NAS CULMINÂNCIAS DA MÍSTICA

Numa festa da Apresentação, ignoramos o ano, o bem-aventurado, recebeu do divino Esposo das almas soberana prova de amor.

Antes de referi-lo, elevemos a Deus o espirito e o coração.

Para significar a união com a alma fiel, toma Deus na sagrada Escritura o nome de Esposo:

“ Desposar-te-ei para sempre... na fé ” ;

disse pelo profeta Oséias (11,20). Essa promessa cumpriu-a o Verbo divino, desposando-se com a natureza humana pela Incarnação. Eis por que é Jesus chamado o Esposo e a Igreja a Esposa.

“ Desposou-se com a natureza humana que lhe era estranha, exclama Bossuet, e fê-la uma só coisa consigo. Desposou-se igualmente com a santa Igreja, esposa imortal e imaculada. A Igreja desposa-se por sua vez com as almas santas, por ela atraídas à sociedade de seu reino e, mais, de seu tálamo régio, cumulando-as de dons e castas delicias, delas gozando, entregando-se a elas, dando-lhes tudo o que tem e tudo o que é: o corpo, a alma, a divindade, e preparando-lhes na vida futura uma missão incomparavelmente superior (Bossuet, Oitava Elevação, semana 24) ” .

Nosso Senhor desposa, portanto, todas as almas justas, pela fé e caridade que o Espirito Santo lhes derrama nos corações. Contrai união conjugal, mais estreita e sublime, com certas almas privilegiadas, de pureza sem mácula, inteiramente suas, às quais se compraz em abrir todos os tesouros do seu infinito amor: sagradas e inexplicáveis bodas!

O Verbo divino, pela efusão da eterna luz, enaltece a alma à mais sublime contemplação e a inunda dos dons do Espirito Santo. E' este, na vida presente, um dos mais elevados graus da união da alma com Deus. A esposa, unindo-se ao celeste Esposo, nele se transforma e, a Ele unida espiritualmente, exclama: Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim!

Ao voltar a si do êxtase nupcial, ela conserva profunda impressão dos altos conhecimentos recebidos e das puras alegrias que a inebriaram, sem encontrar, contudo, imagens e expressões adequadas para descrevê-los.

“ Vi e ouvi - pode ela dizer com o grande Apóstolo - coisas tão misteriosas, que é impossível à linguagem humana referi-las (II Cor. 12, 4) ” .

Por vezes, adaptando-se às nossas faculdades, que do sensível se elevam ao inteligível, Deus dá à alma simbólica manifestação dos esponsais contraídos. Foi o que sucedeu a são Paulo da Cruz no dia da Apresentação.

Orava, todo absorto em Deus, quando resplandecente luz o deslumbrou. Circundada pelos resplendores da glória imortal, apareceu-lhe a Rainha do Céu com o Menino Jesus nos braços, acompanhada de luzente falange de anjos e santos de sua maior devoção, como sejam: são João Evangelista, o apóstolo são Paulo, são João da Crus, santa Teresa, santa Isabel, santa Maria Madalena de Pazzi e outros.

Tomado de soberano respeito, prostrou-se com o rosto em terra em profunda adoração. Uma voz de inefável doçura convidou-o a celebrar a mística união com o Verbo divino. O humilde Paulo não respondia palavra. Abismado no seu nada, considerava-se indigníssimo desse favor.

Então, alguns daqueles santos se lhe aproximaram, levanta do chão e o apresentaram à augusta Mãe de Deus. Maria, fitando-o com ternura maternal, entregou-lhe preciosíssimo anel, em que estavam insculpidos os instrumentos da Paixão. Disse-lhe a divina Mãe que aquelas bodas deviam recordar-lhe incessantemente os sofrimentos e o amor de Jesus para com ele.

O divino Infante, em confirmação das palavras da Mãe SS., colocou-lhe no dedo o anel sagrado. E a visão desapareceu.

Deixou, no entanto, na alma de Paulo impressão tão viva que, ao referi-la no último ano de vida, os soluços embargavam-lhe a voz.

Quem jamais poderá descrever os tesouros de graças que essa união espiritual com o Verbo de Deus trouxe à alma do santo? E foi penhor de outras assinaladas mercês com que o cumulou

“ o terno, apaixonado e transformado Esposo, cujo amor se manifesta por inauditos efeitos ” ,

como teremos ocasião de referir no decorrer desta história...