, segundo o ideal da cavalaria, só ocorrerá após
o primeiro milênio da era cristã, para atingir o seu
ápice nos séculos XII e XIII. Só então, pode
considerar-se firmado o ideal cristão da cavalaria e o
refinamento de maneiras dos melhores guerreiros, graças
à difusão da lírica trovadoresca, da elegância e do
amor cortês, do gosto poético e musical que se
irradiaram da Provença e da França, enfim, por toda a
Europa. É aí que no século XIII surge o mais
perfeito elucidário dos deveres impostos pelo ideal da
cavalaria na obra de Raimundo Lúlio, O Livro de
Cavalaria. Além do carinho respeitoso pelas mulheres,
do acatamento para com o clero, da sua missão de protetor
dos pobres, o cavaleiro, sobre ser um valoroso soldado,
deveria refulgir pelo espírito de fé, pela prática das
virtudes e pela sincera piedade para com Deus. Nunca se
deve deixar de ter em mente sobre esse assunto que uma
coisa é o ideal altaneiro e outra, bem diferente, a
realidade quotidiana. Carlos Magno e os seus sucessores
legislaram com a melhor intenção sobre a fundação de
escolas e a renovação dos estudos, mas houve uma
distância imensa entre as Capitulares e o que foi feito
ou estabelecido efetivamente. A Igreja Católica, por
sua vez, propõe sempre a doutrina evangélica e a
imitação de Cristo aos fiéis, mas os santos são
raros, "rari nantes in gurgite vasto". Os membros de
outras religiões cristãs carregam a Bíblia de um lado
para outro e vivem a recitar versículos, mas a sua
conduta, freqüentemente, discorda mais da Escritura que
o sim do não. Por isso, não é de estranhar que a
maioria dos cavaleiros não correspondesse ao modelo e às
aspirações propostos por um São Raimundo Lúlio e que
muitos não passassem, como reza antiga modinha popular,
de "refinados gaviões". Mas havia um ideal do
cavaleiro, tal como existe o do santo, do sábio, do
artista e do cidadão exemplar. No tempo de Carlos
Magno o súbito refinamento de maneiras na Academia
Palatina não chegava a seduzir velhos guerreiros
acostumados apenas à violência, aos urros e à
bebedeira. Assim, no círculo cortesão de Carlos
Magno aparece entre os convivas que escutam com enlevo os
versos de Teodulfo o "membrosus Wibodus heros", o
alentado guerreiro Wibodo que sacode a cabeçona com ar
ameaçador e feroz e que, ao ser censurado pelo rei, se
afasta capengando, "Vulcano no andar, Júpiter pela
voz". Pois bem, apesar dos desprimores da condição
humana, procedia-se com empenho à educação do
cavaleiro. Dos sete aos quatorze anos o menino nobre era
pajem educado por distinta matrona e virtuoso e instruído
monge ou' clérigo. Dos quatorze aos vinte e um anos ele
se tornava escudeiro, auxiliar do senhor e exercitava-se
nas armas, nos combates e nos divertimentos. Aos vinte e
um anos fazia a solene vigília de armas, participava da
Santa Missa, recebia os sacramentos, lurava fidelidade
ao seu suzerano e era sagrado cavaleiro em meio a solene
cerimonial.
22. Na primeira parte da Idade Média os nobres
recebiam a educação tradicional do seu povo já
influenciada pela doutrina cristã e pelos fermentos
clássicos da educação romana no período da
decadência. Apesar de predominar fortemente a grosseria
do bárbaro e a empáfia do soldado analfabeto, houve
leigos nobres instruídos, particularmente na Itália,
no reino franco no período carolíngio, na
Grã-Bretanha desde o século VIII, na Germânia,
na Flandres, na Itália e na Inglaterra a partir do
século X, como o demonstrou sobejamente James Westfall
Thompson em sua tese The Literacy of the Laity in the
Middle Ages. Um traço saliente da instrução dos
nobres e dos leigos foi a composição dos "Espelhos dos
Príncipes", obra de educação moral e religiosa.
