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1. Chegamos ao ponto culminante de nossa História da
Educação Medieval. Depois de havermos considerado as
vicissitudes da educação através dos vários séculos da
primeira parte do Medievo e depois de termos examinado o
início do florescimento de nova civilização após o
primeiro milênio da era cristã, passamos ao estudo do
século XIII, "o maior dentre os séculos", e à
consideração das universidades e da escolástica. Esses
dois temas interpenetram-se e são como as duas faces de
uma só moeda. Todavia, para fazermos um exame acurado,
embora sucinto, desse assunto, resolvemos consagrar um
capítulo à origem e à organização das universidades e
outro, à constituição das doutrinas e dos métodos
dessas escolas -donde o termo escolástica - que foram
criação original da Idade Média, uma das suas
notáveis contribuições para a cultura humana e um legado
precioso da cristandade medieval para os povos do
Ocidente, para a sociedade em que vivemos e na qual a
instituição universitária ocupa posição de escol, por
se tratar de matriz do pensamento, de agência do saber e
do progresso científico, filosófico e literário, assim
como por ser a fonte geradora de profissões e empregos que
orientam a direção e a conservação da vida social.
2. A universidade, dissemos, constitui criação
original da Idade Média. Não existiu no mundo antigo
nem entre os povos muçulmanos nem em Bizâncio durante o
Medievo. É preciso estar atento para o uso do termo,
quando se lê, por exemplo, em algum livro que houve
universidade em Atenas ou em Bizâncio. Primeiramente,
observe-se que o termo universidade só começou a ser
usado em latim e a ser aplicado às escolas de certo tipo
durante o século XIII. Na centúria anterior como
já vimos, o termo universitas foi usado com o sentido de
associação ou corporação de ofício. No século
XIII, nessa mesma acepção, ele passou a ser
empregado para designar as corporações de mestres e
estudantes que se consagravam de modo organizado ao estudo
das artes liberais, do direito, da medicina e da
teologia. No Egito e na Babilônia, na Índia e na
China, na Grécia e em Roma, no império bizantino e
nos sultanatos muçulmanos, nunca houve universidades,
mas, sim, escolas superiores. Desde tempos remotos,
quando a escola surgiu, dividiu-se entre os vários povos
em ciclo elementar e em grau superior, de acordo com a
grande distinção de idades: meninice e juventude.
Assim, no tempo antigo, na Idade Média oriental e no
mundo muçulmano houve escolas elementares e superiores que
hoje, por figura de linguagem, são chamadas de
universidades nos livros de história, o que constitui
evidente imprecisão de linguagem e anacronismo, uma vez
que as universidades com os seus estatutos, a sua
organização jurídica e os graus acadêmicos surgiram
espontaneamente no seio da cristandade medieval e foram uma
das suas lídimas e originais criações.
3. Entre os romanos o termo universitas designara um
colégio, uma associação. Na Idade Média
aplicou-se a um conjunto de pessoas, usou-se como
fórmula de tratamento no início das cartas, universitas
vestra, "a todos vós", que soava como a nossa fórmula
"prezados senhores", e também serviu para designar uma
pessoa jurídica tal como universitas mercatorum, a
corporação dos comerciantes. Desde o fim do século
XII, à imitação das guildas dos mercadores,
passou-se a falar das corporações de mestres e
estudantes, universitas magistrorum et scholarium, que
eram, com efeito, autênticos trabalhadores
intelectuais. Indubitavelmente, a nova instituição
pedagógica medieval formou-se em conseqüência do
desenvolvimento das escolas episcopais, dos novos métodos
didáticos, do aumento do saber em virtude das traduções
das obras gregas e árabes, da proteção dada ao ensino
por papas e príncipes, mas o fator essencial para a sua
gênese, ein wesentlicher Factor, como diz Denifle a
propósito das escolas de Paris e Bolonha, foi o
caráter corporativo que assumiram as escolas de Artes,
Direito, Teologia e Medicina [285].
4. O aumento do saber manifestou-se num clima de
entusiasmo e de renovação cultural durante o século
XII. Ao passo que, por exemplo, se enaltecia o culto
das boas letras em Chartres, promovia-se o estudo
intensivo da dialética em Paris, graças principalmente
ao magistério de Abelardo fortalecido em seguida pela
tradução completa do Organon aristotélico. As
versões das obras científicas, como vimos no capítulo
anterior, acabaram por encorpar de modo relevante o
conteúdo das artes liberais, especialmente do
quadrívio. Os antigos materiais da jurisprudência
conservaram-se no Corpus Juris Civilis que se compunha
do Código (codificação da legislação imperial), do
Digesto (resumo das obras dos juristas romanos), das
Institutas (manual para os estudantes de direito) e das
Novelas (compilação das leis de Justiniano). A
expressão Corpus Juris Civilis servia para indicar o
direito romano e para o distinguir do canônico, Corpus
Juris Canonici. A volta da metade do século XII,
um monge do mosteiro bolonhês dos santos Félix e
Nabor, de nome Graciano, inaugurou o estudo do direito
canônico, ao unificar as leis da Igreja Católica no
seu Decretum que se tornou o compêndio do direito
canônico e a base da legislação da Igreja no século
XIII.
5. Fato cultural de excepcional relevo foi a
constituição da teologia escolástica no século XII.
Durante séculos os clérigos viveram de meditações
sobre a Bíblia e do legado patrístico em que avultava
pela sua grandiosidade e potência a obra de Santo
Agostinho. Boécio tentou no século VI aplicar a
filosofia aristotélica ao aprofundamento da doutrina
cristã nos seus opúsculos teológicos, mas a morte
precoce ceifou-lhe os projetos. Santo Anselmo e Pedro
Abelardo prosseguiram na senda boeciana. O monge de Bec
e arcebispo de Cantuária iniciou o emprego da lógica
aristotélica na consideração do mistério da
Santíssima Trindade nos seus livros Proslógion e
Monológion. Pedro Abelardo aperfeiçoou o incipiente
método escolástico e compôs manuais da teologia com o
caráter de sumas (gênero que irá florescer no século
XIII). Ele foi o primeiro autor a usar o termo
"teologia" na acepção de ciência sagrada no título de
seus livros Introdução à Teologia e Teologia
Cristã. O meritório labor de Abelardo foi perturbado
pelos acidentes de sua vida tumultuosa, pela ousadia das
suas opiniões, pela sua arrogância e pela inveja e
perseguição que lhe moveram os desafetos. Na linha da
fidelidade à tradição e à autoridade de Santo
Agostinho, outros escritores como Hugo de São
Vítor, os vitorinos e Pedro Lombardo compuseram
também obras de teologia, ou seja, de sistematização
da sacra ciência. Hugo redigiu uma verdadeira suma, o
tratado De sacramentis, e Pedro Lombardo escreveu a
obra que se tornou o compêndio oficial para o ensino
teológico e que os clérigos iriam comentar até ao
século XVI, os Quatro Livros das Sentenças. Na
universidade medieval o curso teológico assentavase na
Bíblia e nas Sentenças de Pedro Lombardo que se
apresentaram como "o reflexo da atividade teológica das
escolas e das questões aí debatidas, espécie de Corpus
doctrinae que pouco a pouco acaba por se elaborar como o
termo de longa tradição" [286]. A obra de Abelardo
foi precedida pelos esforços e tateios de João de
Vendières, Wolfgang de Ratisbona, Adalberão de
Laon e Herigério de Lobbes. João de Vendières
utilizou os manuais de Boécio para compreender o tratado
de Santo Agostinho Sobre a Trindade, e Wolfgang,
Adalberão e Herigério recorreram à lógica
aristotélica nos seus estudos e debates teológicos.
