TERCEIRA PARTE


CAPÍTULO VII. O RENASCIMENTO DO SÉCULO XII.

1. Em seu livro de título tão expressivo, A Grande Claridade da Idade Média, Gustave Cohen proporciona de modo sintético as informações mínimas hauridas na história da literatura a respeito do florescimento cultural do século XII. A época de 1050 a 1150, diz Cohen, constitui "o século das gêneses", e o período de 1150 a 1200, acrescenta, provoca "uma espécie de vertigem", quando se leva em conta o desenvolvimento da filosofia, da literatura, da arte, o advento da mulher e do amor cortês, assim como o aparecimento da catedral com a ogiva que exprime a ascensão indefinida para o céu [249]. O termo tão significativo de "século das gêneses" só veio confirmar categoricamente a consagrada expressão cunhada por Charles Homer Haskins - que serviu de título para o seu famoso livro - O Renascimento do Século XII [250]. Quem estuda a história da Idade Média percebe com meridiana clareza que o século XII representa a confluência de toda a semeadura e de toda a fermentação dos séculos anteriores no surgimento da nova civilização medieval que chegará ao apogeu no século XIII e no início do surto cultural do Ocidente que nunca mais se deteve e se estendeu em linha reta, desde a recuperação da ciência antiga até às invenções e às descobertas da era atômica e espacial em que estamos a viver.

2. Embora o nosso interesse esteja voltado exclusivamente para as escolas e para a educação vigente nessa época, vamos evocar em rápidos traços a sua fisionomia que pode ser mais contemplada e conhecida através de boas obras de história medieval e em livros especializados como os que apresentamos na bibliografia deste capítulo. Primeiro, assinale-se a progressiva melhoria de vida desde o século XI na Europa ocidental: o fim das invasões, a crescente aceitação pelos nobres do espírito cristão, o estabelecimento da trégua e da paz de Deus que contribuíram para a concórdia entre as classes sociais; o arroteamento do solo com o aperfeiçoamento dos instrumentos agrícolas, o uso do machado de corte, a charrua de relha, a ferradura, o moinho de água e a rotação das culturas: semeadura das farinhas de inverno (trigo ou centeio), dos cereais da primavera (aveia ou cevada) e o descanso do alqueive. O resultado dessas novidades agrícolas foi a alimentação mais segura e abundante e o aumento da população. No século XIII surgirão principalmente novas técnicas náuticas como o leme de cadaste, navios maiores e mais rápidos, a bússola, o astrolábio e os mapas marítimos. Em conseqüência da ressurreição do comércio com o Oriente e das próprias Cruzadas que suscitaram o gosto das especiarias, dos tecidos de luxo, das frutas exóticas, das plantas de tinturaria, do ouro e das gemas preciosas, reanimaram-se as cidades e ativaram-se os portos, tal como na Itália as cidades de Veneza, Pisa, Gênova, Florença, Siena e Milão e os portos do mar Báltico: Bremen, Hamburgo, Lübeck e Stettin que formariam no século XIII a Hansa Teutônica, e ainda a região de Flandres no mar do Norte com as cidades produtoras dos tecidos de lã, a saber, Gand, Ypres e o porto de Bruges.

3. No décimo dia do Concílio de Clermont, a 27 de novembro de 1095, foi anunciada a Primeira Cruzada que marcou o início da série de expedições guerreiras ao Oriente e que teve tantas repercussões políticas, econômicas e culturais para a Cristandade. Apesar de poucas terem alcançado algum êxito, e sobre haverem muitos senhores acalentado sonhos de domínio e de enriquecimento rápido, o fato iniludível é que multidões de pessoas marcharam ao brado de "Deus o quer", com a grande cruz vermelha cosida à espádua direita e movidas por profundo espírito de fé. Nas palavras com que o autor anônimo da História da Primeira Cruzada reconhece a bravura dos guerreiros turcos, transparece cristalina a sua religiosidade ardente: "Eu direi a verdade que ninguém poderá contestar. Por certo, se eles (os turcos) sempre tivessem sido firmes na fé de Cristo e na santa Cristandade e se quisessem confessar um só Senhor em três pessoas realmente distintas, e o Filho de Deus nascido de uma virgem, que sofreu e ressuscitou dentre os mortos, que subiu ao céu à vista dos discípulos e enviou a consolação perfeita do Espírito Santo, e se acreditassem com fé e juízo reto que Ele reina no céu e sobre a terra, não se encontraria quem se lhes equiparasse em poder, em bravura e na ciência da guerra. No entanto, com a graça de Deus foram vencidos pelos nossos" [251]. Além de exprimir e afervorar o espírito de fé, as Cruzadas detiveram o avanço dos turcos seldjúcidas, determinaram a formação de Estados cristãos no Próximo Oriente, incrementaram nessas regiões a fabricação de tecidos de seda e de algodão, o cultivo do algodão e da cana de açúcar e transferiram o domínio dos ativos portos da Síria para os negociantes de Veneza, Gênova e Marselha e, assim, contribuíram para a ressurreição do comércio na Europa Ocidental.

