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1. Preconceito muito difundido a não examinado no
capítulo inicial deste livro, é o que vamos exorcizar
com paciência a com a plena convicção de prestarmos a
muitos estudiosos serviço de subido valor. Isso não
quer dizer que só tratamos agora de volatizar o inveterado
preconceito, pois a escolástica, como já o indicamos,
constitui pane integrante do terra universidade.
Todavia, ao mesmo passo em que vamos examinar o seu
significado, estaremos a desfazer os equívocos em que as
circunstâncias históricas e a malevolência a
envolveram. De regra, só se profere o termo
escolástica envolto em tom depreciativo, quando se padece
de ignorância vencível a seu respeito ou quando se é
dominado por uma dessas manias ou fobias que só o ódio
sectário é capaz de instilar. Uma pessoa nessas
condições, entretanto; é digna de lástima a nunca
poderá estudar devidamente um assunto ensopado de
preconceito, se não se libertar dessa escravidão
"idolátrica", tal como Bacon define os idola specus,
os ferrenhos preconceitos amadurecidos no seio da família
ou ao sabor das leituras ou de informações levianas
tomadas a sério, a que se encrostam no foro íntimo de
tal modo que não se é capaz, às vezes, nem sequer de
avaliar a calamitosa situação, mental em que se passou a
viver, já que o espírito crítico ficou anestesiado e a
mente sujeita à servidão do erro.
2. Muitas pessoas aludem pejorativamente à
escolástica, como se este termo fosse sinônimo de
obscurantismo, de filosofia dogmática, sistema fechado
de pensamento, atraso cultural, verbalismo e psitacismo.
Na verdade, nessas expressões do preconceito é
possível discernir-se algum aspecto que o pensamento
medieval possa ter revestido, tal como o dogmatismo e o
servilismo filosófico dos averroístas ou o verbalismo ou
o logicismo dos nominalistas, pois averroísmo a
nominalismo foram algumas das formas históricas da
filosofia medieval mas que não representam a sua melhor
forma nem o seu paradigma nem a sua mais valiosa
contribuição para o patrimônio cultural do Ocidente.
)r preciso saber que a escolástica começou a formar-se
desde o início da Idade Média a que atingiu o seu
máximo esplendor no século XIII, tendo entrado em
declínio nos séculos XIV a XV, de tal maneira que a
chamada decadência da escolástica corresponde a efetivas
mazelas que inquinaram o pensamento medieval a lhe valeram
os apodos dos humanistas a as críticas dos próprios
escolásticos inconformados com os abusos que afetaram as
doutrinas a os métodos didáticos usados nas universidades
a nos livros. Não se define o sol, porém, pelas suas
manchas nem se canoniza um santo pelos pecados que
porventura cometeu. Os abusos da escolástica foram como
o cancro que inutiliza os vegetais a desfigura a infelicita
os animais a os homens.
3. Grabmann distinguiu entre a forma externa da
escolástica transmissão de conhecimentos em fórmulas
fixas, através de determinados gêneros didáticos a
literários - e a sua essência íntima, as suas
características filosóficas profundas a os fatores
básicos de sustentação dos métodos a das técnicas de
ensino. Grabmann levou em consideração sobretudo a
história da teologia a da filosofia. Depois de
considerarmos essa íntima essência da escolástica
segundo Grabmann, parece-nos mais apropriado, do ponto
de vista da história da educação, considerar a
escolástica como um método de pensamento a de ensino a
como um conjunto de doutrinas. A escolástica foi um
método de pensamento a de ensino que surgiu a se formou
nas escolas medievais a se plasmou de modo inexcedível nas
universidades do século XIII, máxime através do
magistério a das obras de Santo Tomás de Aquino. O
termo escolástica, porém, significa ainda o conjunto
das doutrinas literárias, filosóficas, jurídicas,
médicas a teológicas, a mais outras científicas, que
se elaboraram e corporificaram no ensino das escolas
universitárias do século XII ao século XV, pois
não nos cabe considerar a Segunda Escolástica que
floresceu na época do Renascimento. Por conseguinte,
após a caracterização geral da escolástica, convém
aplicar o termo, e analisá-lo, a realidades
interdependentes mas distintas, a saber, um método a
múltiplas doutrinas pertencentes a várias áreas do
conhecimento.
Quando se considera o conjunto de doutrinas que o termo
escolástica abrange a quando se observa que é a filosofia
a disciplina que exprime os seus aspectos mais salientes,
pode afirmar-se com Grabmann que a escolástica é um
modo de pensar a um sistema de concepções em que se
valoriza a vida terrena como dom admirável de que
usufruímos para o nosso bem a para o nosso desenvolvimento
pessoal a em que se admite que o ser do homem não se
esgota no breve tempo da sua existência terrena, uma vez
que o homem tem um fim supraterreno a eterno e o destino de
uma vida interminável, sobre poder crescer ainda neste
mundo na vida sobrenatural que ele obtém através do
batismo. Portanto, num primeiro momento, casam-se na
escolástica a concepção filosófica da vida terrena, da
sua transcendência às limitações deste mundo e a
mundivivência cristã em que a revelação de Cristo
assegura que a vida continua além da morte, que um
destino feliz ou infeliz aguarda o homem conforme o seu
modo de viver na terra, a que neste mundo já é possível
ao homem nascer para a vida sobrenatural a nela crescer ate
que possa, após a morte, fixar-se num estado definitivo
de completa beatitude ou de felicidade eterna.
5. Essa conjunção da visão metafísica do ser humano
com a doutrina cristã dirigiu os pensadores à
consideração dos seres e, finalmente, do próprio Ser
que lhes fundamenta a justifica a existência. Por isso,
conforme Grabmann, a filosofia escolástica ostenta,
antes de tudo, um selo metafísico. E essa é a razão
pela qual os escolásticos tiveram tanto apreço por
Aristóteles que na sua Metafísica empreendeu com êxito
o primeiro e o mais notável estudo já realizado sobre o
ser, estudo que ele denominou filosofia primeira,
ciência da verdade e teologia, a que Andrônico de
Rodes designou como tá metá ta physiká, isto é, "os
livros depois da física", expressão que veio a servir
de título para a obra, tal como é universalmente
conhecida: Metafísica [317].
6. Por outro lado, o pensamento medieval foi
determinado essencialmente pelos dois fatores da auctoritas
e da ratio. Esses fatores do pensamento, por sua vez,
condicionaram o desenvolvimento do método escolástico
através de processos de ensino a de técnicas de trabalho
em grupo. A escola medieval é principalmente, no seu
período áureo, a escola superior, a universidade;
utiliza autores especiais, trabalha com os seus textos
prediletos. Assim, auctoritas em teologia é o
ensinamento da Igreja, é o texto da Sagrada
Escritura, são as obras dos Santos Padres a as Atas
dos Concílios. Em filosofia, são as obras de
Aristóteles, os livros de Boécio a de Santo
Agostinho, etc. Na área do direito, a auctoritas são
os livros do Corpus Iuris Civilis, a em medicina, as
obras de Hipócrates e Galeno, dos médicos árabes e
judeus. A ratio, por sua vez, vem a ser a razão
humana, isto é, o uso constante do raciocínio, a
prática da reflexão filosófica, a disposição do
pensamento em argumentações silogísticas, o recurso à
dialética, o gosto das discussões. Se o escolástico
trabalha com textos a se ampara nas autoridades, ele
confia igualmente no poder da razão, investiga as
regras do pensamento racional a as aplica às suss
investigações filosóficas a só admite uma conclusão
depois de maduro exame, de acirradas discussões e de
completa demonstração com o emprego de silogismos. Por
isso, diz Grabmann, os excessos que levaram ao declínio
da escolástica decorreram de abusos da auctoritas e da
ratio. A exaltação da autoridade levou a um
tradicionalismo hiperconservador, à recepção e à
compilação rotineiras de coisas já investigadas e
transmitidas nos livros e que conferiram a certa
escolástica o papel mumificador de repositório de
conclusões definitivas e intransponíveis. Do exagero da
ratio, do raciocínio, da dialética, resultou a mania
da sutileza e do artifício ideológico, "uma
hiperdialética que pensa em abstrato e faz das
auctoritates o objeto de habilidades conceptuais sem
apreciar objetivamente o material das fontes" [318].
7. No mais antigo comentário às Sentenças de Pedro
Lombardo, escrito por Pedro de Poitiers, depara-se
com a menção do método peculiar ao doutor escolástico e
que consiste na aplicação da lógica à doutrina sagrada
[319]. De modo ainda mais preciso refere-se Pedro de
Cápua em sua Suma, do início do século XIII, ao
método teológico que aparece com nítida feição
escolástica. Pedro de Cápua socorre-se de metáfora
arquitetônica e diz que primeiro se lançam os alicerces
das autoridades; em segundo lugar, levantam-se as
paredes dos argumentos e das questões e, em terceiro
lugar, estende-se o teto das soluções e das razões,
de tal forma que na casa de Deus a autoridade propõe o
que é certo, a argumentação ou questão discute e, por
fim, a razão explica e esclarece o assunto [320].
Finalmente, acha-se num passo de um Quodlibet de Santo
Tomás de Aquino o enunciado perfeito do método
escolástico usado no. estudo da teologia. Diz Santo
Tomás que a disputatio ou debate serve para dissipar as
dúvidas e, nesse caso, recorre-se às autoridades
admitidas pelos interlocutores com os quais se
discute... Outra espécie de disputatio ou debate é a
que se verifica nas escolas com o objetivo de instruir os
alunos e dirigi-los rumo à verdade e não com o de
expungir o erro; e, nesse caso, cumpre apoiar-se em
sólidas razões e procedentes investigações para se
demonstrar ser verdadeiro o que se diz, pois o simples
argumento de autoridade só proporcionaria certeza ao aluno
de que a questão é essa tal, mas não lhe dispensaria
conhecimento, nem o aluno perceberia a razão profunda da
afirmação feita pela autoridade [321]. E, nota
Grabmann, Santo Tomás está a inculcar que a verdade
teológica se conquista através dos recursos
proporcionados pela Auctoritas e pela
Ratio [322].
8. Esses passos ora aduzidos revelam a íntima essência
da teologia escolástica que foi anunciada por Boécio no
início da Idade Média, ao utilizar a filosofia no
estudo da doutrina cristã nos seus opuscula sacra.
