COMO VIVIAM OS PRIMEIROS PASSIONISTAS

Essa habitação rústica e pequenina foi testemunha de acontecimentos extraordinários.

Nos altos das montanhas os rios são menos largos e majestosos que nas planícies; estão, todavia, mais perto do céu.

Os tempos heróicos das Ordens e Congregações religiosas são quase sempre os primórdios, tão humildes, tão pobres...

A vida admirável de Paulo da Cruz começou logo a reproduzir-se nos filhos. O Espirito Santo renovava no Argentário as maravilhas da Tebaida. Como o Fundador, os primeiros Passionistas vestiam grosseira túnica de lã preta; andavam sempre descalços e de cabeça descoberta. A alimentação era a mais frugal: legumes, hortaliças e, algumas vezes, peixe. Para maior mortificação eram esses alimentos cozidos sem tempero algum, até mesmo sem sal. E quantas vezes nada havia! Nossos cenobitas jamais pediam o que quer que fosse, satisfeitos com as espontâneas ofertas da caridade. Não se dispensavam do jejum nem aos domingos e festas de guarda. A rígida abstinência só se mitigava nas maiores solenidades: Natal, Páscoa, Assunção, etc. Nesses dias tomavam ovos e leite.

Colhemos esses pormenores dos lábios de um companheiro de Paulo, humilde irmão leigo. Seu testemunho singelo, confirmado com juramento, tem todas as caraterísticas da verdade. Ouçamo-lo:

“ À meia noite nos levantávamos e íamos à igreja. Os padres cantavam Matinas e nós rezávamos o terço ou outras orações. Terminadas as Matinas, fazíamos juntos, pelo espaço de uma hora, oração mental. Havia disciplina quatro vezes por semana. Em seguida, quem o desejasse podia descansar. Os demais aplicavam-se ao estudo ou a qualquer exercício útil. ”

“ De manhã, antes de clarear, retornávamos à igreja para Prima e Tércia. Ao divino Ofício seguia outra hora de oração mental; depois os padres celebravam a santa missa. Terminada a ação de graças, ocupavam-se por algum tempo, no quarto térreo, em ler e escrever. Dirigiam-se então separadamente para o bosque, cada qual com seus escritos. ”

“ Nós, irmãos leigos, ficávamos ocupados em outros trabalhos, como sejam: cuidar da horta, cortar lenha e cozinhar alguns legumes... ”

“ Cerca das onze horas voltavam todos à ermida e iam à igreja recitar Sexta e Noa. O almoço era às onze e meia, seguido de breve recreio. ”

“ Recitavam Vésperas e, tomando novamente os escritos, dirigiam-se para o bosque. A tardinha, regressavam para rezar Completas, fazíamos uma hora de oração mental, recitávamos o terço e, no inverno, havia uma hora de estudo. A seguir tomávamos parca consoada, porque o jejum era quotidiano, excetuadas as festas... ”

“ Em suma, era tal a vida de Paulo, que todos o consideravam austeríssimo penitente e anjo em carne humana ” .

João Orlandini, esse o nome do depoente, recebeu o santo hábito, mas não suportou vida tão austera por falta de saúde. O santo, por inspiração divina, disse-lhe

“ Filho, é evidente que você não pode continuar nesta vida. Se recuperar a saúde, recebê-lo-ei novamente... mas, não voltará mais, creia-me. Tema sempre a Deus, conserve-se em sua graça e lembre-se sempre do que lhe vou dizer: terá que carregar pesada cruz; leve-a com paciência e o Céu será seu ” .

“ Voltei, portanto, para Orbetello, para junto de minha família - acrescenta Orlandini - e tudo o que me disse o pe. Paulo na despedida se verificou e ainda se está verificando ” .

Era o santo Fundador a alma daquela humilde família religiosa; estimulava-a mais com o exemplo que com as palavras. Superava a todos no fervor, qual o painel de grande mestre que sobrepuja em beleza c perfeição as cópias elos discípulos.

Embora ocultasse ais penitências, algo transparecia e esse pouco eram verdadeiros prodígios. Adquirira completo domínio sobre si. Permanecias, por vezes, vários dias em absoluto jejum. Afirma-se nos Processos que chegou a ficar quarenta dias sem comer nem beber. Para mitigar a sede ardente que o devorava recorria à oração. Continuamente unido a Jesus Crucificado, fruía doçuras celestes, que lhe faziam olvidar as mais prementes exigências da natureza. Ordinariamente não repousava à noite, saindo às escondidas para ocultar-se numa gruta, nas vizinhanças da ermida. Era, todavia, o primeiro a chegar à capela para o canto de Matinas.

Para evitar singularidades, deitava-se por algum tempo na pobre e dura enxerga. Tinha por travesseiro tosca pedra, julgando em sua simplicidade, que ninguém o notara, exceto o confidente, de sua alma e êmulo nas virtudes, o pe. João Batista.

Durante o dia internava-se no mais espesso do bosque e, tendo somente a Deus por testemunha, orava e martirizava suas carnes inocentes. Alguns pastores ouviram certa vez estranho barulho de correntes. Era Paulo a bater-se impiedosamente nas costas desnudas com cadeias de ferro... Essa terrível disciplina ele a usava quase diariamente! Quando idoso, lançou-a numa fossa, exclamando:

“ Assim ninguém terá a tentação de usá-la ” .

Outra feita, notou certo caçador alguns espinheiros agitarem-se violentamente. Julgando tratar-se de javalis, armou a espingarda, deu mais alguns passos e... assombrado, viu o santo a revolver-se, todo ensangüentado, nos espinhos...

Afirmou o pe. Fulgêncio de Jesus que muitas mortificações praticadas por Paulo só as conheceremos no juízo universal. O heroísmo de suas penitências apenas encontrava paralelo em sua profundíssima humildade. Julgava-se o último e mais miserável dos homens. Escrevia

“ Aqui louvam a Deus dia e noite. E eu? ai de mim!... Vir pollutus labiis ego sum (Is. 6,5): Sou um homem de lábios impuros ” .

Esse baixo conceito de si fazia-o lançar-se freqüentemente aos pés dos religiosos e implorar, com lágrimas nos olhos, o auxílio de suas orações. Deitava-se, por vezes, à porta da casa para ser pilado como o mais vil dos mortais.

Esperava da Providência os recursos necessários para o aumento da ermida, quando Deus inspirou a um benfeitor de Portércole levar a cabo a santa empresa. Regozijou-se Paulo no Senhor. Já antevia a pequena habitação transformada em grande retiro, seminário fecundo de homens apostólicos. Isto lhe foi de muito estímulo para prosseguir os trabalhos em prol da Congregação.

Esperava que Clemente XII, sucessor de Bento XIII, falecido a 21 de fevereiro de 1730, continuasse a favorecer o Instituto, notadamente com a aprovação das Regras. Escreveu a respeito a mons. Crescenzi. Este, congratulando-se com ele pelo aumento da família religiosa, acrescentava:

“ Folgo em servi-los e auxiliá-los em obra de tanta importância. Entreguei sua carta ao cardeal Corradini, que muito se edificou com ela. Sua eminência está disposto também afazer quanto dele depender... ” .