CAPÍTULO X. A CRISE DA EDUCAÇÃO NO FIM DA IDADE MÉDIA.

1. A semelhança do que se passou na Grécia clássica, o apogeu cultural na Idade Média foi de curta duração, se bem que os homens medievais tenham sido mais venturosos. O século de Péricles, apesar da denominação, mal durou uma geração. O século XIII, o maior entre os séculos, como diz Walsh no título do seu famoso livro, foi um período mais extenso que uma centúria, já que o intenso movimento cultural, a expansão escolar e a criatividade dos mestres se iniciaram durante o século XII e se estenderam aos inícios do século XIV. No entanto, nem bem começara o segundo quartel deste último, o orbis medievalis começou a desmoronar, sob o impacto de grandes mudanças que se processaram de 1250 a 1350 na Europa Ocidental, tal como o término do desenvolvimento urbano, que só não ocorreu em algumas regiões da Itália, da Germânia e da Península Ibérica; a separação da burguesia em duas classes bem distintas: o patriciado urbano dos mercadores e de outros grupos profissionais e o proletariado dos artesãos. No campo deteve-se a tendência para a libertação dos camponeses presos à gleba e iniciou-se uma era de revoltas e de agitação social que não existira antes de 1250 [378]. Do ponto de vista político, a Germânia e a Itália foram perturbadas pela discórdia e pela anarquia. Na França instaurou-se o despotismo de Felipe IV, o Belo, e dos seus legistas rinocerontescos. A Inglaterra caiu sob o débil governo de Eduardo II, enquanto as desordens grassavam na Escandinávia, na Hungria e na Rússia. O próprio Papado entrou em crise, quando Clemente V (1305-1314) fixou a residência pontifícia na Provença, dando início ao que se denominou o Exílio de Avinhão.

2. Esses apontamentos são feitos por Archibald R. Lewis que estudou o declínio da Idade Média no sugestivo artigo "The Closing of the Mediaeval Frontier" [379] e que aplicou a esse período histórico o conceito de fronteira usado com êxito na explicação do passado norte-americano. Ele reconhece que, além das mudanças sociais apontadas, houve outras no campo da cultura, tal como o declínio da arte gótica, exceto na Inglaterra, da literatura cavaleiresca ao norte dos Alpes, a decadência da Escolástica com o surto do nominalismo, as revolucionárias idéias políticas do conciliarismo de Marsílio de Pádua e João de Jandun e, podemos acrescentar, a crescente crise escolar que pôs fim a uma era de glórias nas áreas do pensamento e das realizações educacionais.

3. Lewis diz ser evidente que as causas dessas mudanças foram múltiplas e de natureza complexa e lembra as mais famosas e comentadas: o capitalismo nascente que provocou as lutas de classes na Flandres, no sul da França e na Itália; as lutas na Germânia entre os papas e os Hohenstaufens; o centralismo monárquico na França e na Inglaterra, o lamentável Exílio de Avinhão, a terrível epidemia da Peste Negra e a não menos ominosa Guerra dos Cem Anos. Todavia, ele acha que outra causa profunda e importante das mudanças foi o fechamento das fronteiras internas e externas da Europa entre os anos de 1250 e 1350.