ó. As faculdades de medicina só se organizaram no
século XIII, mas isso se deu em grande parte graças
ao aumento do acervo de obras médicas elaboradas pelos
médicos da escola de Salerno, no sul da Itália, que
no fim do século XI já era centro famoso de medicina
mas cuja fama já surgira, segundo Kristeller, desde
985. O seu primeiro escritor-médico foi Garioponto
ou Guarimpoto, autor de um tratado sobre as febres e da
obra Passionarius. Uma das primeiras obras médicas
salernitanas foi a Practica Petroncelli de autor
anônimo. Na segunda metade do século XI
destacaram-se os dois escritores médicos Alfano, monge
de Montecassino e depois arcebispo de Salerno, e
Constantino, o Africano, que veio para Salerno em
1077. Alfano traduziu a obra Sobre a natureza do
homem de Nemésio de Emesa e escreveu o tratado Sobre os
quatro humores e outro
Sobre os pulsos, sobre ter sido
poeta latino. Constantino, monge africano de origem
árabe, veio para Salerno em 1077, aí permaneceu
algum tempo, foi para Montecassino onde traduziu do
árabe muitas obras médicas e morreu em 1087. Foi o
primeiro grande tradutor de obras de ciência árabe e
forneceu os compêndios usados nas escolas medievais de
medicina: o Al-Malaki ou Pantegni de Haly Abbas, o
Viático de Al Dschaafar, os livros de Isaac, o
Judeu (Urinas, Febres, Dietas), a Isagoge de
Joannicius, os Aforismos, os Prognósticos e as
Doenças agudas de Hipócrates, com os comentários de
Galeno, e duas obras médicas bizantinas de Teófilo
Protospatério e Filareto.
7. O século XII foi a idade de ouro da literatura
médica em Salerno com as versões de livros de medicina,
as traduções das obras de Hipócrates e Galeno e com a
composição de tratados, compêndios e comentários. É
aí que surgem duas obras famosas atribuídas erroneamente
ao século XI, o Antidotarium Nicolai, o tratado de
ginecologia da médica Trótula e o famoso Regimen
Sanitatis Salernitanum. Magister Urso da Calábria
escreveu os seus Aforismos com vasto comentário e
Magister Maurus comentou os de Hipócrates e organizou
o currículo médico. Em Salerno, todavia, só havia
ensino particular de medicina, e "escola" é o nome que
se dá genericamente ao conjunto dos seus mestres
particulares e, apesar de ter influído na organização
dos currículos das faculdades de medicina de Paris e de
outras cidades, Salerno nunca veio a possuir
universidade. Como diz Haskins, Salerno "foi
importante na história da medicina, mas não teve
influência no desenvolvimento das instituições
universitárias" [287]. Em matéria de bibliografia
médica, no entanto, apesar do vulto das traduções, a
grande glória salernitana foi o Antidotarium, grande
coleção de fórmulas e receitas médicas que se formara
através de gerações e recebeu a sua forma definitiva no
século XII dos escritores médicos Aflácio, Mateus
Plateário, Nicolau Le Prévost e de outros. Em
1241, Frederico II publicou uma lei na qual, sem
mencionar o nome de Salerno, regulamentou o ensino
médico, prescreveu três anos de estudo da lógica como
requisito do curso médico que durava cinco anos e devia
incluir a cirurgia, determinou a forma dos exames e da
aprovação dos alunos e exigia, após o curso, um ano de
prática médica sob a orientação de um médico
experiente. Enquanto Salerno teve ensino médico sem
universidade, Montpellier projetou-se desde o século
XII com as suas escolas de artes e de medicina, graças
à sua privilegiada situação geográfica e política e à
sua "florescente burguesia", como diz Stephen
D'Irsay. A passagem das escolas livres de medicina
para o estado de corporação organizada deu-se entre os
anos de 1180 e 1220, quando surgiram os estatutos
redigidos pelo legado pontifício Conrado de Urach, que
prescreviam os exames e a Licença e estabeleciam o
chanceler como diretor da escola.
8. A origem da universidade de Bolonha liga-se ao
renascimento dos estudos jurídicos no Ocidente. Desde o
fim do século X surgiram em Bolonha sinais de
renascimento cultural. Já era tradicional, então, a
sua escola de artes liberais e no século XI eram muitas
as escolas de retórica, a escola episcopal e as
monásticas, além das particulares, e na metade dessa
centúria já havia professores e ensino de direito. Em
documentos de 1070 ao fim do século XI acham-se
indicações de iudices, de causidici,
de advocati e
advocatores, de legum docti ou
legis periti, expressões
que designavam os estudos de direito e a profissão de
jurista. Os primeiros professores públicos de direito
parecem ter sido, além de Pepo, citado em documento de
1076 como legis doctor, o
legis doctor Alberto citado
em 1067, Iginulfo mencionado em 1076 e o legis
doctus Rústico recordado em 1088, e tudo indica que
o Studium bolonhês, que deu origem à universidade de
direito, teve origem leiga, uma vez que leigos eram
habitualmente os "causídicos", os "advogados" os
"juízes", além do fato de a escola de teologia de
Bolonha só se entrosar no Studium e se integrar na
universidade em 1364. Parece, pois, que a
universidade de Bolonha surgiu das escolas particulares e
dos professores leigos, práticos e especialistas em
leis, assim como de juristas notáveis como Pepo e
sobretudo Irnério, o verdadeiro fundador da universidade
de direito [288]. Ele era bolonhês, nasceu à volta
de 1055 ou 1060, estudou as artes liberais em
Bolonha e foi aluno de direito de Pepe. Teria iniciado
o seu magistério jurídico no fim do século XI em
Bolonha. Teve por colegas no ensino muitos outros
doutores entre os quais Pietro di Monte Armato,
Lamberto de Bolonha, Gandolfo de Argelata, Hugo e
Ãngelo, Alberto de Canetolo e o legislator Raimundo de
Zena. Como ensina Sorbelli, à volta de 1120 a
Escola de Direito de Bolonha era universalmente
conhecida na Itália e a cidade era cognominada de
"douta" por ser a sede natural e antonomástica das
leis. Irnério formou os quatro famosos doutores e
insignes mestres da universidade: Búlgaro, Martino,
Ugo e Jácopo, cada um com a sua aptidão especial, tal
como os descreveu Irnério em célebres versos:
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Bulgarus os aureum, Martinus copia legum,
Mens legum est Ugo, Jacopus id quod ego.
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Búlgaro é boca de ouro (pela eloqüência), Martino
tem grande cultura jurídica, Hugo tem espírito
jurídico e Jácopo me é semelhante.
9. Em Bolonha principiou a renovação do direito
canônico que logo se difundiu por outras universidades,
mosteiros e bispados. Há séculos que existiam e se
colecionavam os decretos pontifícios, as decisões dos
concílios, enfim, as leis eclesiásticas. Entre tantas
outras podem ressaltar-se as coleções de Reginão, de
Anselmo de Lucca, de Burcardo e de Ivo, mas todas
foram postas de lado, quando surgiu a nova compilação
feita por Graciano, o Decretum. O seu autor foi um
monge camaldulense nascido em Chiusi. Ele gastou dez
anos para compor o Decretum
(Concordantia Discordantium
Canonum) e é certo que iniciou o seu trabalho no
mosteiro de São Félix de Bolonha. O grande mérito
do monge Graciano foi ter estabelecido a distinção entre
ó direito canânico e a teologia, tal como Irnério
conseguira separar o direito civil das outras artes junto
com as quais até então fora ensinado. Aos poucos
acrescentaram-se ao Decretum as Decretais de Alexandre
III e de outros papas, por iniciativa de Gregório
IX, em cinco livros, depois um sexto por Bonifácio
VIII, mais as Clementinas, o que resultou na
formação do Corpus Juris Canonici equivalente ao
Corpus Juris Civilis. Apesar de a compilação feita
por Graciano ter aspecto tipicamente jurídico, diz De
Ghellinck S. J., se ele copiou a divisão das
matérias do direito romano em personae,
res, actiones,
e se ele manifestou constantemente as suas concepções de
jurista; se ele distinguiu a teologia especulativa da
teologia prática externa baseada na potestas, as suas
preocupações jurídicas de modo algum lhe fizeram
rejeitar todos os elementos teológicos que constituem a
contribuição dos séculos anteriores [289]. O fato é
que doravante ao estudo do direito civil em Bolonha se
associou o do direito canônico a perfazer o plano
universitário medieval de reunir o Direito Romano com o
Direito Canônico num só sistema de ensino, o do
utrumque ius, e, por isso, no século XIII em
Bolonha, ao lado do Colégio do Ius civile sive
Caesareum com 16 doutores apresenta-se o Colégio do
Ius Canonicum com 12 doutores.