Através desses "Espelhos", a Igreja cuidava de
formar moralmente os governantes, recomendando-lhes a
prática da justiça e o exercício das virtudes cristãs.
Schnürer diz ver nesses escritos os inícios da
literatura política da Idade Média. O abade
Smaragdo, provavelmente irlandês, do mosteiro
Saint-Mihiel-s-Meuse conta para Carlos Magno as
virtudes dos reis do Antigo Testamento na sua obra Via
Regia. Jonas, bispo de Orleães de 818 a 843,
dedicou ao rei Pepino da Aquitânia, em 834, o seu
Espelho de Paz, De institutione regia, em que enaltece
o sentido cristão da realeza e enumera os direitos e os
deveres dos reis. Noutra obra, a De institutione
laicali ou Espelho Leigo, dedicada ao conde Matfredo de
Orleães sobre os deveres morais das pessoas casadas,
Jonas ensina aos senhores que não devem ambicionar os
bens da Igreja particular localizada nos seus domínios.
23. O irlandês Sedulius Scottus, de Liège,
dedicou provavelmente ao rei da Lotaríngia, Lotário
II, o seu Espelho dos Príncipes, De rectoribus
christianis, composto entre 855 e 859. Sedúlio
esboça as figuras do bote e do mau rei e ensina que o
governo de um rei justo se assenta nos oito pilares da
verdade, da perseverança, liberalidade, palavra
afável, amizade com os bons, a diminuição dos
impostos, a eqüidade nos juízos entre os ricos e os
pobres, e o castigo dos maus. Como se vê, trata-se de
um excelente espelho em que os governantes atuais poderiam
mirar-se e instruir-se com muito proveito para o
desempenho das suas tarefas em prol do bem comum. Foi às
instâncias do rei Carlos, o Calvo, que Hincmar de
Reims redigiu o Espelho Da pessoa e das funções
reais, tendo organizado sobre o tema uma compilação dos
ensinamentos dos Padres da Igreja. Ermoldo, o Negro,
que compusera no exílio um poema épico em honra de
Luís, o Piedoso, In honorem Hludowici
Christianissimi Caesaris Augusti Ermoldi Nigelli
exulis elegiacum Carmen, dedicou a Pepino, rei da
Aquitânia, preciosos conselhos no gênero dos
Espelhos. Depois de lhe elogiar as qualidades físicas,
Ermoldo exorta Pepino a cuidar dos deveres do soberano e
a não se deixar absorver só pelos prazeres da caça.
Recomenda-lhe, outrossim, viver segundo a sabedoria dos
antigos romanos, o amor e a justiça, procurar sobretudo
o reino celeste e proteger a Igreja [229].
24. Não resta a menor dúvida, todavia, de que o
mais perfeito Espelho da primeira idade Média foi o
Manual de Dhuoda, e isso demonstra que as mulheres
podiam igualar-se aos homens e aos clérigos mais
instruídos e, por vezes, até mesmo superá-los. A
nobre senhora Dhuoda começou a escrever um manual de alto
valor educativo para o seu filho Guilherme, a 30 de
novembro de 841, e terminou-o a 2 de fevereiro de
843. O livro compõe-se de 81 capítulos divididos
em onze partes na edição crítica feita por Pierre
Riché. Na primeira parte Dhuoda fala da sublimidade de
Deus e do seu amor. Na segunda discorre sobre o
mistério da Santíssima Trindade, sobre as virtudes
teologais e a oração. Na terceira expõe a moral
social; na quarta trata dos vícios e das virtudes e nisso
o Manual se assemelha aos Espelhos escritos por
Alcuíno, Paulino de Aquiléia, Jonas de Orleães e
Hincmar. Na quinta parte Dhuoda descreve as
tribulações humanas; na sexta aponta ao filho o caminho
da perfeição através dos sete dons do Espírito Santo
e das oito beatitudes; na sétima fala do nascimento e da
morte carnal e espiritual; na oitava apresenta as
intenções pelas quais Guilherme deve rezar; na nona
Dhuoda disserta sobre a aritmologia sagrada; na décima
alude à vida de Guilherme e da sua família e, por fim,
na décima primeira ensina ao filho o modo de cantar os
salmos. Como diz Riché, no seu estudo introdutório,
o Manual é muito diferente dos Espelhos escritos por
clérigos na mesma época. É, na verdade, o livro do
perfeito aristocrata [230].