4. A atividade comercial reanimou, por sua vez, a vida urbana e incentivou o aparecimento de novas ocupações, assim como a acelerada emancipação dos servos. A economia agrária foi substituída pela de giro e surgiram outras espécies de trabalhadores, além dos tradicionais mercatores et artifices. Os comerciantes organizavam caravanas bem armadas contra os eventuais assaltos dos bandoleiros e constituíram associações permanentes que se chamaram guildas, hansas e fraternidades, tal como a hansa dos mercadores de água formada pelos barqueiros do Sena em Paris. Em vários locais da Europa os comerciantes reuniram-se para a venda dos seus artigos nas feiras em que adquiriram prestígio os cambistas e os banqueiros judeus e lombardos. No tempo de inverno, e para fugir às intempéries durante as longas viagens, os comerciantes buscavam abrigo sob as muralhas do castelo, da antiga cidade ou do mosteiro, mas sempre perto das estradas e dos rios. Os negócios suscitavam novos empregos e a essas novas cidades comerciais acorriam bateleiros, carroceiros, carregadores, padeiros, açougueiros, tanoeiros, tecelões, oleiros, marceneiros e camponeses alforriados ou fugidos da servidão da gleba. Logo a nova cidade se fortificou com muralhas e surgiu o burgo, tal como em Bruges, Gand, Florença, Milão, Gênova, com as suas ruas estreitas, tortuosas e lamacentas, casas de madeira e com o perigo e a constante ameaça de peste e de incêndio. Logo, também, a burguesia forcejou por escapar ao guante dos senhores em cujos domínios se localizava o burgo. Muitos burgueses eram servos fujões que desejavam a liberdade de ir e vir, assim como uma justiça consentânea com o comércio. O burguês é o homem da cidade nova, enquanto no campo vivem o nobre e o camponês, exceto em certas regiões da Itália, na Toscana e em Pádua, onde a pequena e a média nobreza se estabeleceram de giro. Os burgueses, sujeitos na cidade e dominaram a economia às inúmeras exações dos nobres, procuravam livrar-se das taxas excessivas, fazendo um só pagamento anual ao senhor. Começaram, então, a surgir nas cidades as associações de ajuda mútua, as comunas, depois de várias insurreições urbanas no norte da Itália, no vale do Reno e na França do Norte. Em troca de um tributo em dinheiro e da promessa de ajuda militar, os senhores passaram a reconhecer a liberdade dos burgueses num documento, a Carta, que sacramentava a nova situação administrativa da cidade que podia eleger os seus magistrados e manter às suas custas a milícia, assim como possuir bandeira e selo. A Carta outorgada aos burgueses de Saint-Omer em 1127, por exemplo, reconhecia a cidade como território autônomo, com a administração da justiça e o governo independentes dos senhores. O movimento das comunas ganhou o norte da França, os centros comerciais do Reno na Germânia, tal como Mogúncia e Colônia, e surgiu na Espanha com os Consejos criados por intervenção do rei que concedia a confratria ou pela iniciativa dos burgueses unidos na hermandad. As comunas italianas tiveram caráter original, pois o campo integrava-se na cidade, e surgiram verdadeiras cidades-estados, enquanto na França, por exemplo, na cidade permaneciam o bispo e o seu clero, os comerciantes, os artesães, enfim, os burgueses, já que os nobres permaneciam nos seus castelos no campo onde os cavaleiros pobres nutriam crescente rancor contra os ricos barões que tratavam de obter cada vez mais dinheiro por meio da cobrança de pedágios de estradas e pontes, do arrendamento de terras e da venda da emancipação aos servos. E, se Otão de Freising, cronista cisterciense e parente do imperador, lamenta nos Gesta Friderici I imperatoris o hábito de as cidades italianas elevarem artesãos às dignidades de cavaleiros ou chefes [252], o francês Guibert de Nogent não lhe fica atrás ao declarar no início do século XII: "Comuna, nome novo ou melhor, péssimo" [253].

5. Concomitantemente com o renascimento do comércio, iniciou-se o arranco da indústria artesanal que se desenvolveu em pequenas oficinas onde conviviam os trabalhadores profissionais, os companheiros, com os aprendizes. Cada ofício tinha a sua corporação de auxílio mútuo com o seu santo protetor e as suas festividades religiosas. É interessante notar, através de um romance versificado escrito para o divertimento dos nobres, que na indústria dos tecidos já existia a exploração dos companheiros pelos comerciantes ambiciosos. Assim, no romance Yvain ou Le Chevalier au lion queixam-se as tecelãs:

"Teceremos sempre panos de seda
mas nunca estaremos bem vestidas.

Sempre estaremos pobres e nuas
e sempre teremos fome e sede..." [254].

6. Por outro lado, transformava-se o gênero de vida dos nobres. O cavaleiro, além da bravura e da perícia nas armas e na luta, devia distinguir-se pela "cortesia", um conjunto de virtudes sociais que lhe permitisse tratar com lhaneza os seus pares, os superiores e os inferiores, mas especialmente as damas. No sul da França, na Provença, nasceu a literatura dos trovadores que cantavam as proezas guerreiras e os encantos do amor cortês [255]. Aliás, como ensinam Nelli e Lavaud, cumpre distinguir no século XII o amor cavaleiresco do amor cortês. O amor cavaleiresco surgiu em primeiro lugar e foi o resultado da idealização da mulher pela aristocracia guerreira. De acordo com o amor cavaleiresco, o homem consegue o favor das damas por meio de proezas. O cavaleiro faz questão de ser leal e fiel à sua dama, mas quer levar o amor até à consumação carnal. O amor cortês, ao contrário, de origem provençal, surgiu na primeira metade do século XII e requeria que a amante fosse casada e de nível social superior, o que o tornava teoricamente platônico. Tratava-se de paixão de poeta e de homem gentil que obtinha da amada, quando muito, a recompensa de um beijo ou de outros pequenos favores. Por isso, o amor cortês é galantaria e fineza, mas amor impossível e desesperado. Como cantou mais tarde um dos seus maiores teóricos, Guilhem Montanhangol (1233 - 1258 ):

"Sim, eles devem servir ao Amor
de todo o coração, eles, os Amorosos.

Pois o amor não é pecado
mas virtude que torna bons os maus
e melhores os bons.

Ele põe o homem no caminho de sempre fazer o bem,
do Amor procede Castidade.

Quem nele põe seu pensamento
jamais pode agir por mal" [256].

