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1. Em seu livro de título tão expressivo, A Grande
Claridade da Idade Média, Gustave Cohen proporciona
de modo sintético as informações mínimas hauridas na
história da literatura a respeito do florescimento
cultural do século XII. A época de 1050 a
1150, diz Cohen, constitui "o século das
gêneses", e o período de 1150 a 1200,
acrescenta, provoca "uma espécie de vertigem", quando
se leva em conta o desenvolvimento da filosofia, da
literatura, da arte, o advento da mulher e do amor
cortês, assim como o aparecimento da catedral com a ogiva
que exprime a ascensão indefinida para o céu [249]. O
termo tão significativo de "século das gêneses" só
veio confirmar categoricamente a consagrada expressão
cunhada por Charles Homer Haskins - que serviu de
título para o seu famoso livro - O Renascimento do
Século XII [250]. Quem estuda a história da
Idade Média percebe com meridiana clareza que o século
XII representa a confluência de toda a semeadura e de
toda a fermentação dos séculos anteriores no surgimento
da nova civilização medieval que chegará ao apogeu no
século XIII e no início do surto cultural do
Ocidente que nunca mais se deteve e se estendeu em linha
reta, desde a recuperação da ciência antiga até às
invenções e às descobertas da era atômica e espacial em
que estamos a viver.
2. Embora o nosso interesse esteja voltado
exclusivamente para as escolas e para a educação vigente
nessa época, vamos evocar em rápidos traços a sua
fisionomia que pode ser mais contemplada e conhecida
através de boas obras de história medieval e em livros
especializados como os que apresentamos na bibliografia
deste capítulo. Primeiro, assinale-se a progressiva
melhoria de vida desde o século XI na Europa
ocidental: o fim das invasões, a crescente aceitação
pelos nobres do espírito cristão, o estabelecimento da
trégua e da paz de Deus que contribuíram para a
concórdia entre as classes sociais; o arroteamento do
solo com o aperfeiçoamento dos instrumentos agrícolas, o
uso do machado de corte, a charrua de relha, a
ferradura, o moinho de água e a rotação das culturas:
semeadura das farinhas de inverno (trigo ou centeio),
dos cereais da primavera (aveia ou cevada) e o descanso
do alqueive. O resultado dessas novidades agrícolas foi
a alimentação mais segura e abundante e o aumento da
população. No século XIII surgirão principalmente
novas técnicas náuticas como o leme de cadaste, navios
maiores e mais rápidos, a bússola, o astrolábio e os
mapas marítimos. Em conseqüência da ressurreição do
comércio com o Oriente e das próprias Cruzadas que
suscitaram o gosto das especiarias, dos tecidos de luxo,
das frutas exóticas, das plantas de tinturaria, do ouro
e das gemas preciosas, reanimaram-se as cidades e
ativaram-se os portos, tal como na Itália as cidades de
Veneza, Pisa, Gênova, Florença, Siena e Milão
e os portos do mar Báltico: Bremen, Hamburgo,
Lübeck e Stettin que formariam no século XIII a
Hansa Teutônica, e ainda a região de Flandres no mar
do Norte com as cidades produtoras dos tecidos de lã, a
saber, Gand, Ypres e o porto de Bruges.
3. No décimo dia do Concílio de Clermont, a 27 de
novembro de 1095, foi anunciada a Primeira Cruzada
que marcou o início da série de expedições guerreiras
ao Oriente e que teve tantas repercussões políticas,
econômicas e culturais para a Cristandade. Apesar de
poucas terem alcançado algum êxito, e sobre haverem
muitos senhores acalentado sonhos de domínio e de
enriquecimento rápido, o fato iniludível é que
multidões de pessoas marcharam ao brado de "Deus o
quer", com a grande cruz vermelha cosida à espádua
direita e movidas por profundo espírito de fé. Nas
palavras com que o autor anônimo da História da
Primeira Cruzada reconhece a bravura dos guerreiros
turcos, transparece cristalina a sua religiosidade
ardente: "Eu direi a verdade que ninguém poderá
contestar. Por certo, se eles (os turcos) sempre
tivessem sido firmes na fé de Cristo e na santa
Cristandade e se quisessem confessar um só Senhor em
três pessoas realmente distintas, e o Filho de Deus
nascido de uma virgem, que sofreu e ressuscitou dentre os
mortos, que subiu ao céu à vista dos discípulos e
enviou a consolação perfeita do Espírito Santo, e se
acreditassem com fé e juízo reto que Ele reina no céu e
sobre a terra, não se encontraria quem se lhes
equiparasse em poder, em bravura e na ciência da guerra.
No entanto, com a graça de Deus foram vencidos pelos
nossos" [251]. Além de exprimir e afervorar o
espírito de fé, as Cruzadas detiveram o avanço dos
turcos seldjúcidas, determinaram a formação de Estados
cristãos no Próximo Oriente, incrementaram nessas
regiões a fabricação de tecidos de seda e de algodão,
o cultivo do algodão e da cana de açúcar e transferiram
o domínio dos ativos portos da Síria para os negociantes
de Veneza, Gênova e Marselha e, assim, contribuíram
para a ressurreição do comércio na Europa Ocidental.
4. A atividade comercial reanimou, por sua vez, a vida
urbana e incentivou o aparecimento de novas ocupações,
assim como a acelerada emancipação dos servos. A
economia agrária foi substituída pela de giro e surgiram
outras espécies de trabalhadores, além dos tradicionais
mercatores et artifices. Os comerciantes organizavam
caravanas bem armadas contra os eventuais assaltos dos
bandoleiros e constituíram associações permanentes que
se chamaram guildas, hansas e fraternidades, tal como a
hansa dos mercadores de água formada pelos barqueiros do
Sena em Paris. Em vários locais da Europa os
comerciantes reuniram-se para a venda dos seus artigos nas
feiras em que adquiriram prestígio os cambistas e os
banqueiros judeus e lombardos. No tempo de inverno, e
para fugir às intempéries durante as longas viagens, os
comerciantes buscavam abrigo sob as muralhas do castelo,
da antiga cidade ou do mosteiro, mas sempre perto das
estradas e dos rios. Os negócios suscitavam novos
empregos e a essas novas cidades comerciais acorriam
bateleiros, carroceiros, carregadores, padeiros,
açougueiros, tanoeiros, tecelões, oleiros,
marceneiros e camponeses alforriados ou fugidos da
servidão da gleba. Logo a nova cidade se fortificou com
muralhas e surgiu o burgo, tal como em Bruges, Gand,
Florença, Milão, Gênova, com as suas ruas
estreitas, tortuosas e lamacentas, casas de madeira e com
o perigo e a constante ameaça de peste e de incêndio.
