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Em idade tão tenra comunicou-lhe Deus grandes luzes, o dom das lágrimas e da oração.
Embora desconhecesse o método de meditar, guiado pelo espírito de Deus, fazia freqüentes e
longas reflexões sobre a Paixão de Nosso Senhor, em que tanto o exercitara a piedosa mãe.
Ana Maria, talvez sem o saber, preparava o caminho para os desígnios de Deus em relação a
Paulo, ao inspirar-lhe tal devoção. Este tinha sempre ante os olhos a imagem de Jesus
Crucificado, considerando os cruéis padecimentos do Redentor, enquanto as lágrimas lhe
corriam abundantes. Jesus em pessoa o ia preparando suavemente para missão providencial.
Fazia com que seus padecimentos fossem atrativo irresistível para o coração de Paulo,
começando, desde então, a recreá-lo com freqüentes visões sobre sua vida, suas dores e sua
morte. Apareceu-lhe certa vez com a cabeça coroada de espinhos, o rosto ensanguentado, as
carnes maceradas!... Tão forte foi a impressão causada no bem-aventurado menino, que, ao
recordá-lo, experimentava extrema tristeza. Não é, portanto, para estranhar que começasse
desde os mais verdes anos a amar os sofrimentos. Mortificava o gosto e martirizava o
delicado corpo. De noite deixava a cama e deitava-se sobre uma tábua, para assemelhar-se
ao Salvador, que na agonia teve por leito o madeiro da Cruz. Mui de freqüente, no silêncio
da noite e sempre de joelhos, meditava os cruéis padecimentos de Jesus. Às sextas-feiras,
principalmente, entregava-se a muitos rigores, absorto nos tormentos do Homem-Deus.
Assentava-se à mesa, triste, pálido e com lágrimas nos olhos. Conseguia-se a custo induzi-lo
a comer um pedaço de pão, que banhava com suas lágrimas.
João Batista aprendera de Paulo a amar as austeridades e oração. Ve-los-emos sempre juntos
na prática das mortificações mais rigorosas. A Paixão de Nosso Senhor era o pensamento
quase continuo do nosso santo. Reunia muitas vezes os irmãozinhos e lhes falava da Paixão,
com vigor e unção verdadeiramente singulares em tão tenra idade. Seus jovens ouvintes
comoviam-se ao vê-lo chorar, chorando com ele. Assim, pela penitência e pela prece,
aparelhava em seu coração um santuário ao Deus da Eucaristia, que em breve iria receber
pela primeira vez, A mãe não se descuidava de enviá-lo ao catecismo paroquial, impondo-se
o dever de repetir ao filho aquelas verdades da fé. Não se tem cabal certeza da época em
que Paulo recebeu pela primeira vez a sagrada Comunhão. E' de crer, no entanto, que logo
após ato tão solene, fosse enviado pelos pais a Cremolino para terminar os estudos, pois é
certo que então se achegava amiúde à sagrada mesa, com fervor angélico. Embora nos faltem
documentos, é fácil conjecturar ter Deus favorecido com graças assinaladas esta alma de
escol em dia tão memorável, crescendo Paulo, desde então, de virtude em virtude, jamais
cessando de marchar com passos agigantados pelo caminho da santidade.
A Comunhão será sua felicidade e sua fôrça. Ela irá preservar este lírio de toda e qualquer
mancha. O Tabernáculo será a torre inexpugnável onde Paulo resguardará a virtude.
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