NOVAMENTE EM ROMA

Fizemos esta digressão, enquanto o navio se fazia de vela para Roma. Ei-los já no termo da jornada. Após dois meses de ausência, ei-los novamente no hospital de São Galicano. Parece que a viagem não foi muito boa. Sabemos, com efeito, que, apenas chegados em Roma, Paulo e João Batista caíram enfermos de febre terçã e o estado do nosso santo se agravou de tal forma que por 18 dias não pôde celebrar, continuando acamado durante todo o inverno. De uma carta à marquesa Del Pozzo consta que a 31 de outubro de 1727 Paulo se acha novamente em Roma. A doença que por 18 dias lhe impediu de celebrar a santa Missa acometeu-o após o regresso de Castellazzo.

A prova está concluída. Os apóstolos já estão formados na caridade, na paciência e na humildade. Soou a hora de fixá-los no verdadeiro caminho de sua predestinação, descortinando-se diante deles a larga estrada do apostolado.

Ter-se-ia de bom grado ocultado na obscuridade do hospital, porque a abnegação cristã procura a penumbra ao irrés da glória, anela o silêncio mais do que a ostentação.

Quais os meios de que se servirá a Providência para atingir os seus intentos? Paulo está, por obediência e em virtude de um voto, preso à cabeceira dos moribundos. Parece haver olvidado as promessas que Deus lhe fizera sobre a fundação do Instituto... Engano. Ele as tem bem presentes, mas, como o justo vive de fé, caminha às cegas por onde Deus o conduz, sabendo que lhe executa as obras por veredas ocultas e misteriosas.

Com efeito, de modo totalmente imprevisto transferiu Deus os dois irmãos de São Galicano para o monte Argentário.

Os servos de Deus adoeceram e a moléstia os foi minando paulatinamente a ponto de reduzi-los a extrema debilidade. Desejavam conservar-se fiéis aos compromissos assumidos, mas tiveram que ceder, porque os médicos declararam que o mal se agravaria, se continuassem a respirar o ar malsão do hospital.

Semelhante contratempo contristou bastante o cardeal Corradini, mas uma inspiração do Céu convenceu-o de que N. Senhor chamava os seus eleitos para propagarem a glória da Cruz. E sua eminência cedeu. De acordo com o cardeal Crescenzi, resolveu afastar todos os obstáculos e,, demais, auxiliá-los na medida do possível, no cumprimento do divino beneplácito.

Obteve do Santo Padre um Breve dispensando a Paulo e João Batista do voto de se consagrarem aos enfermos nos hospitais e permitindo-lhes celebrar pelo espaço de um ano, até serem provisionados de um BENEFÍCIO a cargo do cardeal protetor.

Mandou-os, pois, chamar e, embora inconsolável pela perda que teriam os enfermos, privados da caridade, ternura e abnegação sem limites dos santos irmãos, facultou-lhes dirigirem-se para onde Deus os convidava.

Durante o tempo da provação, Paulo ouvia no intimo da alma uma voz a bradar-lhe: "AO MONTE ARGENTÁRIO! AO MONTE ARGENTÁRIO...", enquanto que irresistível impulso o impelia a dedicar-se aos interesses da futura Congregação. Dizia mais tarde a venerável sacerdote

“ Quando N. Senhor deseja algo para sua glória, não cessa de estimular-nos até sua realização. Eu ia ocultar-me no hospital de São Galicano e o Senhor me fez sair dele à força de impulsos internos ” .

Tinha sempre presente a carta de d. Cavalieri, de santa memória. O douto prelado, ao saber do compromisso contraído com o cardeal Corradini a respeito do hospital de São Galicano, dissera-lhe claramente não serem esses os desígnios de Deus sobre eles. Eis as suas palavras

“ Tenho muita dificuldade em aprovar continueis no novo hospital de Roma. Estou certo de que essa incumbência é diametralmente oposta à vossa vocação e ao que nos tem inspirado N. Senhor... E' necessário esperar contra toda esperança: ”

“ Propior est nostra salus quam cum credidimus ”

“ Nossa salvação está mais próxima do que julgamos (Rom. 13, 11) ” .

“ Abraão, pai de nossa fé, enquanto sacrificava o filho, continuava a crer seria o pai de todos os crentes... N. Senhor, nos opróbrios da Cruz, glorificava ao Eterno Pai. O Pai, naqueles vexames, desejava a glória do Filho... Permanecei firmes e inabaláveis, apesar de todas as dificuldades... Eu mesmo não sei o que escrevi ” .

Estas proféticas palavras escrevia-as o venerável bispo sem lhes compreender o misterioso sentido. Eventos futuros encarregar-se-ão de patentear que foram inspiradas por Deus. X. Senhor, por vezes, conduz a seus eleitos por caminhos aparentemente contrários aos seus desígnios. E' que nas obras divinas o que se nos afigura revés é sempre ressurreição, porque Ele se compraz comumente em tirar a vida do próprio âmago da morte.

Paulo, a quem o Senhor dissera:

“ Serás pai de numerosa família de apóstolos ” ,

vai encerrar-se em obscuro hospital. Deus rompe, afinal, esse laço, pela voz do Papa, afastando o santo de São Galicano, após revesti-lo da autoridade sacerdotal, indispensável à fecundidade do apostolado, d paternidade das almas e à magna obra a que o destinara. E não são, por ventura, necessários ao apóstolo, para ser perfeito, o altar, o púlpito e o tribunal da reconciliação?

Com a permanência de Paulo no hospital de São Galicano, outros foram ainda os desígnios de Deus, ora claramente revelados.

O hospital, construído pelo Chefe da Igreja, é obra nascente. Necessita grangear desde o inicio a simpatia e a venerarão gerais. Além da glorificação da dor, é necessária a da santidade. E quem melhor do que Paulo, cujas virtudes deixarão ali eterna memória, poderá dar-lhe esse prestigio? Ademais, terá ali início a pequena Congregação dos CLÉRIGOS HOSPITALEIROS. Paulo da Cruz auxiliará a fundação. Ele lançará os fundamentos do espirito de caridade e sacrifício que deverá animá-la.

E não terá sua própria Congregação nestes exemplos eloqüente lição de caridade? O Passionista compenetrado do espirito do Instituto está sempre pronto a deixar o retiro para correr à cabeceira dos moribundos, como incessantemente recomendava o santo Fundador.

“ Se pelos nossos pecados, dizia ele, Deus enviasse a peste, desejaria ser o primeiro a sair da solidão, a fim de socorrer os pobres empestados, e fá-lo-ia, com a graça de Deus, até o derradeiro alento ” .

Na velhice, aos religiosos que lhe pediam permissão para ir ao hospital dizia com entusiasmo

“ Oh! que preciosa vinha é o hospital! Quanto bem lá se faz aos enfermos! Benditos sejais! Sim, ide servir àqueles pobres. Eu também iria de mui boa vontade, não fosse surdo e de saúde Mo abalada. Mas Deus não o quer e estou contente ” .

Paulo anelava deixar aos filhos a preciosa herança da sua caridade e abnegação para com os pobres.