Foi no século XI, entretanto, que Santo Anselmo de
Cantuária iniciou a elaboração da teologia escolástica
ao aplicar, por exemplo, as categorias de Aristóteles
ao exame do mistério da Santíssima Trindade, no seu
livro Monológion, e ao investigar racionalmente a
existência de Deus no Proslógion, o que levou o
historiador Grabmann a denominá-lo Pai da
Escolástica. No século XII Abelardo, apesar de
suas turbulências e ousadias, concorreu grandemente para
a constituição da Escolástica, tanto quanto à sua
forma extrínseca, quanto à sua íntima essência,
máxime nos tratados Sic et Non, Introductio ad
Theologiam e Theologia Christiana.
No Sic et Non
inaugura Abelardo no estudo da teologia o uso da questão
oriunda do confronto de diferentes opiniões dos Padres da
Igreja, mas que nessa obra ele não resolve, como p
devia fazer em classe, e como o fez ao tratar de modo
sistemático de muitas das suas questões na Introdução
d Teologia e na Teologia Cristã. No fim do prólogo
do Sic et Non declara Abelardo que recorreu ao processo
da contraposição das opiniões dos Santos Padres,
porque ele se presta para exercitar o engenho dos jovens
estudantes, levandoos à investigação atenta e alerta,
uma vez que "a interrogação assídua define-se como a
primeira chave da sabedoria e é duvidando que se chega à
verdade" [323]. Aliás, no início do prólogo
Abelardo chama a atenção para o cuidado que se deve ter
com a análise dos termos, já que "a significação
própria das palavras" é desconhecida de muitos
leitores, sobre variarem os significados dos vocábulos
conforme a suposição em que são usados. Por sinal que
advertências desse gênero foram muito freqüentes nas
obras de Santo Tomás de Aquino e de outros
escolásticos.
9. Não se veja no recurso às autoridades doesto com
que adumbrar o método escolástico, pois o apego a certos
mestres, textos e livros é peculiar ao ensino
universitário de nosso tempo, quando em muitos
departamentos de filosofia, por exemplo, se recorre
anualmente às mesmas autoridades, aos mestres
preferidos: Spinoza ou Kant, Marx ou Dewey, Husserl
ou Heidegger, etc., mas geralmente sem a abertura da
escolástica para o exame honesto de todas as sentenças
relativas a determinado problema.
10. A escolástica foi método e doutrina que
nasceram, cresceram e se aperfeiçoaram nas escolas,
desde os modestos recintos monásticos até às rútilas
cátedras universitárias. Da tradição antiga
mantiveram-se na primeira parte da Idade Média os
comentários que os professores teciam aos textos
examinados em classe, pálido vestígio dos freqüentes
e, por vezes, imensos comentários que os autores antigos
compuseram sobre obras filosóficas, literárias e
religiosas e que se estenderam às científicas na Idade
Média, especialmente à volta dos séculos X, XI e
XII. Outro processo fundamental da tradição
pedagógica no ensino da retórica foi a imitação dos
bons autores, praticada nos exercícios literários e
filosóficos na escola medieval. Inicialmente, nas
escolas monásticas o método consistia na simples leitura
de um texto, por exemplo os Distica Catonis, e no
respectivo comentário. Valafrido Estrabão conta no seu
Diário que no ano de 818, no curso de gramática,
leu obras de Alcuíno, os dísticos de Catão, poemas
de Próspero, Juvenco e Sedúlio e que nas aulas
noturnas os alunos "expunham as suas opiniões" ao
professor. Para exercitar a memória decoravam hinos
eclesiásticos. No ano de 820, no curso de
retórica, diz Valafrido, "comentamos e lemos os
escritos retóricos de Cícero". Pois bem, nos
séculos seguintes, aprimoraram-se esses processos
didáticos da leitura e do comentário.
11. A primeira forma fundamental do ensino, o processo
básico, era a lectio, a leitura dos textos que
proporcionava a aquisição do conhecimento e constituía o
marco inicial da formação da cultura. Por isso, o
mestre era um lector ou legens, e daí o termo português
"lente", o que lê. Todas as disciplinas dos cursos
universitários, as sete artes liberais, o direito civil
e o eclesiástico, a filosofia e a teologia assim como a
medicina, eram ensinados com base nos textos. Legere,
ler, em linguagem universitária significava ensinar e
quando a Igreja proibiu a leitura de Aristóteles devido
ao perigo para a fé causado pela mescla dos comentários
averroístas com os ensinamentos aristotélicos, ela
vetou, de fato, o ensino público da doutrina de
Aristóteles. Nas várias disciplinas a leitura
fazia-se em obras que tinham autoridades e serviam de
modelos, tal como Prisciano em gramática, Cícero em
retórica, Aristóteles na dialética, etc. Os textos
tornaram-se princípio de estagnação, explica Chenu,
desde que os estudiosos se limitaram à sua letra como se
fosse o conhecimento definitivo, o único objetivo do
saber, de forma que, por exemplo, saber medicina era
conhecer o Canon de Avicena e não o corpo do homem, e
saber filosofia era conhecer a doutrina de Aristóteles e
não investigar as causas dos seres e o significado da
existência [324].
12. Segundo os Estatutos de 1215 da Universidade
de Paris, havia duas maneiras le "ler" Aristóteles:
ler ordinarie e ler cursorie [325]. Ler ordinarie era
fazer uma exposição com explicações e comentários do
pensamento do autor, procedendo no estudo da Bíblia às
interpretações literal e espiritual, e esta
desdobrava-se na alegórica, na simbólica e na
anagógica [326]. Ler cursorie era ler rápido,
ad litteram, ao pé da letra sem analisar problemas
doutrinários nem se deter nas minúcias da
interpretação. Littera era a simples explicação de
palavras e frases. Sensus era a análise dos significados
dos termos e a explicação em linguagem clara do texto
examinado. Finalmente, sententia era a imersão no texto
à cata da sua compreensão profunda, da intenção do
autor, assim como a dedução de conclusões que
ultrapassassem a exegese textual. A glosa nas letras, na
teologia ou no direito e na medicina, era o breve
comentário de um termo ou de um passo, feito de modo
conciso e claro. O seu resultado eram as notas escritas
entre as linhas do texto, glosa interlinear, ou à margem
da página, glosa marginal. As notas interlineares
referiam-se à littera e ao sensus e as notas marginais,
à sententia. No século XII a glosa desenvolveu-se
num comentário mais amplo que, devido à extensão, não
se escreveu mais à margem, mas se tomou um texto
autônomo tal como, por exemplo, os comentários de
Santo Tomás de Aquino às obras de Aristóteles [327].
13. A collatio, colação, era na escola monástica
uma conferência ou alocução piedosa que servia para a
instrução dos monges ou dos estudantes. Na vida
universitária foi uma troca de impressões entre os
estudantes ou a livre discussão de um tema orientada pelo
mestre e realizada uma vez por semana ou cada quinze dias.
Muitas vezes surgiam da lectio dificuldades relativas à
letra, ao sentido ou à sentença dos textos e que
desbordavam das glosas no confronto de opiniões opostas,
de dificuldades que provocavam debates com a apresentação
de argumentações contrárias e de uma solução final.
A evolução da lectio à quaestio pode ser bem
acompanhada no domínio da teologia. A questão
tornou-se, enquanto o problema dialético da lógica
aristotélica, o eixo do método escolástico em que um
tema é examinado de modo exaustivo. Proposto o assunto,
examinam-se as concepções mais expressivas que se lhe
referem, as opiniões contrárias e as sentenças
favoráveis à solução aventada. No corpo do artigo
resolve-se o problema através de demonstração em forma
silogística e, por último, analisam-se as sentenças
propostas anteriormente, aprofundando-se o seu
significado e destacando-se os seus aspectos positivos ou
refutando-se os pontos de vista inadmissíveis.
14. A disputa - quaestio disputata - nasceu da lectio
através da questão e se tornou exercício autônomo
próprio do mestre universitário que a organizava para os
seus estudantes. Ocorria no período vespertino e era
sustentada pelos bacharéis ou pelo próprio mestre com a
participação dos alunos que propunham objeções, A
disputa de quolibet era uma questão extraordinária ou
disputa solene realizada duas vezes por ano, perto do
Natal e da Páscoa. Nessa ocasião os mestres de
teologia ou de artes sustentavam uma disputa em que os
temas eram imprevistos por serem escolhidos na hora pelos
assistentes e as perguntas podiam referir-se a qualquer
assunto. Daí o nome dessa disputa: de quolibet. As
Quaestiones quodlibetales constituem o modelo primoroso do
gênero. Como diz Chenu, "a disputa era o torneio dos
clérigos". No dia marcado, sob a direção do mestre,
o bacharel sustentava a disputa contra doutores,
bacharéis e estudantes numa verdadeira desordem de temas,
ataques e respostas. Noutro dia, o mestre ordenava o
assunto e procedia à determinatio, isto é, resolvia de
modo autorizado e categórico a questão. Desse modo, a
universidade medieval era um ambiente animado pelas
investigações, pelos debates e pela atividade dos alunos
e professores. Nela não existia esse processo didático
exclusivo, monótono e rotineiro de meras aulas
expositivas e de modo algum os alunos se mostravam ouvintes
passivos a repetirem cegamente as palavras do professor.
O método extravagante do magister dixit foi invenção
antiga dos pitagóricos que nunca se acomodou aos processos
ativos e vivazes do método escolástico, mas que se
perpetuou nas práticas da escola renascentista decadente,
do século XVII quase até os nossos dias, quando a
renovação didática da pedagogia moderna retomou o
espírito e as técnicas da universidade medieval.
15. O método escolástico desenvolveu-se sob a
inspiração e o estímulo da lógica aristotélica. A
técnica da disputa é inculcada e regrada especialmente
nos Segundos Analíticos, nos Tópicos e nas
Refutações dos Sofismas, os três últimos livros do
Organon. Desde o século XII observa-se a citação
freqüente dos Tópicos como verdadeiro manual de
instruções para as disputas. Logo após a metade do
século XIII, o franciscano Gilberto de Tournai
consagrou um capítulo do seu tratado de pedagogia De modo
addiscendi às disputas e mencionou os Tópicos. No
capítulo X da Quarta Parte ele demonstra que o engenho
- poder da alma que investiga o que não se conhece,
segundo Gilberto - se aguça por meio das disputas e
nestas é preciso levar em conta a intenção, o modo, a
ordem e a cautela. A disputa deve ser conduzida com reta
intenção e não deve ter por fim a vanglória, o
espírito de contradição, o encobrimento da própria
ignorância nem a subversão da verdade. Bem ao
contrário, a disputa deve objetivar o aguçamento do
engenho, o conhecimento da verdade, a instrução, a
edificação do próximo e a refutação do erro. Em
segundo lugar, ensina Gilberto, a disputa deve ser
estruturada com o tema, as oposições e as respostas, e
o responsável pelo debate deve ater-se ao essencial sem
atacar a pessoa ou o nome do contendor, procurando sempre
atingir a verdade, a menos que, de propósito, sustente
a falsidade de caso pensado como recurso metódico, para
ver o que daí resulta. Na disputa é fundamental
assegurar-se dos princípios e essa ordem impõe-se ainda
mais na faculdade de teologia, "para que a disputa se
inicie com proposição admitida pela fé". E aí que
Gilberto cita os Tópicos com afirmar: "Aristóteles
ensina a ordem a ser observada nas disputas e a técnica do
debate tanto nos Tópicos quanto nos Elencos'' [328].