O Manual de Dhuoda é a
obra mais original da pedagogia no período carolíngio e
no seu gênero é única na primeira parte da Idade
Média. No Manual a fidelidade a Deus, aos pais e ao
rei é engrandecida e recomendada e Dhuoda assenta a
educação nas profundas convicções religiosas para
ajudar o filho a ser um homem de bem e um cristão
esclarecido e coerente [231].
25. Pierre Riché num artigo interessante sobre a
instrução dos leigos do IX ao XII século procurou
esclarecer três pontos e, ao que me parece, com êxito
diferente. Primeiro, ele indica que o melhor modo de
conhecer a instrução dos leigos entre o século IX e o
XII é o exame das assinaturas autógrafas de documentos
oficiais, diplomas e Cartas (títulos de cartório), e
ele verificou que a civilização da escrita predominou no
sul da França, na Espanha e na Itália e que entre as
assinaturas dos documentos cartorários não se acham
apenas os nomes de aristocratas como, também, os de
artesãos e cambistas. Com base nas vidas de santos e nos
cartulários, Riché conclui que a instrução elementar
dos leigos de condição média não foi negligenciada,
que a tradição do ensino particular sempre foi viva e
atuante e que as crianças recebiam a primeira instrução
dos próprios pais ou de preceptores particulares, quando
a família não as enviava para uma escola monástica,
embora com o receio de que pudessem vir a ser atraídas
pelo ideal monástico da vida. A segunda questão
investigada por Riché, sem êxito me parece, refere-se
às "escolas leigas" da Itália. As inferências no
rumo de resposta positiva, feitas por Giesebrecht,
Salvioli, Manacorda, Solmi e Bezzola, ele contrapõe
a hipótese de que os únicos mestres do período teriam
sido clérigos e monges. A tese dos autores que defendem
a existência das escolas leigas na Itália, ao lado das
clericais e monásticas, -e mais aceitável pois, como
temos visto em capítulos anteriores, a tradição
clássica e escolar antiga nunca desapareceu por completo
na Itália e, o que me parece um argumento
ponderabilíssimo, foi exatamente na Itália,
mantenedora das antigas tradições escolares e em
contínua relação com a cultura bizantina, que surgiram
no século XI as escolas de caráter prático, de
mestres leigos de gramática, de ars dictaminis e de
retórica, que levariam ao estudo das leis com o
renascimento do direito romano durante o século XII.
E a primeira Faculdade cronologicamente na universidade
medieval foi precisamente a de Bolonha, a escola de
direito, e a faculdade mais laical da universidade na
Idade Média. Por fim, Riché termina as suas
investigações a examinar a diferença entre laicus e
illiteratus. O clérigo é pessoa que pertence à
hierarquia eclesiástica, enquanto o leigo é o cristão
comum e filho da santa Igreja desde o batismo. O
litteratus é a pessoa instruída na língua latina. Por
isso, clérigo ou leigo podia ser litteratus, desde que
soubesse latim. E podiam ser illiterati, sem serem
ignorantes ou analfabetos, como a mãe de Guibert de
Nogent, illiterata, que não sabia latim, mas ensinara
seu filho a ler. Riché conclui o seu artigo a reconhecer
que o desejo de cultura semelhante à dos clérigos não
foi privilégio dos aristocratas, mas característica dos
leigos de classe mais modesta e que também aspiraram à
instrução e a receberam dos clérigos.