Logo, também, a burguesia forcejou por escapar ao
guante dos senhores em cujos domínios se localizava o
burgo. Muitos burgueses eram servos fujões que desejavam
a liberdade de ir e vir, assim como uma justiça
consentânea com o comércio. O burguês é o homem da
cidade nova, enquanto no campo vivem o nobre e o
camponês, exceto em certas regiões da Itália, na
Toscana e em Pádua, onde a pequena e a média nobreza
se estabeleceram de giro. Os burgueses, sujeitos na
cidade e dominaram a economia às inúmeras exações dos
nobres, procuravam livrar-se das taxas excessivas,
fazendo um só pagamento anual ao senhor. Começaram,
então, a surgir nas cidades as associações de ajuda
mútua, as comunas, depois de várias insurreições
urbanas no norte da Itália, no vale do Reno e na
França do Norte. Em troca de um tributo em dinheiro e
da promessa de ajuda militar, os senhores passaram a
reconhecer a liberdade dos burgueses num documento, a
Carta, que sacramentava a nova situação administrativa
da cidade que podia eleger os seus magistrados e manter às
suas custas a milícia, assim como possuir bandeira e
selo. A Carta outorgada aos burgueses de Saint-Omer
em 1127, por exemplo, reconhecia a cidade como
território autônomo, com a administração da justiça e
o governo independentes dos senhores. O movimento das
comunas ganhou o norte da França, os centros comerciais
do Reno na Germânia, tal como Mogúncia e Colônia,
e surgiu na Espanha com os Consejos criados por
intervenção do rei que concedia a confratria ou pela
iniciativa dos burgueses unidos na hermandad. As comunas
italianas tiveram caráter original, pois o campo
integrava-se na cidade, e surgiram verdadeiras
cidades-estados, enquanto na França, por exemplo, na
cidade permaneciam o bispo e o seu clero, os
comerciantes, os artesães, enfim, os burgueses, já
que os nobres permaneciam nos seus castelos no campo onde
os cavaleiros pobres nutriam crescente rancor contra os
ricos barões que tratavam de obter cada vez mais dinheiro
por meio da cobrança de pedágios de estradas e pontes,
do arrendamento de terras e da venda da emancipação aos
servos. E, se Otão de Freising, cronista
cisterciense e parente do imperador, lamenta nos Gesta
Friderici I imperatoris o hábito de as cidades italianas
elevarem artesãos às dignidades de cavaleiros ou chefes
[252], o francês Guibert de Nogent não lhe fica
atrás ao declarar no início do século XII:
"Comuna, nome novo ou melhor, péssimo" [253].
5. Concomitantemente com o renascimento do comércio,
iniciou-se o arranco da indústria artesanal que se
desenvolveu em pequenas oficinas onde conviviam os
trabalhadores profissionais, os companheiros, com os
aprendizes. Cada ofício tinha a sua corporação de
auxílio mútuo com o seu santo protetor e as suas
festividades religiosas. É interessante notar, através
de um romance versificado escrito para o divertimento dos
nobres, que na indústria dos tecidos já existia a
exploração dos companheiros pelos comerciantes
ambiciosos. Assim, no romance Yvain ou Le Chevalier
au lion queixam-se as tecelãs:
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"Teceremos sempre panos de seda
mas nunca estaremos bem vestidas.
Sempre estaremos pobres e nuas
e sempre teremos fome e sede..." [254].
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6. Por outro lado, transformava-se o gênero de vida
dos nobres. O cavaleiro, além da bravura e da perícia
nas armas e na luta, devia distinguir-se pela
"cortesia", um conjunto de virtudes sociais que lhe
permitisse tratar com lhaneza os seus pares, os superiores
e os inferiores, mas especialmente as damas. No sul da
França, na Provença, nasceu a literatura dos
trovadores que cantavam as proezas guerreiras e os encantos
do amor cortês [255]. Aliás, como ensinam Nelli e
Lavaud, cumpre distinguir no século XII o amor
cavaleiresco do amor cortês. O amor cavaleiresco surgiu
em primeiro lugar e foi o resultado da idealização da
mulher pela aristocracia guerreira. De acordo com o amor
cavaleiresco, o homem consegue o favor das damas por meio
de proezas. O cavaleiro faz questão de ser leal e fiel
à sua dama, mas quer levar o amor até à consumação
carnal. O amor cortês, ao contrário, de origem
provençal, surgiu na primeira metade do século XII e
requeria que a amante fosse casada e de nível social
superior, o que o tornava teoricamente platônico.
Tratava-se de paixão de poeta e de homem gentil que
obtinha da amada, quando muito, a recompensa de um beijo
ou de outros pequenos favores. Por isso, o amor cortês
é galantaria e fineza, mas amor impossível e
desesperado. Como cantou mais tarde um dos seus maiores
teóricos, Guilhem Montanhangol (1233 - 1258 ):
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"Sim, eles devem servir ao Amor
de todo o coração, eles, os Amorosos.
Pois o amor não é pecado
mas virtude que torna bons os maus
e melhores os bons.
Ele põe o homem no caminho de sempre fazer o bem,
do Amor procede Castidade.
Quem nele põe seu pensamento
jamais pode agir por mal" [256].