E Gilberto de advertir: "De resto, não vejo como
possa disputar sutilmente em alguma ciência quem não sabe
dialética." Ademais, acrescenta, é necessário
conhecer os sofismas, a fim de os desmascarar e refutar.
Em terceiro lugar, nas disputas os contendores devem
proceder com seriedade interior e com honestidade externa.
Por último, é preciso agir com discrição, "com as
cautelas da sabedoria". O argüidor deve evitar os
seguintes escolhos: questões inúteis, demonstração
supérflua de coisas evidentes, discursos empolados,
proposições obscuras, afirmações falsas e improváveis
e conclusões sofísticas. O respondedor, por sua vez,
deve ponderar o que diz e não afirmar o que não convém e
deve agir diversamente com os diferentes argüidores, por
exemplo, com o curioso, o tentador, o investigador da
verdade ou com o herege. Só se responda, recomenda
Gilberto; o que for útil aos ouvintes e nas disputas com
os hereges recorra-se, também, à oração.
16. A expressão literária do método escolástico
apresenta-se através de vários gêneros. Houve livros
escritos com o caráter de introdução à filosofia, tal
como os tratados De divisione philosophiae de Domingos
Gundissalvo, o De ortu scientiarum de Roberto
Kilwardby, etc. Outros eram compêndios com exercícios
de lógica; tal foi o gênero dos Sophismata com os
Impossibilia, os Insolubilia. Classe especial de
literatura escolar foram os comentários sobre as obras de
Aristóteles compostos por Santo Alberto Magno, Santo
Tomás de Aquino, Egídio Romano, Pedro de
Auvergne, Duns Scotus e outros. Houve, ainda, os
opúsculos filosóficos como os de Santo Alberto Magno e
de Santo Tomás de Aquino; a literatura das questões
como as Quaestiones Disputatae de Santo Tomás de
Aquino, Mateus de Aquasparta, Bernardo de Trília,
João de Nápoles e outros. Tiveram muita aceitação e
prestaram ótimos serviços as enciclopédias como a De
proprietatibus rerum de Bartolomeu, o Inglês; De
naturis rerum de Tomás de Cantimpré; o Speculum
Maius do dominicano Vicente de Beauvais; a Catena
entium de Henrique de Herford, etc. Compuseram-se
também sumas filosóficas como a Summa de creaturis de
Santo Alberto Magno, a Summa contra gentiles de Santo
Tomás de Aquino e a Summa Philosophiae atribuída a
Roberto Grosseteste. Além disso, as sumas teológicas
contêm precioso material filosófico, tal como os vários
Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo, e as
Sumas Teológicas de Tomás de Aquino, Ulrico de
Estrasburgo e Henrique de Gand. Aliás, conforme
Chenu, as Sumas no terreno dos gêneros literários
revelam a notável capacidade inventiva dos escolásticos
[329]. Em todos os gêneros brilhou e avantajou-se o
gênio de Santo Tomás de Aquino que, além de
opúsculos, dissertações, comentários e questões
disputadas e quodlibetais, compôs o maravilhoso monumento
da Suma Teológica, síntese ordenada e claríssima da
teologia cristã, sobre ser mina preciosa de ensinamentos
filosóficos e para nós, especialmente no tratado dos
hábitos, um manancial fecundo de doutrinas pedagógicas.
17. A tradução das obras filosóficas e científicas
dos gregos, especialmente da enciclopédia aristotélica,
impulsionou o estudo da filosofia e das ciências nas
universidades e aumentou bastante graças aos novos
contatos dos estudiosos ocidentais com o patrimônio da
cultura grega antiga através da sua estada no Oriente
depois da conquista de Constantinopla pelos guerreiros da
Quarta Cruzada orientada e sustentada pela República de
Veneza, quando se criou o Império Latino do Oriente,
em 1204. Dessa feita, os tradutores eram homens do
norte, ao contrário do século XII, quando se
destacaram os centros sulinos da Sicília e de Toledo.
Os dois tradutores mais importantes dessa fase foram
Roberto Grosseteste, bispo de Lincoln, que foi
professor dos primeiros franciscanos ingleses, e
Guilherme de Moerbecke, arcebispo de Corinto em
1278, dominicano, que traduziu muitas obras de
Aristóteles e de seus comentadores gregos, a pedido do
seu confrade Santo Tomás de Aquino. Roberto
Grosseteste, por sua vez, traduziu a Ética de
Nicômaco com os seus comentários gregos; o De caelo
(do livro I até ao fim do começo do III com o
comentário de Simplício); as obras
pseudoaristotélicas De virtute e De lineis
indivisibilibus; as Epístolas de Santo Inácio de
Antioquia; o Testamento dos XII Patriarcas, as
obras do Pseudo-Dionísio com os comentários de
Máximo o Confessor e os escólios; o De vita
monachorum, e o De fide orthodoxa, e mais De hymno
trisagio, Logica, De haeresibus e a Introductio
dogmatum elementaris de São João Damasceno; o De
passionibus do Pseudo-Andronicus e o Lexicon de
Suidas.
18. Guilherme de Moerbecke fez novas traduções de
Aristóteles e pôs em boa forma latina os Libri
naturales, a Metafísica, a Ética,
a Política, a
Retórica, a Poética e o De animalibus. Traduziu,
também, comentários gregos sobre Aristóteles escritos
por Amônio, Simplício, Alexandre de Afrodísias,
Temístio e João Filopono. Traduziu, ainda,
Elementatio Theologica de Proclo, escritos de
Arquimedes, Eustóquio, Ptolomeu o Geógrafo,
Heron; o De alimentis de Galeno e o De
prognosticationibus aegritudinum secundum motum lunae do
Pseudo-Hipócrates. Se levarmos em conta as obras já
traduzidas de Aristóteles durante o século XII, pode
afirmar-se que, à volta de 1200, a maior parte da
obra aristotélica já estava ao alcance dos estudiosos
latinos. As obras de Averróis não foram conhecidas
antes de 1230. Em artigo de 1933, La première
entrée d'Averroës chez les Latins, De Vaux indica
como a opinião mais provável a que assegura terem sido
feitas as primeiras traduções de Averróis na corte da
Sicília a partir de 1227 por uma equipe de
tradutores, cujo principal representante era Miguel
Scot, e terem sido introduzidas nos meios universitários
a partir de 1231. O medievalista Van Steenberghen
sustenta que as primeiras citações de Averróis podem
ler-se na obra De universo e no De anima de Guilherme
de Auvergne, compostas, ao que tudo indica, entre
1231 e 1236, e afirma que em 1240 estava
terminada a penetração no Ocidente das obras do
Cordovês. Essas obras foram acolhidas com simpatia e
sem desconfiança e demorou para que os escolásticos
percebessem a verdadeira natureza do averroísmo e se
precatassem contra os seus erros [330]. No ano de
1263, Manfredo, rei da Sicília, na corrente das
traduções e das contribuições culturais, deu de
presente aos estudiosos da filosofia da universidade de
Paris os livros de Aristóteles e de outros filósofos
que ele próprio fizera traduzir para o latim [331].
19. O fator mais relevante para o desenvolvimento da
Escolástica foi a introdução das obras de Aristóteles
na corrente latina dos estudos e a sua prescrição no
currículo universitário. Com Aristóteles entrava no
pensamento ocidental a convicção de que a filosofia é
disciplina racional autônoma, relacionada intimamente com
as outras e com a crença religiosa, mas distinta e
independente na sua constituição e operação. Com
Aristóteles alargou-se o âmbito do saber devido ao
aparecimento de várias disciplinas científicas e ao
enriquecimento doutrinário das já existentes. Com
Aristóteles impôs-se a convicção de que o poder
temporal é sociedade perfeita na sua esfera de ação e
que, embora unido ao poder espiritual, dele pode
destacar-se e atuar sem subserviência ou pretensão de
domínio indébito. Com Aristóteles os estudiosos
passaram a contar com o inigualável instrumento do
filosofar - apesar dos exageros dos averroístas que
instauraram o culto filosófico do Filósofo - com a
sólida garantia do rigor do pensamento na lógica formal
com o ideário das leis da inteligência, com os
artifícios da técnica da discussão, com os recursos
dialéticos para o desmascaramento e a refutação dos
sofismas. E foi graças à utilização da lógica formal
que se aguçou a mente dos glosadores dos textos
jurídicos, filosóficos, médicos e teológicos. É
muito sintomático o fato, por exemplo, de o comentário
dos Aforismos de Hipócrates escrito por Magister
Maurus conter importantes elementos lógicos; de um
estudante de cirurgia em 1770 em Salerno ser também
professor de lógica, segundo informação dada por
Kristeller, e mais eloqüente, ainda, o fato de a lei
de Frederico lI, à volta de 1241, prescrever três
anos de estudo de lógica como pré-requisito aos estudos
propriamente ditos de medicina.
20. De acordo com o mais lídimo espírito
aristotélico - gosto da observação sensível, da
demonstração científica e das investigações
biológicas - em Salerno vários tratados de anatomia
indicam a prática de demonstração anatômica em sala de
aula e baseada na dissecação de animais. Tudo indica
que foi Mateus Platearius o primeiro professor
salernitano a proceder à dissecação de animais no
início do século XII. Por outro lado, observa
Kristeller, o aparecimento do comentário de obras
médicas assinala a passagem da instrução prática para a
teórica em Salerno e, tanto na medicina como em outras
áreas onde apareceram os comentários, eles refletem um
método didático baseado na leitura e na explicação dos
textos de autoridades na matéria [332]. Os
comentários médicos eram usados tanto em Salerno quanto
alhures e serviam de compêndios didáticos. Na segunda
parte do século XII deu-se um avanço pedagógico em
Salerno, quando a instrução médica teórica passou a
basear-se nas obras clássicas da medicina grega e árabe
traduzidas por Constantino, o Africano. Desse tipo
foram os Comentários de Bartolomeu aos Aforismos de
Hipócrates, o do Magister Mateus à obra sobre as
dietas do judeu Isaac e o famoso comentário de Maurus
aos Aforismos de Hipócrates, pertencentes à segunda
metade do século XII, assim como o grande comentário
de Uso da Calábria aos Aforismos onde, informa
Kristeller, aparece a primeira citação explícita de
Aristóteles na literatura salernitana. E a obra de
Urso não só contém doutrinas aristotélicas como nelas
ele desenvolve um sistema de filosofia natural que servia
de base firme para a teoria e a prática médicas. Está
claro, portanto, que nas faculdades de medicina o ensino
se desenvolveu através de exposições, leituras,
comentários e debates com o auxílio da lógica
aristotélica. Na universidade de Montpellier uma bula
de Clemente V, de 8 de setembro de 1309, organizou
o exame da licenciatura prescrevendo duas lições, uma
teórica e a outra, prática, seguidas de debates. Os
estudos estendiam-se por seis anos de cursos e de
exercícios e por oito meses de prática. Os autores,
auctoritates, do programa do curso médico repartiam-se
em gregos e árabes. A parte principal cabia a Galeno e
a Hipócrates, logo seguidos por Avicena e, como
explica Delaruelle, "com Avicena a lógica e a
metafísica tomaram posição no ensino" e ultrapassou-se
a época das coleções de receitas [333].