26. Em qualquer época a peça de resistência das
escolas é a biblioteca. Esse termo de origem grega,
Bibliothêkê, significava de início a loja onde se
vendiam livros, mas a partir do Brucheion, a grande
biblioteca de Alexandria, o termo passou a significar
coleção de livros. Na idade Média a biblioteca era
chamada de armarium, scrinium,
libraria arca e, segundo
Léon Maître, o termo armarium era o mais usual para
designar o lugar em que se guardavam os livros. Em
apêndice à sua obra Les Écoles Épiscopales et
Monastiques en Occident avant les Universités, Maître
faz um bosquejo das bibliotecas monásticas do século IX
ao XIII. Na famosa abadia de São Galo
(Saint-Gall), grande centro escolar, o catálogo só
contém obras de interesse escolar. No século VIII
damos com as obras de Donato, Prisciano, São Beda,
Hipócrates, Galeno, etc. No século IX, com as
obras de Apuleio, Plínio, Boécio, Cassiodoro,
Santo Isidoro, Alcuíno, Rábano Mauro, Flávio
Josefo, vários códigos e outros livros. No século X
aparecem comentários sobre as Categorias de
Aristóteles, clássicos como Pérsio, Ovídio,
Lucano, Juvenal, Sêneca, Cícero, e ainda
dicionários e outras obras. No século XI predominam
obras lógicas de Aristóteles e Boécio e traduções
alemãs de Aristóteles, Theotisca translatio Organi
Aristotelis, da Consolação da Filosofia de Boécio,
e clássicos como Horácio, Lucano e Salústio. No
século XII aparecem os poemas de Claudiano.
27. Na biblioteca da abadia de Saint-Riquier havia
no século IX duzentos e cinqüenta volumes com as obras
dos Santos Padres e mais obras de literatura clássica,
história, direito, etc. Na biblioteca de Corbie o
catálogo registra um dicionário greco-latino do século
VIII ou IX, a obra completa de Virgílio e
manuscritos anteriores a 1200, de autores clássicos
antigos e medievais, cobrem as áreas das artes liberais,
inclusive as do direito e da medicina. Já no século
VIII Alcumo descreve num poema, Versus de sanctis
Euboricensis Ecclesiae, a biblioteca da catedral de
York cujo cuidado lhe fora confiado pelo arcebispo
resignatário Alberto a quem sucedeu Eanbaldus. A
Alcuíno coube a esfera da sabedoria, a escola, a
cátedra de mestre, os livros...
|
"Huic sophiae specimen, studium sedemque, librosque,
(Undique quos clarus collegerat ante magister)."
|
|
Começa, então, a
apresentação do catálogo da biblioteca. Diz Alcuíno
que aí se acham os vestígios dos antigos Padres da
Igreja, o legado greco-romano e o que o povo hebraico
bebera da fonte superna hebraicus vel quod populus bibit
imbre supernus, e o que a África espargiu com lâmpada
fulgente. Pode verificar-se pelo relato versificado de
Alcuíno que a biblioteca da catedral de York estava bem
apetrechada à volta do ano 776, como se colhe dos
nomes dos autores dos quais destacamos os de Jerônimo,
Hilário, Ambrósio, Agostinho, Atanásio,
Gregório Magno, Basílio, João Crisóstomo e
outros Padres da Igreja, Boécio, Plínio,
Aristóteles, Cícero, Virgílio, Estácio,
Lucano, Donato, Prisciano, etc., e ainda muitos
outros que não são enumerados, invenis alios perplures,
lector... [232].
28. Havia muita disparidade nos acervos das bibliotecas
monásticas e episcopais. Quando uma sede episcopal ou
uma abadia eram dirigidas por um homem sábio, letrado e
dinâmico, a biblioteca enriquecia-se, como ocorreu em
York. Quando um mosteiro possuía escola, a biblioteca
do mosteiro ampliava-se por força dos estudos e até se
constituía biblioteca especial para os alunos. Havia,
porém, mosteiros pobres e com poucos livros, só os
estritamente necessários, como aconteceu na Lusitânia
na época difícil dos suevos e da ocupação muçulmana.