7. É preciso ressaltar devidamente o desenvolvimento no século XII das formas de vida corporativa, pois a corporação é uma instituição social, podemos dizer uma estrutura, que irá caracterizar essencialmente o novo tipo de escolas da Europa Ocidental, ou seja, as Universidades. Assim como os comerciantes se reuniram em associações para a ajuda mútua, assim os artesãos o fizeram, de modo que os trabalhadores do mesmo ramo viviam no mesmo quarteirão ou bairro, compartilhavam as técnicas de que faziam segredo e auxiliavam-se mutuamente. Surgiu desse modo a corporação de ofício, fraternitas ou schola em latim, métier em francês, craftgild ou mistery em inglês, arte em italiano, Amt ou Zunft em alemão. A corporação congregava os trabalhadores das oficinas em que se praticava o mesmo ofício e eles cuidavam, também, das vendas. O patrão era. o mestre, os trabalhadores auxiliares eram oficiais e os principiantes eram aprendizes. Só na Itália quase não havia oficiais devido à profusão de oficinas e lojas com o serviço exclusivo de patrões e aprendizes. Havia corporações de ourives, prateiros, açougueiros, tintureiros, curtidores, ferreiros, metalúrgicos, pedreiros, etc. Elas exerciam verdadeiro monopólio quanto à fabricação dos produtos ou à prestação de serviços. Regulamentavam o trabalho, o salário e os preços. Com esse mesmo espírito iriam formar-se no decurso do século XIII as corporações de estudantes e mestres em várias partes da Europa. Como diz Oliveira Marques - e essa informação para nós brasileiros é deveras interessante - em Portugal até o século XIV não apareceu o sistema corporativo, pois, afora a produção de alguns artigos para o consumo local, "não existia transformação de matérias-primas, feita em Portugal". Os artesãos, nos inícios da nacionalidade, não passavam de barbeiros, ferreiros, alfaiates, sapateiros, pedreiros, carpinteiros, padeiros, carniceiros, pescadores e outros. As corporações não surgiram antes do fim da Idade Média devido à forte intromissão do rei e dos concelhos na vida dos trabalhadores e ao papel desempenhado pelos pequenos proprietários camponeses. Por isso, os artesãos lusitanos só contaram com as confrarias religiosas [257].

8. A esta altura, para dissipar preconceitos e lendas, convém chamar a atenção para a corporação dos pedreiros-livres. Em francês pedreiro diz-se maçon. A sua corporação era a maçonnerie que tinha segredos profissionais como as outras, particularmente quanto à localização de pedreiras donde se retirava o material imprescindível às belas realizações da estatuária. A pedra maleável que não oferecia empeços ao escultor, pierre franche, deu origem à qualificação do pedreiro livre, franc-maçon [258]. Essa maçonaria medieval, operativa e católica, nada tem a ver, exceto o nome, com a maçonaria moderna. Ela era uma corporação de ofício de fins caritativos e econômicos e profundamente católica, composta só de trabalhadores, membros operativos. No começo do século XVIII ela se transformou por completo, ou melhor, foi substituída por outra associação que conservou o título e a nomenclatura dos pedreiros-livres medievais, mas com caráter completamente diferente. Os construtores das catedrais, os pedreiros e os canteiros medievais eram cristãos e filhos devotados da Igreja. No século XVIII, no entanto, a maçonaria foi protestantizada pelos pastores Anderson e Désaguliers que redigiram as Constituições da Grande Loja da Inglaterra e, conforme Renê Guénon, fizeram desaparecer os antigos documentos que atestavam a catolicidade da corporação. Os dois pastores, segundo Berteloot, pretenderam e conseguiram fazer da maçonaria "a ordem terceira do protestantismo" [259].

9. Certa animosidade entre as classes sociais começou a refletir-se na literatura. No século XII cresce a elaboração de obras em vernáculo e, de 1174 a 1205, foi composta a melhor parte do vasto romance francês Roman de Renart que, segundo Élie Decahors, de início foi apenas uma epopéia animal e depois veio a ser alegoria, sátira social, moral e símbolo filosófico. Como sátira, o Roman de Renart atinge, através dos crimes do lobo, da crueldade do leão, da estupidez do asno e das proezas duvidosas da raposa, os barões, os reis, os clérigos e os monges. A raposa encarna a hipocrisia e representa um aspecto permanente do ser humano [260].

10. Durante o século XII ocorreram, outrossim, marcantes acontecimentos religiosos que passamos a indicar de modo sumário. No século XI a Igreja empreendeu a reforma dos costumes e da mentalidade por meio da renovação monástica de Clúnia e da ação decidida e eficaz de papas reformadores como Leão IX (1048-54), Alexandre II (1061-73) e o extraordinário Gregório VII (1073-85 ) que defendeu a supremacia do poder espiritual sobre o temporal, o poder absoluto do Papa na área dos negócios eclesiásticos e, por isso, enfrentou com denodo a luta das investiduras, uma vez que os leigos, príncipes e barões, costumavam interferir nos assuntos eclesiásticos e tinham a pretensão de escolher os dignatários da Igreja. A partir de Gregório VII surgiu a idéia da Christianitas, a comunidade dos povos cristãos sob a orientação suprema do Papa [261].

11. No século XII apareceram, também, várias heresias como a dos cátaros ou albigenses, dos petrobrusianos, passágios e valdenses, e as que foram divulgadas por Tanquelmo e Eudo de Stella. Em compensação, houve admirável florescimento monástico com a reforma beneditina que fez brotar do velho tronco as novas ordens de Grandmont, Fontevrault e de Cister, e novos mosteiros como o de Hirsau na Floresta Negra, sobre terem sido criadas novas instituições do clero regular como a ordem dos Premonstratenses de São Norberto, a dos severos Cartuxos de São Bruno de Colônia, as ordens hospitalares e caritativas dos Hospitalários de Santo Antão, dos Humilhados da Lombardia, dos Irmãos da Ponte, confraria de leigos que construíam e conservavam as pontes, assim como alojavam os viajantes. Relevo especial merecem as ordens militares dos Joanitas ou Hospitalários, 'a dos Templários e a Ordem Teutônica. Além da originalidade destas últimas, ordens de cavaleiros que defendiam os lugares santos, acometiam os muçulmanos, protegiam os peregrinos e assistiam os doentes, destacaram-se de modo particular os Premonstratenses que, ao contrário dos monges tradicionais voltados mais para a própria santificação e a contemplação da divindade, tiveram como um dos seus principais objetivos a pregação e a cura de almas, isto é, o serviço do próximo por meio do exercício do ministério pastoral e do cuidado das paróquias [262]. Por fim, note-se que durante o século XII a cavalaria assumiu caráter religioso com a introdução de um verdadeiro rito para a "ordenação" do cavaleiro em que as peças do vestuário, o banho, as bênçãos e os gestos se impregnaram de sentido místico. Como ensina Marc Bloch, ninguém "se torna" mais cavaleiro, mas "ordena-se", e o novo cavaleiro após a sua ordenação, o adoubement, não é mais um simples guerreiro que combate a cavalo, mas "um homem de honra e de dever que protege os fracos e encarna as virtudes cristãs" [263].

