UMA GRAÇA EXTRAORDINÁRIA

Teria Paulo seus vinte anos. Assistia a uma instrução familiar de sul pároco, quando brilhante e improvisa luz lhe iluminou o mais recôndito da alma e lhe patenteou sua miséria e seu nada. Apesar de tão exemplar e virtuoso, julgou-se grande pecador. Tão vivo foi o sentimento de seu mísero estado, que lhe arrancou torrentes de lágrimas.

“ Quando Deus, diremos com piedoso autor, por um raio de sua luz, faz conhecer à alma a pureza que dela exige, dá-lhe outrossim maior conhecimento dos próprios defeitos, obrigando a examiná-los com severidade e investigar as mais recônditas inclinações, assim viciosas como naturais. Prouvera a Deus que os pecadores chorassem seus maiores crimes com tanto pesar como esta alma chorou, então, suas mais leves faltas ” .

Deste insigne dom resulta o profundo desprezo de si mesmo, coar absoluto desapego de toda criatura e grande zelo pela glória de Deus da salvação do mundo. Exige este toque divino constante fidelidade e à voz do Céu. Com efeito, assim como a alma fiel pode elevar-se ao mais alto, pode a infiel descer ao mais profundo.

Deparando um coração dócil, produziu esta graça os melhores frutos em Paulo Francisco.

Colocado nessa região de luz, resolveu o santo jovem dar-se inteiramente a Deus. Percebeu insólita transformação interior, por ele chamada, em sua humildade, CONVERSÃO, e que nada arais era senão aumento de virtude.

Muitos santos foram provados nesse crisol, quando o Senhor se comprazia em confiar-lhes alguma missão extraordinária. Afigurou-se, pois, a Paulo nada ter feito até então pela glória de Deus. Em sua alma apenas via pecados. Desejando purificar a vida passada por uma confissão geral, foi lançar-se aos pés do ministro de Deus, acusando-se das mais leves faltas como se foram enormes pecados. Sentiu compunção tão veemente, que o fêz derramar amargas lágrimas e ferir desapiedadamente o peito com uma pedra, à imitação de são Jerônimo, na gruta de Belém.