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Em Satúrnia, vetusta aldeia da diocese de Soana, embora o povo retornasse a Nosso Senhor,
sangrava o coração do apóstolo pela penitência de um pecador público, chefe de uma
quadrilha de ladrões, temido por sua ferocidade, rapinas e homicídios. Ademais, esse
homem vivia em público concubinato. O mal parecia incurável em coração tão corrompido,
tanto mais que não ouviria a palavra divina, destruidora do crime...
Como aproximar-se daquele sanguinário, sem expor-se ao perigo de morte?
Os santos não temem a morte em se tratando da glória de Divina e bem das almas. Paulo,
embora todos se esforçassem por dissuadi-lo, dirigiu-se à casa do facínora. Este, armado,
saiu-lhe ao encontro, perguntando com arrogância e irritação:
O santo, tomando o Crucifixo que levava ao peito, respondeu-lhe
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“
Que afaste de sua casa aquela infeliz
”
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“
Mas, padre, não há nisso mal algum!
”
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“
Ordeno-lhe que a mande embora
”
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Tais palavras foram como raios a abrandar o furor do celerado.
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“
Quando devo despedi-la!
”
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replicou o apóstolo.
Deus tocara a alma do pobre pecador.
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“
Sim, meu padre, eu o farei; mas depois me ouvirá em confissão?
”
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“
Pois não, meu filho, - respondeu o terno pai, estreitando-o nos braços e banhando-o de
lágrimas - eu o confessarei, consolá-lo-ei e será feliz
”
.
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De concerto com o pároco, Paulo internou num abrigo a infeliz mulher. O lobo, com
admiração e contentamento geral, transformou-se em manso cordeiro; o escandaloso, em
humilde penitente,
Repercutiu essa conversão por toda aquela paragem. Grande temor, no entanto, inquietava a
muitos. Não estariam irritados com Paulo os ladrões, pela conversão do chefe? Não se vinga
iam? O apóstolo nada temia; sua confiança repousava em Deus.
Terminada a missão, dirigia-se para Manciano, quando, ao atravessar extensa e solitária
campina, ouve fortes latidas de cães. Levantou os olhos e viu ao longe, em atitude de quem
edita planos sinistros, numerosos ladrões, armados até os dente e rodeados daqueles animais
amestrados em sua arte.
Era precisamente a quadrilha do ladrão convertido. Ao terem conhecimento do que sucedera
ao chefe, estavam à espera da missionário.
Paulo julgou-se perdido.
Bem diversas, porém, eram suas intenções. Aproximaram-se respeitosos e saudaram o servo
de Deus. Aqueles homens, conhecedores perfeitos da perversidade do chefe, mais do que
ninguém se impressionaram com aquela conversão e, somente podendo atribui-lo ao poder
de um santo, desejavam vê-lo, conhecê-lo e venerá-lo.
Encorajado pela acolhida inesperada, começou a falar-lhes de Deus e dos interesses da
alma. Suas palavras penetravam-lhes insensivelmente nos corações. Para ouvi-lo por mais
tempo acompanharam-no até as vizinhanças de Manciano.
Esse encontro não foi inútil. A boa semente lançou raízes naqueles corações e, regadas pelas
orações do santo, não tardaram a produzir frutos.
Dias depois, ao deixar Paulo Manciano, encontrou novamente
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“
os seus queridos ladrões
”
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que lhe suplicaram os ouvisse em confissão. Reconciliados com Deus, obtiveram perdão das
vitimas de seus crimes e da justiça humana, que havia muito os perseguia!
Naquela época os tribunais civis absolviam facilmente os criminosos que o rigor das penas
não conseguia regenerar, mas que o desvelo maternal da Igreja reabilitava pelo
arrependimento.
Contente por tantas conquistas, recolheu-se o apóstolo aos pés do Crucifixo para haurir
novas forças.
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