12. Várias são as expressões equivalentes com que se designa a atenção dada ao estudo das letras, da filosofia e das ciências no século XII. A metáfora usada por Wolff é sugestiva, embora possa levar a passo em falso na apreciação dos acontecimentos: l'éveil intellectuel de l'Europe, o despertar intelectual da Europa. Trata-se de metáfora sugestiva, porque inculca o início de vera marcha intelectual e cultural, da fundação e do surto de escolas, da gênese das universidades, do início do ensino da filosofia que reapareceu brilhante no currículo das escolas urbanas, do fascínio que despertou em muitas pessoas o contato com as obras científicas dos autores antigos e muçulmanos. Contudo, essa figura de linguagem pode induzir o estudioso à apreciação errônea dos acontecimentos, pois a Europa não esteve adormecida intelectualmente nos primeiros séculos medievais, mas bem acordada - noutra metáfora mais sensata - como a criança ativa que emite os primeiros vagidos, uma vez que na Idade Média começou a nascer e a desenvolver-se a Europa Ocidental. Por outro lado, como diz Bergson, e podemos comprovar, "dormir é desinteressar-se". Ora, os estudiosos na primeira parte da Idade Média não perderam o interesse pela filosofia nem a menosprezaram, simplesmente porque a desconheceram, pois o seu estudo sistemático já não se ministrava nas escolas no fim do mundo antigo. Por conseguinte, durante o século XII, o que ocorreu foi, de fato, o início na Europa do estudo orgânico da filosofia. E a reflexão filosófica beneficiou-se com o aparecimento em latim dos textos dos filósofos gregos e muçulmanos, de modo que ela se exerceu através dos comentários e, logo mais, de obras criativas e originais, tal como esplendeu nas cátedras universitárias do século XIII. E com a ciência passou-se o mesmo, já que os europeus puderam pela primeira vez estudar a sério as obras que constituíam o legado antigo nos vários campos da matemática e das ciências naturais, máxime nas áreas da medicina, da astronomia e da física. Falando, pois, com propriedade, não houve um "despertar intelectual da Europa" mas gênese, impulso e início solene da vida intelectual européia, que já fora preparada pela atividade silenciosa mas construtiva e ardente dos estudiosos que amavam e cultivavam as letras no remanso dos claustros durante a primeira idade Média.

13. Do ponto de vista da história da filosofia, os dois fatos mais salientes foram a tradução e o estudo das obras aristotélicas, e dos seus comentadores muçulmanos, e a sua aplicação às crenças religiosas, o que deu origem à teologia escolástica, à ciência sagrada em que as proposições em que se exprime a Revelação foram submetidas à análise crítica e ao enquadramento conceptual nas categorias da lógica, e a argumentação religiosa passou a ser conduzida segundo os cânones da silogística. Ao mesmo tempo em que se constituía a teologia, formava-se a filosofia escolástica de que falaremos noutro capítulo. Os pioneiros dessa revolução cultural e os pais da Escolástica foram Santo Anselmo de Cantuária e Pedro Abelardo. No tocante às tradições, primeiro passou-se para o latim toda a obra lógica de Aristóteles dos tratados de metafísica, e, pouco a pouco, surgiram as versões psicologia, ética, ciência natural e política. Essa introdução gradual dos escritos aristotélicos no âmbito particular do estudo e no currículo escolar provocou, com efeito, verdadeira revolução intelectual [264].

14. Fato curioso e interessante é que, junto com o entusiasmo pelo novo saber, e com o aparecimento de humanistas, eruditos e cultores das ciências, se manifestou em certas pessoas o desejo de abreviar o curso escolar, devido à mera ambição de diplomas para o rápido ingresso em carreiras lucrativas. Assim foram os cornificianos que João de Salisbury fustigou implacável no início do Metalogicon, a obra em que o fino humanista inglês defendeu o estudo metódico das disciplinas do trivium.

15. A volta do ano 1141 todo o Organon (conjunto dos seis escritos lógicos de Aristóteles) apareceu no Heptatheucon de Teodorico de Chantres, exceto os Analíticos Posteriores que existiam na tradução antiga e adulterada atribuída a Boécio. Jacó de Veneza traduziu essa obra do grego para o latim e até o fim do século foram feitas outras duas traduções. Otão de Freising, que estudou em Paris, introduziu-a na Germânia. Teodorico de Chantres no prólogo do Heptatheucon exprimiu a sua concepção do saber e do papel das artes liberais. Ele afirma que os dois instrumentos básicos do filosofar são a reflexão ou compreensão intelectual e a expressão adequada. Ora, quanto à primeira, o quadrívio ilumina o intelecto e, quanto à segunda, o trívio permite a manifestação conveniente e elegante do pensamento [265].

16. Os principais centros de traduções no século XII foram Toledo e Sicília, embora fossem feitas traduções em Pisa, Barcelona, Tarragona, Segóvia, Leão, Pamplona, Toulouse, Béziers, Narbona e Marselha. Uma indicação da sede geral de conhecimentos está na variada procedência dos tradutores que procuravam a "terra aliena", a fim de progredir no saber. Em Toledo, onde no século XII a língua comum dos cristãos moçárabes era o árabe, surgiu um verdadeiro centro de tradutores em torno do mecenas das letras e das versões, Dom Raimundo, arcebispo de Toledo (1126 a 1152) que fora antes bispo de Osma. O arcebispo letrado aproveitou os cristãos que liam e entendiam os livros árabes, punha-os em contato com os clérigos sabedores de latim e, desse modo, surgiam as traduções do texto árabe em latim fluente [266]. Os tradutores que acorriam a Toledo eram ingleses como Adelardo de Bath, Roberto de Chester, Daniel de Morley, Alfredo de Sareshel; alemães como Hermann Contractus, da abadia de Reichenau; lombardos como Gerardo de Cremona; toscanos como Burgúndio, Hugo e Leão de Pisa; dálmatas como Hermann da Caríntia; flamengos como Roberto de Bruges; espanhóis como Hugo de Santalla, Domingos González ou Gundissalvo; judeus convertidos ao Cristianismo como João de Sevilha (Avendeut, Aven Daud ou Avendar), Pedro Afonso e outros. "As traduções da obra de Avicena e Averróis, ensina Menéndez Pelayo, espalhavam-se em numerosas cópias pelas escolas da França e da Alemanha onde eram lidas com avidez e, por vezes, engendravam heresias e revoltas. Daí Paris e Toledo resumirem o movimento das idéias no século XII"[267].