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7. É preciso ressaltar devidamente o desenvolvimento no
século XII das formas de vida corporativa, pois a
corporação é uma instituição social, podemos dizer
uma estrutura, que irá caracterizar essencialmente o novo
tipo de escolas da Europa Ocidental, ou seja, as
Universidades. Assim como os comerciantes se reuniram em
associações para a ajuda mútua, assim os artesãos o
fizeram, de modo que os trabalhadores do mesmo ramo viviam
no mesmo quarteirão ou bairro, compartilhavam as
técnicas de que faziam segredo e auxiliavam-se
mutuamente. Surgiu desse modo a corporação de ofício,
fraternitas ou schola em latim,
métier em francês,
craftgild ou mistery em inglês,
arte em italiano, Amt
ou Zunft em alemão. A corporação congregava os
trabalhadores das oficinas em que se praticava o mesmo
ofício e eles cuidavam, também, das vendas. O patrão
era. o mestre, os trabalhadores auxiliares eram oficiais
e os principiantes eram aprendizes. Só na Itália quase
não havia oficiais devido à profusão de oficinas e lojas
com o serviço exclusivo de patrões e aprendizes. Havia
corporações de ourives, prateiros, açougueiros,
tintureiros, curtidores, ferreiros, metalúrgicos,
pedreiros, etc. Elas exerciam verdadeiro monopólio
quanto à fabricação dos produtos ou à prestação de
serviços. Regulamentavam o trabalho, o salário e os
preços. Com esse mesmo espírito iriam formar-se no
decurso do século XIII as corporações de estudantes
e mestres em várias partes da Europa. Como diz
Oliveira Marques - e essa informação para nós
brasileiros é deveras interessante - em Portugal até o
século XIV não apareceu o sistema corporativo, pois,
afora a produção de alguns artigos para o consumo local,
"não existia transformação de matérias-primas, feita
em Portugal". Os artesãos, nos inícios da
nacionalidade, não passavam de barbeiros, ferreiros,
alfaiates, sapateiros, pedreiros, carpinteiros,
padeiros, carniceiros, pescadores e outros. As
corporações não surgiram antes do fim da Idade Média
devido à forte intromissão do rei e dos concelhos na vida
dos trabalhadores e ao papel desempenhado pelos pequenos
proprietários camponeses. Por isso, os artesãos
lusitanos só contaram com as confrarias religiosas [257].
8. A esta altura, para dissipar preconceitos e lendas,
convém chamar a atenção para a corporação dos
pedreiros-livres. Em francês pedreiro diz-se maçon.
A sua corporação era a maçonnerie que tinha segredos
profissionais como as outras, particularmente quanto à
localização de pedreiras donde se retirava o material
imprescindível às belas realizações da estatuária. A
pedra maleável que não oferecia empeços ao escultor,
pierre franche, deu origem à qualificação do pedreiro
livre, franc-maçon [258]. Essa maçonaria medieval,
operativa e católica, nada tem a ver, exceto o nome,
com a maçonaria moderna. Ela era uma corporação de
ofício de fins caritativos e econômicos e profundamente
católica, composta só de trabalhadores, membros
operativos. No começo do século XVIII ela se
transformou por completo, ou melhor, foi substituída por
outra associação que conservou o título e a nomenclatura
dos pedreiros-livres medievais, mas com caráter
completamente diferente. Os construtores das catedrais,
os pedreiros e os canteiros medievais eram cristãos e
filhos devotados da Igreja. No século XVIII, no
entanto, a maçonaria foi protestantizada pelos pastores
Anderson e Désaguliers que redigiram as
Constituições da Grande Loja da Inglaterra e,
conforme Renê Guénon, fizeram desaparecer os antigos
documentos que atestavam a catolicidade da corporação.
Os dois pastores, segundo Berteloot, pretenderam e
conseguiram fazer da maçonaria "a ordem terceira do
protestantismo" [259].
9. Certa animosidade entre as classes sociais começou a
refletir-se na literatura. No século XII cresce a
elaboração de obras em vernáculo e, de 1174 a
1205, foi composta a melhor parte do vasto romance
francês Roman de Renart que, segundo Élie Decahors,
de início foi apenas uma epopéia animal e depois veio a
ser alegoria, sátira social, moral e símbolo
filosófico. Como sátira, o Roman de Renart atinge,
através dos crimes do lobo, da crueldade do leão, da
estupidez do asno e das proezas duvidosas da raposa, os
barões, os reis, os clérigos e os monges. A raposa
encarna a hipocrisia e representa um aspecto permanente do
ser humano [260].
10. Durante o século XII ocorreram, outrossim,
marcantes acontecimentos religiosos que passamos a indicar
de modo sumário. No século XI a Igreja empreendeu a
reforma dos costumes e da mentalidade por meio da
renovação monástica de Clúnia e da ação decidida e
eficaz de papas reformadores como Leão IX
(1048-54), Alexandre II (1061-73) e o
extraordinário Gregório VII (1073-85 ) que
defendeu a supremacia do poder espiritual sobre o
temporal, o poder absoluto do Papa na área dos negócios
eclesiásticos e, por isso, enfrentou com denodo a luta
das investiduras, uma vez que os leigos, príncipes e
barões, costumavam interferir nos assuntos eclesiásticos
e tinham a pretensão de escolher os dignatários da
Igreja. A partir de Gregório VII surgiu a idéia da
Christianitas, a comunidade dos povos cristãos sob a
orientação suprema do Papa [261].
11. No século XII apareceram, também, várias
heresias como a dos cátaros ou albigenses, dos
petrobrusianos, passágios e valdenses, e as que foram
divulgadas por Tanquelmo e Eudo de Stella. Em
compensação, houve admirável florescimento monástico
com a reforma beneditina que fez brotar do velho tronco as
novas ordens de Grandmont, Fontevrault e de Cister, e
novos mosteiros como o de Hirsau na Floresta Negra,
sobre terem sido criadas novas instituições do clero
regular como a ordem dos Premonstratenses de São
Norberto, a dos severos Cartuxos de São Bruno de
Colônia, as ordens hospitalares e caritativas dos
Hospitalários de Santo Antão, dos Humilhados da
Lombardia, dos Irmãos da Ponte, confraria de leigos
que construíam e conservavam as pontes, assim como
alojavam os viajantes. Relevo especial merecem as ordens
militares dos Joanitas ou Hospitalários, 'a dos
Templários e a Ordem Teutônica. Além da
originalidade destas últimas, ordens de cavaleiros que
defendiam os lugares santos, acometiam os muçulmanos,
protegiam os peregrinos e assistiam os doentes,
destacaram-se de modo particular os Premonstratenses
que, ao contrário dos monges tradicionais voltados mais
para a própria santificação e a contemplação da
divindade, tiveram como um dos seus principais objetivos a
pregação e a cura de almas, isto é, o serviço do
próximo por meio do exercício do ministério pastoral e
do cuidado das paróquias [262]. Por fim, note-se que
durante o século XII a cavalaria assumiu caráter
religioso com a introdução de um verdadeiro rito para a
"ordenação" do cavaleiro em que as peças do
vestuário, o banho, as bênçãos e os gestos se
impregnaram de sentido místico. Como ensina Marc
Bloch, ninguém "se torna" mais cavaleiro, mas
"ordena-se", e o novo cavaleiro após a sua
ordenação, o adoubement, não é mais um simples
guerreiro que combate a cavalo, mas "um homem de honra e
de dever que protege os fracos e encarna as virtudes
cristãs" [263].