10. Em Paris a universidade formou-se a partir das
escolas de teologia e de dialética, tal como explicamos
no capítulo precedente. No século XII a cidade
fervilhava de mestres de artes liberais e da sagrada
página e entre eles avultaram Pedro Abelardo, lógico e
teólogo, Pedro Lombardo, o mestre das sentenças, e
inúmeros outros. Em Paris concentravam-se estudantes
provenientes de todos os recantos da Europa e foi dum
conflito entre estudantes alemães e os comerciantes que
resultou o primeiro privilégio real obtido pela
corporação de mestres e estudantes e esse ato assinalou a
constituição inicial da universidade de Paris, enquanto
o que se poderia denominar "patente da fundação" da
universidade de Bolonha foi constituída pelo Authentica
habita do imperador Frederico BarbaRoxa em 1158 com
que este soberano outorgou privilégios aos estudantes e
aos professores de Bolonha [290].
11. Por fim, ao lado das universidades de Bolonha
(Direito Civil e Direito Canônico), de Paris
(Artes e Teologia) e de Montpellier (Medicina),
surgiu a primeira universidade inglesa em Oxford. Em
1110 aí chegou o primeiro mestre, o clérigo
Teobaldo de Étampes. Vieram, em seguida, Roberto
Pullus, teólogo inglês, mestre em Paris e autor de
Sentenças; Adelardo de Bath e Daniel Morley,
imbuídos de ciência árabe colhida na Espanha, e
Vacário, legista de Bolonha e aluno de Irnério.
Durante o século XII, portanto, divulgou-se em
Oxford o ensino das artes, da teologia e do direito civil
e, embora não houvesse escola episcopal, pois a sede do
bispado ficava em Lincoln, o ensino distribuía-se por
muitos conventos e igrejas, máxime na abadia de Oseney e
no convento agostiniano de Sainte-Frideswyde. Em
conseqüência da morte de dois estudantes inocentes
causada pelos burgueses em 1208-1209, houve a
dispersão das escolas e os estudantes emigraram para
Paris, Reading e Cambridge, o que ocasionou a
fundação do studium generale de Cambridge. Oxford
conseguiu então a jurisdição eclesiástica para os
estudantes, concedida pelo legado pontifício, o cardeal
Nicolau, e logo eles também receberam o direito de greve
e de secessão, de modo que no reinício dos cursos em
1214 a universidade já dispunha de garantias para a
sua autonomia. O decreto do legado pontifício, diz
Rashdall, foi o primeiro documento com a natureza de
carta de privilégios que a universidade de Oxford pôde
ostentar [291].
12: Como já se pôde perceber, não houve data
marcada para o aparecimento das universidades. As bulas
pontifícias e as cartas patentes dos reis foram expedidas
numa data determinada, mas só vieram consagrar o que era
fato consumado, ou seja, a constituição de uma
corporação de mestres e estudantes. Com efeito, as
primeiras universidades formaram-se espontaneamente e reis
e papas apenas reconheceram oficialmente as novas
instituições. Assim, o reconhecimento formal da
universidade de Paris deveu-se ao privilégio conferido
em 1200 pelo rei Felipe Augusto aos professores e
estudantes, aos Estatutos promulgados pelo legado
pontifício, o cardeal Roberto de Courçon em 1215,
e à bula de Gregório IX de 1231, Parens
scientiarum. As universidades de Paris e de Bolonha
deram o tom para o futuro reconhecimento de novas escolas
desse tipo, ao mesmo passo que lhes iriam servir de modelo
e inspiração. As universidades que se formaram
espontaneamente são chamadas ex-consuetudine, e as
criadas por iniciativa papal ou principesca,
ex-privilegio. As universidades de Palência e
Nápoles, por exemplo, nasceram repentinamente da
iniciativa oficial. A de Palência na Espanha foi
criada por Afonso VIII de Castela em
1212-1214 e a de Nápoles foi erigida por
Frederico II em 1224 para ser pepineira de
funcionários públicos. Convém, ademais, observar que
as universidades de início não eram escolas de saber
universal, mas institutos especializados numa determinada
área do conhecimento, como o testemunham os célebres
versos de Geoffroy de Vinsauf (Poetria nova, v.
1008-1012) : "Salerno cura as doenças com o
poder do médico; Bolonha arma com as leis os que devem
sustentar processos; Paris dispensa com as artes o
alimento que faz os fortes e Orleães nutre com o leite
dos autores antigos os que ainda estão no berço."
13. Ao surgir no fim do século XII, a universidade
de Paris não comportava o ensino do direito civil. Em
Bolonha, a faculdade de teologia só foi criada pelo papa
Inocêncio VI em 1364. A universidade de Orleães
só ministrou o ensino do direito. A de Toulouse
instituída em 1227 teve por objetivo dispensar o
ensino da teologia e combater a heresia albigense [292].
Por outro lado, havia muita movimentação de professores
entre as universidades. Os legistas de Bolonha, por
exemplo, introduziram o estudo do direito na universidade
de Montpellier na França e em Oxford na Inglaterra,
enquanto os teólogos formados em Paris se espalhavam por
todos os cantos da Europa.
14. Convém saber, outrossim, que o termo
universidade não significava o conjunto das faculdades,
mas indicava apenas a associação de pessoas, alunos,
professores e funcionários de uma cidade, aplicados ao
estudo das artes, do direito, da teologia e da medicina,
pois o termo, como já vimos, valia por associação ou
corporação. Na segunda metade do século XIII a
expressão studium generale indicava um centro de estudos e
o termo generale, geral, não denotava a extensão
universal dos conhecimentos, mas tão só o fato de que as
aulas eram públicas, acessíveis aos alunos de qualquer
país e de qualquer condição, ao contrário do studium
particulare que era centro de estudos exclusivos de
estudantes de uma determinada província, por exemplo, da
ordem dominicana. O studium solemne, por sua vez, era
um centro de estudos muito importante e bem freqüentado
mas que não era necessariamente generale.
15. Muitas universidades surgiram por iniciativa dos
reis que as fundavam com intuitos políticos: promover a
própria terra, beneficiar os súditos e evitar a
intromissão dos políticos estrangeiros. Assim, em
1431, em plena Guerra dos Cem Anos, o rei da
França Carlos VII solicitou ao papa Eugênio IV a
bula para a ereção da universidade de Poitiers, uma vez
que a de Paris estava sujeita à influência estrangeira
devido à ocupação inglesa. Assim, ainda por ocasião
da Guerra dos Cem Anos, foram fundadas as universidades
de Caen na Normandia, em 1437, e a de Bordeaux
para a Guiena, em 1441. Foi, ainda, por razões
políticas que o rei Luís XI e o papa Pio II
consentiram na fundação da universidade de Nantes na
Bretanha, em 1460, e o papa Paulo lI publicou a
bula para a fundação da universidade de Bourges em
Berry, em 1464. Na Itália, além do caso
notório de Nápoles, algumas cidades fundaram studia
para aumentarem a sua população e riqueza, tal como
Pavio (1361), Ferrara (1391) e Florença
(1349 ). Na fundação desta última, além do
ciúme que ela tinha de Pisa, aduziu-se o desejo de
reparar a falta de habitantes causada pela peste no ano
anterior.
16. O século XIII, tão extraordinário sob
vários aspectos, foi também a época de ouro das
universidades, pois, exceto a de Bolonha nascida no
século XII, nele se organizaram as de Paris, Oxford
e Salamanca, as primeiras e as mais importantes. No
século XIII contam-se dezenove fundações
universitárias. No século XIV foram fundadas umas
vinte e oito e, no século XV, mais de trinta. Como
já dissemos algo das primeiras grandes universidades de
Bolonha, Paris e Oxford, observemos que a de
Salamanca, "the queen of spanish universities",
segundo Compayré, fundada à volta de 1227, só
obteve a sua carta patente de Fernando III, rei de
Castela e Leão, em 1243, deveu a sua prosperidade
a Afonso X, o Sábio, é nela tiveram realce especial
os estudos musicais, tendo sido a universidade de
Salamanca a primeira a outorgar graus acadêmicos em
música. Paris e Bolonha foram os protótipos das
universidades medievais. Paris, chamada por Mullinger
de "o Sinai da instrução" na Idade Média, serviu
de modelo para as universidades de Oxford e Cambridge na
Inglaterra; de Praga, Viena, Heidelberg e Colônia
na Germânia, enquanto Bolonha inspirou principalmente
as universidades da Itália, exceto a de Nápoles, as
de Montpellier e Grenoble na França, e outras.
