CAPÍTULO X. A CRISE DA EDUCAÇÃO NO FIM DA IDADE MÉDIA.

[378] Segundo Georges Duby, a miséria dessa época exprimiu-se através da fome, pois "desde os últimos anos do século XIII, parece que as colheitas deixaram de aumentar"; da guerra, e a mais impressionante foi a dos Cem Anos que durou mais tempo, pois começou em 1337 e só terminou em 1453; e da Peste Negra que surgiu repentinamente na Europa e acarretou a morte de, pelo menos, um terço da população francesa e, por certo, dos habitantes de outras regiões. Duby-Mandrou, Histoire de la Civilisation Française, págs. 189-199.

O século XIV foi época de carestia, de revoltas populares e de saques. "As sublevações são denominadas ainda hoje 'jacqueries', explica Guy Fourquin porque o cronista Jean le Bel chamou erroneamente de Jacques Bonhomme (e era Guillaume Cale) o chefe dos revoltosos. Daí em diante, para os franceses, os campônios revoltados serão Jacques, até ao dia longínquo em que o termo 'Croquants' o suplantar... Esse êxito duradouro de uma denominação dá bem idéia de quanto a revolta de 1358 marcou a mentalidade coletiva." Guy Fourquin, Les soulèvements populaires au Moyen Âge, págs. 177-178.

A primeira grande sublevação popular do século XIV foi a da Flandres marítima (1323 a 23-8-1328), depois foi a Jacquerie parisiense em maio-junho de 1358, as revoltas urbanas de Perúgia, Siena e Florença em 1342, 1371 e 1378. A de Florença chamou-se de revolta dos ciompi, os cardadores de lã; e a grande revolta camponesa da Inglaterra de 1381 orientada por Wat Tyler e pelo pregador popular John Ball que defendia o comunismo dos bens e a completa igualdade social. Todas as sublevações exprimem o desespero popular perante os abusos do fisco, a fome, o desemprego e a exploração dos pobres pelos ricos, e terminaram com o massacre dos revoltosos. Releva notar que estes não pretendiam arruinar o edifício social, mas clamavam simplesmente por justiça, exceto no caso de alguns teóricos mais inflamados. Nos séculos XIV e XV ocorre o agravamento da miséria. Os pobres são homens famintos e frustrados desprovidos de dignidade humana e que se lançam em atos de revolta. Jean-Louis Goglin, Les misérables dans l'Occident médiéval, pág. 132. Sobre as agitações urbanas e a "revolução sindicalista" no Ocidente no século XIII e na primeira metade do XIV, cf. P. Boissonade, Le Travail dans l'Europe Chrétienne au Moyen Âge (Ve-XVe Siècles). Paris, Félix Alcan, 1921, pág. 266 e seguintes.

[379] Archibald R. Lewis, "The Closing of the Mediaeval Frontier, 1250 - 1350", in Speculum, vol. XXXXIII, October, 1958, nº 4, págs. 475-483.

[380] "Narrabo igitur nunc primo opera artis et naturae miranda... in quibus nihil magicum est, ut videatur quod omnis magica potestas sit inferior his operibus et indigna. Et primi per figuram et rationem solius artis. Nam instrumenta navigandi possunt fieri sine hominibus remigantibus, ut naves maximae, fluviales et marinae, ferantur unico homine regente, majori velocitate quam si plenae essent hominibus. Item currus possunt fieri ut sine animali moveantur cum impetu inaestimabili... Item possunt fieri instrumenta volandi... possunt etiam instrumenta fieri ambulandi in mari, vel fluminibus, usque ad fundum absque periculo corporali, etc." Rogerius Bacon, "Epistola Fratris Rogerii Baconis de Secretis operibus artis et naturae, et de nullitate magiae", in Fr. Rogeri Bacon, Opera quaedam hactenus inedita, pág. 532-533. Sobre as previsões científicas de Bacon consulte-se Andrés Aguirre y Raspaldiza, La Ciencia Positiva en el Siglo XIII - Rogerio Bacon. Barcelona, Editorial Labor, 1935, 432 págs. Cf. Cuarta Parte, c. V, El vidente de la ciencia, págs. 299-303.

[381] "Deinde optimus quisque, et idoneus ad theologiam et philosophiam, transvolat ad jura civilia, quia videt juristas illos ditari et honorari ab omnibus praelatis et principibus, ita quod pauci respectu eorum, qui necessarii essent, in philosophia et theologia remanent pra illorum studio, quia cupida facultas juris civilis trahit multitudinem clericorum." Rogerius Bacon, "Compendium studii philosophiae", in Opera quaedam hactenus inedita, pág. 419.

