CAPÍTULO IX. A ESCOLÁSTICA.

1. Preconceito muito difundido a não examinado no capítulo inicial deste livro, é o que vamos exorcizar com paciência a com a plena convicção de prestarmos a muitos estudiosos serviço de subido valor. Isso não quer dizer que só tratamos agora de volatizar o inveterado preconceito, pois a escolástica, como já o indicamos, constitui pane integrante do terra universidade. Todavia, ao mesmo passo em que vamos examinar o seu significado, estaremos a desfazer os equívocos em que as circunstâncias históricas e a malevolência a envolveram. De regra, só se profere o termo escolástica envolto em tom depreciativo, quando se padece de ignorância vencível a seu respeito ou quando se é dominado por uma dessas manias ou fobias que só o ódio sectário é capaz de instilar. Uma pessoa nessas condições, entretanto; é digna de lástima a nunca poderá estudar devidamente um assunto ensopado de preconceito, se não se libertar dessa escravidão "idolátrica", tal como Bacon define os idola specus, os ferrenhos preconceitos amadurecidos no seio da família ou ao sabor das leituras ou de informações levianas tomadas a sério, a que se encrostam no foro íntimo de tal modo que não se é capaz, às vezes, nem sequer de avaliar a calamitosa situação, mental em que se passou a viver, já que o espírito crítico ficou anestesiado e a mente sujeita à servidão do erro.

2. Muitas pessoas aludem pejorativamente à escolástica, como se este termo fosse sinônimo de obscurantismo, de filosofia dogmática, sistema fechado de pensamento, atraso cultural, verbalismo e psitacismo. Na verdade, nessas expressões do preconceito é possível discernir-se algum aspecto que o pensamento medieval possa ter revestido, tal como o dogmatismo e o servilismo filosófico dos averroístas ou o verbalismo ou o logicismo dos nominalistas, pois averroísmo a nominalismo foram algumas das formas históricas da filosofia medieval mas que não representam a sua melhor forma nem o seu paradigma nem a sua mais valiosa contribuição para o patrimônio cultural do Ocidente. )r preciso saber que a escolástica começou a formar-se desde o início da Idade Média a que atingiu o seu máximo esplendor no século XIII, tendo entrado em declínio nos séculos XIV a XV, de tal maneira que a chamada decadência da escolástica corresponde a efetivas mazelas que inquinaram o pensamento medieval a lhe valeram os apodos dos humanistas a as críticas dos próprios escolásticos inconformados com os abusos que afetaram as doutrinas a os métodos didáticos usados nas universidades a nos livros. Não se define o sol, porém, pelas suas manchas nem se canoniza um santo pelos pecados que porventura cometeu. Os abusos da escolástica foram como o cancro que inutiliza os vegetais a desfigura a infelicita os animais a os homens.

3. Grabmann distinguiu entre a forma externa da escolástica transmissão de conhecimentos em fórmulas fixas, através de determinados gêneros didáticos a literários - e a sua essência íntima, as suas características filosóficas profundas a os fatores básicos de sustentação dos métodos a das técnicas de ensino. Grabmann levou em consideração sobretudo a história da teologia a da filosofia. Depois de considerarmos essa íntima essência da escolástica segundo Grabmann, parece-nos mais apropriado, do ponto de vista da história da educação, considerar a escolástica como um método de pensamento a de ensino a como um conjunto de doutrinas. A escolástica foi um método de pensamento a de ensino que surgiu a se formou nas escolas medievais a se plasmou de modo inexcedível nas universidades do século XIII, máxime através do magistério a das obras de Santo Tomás de Aquino. O termo escolástica, porém, significa ainda o conjunto das doutrinas literárias, filosóficas, jurídicas, médicas a teológicas, a mais outras científicas, que se elaboraram e corporificaram no ensino das escolas universitárias do século XII ao século XV, pois não nos cabe considerar a Segunda Escolástica que floresceu na época do Renascimento. Por conseguinte, após a caracterização geral da escolástica, convém aplicar o termo, e analisá-lo, a realidades interdependentes mas distintas, a saber, um método a múltiplas doutrinas pertencentes a várias áreas do conhecimento.

Quando se considera o conjunto de doutrinas que o termo escolástica abrange a quando se observa que é a filosofia a disciplina que exprime os seus aspectos mais salientes, pode afirmar-se com Grabmann que a escolástica é um modo de pensar a um sistema de concepções em que se valoriza a vida terrena como dom admirável de que usufruímos para o nosso bem a para o nosso desenvolvimento pessoal a em que se admite que o ser do homem não se esgota no breve tempo da sua existência terrena, uma vez que o homem tem um fim supraterreno a eterno e o destino de uma vida interminável, sobre poder crescer ainda neste mundo na vida sobrenatural que ele obtém através do batismo. Portanto, num primeiro momento, casam-se na escolástica a concepção filosófica da vida terrena, da sua transcendência às limitações deste mundo e a mundivivência cristã em que a revelação de Cristo assegura que a vida continua além da morte, que um destino feliz ou infeliz aguarda o homem conforme o seu modo de viver na terra, a que neste mundo já é possível ao homem nascer para a vida sobrenatural a nela crescer ate que possa, após a morte, fixar-se num estado definitivo de completa beatitude ou de felicidade eterna.

5. Essa conjunção da visão metafísica do ser humano com a doutrina cristã dirigiu os pensadores à consideração dos seres e, finalmente, do próprio Ser que lhes fundamenta a justifica a existência. Por isso, conforme Grabmann, a filosofia escolástica ostenta, antes de tudo, um selo metafísico. E essa é a razão pela qual os escolásticos tiveram tanto apreço por Aristóteles que na sua Metafísica empreendeu com êxito o primeiro e o mais notável estudo já realizado sobre o ser, estudo que ele denominou filosofia primeira, ciência da verdade e teologia, a que Andrônico de Rodes designou como tá metá ta physiká, isto é, "os livros depois da física", expressão que veio a servir de título para a obra, tal como é universalmente conhecida: Metafísica [317].

6. Por outro lado, o pensamento medieval foi determinado essencialmente pelos dois fatores da auctoritas e da ratio. Esses fatores do pensamento, por sua vez, condicionaram o desenvolvimento do método escolástico através de processos de ensino a de técnicas de trabalho em grupo. A escola medieval é principalmente, no seu período áureo, a escola superior, a universidade; utiliza autores especiais, trabalha com os seus textos prediletos. Assim, auctoritas em teologia é o ensinamento da Igreja, é o texto da Sagrada Escritura, são as obras dos Santos Padres a as Atas dos Concílios. Em filosofia, são as obras de Aristóteles, os livros de Boécio a de Santo Agostinho, etc. Na área do direito, a auctoritas são os livros do Corpus Iuris Civilis, a em medicina, as obras de Hipócrates e Galeno, dos médicos árabes e judeus. A ratio, por sua vez, vem a ser a razão humana, isto é, o uso constante do raciocínio, a prática da reflexão filosófica, a disposição do pensamento em argumentações silogísticas, o recurso à dialética, o gosto das discussões. Se o escolástico trabalha com textos a se ampara nas autoridades, ele confia igualmente no poder da razão, investiga as regras do pensamento racional a as aplica às suss investigações filosóficas a só admite uma conclusão depois de maduro exame, de acirradas discussões e de completa demonstração com o emprego de silogismos. Por isso, diz Grabmann, os excessos que levaram ao declínio da escolástica decorreram de abusos da auctoritas e da ratio. A exaltação da autoridade levou a um tradicionalismo hiperconservador, à recepção e à compilação rotineiras de coisas já investigadas e transmitidas nos livros e que conferiram a certa escolástica o papel mumificador de repositório de conclusões definitivas e intransponíveis. Do exagero da ratio, do raciocínio, da dialética, resultou a mania da sutileza e do artifício ideológico, "uma hiperdialética que pensa em abstrato e faz das auctoritates o objeto de habilidades conceptuais sem apreciar objetivamente o material das fontes" [318].

7. No mais antigo comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, escrito por Pedro de Poitiers, depara-se com a menção do método peculiar ao doutor escolástico e que consiste na aplicação da lógica à doutrina sagrada [319]. De modo ainda mais preciso refere-se Pedro de Cápua em sua Suma, do início do século XIII, ao método teológico que aparece com nítida feição escolástica. Pedro de Cápua socorre-se de metáfora arquitetônica e diz que primeiro se lançam os alicerces das autoridades; em segundo lugar, levantam-se as paredes dos argumentos e das questões e, em terceiro lugar, estende-se o teto das soluções e das razões, de tal forma que na casa de Deus a autoridade propõe o que é certo, a argumentação ou questão discute e, por fim, a razão explica e esclarece o assunto [320]. Finalmente, acha-se num passo de um Quodlibet de Santo Tomás de Aquino o enunciado perfeito do método escolástico usado no. estudo da teologia. Diz Santo Tomás que a disputatio ou debate serve para dissipar as dúvidas e, nesse caso, recorre-se às autoridades admitidas pelos interlocutores com os quais se discute... Outra espécie de disputatio ou debate é a que se verifica nas escolas com o objetivo de instruir os alunos e dirigi-los rumo à verdade e não com o de expungir o erro; e, nesse caso, cumpre apoiar-se em sólidas razões e procedentes investigações para se demonstrar ser verdadeiro o que se diz, pois o simples argumento de autoridade só proporcionaria certeza ao aluno de que a questão é essa tal, mas não lhe dispensaria conhecimento, nem o aluno perceberia a razão profunda da afirmação feita pela autoridade [321]. E, nota Grabmann, Santo Tomás está a inculcar que a verdade teológica se conquista através dos recursos proporcionados pela Auctoritas e pela Ratio [322].