12. Várias são as expressões equivalentes com que se
designa a atenção dada ao estudo das letras, da
filosofia e das ciências no século XII. A metáfora
usada por Wolff é sugestiva, embora possa levar a passo
em falso na apreciação dos acontecimentos: l'éveil
intellectuel de l'Europe, o despertar intelectual da
Europa. Trata-se de metáfora sugestiva, porque
inculca o início de vera marcha intelectual e cultural,
da fundação e do surto de escolas, da gênese das
universidades, do início do ensino da filosofia que
reapareceu brilhante no currículo das escolas urbanas, do
fascínio que despertou em muitas pessoas o contato com as
obras científicas dos autores antigos e muçulmanos.
Contudo, essa figura de linguagem pode induzir o
estudioso à apreciação errônea dos acontecimentos,
pois a Europa não esteve adormecida intelectualmente nos
primeiros séculos medievais, mas bem acordada - noutra
metáfora mais sensata - como a criança ativa que emite
os primeiros vagidos, uma vez que na Idade Média
começou a nascer e a desenvolver-se a Europa
Ocidental. Por outro lado, como diz Bergson, e
podemos comprovar, "dormir é desinteressar-se".
Ora, os estudiosos na primeira parte da Idade Média
não perderam o interesse pela filosofia nem a
menosprezaram, simplesmente porque a desconheceram, pois
o seu estudo sistemático já não se ministrava nas
escolas no fim do mundo antigo. Por conseguinte, durante
o século XII, o que ocorreu foi, de fato, o início
na Europa do estudo orgânico da filosofia. E a
reflexão filosófica beneficiou-se com o aparecimento em
latim dos textos dos filósofos gregos e muçulmanos, de
modo que ela se exerceu através dos comentários e, logo
mais, de obras criativas e originais, tal como esplendeu
nas cátedras universitárias do século XIII. E com
a ciência passou-se o mesmo, já que os europeus puderam
pela primeira vez estudar a sério as obras que
constituíam o legado antigo nos vários campos da
matemática e das ciências naturais, máxime nas áreas
da medicina, da astronomia e da física. Falando,
pois, com propriedade, não houve um "despertar
intelectual da Europa" mas gênese, impulso e início
solene da vida intelectual européia, que já fora
preparada pela atividade silenciosa mas construtiva e
ardente dos estudiosos que amavam e cultivavam as letras no
remanso dos claustros durante a primeira idade Média.
13. Do ponto de vista da história da filosofia, os
dois fatos mais salientes foram a tradução e o estudo das
obras aristotélicas, e dos seus comentadores
muçulmanos, e a sua aplicação às crenças religiosas,
o que deu origem à teologia escolástica, à ciência
sagrada em que as proposições em que se exprime a
Revelação foram submetidas à análise crítica e ao
enquadramento conceptual nas categorias da lógica, e a
argumentação religiosa passou a ser conduzida segundo os
cânones da silogística. Ao mesmo tempo em que se
constituía a teologia, formava-se a filosofia
escolástica de que falaremos noutro capítulo. Os
pioneiros dessa revolução cultural e os pais da
Escolástica foram Santo Anselmo de Cantuária e Pedro
Abelardo. No tocante às tradições, primeiro
passou-se para o latim toda a obra lógica de
Aristóteles dos tratados de metafísica, e, pouco a
pouco, surgiram as versões psicologia, ética, ciência
natural e política. Essa introdução gradual dos
escritos aristotélicos no âmbito particular do estudo e
no currículo escolar provocou, com efeito, verdadeira
revolução intelectual [264].
14. Fato curioso e interessante é que, junto com o
entusiasmo pelo novo saber, e com o aparecimento de
humanistas, eruditos e cultores das ciências, se
manifestou em certas pessoas o desejo de abreviar o curso
escolar, devido à mera ambição de diplomas para o
rápido ingresso em carreiras lucrativas. Assim foram os
cornificianos que João de Salisbury fustigou implacável
no início do Metalogicon, a obra em que o fino humanista
inglês defendeu o estudo metódico das disciplinas do
trivium.
15. A volta do ano 1141 todo o Organon (conjunto
dos seis escritos lógicos de Aristóteles) apareceu no
Heptatheucon de Teodorico de Chantres, exceto os
Analíticos Posteriores que existiam na tradução antiga
e adulterada atribuída a Boécio. Jacó de Veneza
traduziu essa obra do grego para o latim e até o fim do
século foram feitas outras duas traduções. Otão de
Freising, que estudou em Paris, introduziu-a na
Germânia. Teodorico de Chantres no prólogo do
Heptatheucon exprimiu a sua concepção do saber e do
papel das artes liberais. Ele afirma que os dois
instrumentos básicos do filosofar são a reflexão ou
compreensão intelectual e a expressão adequada. Ora,
quanto à primeira, o quadrívio ilumina o intelecto e,
quanto à segunda, o trívio permite a manifestação
conveniente e elegante do pensamento [265].
16. Os principais centros de traduções no século
XII foram Toledo e Sicília, embora fossem feitas
traduções em Pisa, Barcelona, Tarragona,
Segóvia, Leão, Pamplona, Toulouse, Béziers,
Narbona e Marselha. Uma indicação da sede geral de
conhecimentos está na variada procedência dos tradutores
que procuravam a "terra aliena", a fim de progredir no
saber. Em Toledo, onde no século XII a língua
comum dos cristãos moçárabes era o árabe, surgiu um
verdadeiro centro de tradutores em torno do mecenas das
letras e das versões, Dom Raimundo, arcebispo de
Toledo (1126 a 1152) que fora antes bispo de
Osma. O arcebispo letrado aproveitou os cristãos que
liam e entendiam os livros árabes, punha-os em contato
com os clérigos sabedores de latim e, desse modo,
surgiam as traduções do texto árabe em latim fluente
[266]. Os tradutores que acorriam a Toledo eram
ingleses como Adelardo de Bath, Roberto de Chester,
Daniel de Morley, Alfredo de Sareshel; alemães como
Hermann Contractus, da abadia de Reichenau; lombardos
como Gerardo de Cremona; toscanos como Burgúndio,
Hugo e Leão de Pisa; dálmatas como Hermann da
Caríntia; flamengos como Roberto de Bruges;
espanhóis como Hugo de Santalla, Domingos González
ou Gundissalvo; judeus convertidos ao Cristianismo como
João de Sevilha (Avendeut, Aven Daud ou
Avendar), Pedro Afonso e outros. "As traduções da
obra de Avicena e Averróis, ensina Menéndez Pelayo,
espalhavam-se em numerosas cópias pelas escolas da
França e da Alemanha onde eram lidas com avidez e, por
vezes, engendravam heresias e revoltas. Daí Paris e
Toledo resumirem o movimento das idéias no século
XII"[267].
