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Teremos ocasião de contemplar, em todo o seu esplendor, o apostolado de Paulo da Cruz.
Vimos apenas o prelúdio.
O Fundador conta trinta e seis anos; trabalhará ainda pelo espaço de quarenta anos na
conquista das almas. Jamais deixará de anunciar Jesus Crucificado, no alto das montanhas,
no profundo dos vales, em pleno mar, às margens dos rios, nas cidades populosas, nas
humildes aldeias, lios hospitais, nos cárceres, nos patíbulos, nos canil de batalha, em meio
aos empestados, bem como às virgens esposas de Cristo e aos sacerdotes do Senhor. Em
suma, onde quer que haja unia alma a salvar, pecadores a perdoar e corações a inflamar no
santo amor de Deus.
Nada o deterá no ardor de seu zelo: nem os calores do sol nem as geadas, as tempestades, o
ódio dos homens, o furor do inferno, as enfermidades, o peso dos anos. Sempre debilitado e
reanimado sempre por novo vigor, assinalará as pegadas com o próprio sangue e cada passo
será em beneficio das almas, para glória de Deus, para triunfo da Igreja.
Para descrever essa inumerável messe de almas, fora mister muitos volumes. Referiremos
aqui apenas o necessária para nos dar a conhecer a vida do santo apóstolo.
O snr. bispo de Soana sofria ao ver a diocese contaminada por pessoas de péssimos
costumes, por malfeitores de toda espécie, vindos dom Estados limítrofes, acossados pela
policia. Quem conseguirá comover esses corações empedernidos, reformar-lhes ore
costumes e levá-los para Deus? Os apóstolos do Argentário... Esta a inspiração do prelado.
Sabia por experiência possuírem ambos a ciência dos santos e o Espirito do Senhor.
Ao apelo do snr. bispo, abandonam o deserto para, à imita de João Batista, o precursor,
pregar a penitência, e, como o grande Apóstolo das gentes, anunciar Jesus Crucificado.
Sua presença era já a mais eloqüente das práticas. A túnica ou, melhor, o cilicio, os pés
descalços, a austeridade da vida, aquela santidade atraente e grave ao mesmo tempo, aquelas
palavras partidas de corações em chamas, eram luz para as inteligências, força para a
vontade, bálsamo para os corações. Os alais obstinados pecadores caíam, vencidos, a seus
pés...
O snr. bispo não cabia em si de contente, bendizendo a Bondade divina. Em dezembro de
1730 mandou-os pregar a santa missão em Talamona, outrora famoso porto da república de
Sena, então pequena cidade de mil habitantes.
Eloquência e unção se aliam nos sermões dos humildes missionários. O auditório está
suspenso desde as primeiras palavras. E passa da admiração ao estupor, do estupor ao
entusiasmo. Paulo no estrado parece transfigurado. Raios de luz jorram-lhe do rosto. E' Jesus
que fala pelos lábios de seu apóstolo. Fervor universal, emoções profundas e duradouras,
reforma dos costumes, abundantes graças do Céu... eis os frutos dessa missão.
Certo dia, falava o santo a imenso auditório sobre os suplícios eternos, quando uma jovem
entra na igreja.
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“
Oh! tu - exclama com ênfase - oh! tu que não podes suportar uma dor de
dente, como poderás suportar os tormentos do inferno, merecidos pelos teus pecados!
”
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A jovem sofrera a noite toda forte dor de dente... Interpelação tão singular, com aquele olhar
a penetrar-lhe o âmago da alma, comove-a profundamente. Terminado o sermão, ei-la aos
pés de Paulo. Faz confissão geral, renuncia às vaidades do mundo e consagra-se a Deus pelo
voto de virgindade. Chamava-se Inês Grazi e pertencia a uma das mais distintas famílias de
Orbetello, quer pela posição social como pelos bens de fortuna. Embora não fosse má, era
demasiado inclinada às diversões e pompas mundanas. Viera à casa, de campo para
entregar-se a frívolas distrações e descobriu as castas alegrias de rins coração todo entregue
ao puro amor de Deus. Possuía alma nobre s• generosa, chamada por N. Senhor a alta
perfeição.
Inês, desde então, considerou como pai quem a gerara em Cristo. Adotou-a Paulo por filha
espiritual, jamais cessando de cultivar para o Céu aquela flor do Calvário. Veremos corno
Inês será o instrumento de valiosa obra do santo Fundador. Permita explicar aqui por que
caminho Paulo a conduziu a eminente santidade. Ouviremos, após ter ela voado para o céu,
os elogios que o servo de Deus tece a essa alma de escol.