21. Ao tratar das matérias e dos métodos didáticos
no domínio jurídico da universidade de Bolonha, diz
Sorbelli que pouco se sabe das cátedras e das matérias
de ensino nos dois primeiros séculos, quando as lições
se reduziam à declaração, ilustração e exegese das
principais partes do Corpus Iuris Civilis: Código,
Digesto Velho, Infortiatum, Digesto Novo e
Volume. O ensino do direito canônico repousava no
comentário do Decretum de Graciano, das Decretais, do
Sexto e das Clementinas. Havia cursos propedêuticos
com aulas preliminares ou preparatórias em que se tomavam
por textos as obras intituladas De verborum significatione
e De regulis iuris. Outras aulas preliminares,
diferentes das anteriores, eram as Praelectiones dadas no
início do ano pelo professor que iniciava o curso
examinando um determinado texto e indicando os seus
aspectos gerais, divisão e estrutura. As glosas eram o
comentário escrito que era lido e explicado ou também era
oral e composto para a exposição. Na metade do século
XIII havia, também, o Aparatus, lições que
proporcionavam a explicação exegética das fontes do
direito civil e canônico e às quais se juntavam as
considerações da casuística com a apresentação de
dificuldades e a respectiva solução à luz dos textos
civis ou canônicos. As Repetitiones ou Recollectae
eram aulas de revisão da matéria que o professor dava de
modo rápido e claro na segunda metade do ano letivo.
Como coadjuvantes do ensino circulavam lições escritas:
repertoria, margaritae, specula, arbores, libelli,
cavillationes, breviaria, notabilia, apostillae,
summae, etc. [334]. Vinogradoff observa que para os
doutores de Bolonha, a partir do século XII, os
livros de Justiniano eram livros sagrados, as fontes
categorizadas donde deviam sair todas as deduções, e que
uma das suas principais preocupações era o exame crítico
do estado do texto. Ele assevera que a análise
dialética dos textos foi a grande obra da escola.de
Bolonha [335]. Ao caracterizar o espirito do
renascimento dos estudos jurídicos, Vinogradoff realça
a aplicação do método escolástico ao estudo do direito
e o papel desempenhado pela lógica aristotélica na
forjadura da Escolástica [336].
22. Traço típico e essencial do método escolástico
é o acatamento das autoridades e o processo didático do
comentário ou glosa. Alguém poderia dizer que essa
técnica era atrasada e estagnante, pois o ideal seria a
manifestação da criatividade didática, a pesquisa e a
experimentação que levam o estudioso a novas descobertas
e a novos conhecimentos. Tal observação, no entanto,
é injusta e improcedente. Primeiro atente-se para o
fato de que, desde o século XII, em todas as áreas
de estudo procedeu-se à recuperação cultural do
patrimônio antigo no mundo latino medieval, o que levou
ao apego às autoridades, mas apego realizado com
desembaraço e espírito crítico, como se colhe dos
exemplos famosos de Abelardo e de Santo Tomás de
Aquino que, junto com muitos outros mestres, não se
limitaram a repetir lições tios Antigos, mas deram ao
patrimônio do saber as próprias contribuições e lidaram
quanto às fontes com critério pessoal e com
independência de juízo. Este espirito crítico do
Aquinatense manifestou-se na sua atitude e nos seus
ensinamentos quanto às auctoritates. Assim, num lanço
da Suma Teológica ele diz ser natural à razão humana
passar gradualmente do imperfeito ao perfeito e, por
isso, os primeiros filósofos deixaram obra imperfeita que
os seus sucessores viriam aperfeiçoar [337]. Ademais,
acrescenta o grande mestre num passo famoso do seu
comentário ao De anima de Aristóteles: "Devem
escutar-se as opiniões dos Antigos, por vetustas que
sejam, pois, assim podemos apropriar-nos do que falaram
certo e evitar o que disseram de errôneo" [338].
Finalmente, Santo Tomás faz uma declaração e um
desabafo que se podem tomar por mote dos filósofos
escolásticos medievais: "O estudo da filosofia não tem
por objeto saber o que os outros pensaram, mas conhecer a
verdade das coisas" [339].
23. Finalmente, importa frisar bem que o método
escolástico não nasceu pronto mas se desenvolveu
lentamente, máxime durante o século XIII. No
substancial artigo de Callus O.P., Introduction of
Aristotelian Learning to Oxford, há excelente lição
a tal respeito. Segundo Callus, a análise da estrutura
e do método de estudo da nascente Faculdade de Artes é
de grande valia para se compreender a história do
aristotelismo. Callus distingue três períodos no
desenvolvimento do método escolástico. O primeiro foi o
Aviceniano em que os tratados e os cursos seguiam o modelo
de Avicena, que consistia na exposição da doutrina de
Aristóteles por meio de uma paráfrase feita em
diferentes tratados que levam o nome dos livros
aristotélicos, combinando-a com o pensamento do autor
escolástico. Assim foram os tratados Sobre a alma de
Domingos Gundissalvo e de João Blund. O segundo
período foi o Averroístico. As principais obras de
Averróis começaram a circular em latim à volta de
1230. Constituíam comentários breves, claros e
agudos do pensamento aristotélico, o que valeu ao autor
muçulmano o epíteto de Commentator, o Comentador.
Cerca de 1240, a sua influência já surge nas obras
dos escolásticos e os tratados são substituídos por
comentários ou glosas, expositio per modum commenti, com
a sua nova técnica inspirada em Averróis e com um
sistema acabado de divisão e análise do texto comentado.
Por fim, no último quartel do século XIII, o
comentário assumiu nova forma, quando a divisão e a
análise do texto foram lentamente reduzidas à expressão
mais simples até quase desaparecerem completamente
substituídas por Quaestiones sobre a littera, Expositio
per modum quaestionis, discussão de problema oriundo do
texto ou com ele relacionado [340].
24. Em artigo consagrado ao método escolástico na
educação medieval, George Makdisi comete o exagero de
atribuir ao Oriente Islâmico a origem do método
escolástico, embora reconheça sensatamente que a
Universidade é um fenômeno estritamente próprio da
Europa Ocidental na Idade Média. Em suma, os
escolásticos cristãos ter-se-iam apropriado do método
escolástico muçulmano [341]. Ora, como temos visto,
esse método surgiu e se desenvolveu pouco a pouco nas
escolas medievais, desde os estabelecimentos monásticos e
das escolas episcopais até às várias escolas
universitárias do século XIII. O maior argumento de
Makdisi assenta no "fato notável" de o método do Sic
et Non ter tido o seu habitat natural no direito religioso
muçulmano. O Khilaf (sic et non) e o Jadal
(disputatio) foram processos dialéticos estabelecidos no
Islão no século nono. Acontece, no entanto, que esse
argumento não é convincente.
25. Primeiramente, atente-se para o fato de que o
método do sic et non, pró e contra, exame de opiniões
divergentes, não surgiu com Abelardo pela primeira vez
na história do pensamento humano. Já entre os gregos,
no mundo ocidental, o método fora usado pelos
filósofos. Veja-se, por exemplo, o Livro I do
tratado De anima de Aristóteles com a exposição das
opiniões dos filósofos sobre a alma e considere-se a
declaração feita pelo filósofo no início do capítulo
I do Livro II da mesma obra: "Já expusemos ou
discutimos suficientemente as teorias sobre a alma que nos
legaram nossos predecessores", e ele passa então a
determinar o que é a alma e a dar uma definição
satisfatória [342]. Ademais, já na República
romana, antes de Cristo, estudava-se o direito através
de consultas públicas que os clientes faziam aos
jurisconsultos e que se processavam por meio de
discussões, disputationes, e os assistentes chamavam-se
auditores, ouvintes. Como diz Cícero, os
jurisconsultos faziam-se ouvir sem consagrarem tempo
especial ao ensino [343]. Por conseguinte, o Khilaf
não foi prerrogativa do direito islâmico mas existiu com
certeza desde que Adão e Eva ponderaram o pró e o
contra da manducação do fruto proibido. Por outro
lado, releva lembrar o velho anexim filosófico: "As
mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos." Ora,
a causa comum que estimulou as argúcias da discussão e
dotou os estudiosos do instrumento apto para o debate foi a
dialética, a lógica aristotélica que atuou no método
jurídico do Islão, como diz Makdisi [344]. No
Ocidente a dialética influenciou primeiro a teologia e as
ciências e logo foi aplicada ao direito, como ensina
Vinogradoff [345].
26. Sobre denotar o método peculiar à universidade
medieval, e que se tornou aquisição definitiva do
pensamento humano, a escolástica significa também o
conjunto de todas as doutrinas ensinadas e constituídas
nos domínios da filosofia, da teologia, do direito, da
medicina e das ciências naturais. Assim, pode dizer-se
que o termo escolástica abrange as doutrinas estabelecidas
a propósito do Digesto ou Pandectas,
das Institutas,
do Segundo Código, e das Novelas que integravam o
Corpus Iuris Civilis [346]. Nos Estatutos da
Universidade dos Juristas de Bolonha, na rubrica
XXXVI, em que se fixam os preços dos livros, pode
verificar-se a vasta literatura jurídica dos apparatus,
casus, disputationes, summa, libellum, notabilia,
cavillationes, brocarda, flos, textus, margarita,
lectura, etc. utilizada nas faculdades de direito, e que
continha as doutrinas dos novos mestres da jurisprudência
[347].