4. A volta de 1250 cessara a influência da Europa Ocidental na bacia Mediterrânea e os sarracenos dominavam-lhe os pontos nevrálgicos como o litoral sírio recuperado às famílias dos Cruzados, ao mesmo tempo que Miguel Paleólogo, depois de haver reconquistado Constantinopla aos latinos, refizera o Império Bizantino. Embora os mercadores italianos dominassem economicamente as regiões do Mediterrâneo e do Mar Negro, a Europa Ocidental passara à defensiva no Oriente, enquanto despontava o poder dos turcos otomanos. Depois de 1250 cessou, também, a expansão ocidental na Rússia e se deteve a marcha teutônica para o Oeste. Muito mais sério, no entanto, foi o término da expansão das fronteiras internas entre 1250 e 1350, devido ao desaparecimento das terras devolutas. O avanço dos camponeses para os subúrbios das cidades terminou, depois de dois séculos, enquanto se multiplicavam as leis para a proteção das florestas na França e na Inglaterra. A partir de 1300 q clima do norte da Europa tornou-se cada vez mais severo, por muitos séculos. Essas condições sociais adversas criaram vasta porção de nobres indolentes que aparecem nas crônicas de Froissart. Enfim, o fechamento das fronteiras internas e a contração das externas apanhou no vértice da crise os nobres, os burgueses e os campônios. Além da ebulição social urbana, a Igreja com as despesas do Exílio de Avinhão passou a preocupar-se demais com as finanças e os governos, a braços com a crise aguda da economia, recorreram a exagerado lançamento de impostos. Se a esse quadro lastimoso se acrescentarem a Guerra dos Cem Anos e a Peste Negra, perceber-se-á com toda a evidência que a Europa na metade do século XIV se distanciara imensamente da situação próspera e otimista dos dois séculos anteriores, tendo passado a agitar-se num torvelinho de conflitos e tribulações.

5. Assim como no século XII a educação se beneficiou com o progresso social, assim do fim do século XIII à metade do século XIV, ela esteve sujeita a profundo processo de degradação, uma vez que os conflitos políticos e religiosos, a crise econômica, as guerras, as sublevações populares e as epidemias repercutiram intensamente na vida escolar. Temos um depoimento notável sobre a decadência dos estudos, ainda no fim do século XIII, na obra do franciscano inglês Rogério Bacon, o Compendium Studii philosophiae, redigido em 1292. Bacon foi professor da Universidade de Paris, defensor do estudo da matemática e das ciências experimentais e um precursor da ciência moderna que, na sua Carta sobre os Segredos da Natureza, anunciou o advento dos automóveis, dos navios a vapor, dos submarinos e dos aviões [380]. No Compendium studii philosophiae ele enalteceu o significado e a importância da sabedoria e, ao dissertar sobre os seus empecilhos, proporcionou vasta cópia de informações sobre as mazelas das escolas e sobre a decadência dos estudos. Depois de demonstrar que os pecados embotam e corrompem o ânimo para os estudos, Bacon discorre sobre os preconceitos e sobre a mentalidade vulgar dos cretinos que estão sempre prontos a censurar os sábios por não poderem alcançar o patamar mínimo da sabedoria, e deplora o fato de os clérigos abandonarem ou desleixarem o estudo da filosofia e da teologia, a fim de se formarem em direito, o que lhes propiciava empregos lucrativos. Bacon lamenta que os clérigos negligenciem os estudos filosóficos, científicos, assim como os de línguas antigas como o grego, o hebraico, o árabe e o caldaico, "línguas sapienciais", para se voltarem na direção da ciência jurídica, sequiosa de riqueza, pois "a cúpida faculdade de direito atrai a multidão dos clérigos" [381]. Em suma, da diatribe de Rogério Bacon contra os clérigos-juristas colhe-se que, no fim do século XIII, houve um esmorecimento na vida intelectual da Faculdade de Artes e de Teologia devido à ambição do dinheiro que lavrava entre os estudantes da época em clara dissonância com a dedicação às letras, à filosofia e à teologia que os caracterizara nos séculos anteriores. Por isso, tem razão Le Goff ao frisar a distância sempre maior entre o trabalhador intelectual das escolas medievais dos séculos XII e XIII e o catedrático ou professor argentário do século XV. A sociedade desenvolveu-se, apareceram novos empregos, o dinheiro ganhou mais importância que nas épocas anteriores, enquanto a vida intelectual amortecia e só chispeava, ainda, nos raros intelectuais que sustentavam a honra da gloriosa estirpe de pobres e devotados estudiosos, os conservadores da chama sagrada do saber. "É a era do Príncipe, diz Le Goff. Quem o serve, é o seu funcionário ou o cortesão que ganha riqueza, poder e prestígio" e nessa ambiência o intelectual da Idade Média desapareceu para ser substituído pelo humanista; e esse desaparecimento foi preparado pelas negações da maioria dos universitários dos séculos XIV e XV [382]. Le Goff observa que os humanistas apreciavam o lazer, o otium da aristocracia antiga, que eles dedicavam às letras, e com isso abandonaram uma das principais tarefas do intelectual, ao perderem o contato com o povo e ao desfazerem o liame entre a ciência e o ensino [383].

