ENTRE OS CRUZADOS

Esta divina claridade acendeu-lhe também no coração labaredas de amor a Jesus Crucificado, com ardentes desejos de sacrificar-se pela sua glória. Por vezes dá Deus às almas sêde ardente de imolação, sem manifestar-lhes o gênero de sacrifício que lhes pede. Ao seráfico patriarca são Francisco, refere são Boaventura, mostrou-se-lhe em visão magnifico palácio repleto de resplandecentes armas marcadas com o emblema da Cruz.

“ Para quem são estas armas e este palácio tão encantador? ” ,

perguntou o santo.

“ São para ti e teus soldados ” ,

respondeu-lhe uma voz.

E ele, julgando-se chamado a combater sob a bandeira dos reis da terra, já se dispunha a partir, quando a mesma voz lhe fêz compreender que aquilo significava os combates espirituais a serem travados sob o estandarte do Rei dos Céus.

Desejoso de atirar-se às batalhas do Senhor, entregou-se Paulo a largas reflexões.

Por aquele tempo a república de Veneza fazia grandes preparativos de guerra contra o império muçulmano, prestes a lançar formidável exército contra a Europa. Ronca acabava de elevar a voz, voz poderosa que tem sempre comovido e salvado a Europa da barbárie otomana.

Clemente XI convidara, em duas Bulas, os príncipes cristãos para uma aliança contra esses inimigos da civilização e da Cruz. O Santo Pontífice, atemorizado pelo perigo que corria a cristandade, não se contentou em equipar os navios de seus Estados, mas apelou para todos os fiéis a fim de aplacarem a cólera divina com penitências e jejuns, e ordenou preces públicas para implorar o auxílio do alto.

“ Eis, exclama Paulo de si para consigo, eis as batalhas a que Deus me chama ” .

Combater por Jesus! Ser mártir da fé! Derramar o sangue por tão nobre causa!... Tais pensamentos lhe acenderam o entusiasmo no coração e, sem pôr tempo em meio, alistou-se como voluntário em Crema, na Lombardia.

Ei-lo soldado, exercitando-se no manejo das armas, disposto a pelejar contra o inveterado inimigo da fé.

Em o novo gênero de vida, não olvidava o seu Deus, frequentando, como em Castellazzo, a oração e os sacramentos.

Prestes a embarcar em Veneza rumo ao Oriente, foi adorar o ss. Sacramento, solenemente exposto. Enquanto orava, fê-lo o Senhor compreender claramente que o chalrava para mais alta e santa milícia: a dos apóstolos do Evangelho. Deus falara e Paulo já não vacila. Solicita e obtém a devida baixa, retornando à cidade natal.

De regresso, hospeda-se em Novello, em casa de uma família que se compunha unicamente do marido e da esposa.

Estes, de idade avançada e sem prole, uniam à imensa fortuna sólida piedade. Descortinando no jovem peregrino, de maneiras afáveis e nobres, tesouros de virtudes ocultas sob o véu da modéstia, resolveram adotá-lo por filho e legar-lhe o rico patrimônio.

Manifestaram a Paulo o propósito, mas este cortesmente o recusou, pois desejava consagrar a Deus o coração completamente desprendido de tudo e de todos.