8. Esses passos ora aduzidos revelam a íntima essência da teologia escolástica que foi anunciada por Boécio no início da Idade Média, ao utilizar a filosofia no estudo da doutrina cristã nos seus opuscula sacra. Foi no século XI, entretanto, que Santo Anselmo de Cantuária iniciou a elaboração da teologia escolástica ao aplicar, por exemplo, as categorias de Aristóteles ao exame do mistério da Santíssima Trindade, no seu livro Monológion, e ao investigar racionalmente a existência de Deus no Proslógion, o que levou o historiador Grabmann a denominá-lo Pai da Escolástica. No século XII Abelardo, apesar de suas turbulências e ousadias, concorreu grandemente para a constituição da Escolástica, tanto quanto à sua forma extrínseca, quanto à sua íntima essência, máxime nos tratados Sic et Non, Introductio ad Theologiam e Theologia Christiana. No Sic et Non inaugura Abelardo no estudo da teologia o uso da questão oriunda do confronto de diferentes opiniões dos Padres da Igreja, mas que nessa obra ele não resolve, como p devia fazer em classe, e como o fez ao tratar de modo sistemático de muitas das suas questões na Introdução d Teologia e na Teologia Cristã. No fim do prólogo do Sic et Non declara Abelardo que recorreu ao processo da contraposição das opiniões dos Santos Padres, porque ele se presta para exercitar o engenho dos jovens estudantes, levandoos à investigação atenta e alerta, uma vez que "a interrogação assídua define-se como a primeira chave da sabedoria e é duvidando que se chega à verdade" [323]. Aliás, no início do prólogo Abelardo chama a atenção para o cuidado que se deve ter com a análise dos termos, já que "a significação própria das palavras" é desconhecida de muitos leitores, sobre variarem os significados dos vocábulos conforme a suposição em que são usados. Por sinal que advertências desse gênero foram muito freqüentes nas obras de Santo Tomás de Aquino e de outros escolásticos.

9. Não se veja no recurso às autoridades doesto com que adumbrar o método escolástico, pois o apego a certos mestres, textos e livros é peculiar ao ensino universitário de nosso tempo, quando em muitos departamentos de filosofia, por exemplo, se recorre anualmente às mesmas autoridades, aos mestres preferidos: Spinoza ou Kant, Marx ou Dewey, Husserl ou Heidegger, etc., mas geralmente sem a abertura da escolástica para o exame honesto de todas as sentenças relativas a determinado problema.

10. A escolástica foi método e doutrina que nasceram, cresceram e se aperfeiçoaram nas escolas, desde os modestos recintos monásticos até às rútilas cátedras universitárias. Da tradição antiga mantiveram-se na primeira parte da Idade Média os comentários que os professores teciam aos textos examinados em classe, pálido vestígio dos freqüentes e, por vezes, imensos comentários que os autores antigos compuseram sobre obras filosóficas, literárias e religiosas e que se estenderam às científicas na Idade Média, especialmente à volta dos séculos X, XI e XII. Outro processo fundamental da tradição pedagógica no ensino da retórica foi a imitação dos bons autores, praticada nos exercícios literários e filosóficos na escola medieval. Inicialmente, nas escolas monásticas o método consistia na simples leitura de um texto, por exemplo os Distica Catonis, e no respectivo comentário. Valafrido Estrabão conta no seu Diário que no ano de 818, no curso de gramática, leu obras de Alcuíno, os dísticos de Catão, poemas de Próspero, Juvenco e Sedúlio e que nas aulas noturnas os alunos "expunham as suas opiniões" ao professor. Para exercitar a memória decoravam hinos eclesiásticos. No ano de 820, no curso de retórica, diz Valafrido, "comentamos e lemos os escritos retóricos de Cícero". Pois bem, nos séculos seguintes, aprimoraram-se esses processos didáticos da leitura e do comentário.

11. A primeira forma fundamental do ensino, o processo básico, era a lectio, a leitura dos textos que proporcionava a aquisição do conhecimento e constituía o marco inicial da formação da cultura. Por isso, o mestre era um lector ou legens, e daí o termo português "lente", o que lê. Todas as disciplinas dos cursos universitários, as sete artes liberais, o direito civil e o eclesiástico, a filosofia e a teologia assim como a medicina, eram ensinados com base nos textos. Legere, ler, em linguagem universitária significava ensinar e quando a Igreja proibiu a leitura de Aristóteles devido ao perigo para a fé causado pela mescla dos comentários averroístas com os ensinamentos aristotélicos, ela vetou, de fato, o ensino público da doutrina de Aristóteles. Nas várias disciplinas a leitura fazia-se em obras que tinham autoridades e serviam de modelos, tal como Prisciano em gramática, Cícero em retórica, Aristóteles na dialética, etc. Os textos tornaram-se princípio de estagnação, explica Chenu, desde que os estudiosos se limitaram à sua letra como se fosse o conhecimento definitivo, o único objetivo do saber, de forma que, por exemplo, saber medicina era conhecer o Canon de Avicena e não o corpo do homem, e saber filosofia era conhecer a doutrina de Aristóteles e não investigar as causas dos seres e o significado da existência [324].

12. Segundo os Estatutos de 1215 da Universidade de Paris, havia duas maneiras le "ler" Aristóteles: ler ordinarie e ler cursorie [325]. Ler ordinarie era fazer uma exposição com explicações e comentários do pensamento do autor, procedendo no estudo da Bíblia às interpretações literal e espiritual, e esta desdobrava-se na alegórica, na simbólica e na anagógica [326]. Ler cursorie era ler rápido, ad litteram, ao pé da letra sem analisar problemas doutrinários nem se deter nas minúcias da interpretação. Littera era a simples explicação de palavras e frases. Sensus era a análise dos significados dos termos e a explicação em linguagem clara do texto examinado. Finalmente, sententia era a imersão no texto à cata da sua compreensão profunda, da intenção do autor, assim como a dedução de conclusões que ultrapassassem a exegese textual. A glosa nas letras, na teologia ou no direito e na medicina, era o breve comentário de um termo ou de um passo, feito de modo conciso e claro. O seu resultado eram as notas escritas entre as linhas do texto, glosa interlinear, ou à margem da página, glosa marginal. As notas interlineares referiam-se à littera e ao sensus e as notas marginais, à sententia. No século XII a glosa desenvolveu-se num comentário mais amplo que, devido à extensão, não se escreveu mais à margem, mas se tomou um texto autônomo tal como, por exemplo, os comentários de Santo Tomás de Aquino às obras de Aristóteles [327].

13. A collatio, colação, era na escola monástica uma conferência ou alocução piedosa que servia para a instrução dos monges ou dos estudantes. Na vida universitária foi uma troca de impressões entre os estudantes ou a livre discussão de um tema orientada pelo mestre e realizada uma vez por semana ou cada quinze dias. Muitas vezes surgiam da lectio dificuldades relativas à letra, ao sentido ou à sentença dos textos e que desbordavam das glosas no confronto de opiniões opostas, de dificuldades que provocavam debates com a apresentação de argumentações contrárias e de uma solução final. A evolução da lectio à quaestio pode ser bem acompanhada no domínio da teologia. A questão tornou-se, enquanto o problema dialético da lógica aristotélica, o eixo do método escolástico em que um tema é examinado de modo exaustivo. Proposto o assunto, examinam-se as concepções mais expressivas que se lhe referem, as opiniões contrárias e as sentenças favoráveis à solução aventada. No corpo do artigo resolve-se o problema através de demonstração em forma silogística e, por último, analisam-se as sentenças propostas anteriormente, aprofundando-se o seu significado e destacando-se os seus aspectos positivos ou refutando-se os pontos de vista inadmissíveis.

14. A disputa - quaestio disputata - nasceu da lectio através da questão e se tornou exercício autônomo próprio do mestre universitário que a organizava para os seus estudantes. Ocorria no período vespertino e era sustentada pelos bacharéis ou pelo próprio mestre com a participação dos alunos que propunham objeções, A disputa de quolibet era uma questão extraordinária ou disputa solene realizada duas vezes por ano, perto do Natal e da Páscoa. Nessa ocasião os mestres de teologia ou de artes sustentavam uma disputa em que os temas eram imprevistos por serem escolhidos na hora pelos assistentes e as perguntas podiam referir-se a qualquer assunto. Daí o nome dessa disputa: de quolibet. As Quaestiones quodlibetales constituem o modelo primoroso do gênero. Como diz Chenu, "a disputa era o torneio dos clérigos". No dia marcado, sob a direção do mestre, o bacharel sustentava a disputa contra doutores, bacharéis e estudantes numa verdadeira desordem de temas, ataques e respostas. Noutro dia, o mestre ordenava o assunto e procedia à determinatio, isto é, resolvia de modo autorizado e categórico a questão. Desse modo, a universidade medieval era um ambiente animado pelas investigações, pelos debates e pela atividade dos alunos e professores. Nela não existia esse processo didático exclusivo, monótono e rotineiro de meras aulas expositivas e de modo algum os alunos se mostravam ouvintes passivos a repetirem cegamente as palavras do professor. O método extravagante do magister dixit foi invenção antiga dos pitagóricos que nunca se acomodou aos processos ativos e vivazes do método escolástico, mas que se perpetuou nas práticas da escola renascentista decadente, do século XVII quase até os nossos dias, quando a renovação didática da pedagogia moderna retomou o espírito e as técnicas da universidade medieval.