17. Outro centro reluzente das traduções no século XII foi a Sicília, ponto de encontro das culturas latina, bizantina e muçulmana. Lá, no tempo de Rogério II, a Óptica de Ptolomeu foi traduzida por Eugênio, o Emir e, mais tarde, sob Frederico II, Miguel Escoto e Teodoro de Antioquia verteram para o latim obras árabes de zoologia. Na Sicília traduziram-se importantes obras científicas de Aristóteles, Hipócrates, Galeno, Ptolomeu, A1 Khwarizmi, Avicena e outros. Além disso, como observa Crombie, na Sicília não só foram feitas traduções do árabe como apareceram, também, as primeiras obras traduzidas diretamente do grego. A partir do fim do século XII até o fim do XIII, diminuíram as traduções diretas do grego a favor das obras traduzidas do árabe e no século XIV terminaram praticamente as traduções do árabe, quando os mongóis invadiram a Mesopotâmia e a Pérsia. Outro fato saliente ressaltado por Crombie foi que certas obras foram traduzidas em língua popular, especialmente para o italiano, o castelhano, o francês e o inglês, máxime as obras de Aristóteles que deslocaram o eixo do interesse pedagógico das letras para a filosofia e as ciências. Graças aos árabes divulgaram-se no Ocidente a astronomia de Ptolomeu e a trigonometria que a acompanhava, vários instrumentos aperfeiçoados de observação científica, mapas celestes e marítimos. Os árabes também contribuíram de modo notável para a divulgação da ciência médica de Hipócrates, Galeno e das enciclopédias de Haly Abbas (+994), Avicena (980-1037) e Rhazés (+ cerca de 924). A contribuição mais importante dos sábios muçulmanos foi quanto à óptica e à perspectiva com os estudos de Al-Kindi (+ cerca de 873) e Alhazen (cerca de 965-1039) a promover grande avanço em relação às obras de Euclides, Herão e Ptolomeu. Em matemática os árabes não foram propriamente originais e divulgaram o pensamento matemático da índia nos domínios da aritmética e da álgebra. Assim, através dos árabes, puderam os cristãos tomar conhecimento do sistema de numeração no qual o valor de um algarismo depende da sua posição (unidade, dezena, centena, etc.), do uso do zero, da extração das raízes quadradas e cúbicas, da resolução de equações determinadas e indeterminadas de 1. e 2. graus, etc. Esses conhecimentos procediam dos matemáticos hindus Aryabhata, nascido em 476 d.C., Brahmagupta, nascido em 598 d.C., é Bhâskara nascido em 1114. Durante o século XII o sistema de numeração hindu penetrou aos poucos no Ocidente, juntamente com a contribuição dos árabes sobre a alquimia, a magia e a astrologia. Os árabes não tinham intenção meramente teórica no campo da ciência, mas visavam ao dominio da natureza e daí a importância que deram à alquimia que lhes permitiria descobrir "o Elixir da vida longa, a Pedra Filosofal, o Talismã, a Fórmula do poder e as propriedades mágicas das plantas e dos minerais". Uma vez que eles achavam as causas "ocultas" capazes de produzir fenômenos físicos, não faziam distinção entre as ciências da natureza e a magia ou o ocultismo [268].

18. O século XII foi a grande época da introdução das obras de Aristóteles no Ocidente. Para se fazer idéia disso, consultem-se as listas das traduções, apresentadas na obra de Crombie. De Platão só se conhecera até esse tempo uma parte do Timeu na tradução de Calcïdio. Foi Aristipo, arcediago de Catânia (+ 1152), quem traduziu o Menão e o Fedão, e mais, os Meteorológicos, o Da geração e da corrupção de Aristóteles, assim como a Mecânica de Herão de Siracusa, a Óptica e a Catóptrica de Euclides, o Almagesto de Ptolomeu; e parece ter iniciado a tradução das obras de São Gregório Nazianzeno e de Diógenes Laércio. Burgúndio de Pisa (+ 1193) traduziu os Aforismos de Hipócrates, numerosas obras de Galeno, a Fé Ortodoxa de São João Damasceno, muitas Homilias de São João Crisóstomo, o Comentário sobre Isaías, de São Basilio, e o tratado Sobre a natureza do homem, de Nemésio de Emesa. No século XIII prosseguiram as traduções de obras filosóficas e científicas que aumentaram o patrimônio dos livros gregos e árabes traduzidos com entusiasmo no decurso do século XII, seja do árabe seja diretamente do grego. O famoso Domingos González ou Gundissalvo traduziu os quatro primeiros livros da Física de Aristóteles, os quatro livros da obra De caelo et mundo, os dez primeiros livros da Metafísica, o tratado Das ciências de Alfarabi, o De anima de Avicena, a Filosofia de Al-Gazâli, o Fons Vitae de Avicebrão ou Ibn Gabirol, as obras de Alkindi e o famoso texto neoplatônico, o Liber de Causis.

19. Passamos agora a examinar os tipos de escolas existentes no século XII limitando-nos, porém, aos estabelecimentos de nível elementar e médio, com algumas alusões aos centros de estudos teológicos, pois voltaremos ao assunto no próximo capítulo sobre as universidades. Depois do conspecto geral do século XII, podemos avaliar com mais segurança e descortino o panorama escolar dessa época de transformação social, de renascimento urbano e cultural. O primeiro fato alcantilado foi a diminuição da importância das escolas monásticas, mas na qual os próprios monges apostaram, e o revigoramento e o prestígio crescente das escolas urbanas, máxime as episcopais e as capitulares. Embora em toda catedral a escola fosse atendida pelos cônegos, havia também cabidos em outras igrejas que não eram catedrais. Isso ocorreu naturalmente devido ao progresso e à animação da vida nas cidades que atraíam cada vez mais a população do campo, enquanto os mosteiros, que haviam sido os centros culturais da fase estritamente agrária da primeira Idade Média, passaram a contentar-se, após as reformas de Clúnia e de Cister, com as escolas internas destinadas exclusivamente aos candidatos à vida monástica. Além disso, os monges deviam enfrentar e resolver dois problemas. Primeiro, urgia afastar das suas escolas e dos seus cenóbios os jovens aleijados e deficientes que os nobres costumavam empurrar para os claustros, como se estes fossem asilos de inválidos. Em segundo lugar, os monges eram avessos às novidades filosóficas e teológicas e distinguiam-se pelo seu acendrado tradicionalíssimo. Um estudante monástico de teologia, após o estudo das artes liberais, e além das conferências do abade, de regra fazia o seu aperfeiçoamento teológico por meio da leitura da Bíblia e dos Santos Padres, assim como através das suas meditações. Por isso, quando um mosteiro, por exigência dos aristocratas, precisava manter uma escola, o abade costumava contratar um clérigo para dirigi-la ou para lecionar. Ademais, os monges continuavam a apreciar e a estimar os livros e a copiá-los nos escritórios, mas a existência de biblioteca num mosteiro não implicava a de uma escola interna.

