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Mas a maior recompensa desses ingentes trabalhos era a Cruz, sempre a Cruz, porque sem
ela jamais poderá o apóstolo associar-se a Cristo na redenção das almas. No entanto, neste
ponto da nossa história, a Cruz que lhe pousou aos ombros foi das mais pesadas, e o cálice
que sorveu, dos mais amargos. Viu-se submerso num oceano de tribulações internas e
externas.
E' certo que no termo da via dolorosa vemos resplandecer, com iluminações celestes, as
alegrias puras da caridade, mas, atualmente, densas trevas o envolvem; nem um raio sequer
de luz vem minorar-lhe as excessivas dores.
Por mais que fizesse não conseguia a aprovação das Regras.
Com razão a santa Igreja tem como verdadeiro milagre a fundação de um Instituto religioso.
Que de provações e angústias por parte dos homens, de satanás e do mesmo Deus! Que
inquebrantável constância não se faz necessária! Pode-se dizer, sem exagero, que, se a obra
não for de Deus, naufragará infalivelmente.
Contudo, se tão sólida há, de ser a pedra angular, não menos firmes devem ser as que se hão
de colocar nos alicerces como sustentáculo de um edifício, cuja cúpula tocará o Céu.
Deus não se apressa, por ser eterno, mas os homens que não possuem confiança sem limites e
força de vontade a toda prova esmorecem e retrocedem. Necessita o fundador, como base
primeira de sua grande obra, de heróis na fé e no amor.
Confia no Senhor, confia, hoje, confia sempre.
Esta profunda sentença do profeta Isaías (28, 10-13) dá-nos a chave dos insondáveis
caminhos da Providência.
Todavia, tão dilatada demora desanimou a dois dos companheiros de Paulo, respeitáveis
sacerdotes, esperanças fagueiras de Instituto.
Mas quem não sabe morrer não sabe também viver. Em todo sacrifício há morte e, em
seguida, ressurreição.
Com o retorno desses sacerdotes ao século, originaram-se novas perseguições. Os inimigos,
sempre à procura de pretextos para combater a Congregação, aproveitaram o ensejo para
difamá-la, como só a paixão sabe fazê-lo.
Diziam:
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“
Isto é absurda aglomeração de austeridades impraticáveis e Roma o reprovou. O
retiro em breve ficará desabitado
”
.
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Os afiados dartos dirigiram-se particularmente contra o santo Fundador.
Idearam terrível trama para destruir ü humilde Instituto. Um jovem florentino, de nobre e
poderosa família, solicitou o santo hábito. Seu ar de piedade enganou o venerável Fundador.
Era, um traidor enviado por homens tão perversos como ele, para semear a cizânia entre os
servos de Jesus Cristo..
Paulo não tardou a descobrir a malícia do hipócrita e, sem respeito humano, expulsou o lobo
do aprisco.
Esse ato de santa energia serviu de pretexto às calúnias mais soezes. Chegaram a tal extremo
as coisas, que o servo de Deus julgou prudente, para não ser ocasião de pecados, não mais
aparecer de dia na cidade. Quando a necessidade o obrigava, fazia-o à noite, como
criminoso digno de repreensão pública.
Estranha. explosão de ódio, que causará espécie a quem ignora as insondáveis dobrezes do
coração humano!
Na Verdade, como conciliar a perseguição com as excelsas virtudes do santo e com os
prodígios por ele operados? E' que nesse primeiro Passionista vivia o grande Mártir do
Calvário...
Não dera o Salvador vista aos cegos, não ressuscitara os mortos?... E a mesma plebe que
presenciara os milagres não chegou ao ponto de exigir-lhe a morte?
Mas, já o dissemos, em todo sacrifício, após a morte há ressurreição.
Jesus passou dos opróbrios á glória; em Paulo da Cruz resplandecerá, no teatro de suas
humilhações, em Orbetello, a mais refulgente auréola que possa coroar a fronte do apóstolo.
Por agora é mister tragar até as fezes o cálice da amargura.
Deus é soberanamente cioso de suas obras. Parece por vezes deixá-las perecer, para, em
seguida, elevá-las bem alto, a fim de que se saiba ser Ele seu único autor.
Maneja assim a debilidade humana para sua glória, sem expô-la aos enganos do amor
próprio. Quanto mais excelsa é a obra que lhe apraz construir por intermédio do homem,
mais este sente a sua insuficiência e miséria. E do remate à base aparecerá unicamente a
poderosa mão de Deus.
Qual o marinheiro, que, ao ver sua embarcação batida pela tempestade e desesperado dos
auxílios da terra, volve ao Céu os olhares e tem corno resposta apenas os clarões do raio,
assim Paulo da Cruz, ao contemplar a humilde Congregação combatida pelas conspirações
do ódio, volta-se para Deus, parecendo-lhe que Deus repele e o abandona a ele e à
Congregação!...
Na Capela da SS. Trindade de Gaeta, apresentara-se-lhe um Anjo com uma Cruz de ouro e
Deus lhe dissera interiormente:
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“
Apraz-me fazer de ti outro Jó
”
.