6. Uma das melhores fontes de informações sobre a situação escolar no início do século XIV acha-se na obra Philobiblon do erudito bibliófilo e humanista Ricardo Aungerville de Bury, bispo de Durham, chanceler de Henrique III da Inglaterra e que viveu da 1287 a 1345. A sua obra dedicada à biblioteconomia, entremeada de reminiscências pessoais, foi termiriada em 1344 e de muito nos serve para esclarecer a vida cultural no início do século XIV, antes da calamitosa Peste Negra. Nos capítulos IV, V e VI, em divertida prosopopéia, Ricardo de Bury apresenta á invectiva severa dos livros contra clérigos e monges que os desprezam a troco de prazeres vulgares, depois de lhes deverem tudo o que alcançaram de bom na vida.

7. O capítulo IX do Philobiblon é consagrado exclusivamente às questões dos estudos e das escolas. Ricardo já diz no título que, embora estime as obras dos Antigos, não condena os estudos dos Modernos. Os primeiras são preferidos devido ao engenho perspicaz, ao volume dos estudos e às notáveis descobertas, e eles superaram os Modernos pelo vigor do corpo, ao que se lê, e pelos dotes de inteligência. Ricardo compara os Antigos e os Modernos quanto à devoção pelo estudo e observa que os primeiros dedicaram a vida inteira à filosofia, enquanto os segundos, "nossos contemporâneos", nostri vero saeculi contemporanei, só lhe consagram alguns poucos anos da juventude, justamente na época das paixões e dos vícios, quando poderiam tirar muito mais proveito de tal estudo numa idade mais avançada, mais serena e propícia à reflexão. O motivo desse abandono dos estudos filosóficos é apresentado através dos versos de Ricardo de Fournival, o Pseudo-Ovídio: "Todos seguem os estudos que levam ao ganho, mas poucos aprendem para saber... e assim a Filosofia amarga o exílio, enquanto reina a Filopecúnia!" Não seria o caso, também, de batermos no peito o nosso mea culpa, a recitar os versos de Ricardo de Fournival que retratam fielmente a mentalidade do nosso tempo?

8. Ao aludir à triste situação das escolas, Ricardo de Bury increpa os professores improvisados, impuberes et imberbes, que lêem de afogadilho as regras gramaticais de Prisciano e Donato e recitam num balbucio infantil as Categorias e o Peri Hermeneias que o "sumo Aristóteles" escreveu a molhar a pena no sangue do coração. Ricardo deplora esses mestres sem experiências e sem doutrina sólida, tirones scholastici, que obtêm as dignidades eclesiásticas sem mérito e sem preparo, só por meio da proteção e do nepotismo. Até mesmo Paris, o reduto tradicional da sabedoria, diz Ricardo, paga tributo à decadência escolar. Aí descansa a pena do escriba e cessa a atividade literária. O ensino é ministrado em linguagem imprópria e sem rigor lógico, uma vez que os estudiosos só se preocupam com as sutilezas britânicas, anglicanas subtilitates, que aprendem em vigílias furtivas, enquanto as execram publicamente. Essa degenerescência das escolas parisienses inspirou a Ricardo de Bury a peroração do capítulo IX sobre a transferência do saber, ao narrar o giro de Minerva através do mundo: a admirável Minerva passeia pelas nações e visita todas as partes do globo. Já esteve entre os hindus, os babilônios, os egípcios, os gregos, os árabes e os romanos, mas abandonou Atenas, afastou-se de Roma e pôs de lado Paris para se estabelecer finalmente na Inglaterra, a mais famosa dentre as ilhas [384].