17. Em Portugal, embora os prelados tivessem
solicitado ao Sumo Pontífice um Estudo Geral para
Lisboa em 1288, a universidade foi fundada em 1 de
março de 1290 pelo rei D. Dinis que declarou na sua
Carta de privilégios: "...houvemos por bem ordenar,
na Real Cidade de Lisboa, para honra de Deus e da
Santíssima Virgem sua Mãe, e também do Mártir S.
Vicente, cujo santíssimo corpo exorna a dita cidade, um
Estudo Geral, que não só munimos com cópia de
doutores em todas as artes, mas também roboramos com
muitos privilégios" [293]. Em 9 de agosto de
1290, o papa Nicolau IV pela bula De statu regni
Portugaliae, expedida de Orvieto, aprovava a fundação
do Estudo Geral de Lisboa, concedia-lhe vários
privilégios e autorizava a licenciatura de Artistas,
Canonistas, Legistas e Médicos "que os Mestres
reputarem idôneos", só não havendo, por expressa
declaração papal, o ensino da teologia [294]. A
universidade foi transferida em 1308 para Coimbra pelo
rei D. Dinis, mas D. Afonso IV em 1338
mandou-a regressar a Lisboa, donde retornou a Coimbra
em 1354. D. Fernando trouxe-a de volta para
Lisboa em 1377, até que D. João III a
instalou definitivamente em Coimbra em 1537. Ora, a
universidade de Coimbra é do tipo bolonhês em que os
escolares são o elemento preponderante [295]. Vejamos,
pois, em que consistem os modelos universitários bolonhes
e parisiense.
18. Segundo Rashdall, a universidade de estudantes
surgida em Bolonha constituiu uma novidade na história da
educação, "a wholly new departure in the history of
education", pois se distinguia das instituições
anteriores e diferia das que dela se desenvolveram [296].
Convém ter em mente que os estudantes de direito eram
geralmente adultos, como os de teologia e de medicina,
já que os adolescentes ainda se viam a cursar as artes.
Uma vez que eles vinham a Bolonha de várias regiões da
Itália e de outros países, era muito natural que
procurassem agrupar-se de acordo com a sua origem e
nacionalidade, pois se sentiam irmanados e cuidavam de
ajudar-se uns aos outros na qualidade de estrangeiros,
hóspedes em terra estranha. Desse modo, para se
defenderem dos abusos cometidos pelos burgueses e para se
auxiliarem, os estudantes formaram as Nações nas duas
universidades, como hoje podemos dizer, a dos juristas e
a dos artistas, que também abrangiam os estudantes de
medicina, pois o termo universidade veio a designar o
conjunto de estudantes de uma certa disciplina e, nesse
caso, os de Direito, de Artes e os de Medicina.
Ocorre, porém, que desde a segunda metade do século
XII, no linguajar da época, só existia a
universidade dos Juristas e, como nela se distinguiam em
blocos os estudantes de aquém e além dos Alpes, os
alunos de direito passaram a formar duas universidades: a
universidade dos citramontanos (os italianos, com
exclusão dos bolonheses protegidos pela Comuna) e a dos
ultramontanos (os estrangeiros) e cada uma dessas
universidades se compunha de nações, de acordo com a
proveniência dos estudantes, e era assessorada por um
conselho central com um representante de cada nação, e
à frente da nação achava-se um Reitor. "Em suma,
diz Sorbelli, pouco a pouco formou-se uma Comuna dentro
da Comuna." No século XII, e no princípio do
século XIII, as nações dos citramontanos deviam ser
pelo menos quatro: Romanos, Campanos ou Meridionais,
Toscanos e Lombardos, mas no fim do século XIII e
no começo do século XIV eram três, tendo a dos
Romanos absorvido a dos Campanos e os Meridionais em
geral. Contando-se, porém, os componentes dessas
nações segundo as regiões de que procediam havia, de
fato, 17 nações de citramontanos (aquém dos
Alpes): Os Romanos incluíam Roma, Abruzzo, Terra
di Lavoro, Puglia, Calábria, Marca inferiore,
Marca superiore, Sicília. A nação dos Toscanos
abrangia os Fiorentini, Pisani, Lucchesi, Senesi, o
antigo ducado de Ravena e dos Venezianos e a nação dos
Lombardos compreendia os Genovesi, Milanesi,
Tessalonici (Parma, Piacenza, Reggio e Módena) e
Celestini (Asti, Alba, Acqui e Torino). A
universidade dos ultramontanos (além dos Alpes) ou dos
estrangeiros compunha-se, segundo um documento de
1265, de treze nações: Franceses, Espanhóis,
Provençais, Ingleses, Picardos, Borguinhões,
Pictavienses (ou do Poitou), Turonenses (de
Tours), Cenomanenses (do Maine), Normandos,
Catalães, Húngaros, Poloneses e Alemães. No
século XIV variou a distribuição das nações e no
século XV, conforme os estatutos de 1432, as
nações eram 16 e, depois de 1500, aumentaram
ainda mais, ao passo que diminuíam de importância, o
mesmo acontecendo com as nações ultramontanas.
19. Cada nação podia eleger um conselheiro, mas nos
estatutos de 1317-1347 eles eram dezoito para cada
universidade, embora as duas universidades tivessem, de
fato, trinta e oito conselheiros, donde se colhe que as
três nações italianas principais tinham cada uma seis
conselheiros. Desde o início do século XIV começou
a operar a universidade dos artistas, uma só para os
estudantes italianos e os estrangeiros e, de início, com
quatro nações e nove conselheiros (três lombardos,
dois ultramontanos, dois romanos e dois toscanos). As
nações, e depois as universidades, reuniam-se para às
assembléias e para a discussão dos seus negócios em
diversos lugares da cidade, particularmente nas igrejas
que lhes eram destinadas. Assim, os ultramontanos
reuniam-se na igreja de São Próculo, os citramontanos
na de São Domingos e a universidade dos artistas na
igreja e no convento dos franciscanos.
20. O dever mais importante dos conselheiros era eleger
o reitor que devia ser estudante, clérigo, solteiro, de
vinte. e cinco anos, ter estudado leis durante cinco
anos, ser membro da universidade que o escolheu, ser
adornado das virtudes da prudência e da honestidade [297].
Cabia ao reitor-estudante exercer jurisdição civil e
criminal sobre os alunos e os professores e resolver as
pendências entre as escolas de direito. O reitor da
universidade ultramontana era escolhido no dia primeiro de
maio e, desde 12_56, cada grupo de nações
apresentava por um ano o seu candidato num ciclo de quatro
anos. O reitor cismontano era eleito por dezenove
conselheiros, a primeiro de maio, e cada ano as nações
dos Romanos, Toscanos e Lombardos escolhiam o seu
reitor num ciclo de três anos. A fim de poder exercer
sanções, o reitor devia agir de acordo com o podestà da
comuna. Cabia, ainda, ao reitor supervisar as
matrículas, fixar o horário das aulas, determinar as
férias e estabelecer o pagamento dos professores. Ele
também devia presidir os exames e as cerimônias do
conferimento dos graus acadêmicos, assim como lhe
competia fiscalizar a atividade dos copistas e dos
livreiros. Os reitores surgiram desde o ano 1180.
No século XV houve vice-reitores. O reitor tinha
precedência sobre as outras autoridades-e, a certa
altura, até mesmo sobre os cardeais. Essa autoridade
começou a diminuir no fim do século XV, quando passou
a ser chamado de "Magnífico" em vez de
"Digníssimo", como era designado no século XIV.
Devido aos encargos da função, o reitor devia ser homem
rico [298].
21. Os outros componentes da administração
universitária que cooperavam com o reitor eram quatro
síndicos (dois de cada universidade) que deviam rever os
atos dos reitores. Um advogado ou síndico cuidava dos
interesses do reitor perante o foro público. Seis
clérigos prudentes eram incumbidos de revisar os livros
que circulavam nas universidades. Os livreiros,
stationarii, promoviam a cópia de livros e vendiam-nos.
Os clérigos adstritos ao exame da lisura das cópias e
da correção dos textos eram os peciarii, do termo
pecia, seção do original aprovado de um manuscrito. Os
massarii eram os tesoureiros, um para cada universidade.