27. Na universidade de Montpellier, por
recomendação de Arnaldo de Villanova e de outros
médicos, o papa Clemente V prescreveu em 1309 os
livros a serem adotados no estudo da medicina e que
abrangiam os "clássicos médicos" gregos, muçulmanos e
judeus: Galeno, Hipócrates, Avicena, Constantino o
Africano, Iohannicius, Isaac, etc. [348]. Já no
início do século XIII formularam-se doutrinas
médicas nas obras de Gilbert of England, William of
England e do famoso Pedro Espanhol, Petrus Hispanus,
que veio a ser o papa João XXI [349].
28. No campo da teologia assinalaram-se as grandes
sistematizações doutrinárias expressas nas Sumas
Teológicas de Guilherme de Auxerre, Felipe o
Chanceler, Gaufrido de Poitiers, Guilherme de
Auvergne e, sobretudo, as do período áureo do século
XIII e que principiou em 1230, compostas por
Alexandre de Hales, o Doctor irrefragabilis, Santo
Alberto Magno, o Doctor Universalis, e principalmente
por Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus.
Destacaram-se, ainda, pelas especulações teológicas
e pelas obras, São Boaventura, Egídio Romano,
Henrique de Gand, Godofredo de Fontaines, Duns
Scotus e inúmeros outros teólogos dominicanos,
franciscanos, agostinianos, carmelitas, seculares,
etc.
29. Além das sistematizações doutrinárias,
salientaram-se as pugnas teológicas travadas entre os
conservadores que defendiam doutrinas filosóficas
muçulmanas e judias atribuídas a Santo Agostinho e os
teólogos que aproveitaram a filosofia aristotélica para
aprofundar o estudo da ciência sagrada, e alguns
artistas, filósofos que professavam a doutrina de
Aristóteles segundo a interpretação de Averróis e que
não se conciliava com a teologia cristã.
30. Como diz Grabmann, juntamente com as noções
científicas e filosóficas das obras traduzidas do grego e
do árabe, desde o século XII, penetraram no mundo
ocidental concepções que não se enquadravam com a antiga
escolástica de orientação agostiniana. Muitas teorias
novas invadiam o terreno do dogma e levaram os teólogos
inicialmente à atitude defensiva e mais tarde à
ofensiva. O pior, entretanto, foi a invasão dos
ensinamentos do aristotelismo árabe no campo da
escolástica, e que se opunham frontalmente às verdades
fundamentais do Cristianismo, tal como a doutrina da
eternidade do mundo, a interpretação do intelecto agente
e possível, de modo a negar a personalidade e a
imortalidade da alma humana, a limitação ou a negação
absoluta da Providência divina, a negação do
livre-arbítrio e outras idéias discutíveis [350].
Mas como o reconheceu Grabmann antes. dessa
afirmação, "o acontecimento mais importante da
História da Teologia Medieval foi, sem dúvida
alguma, a entrada da literatura aristotélica,
anteriormente limitada apenas às obras lógicas, e da
filosofia e da ciência natural árabo-judia, no
horizonte da Antigüidade Cristã" [351]. O
resultado da introdução da obra aristotélica na
perspectiva mental dos cristãos do Ocidente não foi
apenas a oposição e a luta de" idéias como, também,
um precioso adjutório à especulação teológica e às
sínteses doutrinárias. Assim, merecem realce especial
no tocante à reflexão teológica a doutrina dos
significados do ser, do ato e da potência, da matéria e
da forma, das várias espécies de movimento, das
potências ou faculdades da alma, das virtudes, etc.
31. O verdadeiro artífice da integração das noções
filosóficas de Aristóteles na teologia cristã foi
Santo Tomás de Aquino que, ademais, elaborou uma
sólida síntese da filosofia na linha do pensamento
aristotélico, mas corrigindo os erros do Estagirita e
dando ao corpo da filosofia as suas próprias
contribuições. Isso foi possível porque Santo
'Tomás soube discernir com proficiência a filosofia da
teologia, soube perceber, com acuidade que, em sendo a
filosofia obra da pura razão, o que houvesse de certo na
filosofia de Aristóteles seria imposição racional e
não apenas concepção pessoal do grego Aristóteles que
filosofou na Antigüidade. Por isso, segundo o
Aquinatense, saber filosofia não é repetir as palavras
de Aristóteles, mas assegurar-se da verdade através de
investigação racional e de raciocínios válidos. Ele
ensinou, ainda, que os homens não esgotam de uma vez a
inteligibilidade das coisas, mas que a filosofia é o
resultado das especulações de muitos homens através de
sucessivas gerações de modo que, embora os homens
realizem conquistas intelectuais e entesourem conhecimentos
perenemente válidos, sempre resta muito a saber e as
velhas questões podem ser de novo investigadas e
esclarecidas à nova luz noutro contexto cultural e em
diferente perspectiva histórica.
32. Foi o Doutor Angélico quem concretizou o antigo
plano patrístico de conciliar a filosofia racional e o
pensamento grego com a sabedoria cristã. E ele o fez
não só ao caracterizar os tipos de conhecimento
filosófico e teológico, mas ao desenvolver longa e
pacientemente em suas obras as questões de filosofia e
teologia, de modo que, sobre ser principalmente
teólogo, Santo Tomás consagrou-se como um dos mais
eminentes filósofos de todos os tempos pela segurança da
doutrina, pelas luzes que espargiu e pelos conhecimentos
que sistematizou nas áreas da lógica, da metafísica,
da filosofia natural, da educação, da psicologia, da
ética e da política. Como disse com propriedade o papa
Pio XI na encíclica Studiorum Ducem, "em filosofia
Santo Tomás salvaguarda a força e o poder da
inteligência humana, assim como o dissemos, e prova a
existência de Deus por meio dos mais firmes argumentos"
[352].
33. Na Suma Teológica Santo Tomás de Aquino
demonstra que deve existir uma ciência sagrada distinta da
filosofia e que, ocasionalmente, tanto a teologia como a
filosofia podem considerar o mesmo objeto ou tema, a
saber, Deus, o homem, o bem, a conduta, etc. No
entanto, apesar de coincidência do objeto material
considerado, essas ciências distinguem-se claramente
pelo seu objeto formal, isto é, pelo ponto de vista do
qual o examinam. Aliás, segundo o Aquinatense, é o
objeto formal o critério especial da indagação que
permite distinguir as ciências particulares umas das
outras como, por exemplo, a geometria da aritmética ou a
geografia da geologia. A filosofia busca as razões das
coisas e as causas dos seres exclusivamente através da
razão, por meio do raciocínio, enquanto a teologia
considera as coisas como reveladas, isto é, as suas
argumentações partem de premissas que são verdades
reveladas por Deus e que os homens admitem pela fé [353].
34. Levando-se em conta essa imensa realização
cultural de Santo Tomás, o medievalista Grabmann
resume-lhe os efeitos da seguinte maneira: "A grande
obra científica de Santo Tomás é a penetração
autônoma, a apropriação da filosofia aristotélica e a
vinculação orgânica da mesma com a Weltanschauung do
cristianismo, cientificamente exposta por Santo
Agostinho e pela primitiva escolástica, a criação de
um aristotelismo cristão na filosofia e a elaboração da
teologia especulativa com meios e formas da filosofia
aristotélica, adaptada para isso, mas sem abandonar de
modo algum as grandes linhas da tradição
eclesiástico-escolástica" [354].
35. O aparecimento da vasta literatura filosófica e
científica no ocidente cristão provocou uma crise
inevitável, já que no centro dessa literatura estava a
obra do pagão Aristóteles, rodeada de comentários
gregos e muçulmanos. Imediatamente manifestou-se a
oposição entre o naturalismo da filosofia antiga e a
visão sobrenatural do cristianismo, entre o racionalismo
de Aristóteles e a fé que leva o cristão a admitir a
revelação. Essas antinomias podiam resolver-se, como
o demonstraram Santo Alberto Magno e Santo Tomás de
Aquino, mas a primeira reação de certos teólogos
católicos ante os libri naturales, os livros de filosofia
natural de Aristóteles, foi de recusa e proibição,
logo seguidas de cautela e circunspecção. A primeira
atitude resultou do ensino em Paris, no começo do
século XIII, dos libri naturales aristotélicos junto
com as paráfrases de Avicena. David de Dinant, mestre
da faculdade de artes. interpretou a doutrina
aristotélica de modo panteísta, e o teólogo Amauri de
Bene também professou o panteísmo, e ambos fizeram
discípulos. O concílio de Sens de 1210
condenou-lhes a doutrina - apesar de já estarem mortos
- e proibiu o ensino dos libri naturales e dos seus
comentários. O cronista Roberto de Auxerre
(Autissiodorensis) registrou na sua Crônica, a
respeito do ano 1210, os rumores e os passos da
condenação de Amauri e dos livros naturais.
Incidiram, também, na condenação 14 réus entre os
quais havia "alguns sacerdotes que tinham o cuidado das
almas". Foram tidos por hereges; dez foram queimados e
quatro foram condenados à prisão perpétua. O
espetáculo desse castigo contou com imensa assistência,
innumerabilis hominum multitudo. O corpo de Amauri foi
exumado e enterrado longe do cemitério sagrado e os
"livros naturais" de Avicena. David de Dinant,
mestre da faculdade de artes, inter, Paris" foram
proibidos por três anos, "pois as sementes dos erros
amauricianos pareciam ter nascido deles" [355], embora
os ensinamentos de Amauri se inspirassem mais em João
Escoto Eriúgena e na metafísica chartrense.
36. Por determinação dos Estatutos dados à
universidade de Paris pelo cardeal-legado Roberto de
Courçon, os livros de lógica e a Ética de
Aristóteles podiam ser usados no ensino, mas a
Metafísica, os livros de filosofia natural, os seus
resumos, assim como as doutrinas de David de Dinant,
Amaury de Bene ou Maurício Espanhol, não podiam ser
ensinadas [356]. Essa proibição, todavia,
restringia-se a Paris, pois na Inglaterra as obras
aristotélicas eram ensinadas serenamente, enquanto os
mestres da nova universidade de Tolosa proclamavam em
1229 que na sua escola os "livros naturais" proibidos
em Paris podiam ser matéria de ensino e de estudo
aprofundado [357]. Na bula Parens scientiarum de 14
de abril de 1231, denominada por Masnovo "Carta
Magna da Universidade de Paris", o papa Gregório
IX ordenou que os livros de filosofia natural de
Aristóteles, proscritos pelo concílio provincial de
Sens em 1210, mas proibidos ex certa causa, não
deviam ser usados em Paris até que fossem examinados e
ficassem isentos da suspeita de erro [358]. A comissão
nomeada pelo papa, composta de três membros, não chegou
a conclusão alguma, pois se desfez com a morte do seu
membro mais ilustre, Guilherme de Auxerre, a 3 de
novembro de 1231. A proibição dos libri naturales
só se referia ao ensino público e não à leitura em
particular. Embora sempre estivesse presente aos
adversários do aristotelismo, ela foi permanecendo sem
efeito para os estudiosos da filosofia, ao mesmo tempo em
que os mestres de teologia das novas ordens mendicantes se
aplicavam ao exame e ao estudo aprofundado da obra
aristotélica. Os Estatutos dos Artistas da Nação
Inglesa da universidade de Paris, promulgados em
1252, não mencionam os "livros naturais" nem a
Ética, mas prescrevem os tratados de Órganon e, o que
é significativo, o De anima que se incluía antes entre
os libri naturales [359]. Finalmente, nos Estatutos
da Faculdade de Artes de Paris, promulgados pelos
mestres a 19 de março de 1255, todas as obras de
Aristóteles foram prescritas para o ensino, e desse
modo a Faculdade das Artes converteuse, de fato, em
Faculdade de Filosofia [360].