9. Ricardo de Bury referiu-se às "sutilezas britânicas" e com essa expressão designou os estudos de lógica desenvolvidos pelo nominalista franciscano, o inglês Guilherme de Ockham e os seus epígonos, Nicolau de Autrecourt, Pedro de Ailly, Marsílio de Inghen, etc. que, juntamente com a formação dos partidos filosóficos universitários, as "escolas" tomista, escotista e ocamista, levaram ao que Le Goff denominou com justeza de "esclerose da escolástica". Esta, do ponto de vista doutrinário, rebrilhara na passada centúria com os vultos cimeiros da metafísica e da teologia, tais como Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura e Duns Scotus. No século XIV o interesse dos estudiosos centralizou-se principalmente nos estudos profanos mas, em vez das grandes e elaboradas concepções metafísicas, engendraram obras de lógica, gnoseologia, filosofia da natureza e filosofia política. Sem se preocuparem com a idéia do ser e com os seus graus de realidade, os filósofos aplicaram-se de preferência ao estudo da lógica, desenvolveram a gramática especulativa com a investigação do significado e da relação entre palavra e pensamento, e a nota predominante dessas pesquisas foi o nominalismo, ou seja, a convicção de que não existem conceitos universais correspondentes à natureza comum das coisas singulares, tais como as idéias de bem, verdadeiro, homem, casa, etc., mas apenas nomes dotados de generalidade apelativa. Segundo os nominalistas, o universal não existe na mente humana nem fora dela, embora saibamos pela análise psicológica que existem conteúdos universais do pensamento. Ockham só admite o universal no pensamento... mas como um figmentum, imagem sensível dos objetos singulares, e isso equivale simplesmente à negação do universal.

Não resta dúvida que as sutilezas britânicas conquistaram Paris e converteram as cátedras filosóficas em montanhas de ecos e ressonâncias verbais que encobriam por completo os mais sérios e profundos problemas do pensamento. Essa época de vocalizações e psitacismos assemelhava-se muito à nossa com os seus dispositivos lógicos do simbolismo matemático e a oceânica logorréia da filosofia analítica. Ao lado desse aspecto negativo, contudo, pode discernir-se um ângulo positivo pois, conforme o parecer de um lógico atual, Ernesto Moody, a lógica do século XIV distinguiu-se pelo seu rirogoso caráter formal. Moody afirma que os debates e as especulações epistemológicas e metafísicas, oriundas da nova literatura filosófica traduzida do grego e do árabe, infectaram a lógica formal de conotações especulativas e de ambigüidades que pertenceriam antes à "lógica filosófica". Esta, diz Moody, não pôde destruir a tradição da lógica formal já estabelecida nas Faculdades de Artes. Ora, as obras lógicas de Ockham distinguiram-se mais pelo seu meticuloso rigor do que por novidades ou inovações [385].

10. No começo do século XIV falava-se na universidade de Paris de Antigos e Modernos. Os antiqui eram os que entendiam o pensamento de Aristóteles de modo tradicional e o seu representante mais ilustre fora Santo Tomás de Aquino. Os moderni procuravam dar a tal pensamento nova interpretação ou simplesmente crivavam-no de críticas e rejeitavam-no por inadmissível. O venerável iniciador, inceptor, dessa modernidade foi Guilherme de Ockham e o seu mais acabado epígono foi Nicolau de Autrecourt. No tocante aos problemas dos Universais, os' Antigos eram realistas moderados, ao reconhecerem a existência de conceitos universais equivalentes à natureza comum dos indivíduos, e os Modernos eram nominalistas que só admitiam a existência de indivíduos e negavam a dos conceitos universais [386]. É preciso saber, no entanto, que esses debates epistemológicos constituíam, em parte, uma reação contra o excessivo formalismo da filosofia de Duns Scotus e que os moderni ou nominales tiveram o mérito de se haver dedicado ao estudo do mundo sensível, às investigações científicas realizadas na perspectiva escolástica de Rogério Bacon, tendo antecipado descobertas de Copérnico e Galileu.