O notário redigia os processos, anotava as matrículas e
copiava os estatutos. Finalmente, os bedéis gerais
acompanhavam os reitores nas cerimônias públicas
(procissões ou funerais), anunciavam os debates, as
aulas, os feriados, a venda de livros e viviam da
generosidade dos estudantes, enquanto os bedéis especiais
cuidavam da limpeza e de outros aspectos materiais da
escola.
22. A partir de 1317 as duas universidades de
direito formaram praticamente uma só escola, um todo com
os mesmos estatutos e as mesmas assembléias. Na falta de
um reitor, o outro o substituía. No início do século
XVII a comuna já usurpara a maior parte dos
privilégios da universidade. Quando Napoleão invadiu
Bolonha em junho de 1796, as nações e os oficiais
foram dispersados, e em 1798 a universidade de
Bolonha pela primeira vez teve um reitor não estudante
mas professor.
23. A parte central da universidade de Bolonha era o
Studium, o complexo docente, em que os professores
ensinavam aos alunos um conjunto de disciplinas
jurídicas. Os mestres foram chamados inicialmente de
doctores. Quando estes se tornaram numerosos, e nem
todos lecionavam, distinguiram-se os doctores legentes,
os professores estáveis, e os doctores non legentes,
advogados que não lecionavam ou porque os estudantes não
os escolhiam ou por exercerem outras funções municipais.
Desde a metade do século XII os docentes foram
denominados professores.
O professor chamava-se dominus
quando ensinava direito civil e magister quando lecionava
direito canônico, filosofia ou teologia. Mais tarde, o
professor de direito foi chamado também de reitor, aquele
que "rege" ou tem cátedra. Mestre tornou-se o título
quase exclusivo do professor de medicina ou de artes.
24. Os professores de direito em Bolonha recebiam, de
início, os seus salários das universidades de
estudantes. No fim do século XIII a Comuna ou a
municipalidade pagava os salários dos professores de
algumas cátedras. Nesse regime, primeiro os estudantes
indicavam os professores que seriam pagos pela Comuna,
depois esta escolhia os mestres e, por fim, fazia o
pagamento de todos os assalariados, exceto os professores
das disciplinas mais modestas propostas pelos estudantes.
Na metade do século XIV formou-se a magistratura dos
Reformadores do Studium
que fiscalizavam o comparecimento
dos professores e descontavam as faltas na folha de
pagamento. No começo do século XIV distinguiam-se
os professores dos leitores. Estes eram comumente
estudantes estrangeiros com alguns anos de estudo e a
promessa de se doutorarem. Bacharel era o título dos
estudantes que ministravam aulas extraordinárias
(extraordinarie legentes) e nada recebiam por conta das
aulas, antes eles é que deviam pagar uma taxa para
poderem proferi-las.
25. Em Bolonha só havia o grau universitário de
doutor e os doutores não pertenciam às universidades mas
ficavam de fora e formavam o Colégio dos Doutores,
desde a segunda metade do século XIII. Em 1219,
o arcediago de Bolonha foi incumbido pejo papa Honório
III de conceder o doutorado aos estudantes competentes e
dignos.
O Colégio dos Doutores tinha o encargo de examinar os
estudantes e de conferir o grau de doutor. Nos séculos
XIV e XV diminuiu a autoridade desse Colégio devido
à exclusão dos estrangeiros, ainda que fossem de
excepcional valor e, por causa do nepotismo, que passou a
imperar na distribuição dos cargos docentes atribuídos
aos parentes, filhos, irmãos ou sobrinhos dos doutores
em exercício. Cada Colégio tinha os seus próprios
estatutos (civilistas, canonistas, médicos e
artistas). Nos séculos XIV e XV o Colégio de
Direito Civil tinha dezesseis membros ordinários e três
extraordinários ou supranumerários sob a presidência de
um Prior, cós mandato geralmente de dois meses e sob a
assistência do arcediago. Os colégios perduraram até o
período napoleônico com o poder de conceder a láurea de
doutor que se obtinha através de rigoroso exame privado.
O estudante aprovado obtinha então a Licença. O outro
exame, público e solene, era menos exigente quanto ao
saber, mas dava mais despesas e a láurea era concedida
solenemente na catedral. O Doutor do Colégio gozava em
Bolonha de altíssima consideração e, por diploma de
Carlos V em 1530, passou a ser considerado conde
palatino.
26. Demos grande atenção à universidade de Bolonha
porque, geralmente, quando se fala de universidade
medieval - exceto nas faculdades de direito - o que se
diz é sempre alusivo à universidade de Paris, o maior
centro de estudos literários, científicos, filosóficos
e teológicos da Idade Média. O Cartulário da
universidade de Bolonha fala-nos dos juramentos dos
mestres de não abandonarem a cidade, dos salários, dos
aluguéis, enfim, de questões predominantemente
financeiras. O Cartulário da universidade de Paris
está referto de preocupações doutrinárias e retrata a
vida animada dos mestres e dos estudantes preocupados com
os problemas filosóficos e teológicos. Por isso,
exceto para a carreira jurídica, falar de universidade
medieval é principalmente conhecer e tratar da
universidade de Paris que se formou espontaneamente no
século XII através da associação dos mestres de
artes e de teologia. Abelardo foi o representante máximo
desse duplo magistério, pois os seus cursos de lógica e
de teologia atraíam milhares de estudantes de toda a
Europa na primeira metade do século XII. Depois de
Abelardo ensinaram em Paris outros mestres que redigiram
os manuais mais usados nas universidades até o fim da
Idade Média: os Libri Sententiarum de Pedro
Lombardo, bispo de Paris em 1159, e a Historia
Scholastica, manual de história bíblica, de Petrus
Comestor, Pedro o Comilão (comedor de livros).
Depois de 1150, surgiram em Paris escolas de direito
e de medicina, embora mais tarde fosse interditado aos
clérigos o estudo do direito civil. Entre 1175 e
1190 Guy de Bazoches escreveu uma carta a um amigo em
que descrevia a cidade de Paris e dizia que há muito
tempo se ensinavam em Paris, in insula, na Île de la
Cité, filosofia, direito civil e canônico, decreta et
leges, e a teologia,
sacra pagina [299].
27. Ainda que a associação dos mestres parisienses
tivesse começado a surgir na segunda metade do século
XII, a corporação dos mestres e estudantes só se
constituiu de modo inequívoco após a concessão do
primeiro privilégio aos estudantes por Felipe Augusto em
1200 [300].
A universitas magistrorum et scholarium
foi a corporação parisiense de mestres e estudantes,
organizada à imitação das outras corporações, na qual
um professor, cônego de Notre-Dame, dirigia a
universidade em nome do bispo de Paris como chanceler.
Os professores eram os "patrões" da corporação, os
bacharéis eram os "oficiais" ou companheiros, os alunos
eram os "aprendizes", e as faculdades, os
"ofícios". A Faculdade de Artes nasceu da
federação das escolas de artes liberais. Era a mais
numerosa, contava com os professores e os alunos mais
jovens, pois era curso propedêutico às demais
faculdades. A corporação emergiu de modo nítido
através das lutas com o chanceler do bispado que outorgava
a licença para ensinar ao aluno que só podia ser julgado
apto pela associação dos mestres. O reitor era eleito
por um período de três meses e era escolhido dentre os
professores e a faculdade compunha-se de quatro nações
subdivididas em províncias. A nação francesa (Île de
France), honoranda Gallorum natio, compunha-se de
cinco províncias, a saber, Paris, Sens, Reims,
Tours, Bourges e a esta última ligavam-se a Itália,
a Sabóia, a Espanha, Portugal e o Oriente. A
nação da Picardia, fidelissima, abarcava as
províncias de Beauvais, Amiens, Noyon, Laon e
Térouanne. A terceira nação era a normanda,
veneranda, e a quarta, a inglesa que no século XV,
devido à Guerra dos Cem Anos, foi substituída pela
alemã, constantissima, que abrangia duas províncias, a
dos "continentais", isto é, alemães, holandeses e
dinamarqueses, e os "insulares", ingleses e escoceses.
A frente de cada nação achava-se um Procurador eleito
que cuidava dos seus interesses, e os quatro procuradores
elegiam o reitor. Reitores e Procuradores deviam zelar
pela disciplina das Nações.