37. Nos anos seguintes a questão dos estudos
aristotélicos azedou porque se, de um lado, a doutrina
aristotélica favorecia a concepção da filosofia
autônoma quanto à teologia, por outro, trazia no bojo
idéias estranhas e contrárias à fé cristã. Ora,
para muitos teólogos a filosofia não podia ser vista como
saber independente já que, desde Filão de Alexandria,
era tida por "serva da sabedoria religiosa", enquanto
certos filósofos da grei averroísta só admitiam a
filosofia enquanto fosse a pura doutrina de Aristóteles,
embora esta surgisse ensombrecida pelas interpretações
dos filósofos muçulmanos. Haja vista, por exemplo,
que o Filósofo não explicou de modo claro o significado
do "intelecto separado", que Averróis interpretou como
um único poder intelectual comum a todos os homens
passados, presentes e futuros, e distinto das pessoas,
fisicamente separado delas. Assim, entre os teólogos
conservadores - que só utilizavam o aristotelismo tímida
e superficialmente e o mantinham sob suspeita - e os
averroístas que admitiam as doutrinas da unicidade do
intelecto agente, da eternidade do mundo e do eterno
retorno, situou-se a orientação albertino-tomista que
utilizava o aristotelismo para aprofundar o estudo da
doutrina cristã e via na filosofia uma espécie de
conhecimento puramente racional que se obtém e se
aperfeiçoa gradualmente através das várias gerações
humanas e só se perfaz com o concurso dos homens de todos
os tempos que acreditam na verdade do conhecimento e o
buscam em luta constante para evitar o erro. Para os
pobres conservadores, no entanto, cegos pela fúria
sectária e pela ignorância profunda da questão, era
como se a concepção albertino-tomista se confundisse com
o averroísmo, e merecedor, portanto, da mesma
execração.
38. A 10 de dezembro de 1270, o bispo de
Paris, Estêvão Tempier, condenou treze proposições
errôneas eivadas de paganismo e, como diz Mandonnet,
"elas exprimem de modo bem claro a substância do ensino
averroísta, isto é, as teorias fundamentais de
Aristóteles consideradas errôneas devido à
interpretação que lhes havia dado Averróis".
Mandonnet agrupa as treze proposições em quatro
doutrinas fundamentais do averroísmo latino: a negação
da Providência divina na ordem da contingência; a
eternidade do mundo; a unidade numérica da inteligência
humana e a negação do livre arbítrio [361]. Gorce,
porém, estabeleceu que essas proposições ultrapassavam
os quadros do averroísmo por se tratar de teses da
filosofia aristotélica e muçulmana [362].
39. A 28 de. abril de 1277, João XXI
dirigiu a Estêvão Tempier a bula Flumen aquae vivae em
que lhe pedia um inquérito sobre os erros ensinados pelos
mestres de artes e de teologia de Paris. Tempier reuniu
uma comissão de dezesseis teólogos que atabalhoadamente,
em menos de três semanas, compilaram uma lista de erros
em 219 artigos, precedida de um prólogo no qual o
bispo fulminava os erros detestáveis inoculados na obra
De Deo amoris, de André o Capelão, em escritos de
geomancia e de artes mágicas, nas obras dos averroístas
e em outras, e excomungava quem os ensinasse ou aceitasse
como ouvintes. Tempier, entretanto, exorbitou de suas
atribuições, pois o papa ordenara apenas uma
sindicância e ele se saíra com o inquérito apressado, a
condenação e a pena de excomunhão [363]. Essa
condenação cominada por Tempier aos chefes do
averroísmo, Sigério de Brabant e Boécio de Dácia,
autores das proposições reprovadas, atingiu o
peripatetismo em geral e, até mesmo, por má fé, teses
de Santo Tomás de Aquino referentes à unidade do
mundo, à individuação dos espíritos e dos corpos, à
localização das substâncias espirituais e à operação
voluntária [364]. Essa condenação do ensino do
aristotelismo e da doutrina de Santo Tomás sob pena de
excomunhão teve efeitos danosos para o estudo da filosofia
no fim da Idade Média, pois atrasou-o e impediu que
muitos filósofos sinceramente cristãos se lançassem nas
novas sendas do pensamento abertas pelo gênio do
Aquinate.
40. Van Steenberghen tece a respeito desse episódio
algumas considerações dignas de nota. Primeiramente,
ele afirma que o silabo condena com certeza uma série de
teses perfeitamente ortodoxas. Depois ele assevera que o
ato de 7 de março de 1277 não foi basicamente a
reação do augustinismo contra o aristotelismo, mas
"crise da inteligência cristã... reação dos homens
da Igreja contra a nova ameaça do paganismo... um ato
de defesa da faculdade de teologia contra os atentados
ininterruptos e crescentes da filosofia e contra as
audácias doutrinais cada vez mais inquietantes da
Faculdade de Artes". Ademais, o decreto de 1277
apresenta o aspecto desedificante mas instrutivo de alertar
os guardiães da ortodoxia quanto ao mau vezo de
pretenderem ver erros perigosos nas opiniões divergentes
dos adversários. Finalmente, ao incluir o tomismo na
mesma reprovação do averroísmo, do naturalismo e da
magia, o decreto de 1277 sufocou a vida intelectual de
Paris durante meio século, retardou o progresso da
filosofia, revitalizou o aristotelismo eclético superado
por Santo Tomás assim como envenenou as polêmicas das
escolas. A 14 de fevereiro de 1325, dois anos
após a canonização de Santo Tomás de Aquino, o
bispo de Paris, Estêvão de Bourret, anulou a
sentença de 1277 na parte referente às teses do
Doutor Angélico, e permitiu a sua livre discussão nas
escolas [365]. Fato curioso foi a ressonância do
decreto de Tempier em Oxford onde o arcebispo dominicano
Roberto Kilwardby, augustinista por formação, proibiu
de modo muito mais explícito e terminante o ensino de
dezesseis proposições de inspiração tomista. Essas
teses foram, ainda, condenadas novamente por duas vezes
em Oxford pelo arcebispo franciscano João Peckhan,
sucessor de Kilwardby, a 29 de outubro de 1284 e a
30 de abril de 1286. Vale a pena observar que,
ainda em 1277, Santo Alberto Magno, já idoso, se
deslocou de Colônia a Paris a fim de defender a
ortodoxia e a lembrança do seu discípulo Tomás de
Aquino.
41. A Faculdade de Artes, pelo que já se pôde
inferir dos fatos descritos, foi palco de intensas lutas
doutrinárias, a sede natural do ensino filosófico e o
cadinho em que se forjaram novas doutrinas. Nessa escola
propedêutica freqüentada pelos alunos mais jovens da
universidade, a língua do ensino oral e dos livros era o
latim, não, é claro, o literário e ático, mas a
língua viva dos mestres, estudantes, escritores e
tradutores. Essa língua da escola era regulada pelas
exigências técnicas da disciplina que a utilizava:
gramática, filosofia, matemática, medicina, direito
ou teologia. Criavam-se termos latinos equivalentes aos
vocábulos gregos ou árabes que era preciso traduzir, ao
mesmo tempo em que se instituíam novos usos para antigos
termos ou se criavam palavras novas, a fim de exprimir os
significados da filosofia. Nunca a língua latina foi
tão usada para a expressão filosófica e para a
comunicação docente como nos séculos XII e XIII.
42. No século XIII declinou o entusiasmo pelos
autores clássicos, o gosto da dialética suplantou o
culto da gramática e, pela primeira vez, na história da
educação e da escola superior o ideal filosófico
delineado por Platão triunfou sobre o modelo retórico da
escola de Isócrates. Até 1240, os mestres da
Faculdade de Artes de Paris compuseram obras e deram
cursos de lógica, moral ou gramática, enquanto em
Oxford os livros de filosofia natural e a Metafísica de
Aristóteles já eram objeto de comentários. Na segunda
metade do século XIII toda a obra filosófica de
Aristóteles dominava o panorama do ensino na Faculdade
de Artes. No início da centúria o interesse dos
mestres concentrou-se mais e mais na dialética, enquanto
a 'partir da metade do século os estudiosos se dedicaram
igualmente à metafísica, à filosofia natural e à
ética. Essa predileção pela filosofia alijou do páreo
dos estudos o culto das letras clássicas e da retórica.
Esse abandono dos autores antigos literários inspirou ao
trovador Henri d'Andeli o poema alegórico em francês
A Batalha das Sete Artes em que a campeã de
Orleães, a Gramática, apoiada pelos humanistas e
pelos autores clássicos, saiu à liça para combater a do
nadora de Paris, a Lógica ou Dialética, que reuniu
sob a sua banira todos os livros e as disciplinas da sua
universidade. No exército da Gramática, por exemplo,
alinhavam-se Prisciano, Donato, Marciano Capela, os
gramáticos recentes como Evrard de Béthune com o seu
Graecismus e Alexandre de Villedieu com o Doctrinale,
e mais Homero, Horácio, Virgílio, Sêneca, poetas
cristãos e medievais, enquanto nos esquadrões da
Lógica figuravam, por exemplo, os livros de
Aristóteles, Platão, Sócrates, Boécio, dos
mestres de Paris, enfim, muitos componentes do trivium e
do quadrivium, devendo notar-se que o "direito civil e o
direito canônico cavalgavam imponentemente como a pairar
acima das outras artes".