11. Nicolau de Autrecourt (1300-1350) primou pelo espírito crítico e capitaneou a reação contra Aristóteles, tendo merecido, conforme O'Donnell, os três títulos de céptico, ockhamista ou nominalista e moralista religioso, embora protestasse a sua completa submissão à doutrina católica [387]. No primeiro prólogo do seu principal tratado Satis exigit ordo executionis, Nicolau de Autrecourt censura o excessivo tempo consagrado pelos estudiosos à obra aristotélica, tanto que muitas pessoas, diz ele, passavam toda a existência a estudar o aristotelismo, chegando até a esquecer o verdadeiro fim da vida. Na sua obra ele não só desenvolve essa crítica como nega a existência de substâncias, e de causas eficientes e finais, fazendo jus ao título de precursor de Hume e Kant.

12. No século XIII assinalaram-se no campo da investigação científica os escolásticos Roberto Grosseteste, Pedro de Maricourt, Santo Alberto Magno e Rogério Bacon. No século XIV prosseguiram em seu rasto os adeptos da via moderna, os físicos João Buridan, Marsílio de Inghen, Alberto de Saxe e Nicolau Oresme. Esses físicos da universidade de Paris foram, segundo Anneliese Maier, die Vorläufer Galileis, os precursores de Galileu. Veja-se, por exemplo, como Nicolau Oresme na sua obra Le Livre du Ciel et du Monde se opôs à física aristotélica, ensinou que os movimentos dos corpos celestes obedecem às mesmas leis que os terrestres, que é possível a pluralidade dos mundos, assim como demonstrou ser teoricamente sustentável a hipótese da rotação da Terra. Em relação ao sol, diz ele, a Terra é como a carne assada ao fogo e a receber o calor, porque gira em torno dele e não porque o fogo gire em torno dela [388]. Na segunda metade do século XIV, Nicolau Oresme e Henrique de Hesse atacaram o supersticioso apego de nobres e plebeus, sábios e ignorantes, clérigos e leigos, às ciências ocultas, tanto que na bula Super illius specula de 1326 ou 1327, o papa João XXII condenou a invocação dos espíritos, a magia e o satanismo, tendo declarado, que os praticantes desses malefícios eram cristãos puramente nominais [389].

13. Finalmente, quanto às escolas, além do que já temos visto, convém frisar que, ao lado de alguns aspectos positivos como a manifestação do espírito crítico, o cultivo das ciências e o desenvolvimento da lógica formal, avultaram as mazelas e as deficiências em parte ocasionadas pelos destemperos da época. Uma exceção no quadro geral parece ter sido a Faculdade de Direito de Paris nos primórdios do século XIV, talvez por ter iniciado a sua atividade bem tarde em relação às escolas de Artes e de Teologia, e às suas congêneres de Bolonha e Orleães, máxime pelo fato de haver sido o estudo do direito malsinado por muitos escolásticos no fim do século XII em Paris, do que se fez eco e Rogério Bacon no fim do século XIII. Ao discorrer sobre a faculdade de direito na Idade Média, diz Gabriel Le Bras: "A Faculdade de Direito formou-se pouco a pouco e, depois, emancipou-se... e a metade do século XIV foi a idade brilhante de nossa Faculdade" [390]. Situação diferente depara-se-nos em Bolonha, a sede mais antiga dos estudos jurídicos na Europa. Embora ressalte os ilustres mestres da Universidade de Bolonha no século XIV, Sorbelli aponta as causas que, desde o século XII, tenderam a enfraquecê-la e assinala que, se o século XIV não foi o tempo da ruína da universidade foi, pelo menos, a época em que se iniciou a sua decadência [391]. Sorbelli afirma que foram condições desfavoráveis para o Studio bolonhês o surgimento de outras escolas de direito em Nápoles, Pádua, Vercelli, Arezzo, etc., as pressões da cúria pontifícia sobre a universidade, quando esta pretendia rebelar-se contra o papa e este levava estudantes e mestres a abandonarem a cidade. Por fim, a causa mais poderosa, certamente, foi a falta de professores de valor que tivessem em mira a busca da ciência e a continuação da fama gloriosa da Universidade. Esses mestres desnaturados, sem competência e sem ideal, meros caçadores de salários, sempre foram e continuam a ser os coveiros das escolas médias e superiores.

