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1. Parecer-vos-á que já está dito tudo o que há a ver nesta morada, mas falta muito, porque -
como disse - há mais e menos. Quanto ao que é união, não creio que saberei dizer mais; mas
quando a alma a quem Deus faz estas mercês se dispõe, há muitas coisas a dizer do que o Senhor
opera nelas. Algumas direi e do modo como ela fica. Para melhor o dar a entender, quero
aproveitar-me duma comparação que é boa para este fim; e também para vermos como, embora
nesta obra que faz o Senhor não possamos fazer nada, podemos fazer muito, dispondo-nos z
para que Sua Majestade nos faça esta mercê.
2. Já tereis ouvido as maravilhas de Deus no modo corno se cria a seda, que só Ele pode fazer
semelhante invenção, e como, de uma semente, que é à maneira de pequenos grãos de pimenta
(que eu nunca vi, mas ouvi-o dizer, e assim, se algo for torcido, não é minha a culpa), com o
calor, em começando a haver folhas nas amoreiras, começa esta semente a viver; até que haja
este mantimento de que se sustenta, está como morta. E com folhas de amoreira se criam, até
que, depois de grandes, lhes põem uns ramitos e aí, com as boquitas, vão por si mesmas fiando a
seda, e fazem uns casulos muito apertados onde se encerram e acabam esta larva, que é grande e
feia, e sai do mesmo casulo uma borboletazinha branca, muito graciosa. Mas, se isto não se visse
e no-lo contassem de outros tempos, quem o poderia crer? E com que razões poderíamos
concluir que uma coisa tão sem razão como é uma lagarta ou uma abelha, seja tão diligente em
trabalhar para nosso proveito e com tanta indústria, e a pobre lagartixa perca a vida na demanda?
Para um pouco de meditação basta isto, irmãs, ainda que não vos diga mais, pois nisto podeis
considerar as maravilhas e sabedoria do nosso Deus.
Pois, que seria se conhecêssemos a propriedade de todas as coisas? De grande proveito é
ocuparmo-nos em pensar estas grandezas alegrarmo-nos em ser esposas de Rei tão sábio e
poderoso.
3. Tornemos ao que dizia. Então começa a ter vida esta lagarta quando, com o calor do Espírito
Santo, se começa a aproveitar do auxilio geral que Deus nos dá a todas, e quando começa a
aproveitar-se dos remédios que deixou na Sua Igreja, assim de como continuar com as
confissões, como também com boas leituras e sermões, que são o remédio que pode ter uma
alma que está morta em seu descuido e pecados e metida em ocasiões. Então começa a viver e
vai-se sustentando nisto e em boas meditações, até estar crescida, que é o que a mim me faz ao
caso, pois o resto pouco importa.
4. Crescida, pois, esta lagarta - que é o que fica dito no principio disto que escrevi -, começa a
fabricar a seda e a edificar a casa onde há-de morrer. Esta casa quereria eu dar a entender aqui,
que é Cristo. Em qualquer parte me parece ter lido ou ouvido que nossa vida está escondida em
Cristo ou em Deus, o que é tudo um, ou que nossa vida é Cristo. Que isto seja ou não, pouco faz
ao meu propósito.
5. Pois vedes aqui, filhas, o que podemos fazer com o favor de Deus: que Sua Majestade mesmo
seja nossa morada, como o é na oração de união, edificando-a nós mesmas! Parece que quero
dizer que podemos tirar e pôr alguma coisa em Deus, pois digo que Ele é a morada, e que a
podemos fabricar para nos metermos nela. Oh! se o podemos! Não tirar ou acrescentar em
Deus, mas sim tirar e acrescentar em nós, como fazem estas lagartixas; que não teremos ainda
acabado de fazer nisto tudo quanto podemos, quando este trabalhito que não é nada, junte Deus
com Sua grandeza, e lhe dê tão grande valor, que o mesmo Senhor seja o prémio desta obra. E
assim como foi Ele quem fez quase tudo à Sua custa, assim também quer juntar nossos
trabalhinhos com os grandes trabalhos que padeceu Sua Majestade; e que tudo seja uma só
coisa.
6. Eia, pois, minhas filhas! demo-nos pressa em fazer este trabalho e a tecer este casulo,
despojando-nos do nosso amor próprio e da nossa vontade, deixando de estar presas a qualquer
coisa da terra, fazendo obras de penitência, oração, mortificação, obediência e tudo o mais que
sabeis; assim fizéssemos como sabemos e somos ensinadas naquilo que havemos de fazer!