20. Nas cidades o ensino corria por conta dos clérigos diocesanos, dos cônegos regulares e dos mestres agregados. Os clérigos diocesanos eram os cônegos das catedrais ou das colegiadas, os sacerdotes, diáconos ou clérigos das catedrais e paróquias, e os mestres agregados que eram simples clérigos (não recebiam ordens sacras, mas só a tonsura, sinal da sua inclusão no serviço da Igreja) com licença de ensinar dada pelo Escolástico, o cônego que servia de secretário da educação do bispado. Os cônegos a serviço da catedral eram sacerdotes diocesanos ou seculares, sem vínculo com nenhuma ordem religiosa, que prestavam serviços à igreja do bispo, recitavam o Ofício em comum, podiam viver juntos e tinham uma prebenda, isto é, uma função administrativa com a devida côngrua ou renda fixa. O conjunto dos cônegos formava o Capítulo ou Cabido. Havia igrejas que, sem serem catedrais, tinham um cabido. Eram as Colegiadas. Ora, tanto nas catedrais havia escolas - as episcopais - como nas colegiadas e nas paróquias urbanas e rurais. Geralmente o clero das igrejas mais importantes constituía um Capítulo e administrava colegialmente as grandes paróquias. Os cônegos regulares, como os Premonstratenses, eram verdadeiros religiosos com os três votos de pobreza, castidade e obediência e seguiam a Regra de Santo Agostinho. Desde o início da Ordem, assumiram o encargo de escolas. Entre as várias congregações canônicas distinguiu-se no campo do ensino a dos Cônegos Vitorinos. A congregação de São Vítor foi estabelecida por Guilherme de Champeaux, cônego de Notre-Dame em Paris, onde ensinara dialética. Após a sua morte, a congregação já contava quarenta e quatro casas na França, na Escandinávia e na Itália. Em Paris eles dirigiram a escola do mosteiro de São Vítor e a da colegiada de Santa Genoveva. Davam grande importância ao ensino das artes liberais e redigiram notáveis tratados pedagógicos. Hugo de São Vítor é o autor do famoso Didascalicon, manual de pedagogia; Ricardo de São Vítor escreveu uma obra para o ensino da teologia, Excerptiones, e Godofredo de São Vítor redigiu em versos a Fons Philosophiae em que resumiu a doutrina de Hugo e de Ricardo. Hugo também compôs uma verdadeira suma teológica, De sacramentis, tratado sistemático de teologia de feitio tradicionalista.

21. A licentia docendi, isto é, a permissão oficial para ensinar, só podia ser concedida pelo chanceler do bispado, o scholasticus, que respondia pelos negócios da educação na área da jurisdição diocesana. Na Historia Calamitatum Mearum apreciamos o vaivém de Abelardo para conseguir, depois de já lecionar na sua própria escola, a licença para ensinar de modo autorizado e oficial.

22. As escolas episcopais, destinadas primeiramente à formação de sacerdotes, distinguiram-se no ensino das artes liberais e da teologia, mas não eram do mesmo tipo e do mesmo estofo em toda a Europa. O que notabilizava muitas delas era o brilhante corpo de mestres de que muitas vezes dispunham, mas que nem todas tinham a ventura de possuir. Uma vez que elas eram dirigidas pelos cônegos diocesanos, também eram chamadas de escolas capitulares. Uma escola episcopal podia rebrilhar intensamente algum tempo devido a um mestre famoso e, depois, mergulhar na penumbra da rotina. No começo do século XII Anselmo ilustrou a escola de Laon com o ensino da teologia e Abelardo desacreditou-o na sua carta autobiográfica. A escola episcopal de Notre-Dame em Paris ficou famosa graças a Guilherme de Champeaux de 1103 a 1108, e a Abelardo de 1108 a 1113. Angers celebrizou-se com o magistério de Geoffroy Babion e Ulger; Reims com Alberico; Auxerre com Gilberto, o Universal; Bourges com Joscelin de Vierzy; Cantuária com Teobaldo e João de Salisbury, etc. As escolas episcopais também se notobilizaram em certa época devido à sua especialização em determinado ramo de ensino [ ? ]. No início do século XII Angers, Orleães, Meungsur-Loire e Tours, foram centros de cultura poética. Depois de 1140, Orleães cobriu-se de glória com o ensino da gramática e da retórica e no século XIII com a sua escola de direito. Bolonha consagrou-se perante a opinião européia com a sua escola de direito, e a medicina foi a glória de Salerno e Montpellier [269]. Chartres resplandeceu com merecida fama pelo ensino das ciências e da matemática. Foi a cidadela do quadrivium com os seus ilustres mestres: Bernardo de Chartres, Guilherme de Conches, Teodorico que comentou o Timeu de Platão, as Categorias de Aristóteles, e redigiu o manual das sete artes, o Heptatheuchon e, finalmente, João de Salisbury e Gilberto de la Porrée. O prestígio invejável de Paris assentou-se no ensino da dialética e da teologia. Observe-se, ainda, que certas cidades se tornaram, no século XII, centros absorventes do ensino, atraindo mestres e alunos da Europa inteira. Assim foram Paris na França e Bolonha na Itália. Em Paris, Abelardo era bretão, Adão da Ponte Pequena, Roberto Pulleyn e Roberto de Melun eram ingleses, Pedro Lombardo era italiano e Teodorico e Gilberto de Ia Porrée trocaram Chartres pelas margens do Sena. No século XIII corria mundo o adágio de Jordão de Osnabrück no Tractatus de Translatione Imperii ou De Praerogativa Romani Imperii: "Os italianos têm o Papado; os germanos, o Império, e os franceses têm o Ensino."