Segundo Frei José Mattoso, os monges dispunham da
Bíblia, de obras dos Santos Padres, de algumas obras
históricas e canônicas. No mosteiro de Leça, por
exemplo, havia um exemplar das Etimologias de Santo
Isidoro, mas sempre nas outras casas religiosas tudo era
muito escasso e muito pobre, "magros vestígios que
através dos séculos são na sua humildade o sinal da luta
pela sobrevivência do espírito num meio e numa época em
que a defesa da própria vida era mais urgente" [233].
Thomson analisa, em erudito artigo a situação da
biblioteca da abadia de Santo Edmundo de Bury nos
séculos XI e XII e nota que até 1080 ela mas com
o advento de um abade ilustrado, era pequena e acanhad
Anselmo (1121-1148), ela se transformou e
enriqueceu com as coleções de autores clássicos e
patrísticos, comparável às grandes bibliotecas de
Cantuária, Clúnia e Corbie. Apesar da sua
atualização com a aquisição de modernas obras bíblicas
e teológicas, o seu objetivo era o estudo contemplativo
da Sagrada Escritura. As obras de dialética não
gozavam de popularidade, embora houvesse interesse, pela
poesia, pela história e por obras jurídicas e médicas
[234].
29. Como já tivemos a oportunidade de assinalar, os
monges dedicavam-se no scriptorium à cópia e à
reprodução dos preciosos manuscritos, assim como à
publicação de obras de escritores da casa ou de quem lhes
confiasse a tarefa da edição. É este o momento de
esclarecermos uma questão à qual se alude de vez em
quando com malícia, quando se faz referência ao plágio
entre os autores medievais. Antes de tudo, convém saber
e proclamar que o plágio é tão antigo quanto a escrita,
e é processo muito em voga entre os plumitivos atuais.
Na sua grande obra sobre Santo Isidoro de Sevilha
menciona Jacques Fontaine a freqüência das citações e
de segunda mão e sem indicação do autor, feitas pelo
famoso autor das Etimologias [235]. São Beda, no
entanto, era escrupuloso quanto à citação das fontes.
Veja-se o que ele diz sobre o assunto no prólogo do seu
comentário sobre o Evangelho de São Lucas [236]. O
que acontece, e quase todos ignoram, é que os editores
modernos não têm tido o cuidado de transcrever as notas
marginais que se acham nos manuscritos [237]. Sem
embargo disso, havia cópias voluntárias e involuntárias
e casos de plágio deliberado mas, como observa De
Ghellinck S.J., a propriedade literária não era
respeitada, máxime quando se tratava de quaestiones
anônimas. Muitos mestres apropriavam-se do que liam,
tanto que no caso dos glosadores não é fácil identificar
os mútuos empréstimos e quer nesse domínio quer nos da
teologia dogmática, do direito canônico, da
pregação, havia quanto à propriedade literária "uma
sem-cerimônia desconcertante para os modernos" [238].
Finalmente, vale a pena saber o que ensina Moses Hadas
sobre a antigüidade clássica do plágio, ao referir as
queixas de Aristófanes e Isócrates contra os seus
plagiadores e ao analisar tal fenômeno entre os letrados
do período helenístico [239].
30. Se considerarmos agora a consciência pedagógica
da primeira parte da Idade Média, poderemos verificar,
à luz de tudo quanto havemos estudado até este momento,
que os educadores medievais prolongaram e completaram as
concepções pedagógicas dos Santos Padres exaradas no
fim do mundo antigo, mas lhes aperfeiçoaram a herança
com estabelecerem novas instituições adequadas aos seus
objetivos religiosos e culturais. Vale a pena evocar o
ensinamento de Otto Willmann, quando compara as
primitivas instituições educacionais dos cristãos com as
instituições docentes da antigüidade clássica.