15. O método escolástico desenvolveu-se sob a inspiração e o estímulo da lógica aristotélica. A técnica da disputa é inculcada e regrada especialmente nos Segundos Analíticos, nos Tópicos e nas Refutações dos Sofismas, os três últimos livros do Organon. Desde o século XII observa-se a citação freqüente dos Tópicos como verdadeiro manual de instruções para as disputas. Logo após a metade do século XIII, o franciscano Gilberto de Tournai consagrou um capítulo do seu tratado de pedagogia De modo addiscendi às disputas e mencionou os Tópicos. No capítulo X da Quarta Parte ele demonstra que o engenho - poder da alma que investiga o que não se conhece, segundo Gilberto - se aguça por meio das disputas e nestas é preciso levar em conta a intenção, o modo, a ordem e a cautela. A disputa deve ser conduzida com reta intenção e não deve ter por fim a vanglória, o espírito de contradição, o encobrimento da própria ignorância nem a subversão da verdade. Bem ao contrário, a disputa deve objetivar o aguçamento do engenho, o conhecimento da verdade, a instrução, a edificação do próximo e a refutação do erro. Em segundo lugar, ensina Gilberto, a disputa deve ser estruturada com o tema, as oposições e as respostas, e o responsável pelo debate deve ater-se ao essencial sem atacar a pessoa ou o nome do contendor, procurando sempre atingir a verdade, a menos que, de propósito, sustente a falsidade de caso pensado como recurso metódico, para ver o que daí resulta. Na disputa é fundamental assegurar-se dos princípios e essa ordem impõe-se ainda mais na faculdade de teologia, "para que a disputa se inicie com proposição admitida pela fé". E aí que Gilberto cita os Tópicos com afirmar: "Aristóteles ensina a ordem a ser observada nas disputas e a técnica do debate tanto nos Tópicos quanto nos Elencos'' [328]. E Gilberto de advertir: "De resto, não vejo como possa disputar sutilmente em alguma ciência quem não sabe dialética." Ademais, acrescenta, é necessário conhecer os sofismas, a fim de os desmascarar e refutar. Em terceiro lugar, nas disputas os contendores devem proceder com seriedade interior e com honestidade externa. Por último, é preciso agir com discrição, "com as cautelas da sabedoria". O argüidor deve evitar os seguintes escolhos: questões inúteis, demonstração supérflua de coisas evidentes, discursos empolados, proposições obscuras, afirmações falsas e improváveis e conclusões sofísticas. O respondedor, por sua vez, deve ponderar o que diz e não afirmar o que não convém e deve agir diversamente com os diferentes argüidores, por exemplo, com o curioso, o tentador, o investigador da verdade ou com o herege. Só se responda, recomenda Gilberto; o que for útil aos ouvintes e nas disputas com os hereges recorra-se, também, à oração.

16. A expressão literária do método escolástico apresenta-se através de vários gêneros. Houve livros escritos com o caráter de introdução à filosofia, tal como os tratados De divisione philosophiae de Domingos Gundissalvo, o De ortu scientiarum de Roberto Kilwardby, etc. Outros eram compêndios com exercícios de lógica; tal foi o gênero dos Sophismata com os Impossibilia, os Insolubilia. Classe especial de literatura escolar foram os comentários sobre as obras de Aristóteles compostos por Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, Egídio Romano, Pedro de Auvergne, Duns Scotus e outros. Houve, ainda, os opúsculos filosóficos como os de Santo Alberto Magno e de Santo Tomás de Aquino; a literatura das questões como as Quaestiones Disputatae de Santo Tomás de Aquino, Mateus de Aquasparta, Bernardo de Trília, João de Nápoles e outros. Tiveram muita aceitação e prestaram ótimos serviços as enciclopédias como a De proprietatibus rerum de Bartolomeu, o Inglês; De naturis rerum de Tomás de Cantimpré; o Speculum Maius do dominicano Vicente de Beauvais; a Catena entium de Henrique de Herford, etc. Compuseram-se também sumas filosóficas como a Summa de creaturis de Santo Alberto Magno, a Summa contra gentiles de Santo Tomás de Aquino e a Summa Philosophiae atribuída a Roberto Grosseteste. Além disso, as sumas teológicas contêm precioso material filosófico, tal como os vários Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo, e as Sumas Teológicas de Tomás de Aquino, Ulrico de Estrasburgo e Henrique de Gand. Aliás, conforme Chenu, as Sumas no terreno dos gêneros literários revelam a notável capacidade inventiva dos escolásticos [329]. Em todos os gêneros brilhou e avantajou-se o gênio de Santo Tomás de Aquino que, além de opúsculos, dissertações, comentários e questões disputadas e quodlibetais, compôs o maravilhoso monumento da Suma Teológica, síntese ordenada e claríssima da teologia cristã, sobre ser mina preciosa de ensinamentos filosóficos e para nós, especialmente no tratado dos hábitos, um manancial fecundo de doutrinas pedagógicas.

17. A tradução das obras filosóficas e científicas dos gregos, especialmente da enciclopédia aristotélica, impulsionou o estudo da filosofia e das ciências nas universidades e aumentou bastante graças aos novos contatos dos estudiosos ocidentais com o patrimônio da cultura grega antiga através da sua estada no Oriente depois da conquista de Constantinopla pelos guerreiros da Quarta Cruzada orientada e sustentada pela República de Veneza, quando se criou o Império Latino do Oriente, em 1204. Dessa feita, os tradutores eram homens do norte, ao contrário do século XII, quando se destacaram os centros sulinos da Sicília e de Toledo. Os dois tradutores mais importantes dessa fase foram Roberto Grosseteste, bispo de Lincoln, que foi professor dos primeiros franciscanos ingleses, e Guilherme de Moerbecke, arcebispo de Corinto em 1278, dominicano, que traduziu muitas obras de Aristóteles e de seus comentadores gregos, a pedido do seu confrade Santo Tomás de Aquino. Roberto Grosseteste, por sua vez, traduziu a Ética de Nicômaco com os seus comentários gregos; o De caelo (do livro I até ao fim do começo do III com o comentário de Simplício); as obras pseudoaristotélicas De virtute e De lineis indivisibilibus; as Epístolas de Santo Inácio de Antioquia; o Testamento dos XII Patriarcas, as obras do Pseudo-Dionísio com os comentários de Máximo o Confessor e os escólios; o De vita monachorum, e o De fide orthodoxa, e mais De hymno trisagio, Logica, De haeresibus e a Introductio dogmatum elementaris de São João Damasceno; o De passionibus do Pseudo-Andronicus e o Lexicon de Suidas.

18. Guilherme de Moerbecke fez novas traduções de Aristóteles e pôs em boa forma latina os Libri naturales, a Metafísica, a Ética, a Política, a Retórica, a Poética e o De animalibus. Traduziu, também, comentários gregos sobre Aristóteles escritos por Amônio, Simplício, Alexandre de Afrodísias, Temístio e João Filopono. Traduziu, ainda, Elementatio Theologica de Proclo, escritos de Arquimedes, Eustóquio, Ptolomeu o Geógrafo, Heron; o De alimentis de Galeno e o De prognosticationibus aegritudinum secundum motum lunae do Pseudo-Hipócrates. Se levarmos em conta as obras já traduzidas de Aristóteles durante o século XII, pode afirmar-se que, à volta de 1200, a maior parte da obra aristotélica já estava ao alcance dos estudiosos latinos. As obras de Averróis não foram conhecidas antes de 1230. Em artigo de 1933, La première entrée d'Averroës chez les Latins, De Vaux indica como a opinião mais provável a que assegura terem sido feitas as primeiras traduções de Averróis na corte da Sicília a partir de 1227 por uma equipe de tradutores, cujo principal representante era Miguel Scot, e terem sido introduzidas nos meios universitários a partir de 1231. O medievalista Van Steenberghen sustenta que as primeiras citações de Averróis podem ler-se na obra De universo e no De anima de Guilherme de Auvergne, compostas, ao que tudo indica, entre 1231 e 1236, e afirma que em 1240 estava terminada a penetração no Ocidente das obras do Cordovês. Essas obras foram acolhidas com simpatia e sem desconfiança e demorou para que os escolásticos percebessem a verdadeira natureza do averroísmo e se precatassem contra os seus erros [330]. No ano de 1263, Manfredo, rei da Sicília, na corrente das traduções e das contribuições culturais, deu de presente aos estudiosos da filosofia da universidade de Paris os livros de Aristóteles e de outros filósofos que ele próprio fizera traduzir para o latim [331].

19. O fator mais relevante para o desenvolvimento da Escolástica foi a introdução das obras de Aristóteles na corrente latina dos estudos e a sua prescrição no currículo universitário. Com Aristóteles entrava no pensamento ocidental a convicção de que a filosofia é disciplina racional autônoma, relacionada intimamente com as outras e com a crença religiosa, mas distinta e independente na sua constituição e operação. Com Aristóteles alargou-se o âmbito do saber devido ao aparecimento de várias disciplinas científicas e ao enriquecimento doutrinário das já existentes. Com Aristóteles impôs-se a convicção de que o poder temporal é sociedade perfeita na sua esfera de ação e que, embora unido ao poder espiritual, dele pode destacar-se e atuar sem subserviência ou pretensão de domínio indébito. Com Aristóteles os estudiosos passaram a contar com o inigualável instrumento do filosofar - apesar dos exageros dos averroístas que instauraram o culto filosófico do Filósofo - com a sólida garantia do rigor do pensamento na lógica formal com o ideário das leis da inteligência, com os artifícios da técnica da discussão, com os recursos dialéticos para o desmascaramento e a refutação dos sofismas. E foi graças à utilização da lógica formal que se aguçou a mente dos glosadores dos textos jurídicos, filosóficos, médicos e teológicos. É muito sintomático o fato, por exemplo, de o comentário dos Aforismos de Hipócrates escrito por Magister Maurus conter importantes elementos lógicos; de um estudante de cirurgia em 1770 em Salerno ser também professor de lógica, segundo informação dada por Kristeller, e mais eloqüente, ainda, o fato de a lei de Frederico lI, à volta de 1241, prescrever três anos de estudo de lógica como pré-requisito aos estudos propriamente ditos de medicina.

20. De acordo com o mais lídimo espírito aristotélico - gosto da observação sensível, da demonstração científica e das investigações biológicas - em Salerno vários tratados de anatomia indicam a prática de demonstração anatômica em sala de aula e baseada na dissecação de animais. Tudo indica que foi Mateus Platearius o primeiro professor salernitano a proceder à dissecação de animais no início do século XII. Por outro lado, observa Kristeller, o aparecimento do comentário de obras médicas assinala a passagem da instrução prática para a teórica em Salerno e, tanto na medicina como em outras áreas onde apareceram os comentários, eles refletem um método didático baseado na leitura e na explicação dos textos de autoridades na matéria [332]. Os comentários médicos eram usados tanto em Salerno quanto alhures e serviam de compêndios didáticos. Na segunda parte do século XII deu-se um avanço pedagógico em Salerno, quando a instrução médica teórica passou a basear-se nas obras clássicas da medicina grega e árabe traduzidas por Constantino, o Africano. Desse tipo foram os Comentários de Bartolomeu aos Aforismos de Hipócrates, o do Magister Mateus à obra sobre as dietas do judeu Isaac e o famoso comentário de Maurus aos Aforismos de Hipócrates, pertencentes à segunda metade do século XII, assim como o grande comentário de Uso da Calábria aos Aforismos onde, informa Kristeller, aparece a primeira citação explícita de Aristóteles na literatura salernitana. E a obra de Urso não só contém doutrinas aristotélicas como nelas ele desenvolve um sistema de filosofia natural que servia de base firme para a teoria e a prática médicas. Está claro, portanto, que nas faculdades de medicina o ensino se desenvolveu através de exposições, leituras, comentários e debates com o auxílio da lógica aristotélica. Na universidade de Montpellier uma bula de Clemente V, de 8 de setembro de 1309, organizou o exame da licenciatura prescrevendo duas lições, uma teórica e a outra, prática, seguidas de debates. Os estudos estendiam-se por seis anos de cursos e de exercícios e por oito meses de prática. Os autores, auctoritates, do programa do curso médico repartiam-se em gregos e árabes. A parte principal cabia a Galeno e a Hipócrates, logo seguidos por Avicena e, como explica Delaruelle, "com Avicena a lógica e a metafísica tomaram posição no ensino" e ultrapassou-se a época das coleções de receitas [333].