[382] Le Goff, Les Intellectuels au Moyen Âge, pág. 138-139.

[383] Ib., pág. 187.

[384] "Iam Athenas deseruit, iam a Roma recessit, iam Parisius preterivit, iam ad Britanniam, insularum insignissimam, quin potius microcosmum, accessit feliciter, ut se Graecis et barbaris debitricem ostendat." Ricardo da Bury, Philobiblon, cp. 17, pág. 108.

[385] "The logic presented by Ockham is a well organized and clearly articulated exposition of the common body of logical teaching which had developed continuously from the time of Abelard through the 13th century. Precisely because this logic was a formal logic, ti could be accepted and utilized by the scholastics of all parties regardless of the metaphysical or epistemological oppositions dividing Scotists from Thomists, or realists from nominalists." Ernest H. Moody, Truth and Consequence in Mediaeval Logic, pág. 6. Moody tem razão em parte, pois Ockham compôs uma bela construção de lógica formal nos livros a ela consagrados, ruas isso não impediu que se manifestasse sobre epistemologia, sobre o valor dos conceitos, sobre o problema dos Universais até nas obras estritamente teológicas como o seu Comentário sobre as Sentenças.

[386] Consulte-se a respeito dessa quéstão os verbetes sobre conceito universal, conceptualismo e nominalismo, in Brugger, Dicionário de Filosofia, págs. 96 a 98 e 296.

[387] Segundo Fraile, mais do que um cético, Nicolau de Autrecourt teria sido um crítico desiludido e cansado dos artifícios filosóficos da sua época: "Es un maestro de Artes, aburrido de ias sutilezas con que se entretenía a los estudiantes, y que les apartaban de atros estudios, más útiles a su juicio." Guillermo Fraile, Historia de la Filosofia, t. II, pág. 1151.

[388] Maistre Nicole Oresme, "Le Livre du Ciel et du Monde", in Mediaeval Studies, vol. IV, (1942), pág. 277.

[389] Lynn Thorndike, A History of Magic and Experimental Science. Fourteenth and Fifteenth Centuries. Vol. III, chap. II, pág. 30-31.

[390] Gabriel Le Bras, "La Faculté de Droit au Moyen Âge", in Vários, Aspects de l'Université de Paris, pág. 96.

[391] "Il trecento, se inizia il decadimento dello Studio, non ne segna già la immediata ravina." Sorbelli, Storia dell'Università di Bologna, pág. 95.

[392] Diz Georges Gusdorf, autor insuspeito de parcialidade: "A escolástica, enquanto modo de conhecimento próprio da Universidade, afirma o primado da investigação por meio da livre discussão. O período medieval foi a idade por excelência das aposições e das contradições, do sic et non, sabendo-se que essas aposições se situam no interior da universidade e não cessam de renascer, até mesmo quando uma autoridade interna ou externa é chamada para dirimir o debate. Foi o nosso tempo que inventou o conformismo totalitário com a sua ferocidade peculiar. A grande época da Idade Média não se caracteriza de modo algum pelo espírito de ortodoxia político-policialesca que continua a ser o privilégio pouco invejável do século vinte. Tal terrorismo, paralisando o espírito da investigação livre, é a negação mesma desta Universidade que a Idade Média inventou." Georges Gusdorf, L'Université en question, Paris, Payot, págs. 21-22. Gusdorf situa-se na mesma linha do pensamento reto e sério do grande filósofo do século XVII, Leibniz, que assim se pronunciou sobre a Escolástica: "Os escolásticos não se acham tão afastados da verdade nem são tão ridículos como a turba dos nossos novos filósofos o imagina... Os autores modernos não prestam a devida justiça a Santo Tomás e a outros grandes homens da Idade Média, mas o certo é que existe nos pensamentos dos filósofos e dos teólogos escolásticos mais solidez do que se imagina... Estou mesmo persuadido de que, se algum espírito exato e meditativo se desse ao trabalho de esclarecer e aprofundar os 'seus pensamentos à maneira dos geômetras analíticos, encontraria valioso tesouro de verdades im- portantes e plenamente convincentes." Leibniz, Die philosophischen Schriften, t. IV, págs. 434-436, 471 e 477.

[393] Sobre os vários tipos de abusos administrativos cf. Denifle, Chartularium Universitatis Parisiensis, t. II, Introductio, pág. VI a XI.

[394] Theodore P. Van Zijl, Gerard Groot, Ascetic and Reformer, págs. 43-44.

[395] Georges Gusdorf, L'Université en question, págs. 25-26.

[396] Astrik L. Gabriel, The Educational Ideas of Christine De Pisan.