28. Do fim do século XII a 1231, os mestres
parisienses obtiveram os seus privilégios corporativos.
Em 1215 o cardeal legado Roberto de Courçon deu à
universidade os Estatutos, tendo fixado os programas e os
textos para os cursos de artes e de teologia. A luta dos
mestres contra o chanceler e o bispo de Paris de 1215
a 1231 terminou com a vitória da universidade selada
pela bula Parens scientiarum de Gregório IX em
1231 e completada com mais privilégios à volta de
1250. Gradativamente o reitor passou a dirigir toda a
universidade. De 1231 a 1251 ele presidia o
conselho dos mestres, reclamava à polícia os estudantes
presos, estabelecia o preço para o aluguel dos
alojamentos, assim como o dos livros que serviam de
exemplares oficiais.
29. A universidade de Paris converteu-se no decurso
do século XIII numa confederação das escolas
espalhadas pela cidade e cada uma era dirigida por um
mestre regente. A princípio, o termo "faculdade"
designava a matéria ensinada, por exemplo, a teologia
e, depois, o conjunto dos mestres e estudantes da mesma
disciplina: artes, teologia, direito e medicina. A
faculdade abrangia as escolas que ensinavam uma dessas
disciplinas e era dirigida pelo Conselho dos mestres sob a
orientação do deão, o professor mais antigo ou mais
idoso. Em 16 de novembro de 1219 Honório 111
prescreveu cinco anos de estudo da teologia e proibiu, sob
pena de excomunhão, o ensino do direito civil [301].
Pelo estatuto de 19 de março de 125 5, com a
prescrição oficial dos livros de Aristóteles no
programa, a faculdade de Artes transformou-se, de
fato, em Faculdade de Filosofia [302]. Numa carta de
Urbano IV de 22 de junho de 1262 aparece com
destaque a expressão Parisiensis Universitas, a
universidade de Paris [303], e em 1292 o papa
Nicolau outorgou aos mestres da universidade de Paris o
privilégio de ensinarem no mundo inteiro - ius ubique
docendi - sem precisarem fazer novo exame ([304].
30. Entrava-se na Faculdade de Artes com a idade de
15 anos. O curso durava quatro e, após longos exames
(determinatio), o estudante tornava-se bacharel. Aí
ele fazia um estágio de dois anos, a explicar textos e a
participar de exercícios escolares sob a orientação do
mestre. Findo o estágio ele obtinha a licentia docendi,
licença para ensinar, e o título de magister artium,
equivalente a doutor, com vinte e um anos, estando apto
para cursar teologia, direito ou medicina. Alguns
mestres, antes de prosseguirem os estudos, lecionavam por
alguns anos na Faculdade de Artes. Na Faculdade de
Teologia, depois de seis anos de estudos como ouvinte, o
estudante passava à categoria de bacharel. Fazia então
o estágio de dois anos como bacharel bíblico, cursor, a
explicar a Sagrada Escritura, e mais dois como bacharel
sentenciário, sententiarius, a explicar os Quatro
Livros das Sentenças de Pedro Lombardo. Só então o
bacharel conseguia a licentia docendi e era
baccalarius formatus. Depois de fazer novos exames obtinha finalmente
o título de magister in sacra pagina. Todas as provas
eram orais. De acordo com os estatutos de 1215, a
idade mínima para ensinar teologia era de 35 anos,
após o curso de Artes e os nove de Teologia [305]. O
bacharelado em direito canônico exigia 60 meses de
cursos e mais 36 a 40 meses de ensino para a obtenção
da Licença. Em medicina requeriam-se 38 meses em 4
ou 5 anos para o bacharelado. O doutorado em todas as
faculdades era a licença para ensinar. Rashdall
observa, no entanto, que não dispomos de material para
indicar com precisão a gradual extensão do período de
bacharelado e o aumento gradual em número e complicação
dos exercícios requeridos para a obtenção da alta
dignidade do doutorado teológico [306]. Com efeito, a
documentação dos cartulários e de outras fontes não
esclarece suficientemente a respeito da duração e da
distribuição dos anos na carreira teológica. Segundo
Glorieux, após sete anos de audição (depois seis),
o estudante de teologia estagiava no ensino com o objetivo
de conseguir a licença e tornar-se mestre durante quatro
anos como cursor ou bacharel bíblico (dois anos) e como
bacharel sentenciário (dois anos); e antes da licença
"ele deve permanecer em Paris durante quatro anos
completos, incluídos os da licença, continuar a
assistir às lições do mestre e dos outros bacharéis,
participar dos exercícios comuns e particularmente
sustentar alguns debates, pregar etc." [307].
Portanto, somados aos anteriores esses quatro anos de
presença contínua em Paris, têm-se os quinze anos
(14 depois) de estudos teológicos para a Licença ou
Doutoramento, pois ninguém se tornava mestre em teologia
antes dos trinta e cinco anos.
31. Antes do século XIV as universidades não
possuíam prédios próprios e as aulas eram ministradas em
salas, em claustros e até ao ar livre. Muitos
professores davam aulas na sua própria casa e os alunos
sentavam no chão coberto de palha. Em Paris a Rue du
Fouarre, a Rua da Palha, conservou no nome a
lembrança desse uso. O professor falava, tendo diante
de si uma estante para o livro, e ensinava de cima de um
estrado. A sua roupa era, de regra, um traje escuro de
compridas pregas e com capuz de pele.
32. O ano escolar começava na festa da Exaltação da
Santa Cruz (14 de setembro) e terminava a 13 de
setembro. Não havia férias propriamente ditas, como
hoje as entendemos, mas em compensação havia 79 dias
non legibiles em que o professor não dava aula, por ser
dia de festa ou por algum outro motivo. Nos dias santos,
entretanto, assim como aos domingos, havia sermão que
era um gênero didático. Os sermões, de nível
teológico elevado, eram feitos em latim, língua
própria do auditório cosmopolita, e tinham estrutura
especial. Quando morria um professor de qualquer
faculdade, suspendiam-se as aulas até passarem os
funerais. No primeiro mês escolar havia as
"introduções" solenes dos cursos dos bacharéis e os
cursos propriamente ditos começavam a 10 de outubro.
Não havia aula, também, quando havia procissão geral
da universidade e nos dias dos santos padroeiros das
nações. Além dessas folgas havia, ainda, as
suspensões propositais dos cursos, por ocasião das
greves escolares, o que aumentava bastante o número dos
feriados apontados pelos estatutos.
33. Na faculdade de artes, na parte da manhã
verificava-se o trabalho dos alunos, corrigiam-se as
composições, tomavam-se as lições, e no período
vespertino o professor dava aulas, declinatio em
gramática e lectio nas outras disciplinas. A aula
terminava com a reza do De profundis e do Pater.
Na faculdade de teologia, ao contrário, os mestres e os
bacharéis davam aula de manhã: o mestre, das sete às
nove horas, e o bacharel sentenciário, das nove ao
meio-dia. Quando o mestre não dava aula, o sentenciário
o substituía. O bacharel bíblico entendia-se com o
mestre e com o sentenciário e lecionava de manhã. No
período vespertino o bacharel bíblico dava lições,
quando não o pudera fazer antes ou havia disputas sob a
direção do mestre ou de um bacharel. O debate presidido
pelo mestre era ato oficial, levava à supensão das aulas
da manhã nas outras escolas e à assistência ao ato
vespertino. Quando havia qualquer disputa ordinária ou
solene numa escola, suspendiam-se as aulas nas outras e
os alunos iam assisti-Ia. Nos conventos dos religiosos
e nos colégios havia, de tarde, trabalho em comum,
repetições de aulas, conferências e outros exercícios
escolares. Aos domingos e dias santos, além da Santa
Missa, estudantes e mestres eram obrigados a ouvir
sermões, um de manhã e o outro, de tarde. No verão o
mestre não dava aula e os bacharéis completavam as
lições que, porventura, ainda devessem.
