CAPÍTULO III

1715 - 1719


CRESCENDO SEMPRE EM FERVOR

Transferindo-se com a família para Castellazzo, o soldado de Cristo recomeçou todos seus exercícios de piedade, esperando que a Vontade de Deus lhe manifestasse qual a sua vocação. Desde esse instante se entregou de vez à contemplação dos tormentos do Redentor, envidando todos os esforços por identificar-se com este divino modelo, mediante a mais rigorosa mortificação.

Raras vezes dormia no leito. Teresa, sua irmã, notou-o e, desejando esclarecimentos, dirigiu-lhe algumas perguntas a respeito. Paulo, que desejava somente a Deus por testemunha, nada respondeu. No entanto, a irmã, que o vira subir muitas vezes ao sótão com João Batista, suspeitou lá passassem a noite. E, ambos ausentes, lá deparou com umas tábuas e sobre elas alguns tijolos e um crucifixo. Foi o que declarou com juramento no processo de beatificação.

Outra testemunha também asseverou que Paulo dormia muito pouco e sobre tábuas nuas, com tijolos por travesseiros, meditando em tal maneira, sem interrupção, os cruéis tormentos de Jesus Crucificado.

Após breve e torturante descanso, levantavam-se ambos, até ao mais rigoroso inverno, para entregar-se à contemplação do Sumo Bem.

A meditação inflama o amor e com o amor nasce o desejo de assemelhar-se ao objeto amado. Com a Cruz em uma das mãos e na outra o instrumento de penitência, Paulo oferecia a Deus seu corpo, como hóstia viva, ao gravar nas carnes as chagas de Jesus. Certa vez a mãe teve ocasião de ouvir, em meio das trevas da noite, o ruído espantoso e lúgubre do instrumento de penitência e o narrou depois, soluçando, à filha.

Também o pai os surpreendeu um dia, quando se feriam cruelmente com correias de couro, e não pôde deixar de exclamar:

“ Vocês querem se matar? ”

Tão grande era o ardor que estimulava o nosso santo na prática da penitência, que João Batista, embora mui fervoroso, teve inúmeras vezes de arrancar-lhe das mãos o açoite. Quase sempre antecipava a hora de levantar e, sem fazer ruído, para não despertar o mano, entretinha-se com Deus em altíssima contemplação. Às sextas-feiras mais rigorosas eram as penitências e mais austero o jejum. Contentava-se de uma fatia de pão, que mendigava de joelhos, banhando-o com abundantes lágrimas. A bebida, diz-nos testemunha ocular, consistia numa mistura de fel e vinagre. A irmã, que já o suspeitara, surpreendeu-o certa vez com o fel nas mãos, perguntando-lhe, aflita:

“ Que vais fazer com isto? ”

O jovem guardou silêncio, lançando o conteúdo em pequeno frasco, que se esmerava em esconder. Quando Paulo deixou o lar paterno, certo dia Teresa, ao varrer a casa, bateu no frasco com a vassoura e o quebrou.

“ Coisa admirável ”

diz são Vicente Strambi,

“ apenas quebrado o vaso, difundiu-se pela habitação estranho perfume, que surpreendeu a todos. A piedosa irmã recolheu os fragmentos, examinou-os com atenção e notou que ainda estavam impregnados do fel que o servo de Deus ai guardara. Levou um fragmento a uma de suas tias, Rosa Maria, irmã corista no convento de Santo Agostinho, que também se, inebriou daquele delicioso perfume, revelando Deus por este prodígio quão agradáveis lhe eram as austeridades de seu servo, em louvor da Paixão ss. de Jesus Cristo! ”

Eis como Paulo e João Batista se estimulavam mutuamente na prática da mortificação. Espetáculo comovente, que Deus e os Anjos contemplavam com amor e que o mundo, sensual e frívolo, jamais poderá compreender: dois delicados jovens, calcando aos pés as flores da vida, lançam-se em busca dos sofrimentos, com o mesmo afã com que outros se atiram ao lodo dos prazeres!...

Não pensemos, contado, que a mortificação cristã esteja sempre despojada dos encantos da sedução. Não, pois a alma se eleva e se enobrece à medida que se desprende dos sentidos, ao passo que se degrada e se avilta, em se tornando escrava das paixões. Da Cruz, que abrasa, ressumbra tal felicidade, com que não há comparar as alegrias da terra. De fato, a generosidade do sacrifício derramava nestas duas almas privilegiadas inexauríveis torrentes de celestiais consolações.