17. Outro centro reluzente das traduções no século
XII foi a Sicília, ponto de encontro das culturas
latina, bizantina e muçulmana. Lá, no tempo de
Rogério II, a Óptica de Ptolomeu foi traduzida por
Eugênio, o Emir e, mais tarde, sob Frederico II,
Miguel Escoto e Teodoro de Antioquia verteram para o
latim obras árabes de zoologia. Na Sicília
traduziram-se importantes obras científicas de
Aristóteles, Hipócrates, Galeno, Ptolomeu, A1
Khwarizmi, Avicena e outros. Além disso, como
observa Crombie, na Sicília não só foram feitas
traduções do árabe como apareceram, também, as
primeiras obras traduzidas diretamente do grego. A partir
do fim do século XII até o fim do XIII,
diminuíram as traduções diretas do grego a favor das
obras traduzidas do árabe e no século XIV terminaram
praticamente as traduções do árabe, quando os mongóis
invadiram a Mesopotâmia e a Pérsia. Outro fato
saliente ressaltado por Crombie foi que certas obras foram
traduzidas em língua popular, especialmente para o
italiano, o castelhano, o francês e o inglês, máxime
as obras de Aristóteles que deslocaram o eixo do
interesse pedagógico das letras para a filosofia e as
ciências. Graças aos árabes divulgaram-se no
Ocidente a astronomia de Ptolomeu e a trigonometria que a
acompanhava, vários instrumentos aperfeiçoados de
observação científica, mapas celestes e marítimos.
Os árabes também contribuíram de modo notável para a
divulgação da ciência médica de Hipócrates, Galeno
e das enciclopédias de Haly Abbas (+994),
Avicena (980-1037) e Rhazés (+ cerca de
924). A contribuição mais importante dos sábios
muçulmanos foi quanto à óptica e à perspectiva com os
estudos de Al-Kindi (+ cerca de 873) e Alhazen
(cerca de 965-1039) a promover grande avanço em
relação às obras de Euclides, Herão e Ptolomeu.
Em matemática os árabes não foram propriamente
originais e divulgaram o pensamento matemático da índia
nos domínios da aritmética e da álgebra. Assim,
através dos árabes, puderam os cristãos tomar
conhecimento do sistema de numeração no qual o valor de
um algarismo depende da sua posição (unidade, dezena,
centena, etc.), do uso do zero, da extração das
raízes quadradas e cúbicas, da resolução de equações
determinadas e indeterminadas de 1. e 2. graus, etc.
Esses conhecimentos procediam dos matemáticos hindus
Aryabhata, nascido em 476 d.C., Brahmagupta,
nascido em 598 d.C., é Bhâskara nascido em
1114. Durante o século XII o sistema de
numeração hindu penetrou aos poucos no Ocidente,
juntamente com a contribuição dos árabes sobre a
alquimia, a magia e a astrologia. Os árabes não tinham
intenção meramente teórica no campo da ciência, mas
visavam ao dominio da natureza e daí a importância que
deram à alquimia que lhes permitiria descobrir "o Elixir
da vida longa, a Pedra Filosofal, o Talismã, a
Fórmula do poder e as propriedades mágicas das plantas e
dos minerais". Uma vez que eles achavam as causas
"ocultas" capazes de produzir fenômenos físicos, não
faziam distinção entre as ciências da natureza e a magia
ou o ocultismo [268].
18. O século XII foi a grande época da
introdução das obras de Aristóteles no Ocidente.
Para se fazer idéia disso, consultem-se as listas das
traduções, apresentadas na obra de Crombie. De
Platão só se conhecera até esse tempo uma parte do
Timeu na tradução de Calcïdio. Foi Aristipo,
arcediago de Catânia (+ 1152), quem traduziu o
Menão e o Fedão, e mais,
os Meteorológicos, o Da
geração e da corrupção de Aristóteles, assim como a
Mecânica de Herão de Siracusa, a Óptica e a
Catóptrica de Euclides, o
Almagesto de Ptolomeu; e
parece ter iniciado a tradução das obras de São
Gregório Nazianzeno e de Diógenes Laércio.
Burgúndio de Pisa (+ 1193) traduziu os
Aforismos de Hipócrates, numerosas obras de Galeno, a
Fé Ortodoxa de São João Damasceno, muitas
Homilias de São João Crisóstomo, o Comentário
sobre Isaías, de São Basilio, e o tratado Sobre a
natureza do homem, de Nemésio de Emesa. No século
XIII prosseguiram as traduções de obras filosóficas
e científicas que aumentaram o patrimônio dos livros
gregos e árabes traduzidos com entusiasmo no decurso do
século XII, seja do árabe seja diretamente do grego.
O famoso Domingos González ou Gundissalvo traduziu os
quatro primeiros livros da Física de Aristóteles, os
quatro livros da obra De caelo et mundo, os dez primeiros
livros da Metafísica, o tratado Das ciências de
Alfarabi, o De anima de Avicena, a Filosofia de
Al-Gazâli, o Fons Vitae de Avicebrão ou Ibn
Gabirol, as obras de Alkindi e o famoso texto
neoplatônico, o Liber de Causis.
19. Passamos agora a examinar os tipos de escolas
existentes no século XII limitando-nos, porém, aos
estabelecimentos de nível elementar e médio, com algumas
alusões aos centros de estudos teológicos, pois
voltaremos ao assunto no próximo capítulo sobre as
universidades. Depois do conspecto geral do século
XII, podemos avaliar com mais segurança e descortino o
panorama escolar dessa época de transformação social,
de renascimento urbano e cultural. O primeiro fato
alcantilado foi a diminuição da importância das escolas
monásticas, mas na qual os próprios monges apostaram, e
o revigoramento e o prestígio crescente das escolas
urbanas, máxime as episcopais e as capitulares. Embora
em toda catedral a escola fosse atendida pelos cônegos,
havia também cabidos em outras igrejas que não eram
catedrais. Isso ocorreu naturalmente devido ao progresso
e à animação da vida nas cidades que atraíam cada vez
mais a população do campo, enquanto os mosteiros, que
haviam sido os centros culturais da fase estritamente
agrária da primeira Idade Média, passaram a
contentar-se, após as reformas de Clúnia e de
Cister, com as escolas internas destinadas exclusivamente
aos candidatos à vida monástica. Além disso, os
monges deviam enfrentar e resolver dois problemas.