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Efetivamente, o estado atual
do nosso santo, os brados lancinantes de sua alma relembram-nos o patriarca da Iduméia.
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“
Meus enormes pecados precipitaram-me na mais lastimosa miséria. As perseguições, as
murmurações e as calúnias dos homens, que abraço de boa vontade para abater o meu
orgulho; a espantosa guerra suscitada pelos demônios e, o que é mais terrível, o tremendo
açoite do Altíssimo... eis o inferno que sofro. Suspiro apenas por uma boa morte, pelos
méritos da sacratíssima Paixão de N. S. Jesus Cristo...
”
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Notem-se as últimas palavras; eram furtivos clarões em meio da noite tenebrosa. Tudo
voltará às trevas. E Paulo prossegue:
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“
Sim, estou persuadido, antes, certo de que a divina Majestade não aceita a obra que eu
julgava deveria realizar-se e a respeito da qual Deus me dá sinais demasiado palpáveis.
Prevejo para breve a destruição do convento e serei açoitado com golpes tão terríveis, a
ponto de me causarem a morte. Deus manifesta-me claramente sua náusea e me faz conhecer
que não deseja servir-se desta pérfida criatura. Espero, todavia, a salvação de minha alma;
pelos méritos infinitos da ss. Paixão de N. Senhor
”
.
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Com razão se tem relevado que
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“
o fundo
de espiritualidade de são Paulo da Cruz é a participação à Paixão de Nosso Senhor e a união
com Cristo sofredor (M. Viller, em Revue de Ascetique et de Mystiques 1951, p. 133)
”
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Julgamos que em nenhuma outra carta como nesta aparece melhor quanto o nosso, santo
participou das dores de Jesus. Sem dúvida causa espanto a terrível provação por que passou,
principalmente se se refletir que durou cerca de 45 anos. O pe. Garrigou-Lagrange, em seu
artigo Nuit de l‘esprit reparatrice en Saint Paul de la Croix, dá uma boa explicação, dizendo
que, nos místicos, além da provação purificadora, há outrossim a reparadora. São Paulo da
Cruz, mais que para se purificar, sofre com Jesus para expiar as culpas alheias.
Ó Paulo da Cruz, e as promessas de N. Senhor e da divina Mãe?! Já vos não recordais das
celestes aparições, que tanta segurança vos causavam?!
O santo não as olvidara, mas julgava ter-se tornado indigno delas por seus pecados. Prova
de sua infidelidade era o abandono de Deus, abandono de amor, por ele considerado
abandono de cólera.
Não lhe faltava a confiança, mas nele devia resplandecer a humildade.
Quando Deus deixa o FUMO DO POÇO DO ABISMO (Apoc. 9, 2), isto é, o lodo da
natureza decaída, se eleve à parte superior do homem, até a alma do santo se vê obscurecida
e como envolta em trevas. Percebe tão somente as chagas da primeira queda.
Embora pura como a luz meridiana, ela se crê coberta de todas as máculas. E' o velho Adão
a agitar-se, pois ele jamais perece completamente aqui na terra nem mesmo nos santos.
A indiferença existente entre os santos e os pecadores é que estes deixam crescer o germe
original da morte, ao passo que aqueles tenazmente o combatem, extirpando-lhe
continuamente os rebentos.
Sem este conhecimento da natureza humana, ser-nos-ia incompreensível a linguagem dos
santos e o estranho apreço que fazem de si, chamando-se e considerando-se grandes
pecadores, não obstante a santidade de vida.
Todavia, nessa aparente crise de desesperação, conserva-se, ao âmago da alma, por vezes
desconhecido, o único e supremo laço de confiança.
Paulo termina as sentidas lamentações com esta expressão:
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“
Espero que N. Senhor me há de salvar pelos méritos de sua sagrada Paixão e Morte
”
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As cruéis agonias que o martirizavam, ele as guardava no coração, ocultando-as aos filhos.
Dizia-lhes:
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“
Irmãos meus, pratiquemos o bem e abandonemo-nos nos braços da divina Providência.
Deus é nosso Pai
”
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Nova mágoa vem ferir-lhe o coração. Mons. Crescenzi ausentar-se-á de Roma. Perderá o
santo o ativo auxiliar, que empregava sua poderosa influência em prol do amigo.
Aos seis de fevereiro de 1740, falecia Clemente XII. Por seis meses permaneceu vacante a
Sé Apostólica, prolongando-se assim as provações do santo Fundador. Para cúmulo de
males, abatido por sofrimentos morais e esgotado pelos trabalhos apostólicos, caiu Paulo
gravemente enfermo. Esteve às portas da morte. Quando tudo parecia perdido, apareceu-lhe
a SS. Virgem e o animou com as seguintes palavras:
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“
Meu filho, nada temas. Tudo tem corrido bem. Esforça-te por multiplicar os retiros e
governá-los como até agora o tens feito. Continua a pregar as santas missões e a confessar os
pecadores, porque isto agrada muitíssimo ao meu divino Filho
”
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