21. Ao tratar das matérias e dos métodos didáticos no domínio jurídico da universidade de Bolonha, diz Sorbelli que pouco se sabe das cátedras e das matérias de ensino nos dois primeiros séculos, quando as lições se reduziam à declaração, ilustração e exegese das principais partes do Corpus Iuris Civilis: Código, Digesto Velho, Infortiatum, Digesto Novo e Volume. O ensino do direito canônico repousava no comentário do Decretum de Graciano, das Decretais, do Sexto e das Clementinas. Havia cursos propedêuticos com aulas preliminares ou preparatórias em que se tomavam por textos as obras intituladas De verborum significatione e De regulis iuris. Outras aulas preliminares, diferentes das anteriores, eram as Praelectiones dadas no início do ano pelo professor que iniciava o curso examinando um determinado texto e indicando os seus aspectos gerais, divisão e estrutura. As glosas eram o comentário escrito que era lido e explicado ou também era oral e composto para a exposição. Na metade do século XIII havia, também, o Aparatus, lições que proporcionavam a explicação exegética das fontes do direito civil e canônico e às quais se juntavam as considerações da casuística com a apresentação de dificuldades e a respectiva solução à luz dos textos civis ou canônicos. As Repetitiones ou Recollectae eram aulas de revisão da matéria que o professor dava de modo rápido e claro na segunda metade do ano letivo. Como coadjuvantes do ensino circulavam lições escritas: repertoria, margaritae, specula, arbores, libelli, cavillationes, breviaria, notabilia, apostillae, summae, etc. [334]. Vinogradoff observa que para os doutores de Bolonha, a partir do século XII, os livros de Justiniano eram livros sagrados, as fontes categorizadas donde deviam sair todas as deduções, e que uma das suas principais preocupações era o exame crítico do estado do texto. Ele assevera que a análise dialética dos textos foi a grande obra da escola.de Bolonha [335]. Ao caracterizar o espirito do renascimento dos estudos jurídicos, Vinogradoff realça a aplicação do método escolástico ao estudo do direito e o papel desempenhado pela lógica aristotélica na forjadura da Escolástica [336].

22. Traço típico e essencial do método escolástico é o acatamento das autoridades e o processo didático do comentário ou glosa. Alguém poderia dizer que essa técnica era atrasada e estagnante, pois o ideal seria a manifestação da criatividade didática, a pesquisa e a experimentação que levam o estudioso a novas descobertas e a novos conhecimentos. Tal observação, no entanto, é injusta e improcedente. Primeiro atente-se para o fato de que, desde o século XII, em todas as áreas de estudo procedeu-se à recuperação cultural do patrimônio antigo no mundo latino medieval, o que levou ao apego às autoridades, mas apego realizado com desembaraço e espírito crítico, como se colhe dos exemplos famosos de Abelardo e de Santo Tomás de Aquino que, junto com muitos outros mestres, não se limitaram a repetir lições tios Antigos, mas deram ao patrimônio do saber as próprias contribuições e lidaram quanto às fontes com critério pessoal e com independência de juízo. Este espirito crítico do Aquinatense manifestou-se na sua atitude e nos seus ensinamentos quanto às auctoritates. Assim, num lanço da Suma Teológica ele diz ser natural à razão humana passar gradualmente do imperfeito ao perfeito e, por isso, os primeiros filósofos deixaram obra imperfeita que os seus sucessores viriam aperfeiçoar [337]. Ademais, acrescenta o grande mestre num passo famoso do seu comentário ao De anima de Aristóteles: "Devem escutar-se as opiniões dos Antigos, por vetustas que sejam, pois, assim podemos apropriar-nos do que falaram certo e evitar o que disseram de errôneo" [338]. Finalmente, Santo Tomás faz uma declaração e um desabafo que se podem tomar por mote dos filósofos escolásticos medievais: "O estudo da filosofia não tem por objeto saber o que os outros pensaram, mas conhecer a verdade das coisas" [339].

23. Finalmente, importa frisar bem que o método escolástico não nasceu pronto mas se desenvolveu lentamente, máxime durante o século XIII. No substancial artigo de Callus O.P., Introduction of Aristotelian Learning to Oxford, há excelente lição a tal respeito. Segundo Callus, a análise da estrutura e do método de estudo da nascente Faculdade de Artes é de grande valia para se compreender a história do aristotelismo. Callus distingue três períodos no desenvolvimento do método escolástico. O primeiro foi o Aviceniano em que os tratados e os cursos seguiam o modelo de Avicena, que consistia na exposição da doutrina de Aristóteles por meio de uma paráfrase feita em diferentes tratados que levam o nome dos livros aristotélicos, combinando-a com o pensamento do autor escolástico. Assim foram os tratados Sobre a alma de Domingos Gundissalvo e de João Blund. O segundo período foi o Averroístico. As principais obras de Averróis começaram a circular em latim à volta de 1230. Constituíam comentários breves, claros e agudos do pensamento aristotélico, o que valeu ao autor muçulmano o epíteto de Commentator, o Comentador. Cerca de 1240, a sua influência já surge nas obras dos escolásticos e os tratados são substituídos por comentários ou glosas, expositio per modum commenti, com a sua nova técnica inspirada em Averróis e com um sistema acabado de divisão e análise do texto comentado. Por fim, no último quartel do século XIII, o comentário assumiu nova forma, quando a divisão e a análise do texto foram lentamente reduzidas à expressão mais simples até quase desaparecerem completamente substituídas por Quaestiones sobre a littera, Expositio per modum quaestionis, discussão de problema oriundo do texto ou com ele relacionado [340].

24. Em artigo consagrado ao método escolástico na educação medieval, George Makdisi comete o exagero de atribuir ao Oriente Islâmico a origem do método escolástico, embora reconheça sensatamente que a Universidade é um fenômeno estritamente próprio da Europa Ocidental na Idade Média. Em suma, os escolásticos cristãos ter-se-iam apropriado do método escolástico muçulmano [341]. Ora, como temos visto, esse método surgiu e se desenvolveu pouco a pouco nas escolas medievais, desde os estabelecimentos monásticos e das escolas episcopais até às várias escolas universitárias do século XIII. O maior argumento de Makdisi assenta no "fato notável" de o método do Sic et Non ter tido o seu habitat natural no direito religioso muçulmano. O Khilaf (sic et non) e o Jadal (disputatio) foram processos dialéticos estabelecidos no Islão no século nono. Acontece, no entanto, que esse argumento não é convincente.

25. Primeiramente, atente-se para o fato de que o método do sic et non, pró e contra, exame de opiniões divergentes, não surgiu com Abelardo pela primeira vez na história do pensamento humano. Já entre os gregos, no mundo ocidental, o método fora usado pelos filósofos. Veja-se, por exemplo, o Livro I do tratado De anima de Aristóteles com a exposição das opiniões dos filósofos sobre a alma e considere-se a declaração feita pelo filósofo no início do capítulo I do Livro II da mesma obra: "Já expusemos ou discutimos suficientemente as teorias sobre a alma que nos legaram nossos predecessores", e ele passa então a determinar o que é a alma e a dar uma definição satisfatória [342]. Ademais, já na República romana, antes de Cristo, estudava-se o direito através de consultas públicas que os clientes faziam aos jurisconsultos e que se processavam por meio de discussões, disputationes, e os assistentes chamavam-se auditores, ouvintes. Como diz Cícero, os jurisconsultos faziam-se ouvir sem consagrarem tempo especial ao ensino [343]. Por conseguinte, o Khilaf não foi prerrogativa do direito islâmico mas existiu com certeza desde que Adão e Eva ponderaram o pró e o contra da manducação do fruto proibido. Por outro lado, releva lembrar o velho anexim filosófico: "As mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos." Ora, a causa comum que estimulou as argúcias da discussão e dotou os estudiosos do instrumento apto para o debate foi a dialética, a lógica aristotélica que atuou no método jurídico do Islão, como diz Makdisi [344]. No Ocidente a dialética influenciou primeiro a teologia e as ciências e logo foi aplicada ao direito, como ensina Vinogradoff [345].

26. Sobre denotar o método peculiar à universidade medieval, e que se tornou aquisição definitiva do pensamento humano, a escolástica significa também o conjunto de todas as doutrinas ensinadas e constituídas nos domínios da filosofia, da teologia, do direito, da medicina e das ciências naturais. Assim, pode dizer-se que o termo escolástica abrange as doutrinas estabelecidas a propósito do Digesto ou Pandectas, das Institutas, do Segundo Código, e das Novelas que integravam o Corpus Iuris Civilis [346]. Nos Estatutos da Universidade dos Juristas de Bolonha, na rubrica XXXVI, em que se fixam os preços dos livros, pode verificar-se a vasta literatura jurídica dos apparatus, casus, disputationes, summa, libellum, notabilia, cavillationes, brocarda, flos, textus, margarita, lectura, etc. utilizada nas faculdades de direito, e que continha as doutrinas dos novos mestres da jurisprudência [347].