Primeiro, urgia afastar das suas escolas e dos seus
cenóbios os jovens aleijados e deficientes que os nobres
costumavam empurrar para os claustros, como se estes
fossem asilos de inválidos. Em segundo lugar, os monges
eram avessos às novidades filosóficas e teológicas e
distinguiam-se pelo seu acendrado tradicionalíssimo. Um
estudante monástico de teologia, após o estudo das artes
liberais, e além das conferências do abade, de regra
fazia o seu aperfeiçoamento teológico por meio da leitura
da Bíblia e dos Santos Padres, assim como através das
suas meditações. Por isso, quando um mosteiro, por
exigência dos aristocratas, precisava manter uma escola,
o abade costumava contratar um clérigo para dirigi-la ou
para lecionar. Ademais, os monges continuavam a apreciar
e a estimar os livros e a copiá-los nos escritórios,
mas a existência de biblioteca num mosteiro não implicava
a de uma escola interna.
20. Nas cidades o ensino corria por conta dos clérigos
diocesanos, dos cônegos regulares e dos mestres
agregados. Os clérigos diocesanos eram os cônegos das
catedrais ou das colegiadas, os sacerdotes, diáconos ou
clérigos das catedrais e paróquias, e os mestres
agregados que eram simples clérigos (não recebiam ordens
sacras, mas só a tonsura, sinal da sua inclusão no
serviço da Igreja) com licença de ensinar dada pelo
Escolástico, o cônego que servia de secretário da
educação do bispado. Os cônegos a serviço da catedral
eram sacerdotes diocesanos ou seculares, sem vínculo com
nenhuma ordem religiosa, que prestavam serviços à igreja
do bispo, recitavam o Ofício em comum, podiam viver
juntos e tinham uma prebenda, isto é, uma função
administrativa com a devida côngrua ou renda fixa. O
conjunto dos cônegos formava o Capítulo ou Cabido.
Havia igrejas que, sem serem catedrais, tinham um
cabido. Eram as Colegiadas. Ora, tanto nas catedrais
havia escolas - as episcopais - como nas colegiadas e nas
paróquias urbanas e rurais. Geralmente o clero das
igrejas mais importantes constituía um Capítulo e
administrava colegialmente as grandes paróquias. Os
cônegos regulares, como os Premonstratenses, eram
verdadeiros religiosos com os três votos de pobreza,
castidade e obediência e seguiam a Regra de Santo
Agostinho. Desde o início da Ordem, assumiram o
encargo de escolas. Entre as várias congregações
canônicas distinguiu-se no campo do ensino a dos
Cônegos Vitorinos. A congregação de São Vítor
foi estabelecida por Guilherme de Champeaux, cônego de
Notre-Dame em Paris, onde ensinara dialética. Após
a sua morte, a congregação já contava quarenta e quatro
casas na França, na Escandinávia e na Itália. Em
Paris eles dirigiram a escola do mosteiro de São Vítor
e a da colegiada de Santa Genoveva. Davam grande
importância ao ensino das artes liberais e redigiram
notáveis tratados pedagógicos. Hugo de São Vítor é
o autor do famoso Didascalicon, manual de pedagogia;
Ricardo de São Vítor escreveu uma obra para o ensino
da teologia, Excerptiones, e Godofredo de São Vítor
redigiu em versos a Fons Philosophiae em que resumiu a
doutrina de Hugo e de Ricardo. Hugo também compôs uma
verdadeira suma teológica, De sacramentis, tratado
sistemático de teologia de feitio tradicionalista.
21. A licentia docendi, isto é, a permissão oficial
para ensinar, só podia ser concedida pelo chanceler do
bispado, o scholasticus, que respondia pelos negócios da
educação na área da jurisdição diocesana. Na
Historia Calamitatum Mearum apreciamos o vaivém de
Abelardo para conseguir, depois de já lecionar na sua
própria escola, a licença para ensinar de modo
autorizado e oficial.
22. As escolas episcopais, destinadas primeiramente à
formação de sacerdotes, distinguiram-se no ensino das
artes liberais e da teologia, mas não eram do mesmo tipo
e do mesmo estofo em toda a Europa. O que notabilizava
muitas delas era o brilhante corpo de mestres de que muitas
vezes dispunham, mas que nem todas tinham a ventura de
possuir. Uma vez que elas eram dirigidas pelos cônegos
diocesanos, também eram chamadas de escolas capitulares.
Uma escola episcopal podia rebrilhar intensamente algum
tempo devido a um mestre famoso e, depois, mergulhar na
penumbra da rotina. No começo do século XII Anselmo
ilustrou a escola de Laon com o ensino da teologia e
Abelardo desacreditou-o na sua carta autobiográfica. A
escola episcopal de Notre-Dame em Paris ficou famosa
graças a Guilherme de Champeaux de 1103 a 1108,
e a Abelardo de 1108 a 1113. Angers
celebrizou-se com o magistério de Geoffroy Babion e
Ulger; Reims com Alberico; Auxerre com Gilberto, o
Universal; Bourges com Joscelin de Vierzy;
Cantuária com Teobaldo e João de Salisbury, etc.
As escolas episcopais também se notobilizaram em certa
época devido à sua especialização em determinado ramo
de ensino [ ? ]. No início do século XII
Angers, Orleães, Meungsur-Loire e Tours, foram
centros de cultura poética. Depois de 1140,
Orleães cobriu-se de glória com o ensino da gramática
e da retórica e no século XIII com a sua escola de
direito. Bolonha consagrou-se perante a opinião
européia com a sua escola de direito, e a medicina foi a
glória de Salerno e Montpellier [269]. Chartres
resplandeceu com merecida fama pelo ensino das ciências e
da matemática. Foi a cidadela do quadrivium com os seus
ilustres mestres: Bernardo de Chartres, Guilherme de
Conches, Teodorico que comentou o Timeu de Platão,
as Categorias de Aristóteles, e redigiu o manual das
sete artes, o Heptatheuchon e, finalmente, João de
Salisbury e Gilberto de la Porrée. O prestígio
invejável de Paris assentou-se no ensino da dialética e
da teologia. Observe-se, ainda, que certas cidades se
tornaram, no século XII, centros absorventes do
ensino, atraindo mestres e alunos da Europa inteira.
Assim foram Paris na França e Bolonha na Itália.
