ENFERMEIROS EM S. GALICANO

Terminado o hospital e consagrada a igreja pelo Soberano Pontífice sob a invocação de São Galicano, aos 8 de outubro de 1726 houve solene tomada de posse.

Espetáculo comovente que houvera maravilhado aos Césares da Roma pagã! Marcha gloriosa, bem diversa da dos antigos triunfadores em demanda do Capitólio, arrastando, acorrentados, os míseros vencidos!

,Aqui triunfam os vencidos da dor, divinizada no Calvário. Os enfermos, com passo lento ou carregados em carros, em liteiras ou nos braços de pessoas caridosas, avançam por entre a multidão comovida! Vai à frente João Batista, empunhando o estandarte da Cruz; Paulo, os sacerdotes e os cardeais, entoando hinos, encerram o cortejo triunfal. Conduzem ao palácio da caridade aqueles pobres, enfermos, anciãos, crianças... que os patrícios da antiga Roma lançaram aos tanques para cevar as lampréias.

Os servos de Deus dedicaram-se àquela obra como

“ se abraçassem nos pobres o mesmo Jesus Cristo ” ,

segundo a expressão de Paulo. Indizível a ternura e a caridade com que os instruíam nas verdades da fé, dispondo-os a receberem os santos Sacramentos. Ensinavam-lhes a santificar os sofrimentos, prodigalizavam-lhes os mais humildes favores. Sua palavra inflamada abrasava-lhes os corações no divino amor.

Zelavam outrossim pelos enfermeiros, instruindo-os no segredo de transformarem em tesouros de méritos as nobres fadigas da caridade.

Recomendara-lhes o cardeal protetor desenrolassem ativa vigilância no desvelo aos doentes e velassem para que se não introduzisse nenhum abuso, ruína certa das obras mais santas.

Muitas vezes o dever vai de encontro às paixões. Teria a caridade muitos atrativos, se sempre encontrasse reconhecimento. No entanto, foram as injúrias a recompensa dos trabalhos prestados por Paulo e João Batista no hospital de São Galicano.

Respondiam com o silêncio e a paz, ditosos, dizia Paulo,

“ por termos ocasião de mortificar-nos e aplicar-nos ao desprezo de nós mesmos ” .

Pouco se lhes dava das perseguições, contanto não fossem prejudicados os interesses dos enfermos; mais sofriam e mais superabundavam de alegria. Escrevia o santo:

“ E' esta uma vinha de preço inestimável ou, para melhor dizer, é a fogueira mais abrasadora da caridade... Deus seja bendito! ” .

Se Nosso Senhor não deixa sem recompensa um copo de água dado por seu amor, quais não seriam as bênçãos do Céu em recompensa de tantos sacrifícios?

Em breve tornou-se o hospital LUGAR DE SANTIFICAÇÃO e verdadeira escola do Calvário, onde se aprendia a aviar e imitar a Jesus Crucificado. Os doentes, restabelecidos, safam dali com a consciência tão delicada que, no dizer de um escritor contemporâneo, pareciam sair de retiro espiritual.

Tomaram por guia nos caminhos de Deus o superior do hospital, pe. Emílio Lami, que, notando neles sólida virtude, os mortificava publicamente. Certa vez ministrou-lhes guardanapos bastante sujos, de que se tinham servido os mais repugnantes enfermos.

Viera visitar o hospital a marquesa de Vasto. Após acompanhá-la por todo o edifício, disse-lhe o pe. Lami:

“ Senhora, convém observeis como aqui se pratica a virtude ” .

Mandou chamar a Paulo e João Batista e, sob fútil pretexto, repreendeu-os asperamente. Sem pronunciar palavra, puseram-se imediatamente de joelhos, como se foram culpados. Beijaram em seguida as mãos do superior, retirando-se tranqüilos, com grande edificação da marquesa.

O pe. Lami amava-os ternamente. Costumava dizer serem eles o mais precioso tesouro do hospital.