Lehranstalten des klassischen Altertums, zeigen die
altchristlichen, de que se distinguem por três notas
típicas: as instituições cristãs não são apenas
agências de instrução, mas estabelecimentos
educacionais, Erziehungsanstalten, algo totalmente
estranho ao sistema escolar greco-romano. Em segundo
lugar, no mundo antigo os alunos estudavam diferentes
disciplinas com vários mestres em distintos locais de
ensino particular, enquanto os cristãos ministravam tal
ensino num estabelecimento conveniente com os vários
mestres irmanados pelo mesmo ideal religioso e organizavam
o currículo sob a luz e a inspiração da instrução
religiosa, religiösen Unterweisung. Finalmente,
enquanto instituições da Igreja Católica, as escolas
têm o caráter de estabelecimentos públicos,
öffentlicher Charakter, ao contrário das antigas que
formavam um agregado frouxo de empresas particulares.
Ora, essas notas típicas da escola cristã antiga,
segundo Otto Willmann, acham-se plenamente encarnadas
nas instituições educativas medievais e nelas alcançaram
a sua plena expressão levadas a intenso desenvolvimento e
apuro [240]. Na Idade Média a religião era, com
efeito, a mola propulsora de toda a atividade
pedagógica; o estudo e a investigação não tinham
finalidade em si mesmos, mas endereçavam à busca da
perfeição cristã; enfim, como diz Willmann, o
elemento religioso ocupava a posição central na vida
interior da Idade Média cristã [241].
31. O famoso sociólogo Émile Durkheim na sua obra
L'Évolution Pédagogique en France faz afirmações
equivalentes à de Otto Willmann e adianta uma outra
mais avançada que a do ilustre pensador e pedagogo alemão
e de todo procedente. A escola no início da Idade
Média, afirma Durkheim, constitui grande e influente
novidade que se distingue da antiga por traços nitidamente
recortados. Sem dúvida, ela herdou da civilização
pagã a matéria do ensino que foi, por sua vez,
elaborada de modo todo novo com resultados nunca vistos.
Mas - e aí está a mais forte e original declaração de
Durkheim - c'est à ce moment que l'École au sens
prope du mot, apparut, foi nesse momento, no começo da
Idade Média, que a Escola, no sentido próprio da
palavra, apareceu, pois a Antigüidade teve mestres,
mas não teve verdadeiras escolas, já que "a escola
não é apenas o lugar onde um professor ensina, mas é um
ser moral e impregnado de certas idéias, de certos -
sentimentos, um meio que envolve tanto o mestre quanto os
alunos. Por isso, a Idade Média em pedagogia foi
inovadora" [242].
32. O currículo das escolas medievais culminava com o
estudo da Sagrada Escritura e a convicção de que só a
Bíblia contém a verdadeira e salutar sabedoria foi
externada pelo autor anônimo da Vida de São Maximino,
abade de Micy. Diz ele que a sabedoria não consta das
disciplinas de um certo trivium, isto é, da lógica, da
física e da ética, que constituiriam o saber supremo.
Isso, diz ele, não passa de ilusão dos sábios deste
mundo que pereceram por causa da sua loucura, por não
conhecerem a sabedoria de Deus. "Nós, porém,
prossegue, rejeitamos essa insânia e dispomos da
verdadeira física nas narrações históricas da
Escritura; da verdadeira lógica na contemplação da
fé, da esperança e da caridade, e da verdadeira ética
na prática dos preceitos divinos. A verdadeira sabedoria
só se encontra entre os cristãos... O primeiro tipo a
representar essa filosofia foi Salomão e no nosso século
e no lugar em que vivemos Deus suscitou Maximino como o
modelo acabado de tal sabedoria"[243].
33. Outro importante aspecto da consciência
pedagógica da Idade Médica acha-se na descoberta da
criança, nas intuições psicológicas notáveis dos
monges beneditinos que souberam assim transformar os
métodos da pedagogia antiga. Eles não consideraram as
crianças e os adolescentes com a doentia mentalidade
jansenista, não os concebiam apenas como seres propensos
ao mal e ao pecado, mas à luz do Evangelho discerniram o
amor que Jesus consagrou às crianças e o exemplo que
deixou para os educadores cristãos da juventude [244].