Em Paris, Abelardo era bretão, Adão da Ponte
Pequena, Roberto Pulleyn e Roberto de Melun eram
ingleses, Pedro Lombardo era italiano e Teodorico e
Gilberto de Ia Porrée trocaram Chartres pelas margens
do Sena. No século XIII corria mundo o adágio de
Jordão de Osnabrück no Tractatus de Translatione
Imperii ou De Praerogativa Romani Imperii: "Os
italianos têm o Papado; os germanos, o Império, e os
franceses têm o Ensino."
23. Continuamos a adiantar algumas observações sobre
as escolas do século XII, pois muitos pontos de
capital importância no ensino da época serão examinados
no capítulo consagrado à Escolástica. Scholae era o
nome do estabelecimento escolar, ainda que só constasse
de uma sala. No mosteiro as aulas eram dadas no
auditorium e nas escolas episcopais eram ministradas no
claustro dos cônegos, quando ele existia ou, então,
num lugar qualquer, e até mesmo ao ar livre, como o fez
Abelardo. Scholae publicae eram as classes abertas aos
clérigos seculares ou regulares. Scholae privatae eram
as escolas dos mosteiros. Scholas constituere era abrir
escola ou curso e scholarum regimen vinha a ser a direção
da escola. Scholis praesidere, vacare ou
regere, era
estar à frente de uma escola. A regimine scholarum
cessare era deixar de manter escola. Magisterium
significava o direito ou a função de ensinar, bem como a
ciência comunicada pelo mestre ou a própria disciplina do
ensino. Clerici, por fim, era o termo que jurídica e
socialmente designava os estudantes ou scholares [270].
24. Em Portugal houve muitas colegiadas. Assim, a
de Nossa Senhora de Oliveira de Guimarães com um
mestre de gramática. Em Coimbra as colegiadas de São
Pedro, São Cristóvão, São João de Almedina,
Sant'Iago, e do Salvador, e a de São Martinho de
Cedofeita no Porto. Destacavam-se no ensino os
Cônegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra e de São
Vicente de Fora em Lisboa e a de São Jorge, perto de
Coimbra. As escolas episcopais da província da
Lusitânia remontam às prescrições do concílio de
Mérida em 666. A escola episcopal de Braga foi
criada pelo bispo D. Pedro em 1070, a de Coimbra
data do século XI também e a de Lisboa surgiu após a
sua conquista aos mouros depois de 1147.
25. Devido à expansão das cidades e à constituição
dos grêmios ou corporações de ofícios, começaram a
surgir as escolas profissionais durante o século XII.
O menino que se destinasse a um ofício passava a morar
com o patrão e fazia de aprendiz por muitos anos,
inteirando-se aos poucos da técnica e dos segredos da
profissão. Geralmente um aprendiz de pedreiro, por
exemplo, era iniciado no ofício pelo pai, por um irmão
ou tio. Ele se iniciava no manejo dos instrumentos e
realizava tarefas sob a supervisão do patrão, convivia
com outros respeitáveis mestres do ofício e até mesmo
viajava, afim de conhecer as grandes realizações
arquitetônicas das cidades e dos castelos. Shelby, num
excelente artigo sobre esse tema, confessa combater duas
atitudes enganosas e graves quanto ao ofício do pedreiro
medieval. A primeira é a convicção de muitas pessoas
de que teria existido na Idade Média "o segredo do
pedreiro" à espera de ser decifrado hoje na arquitetura
medieval. Isso não passa de futilidade, diz Shelby,
pois os segredos dos pedreiros, como os dos trabalhadores
de outros grêmios, referiam-se às habilidades
técnicas, às opiniões e decisões atinentes ao ofício
e de que os membros da corporação pretendiam ter o
monopólio [271]. Gimpel confirma tal asserto, ao
declarar que o mestre do ofício exigia dos seus operários
que não revelassem, por exemplo, a proporção dos
vários elementos que entravam na composição da argamassa
e do gesso ou o modo de reconhecer a direção das
pedreiras e o tipo das pedras. O termo "segredo" nesse
caso não procederia, portanto, já que se tratava
simplesmente de pedir reserva quanto aos truques
profissionais. Ele acrescenta, ainda, que "os
construtores das catedrais da França ou da Inglaterra
jamais precisaram de apertos de mão ou de sinais secretos
para se reconhecerem", pois esse costume nasceu na
Escócia na Idade Moderna [272]. A outra atitude
enganosa a que alude Shelby é a de certos historiadores
que tendem a interpretar a arquitetura medieval
primeiramente segundo a estrutura intelectual e cultural
dos patronos da arquitetura, sem dar a devida atenção ao
ponto de vista dos artesãos que, de fato, executaram a
obra. Depois de aprender a ler numa escola de
gramática, o aprendiz inglês de pedreiro adquiria vastos
conhecimentos, mas a sua ciência não se obtinha nas
universidades nem nos livros, já que era fruto da
tradição que passava de mestre para aprendiz.
Lembre-se o que Valafrido Estrabão registrou sobre o
assunto no seu Diário de um Estudante, ao observar que
os monges se iniciavam na escultura numa ala especial do
mosteiro sob a direção de um Irmão habilitado. Noutro
erudito artigo Lon Shelby frisa a importância do
conhecimento da geometria, a constructive geometry, que
orientava a construção e a manipulação das formas
geométricas e não era nem a geometria teórica de
Euclides e Arquimedes, nem a geometria prática dos
tratados medievais, e revela o caráter e o conteúdo de
tal saber [273].
26. No século XII, como vimos, renasceu com vigor
a atividade comercial e, como diz Pirenne em famoso
artigo, os negócios exigiam conhecimentos de leitura,
escrita e cálculo, pois a circulação das mercadorias e
do dinheiro exigiam a manutenção de correspondência e de
contabilidade. Ora, como as escolas eram todas
eclesiásticas, supõe-se que entre os comerciantes havia
muitos clérigos instruídos e fascinados pela vida
comercial, que se encarregavam da correspondência e das
contas dos negociantes. Logo mais os devotos de
Mercúrio trataram de proporcionar instrução adequada
aos seus filhos que lhes iriam perfilhar a devoção.
Enviavam-nos à escola monástica, mas com medo de que
resolvessem se tornar monges, o que aconteceu
freqüentemente. Muitos cuidaram, então, de contratar
clérigos para lecionarem a domicílio, o que lhes saía
caro e só era possível aos comerciantes muito ricos.
Nas regiões desenvolvidas comercialmente, da Flandres
por exemplo, as municipalidades providenciaram a abertura
de escolas onde não se insistisse no ensino da
literatura, mas se proporcionasse o conhecimento mínimo
indispensável às necessidades do comércio, tal como
leitura, escrita, cálculo e rudimentos de latim [274].