43. Coube à Faculdade de Artes a elaboração das
doutrinas científicas, o estudo e a investigação da
matemática, da física e da astronomia, o cultivo da
ciência experimental, sobre haverem muitos mestres
inspirado e estimulado as investigações técnicas
ocorridas no século XIII. Glorieux dá uma idéia
exata dos mestres e das obras escritas na Faculdade de
Artes do século XIII no seu minucioso e preciso
repertório La Faculte des Arts et ses Maîtres au
XIIIe Siècle. Beaujouan observa que na universidade
de Oxford a Faculdade de Artes ministrava ensino
científico bem organizado e que ela se destacava no campo
da matemática, da óptica e da lógica aplicada às
ciências exatas, enquanto em Paris, sede da teologia e
da dialética, a matemática não era matéria de ensino
regular e obrigatório, havendo ensino particular das
ciências exatas mas sem que fosse incluído no cursus
studiorum. Esse ensino particular das ciências era dado
nos dias de festa e bem acolhido em muitos colégios
novos. Do século XIII ao XV desequilibrou-se o
ensino do quadrivium nas universidades a favor da
astronomia [366].
44. Santo Alberto Magno (1206-1280),
Doctor universalis, aliava à erudição o bom senso e o
gosto pelo concreto. Escreveu tratados sobre os vegetais
ou as plantas, a zoologia, e levou o seu interesse a
temas de geologia, mineralogia e química. Como diz
Gilson, ele revelou "um ideal pantagruélico do
saber".
45. Os astrônomos ocidentais, sob a influência do
Liber Astronomiae de Alpetrágio, traduzido em 1217
por Miguel Escoto, e colocados perante as concepções
do mundo físico estabelecidas por Aristóteles e
Ptolomeu, no começo do século XIII reconheceram ser
o sistema ptolomaico mais apto para explicar os fenômenos
celestes e mais útil para a feitura dos cálculos e para a
confecção das tábuas astronômicas. No fim do século
XIII o astrônomo paduano Pedro d'Abano no
Elucidator Astronomiae ensinava que as estrelas não
estavam contidas numa esfera, mas se moviam livremente no
espaço, e Guilherme de Saint Cloud, fundador da
escola astronômica parisiense, era capaz de determinar
com grande aproximação a obliqüidade da eclíptica e a
latitude, do seu posto de observação em Paris.
46. Sob a influência cruzada dos Meteorológicos de
Aristóteles, dos Elementos de Euclides e da Óptica de
Alhazen, o escolástico inglês Roberto Grosseteste deu
impulso às investigações de óptica, continuadas pelo
seu discípulo Rogério Bacon. Referindo-se a
Grosseteste, diz Beaujouan que "muito mais seguras são
as suas concepções sobre as lentes, a refração (o
ângulo de refração proporcional ao ângulo de
incidência), as cores (que se reduzem à intensidade
resultante da transparência do meio, da luminosidade e da
concentração dos raios) o calor solar que, para ele,
está condicionado principalmente pelo movimento dos raios
[367]. O grande vulgarizador da óptica de Alhazen foi
João Peckam (t 1292 ), franciscano e arcebispo de
Cantuária, que resumiu num manual as experiências e as
descobertas dos seus contemporâneos, enquanto o silesiano
Witelo se salientou com os experimentos sobre a refração
das cores em diferentes meios. O dominicano Teodorico de
Vriberg tentou explicar o fenômeno do arco-íris,
utilizando a teoria das cores de Averróis, tendo
realizado experimentos metódicos e formulado hipóteses
pessoais. Pedro de Maricourt ou o Peregrino escreveu a
Epistola de Magnete terminada em 1269, estudou as
propriedades magnéticas do ímã e explicou a orientação
da agulha da bússola pela presença de jazidas magnéticas
no pólo norte. Entretanto, quem mais se aproximou na
mesma época da explicação moderna do magnetismo foi
João de Saint Amand.
47. No campo da matemática no século XIII
destacaram-se Jordanus Nemorarius, cujo Planisfério
superou o de Ptolomeu; Campanus de Novara, autor de
comentários aos Elementos de Euclides, e o dominicano
Guilherme de Moerbeke que traduziu em 1269, do
original grego, as obras completas de Arquimedes, exceto
o Arenário e o Método.
48. Tadeu Alderotti (1223-1303) estudou a
técnica da destilação e descreveu os métodos de
resfriamento do alambique. No fim do século XIII o
Liber de Investigatione Perfectionis e a Summa Perfectionis descrevem processos de preparação de alguns
ácidos e várias técnicas e operações químicas como
sublimação, destilação, calcinação, dissolução,
coagulação, etc. Além dessas investigações, outras
se fizeram na área da mecânica, como o demonstrou à
saciedade Anneliese Maier no seu livro Os Precursores
de Galileu no Século XIV. Estes breves apontamentos
servem para dar idéia de que durante o século XIII se
desenvolveu a ciência experimental que já dava sinais de
independência no concerto dos conhecimentos que, há
séculos, se mesclavam na filosofia.
49. Em sua História da Ciência Crombie, além de
discorrer bastante sobre o pensamento científico do
século XIII, expõe de modo amplo as realizações e
as descobertas da técnica e da ciência nos domínios da
agricultura, da indústria, da construção de navios,
da fabricação de armas de fogo, da química industrial e
da medicina. Crombie observa que a experiência das artes
mecânicas se adquiria nas corporações de artesãos, mas
que os fins utilitários dos teóricos da instrução
medieval se refletiam, de modo surpreendente, nos
programas dos cursos universitários. Ele também chama a
atenção para o fato de que os exercícios matemáticos na
instrução da Idade Média resultaram nó hábito de
exprimir os fenômenos sob a forma de unidades abstratas e
que esse hábito de pensamento tornou possível a física
matemática. Além disso, outro fator importante para o
hábito da mensuração foi o invento do relógio mecânico
no fim do século XIII, o protótipo das modernas
máquinas automáticas. Aliás, segundo Francis
Maddison, os instrumentos científicos medievais (a
esfera armilar, o equatorium, o torquetum, o astrolábio
planisférico, o quadrante, a bússola magnética,
etc.) não eram a rigor instrumentos para a observação
astronômica, embora pudessem servir à navegação, mas
eram usados no ensino, no cálculo e para observações
simples tal como marcar o tempo, devendo reconhecer-se,
no entanto, que exibiram técnicas de alto nível e foram
o ponto de partida para o desenvolvimento dos instrumentos
de navegação [368].
50. No Romance da Rosa, a personagem Natureza
enaltece a óptica de Alhazen e diz que o clérigo
naturalista fica a saber o que é o arco-íris, se
consultar a obra do sábio muçulmano, assim como chega ao
conhecimento das maravilhosas propriedades dos espelhos,
mas, adverte, quem quiser captar os segredos da natureza
deve tornar-se discípulo de Aristóteles que escreveu
sobre as coisas da natureza de modo incomparável, "desde
o tempo de Caim", que nus hons puis le temps Caiyn.
Nesse tom didático, entremeado de observações mordazes
e com intenção satírica, o Romance da Rosa trata de
amor, filosofia, ciência e religião, ao mesmo tempo em
que descreve e critica os costumes da sociedade. Essa
obra sui-generis foi o livro de cabeceira dos letrados
até ao fim da Idade Média e chegou-se a equipara-la
à Divina Comédia de Dante. Iniciada por Guilherme
de Lorris entre 1225 e 1240, foi continuada e
composta na maior parte por Jean Chopinel ou Clopinel de
Meung-sur-Loire à volta de 1275, que transformou
a ficção poética de um tratado sobre o amor numa obra
alegórica que é suma de idéias e sá//- ,social. Gorce
denominou-a inspiradamente "escolástica cortês".
Paré dedicou-lhe o livro magistral Le Roman de la
Rose et la Scolastique Courtoise e afirma que essa obra
foi escrita no momento em que se terminava a catedral de
Norte-Dame, em que as Comunas acabavam de obter as
suas liberdades, em que o mundo econômico descobriu a
fecundidade do crédito, em que São Luís presidiu o
nascimento do mundo político em face de Frederico II e
quando uma greve na universidade de Paris era um
acontecimento mundial na Cristandade, e o
empreendimento aristotélico de Alberto Magno e de
Tomás de Aquino provocava entre os seus irmãos
violentos redemoinhos. Guilherme de Lorris, diz
Paré, pretendeu compor uma arte de amar mas o seu
continuador João de Meung fez da intriga romanesca um
pretexto didático, "e, se a arte de amar continua a ser
o objeto do romance, a pedagogia descritiva aí busca à
saciedade razões, princípios e leis" [369]. O
Romance da Rosa testemunha a luta entre um cristianismo
sem jaça e um naturalismo completamente pagão.
51. Na mesma época, Boécio de Dácia escrevia o
opúsculo Sobre o Sumo Bem ou a Vida Filosófica que
Mandonnet considerou "o manifesto mais radical de um
programa de vida naturalista" e que é expressão de puro
racionalismo. Os seus ensinamentos foram condenados no
sílabo de Tempier de 1277. A obra de Boécio de
Dácia está imbuída do racionalismo averroísta, traço
típico das tendências filosóficas do século XIII e
que os teólogos combateram incansavelmente, e Mandonnet
chega a declarar que "o racionalismo do Renascimento com
o seu pensamento e a sua língua diluídos nada produziu,
a meu ver, de comparável" [370].
52. Durante a Idade Média, pois, surgiram as
universidades, as doutrinas e o método escolástico.
Essas criações culturais pressupunham, evidentemente,
a reflexão sobre a formação do homem, o significado e a
importância do ensino e da aprendizagem. Como se sabe,
a noção de Filosofia da Educação como disciplina
filosófica especial só surgiu na Idade Moderna e é
posterior a Kant, enquanto a noção de Didática
remonta ao século XVII e a de Pedagogia Científica
é ainda mais recente, já que foi proposta e defendida no
século XIX. No entanto, Santo Tomás de Aquino no
século XIII dissertou profundamente sobre temas de
filosofia da educação e outros educadores trataram de
questões que hoje se inscrevem nas áreas da didática e
da pedagogia científica. Na Idade Média, desde o
século XIII, os temas educacionais foram examinados
principalmente na área da Ética, uma vez que educar é
agir moralmente e não só aplicar regras ou técnicas
psicológicas. Convém observar que nas obras de muitos
autores medievais os assuntos filosóficos eram examinados
em conexão com a teologia e que as dissertações
filosóficas contêm muitos aspectos e ensinamentos que
hoje caberiam mais em obras científicas. Tenha-se em
mente que no século XIII firmou-se a distinção
entre filosofia e teologia, mas ainda não se estabeleciam
fronteiras nítidas entre a filosofia e as ciências
particulares, embora Santo Tomás tivesse formulado os
princípios de tal distinção. Em suma, os pedagogos
medievais trataram da educação moral e da instrução,
formularam conceitos metafísicos, éticos, políticos,
psicológicos e estritamente técnicos, concernentes à
educação do homem. Como diz Woroniecki O.P., a
propósito da pedagogia tomista, "o seu objeto material
é bem a criança ou o adolescente, ou melhor ainda, o
homem que ainda não é educado; mas o seu objeto formal
é o homem tal como ele deve ser no pleno desenvolvimento
de suas forças naturais e sobrenaturais, o omnis homo da
Sagrada Escritura (Ecclesiastes, XII, 13).