34. Os colégios não faziam parte da universidade,
exceto na Inglaterra, e foram fundados por pessoas
caridosas para socorrer os estudantes pobres. Eram, de
início, pensões para os clérigos pobres que aí viviam
gratuitamente como bolsistas. O seu numero cresceu tanto
em Paris, pois chegaram a trinta, antes de 1400,
que foram admitidos ricos estudantes pensionistas. Logo
os colégios começaram a ministrar aulas de preparação
à universidade e, depois, aulas de repetição e de
exercícios para reforçar o aproveitamento dos alunos. O
mais antigo em Paris foi o dos Dix-huit fundado por
Josce, burguês de Londres, em 1180, ao voltar de
Jerusalém, e o mais famoso foi criado pelo capelão de
São Luís, Roberto de Sorbon, para 16 pobres
mestres em artes, desejosos de cursar teologia. Esse
colégio da Sorbonne acabou por dar o nome, mais tarde,
às três faculdades. A viúva de Estêvão Biot fundou
em 1209 o colégio de Saint-Honoré para treze
estudantes. Um burguês de Paris estabeleceu o colégio
dos Bons-Enfants para alunos completamente desprovidos
de recursos. Outros colégios famosos foram o de
Saint-Denis, fundado pela abadia do mesmo nome, o de
Harcourt, iniciativa do cônego Roberto de Harcourt
para dez estudantes pobres das dioceses de Coutances,
Êvreux, Bayeux e Rouen, devendo entender-se que as
vagas eram de dez alunos para cada diocese. O colégio
dos Cholets foi aberto em 1291 pelo cardeal Jean
Cholet para os estudantes de teologia das dioceses de
Amiens e de Beauvais. Havia ainda os Colégios de
Navarra, Boncourt, Montaigu, etc. Certos alunos
mais desafortunados só achavam abrigo nas casas dos
burgueses e eram chamados de
martinets. Na Inglaterra os
colégios foram o centro da vida universitária:
University, Merton e Balliol em Oxford, o de
Peterhouse em Cambridge, etc. Na Inglaterra, como
diz Stephen D'Irsay, os colégios absorveram a
universidade, enquanto no continente a universidade os
assimilou.
35. Os estudantes pobres lançavam mão de vários
expedientes a fim de sobreviverem e darem conta dos
cursos. Muitos entravam como serviçais de estudantes
ricos e desse modo garantiam, pelo menos, cama e mesa.
Alguns se empregavam como copistas, iluministas,
cantores de igreja, e uma enorme porção de estudantes
viviam ao Deus-dará e passavam a vida em estrepolias,
bebedeiras, lutas e divertimentos. Os mais ilustres
representantes dessa casta foram os goliardos, sem
paradeiro e sem recursos, vagabundos e arrelientos.
Viviam como podiam e, entre os momentos de estudo,
quando ainda freqüentavam a escola, cantavam como jograis
e satirizavam nas suas canções os nobres, os burgueses,
o clero e especialmente os monges. As suas canções
foram parte da literatura profana em latim desde a metade
do século XIl até o fim do século XIII. A maior
parte das poesias pertence a autores anônimos. Muitos
goliardos só tinham o título de estudantes e eram,
muitas vezes, monges errantes que haviam posto de lado a
regra beneditina. Gostavam de celebrar o vinho, as
mulheres, a música e a vida livre e no primeiro verso de
uma quadra famosa formularam o seu grande ideal, meum est
propositum in taberna mori, é meu propósito morrer na
taberna...
36. Os estudantes das universidades, assim como os
professores, desfrutavam de grandes privilégios e isso
foi motivo de irritação para os burgueses que deviam,
ainda, suportar as impertinências de jovens estouvados e
arrogantes. Na Dieta de Roncaglia de 1158, como
já vimos, Frederico Barba-Roxa concedeu os primeiros
privilégios aos universitários. Em 1198 o papa
Celestino III decidiu que as questões de dinheiro dos
estudantes parisienses só deviam ser levadas a tribunais
eclesiásticos e não perante juízes profanos. Na
célebre proclamação de 1200, o rei Felipe Augusto
ordenou que as ofensas cometidas pelos estudantes contra os
burgueses fossem julgadas apenas pelo tribunal
eclesiástico [308]. Em outras cidades esse privilégio
passou por várias modificações. Na Itália geralmente
os crimes perpetrados por estudantes eram da alçada dos
magistrados municipais. Uma vez que na Idade Média só
os plebeus e os camponeses pagavam impostos, pois os
nobres e o clero estavam isentos de taxas, os
universitários também obtiveram essa isenção na
Itália, na França e na Espanha. Além disso, os
universitários estavam dispensados doserviço militar,
tanto em tempo de guerra como em tempo de paz, quando
serviam como guardas da milícia urbana. Professores e
estudantes não podiam ser distraídos do trabalho
intelectual, exceto nos casos de grave perigo, quando os
inimigos estivessem a pequena distância da cidade. Na
Itália houve privilégios dessa espécie, mas a
isenção total do serviço militar só era concedida aos
membros mais elevados da universidade. Assim, na
universidade de Ferrara estavam dispensados de qualquer
serviço militar os doutores em direito, medicina e artes
liberais. Convém lembrar, no entanto, que esse
privilégio foi muitas vezes contestado sem êxito. Por
outro lado, em muitas ocasiões os universitários
apresentaram-se como voluntários para defender a cidade,
como o fizeram os parisienses em 1356 [309]. Outros
privilégios de que desfrutaram as universidades foram a
greve, cessatio, de que se usou e abusou
freqüentemente; a transferência do Studium para outra
cidade, migratio, e outras pequenas vantagens como, por
exemplo, alguns ingressos gratuitos para os espetáculos
dos comediantes; uma botija de brandy dos negociantes de
bebidas na festa da Epifania e o gozo de prebendas
rendosas sem a obrigação de ofício e residência.
Segundo Savigny, os judeus de Bolonha deviam pagar uma
bela soma à universidade de Direito, e outra pouco menor
à universidade de Artes para os festejos do carnaval
[310]. Por fim, é preciso observar que os
funcionários das universidades, como, por exemplo, os
bedéis, os copistas e os serviçais dos estudantes,
também gozavam dos privilégios e Compayré chega a dizer
que as universidades conservavam a prosperidade mais devido
aos seus privilégios do que pela atração do seu ensino
[311].
37. No começo do século XIII foram estabelecidas
a primeiras Ordens Mendicantes por São Francisco de
Assis e por São Domingos de Gusmão. Essas novas
instituições religiosas correspondiam ao espírito da
época, uma vez que os monges viviam fechados nos seus
mosteiros levados pelo ideal da santificação pessoal e do
louvor divino e só participaram de atividades
missionárias na primeira Idade Média devido à
convocação feita pelos papas e por terem sido então o
único manípulo. organizado de que a Igreja pudera
lançar mão para a envangelização dos bárbaros. No
século XIII os frades mendicantes nutrem outro ideal
pois, além de buscarem a própria santificação, têm
por objetivo prestar serviços especiais ao povo cristão.
Assim, os franciscanos adotam a mais estrita pobreza de
vida, como advertência evangélica contra o perigo das
riquezas na época de renovação econômica, assim como
também se dedicam à pregação da penitência aos pobres
e aos burgueses principalmente, tendo ainda se dedicado à
atividade docente nas universidades. Os frades
dominicanos, por sua vez, surgiram no cenário do combate
à heresia albigense e São Domingos percebeu que a
Igreja precisava de pregadores santos e ilustrados,
penitentes e sábios e, por isso, fundou a Ordem dos
Pregadores que brilharia de modo especial nas cátedras
universitárias, além de desenvolver apostolado urbano e
missionário. Os franciscanos ou Irmãos Menores eram,
de início, leigos devotos e penitentes e sem a pretensão
de estudos. Segundo o ideal de São Francisco, eles
deviam testemunhar o Cristo no mundo pela sua vida pobre e
penitente. A Ordem dos Frades Menores nasceu em
1209. Os dominicanos ou Pregadores, embora também
fossem pobres e penitentes, deviam trabalhar pelo reino de
Deus na terra por meio do estudo assíduo da Sagrada
Escritura e depois pelo da filosofia, pela pregação e
pelo ideal da vida mista, isto é, dedicada à
contemplação da verdade divina e ao apostolado, máxime
nos centros urbanos e, ainda mais, nas cidades
universitárias. Logo, porém, os franciscanos também
passaram a cultivar os bons estudos, estimulados sobretudo
por São Boaventura, ao mesmo tempo que professores
universitários de Bolonha e de Paris ingressavam nessas
duas ordens religiosas. São Francisco de Assis
(1182-1226) e São Domingos de Gusmão
(1170-1221) procuraram regenerar o mundo
cristão carcomido pela crescente ambição do dinheiro e
do lucro, pela falta de fervor, pela riqueza do clero e
pelos pretensos reformadores da Igreja, os hereges que
iludiram o povo cristão e semearam o erro teológico e a
cizânia e chegaram até mesmo a provocar lutas fratricidas
como o fez, por exemplo, a heresia albigense no sul da
França. Aliás, foi também para combatê-la com as
armas do pensamento que a Igreja fundou a universidade de
Toulouse em 1227. Os franciscanos foram arautos de
autêntica reforma dos costumes com o exemplo de vida
humilde, austera e fervorosa, vida de oração intensa,
pobreza e penitência. Os dominicanos, sobre serem
também austeros e piedosos, defenderam a Igreja e
anunciaram o reino de Deus por meio de pregações
doutrinárias e profundas, com os livros e a intensa vida
de estudo. São Domingos fundou a Ordem dos Pregadores
- daí as iniciais apostas aos nomes dos dominicanos:
O.P. - em 1215, tendo adotado a Regra de Santo
Agostinho, certos costumes premonstratenses e tendo
conferido a essas normas novo espírito e nova direção,
de acordo com o seu ideal. Em 22 de dezembro de
1216 o papa Honório III confirmou o nome e a
missão dos Pregadores. A Ordem Dominicana estava
oficialmente reconhecida pela Igreja e logo se introduziu
na universidade de Paris onde refulgiram seus filhos
Santo Aberto Magno e Santo Tomás de Aquino [312].