27. Émile Mâle ensina que a arte do século XII,
sobre narrar a obra da Redenção e celebrar as virtudes
dos santos, tentou explicar o universo e ilustrar com
figuras de pedras lavradas o sistema do mundo proposto no
ensino das escolas episcopais e monásticas [275]. Os
estudiosos do século XII não foram grandes
inventores, nem Tevolucionaram o campo do saber prática
com estrondosas descobertas, tal como ocorreria nos
sucessivos séculos da Idade Moderna. Eles descobriram
o que lhes estivera oculto, reencontraram o património
cultural que escapara aos novos povos do Ocidente que só
haviam herdado os bens literários e jurídicos dos romanos
e que eles puderam recuperar com trabalho estrênuo e vivo
entusiasmo. Foi com essa convicção que Bernardo de
Chartres formulou a sentença que nos chegou através de
João de Salisbury: "Somos como anões sentados nos
ombros de gigantes" [276]. Parece-me ter razão
Edouard Jeauneau, ao interpretar esse dito,
aplicando-o ao conhecimento das letras profanas. João
de Salisbury era um letrado e um humanista da estirpe de
Bernardo de Chartres e devia saber que este era
basicamente um professor de literatura para quem a
composição literária devia inspirar-se nos grandes
mestres do passado, mas sem plagiá-los, e que procurava
ensinar aos alunos a arte de ler bem e de bem redigir
[277]. E aí transluz outro aspecto do renascimento
cultural do século XII. Antes dos humanistas dos
séculos XV e XVI, os estudiosos medievais de
Chartres, Paris, Orleães, etc., redescobriram os
encantos das belas-letras e deram o máximo realce no
ensino à leitura e à imitação dos clássicos latinos.
Do ponto de vista educacional, o renascimento do século
XII foi sobretudo literário e, graças ao aumento do
saber por meio das traduções, também científico.
28. Pode aquilatar-se o conteúdo dos programas
escolares nas escolas do século XII, ao se lerem as
obras de João de Salisbury, de Pedro Abelardo, de
Hugo de São Vítor e de tantos outros mestres dessa
brilhante centúria. No Metalogicon (Lib. I, c.
24), o Saresberiense deixou-nos a descrição das
aulas e do método didático de Bernardo de Chartres.
Convém frisar, outrossim, que no século XII se
publicaram várias enciclopédias de valor desigual, a
saber, o Liber Floridus de Lambert de Saint-Omer, a
Imago Mundi de Honório o Solitário, o Liber
subtilitatum diversarum naturarum creaturarum de Santa
Hildegarda de Bingen, a Philosophia Mundi do
chartrense Guilherme de Conches, o Liber de naturis
superiorum et inferiorum de Daniel de Morlai, e o De
naturis rerum de Alexandre Neckam [278]. Thorndike
acha que esta pequena enciclopédia de Neckam não é
propriamente uma dissertação científica ou filosófica
mas um recurso para a formação moral, "but a vehicle
for moral instruction" a que mal se atribuiria o nome de
enciclopédia, mas cujas citações de autoridades
oferecem o máximo interesse como, por exemplo, as
referências aos livros de direito romano [279]. Ao
falar das sete artes, Neckam recomenda-lhes o estudo e
previne o leitor contra o seu abuso, asseverando que elas
ornamentam e fortalecem a ciência, assim como os sete
planetas iluminam o mundo [280].
29. A melhor fonte de informações a respeito das
obras usadas no ensino durante o século XII acha-se na
lista anônima de livros didáticos, Sacerdos ad altare,
publicada por Haskins [281]. A lista contém os textos
que já citamos a propósito do currículo no capítulo
anterior, mas acrescida de vários outros títulos e
apreciações. É interessante observar que o seu autor
logo de início recomenda para iniciação à leitura
latina a obra tão famosa na Idade Média e atribuída
erroneamente a Catão, os Disticha Catonis, que ele
reconhece, aliás, como "o compêndio que o vulgo diz
ser de Catão" [282]. Esse livro do
Pseudo-Catão, além de contribuir para o aprendizado
do latim e para a educação moral, contém convites
sugestivos para a dedicação ao estudo, tal como:
"Trata de aprender e nunca deixes de estudar, pois a
vida sem conhecimentos é imagem da morte." Ou ainda:
"Aprende algo, pois, se a sorte mudar, a ciência
permanece" [283].
30. Outra fonte valiosa para se saber dos livros usados
no ensino de gramática e de retórica no século XII
são o Accessus ad Auctores e o Commentarium in Theolum
de Bernardo de Utrecht e o Dialogus super Auctores de
Conrado de Hirsau, assim como os outros Accessus ad
Auctores da época. O Accessus ad Auctores de
Bernardo de Utrecht é uma pequena introdução à
leitura dos autores cristãos e pagãos de língua latina
onde figuram os escritores que já conhecemos e citamos
como Ovídio, Lucano, Cícero, Catão, Sedúlio,
Prudêncio, etc. Bernardo e Conrado de Hirsau, tal
como os outros professores de letras do seu tempo, ao
apresentarem a obra de um autor, indagavam qual o
título, a intenção do autor, o assunto do livro, a
parte da filosofia a que pertence e procuravam responder
às perguntas tradicionais dos professores de letras:
Quis, quid, ubi, quibus auxiliis, cur, quomodo,
quando, indicando deste modo a ordem a ser seguida na
explicação dos autores. É interessante notar que
Bernardo de Utrecht no início do Accessus ad Auctores
repete Cassiodoro, ao declarar que livro vem de livrar,
liber dicitur a liberando, porque o livro nos livra do
erro. No Diálogo entre mestre e discípulo, de
Conrado de Hirsau, o Mestre também fala de livro e
explica que se trata de termo equívoco, uma vez que
designa o pergaminho tirado da casca da árvore ou o
conjunto de proposições, histórias e comentários
enfeixados num volume ou dictus est a liberando, isto
é, vem de livrar, já que a pessoa entregue à
leitura se livra das preocupações e compromissos do mundo
[284]. Todavia, é preciso deixar bem claro que,
além da lista de autores, Sacerdos ad altare,
atribuída a Alexandre Neckam, as obras mais preciosas
em informações sobre as matérias e os processos de
ensino são o Didascalicon de Hugo de São Vítor e o
Metalogicon de João de Salisbury. Nos próximos
capítulos sobre as universidades e a escolástica
completaremos o panorama aqui delineado da vida cultural e
escolar do século XII.
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