27. Na universidade de Montpellier, por recomendação de Arnaldo de Villanova e de outros médicos, o papa Clemente V prescreveu em 1309 os livros a serem adotados no estudo da medicina e que abrangiam os "clássicos médicos" gregos, muçulmanos e judeus: Galeno, Hipócrates, Avicena, Constantino o Africano, Iohannicius, Isaac, etc. [348]. Já no início do século XIII formularam-se doutrinas médicas nas obras de Gilbert of England, William of England e do famoso Pedro Espanhol, Petrus Hispanus, que veio a ser o papa João XXI [349].

28. No campo da teologia assinalaram-se as grandes sistematizações doutrinárias expressas nas Sumas Teológicas de Guilherme de Auxerre, Felipe o Chanceler, Gaufrido de Poitiers, Guilherme de Auvergne e, sobretudo, as do período áureo do século XIII e que principiou em 1230, compostas por Alexandre de Hales, o Doctor irrefragabilis, Santo Alberto Magno, o Doctor Universalis, e principalmente por Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus. Destacaram-se, ainda, pelas especulações teológicas e pelas obras, São Boaventura, Egídio Romano, Henrique de Gand, Godofredo de Fontaines, Duns Scotus e inúmeros outros teólogos dominicanos, franciscanos, agostinianos, carmelitas, seculares, etc.

29. Além das sistematizações doutrinárias, salientaram-se as pugnas teológicas travadas entre os conservadores que defendiam doutrinas filosóficas muçulmanas e judias atribuídas a Santo Agostinho e os teólogos que aproveitaram a filosofia aristotélica para aprofundar o estudo da ciência sagrada, e alguns artistas, filósofos que professavam a doutrina de Aristóteles segundo a interpretação de Averróis e que não se conciliava com a teologia cristã.

30. Como diz Grabmann, juntamente com as noções científicas e filosóficas das obras traduzidas do grego e do árabe, desde o século XII, penetraram no mundo ocidental concepções que não se enquadravam com a antiga escolástica de orientação agostiniana. Muitas teorias novas invadiam o terreno do dogma e levaram os teólogos inicialmente à atitude defensiva e mais tarde à ofensiva. O pior, entretanto, foi a invasão dos ensinamentos do aristotelismo árabe no campo da escolástica, e que se opunham frontalmente às verdades fundamentais do Cristianismo, tal como a doutrina da eternidade do mundo, a interpretação do intelecto agente e possível, de modo a negar a personalidade e a imortalidade da alma humana, a limitação ou a negação absoluta da Providência divina, a negação do livre-arbítrio e outras idéias discutíveis [350]. Mas como o reconheceu Grabmann antes. dessa afirmação, "o acontecimento mais importante da História da Teologia Medieval foi, sem dúvida alguma, a entrada da literatura aristotélica, anteriormente limitada apenas às obras lógicas, e da filosofia e da ciência natural árabo-judia, no horizonte da Antigüidade Cristã" [351]. O resultado da introdução da obra aristotélica na perspectiva mental dos cristãos do Ocidente não foi apenas a oposição e a luta de" idéias como, também, um precioso adjutório à especulação teológica e às sínteses doutrinárias. Assim, merecem realce especial no tocante à reflexão teológica a doutrina dos significados do ser, do ato e da potência, da matéria e da forma, das várias espécies de movimento, das potências ou faculdades da alma, das virtudes, etc.

31. O verdadeiro artífice da integração das noções filosóficas de Aristóteles na teologia cristã foi Santo Tomás de Aquino que, ademais, elaborou uma sólida síntese da filosofia na linha do pensamento aristotélico, mas corrigindo os erros do Estagirita e dando ao corpo da filosofia as suas próprias contribuições. Isso foi possível porque Santo 'Tomás soube discernir com proficiência a filosofia da teologia, soube perceber, com acuidade que, em sendo a filosofia obra da pura razão, o que houvesse de certo na filosofia de Aristóteles seria imposição racional e não apenas concepção pessoal do grego Aristóteles que filosofou na Antigüidade. Por isso, segundo o Aquinatense, saber filosofia não é repetir as palavras de Aristóteles, mas assegurar-se da verdade através de investigação racional e de raciocínios válidos. Ele ensinou, ainda, que os homens não esgotam de uma vez a inteligibilidade das coisas, mas que a filosofia é o resultado das especulações de muitos homens através de sucessivas gerações de modo que, embora os homens realizem conquistas intelectuais e entesourem conhecimentos perenemente válidos, sempre resta muito a saber e as velhas questões podem ser de novo investigadas e esclarecidas à nova luz noutro contexto cultural e em diferente perspectiva histórica.

32. Foi o Doutor Angélico quem concretizou o antigo plano patrístico de conciliar a filosofia racional e o pensamento grego com a sabedoria cristã. E ele o fez não só ao caracterizar os tipos de conhecimento filosófico e teológico, mas ao desenvolver longa e pacientemente em suas obras as questões de filosofia e teologia, de modo que, sobre ser principalmente teólogo, Santo Tomás consagrou-se como um dos mais eminentes filósofos de todos os tempos pela segurança da doutrina, pelas luzes que espargiu e pelos conhecimentos que sistematizou nas áreas da lógica, da metafísica, da filosofia natural, da educação, da psicologia, da ética e da política. Como disse com propriedade o papa Pio XI na encíclica Studiorum Ducem, "em filosofia Santo Tomás salvaguarda a força e o poder da inteligência humana, assim como o dissemos, e prova a existência de Deus por meio dos mais firmes argumentos" [352].

33. Na Suma Teológica Santo Tomás de Aquino demonstra que deve existir uma ciência sagrada distinta da filosofia e que, ocasionalmente, tanto a teologia como a filosofia podem considerar o mesmo objeto ou tema, a saber, Deus, o homem, o bem, a conduta, etc. No entanto, apesar de coincidência do objeto material considerado, essas ciências distinguem-se claramente pelo seu objeto formal, isto é, pelo ponto de vista do qual o examinam. Aliás, segundo o Aquinatense, é o objeto formal o critério especial da indagação que permite distinguir as ciências particulares umas das outras como, por exemplo, a geometria da aritmética ou a geografia da geologia. A filosofia busca as razões das coisas e as causas dos seres exclusivamente através da razão, por meio do raciocínio, enquanto a teologia considera as coisas como reveladas, isto é, as suas argumentações partem de premissas que são verdades reveladas por Deus e que os homens admitem pela fé [353].

34. Levando-se em conta essa imensa realização cultural de Santo Tomás, o medievalista Grabmann resume-lhe os efeitos da seguinte maneira: "A grande obra científica de Santo Tomás é a penetração autônoma, a apropriação da filosofia aristotélica e a vinculação orgânica da mesma com a Weltanschauung do cristianismo, cientificamente exposta por Santo Agostinho e pela primitiva escolástica, a criação de um aristotelismo cristão na filosofia e a elaboração da teologia especulativa com meios e formas da filosofia aristotélica, adaptada para isso, mas sem abandonar de modo algum as grandes linhas da tradição eclesiástico-escolástica" [354].

35. O aparecimento da vasta literatura filosófica e científica no ocidente cristão provocou uma crise inevitável, já que no centro dessa literatura estava a obra do pagão Aristóteles, rodeada de comentários gregos e muçulmanos. Imediatamente manifestou-se a oposição entre o naturalismo da filosofia antiga e a visão sobrenatural do cristianismo, entre o racionalismo de Aristóteles e a fé que leva o cristão a admitir a revelação. Essas antinomias podiam resolver-se, como o demonstraram Santo Alberto Magno e Santo Tomás de Aquino, mas a primeira reação de certos teólogos católicos ante os libri naturales, os livros de filosofia natural de Aristóteles, foi de recusa e proibição, logo seguidas de cautela e circunspecção. A primeira atitude resultou do ensino em Paris, no começo do século XIII, dos libri naturales aristotélicos junto com as paráfrases de Avicena. David de Dinant, mestre da faculdade de artes. interpretou a doutrina aristotélica de modo panteísta, e o teólogo Amauri de Bene também professou o panteísmo, e ambos fizeram discípulos. O concílio de Sens de 1210 condenou-lhes a doutrina - apesar de já estarem mortos - e proibiu o ensino dos libri naturales e dos seus comentários. O cronista Roberto de Auxerre (Autissiodorensis) registrou na sua Crônica, a respeito do ano 1210, os rumores e os passos da condenação de Amauri e dos livros naturais. Incidiram, também, na condenação 14 réus entre os quais havia "alguns sacerdotes que tinham o cuidado das almas". Foram tidos por hereges; dez foram queimados e quatro foram condenados à prisão perpétua. O espetáculo desse castigo contou com imensa assistência, innumerabilis hominum multitudo. O corpo de Amauri foi exumado e enterrado longe do cemitério sagrado e os "livros naturais" de Avicena. David de Dinant, mestre da faculdade de artes, inter, Paris" foram proibidos por três anos, "pois as sementes dos erros amauricianos pareciam ter nascido deles" [355], embora os ensinamentos de Amauri se inspirassem mais em João Escoto Eriúgena e na metafísica chartrense.

36. Por determinação dos Estatutos dados à universidade de Paris pelo cardeal-legado Roberto de Courçon, os livros de lógica e a Ética de Aristóteles podiam ser usados no ensino, mas a Metafísica, os livros de filosofia natural, os seus resumos, assim como as doutrinas de David de Dinant, Amaury de Bene ou Maurício Espanhol, não podiam ser ensinadas [356]. Essa proibição, todavia, restringia-se a Paris, pois na Inglaterra as obras aristotélicas eram ensinadas serenamente, enquanto os mestres da nova universidade de Tolosa proclamavam em 1229 que na sua escola os "livros naturais" proibidos em Paris podiam ser matéria de ensino e de estudo aprofundado [357]. Na bula Parens scientiarum de 14 de abril de 1231, denominada por Masnovo "Carta Magna da Universidade de Paris", o papa Gregório IX ordenou que os livros de filosofia natural de Aristóteles, proscritos pelo concílio provincial de Sens em 1210, mas proibidos ex certa causa, não deviam ser usados em Paris até que fossem examinados e ficassem isentos da suspeita de erro [358]. A comissão nomeada pelo papa, composta de três membros, não chegou a conclusão alguma, pois se desfez com a morte do seu membro mais ilustre, Guilherme de Auxerre, a 3 de novembro de 1231. A proibição dos libri naturales só se referia ao ensino público e não à leitura em particular. Embora sempre estivesse presente aos adversários do aristotelismo, ela foi permanecendo sem efeito para os estudiosos da filosofia, ao mesmo tempo em que os mestres de teologia das novas ordens mendicantes se aplicavam ao exame e ao estudo aprofundado da obra aristotélica. Os Estatutos dos Artistas da Nação Inglesa da universidade de Paris, promulgados em 1252, não mencionam os "livros naturais" nem a Ética, mas prescrevem os tratados de Órganon e, o que é significativo, o De anima que se incluía antes entre os libri naturales [359]. Finalmente, nos Estatutos da Faculdade de Artes de Paris, promulgados pelos mestres a 19 de março de 1255, todas as obras de Aristóteles foram prescritas para o ensino, e desse modo a Faculdade das Artes converteuse, de fato, em Faculdade de Filosofia [360].