14. A crise escolar no fim da Idade Média exprimiu-se no terreno doutrinário, no campo metodológico e nas áreas administrativas. No terreno doutrinário conta-se o desaparecimento das grandes sínteses teológicas, da redação das Sumas, conseqüência do sumiço ou do rareamento dos grandes espíritos inventivos e das poderosas mentalidades consagradas ao estudo do depósito da fé. No campo metodológico registram-se os abusos da auctoritas e da ratio em dissonância com a tradição autêntica da Escolástica, e que iriam atrair as pechas e as zombarias dos humanistas e que eram aplicáveis, com efeito, aos escolásticos dos séculos XIV e XV. De um lado, temos o abuso do logicismo e das longas discussões estéreis e, de outro, o lastimável culto de Aristóteles celebrado pelos averroístas que transformaram o Estagirita num ídolo intocável, desvirtuaram o estudo da filosofia antiga e criaram empeços à marcha do pensamento livre e investigador [392]. Nas áreas administrativas o descalabro foi impressionante. O papa João XXII autorizou o chanceler parisiense a conceder a licenciatura sem que o estudante tivesse cursado os anos requeridos pelos estatutos da universidade. Introduziu-se o costume na Faculdade de Teologia, contrário aos estatutos, de os bacharéis comentarem o Livro das Sentenças de Pedro Lombardo durante as férias, quando quase não havia professores nem estudantes em Paris e, após esse breve tirocínio, tais bacharéis eram tidos por formati et perfecti [393].

15. Abuso que lavrou em Paris no século XIV foi cometido por estudantes ineptos, cobiçosos dos graus universitários e que, tendo estudado em Paris, conseguiam fortes patronos que lhes facultavam ir prestar exames e tornar-se mestres em outras cidades. Exemplo do encurtamento dos cursos na Faculdade de Artes parisiense achase na biografia de Gerard Groot que se tornou, depois de convertido à vida mais fervorosa, um reformador dos costumes entre os cristãos. Conta o seu biógrafo Van Zijl que Gerard se bacharelou em Artes antes do prazo devido e se tornou mestre com dezoito anos apenas, e três de estudos universitários, graças aos seus brilhantes dotes de estudante [394]. Ainda bem que se abreviava o curso para um aluno de talento excepcional e não a peso de dinheiro ou de influências políticas. Ocorre que, apesar do talento, o aluno notável devia fazer o curso regular, como era dos estatutos da universidade.

16. Leve-se em conta, ainda, que muitos mestres parisienses pertenciam a ordens religiosas que no século XIV haviam perdido o antigo vigor, o gosto da vida austera e dos estudos sérios. Ademais, nesse tempo a universidade de Paris perdera o monopólio do ensino da teologia, uma vez que os papas lhe permitiram o ensino e o doutoramento em outras universidades. Como observa Gusdorf, "a Universidade de Paris sofreu o contragolpe dos redemoinhos que agitam a realidade francesa". Nas várias lutas da época ela tomou partido e, freqüentemente, o pior. Daí a sua inexorável decadência. Assim, ela colaborou com o ocupante inglês da França, seguiu o partido borgonhês, responsabilizou-se pelo processo de Joana D'Arc e condenou-a. Por outro lado, a Universidade perdeu o seu caráter internacional. Na própria França surgiram novas universidades em Bordéus, Aix, ]Poitiers, Besançon, Dôle, Caen, Grenoble, Valence, Cahors. Com a Guerra dos Cem Anos os alunos ingleses retiraram-se de Paris. O Grande Cisma de 1378 afastou os alunos das nações que se mantiveram fiéis ao Papa, particularmente os alemães.