Sempre restam o fato claro e a verdade inconcussa de que
os monges não tinham como primeiro objetivo do seu
instituto a educação da infância e da juventude. O seu
fim, como já vimos, é outro. As exigências sociais e
as circunstâncias levara-mos à execução de tal missão
educacional que se acrescentou, per accidens, à
finalidade básica da escola do serviço do Senhor.
34. O mais clássico testemunho do conhecimento
psicológico das crianças e dos jovens, e do método a
ser usado na sua educação pelos beneditinos parece
achar-se no famoso Comentário de Paulo Warnefriede ou
Paulo Diácono à Regra de São Bento. Diz ele que
dez meninos da escola monástica devem ser assistidos por
três ou quatro professores, debent decem infantes tres
vel quattuor magistros habere. O mestre, recomenda
Warnefriede, deve agir com moderação quanto aos
meninos, temperanter agere, e não chicoteá-los demais
nem maltratar, mas devem antes exercer sobre eles a
máxima vigilância. Ora, isso lembra perfeitamente,
com a antecedência de um milênio, o método preventivo
de São João Bosco. O castigo só deveria ser
aplicado aos meninos díscolos e recalcitrantes. O
mestre, diz Paulo Diácono, deve levar os meninos a
passear pelo campo, ao menos uma vez por semana ou por
mês, para que eles possam brincar durante uma hora sob a
vigilância do superior. Além disso, o abade lhes deve
proporcionar boa alimentação, servindolhes peixes,
leite, ovos e carne; esta, por ocasião do Natal,
Páscoa e de outras festas. Aos meninos fracos deve
ser, dada carne freqüentemente. Ademais, cuide o abade
de lhes fornecer a roupa conveniente. E quando o menino
tiver conduta exemplar, o abade não se furte a
elogiá-lo em público durante o Capítulo, para que
assim ele passe a amar ainda mais a vida de santidade.
Paulo Warnefriede apresenta, ainda, o seguinte quadro
das idades do homem: infância, até os sete anos;
meninice, até os quatorze;
adolescência, até os vinte
e oito; juventude, até aos cinquenta e seis;
velhice,
até os setenta e seis. Postea, decrepitas, em seguida
vem a decrepitude. Esse quadro, evidentemente, muito
nos conforta, e imagino que meus leitores na sua maioria
sejam adolescentes, enquanto eu me consolo com a minha
juventude [245].
35. A convicção de que o homem é um peregrino neste
mundo em busca de união com Deus na vida eterna reluz num
lanço da epístola 133 que Loup de Ferrières
escreveu ao seu parente, o monge Ebrard que lhe
solicitara uma boa palavra, útil ou, pelo menos,
deleitável. Depois de reconhecer que lhe é agradável
verificar o renascimento da ciência na sua região,
reviviscentem in his nostris regionibus sapientiam quosdam
studiosissime colere pergratum habeo, Loup de Ferrières
afirma que muitas pessoas, preocupadas com o discurso
elegante, esquecem o que é mais importante e vantajoso,
a saber, a honestidade dos costumes: "Tememos as faltas
da linguagem e tratamos de corrigi-ias, mas não damos
importância às nossas faltas que multiplicamos. Por
isso, se cuidamos de polir a linguagem, convém muito
mais que tratemos de adquirir a honestidade e a
justiça" [246]. Foi assim a primeira Idade Média:
idade de fé, com os homens a construírem a cidade
terrena de olhos postos na celeste com o primado absoluto
da Sagrada Escritura nos caminhos, viae (trivium,
quadrivium), da sabedoria. Nessa primeira parte da
Idade Média a consciência do cristão enriqueceu-se
com as experiências e os ensinamentos dos monges, com a
tradição monástica de São Bento e com a doutrina de
Santo Agostinho, ao mesmo tempo em que assimilava o
legado cultural romano. A vida do homem sobre a terra,
segundo o Patriarca dos monges do Ocidente, deve
decorrer na escola do serviço do Senhor e os estudos,
conforme o autor do tratado De doctrina christiana, devem
servir para a leitura mais esmerada e proveitosa da
Bíblia que indica aos homens o caminho da salvação.