37. Nos anos seguintes a questão dos estudos aristotélicos azedou porque se, de um lado, a doutrina aristotélica favorecia a concepção da filosofia autônoma quanto à teologia, por outro, trazia no bojo idéias estranhas e contrárias à fé cristã. Ora, para muitos teólogos a filosofia não podia ser vista como saber independente já que, desde Filão de Alexandria, era tida por "serva da sabedoria religiosa", enquanto certos filósofos da grei averroísta só admitiam a filosofia enquanto fosse a pura doutrina de Aristóteles, embora esta surgisse ensombrecida pelas interpretações dos filósofos muçulmanos. Haja vista, por exemplo, que o Filósofo não explicou de modo claro o significado do "intelecto separado", que Averróis interpretou como um único poder intelectual comum a todos os homens passados, presentes e futuros, e distinto das pessoas, fisicamente separado delas. Assim, entre os teólogos conservadores - que só utilizavam o aristotelismo tímida e superficialmente e o mantinham sob suspeita - e os averroístas que admitiam as doutrinas da unicidade do intelecto agente, da eternidade do mundo e do eterno retorno, situou-se a orientação albertino-tomista que utilizava o aristotelismo para aprofundar o estudo da doutrina cristã e via na filosofia uma espécie de conhecimento puramente racional que se obtém e se aperfeiçoa gradualmente através das várias gerações humanas e só se perfaz com o concurso dos homens de todos os tempos que acreditam na verdade do conhecimento e o buscam em luta constante para evitar o erro. Para os pobres conservadores, no entanto, cegos pela fúria sectária e pela ignorância profunda da questão, era como se a concepção albertino-tomista se confundisse com o averroísmo, e merecedor, portanto, da mesma execração.

38. A 10 de dezembro de 1270, o bispo de Paris, Estêvão Tempier, condenou treze proposições errôneas eivadas de paganismo e, como diz Mandonnet, "elas exprimem de modo bem claro a substância do ensino averroísta, isto é, as teorias fundamentais de Aristóteles consideradas errôneas devido à interpretação que lhes havia dado Averróis". Mandonnet agrupa as treze proposições em quatro doutrinas fundamentais do averroísmo latino: a negação da Providência divina na ordem da contingência; a eternidade do mundo; a unidade numérica da inteligência humana e a negação do livre arbítrio [361]. Gorce, porém, estabeleceu que essas proposições ultrapassavam os quadros do averroísmo por se tratar de teses da filosofia aristotélica e muçulmana [362].

39. A 28 de. abril de 1277, João XXI dirigiu a Estêvão Tempier a bula Flumen aquae vivae em que lhe pedia um inquérito sobre os erros ensinados pelos mestres de artes e de teologia de Paris. Tempier reuniu uma comissão de dezesseis teólogos que atabalhoadamente, em menos de três semanas, compilaram uma lista de erros em 219 artigos, precedida de um prólogo no qual o bispo fulminava os erros detestáveis inoculados na obra De Deo amoris, de André o Capelão, em escritos de geomancia e de artes mágicas, nas obras dos averroístas e em outras, e excomungava quem os ensinasse ou aceitasse como ouvintes. Tempier, entretanto, exorbitou de suas atribuições, pois o papa ordenara apenas uma sindicância e ele se saíra com o inquérito apressado, a condenação e a pena de excomunhão [363]. Essa condenação cominada por Tempier aos chefes do averroísmo, Sigério de Brabant e Boécio de Dácia, autores das proposições reprovadas, atingiu o peripatetismo em geral e, até mesmo, por má fé, teses de Santo Tomás de Aquino referentes à unidade do mundo, à individuação dos espíritos e dos corpos, à localização das substâncias espirituais e à operação voluntária [364]. Essa condenação do ensino do aristotelismo e da doutrina de Santo Tomás sob pena de excomunhão teve efeitos danosos para o estudo da filosofia no fim da Idade Média, pois atrasou-o e impediu que muitos filósofos sinceramente cristãos se lançassem nas novas sendas do pensamento abertas pelo gênio do Aquinate.

40. Van Steenberghen tece a respeito desse episódio algumas considerações dignas de nota. Primeiramente, ele afirma que o silabo condena com certeza uma série de teses perfeitamente ortodoxas. Depois ele assevera que o ato de 7 de março de 1277 não foi basicamente a reação do augustinismo contra o aristotelismo, mas "crise da inteligência cristã... reação dos homens da Igreja contra a nova ameaça do paganismo... um ato de defesa da faculdade de teologia contra os atentados ininterruptos e crescentes da filosofia e contra as audácias doutrinais cada vez mais inquietantes da Faculdade de Artes". Ademais, o decreto de 1277 apresenta o aspecto desedificante mas instrutivo de alertar os guardiães da ortodoxia quanto ao mau vezo de pretenderem ver erros perigosos nas opiniões divergentes dos adversários. Finalmente, ao incluir o tomismo na mesma reprovação do averroísmo, do naturalismo e da magia, o decreto de 1277 sufocou a vida intelectual de Paris durante meio século, retardou o progresso da filosofia, revitalizou o aristotelismo eclético superado por Santo Tomás assim como envenenou as polêmicas das escolas. A 14 de fevereiro de 1325, dois anos após a canonização de Santo Tomás de Aquino, o bispo de Paris, Estêvão de Bourret, anulou a sentença de 1277 na parte referente às teses do Doutor Angélico, e permitiu a sua livre discussão nas escolas [365]. Fato curioso foi a ressonância do decreto de Tempier em Oxford onde o arcebispo dominicano Roberto Kilwardby, augustinista por formação, proibiu de modo muito mais explícito e terminante o ensino de dezesseis proposições de inspiração tomista. Essas teses foram, ainda, condenadas novamente por duas vezes em Oxford pelo arcebispo franciscano João Peckhan, sucessor de Kilwardby, a 29 de outubro de 1284 e a 30 de abril de 1286. Vale a pena observar que, ainda em 1277, Santo Alberto Magno, já idoso, se deslocou de Colônia a Paris a fim de defender a ortodoxia e a lembrança do seu discípulo Tomás de Aquino.

41. A Faculdade de Artes, pelo que já se pôde inferir dos fatos descritos, foi palco de intensas lutas doutrinárias, a sede natural do ensino filosófico e o cadinho em que se forjaram novas doutrinas. Nessa escola propedêutica freqüentada pelos alunos mais jovens da universidade, a língua do ensino oral e dos livros era o latim, não, é claro, o literário e ático, mas a língua viva dos mestres, estudantes, escritores e tradutores. Essa língua da escola era regulada pelas exigências técnicas da disciplina que a utilizava: gramática, filosofia, matemática, medicina, direito ou teologia. Criavam-se termos latinos equivalentes aos vocábulos gregos ou árabes que era preciso traduzir, ao mesmo tempo em que se instituíam novos usos para antigos termos ou se criavam palavras novas, a fim de exprimir os significados da filosofia. Nunca a língua latina foi tão usada para a expressão filosófica e para a comunicação docente como nos séculos XII e XIII.

42. No século XIII declinou o entusiasmo pelos autores clássicos, o gosto da dialética suplantou o culto da gramática e, pela primeira vez, na história da educação e da escola superior o ideal filosófico delineado por Platão triunfou sobre o modelo retórico da escola de Isócrates. Até 1240, os mestres da Faculdade de Artes de Paris compuseram obras e deram cursos de lógica, moral ou gramática, enquanto em Oxford os livros de filosofia natural e a Metafísica de Aristóteles já eram objeto de comentários. Na segunda metade do século XIII toda a obra filosófica de Aristóteles dominava o panorama do ensino na Faculdade de Artes. No início da centúria o interesse dos mestres concentrou-se mais e mais na dialética, enquanto a 'partir da metade do século os estudiosos se dedicaram igualmente à metafísica, à filosofia natural e à ética. Essa predileção pela filosofia alijou do páreo dos estudos o culto das letras clássicas e da retórica. Esse abandono dos autores antigos literários inspirou ao trovador Henri d'Andeli o poema alegórico em francês A Batalha das Sete Artes em que a campeã de Orleães, a Gramática, apoiada pelos humanistas e pelos autores clássicos, saiu à liça para combater a do nadora de Paris, a Lógica ou Dialética, que reuniu sob a sua banira todos os livros e as disciplinas da sua universidade. No exército da Gramática, por exemplo, alinhavam-se Prisciano, Donato, Marciano Capela, os gramáticos recentes como Evrard de Béthune com o seu Graecismus e Alexandre de Villedieu com o Doctrinale, e mais Homero, Horácio, Virgílio, Sêneca, poetas cristãos e medievais, enquanto nos esquadrões da Lógica figuravam, por exemplo, os livros de Aristóteles, Platão, Sócrates, Boécio, dos mestres de Paris, enfim, muitos componentes do trivium e do quadrivium, devendo notar-se que o "direito civil e o direito canônico cavalgavam imponentemente como a pairar acima das outras artes".