Morra, morra este verme tal como o da seda em acabando de fazer aquilo para que foi criado, e
vereis como vemos a Deus, e nos vemos tão metidas em Sua grandeza como está esta lagartita
em seu casulo. Olhai que digo ver a Deus, assim como deixo dito que Ele se dá a sentir nesta
maneira de união.
7. Vejamos, pois, o que sucede a esta lagarta, pois para isto é que tenho dito tudo o mais quando
está nesta oração, bem morta está ao mundo, sai uma borboleta branca. Oh! grandeza de Deus!
E como sai daqui uma alma por haver estado um pouquinho metida na grandeza de Deus e tão
junta com Ele, que, a meu parecer, nunca chega a meia hora! Eu vos digo de verdade, que a
mesma alma não se conhece a si mesma, porque a diferença que há de uma lagarta feia para uma
borboletazinha branca, a mesma diferença há aqui. Não sabe como pode merecer tanto bem - de
onde lhe pôde vir, quero dizer, que bem sabe que o não merece -; vê-se com um desejo de
louvar ao Senhor que queria desfazer-se e morrer por Ele mil mortes. Logo começa a ter o de
padecer grandes trabalhos, sem poder fazer outra coisa. Os desejos de penitência grandíssimos,
o de solidão, o de que todos conheçam a Deus; e daqui lhe vem uma grande pena de ver que é
ofendido. E, ainda que na morada que segue se tratará mais destas coisas em particular, embora
o que há nesta morada e na que segue depois seja quase tudo um, é mui diferente a força dos
efeitos; porque - como disse -, se depois que Deus faz chegar uma alma até aqui, ela se esforça a
ir por diante, verá grandes coisas.
8. Oh! Ver o desassossego desta borboletazinha, apesar de nunca ter estado mais quieta e
sossegada em sua vida, é coisa para louvar a Deus! Não sabe onde poisar e tomar assento.
Depois de o ter tido tal, tudo, da terra a descontenta, em especial quando são muitas as vezes
que Deus lhe dá deste vinho; quase de cada vez fica com novos. lucros. Já não tem em nada as
obras que fazia sendo lagarta, que era tecer a pouco e pouco o casulo; nasceram-lhe asas. Como
se há-de contentar, podendo voar, andando passo a passo? Tudo lhe parece pouco de quanto
pode fazer por Deus, segundo os seus desejos. Não tem por muito o que passaram os santos,
entendendo já por experiência como ajuda o Senhor e transforma uma alma que já não parece
ela, nem ainda sua figura. Pois a fraqueza que antes parecia ter para fazer penitência, já a
encontra forte; o apego que tinha aos parentes, amigos ou fazenda (que nem lhe bastavam actos,
nem determinações, nem o querer apartar-se, pois antes lhe parecia então que se achava mais
presa), já é de maneira que lhe pesa ver-se obrigada àquilo que, para não ir contra Deus, é
preciso fazer. Tudo a cansa, porque provou que o verdadeiro descanso não o podem dar as
criaturas.
9. Parece que me alongo, e muito mais poderia dizer, e a quem Deus tiver feito esta mercê verá
que fico aquém; e assim não é de admirar que esta borboleta busque novo assento, assim como
se acha nova e estranha às coisas da terra. Mas, aonde irá a pobrezita? Voltar a donde saiu, não
pode, que - como está dito -, não está na nossa mão, por mais que façamos, até que Deus seja
servido de nos tornar a fazer esta mercê. Oh! Senhor, e que novos trabalhos começam para esta
alma! Quem dissera tal, depois de mercê tão subida? Enfim, de uma maneira ou de outra, há-de
haver cruz enquanto vivemos. E quem disser que, depois que chegou aqui, sempre está com
descanso e regalo, diria eu que nunca chegou, e não foi senão algum gosto, se é que entrou na
morada anterior, e ajudado pela fraqueza natural; e até, talvez, pelo demónio, que lhe dá paz para
lhe fazer depois muito maior guerra.
10. Não quero dizer que não tenham paz os que chegam aqui, que atêm, e muito grande; porque
os mesmos trabalhos são de tanto valor e de tão boa raiz, que, embora muito grandes, deles
mesmos sai a paz e o contentamento. Do mesmo descontentamento que dão as coisas do mundo,
nasce um desejo tão penoso de sair dele, que, se algum alívio tem, é pensar que Deus quer que
viva neste desterro; e não basta, porque ainda a alma, com todos os lucros, não está tão rendida
à vontade de Deus, como se verá adiante, conquanto não deixe de se conformar; mas é com um
grande sentimento, porque não pode mais, pois mais não lhe foi dado, e com muitas lágrimas.