Ela jamais perde de vista o ponto de chegada de seu
trabalho, o fim ao qual deve conduzir, e isso lhe confere
essa fecundidade que a pedagogia moderna não consegue
ultrapassar" [371].
53. Até mesmo quando se trata de filosofia da
educação na Idade Média, a figura de Santo Tomás
de Aquino sobressai e se impõe, uma vez que ele soube
fundamentar de modo inigualável a educação do homem, ao
delinear os passos da aprendizagem intelectual e da
formação moral, baseando-se na concepção da estrutura
intelectual e volitiva da pessoa, interligando a
educação à psicologia filosófica e à ética. Assim,
na questão disputada De magistro, pertencente ao ciclo
das questões debatidas sobre a verdade, Santo Tomás
descreve os ritmos do aprendizado, o papel do professor e
o modo de aprender do aluno e demonstra quo o intelecto
ativo do estudante é a causa principal da aprendizagem,
ao mesmo tempo em que fundamenta o caráter ativo e
dinâmico da docência e doo aprendizado, como ficou
ilustrado no seu tempo pela prática escolar, pelos
exercícios do método escolástico que tornavam tão
animados e vibrantes os cursos da universidade medieval.
Por outro lado, na Suma Teológica, a partir da
questão 49 da I-IIae, ao tratar dos hábitos e das
virtudes, Santo Tomás bosqueja em amplos traços bem
como analisa minuciosamente os múltiplos aspectos da
formação da personalidade, enquanto desenvolvimento e
apuro das virtudes intelectuais e morais. Além disso,
através das suas obras respigam-se inúmeros lanços
referentes à educação, ao ensino e ao estudo.
Brubacher na sua acatada obra Modern Philosophies of
Education coloca o breve e luminoso tratado De magistro
de Santo Tomás entre a República de Platão e a
Democracia e Educação de Dewey que ele considera
"produtos da natureza e dádivas perenemente estimulantes
para as inúmeras gerações de mestres do porvir" [372].
54. Se percorrermos as obras de outros escolásticos do
século XIII, que não escreveram explicitamente sobre
educação, encontraremos capítulos ou passos dedicados a
temas pedagógicos. Lembre-se, entre os mestres do
século XIII, São Boaventura. Chamavase Giovanni
Fidenza, nasceu em Bagnorea perto de Viterbo em
1221, estudou na universidade de Paris onde obteve os
graus de Mestre em Artes e em Teologia. Foi eleito
ministro Geral da Ordem Franciscana aos 36 anos de
idade em 1257, escreveu diversas obras e morreu a 15
de julho de 1274. Pois bem, São Boaventura foi um
escolástico que merecidamente pode ser contado como
educador, máxime pelo papel que desempenhou quanto à
orientação dos estudos na Ordem Franciscana - e que
ele favoreceu - e quanto à sua doutrina
ascético-mística. O seu pequeno tratado As seis asas
do Serafim contém preciosos ensinamentos pedagógicos de
permeio com sólida doutrina teológica e sábias
reflexões ditadas pela sua experiência pessoal. Foi
obra muito apreciada nas ordens religiosas, principalmente
na Companhia de Jesus. Nessa obra diz São
Boaventura, por exemplo, algo que filósofos, teólogos
e professores, todos enfim, sempre deveriam lembrar:
"Dentre todas as tentações, a mais perigosa para
qualquer cristão parece ser a de apoiar-se demasiadamente
no seu próprio juízo. Não há quem seja de
inteligência tão perspicaz que não possa equivocar-se
em algumas coisas" [373]. São Boaventura também
escreveu um opúsculo famoso referente às artes e às
ciências. Trata-se da Redução das Artes à
Teologia, entendendo-se por "redução" a análise que
leva até ao princípio explicativo decisivo. Segundo
São Boaventura, a multiforme sabedoria de Deus,
claramente expressa na Sagrada Escritura, está oculta
em todo o conhecimento e em toda a natureza; todos os
conhecimentos convergem para o da Sagrada Escritura e,
aperfeiçoando-se nela, ordenam-se à iluminação
eterna. Por isso, todos os conhecimentos estão
sujeitos, famulantur, à teologia. São Boaventura
exprime e renova a cediça concepção augustinista dos
estudos e fala apenas como teólogo, como se estivesse à
margem da corrente em que lépido navegava o seu coetâneo
Tomás de Aquino. 55. Vários escolásticos
escreveram obras consagradas exclusivamente à educação.
Destaquemos em rápida síntese o confrade e sucessor de
São Boaventura na universidade de Paris, Gilberto de
Tournai [374], assim como os frades pregadores Vicente
de Beauvais e Bartolomeu de São Concórdio.
56. Além de obras ascéticas de alcance pedagógico
como a carta Sobre a virgindade e o
Tratado sobre a paz,
Gilberto de Tournai compôs o Eruditio regum et
principum - três cartas dirigidas a São Luís, rei
de França - valioso tratado de pedagogia política que,
além da sólida doutrina, contém muitas informações
sobre os costumes da época. A principal obra pedagógica
de Gilberto de Tournai O.F.M. é o De modo
addiscendi, tratado de educação que considera
estritamente a aprendizagem, o ensino, os métodos e o
regime intelectual do estudo e da escola e que faz parte de
obra mais ampla, o Rudimentum doctrinae. Esse livro foi
encomendado) a Gilberto pelo seu amigo Miguel de Lille
e destinava-se à educação do menino João de Dampetra
ou Dampierre, filho de Gui de Dampetra, conde de
Flandres [375].
57. Não resta dúvida que a obra pedagógica mais
vasta do século XIII foi a do dominicano Vicente de
Beauvais cuja morte os autores modernos geralmente
reconhecem ter ocorrido em 1264, pouco se sabendo a
respeito da sua biografia. O seu pensamento educacional
exprimiu-se através de três obras. O De eruditione
filiorum nobilium, livro escrito para a orientação do
tutor de crianças da família real, terminado entre
1246 e 1249, é uma compilação de trechos
seletos sobre a formação intelectual e moral dos
meninos, sobre a seleção dos tutores, sobre métodos e
disciplina, a educação das meninas, a conduta social
dos adultos, os estados de viuvez e virgindade. O De
morali princips institutione é um longo escrito sobre a
natureza do poder secular e a sabedoria do príncipe
ideal, e contém extensa diatribe contra os alcoviteiros
da corte. Finalmente, a obra principal de Vicente de
Beauvais, a enciclopédia Speculum Maius, composta à
volta de 1256-1259 e que, pela extensão e
temário, se distinguia de obra anterior composta à volta
de 1244, o Speculum Minus ou Imago Mundi,
reservou ao autor lugar saliente na galeria dos educadores
medievais.
58. O Speculum Maius divide-se em três partes. O
Speculum Naturale, com 3.736 capítulos em 32
livros, versa sobre astronomia, geologia, botânica,
zoologia, higiene, etc. O Speculum Doctrinale, em
17 livros com 2.354 capítulos, é uma suma dos
conhecimentos escolásticos do século XIII em que
Vicente considera a gramática, a lógica, a economia,
a política, o direito, as artes mecânicas, a
medicina, a física, a teologia, etc. O Speculum
Historiale, com 3.794 capítulos em 31 livros,
descreve cronologicamente a história profana e religiosa
desde Adão até 1250, dando ênfase à experiência
cristã. No século XIV um autor anônimo acrescentou
uma quarta parte à obra vicentina, o Speculum Morale.
Segundo McCarthy, o escolástico Vicente de Beauvais
O. P. foi um humanista no sentido medieval do termo, a
sua obra é um espelho da sua época e, considerado na
perspectiva do grande Renascimento do século XV, ele
pode ser tomado por um proto-humanista, já que a sua
obra reflete a imagem dinâmica de uma idade em progressão
para a nova época que ostentará novos modos de pensamento
[376].
59. Finalmente, pode-se destacar nesta curta
seleção de pedagogos escolásticos a figura de outro
frade dominicano, Bartolomeu de San Corcordio, que
nasceu em Pisa em 1262, estudou em Bolonha e em
Paris, dedicou-se ao ensino e morreu em sua terra natal
em 1347. Bartolomeu escreveu um Summa casuum
conscientiae, traduziu as obras de Salústio e compôs o
florilégio Ammaestramenti degli antichi, ensinamentos
que recolheu de autores clássicos e cristãos. Pertencem
a esta obra os preceitos sobre o modo de estudar,
extraídos da literatura sacra e profana, antiga e
medieval, compendiados sob o título Di studio.
Bartolomeu proporciona aos leitores excelentes conselhos
quanto ao estudo, ao valor dos debates, à importância
da memória, à tarefa dos doutores, etc. Assim, diz
Bartolomeu, o verdadeiro doutor não só deve conhecer as
opiniões alheias como deve, também, saber expor o
próprio pensamento. Ao tratar do ensino, ele apresenta
sete razões para justificar que é preferível falar pouco
a dissertar longamente, "è meglio lo parlare brieve che
il lungo" [377]. Conselho que procuramos seguir neste
livro, apesar da vastidão da matéria.
60. De tudo quanto estudamos sobre a escolástica é
preciso reter certas noções fundamentais que - repetita
iuvant - voltamos a salientar. O termo escolástica
estende-se a um conjunto de doutrinas e ao método
desenvolvido nas escolas medievais, máxime nas
universidades. Devido ao papel cultural da filosofia e da
teologia no século XIII, aos seus insignes cultores e
às suas obras imortais, o termo escolástica foi aplicado
pelos historiadores de idéias principalmente às doutrinas
filosóficas e teológicas. E ainda desse ângulo,
devido ao notável desempenho e à admirável acuidade
intelectual de Santo Tomás de Aquino, a sua doutrina,
por figura de linguagem, por antonomásia, foi tida como
a escolástica. Todavia, essas duas últimas acepções
não devem encobrir o significado fundamental,
histórico, do termo escolástica. Finalmente, convém
frisar que as doutrinas e o método escolástico não são
peças de museu nem venerandas relíquias de um passado
extinto. As doutrinas continuam a alimentar o espírito
humano e são sementes de pensamentos, enquanto o
método, enroupado na linguagem atual, continua a ser um
instrumento precioso da reflexão e do ensino, e continua
a ser usado no mundo inteiro por muitos mestres e
pensadores como processo fecundo do filosofar.
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