Como resultado de toda essa atividade religiosa e
escolar, de toda a semeadura. feita durante séculos com
sangue, suor e lágrimas, ao dobrar o cabo do primeiro
milênio cristão, o Ocidente entrou numa nova era de
florescimento cultural e de crescimento interior do homem.
Durante o século XII, como o demonstrou Chenu, uma
das maiores descobertas, e o denominador comum de todas
elas, foi a do homem como sujeito, "um dos epicentros da
gestação de um homem novo", graças ao desenvolvimento
da moral da intenção pela qual "o valor de nossas
ações e os juízos que elas reclamam, perante Deus e os
homens, regram-se não radicalmente pelos objetos, bons
ou maus em si mesmos - nos casos de um roubo, de um
homicídio ou de um ato carnal - mas pelo consentimento
interior (consensus / intentio) que nós lhes damos,
pois é a vontade de praticar um ato proibido que constitui
o mal, ainda que ela não consiga praticá-lo
efetivamente" [247]. O maior fautor dessa descoberta da
moral da intenção foi Abelardo, um pioneiro na
exploração da interioridade cristã através do novo
caminho que Gilson denominou socratismo cristão [248].
36. Aliás, foi Gilson com a sua perícia habitual
quem esboçou no livrinho Reason and Revelation in the
Middle Ages o esquema clássico das relações da razão
com a fé no regime cristão da Idade Média. Ele
demonstra que os estudiosos medievais, sob tal aspecto,
se abrigam numa das três famílias espirituais que se
formaram em torno da questão. A primeira, que
principiou no período patrístico, foi a da primazia da
fé cujos membros acreditavam que a Revelação viera
substituir todo o conhecimento humano. Os seus
representantes foram Tertuliano e Taciano, por exemplo,
no mundo antigo e, entre outros, São Bernardo, São
Pedro Damião e os "espirituais franciscanos" na Idade
Média. A segunda família é a da primazia da razão,
fundada pelo muçulmano espanhol Averróis que criou um
racionalismo puramente filosófico em reação consciente
contra o teologismo dos crentes islâmicos. No Ocidente
cristão esse nacionalismo foi representado pela família
dos averroístas latinos que formaram dois grupos. O
primeiro contou com Sigério de Brabant e Boécio de
Dácia no século XIII, averroístas em filosofia,
mas sinceros na sua fé cristã. O segundo foi dirigido e
celebrizado por Jean de Jandun e Marsílio de Pádua,
ambos racionalistas e descrentes. Finalmente, houve uma
terceira família espiritual, a da harmonia entre a razão
e a revelação, cujo fundador e representante exemplar
foi Santo Tomás de Aquino. Segundo o ensinamento do
Angélico Doutor, há verdades que o homem descobre por
si mesmo, por meio do seu raciocínio, e daí o
conhecimento vulgar, científico e filosófico, e há
outra espécie de saber que o homem não encontra com os
seus próprios recursos, mas recebe de Deus através da
revelação, e que ele trata de organizar, de elaborar e
de aprofundar por meio da reflexão, e daí as verdades da
fé e a sagrada teologia.
37. Num verdadeiro vôo de pássaro, temos estado a
esquadrinhar as grandes linhas da educação na primeira
parte da Idade Média. Pudemos estudar alguns assuntos
e obter vários esclarecimentos de molde a suscitar-nos o
apetite por maiores conhecimentos. Muitas coisas foram
passadas por alto e muitos temas sedutores mal foram
sugeridos. Enfim, a obra foi iniciada e estão abertos
os caminhos para quem quiser aprender. Para a luz poder
brilhar no firmamento do século XIII, como iremos
ver, foi preciso antes a noite estrelada e a aurora cor de
rosa da primeira Idade Média.
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