INAUGURAÇÃO DA PRIMEIRA IGREJA DO INSTITUTO

Não fora vã a confiança de Paulo. Como por encanto, as tribulações se converteram em alegria.

Não chegara a carta a Roma e, por ardem de Clemente XII, com data de 31 de agosto de 1737, expedia-se um Breve em que se facultava ao eminentíssimo abade delegar a quem lhe aprouvesse para benzer solenemente como oratório público a nova igreja erigida pelos dois sacerdotes Dánei no Monte Argentário.

“ Na mencionada igreja, sem prejuízo dos direitos paroquiais, administrar-se-ão os sacramentos e realizar-se-ão quaisquer outras funções eclesiásticas ” .

Eis a origem do privilégio: Na, festa da Assunção, sempre celebrada por Paulo com terníssima piedade, escreveu a mons. Crescenzi e, como se sói dizer, derramando o coração no peito do amigo, referia-lhe as tribulações que o oprimiam. O prelado, de concerto com o cardeal Corradini, obteve da Santa Sé a suspirada mercê.

O cardeal Altieri, ao receber o Breve Pontifício, como tinha em vista apenas a glória de Deus, considerou-o prova manifesta da divina bondade. Sem mais expediu ordem ao vigário geral, Moretti, para benzer a igreja.

Convém saber que o cardeal sempre estimou os missionários do Monte Argentário e a partir de agora trata-los-á com toda benevolência. Justa reparação aos sofrimentos que, involuntariamente, lhes causara, deixando-se enganar pelas calúnias dos detratores.

Também em Orbetello e lugares circunvizinhos, as coisas mudaram de feição. O comando das guarnições fora confiado ao general Carlos Brom, católico fervoroso, que se mostrou zeloso defensor do santo perseguido.

Intimidados, relegaram os adversários as perseguições.

O povo, arrependido, ardeu em desejos de assistir a inauguração da igreja que, erigida no flanco da montanha parecia desprender-se dos bosques de azinheiras para, de longe, convidar as almas à oração e elevá-las docemente para Deus.

Foi escolhido para a solenidade o dia 14 de setembro de 1737, festa da Exaltação da Santa Cruz.

Desde o raiar da aurora inúmeras barquinhas sulcavam o lago, conduzindo os romeiros à margem oposta. Era de ver aquelas alturas coalhadas de povo provindo de Orbetello e das localidades vizinhas, à espera do ato inaugural! Para realce da solenidade, lá estavam os magistrados da cidade, o general Brom com a oficialidade espanhola. A banda militar tocava hinos religiosos, cujos acordes repercutiam pelas quebradas da montanha...

Chegou, enfim, o vigário geral com o clero. Enfiou na igreja e revestiu-se dos paramentos sagrados. O santo Fundador, de corda ao pescoço, alçando o glorioso estandarte da Cruz, dirigiu. se do convento para a igreja, seguido de oito filhos seus, quatro sacerdotes o quatro irmãos leigos. Descalços, graves e modestos, patenteavam aos rostos macilentos, a par de celestial serenidade, o estigma de heróicas penitências. De seus lábios evolavam-se para o alto hinos ao Senhor.

Recebidos à porta pelo clero, ingressaram no templo e iniciou-se a bênção solene do santuário, sob o título de Nossa Senhora da Apresentação.

Celebrada a santa missa com todo o esplendor do culto, proferiu o venerável apóstolo comovente sermão. Todos estavam emocionados, inclusive Paulo.

Outras consolações Deus lhe reservara.

O leitor certamente se lembrará do memorial enviado à sagrada Congregação dos Bispos e Regulares para a permuta da propriedade eclesiástica, contígua à ermida. Pois bem, o snr. cardeal abade, que desde o Breve de Roma se tornara um dos maiores benfeitores dos religiosos da Paixão, tudo fêz para que se obtivesse aquele favor. Teceu-lhes os mais entusiásticos elogios. Chama-os de

“ sacerdotes zelosíssimos que, de há muito, com contínuas e ingentes fadigas, trabalham no serviço de Deus e bem das almas ” .

Fez questão de presenciar a assinatura do contrato firmado ata casa consistorial de Orbetello. Estava também presente o tesoureiro de Sua Majestade, que mandou fosse lido o decreto real, gelo qual se outorgava aos sacerdotes Paulo e João Batista Dánei e aos seus companheiros licença de colher lenha nos terreno pertencentes à Coroa. Esse decreto fora obtido sem que Paulo o soubesse.

Meses antes doara-lhe o general uma fanga de terra a cavaleiro da planície e da encosta da montanha. Esse terreno, unido à propriedade eclesiástica do Sitio de Santo Antão, formava encantador recinto circundado de bosques e mais um jardim enriquecido de límpido regato.

Paulo não estava, todavia, plenamente satisfeito. Algo lhe faltava: conservar na nova igreja o ss. Sacramento.

Escrevia a um seu penitente, mais tarde santo Passionista:

“ Meu querido amigo, o retiro está completamente terminado; as celas estão prontas. Só resta adornar um pouco a igreja para poder receber condignamente o ss. Sacramento. Ó meu Deus! Uma hora me parece mil anos, enquanto não vir em nossa igreja o meu Amor eucarístico. Quando poderei, nas horas de profundo silêncio, orar ao pé do santo altar? Quem me dará asas de pomba para voar ao Coração sagrado do meu Jesus ” .

Penou muitos anos à espera dessa suprema ventura, confiando sempre poder um dia ter sob o seu teto o Deus do Tabernáculo. Esmerava-se em adornar e embelezar a igreja, muito embora não pudesse enriquecê-la como desejava.