43. Coube à Faculdade de Artes a elaboração das doutrinas científicas, o estudo e a investigação da matemática, da física e da astronomia, o cultivo da ciência experimental, sobre haverem muitos mestres inspirado e estimulado as investigações técnicas ocorridas no século XIII. Glorieux dá uma idéia exata dos mestres e das obras escritas na Faculdade de Artes do século XIII no seu minucioso e preciso repertório La Faculte des Arts et ses Maîtres au XIIIe Siècle. Beaujouan observa que na universidade de Oxford a Faculdade de Artes ministrava ensino científico bem organizado e que ela se destacava no campo da matemática, da óptica e da lógica aplicada às ciências exatas, enquanto em Paris, sede da teologia e da dialética, a matemática não era matéria de ensino regular e obrigatório, havendo ensino particular das ciências exatas mas sem que fosse incluído no cursus studiorum. Esse ensino particular das ciências era dado nos dias de festa e bem acolhido em muitos colégios novos. Do século XIII ao XV desequilibrou-se o ensino do quadrivium nas universidades a favor da astronomia [366].

44. Santo Alberto Magno (1206-1280), Doctor universalis, aliava à erudição o bom senso e o gosto pelo concreto. Escreveu tratados sobre os vegetais ou as plantas, a zoologia, e levou o seu interesse a temas de geologia, mineralogia e química. Como diz Gilson, ele revelou "um ideal pantagruélico do saber".

45. Os astrônomos ocidentais, sob a influência do Liber Astronomiae de Alpetrágio, traduzido em 1217 por Miguel Escoto, e colocados perante as concepções do mundo físico estabelecidas por Aristóteles e Ptolomeu, no começo do século XIII reconheceram ser o sistema ptolomaico mais apto para explicar os fenômenos celestes e mais útil para a feitura dos cálculos e para a confecção das tábuas astronômicas. No fim do século XIII o astrônomo paduano Pedro d'Abano no Elucidator Astronomiae ensinava que as estrelas não estavam contidas numa esfera, mas se moviam livremente no espaço, e Guilherme de Saint Cloud, fundador da escola astronômica parisiense, era capaz de determinar com grande aproximação a obliqüidade da eclíptica e a latitude, do seu posto de observação em Paris.

46. Sob a influência cruzada dos Meteorológicos de Aristóteles, dos Elementos de Euclides e da Óptica de Alhazen, o escolástico inglês Roberto Grosseteste deu impulso às investigações de óptica, continuadas pelo seu discípulo Rogério Bacon. Referindo-se a Grosseteste, diz Beaujouan que "muito mais seguras são as suas concepções sobre as lentes, a refração (o ângulo de refração proporcional ao ângulo de incidência), as cores (que se reduzem à intensidade resultante da transparência do meio, da luminosidade e da concentração dos raios) o calor solar que, para ele, está condicionado principalmente pelo movimento dos raios [367]. O grande vulgarizador da óptica de Alhazen foi João Peckam (t 1292 ), franciscano e arcebispo de Cantuária, que resumiu num manual as experiências e as descobertas dos seus contemporâneos, enquanto o silesiano Witelo se salientou com os experimentos sobre a refração das cores em diferentes meios. O dominicano Teodorico de Vriberg tentou explicar o fenômeno do arco-íris, utilizando a teoria das cores de Averróis, tendo realizado experimentos metódicos e formulado hipóteses pessoais. Pedro de Maricourt ou o Peregrino escreveu a Epistola de Magnete terminada em 1269, estudou as propriedades magnéticas do ímã e explicou a orientação da agulha da bússola pela presença de jazidas magnéticas no pólo norte. Entretanto, quem mais se aproximou na mesma época da explicação moderna do magnetismo foi João de Saint Amand.

47. No campo da matemática no século XIII destacaram-se Jordanus Nemorarius, cujo Planisfério superou o de Ptolomeu; Campanus de Novara, autor de comentários aos Elementos de Euclides, e o dominicano Guilherme de Moerbeke que traduziu em 1269, do original grego, as obras completas de Arquimedes, exceto o Arenário e o Método.

48. Tadeu Alderotti (1223-1303) estudou a técnica da destilação e descreveu os métodos de resfriamento do alambique. No fim do século XIII o Liber de Investigatione Perfectionis e a Summa Perfectionis descrevem processos de preparação de alguns ácidos e várias técnicas e operações químicas como sublimação, destilação, calcinação, dissolução, coagulação, etc. Além dessas investigações, outras se fizeram na área da mecânica, como o demonstrou à saciedade Anneliese Maier no seu livro Os Precursores de Galileu no Século XIV. Estes breves apontamentos servem para dar idéia de que durante o século XIII se desenvolveu a ciência experimental que já dava sinais de independência no concerto dos conhecimentos que, há séculos, se mesclavam na filosofia.

49. Em sua História da Ciência Crombie, além de discorrer bastante sobre o pensamento científico do século XIII, expõe de modo amplo as realizações e as descobertas da técnica e da ciência nos domínios da agricultura, da indústria, da construção de navios, da fabricação de armas de fogo, da química industrial e da medicina. Crombie observa que a experiência das artes mecânicas se adquiria nas corporações de artesãos, mas que os fins utilitários dos teóricos da instrução medieval se refletiam, de modo surpreendente, nos programas dos cursos universitários. Ele também chama a atenção para o fato de que os exercícios matemáticos na instrução da Idade Média resultaram nó hábito de exprimir os fenômenos sob a forma de unidades abstratas e que esse hábito de pensamento tornou possível a física matemática. Além disso, outro fator importante para o hábito da mensuração foi o invento do relógio mecânico no fim do século XIII, o protótipo das modernas máquinas automáticas. Aliás, segundo Francis Maddison, os instrumentos científicos medievais (a esfera armilar, o equatorium, o torquetum, o astrolábio planisférico, o quadrante, a bússola magnética, etc.) não eram a rigor instrumentos para a observação astronômica, embora pudessem servir à navegação, mas eram usados no ensino, no cálculo e para observações simples tal como marcar o tempo, devendo reconhecer-se, no entanto, que exibiram técnicas de alto nível e foram o ponto de partida para o desenvolvimento dos instrumentos de navegação [368].

50. No Romance da Rosa, a personagem Natureza enaltece a óptica de Alhazen e diz que o clérigo naturalista fica a saber o que é o arco-íris, se consultar a obra do sábio muçulmano, assim como chega ao conhecimento das maravilhosas propriedades dos espelhos, mas, adverte, quem quiser captar os segredos da natureza deve tornar-se discípulo de Aristóteles que escreveu sobre as coisas da natureza de modo incomparável, "desde o tempo de Caim", que nus hons puis le temps Caiyn. Nesse tom didático, entremeado de observações mordazes e com intenção satírica, o Romance da Rosa trata de amor, filosofia, ciência e religião, ao mesmo tempo em que descreve e critica os costumes da sociedade. Essa obra sui-generis foi o livro de cabeceira dos letrados até ao fim da Idade Média e chegou-se a equipara-la à Divina Comédia de Dante. Iniciada por Guilherme de Lorris entre 1225 e 1240, foi continuada e composta na maior parte por Jean Chopinel ou Clopinel de Meung-sur-Loire à volta de 1275, que transformou a ficção poética de um tratado sobre o amor numa obra alegórica que é suma de idéias e sá//- ,social. Gorce denominou-a inspiradamente "escolástica cortês". Paré dedicou-lhe o livro magistral Le Roman de la Rose et la Scolastique Courtoise e afirma que essa obra foi escrita no momento em que se terminava a catedral de Norte-Dame, em que as Comunas acabavam de obter as suas liberdades, em que o mundo econômico descobriu a fecundidade do crédito, em que São Luís presidiu o nascimento do mundo político em face de Frederico II e quando uma greve na universidade de Paris era um acontecimento mundial na Cristandade, e o empreendimento aristotélico de Alberto Magno e de Tomás de Aquino provocava entre os seus irmãos violentos redemoinhos. Guilherme de Lorris, diz Paré, pretendeu compor uma arte de amar mas o seu continuador João de Meung fez da intriga romanesca um pretexto didático, "e, se a arte de amar continua a ser o objeto do romance, a pedagogia descritiva aí busca à saciedade razões, princípios e leis" [369]. O Romance da Rosa testemunha a luta entre um cristianismo sem jaça e um naturalismo completamente pagão.

51. Na mesma época, Boécio de Dácia escrevia o opúsculo Sobre o Sumo Bem ou a Vida Filosófica que Mandonnet considerou "o manifesto mais radical de um programa de vida naturalista" e que é expressão de puro racionalismo. Os seus ensinamentos foram condenados no sílabo de Tempier de 1277. A obra de Boécio de Dácia está imbuída do racionalismo averroísta, traço típico das tendências filosóficas do século XIII e que os teólogos combateram incansavelmente, e Mandonnet chega a declarar que "o racionalismo do Renascimento com o seu pensamento e a sua língua diluídos nada produziu, a meu ver, de comparável" [370].

52. Durante a Idade Média, pois, surgiram as universidades, as doutrinas e o método escolástico. Essas criações culturais pressupunham, evidentemente, a reflexão sobre a formação do homem, o significado e a importância do ensino e da aprendizagem. Como se sabe, a noção de Filosofia da Educação como disciplina filosófica especial só surgiu na Idade Moderna e é posterior a Kant, enquanto a noção de Didática remonta ao século XVII e a de Pedagogia Científica é ainda mais recente, já que foi proposta e defendida no século XIX. No entanto, Santo Tomás de Aquino no século XIII dissertou profundamente sobre temas de filosofia da educação e outros educadores trataram de questões que hoje se inscrevem nas áreas da didática e da pedagogia científica. Na Idade Média, desde o século XIII, os temas educacionais foram examinados principalmente na área da Ética, uma vez que educar é agir moralmente e não só aplicar regras ou técnicas psicológicas. Convém observar que nas obras de muitos autores medievais os assuntos filosóficos eram examinados em conexão com a teologia e que as dissertações filosóficas contêm muitos aspectos e ensinamentos que hoje caberiam mais em obras científicas. Tenha-se em mente que no século XIII firmou-se a distinção entre filosofia e teologia, mas ainda não se estabeleciam fronteiras nítidas entre a filosofia e as ciências particulares, embora Santo Tomás tivesse formulado os princípios de tal distinção. Em suma, os pedagogos medievais trataram da educação moral e da instrução, formularam conceitos metafísicos, éticos, políticos, psicológicos e estritamente técnicos, concernentes à educação do homem. Como diz Woroniecki O.P., a propósito da pedagogia tomista, "o seu objeto material é bem a criança ou o adolescente, ou melhor ainda, o homem que ainda não é educado; mas o seu objeto formal é o homem tal como ele deve ser no pleno desenvolvimento de suas forças naturais e sobrenaturais, o omnis homo da Sagrada Escritura (Ecclesiastes, XII, 13). Ela jamais perde de vista o ponto de chegada de seu trabalho, o fim ao qual deve conduzir, e isso lhe confere essa fecundidade que a pedagogia moderna não consegue ultrapassar" [371].