O primeiro cuidado do santo diretor foi traçar-lhe as linhas mestras de uma regra de vida,
que abrangesse todas as horas do dia. Nesse regulamento, destinado a uma jovem da alta
sociedade, depara-se-nos a escola de são Francisco de Sales: a doçura, a suavidade, a
discrição, a liberdade de espirito, juntamente com algo de grave e austero.
Vamos transcrevê-lo para utilidade das almas
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“
1 - Pela manhã, ao levantar, uma hora de meditação; a seguir, a Comunhão espiritual.
2 - Possivelmente assista a santa missa.
3 - O tempo que restar até o almoço, empregue-o no trabalho, mas com o espirito unido a
Deus, em santo silêncio. Responda com amabilidade, graça e caridade aos que a
interrogassem.
4 - Meia hora antes do almoço leia alguma coisa e, se possível, recolha-se aos pés do
Crucifixo pelo espaço de um quarto de hora mais ou menos.
5 - Coma em paz, observando discreta mortificação.
6 - Depois do almoço recreie-se em companhia dos demais, sempre, porém, toda doçura e
caridade.
7 - Trabalhe até o pôr do sol aproximadamente, com o espírito unido a Deus. Prepare-se
então para a oração mental, que durará uma hora.
8 - Jante e tome pequeno recreio. Retire-se em seguida, faça o exame de consciência, a
leitura espiritual, a oração da noite e vá repousar.
9 - Recomendo-lhe a presença de Deus, fonte de todo bem.
Que Deus a abençoe
”
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Este regulamento Paulo o explicava nas conferências espirituais e nas cartas que lhe
escrevia. Quem desejar conhecer a direção dada pelo santo a esta alma eleita, leia as 165
cartas que ainda se conservam. Em pouco tempo elevou Paulo esta alma generosa e dócil,
pela Paixão do Senhor, ao cume da divina contemplação. E' que o Calvário é O CAMINHO
RÁPIDO DA PERFEITA SANTIDADE.
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“
Faça, dizia-lhe o santo, um pequeno ramalhete dos sofrimentos de Jesus e conserve-o no
âmago da alma. De tempos a tempos tenha algum colóquio intimo com o Redentor sobre
qualquer passo doloroso da Paixão, por exemplo: Oh! Jesus, meu sumo Bem! contemplo o
vosso rosto lívido, inflamado, coberto de escarros! Oh! meu dulcíssimo Amor! como vos
vejo todo ferido!... Ah! queridas chagas! desejo guardar-vos sempre no coração
”
.
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Instruindo-a como deve o cristão renunciar a si para seguir fielmente a Cristo, dizia-lhe
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“
Ditosa a alma que se desapega do próprio juízo e do próprio espírito! Profunda lição é esta!
Nosso Senhor lha fará compreender, se a senhora puser seu contentamento na Cruz de Jesus
Cristo e na morte de tudo o que não seja de Deus
”
.
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Ensinando-lhe a amar os inimigos em Jesus, após recomendar-lhe sincera cordialidade para
com eles, acrescenta.
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“
Pratique ao mesmo tempo algum ato interior de caridade, mas com ternura. Por exemplo:
Oh! almas queridas de Jesus! eu vos amo no Coração de Jesus! eu vos amo no Coração de
Jesus, ardente de amor por vós; ó almas benditas, amai por mim o querido Amor, etc.
”
.
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Na semana santa, escrevia-lhe:
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“
Querida filha em Jesus Crucificado, convido-a a subir ao Calvário, para assistir os funerais
de Jesus, nosso Amor. Oxalá, quedássemos ali feridos pela divina caridade, até morrer de
amor e de dor, chorando a Paixão e Morte do nosso verdadeiro Bem! Durante estes santos
dias celebrarei os divinos ofícios, colocando o coração da filha que Deus me deu nos
Corações puríssimos e agonizantes de Jesus e Maria. Faça o mesmo com o coração do pobre
pai que a divina Providência lie concedeu.
”
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“
Adeus, minha filha. Que Deus a abençoe e a abrase no seu santo amor
”
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A piedosa virgem, fiel até a morte, foi o mais precioso fruto da primeira missão de Paulo em
Talamona. Alguns afirmam ter sido Inês Grazi conquistada para a graça na Missão de
Orbetello. Note-se, porém, que são Paulo da Cruz já lhe escreve como a pessoa muito
conhecida desde 30 de dezembro de 1730.
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