38. Mandonnet demonstra em substancioso artigo que no
início do século XIII lavrava na Europa cristã
profunda crise escolar, quando se fundou a Ordem dos
Pregadores de que os papas se valeram para a debelar. No
século XII verificou-se o duplo fato do progresso,
cultural notável numa parte do clero por meio de grandes e
florescentes escolas e uma ignorância espantosa na maior
parte do mundo eclesiástico sem meios de se instruir nas
várias dioceses da Europa. "Os clérigos que
estudavam, diz Mandonnet, dedicavam-se às ciências
lucrativas, sobretudo ao direito civil e ao
eclesiástico, e os prelados, em geral, eram juristas e
não teólogos" [313]. Até mesmo em Bolonha, grande
centro universitário, faltou mestre de teologia para os
clérigos desejosos de receberem o sacerdócio, tanto que
em 1219 ou 1220 o bispo de Bolonha recorreu a
mestre Aycardus, arcebispo de Reggio, para que viesse
ensinar teologia na sua cidade. Uma das razões dessa
carência de professores de teologia era que as dioceses,
sobrecarregadas de compromissos financeiros, não
dispunham de benefícios para manter um mestre de
teologia, como o decretara o III Concilio de Latrão
de 1179. Com o surgimento e a difusão da Ordem de
São Domingos, a Igreja pôde contar com teólogos
seguros e brilhantes para as cátedras universitárias e
para a formação do clero secular, já que os
conventos-escolas dos Pregadores estavam estabelecidos
por toda parte.
39. O papa Honório III favoreceu a instalação
dos dominicanos e franciscanos em Paris e em 1220
recomendou-os aos mestres da universidade. Em 1231
Alexandre de Hales, mestre de teologia da universidade
de Paris, ingressou na ordem franciscana e assim os
frades Menores conseguiram a sua primeira cátedra na
universidade. Os dominicanos instalaram-se em Paris em
1218, chegaram a Oxford em 1221 onde se lhes
reuniram os Frades Menores em 1224. Os primeiros
dominicanos de Paris freqüentaram o curso de teologia de
Mestre João de Barastre, seu benfeitor e, em
1229, o bispo de Paris confiou uma cátedra.
universitária ao dominicano Rolando de Cremona que foi
substituído em 1230 pelo discípulo e confrade Hugo
de Saint-Cher. Em 22 de setembro de 1230, Jean
de Saint Gilles, mestre secular, tornou-se dominicano
e conservou o cargo, o que deu aos dominicanos mais uma
cátedra na faculdade de teologia. A concorrência das
novas ordens mendicantes no magistério universitário, a
excelência e o brilho dos seus mestres excitaram o ciúme
e a rivalidade dos mestres seculares que, a partir de
1252, desencadearam tremenda campanha contra os
franciscanos e máxime contra os dominicanos e que
terminou, após a fase mais aguda, com o reconhecimento
dos títulos universitários dos Frades mendicantes
prestigiados e protegidos pela Santa Sé. Nessa luta
distinguiu-se, como corifeu dos seculares, Guilherme do
Santo Amor que escreveu a obra Os Perigos dos últimos
Tempos, enquanto os mendicantes eram defendidos por
Santo Tomás de Aquino, São Boaventura e por vários
outros teólogos [314].
40. Convém notar que a luta dos seculares contra as
ordens mendicantes no século XIII em Paris não foi
uma questão entre leigos e eclesiásticos a confutarem
pelo domínio da universidade, como poderia pensar hoje um
leitor apressado de mentalidade laicista. Essa luta foi
uma disputa interna da universidade entre mestres
eclesiásticos -diocesanos, padres seculares, e mestres
eclesiásticos regulares, isto é, padres membros de
ordens religiosas, e no caso franciscanos e dominicanos,
que se candidatavam com todo direito ao magistério na
faculdade de teologia. Como ensina Congar em brilhante
estudo sobre esse assunto, os mestres seculares combatiam
os frades e lhes negavam o direito de pregar e confessar
sem a autorização dos párocos, criticavam o estado de
pobreza e mendicância e não os aceitavam como membros da
universidade não só por ciúme e interesse pessoal como,
também, devido a certa concepção da vida
eclesiástica, do direito público da Igreja e da sua
estrutura, o Ordo Ecclesiasticus [315].
41. Durante os séculos XIV e XV as universidades
multiplicaram-se através da Europa mas começaram a
perder as suas características. Primeiro, aos poucos
foram sendo despojadas da sua autonomia, como dos seus
outros privilégios, e agregadas ao carro do Estado
crescentemente centralizador. Depois, as universidades
mais ilustres, como as de Paris e Bolonha, começaram a
perder o seu caráter internacional devido à instauração
de novas universidades em vários países europeus. Ao
lado desses dois fatos salientes, é preciso inscrever a
decadência do próprio espírito universitário à medida
em que o intelectual da Idade Média era substituído
pelo humanista e pelo senhor da cátedra universitária,
encastoado na função docente por nepotismo ou proteção
política, e não por mérito, tão diferente do mestre
universitário que era um verdadeiro trabalhador
intelectual nas escolas de artes, direito, medicina e
teologia. Força é reconhecer com Daly S. J. que o
primeiro débito da universidade moderna para com a sua
predecessora medieval é a sua própria existência, pois
a universidade, repitamo-lo, foi criação original da
Idade Média. E o segundo débito reside no
reconhecimento de que ela crina. também, o moderno
profissional europeu e americano, isto é, os doutores,
os juristas e os professores, preparados duma forma com a
qual as grandes civilizações pagãs jamais sonharam
[316]. Isso revela um dos aspectos culturais mais
notáveis da Idade Média que deixou a sua marca
indelével no património da cultura ocidental e mundial,
uma vez que esse tipo de escola superior se difundiu pelo
mundo inteiro com indizíveis benefícios sociais. Como
lembra Haskins no começo do seu luminoso livrinho The
Rise of Universities, a universidade medieval, segundo
Pasquier, foi construída com homens, bâtie en hommes.
Essa universidade não dependia de empresários ou
governantes, não publicava catálogos, não tinha
grêmios escolares - a não ser o grande grêmio ou
corporação que ela própria formava - não tinha jornal
universitário nem atividades teatrais ou esportivas e, no
entanto, a universidade do século XX é descendente em
linha reta das escolas medievais de Paris e Bolonha, "a
rocha de que fomos talhados, o poço de mina de que fomos
extraídos". Em suma, concluamos, compete aos
universitários de hoje manter acesa a chama do entusiasmo
que os mestres e os estudantes acenderam em Paris e em
Bolonha no decurso dos séculos XII e XIII sob a
proteção benévola e o amparo estimulante da Igreja
Católica e dos príncipes cristãos.
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