53. Até mesmo quando se trata de filosofia da educação na Idade Média, a figura de Santo Tomás de Aquino sobressai e se impõe, uma vez que ele soube fundamentar de modo inigualável a educação do homem, ao delinear os passos da aprendizagem intelectual e da formação moral, baseando-se na concepção da estrutura intelectual e volitiva da pessoa, interligando a educação à psicologia filosófica e à ética. Assim, na questão disputada De magistro, pertencente ao ciclo das questões debatidas sobre a verdade, Santo Tomás descreve os ritmos do aprendizado, o papel do professor e o modo de aprender do aluno e demonstra quo o intelecto ativo do estudante é a causa principal da aprendizagem, ao mesmo tempo em que fundamenta o caráter ativo e dinâmico da docência e doo aprendizado, como ficou ilustrado no seu tempo pela prática escolar, pelos exercícios do método escolástico que tornavam tão animados e vibrantes os cursos da universidade medieval. Por outro lado, na Suma Teológica, a partir da questão 49 da I-IIae, ao tratar dos hábitos e das virtudes, Santo Tomás bosqueja em amplos traços bem como analisa minuciosamente os múltiplos aspectos da formação da personalidade, enquanto desenvolvimento e apuro das virtudes intelectuais e morais. Além disso, através das suas obras respigam-se inúmeros lanços referentes à educação, ao ensino e ao estudo. Brubacher na sua acatada obra Modern Philosophies of Education coloca o breve e luminoso tratado De magistro de Santo Tomás entre a República de Platão e a Democracia e Educação de Dewey que ele considera "produtos da natureza e dádivas perenemente estimulantes para as inúmeras gerações de mestres do porvir" [372].

54. Se percorrermos as obras de outros escolásticos do século XIII, que não escreveram explicitamente sobre educação, encontraremos capítulos ou passos dedicados a temas pedagógicos. Lembre-se, entre os mestres do século XIII, São Boaventura. Chamavase Giovanni Fidenza, nasceu em Bagnorea perto de Viterbo em 1221, estudou na universidade de Paris onde obteve os graus de Mestre em Artes e em Teologia. Foi eleito ministro Geral da Ordem Franciscana aos 36 anos de idade em 1257, escreveu diversas obras e morreu a 15 de julho de 1274. Pois bem, São Boaventura foi um escolástico que merecidamente pode ser contado como educador, máxime pelo papel que desempenhou quanto à orientação dos estudos na Ordem Franciscana - e que ele favoreceu - e quanto à sua doutrina ascético-mística. O seu pequeno tratado As seis asas do Serafim contém preciosos ensinamentos pedagógicos de permeio com sólida doutrina teológica e sábias reflexões ditadas pela sua experiência pessoal. Foi obra muito apreciada nas ordens religiosas, principalmente na Companhia de Jesus. Nessa obra diz São Boaventura, por exemplo, algo que filósofos, teólogos e professores, todos enfim, sempre deveriam lembrar: "Dentre todas as tentações, a mais perigosa para qualquer cristão parece ser a de apoiar-se demasiadamente no seu próprio juízo. Não há quem seja de inteligência tão perspicaz que não possa equivocar-se em algumas coisas" [373]. São Boaventura também escreveu um opúsculo famoso referente às artes e às ciências. Trata-se da Redução das Artes à Teologia, entendendo-se por "redução" a análise que leva até ao princípio explicativo decisivo. Segundo São Boaventura, a multiforme sabedoria de Deus, claramente expressa na Sagrada Escritura, está oculta em todo o conhecimento e em toda a natureza; todos os conhecimentos convergem para o da Sagrada Escritura e, aperfeiçoando-se nela, ordenam-se à iluminação eterna. Por isso, todos os conhecimentos estão sujeitos, famulantur, à teologia. São Boaventura exprime e renova a cediça concepção augustinista dos estudos e fala apenas como teólogo, como se estivesse à margem da corrente em que lépido navegava o seu coetâneo Tomás de Aquino. 55. Vários escolásticos escreveram obras consagradas exclusivamente à educação. Destaquemos em rápida síntese o confrade e sucessor de São Boaventura na universidade de Paris, Gilberto de Tournai [374], assim como os frades pregadores Vicente de Beauvais e Bartolomeu de São Concórdio.

56. Além de obras ascéticas de alcance pedagógico como a carta Sobre a virgindade e o Tratado sobre a paz, Gilberto de Tournai compôs o Eruditio regum et principum - três cartas dirigidas a São Luís, rei de França - valioso tratado de pedagogia política que, além da sólida doutrina, contém muitas informações sobre os costumes da época. A principal obra pedagógica de Gilberto de Tournai O.F.M. é o De modo addiscendi, tratado de educação que considera estritamente a aprendizagem, o ensino, os métodos e o regime intelectual do estudo e da escola e que faz parte de obra mais ampla, o Rudimentum doctrinae. Esse livro foi encomendado) a Gilberto pelo seu amigo Miguel de Lille e destinava-se à educação do menino João de Dampetra ou Dampierre, filho de Gui de Dampetra, conde de Flandres [375].

57. Não resta dúvida que a obra pedagógica mais vasta do século XIII foi a do dominicano Vicente de Beauvais cuja morte os autores modernos geralmente reconhecem ter ocorrido em 1264, pouco se sabendo a respeito da sua biografia. O seu pensamento educacional exprimiu-se através de três obras. O De eruditione filiorum nobilium, livro escrito para a orientação do tutor de crianças da família real, terminado entre 1246 e 1249, é uma compilação de trechos seletos sobre a formação intelectual e moral dos meninos, sobre a seleção dos tutores, sobre métodos e disciplina, a educação das meninas, a conduta social dos adultos, os estados de viuvez e virgindade. O De morali princips institutione é um longo escrito sobre a natureza do poder secular e a sabedoria do príncipe ideal, e contém extensa diatribe contra os alcoviteiros da corte. Finalmente, a obra principal de Vicente de Beauvais, a enciclopédia Speculum Maius, composta à volta de 1256-1259 e que, pela extensão e temário, se distinguia de obra anterior composta à volta de 1244, o Speculum Minus ou Imago Mundi, reservou ao autor lugar saliente na galeria dos educadores medievais.

58. O Speculum Maius divide-se em três partes. O Speculum Naturale, com 3.736 capítulos em 32 livros, versa sobre astronomia, geologia, botânica, zoologia, higiene, etc. O Speculum Doctrinale, em 17 livros com 2.354 capítulos, é uma suma dos conhecimentos escolásticos do século XIII em que Vicente considera a gramática, a lógica, a economia, a política, o direito, as artes mecânicas, a medicina, a física, a teologia, etc. O Speculum Historiale, com 3.794 capítulos em 31 livros, descreve cronologicamente a história profana e religiosa desde Adão até 1250, dando ênfase à experiência cristã. No século XIV um autor anônimo acrescentou uma quarta parte à obra vicentina, o Speculum Morale. Segundo McCarthy, o escolástico Vicente de Beauvais O. P. foi um humanista no sentido medieval do termo, a sua obra é um espelho da sua época e, considerado na perspectiva do grande Renascimento do século XV, ele pode ser tomado por um proto-humanista, já que a sua obra reflete a imagem dinâmica de uma idade em progressão para a nova época que ostentará novos modos de pensamento [376].

59. Finalmente, pode-se destacar nesta curta seleção de pedagogos escolásticos a figura de outro frade dominicano, Bartolomeu de San Corcordio, que nasceu em Pisa em 1262, estudou em Bolonha e em Paris, dedicou-se ao ensino e morreu em sua terra natal em 1347. Bartolomeu escreveu um Summa casuum conscientiae, traduziu as obras de Salústio e compôs o florilégio Ammaestramenti degli antichi, ensinamentos que recolheu de autores clássicos e cristãos. Pertencem a esta obra os preceitos sobre o modo de estudar, extraídos da literatura sacra e profana, antiga e medieval, compendiados sob o título Di studio. Bartolomeu proporciona aos leitores excelentes conselhos quanto ao estudo, ao valor dos debates, à importância da memória, à tarefa dos doutores, etc. Assim, diz Bartolomeu, o verdadeiro doutor não só deve conhecer as opiniões alheias como deve, também, saber expor o próprio pensamento. Ao tratar do ensino, ele apresenta sete razões para justificar que é preferível falar pouco a dissertar longamente, "è meglio lo parlare brieve che il lungo" [377]. Conselho que procuramos seguir neste livro, apesar da vastidão da matéria.

60. De tudo quanto estudamos sobre a escolástica é preciso reter certas noções fundamentais que - repetita iuvant - voltamos a salientar. O termo escolástica estende-se a um conjunto de doutrinas e ao método desenvolvido nas escolas medievais, máxime nas universidades. Devido ao papel cultural da filosofia e da teologia no século XIII, aos seus insignes cultores e às suas obras imortais, o termo escolástica foi aplicado pelos historiadores de idéias principalmente às doutrinas filosóficas e teológicas. E ainda desse ângulo, devido ao notável desempenho e à admirável acuidade intelectual de Santo Tomás de Aquino, a sua doutrina, por figura de linguagem, por antonomásia, foi tida como a escolástica. Todavia, essas duas últimas acepções não devem encobrir o significado fundamental, histórico, do termo escolástica. Finalmente, convém frisar que as doutrinas e o método escolástico não são peças de museu nem venerandas relíquias de um passado extinto. As doutrinas continuam a alimentar o espírito humano e são sementes de pensamentos, enquanto o método, enroupado na linguagem atual, continua a ser um instrumento precioso da reflexão e do ensino, e continua a ser usado no mundo inteiro por muitos mestres e pensadores como processo fecundo do filosofar.