23. Continuamos a adiantar algumas observações sobre as escolas do século XII, pois muitos pontos de capital importância no ensino da época serão examinados no capítulo consagrado à Escolástica. Scholae era o nome do estabelecimento escolar, ainda que só constasse de uma sala. No mosteiro as aulas eram dadas no auditorium e nas escolas episcopais eram ministradas no claustro dos cônegos, quando ele existia ou, então, num lugar qualquer, e até mesmo ao ar livre, como o fez Abelardo. Scholae publicae eram as classes abertas aos clérigos seculares ou regulares. Scholae privatae eram as escolas dos mosteiros. Scholas constituere era abrir escola ou curso e scholarum regimen vinha a ser a direção da escola. Scholis praesidere, vacare ou regere, era estar à frente de uma escola. A regimine scholarum cessare era deixar de manter escola. Magisterium significava o direito ou a função de ensinar, bem como a ciência comunicada pelo mestre ou a própria disciplina do ensino. Clerici, por fim, era o termo que jurídica e socialmente designava os estudantes ou scholares [270].

24. Em Portugal houve muitas colegiadas. Assim, a de Nossa Senhora de Oliveira de Guimarães com um mestre de gramática. Em Coimbra as colegiadas de São Pedro, São Cristóvão, São João de Almedina, Sant'Iago, e do Salvador, e a de São Martinho de Cedofeita no Porto. Destacavam-se no ensino os Cônegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra e de São Vicente de Fora em Lisboa e a de São Jorge, perto de Coimbra. As escolas episcopais da província da Lusitânia remontam às prescrições do concílio de Mérida em 666. A escola episcopal de Braga foi criada pelo bispo D. Pedro em 1070, a de Coimbra data do século XI também e a de Lisboa surgiu após a sua conquista aos mouros depois de 1147.

25. Devido à expansão das cidades e à constituição dos grêmios ou corporações de ofícios, começaram a surgir as escolas profissionais durante o século XII. O menino que se destinasse a um ofício passava a morar com o patrão e fazia de aprendiz por muitos anos, inteirando-se aos poucos da técnica e dos segredos da profissão. Geralmente um aprendiz de pedreiro, por exemplo, era iniciado no ofício pelo pai, por um irmão ou tio. Ele se iniciava no manejo dos instrumentos e realizava tarefas sob a supervisão do patrão, convivia com outros respeitáveis mestres do ofício e até mesmo viajava, afim de conhecer as grandes realizações arquitetônicas das cidades e dos castelos. Shelby, num excelente artigo sobre esse tema, confessa combater duas atitudes enganosas e graves quanto ao ofício do pedreiro medieval. A primeira é a convicção de muitas pessoas de que teria existido na Idade Média "o segredo do pedreiro" à espera de ser decifrado hoje na arquitetura medieval. Isso não passa de futilidade, diz Shelby, pois os segredos dos pedreiros, como os dos trabalhadores de outros grêmios, referiam-se às habilidades técnicas, às opiniões e decisões atinentes ao ofício e de que os membros da corporação pretendiam ter o monopólio [271]. Gimpel confirma tal asserto, ao declarar que o mestre do ofício exigia dos seus operários que não revelassem, por exemplo, a proporção dos vários elementos que entravam na composição da argamassa e do gesso ou o modo de reconhecer a direção das pedreiras e o tipo das pedras. O termo "segredo" nesse caso não procederia, portanto, já que se tratava simplesmente de pedir reserva quanto aos truques profissionais. Ele acrescenta, ainda, que "os construtores das catedrais da França ou da Inglaterra jamais precisaram de apertos de mão ou de sinais secretos para se reconhecerem", pois esse costume nasceu na Escócia na Idade Moderna [272]. A outra atitude enganosa a que alude Shelby é a de certos historiadores que tendem a interpretar a arquitetura medieval primeiramente segundo a estrutura intelectual e cultural dos patronos da arquitetura, sem dar a devida atenção ao ponto de vista dos artesãos que, de fato, executaram a obra. Depois de aprender a ler numa escola de gramática, o aprendiz inglês de pedreiro adquiria vastos conhecimentos, mas a sua ciência não se obtinha nas universidades nem nos livros, já que era fruto da tradição que passava de mestre para aprendiz. Lembre-se o que Valafrido Estrabão registrou sobre o assunto no seu Diário de um Estudante, ao observar que os monges se iniciavam na escultura numa ala especial do mosteiro sob a direção de um Irmão habilitado. Noutro erudito artigo Lon Shelby frisa a importância do conhecimento da geometria, a constructive geometry, que orientava a construção e a manipulação das formas geométricas e não era nem a geometria teórica de Euclides e Arquimedes, nem a geometria prática dos tratados medievais, e revela o caráter e o conteúdo de tal saber [273].

26. No século XII, como vimos, renasceu com vigor a atividade comercial e, como diz Pirenne em famoso artigo, os negócios exigiam conhecimentos de leitura, escrita e cálculo, pois a circulação das mercadorias e do dinheiro exigiam a manutenção de correspondência e de contabilidade. Ora, como as escolas eram todas eclesiásticas, supõe-se que entre os comerciantes havia muitos clérigos instruídos e fascinados pela vida comercial, que se encarregavam da correspondência e das contas dos negociantes. Logo mais os devotos de Mercúrio trataram de proporcionar instrução adequada aos seus filhos que lhes iriam perfilhar a devoção. Enviavam-nos à escola monástica, mas com medo de que resolvessem se tornar monges, o que aconteceu freqüentemente. Muitos cuidaram, então, de contratar clérigos para lecionarem a domicílio, o que lhes saía caro e só era possível aos comerciantes muito ricos. Nas regiões desenvolvidas comercialmente, da Flandres por exemplo, as municipalidades providenciaram a abertura de escolas onde não se insistisse no ensino da literatura, mas se proporcionasse o conhecimento mínimo indispensável às necessidades do comércio, tal como leitura, escrita, cálculo e rudimentos de latim [274].