E' assim a primavera da santidade. Atrai Deus aos eleitos pela doçura infinita do seu amor, saciando-os no manancial dos gozou santos e dos divinos arrebatamentos. Então a terra nada mais representa para eles. Parecem ter asas na alma. Voam ou, para falar com muito acerto, asno elevados pelo sopro do Alto, ao pórtico celeste balado este que oferece, por sem dúvida, inefáveis atrativos; no entanto, nada mais é do que o começo da vida espiritual. Se durara sempre, tornando fácil a santidade, seus merecimentos não seriam tão grandes nem tão preciosa a coroa e o homem jamais conseguiria a perfeição. Chega, pois, o momento em que se deve passar do Tabor ao Calvário, atravessando áridos desertos e as trevas da provação. Paulo não o ignorava. Sabia que não é a terra lugar para se gozar de Jesus Cristo, mas para sofrer por ele. Quando, pois, estas inebriantes delícias lhe inundavam a alma, humilhava-se, aniquilava-se, acercava-se mais e mais dos espinhos da Cruz, multiplicando as mortificações.

De volta a Castellazzo, inscreveu-se na Confraria dedicada a santo Antão, cumprindo o regulamento com escrupulosa fidelidade. Eleito presidente, em todas as festas dirigia aos confrades uma fervorosa palestra. Era-lhe a igreja o lugar predileto. Nela passava muitas horas do dia e da noite, modesto e recolhido, aos pés do Tabernáculo. Assistia quotidianamente ao santo sacrifício da missa; comungava ao menos três vezes por semana; recitava no côro, com os sacerdotes, o divino ofício, ou lá permanecia em oração. Tão freqüentes e prolongadas eram as visitas à igreja, que era voz corrente:

“ Se desejardes encontrar o jovem Paulo, procurai-o na igreja ” .

Para ele a noite mais deliciosa do ano era a de quinta-feira santa. Costumava passá-la diante do santo Sepulcro, aos pés do Deus do Calvário, acompanhando-o, com lágrimas e suspiros, nos diversos passos da Paixão.

Oh! noite ditosa a que se passa junto ao Sepulcro do Salvador! Noite de trevas e de luzes, de dor e de alvor! Quantas graças não verte ali o doce Jesus nas almas que sofrem e velam com Ele!

Assistindo certa vez ao Ofício de Trevas, ao ouvir as palavras:

“ Cristo se fêz por nós obediente até a morte ” ,

sentiu-se penetrado do vivo desejo de imitar a Jesus Crucificado. Emitiu o voto de obediência, tomando por lema estas palavras de são Pedro:

“ Sêde, pois, submissos a todos os homens por amor de Deus (1 Petr. 11, 13) ” .

E, desde então, obedecia não somente aos superiores, mas até aos irmãos e a todos os que o mandavam, de modo a tornar-se, por amor de Deus, o mais submisso e dócil dos homens.

Na igreja sua modéstia inspirava devoção. Permanecia muitas horas de joelhos em terra, sem apoiar-se, com as mãos cruzadas sobre o peito, transpirando viva fé e profunda humildade.

Atraiu assim a atenção da condessa Canefri, que todos os anos de Alexandria vinha veranear em Castellazzo. Comovida por exemplo tão edificante, interrogou ao sacristão quem era aquele jovem. De volta ao palácio, comunicou ao marido a agradável impressão que recebera.

“ Sem dúvida, exclamou, aquele jovem está por tomar graves resoluções. Grandes coisas se hão de ouvir a seu respeito ” .

Aos pés do altar, Paulo se absorvia em Deus, parecendo privado de toda sensibilidade física. Certa feita, enquanto adorava o ss. Sacramento, exposto na igreja dos Capuchinhos, caiu-lhe sobre o pé um banco bastante pesado. Colho se nada acontecera, continuou imóvel.

Seu companheiro, que nos relata o fato, diz são Vicente Strambi, ao ver escorrer o sangue, advertiu-o. Mas o santo, como se nada ouvisse, continuou na mesma atitude. Terminada a função, quis outro obrigá-lo a entrar no convento para medicar-lhe a ferida, ao que se recusou, dizendo:

“ Isto são rosas em comparação do que sofreu Jesus e do que merecem os meus pecados ” .

As fôrças que amparavam o santo jovem nas austeridades e contra as seduções do mundo, hauriu-as no amor a Jesus Crucificado e na recepção freqüente dos sacramentos. Uma Comunhão servia de preparação à outra, que era sempre mais fervorosa, excitando-lhe o vivo desejo de unir-se novamente a Jesus Sacramentado. Mais tarde poderá dizer ao confessor:

“ Naqueles primeiros anos, deu-me Nosso Senhor o desejo de duas coisas: da sagrada Comunhão e do sofrimento ” .