17. Fator ponderável na decadência das instituições universitárias no século XIV foi a Peste Negra de que nos dá notícia, por exemplo, o cronista beneditino Gilles Le Muisit na sua Crônica do século XIV. A praga disseminou-se principalmente nas cidades com os seus aglomerados humanos e a falta de higiene. Daí a mortandade nos conventos e nas escolas. A falta de frades compeliu muitas ordens religiosas a mitigarem as Regras e a pactuarem com o relaxamento dos costumes, a fim de poderem conservar os candidatos à vida religiosa. Daí a soltura das maneiras e o escândalo que carcomeu tantas instituições religiosas. Os abusos chegaram a tal ponto que o famoso pregador dominicano São Vicente Ferrer (1350-1419) dizia que, se São Domingos e São Francisco retornassem a este mundo, não reconheceriam as suas Ordens, tais as desfigurações que os seus membros relapsos lhes haviam infligido. As universidades perderam os mestres mais experientes do dia para a noite, logo substituídos por mocinhos ignorantes e pretensiosos. A universidade de Paris viu desaparecer a sua autonomia e teve de se curvar às injunções dos monarcas, de modo que "o rei da França, diz ainda Gusdorf, não se mostrou de forma alguma disposto a garantir e a renovar os privilégios dessa instituição que colaborou com os seus piores adversários" [395].

18. Ao mesmo tempo em que a Europa se debatia nas tenazes da crise geral e vivia o fim atormentado de uma época e ao passo que se manifestava claro o declínio dos estudos, lampejavam os clarões do humanismo renascentista desde o século XIV na obra de Dante, Petrarca e Boccaccio. O novo pendor cultural - o gosto dos clássicos e o predomínio das letras sobre a filosofia -exprimiu-se logo no plano dos estudos e da vida escolar. Nos séculos XIV e XV, através do debate entre frei Giovannino de Mântua e Albertino Mussato a respeito do valor pedagógico da poesia; da apologia da imitação dos Antigos feita por Petrarca, da defesa da poesia por Giovanni Boccaccio, do enaltecimento dos clássicos por Coluccio Salutati, da exaltação da educação religiosa por frei Giovanni Dominici. Desde o fim da Idade Média, os pedagogos italianos propõem ó ideal formativo do cidadão e do homem bem educado. Cristina de Pisan, natural de Bolonha e francesa de adoção, protestou contra o antifeminismo e propôs a educação integral da mulher, que se baseasse na religião, na instrução sem muito latim mas com matemática e ciências práticas [396]. Desde o século XIV, Dante celebrou a beleza e a importância do idioma nacional, da língua vulgar, que levaria ainda muito tempo até vir a ser incorporada aos programas de ensino, especialmente no ambiente de culto aos clássicos greco-latinos. Pode notar-se, todavia, que, apesar da crise da cultura e do descaimento escolar, a Idade Média legou à posteridade, juntamente com as universidades e a escolástica, a ciência experimental, o culto da matemática, a devoção pelos clássicos, o interesse pela educação feminina e o apreço pela língua vulgar. Na mesma época de Cristina de Pisan, do fim do século XIV ao início do XV, Gerson bateu-se contra a decadência dos estudos, pelo afervoramento do espírito cristão e pela educação infantil, com engenho e zelo, como se colhe das obras teológicas e pastorais e dos seus escritos educacionais. Em que pese, pois, o sofrido término do milênio medieval, cabe em grande parte razão a Régine Pernoud que intitulou o seu livro de apresentação panorâmica do Medievo de "A Luz da Idade Média", pois esse período histórico representou para a Europa um foco de intensa luz que ainda dardeja os seus raios sobre a sociedade do século XX, raios que refulgem nas torres das catedrais, nos salões dos parlamentos e dos júris, nos claustros silenciosos dos mosteiros e nos recintos bulhentos das universidades.

19. Chegamos ao término do nosso estudo. Somos os primeiros a lhe reconhecer as deficiências e as lacunas, mas, já que não era possível dizer tudo de uma vez em obra de iniciação, preferimos omitir o acidental e insistir na apresentação dos fatos capitais e das idéias básicas para a História da Educação Medieval. Como dissemos desde o início, esta obra é um convite ao estudo, é um mapeamento sumário da educação na Idade Média. O professor começou e o aluno deve levar avante esse estudo de História com empenho, arte e carinho, sempre lembrado de que a, aquisição de conhecimento requer esforço, dedicação, tempo e entusiasmo, e mais: persistência, persistência e persistência!