Cada vez que tem oração é esta a sua pena, que procede, talvez em certo modo, da bem grande
pena que lhe dá o ver que é Deus ofendido e pouco estimado neste mundo e as muitas almas que
se perdem, tanto de hereges, como de mouros. Conquanto as que mais a lastimam sejam as dos
cristãos, pois ainda que vê que é grande a misericórdia de Deus, e por mal que vivam se podem
emendar e salvar, teme todavia que se condenem muitos.
11. Oh! grandeza de Deus! Poucos anos antes, e ainda talvez há dias, estava esta alma que não
se lembrava senão de si! Quem a meteu em tão penosos cuidados? Embora queiramos ter sobre
isto muitos anos de meditação, tão penosamente como o sente agora esta alma, não o poderemos
sentir. Mas, valha-me Deus! se muitos dias e anos eu procuro exercitar-me a pensar no grande
mal que é o ser Deus ofendido e que estes que se condenam são filhos Seus e irmãos meus, e os
perigos em que vivemos, e quão bem nos vai sair desta miserável vida, não bastará? Ai não,
filhas; pois não é a pena que se sente aqui como as de cá da terra. Esta bem a poderíamos ter
com o favor do Senhor, pensando muito nisto; mas não chega ao íntimo das entranhas, como
aqui, que parece despedaça uma alma e o mói, sem ela o procurar, e ainda às vezes sem o
querer. Pois que é isto? Donde procede? Eu vo-lo direi.
12. Não tendes ouvido -pois já o disse aqui de outra vez, embora não a este propósito - da
Esposa, que «a meteu Deus na adega do vinho, e ordenou nela a caridade?». Pois assim é isto:
como aquela alma já se entrega em Suas mãos, e o grande amor a tem tão rendida, não sabe nem
quer mais senão que Deus faça dela o que quiser (que jamais fará Deus esta mercê, penso eu, a
não ser à alma a quem já toma por muito Sua), e quer que, sem que ela entenda como, saia dali
marcada com o Seu selo. Porque verdadeiramente a alma ali não faz mais do que a cera quando
alguém lhe imprime o selo, pois a cera não o imprime em si mesma; somente está disposta, digo,
branda; e ainda, para esta disposição, tão-pouco é ela que se abranda, mas fica quieta e o
consente. Oh! bondade de Deus, que tudo há-de ser à Vossa custa! Só quereis a nossa vontade
e que não haja impedimento na cera.
13. Pois vede, irmãs, o que o nosso Deus faz aqui para que esta alma já se conheça por Sua;
dá-lhe do que tem, que é o que teve Seu Filho nesta vida: não nos pode fazer maior mercê.
Quem, mais do que Ele, devia querer sair desta vida? E assim o disse Sua Majestade na Ceia:
«Com desejo desejei». - Pois como, Senhor, não se Vos pôs diante a trabalhosa morte de que
havíeis de morrer, tão penosa e espantosa? - Não, porque o grande amor que tenho e o desejo
de que se salvem as almas sobrepuja, sem comparação, essas penas; e as grandíssimas que
padeci e padeço, desde que estou no mundo, são bastantes para ter as outras em nada, em sua
comparação.
14. É assim que muitas vezes tenho meditado nisto, e sabendo eu o tormento que passa e tem
passado certa alma que conheço de ver ofender a Nosso Senhor, tormento que lhe é tão
insofrível, que muito mais quisera ela morrer que sofrê-lo, e pensa, se uma alma com tão
pouquíssima caridade, comparada com a de Cristo, que se podia dizer quase nenhuma em
comparação, sentia este tormento tão insofrível, qual não seria o sentimento de Nosso Senhor
Jesus Cristo, e que vida não deveria Ele passar, pois todas as coisas Lhe eram presentes e estava
sempre vendo as grandes ofensas que se faziam a Seu Pai? Sem dúvida alguma, eu creio que
foram muito maiores que as da Sua Sacratíssima Paixão, porque então já via o fim destes
trabalhos, e com isto, e com o contento de ver o nosso remédio com Sua morte e mostrar o amor
que tinha a Seu Pai em padecer tanto por Ele; se moderariam as dores, tal como acontece cá na
terra aos que, com a força do amor, fazem grandes penitências, que quase não as sentem, antes
quereriam fazer mais e mais, e tudo lhes parece pouco. Pois, que seria este sentimento em Sua
Majestade, vendo-se em tão grande ocasião de mostrar a Seu Pai quão perfeitamente cumpria
em obedecer-Lhe, e com o amor do próximo? Oh! grande deleite, padecer em fazer a vontade
de Deus! Mas, o ver tão de contínuo tantas ofensas feitas a Sua Majestade, e tantas almas irem
ao inferno, tenho-o por coisa tão dura que, creio, se não fora mais que homem, um dia daquela
pena bastava para acabar muitas vidas, quanto mais uma.
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