27. Émile Mâle ensina que a arte do século XII, sobre narrar a obra da Redenção e celebrar as virtudes dos santos, tentou explicar o universo e ilustrar com figuras de pedras lavradas o sistema do mundo proposto no ensino das escolas episcopais e monásticas [275]. Os estudiosos do século XII não foram grandes inventores, nem Tevolucionaram o campo do saber prática com estrondosas descobertas, tal como ocorreria nos sucessivos séculos da Idade Moderna. Eles descobriram o que lhes estivera oculto, reencontraram o património cultural que escapara aos novos povos do Ocidente que só haviam herdado os bens literários e jurídicos dos romanos e que eles puderam recuperar com trabalho estrênuo e vivo entusiasmo. Foi com essa convicção que Bernardo de Chartres formulou a sentença que nos chegou através de João de Salisbury: "Somos como anões sentados nos ombros de gigantes" [276]. Parece-me ter razão Edouard Jeauneau, ao interpretar esse dito, aplicando-o ao conhecimento das letras profanas. João de Salisbury era um letrado e um humanista da estirpe de Bernardo de Chartres e devia saber que este era basicamente um professor de literatura para quem a composição literária devia inspirar-se nos grandes mestres do passado, mas sem plagiá-los, e que procurava ensinar aos alunos a arte de ler bem e de bem redigir [277]. E aí transluz outro aspecto do renascimento cultural do século XII. Antes dos humanistas dos séculos XV e XVI, os estudiosos medievais de Chartres, Paris, Orleães, etc., redescobriram os encantos das belas-letras e deram o máximo realce no ensino à leitura e à imitação dos clássicos latinos. Do ponto de vista educacional, o renascimento do século XII foi sobretudo literário e, graças ao aumento do saber por meio das traduções, também científico.

28. Pode aquilatar-se o conteúdo dos programas escolares nas escolas do século XII, ao se lerem as obras de João de Salisbury, de Pedro Abelardo, de Hugo de São Vítor e de tantos outros mestres dessa brilhante centúria. No Metalogicon (Lib. I, c. 24), o Saresberiense deixou-nos a descrição das aulas e do método didático de Bernardo de Chartres. Convém frisar, outrossim, que no século XII se publicaram várias enciclopédias de valor desigual, a saber, o Liber Floridus de Lambert de Saint-Omer, a Imago Mundi de Honório o Solitário, o Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum de Santa Hildegarda de Bingen, a Philosophia Mundi do chartrense Guilherme de Conches, o Liber de naturis superiorum et inferiorum de Daniel de Morlai, e o De naturis rerum de Alexandre Neckam [278]. Thorndike acha que esta pequena enciclopédia de Neckam não é propriamente uma dissertação científica ou filosófica mas um recurso para a formação moral, "but a vehicle for moral instruction" a que mal se atribuiria o nome de enciclopédia, mas cujas citações de autoridades oferecem o máximo interesse como, por exemplo, as referências aos livros de direito romano [279]. Ao falar das sete artes, Neckam recomenda-lhes o estudo e previne o leitor contra o seu abuso, asseverando que elas ornamentam e fortalecem a ciência, assim como os sete planetas iluminam o mundo [280].

29. A melhor fonte de informações a respeito das obras usadas no ensino durante o século XII acha-se na lista anônima de livros didáticos, Sacerdos ad altare, publicada por Haskins [281]. A lista contém os textos que já citamos a propósito do currículo no capítulo anterior, mas acrescida de vários outros títulos e apreciações. É interessante observar que o seu autor logo de início recomenda para iniciação à leitura latina a obra tão famosa na Idade Média e atribuída erroneamente a Catão, os Disticha Catonis, que ele reconhece, aliás, como "o compêndio que o vulgo diz ser de Catão" [282]. Esse livro do Pseudo-Catão, além de contribuir para o aprendizado do latim e para a educação moral, contém convites sugestivos para a dedicação ao estudo, tal como: "Trata de aprender e nunca deixes de estudar, pois a vida sem conhecimentos é imagem da morte." Ou ainda: "Aprende algo, pois, se a sorte mudar, a ciência permanece" [283].

30. Outra fonte valiosa para se saber dos livros usados no ensino de gramática e de retórica no século XII são o Accessus ad Auctores e o Commentarium in Theolum de Bernardo de Utrecht e o Dialogus super Auctores de Conrado de Hirsau, assim como os outros Accessus ad Auctores da época. O Accessus ad Auctores de Bernardo de Utrecht é uma pequena introdução à leitura dos autores cristãos e pagãos de língua latina onde figuram os escritores que já conhecemos e citamos como Ovídio, Lucano, Cícero, Catão, Sedúlio, Prudêncio, etc. Bernardo e Conrado de Hirsau, tal como os outros professores de letras do seu tempo, ao apresentarem a obra de um autor, indagavam qual o título, a intenção do autor, o assunto do livro, a parte da filosofia a que pertence e procuravam responder às perguntas tradicionais dos professores de letras: Quis, quid, ubi, quibus auxiliis, cur, quomodo, quando, indicando deste modo a ordem a ser seguida na explicação dos autores. É interessante notar que Bernardo de Utrecht no início do Accessus ad Auctores repete Cassiodoro, ao declarar que livro vem de livrar, liber dicitur a liberando, porque o livro nos livra do erro. No Diálogo entre mestre e discípulo, de Conrado de Hirsau, o Mestre também fala de livro e explica que se trata de termo equívoco, uma vez que designa o pergaminho tirado da casca da árvore ou o conjunto de proposições, histórias e comentários enfeixados num volume ou dictus est a liberando, isto é, vem de livrar, já que a pessoa entregue à leitura se livra das preocupações e compromissos do mundo [284]. Todavia, é preciso deixar bem claro que, além da lista de autores, Sacerdos ad altare, atribuída a Alexandre Neckam, as obras mais preciosas em informações sobre as matérias e os processos de ensino são o Didascalicon de Hugo de São Vítor e o Metalogicon de João de Salisbury. Nos próximos capítulos sobre as universidades e a escolástica completaremos o panorama aqui delineado da vida cultural e escolar do século XII.