CAPÍTULO XXII

1745 - 1748


O PADRE TOMÁS STRUZZIERI

Em profundo recolhimento. orava o nosso santo ante o sacrário, na igreja da Imaculada dos Montes. das religiosas capuchinhas, quando entrou um sacerdote e se dirigiu à sacristia.

Guiado por impulso interno, pe. Paulo o segue.

Ao se encontrarem perguntam-se mutuamente:

- O senhor é o pe. Paulo?

- E v. revma. é o pe. Tomás Struzzieri?

E abraçaras-se cordialmente, como se foram velhos amigos, que havia muito não se encontravam.

O sacerdote tivera conhecimento do maravilhoso apostolado do pe. Paulo e da fundação do Instituto da sagrada Paixão. Paulo, por sua vez, ouvira falar do pe. Tomás Struzzieri, um dos mais eloqüentes oradores da época.

Estimularam-se mutuamente ao sacrifício pela glória de Jesus Crucificado e em prol das almas. Desde essa primeira entre, vista uniram-se pelos laços de santa e indissolúvel amizade. Struzzieri desejou voar imediatamente para o monte Argentário; mas seus amigos, de prudência demasiado humana, esforçavam-se por fazê-lo desistir da santa resolução!

Aos 40 anos de idade e com tão brilhante porvir, garantido pela nobreza do berço e pelos dotes intelectuais, abraçar uma Congregação tão austera e mal consolidada!

Orava Paulo e solicitava orações em prol do amigo.

“ Diga a soror Colomba, escrevia a um sacerdote, que agora é tempo de auxiliar-me. Recomendo-lhe um grande missionário que começa sentir alguma inclinação para o nosso Instituto. Seria um dos nossos mais poderosos apóstolos. Oh! quanto o desejo!... Que reze muito, pois espero será ouvida... Ah! por caridade, não nos perca de vista, nem de dia nem de noite. O mesmo digo a v. revma.: Lembre-se de nós ao celebrar o santo Sacrifício ” .

Dois anos decorreram e Paulo tornou a avistar em Roma o pe. Tomás. À claridade de luz superior, descobriu naquela alma as, perplexidades que a agitavam, descrevendo-as nas menores circunstâncias.

E' patente a vontade divina. A graça triunfa. Segue para o Argentário o filho de suas preces e, aos dois de fevereiro de 1745, recebe das mãos do Fundador o santo hábito. A partir de agora chama-se pe. Tomás Maria do Lado de Jesus.

Excelente conquista! Este apóstolo que no dizer de são Vicente Strambi,

“ podia valer por muitos ” ,

nascera em Senigallia, de nobre família, e unia à circunspecção da experiência e do talento os tesouros de vasta e profunda doutrina, de arrebatadora eloquência, de que dera sobejas provas no ministério apostólico. Estas belas qualidades eram coroadas por voz forte e sonora, admirada pelo célebre missionário são Leonardo de Porto Maurício. Mas, acima de tudo possuía rara prudência e sólida piedade.

Ei-lo simples noviço da menor e mais humilde das Congregações religiosas! Maior, porém, era em sua cela do que sob os dourados tetos de seu palácio e das cátedras apostólicas, donde arrebatava as multidões.

Traçou interessante descrição de seu noviciado, que se não pode ler sem profunda emoção. A alma se desabafa em cânticos de amor e em arroubos celestiais. Ouçamos algumas de suas expressões:

Quando pus os pés neste santo retiro, julguei entrar no paraíso Reinava o mais profundo silêncio e as mesma, paredes respiravam santidade. Os religiosos pareciam Anjos, tanto resplandeciam em virtudes. Amavam tanto a pobreza, a ponto de procurarem, com piedoso empenho, as piores coisas, como sejam hábitos remendados e estragados.

“ Eram tão mortificados, que os superiores deviam vigiar para que tomassem o necessário alimento. Porfiavam em privar-se já de uma coisa, já de outra e, freqüentemente. jejuavam a pão e água! Se lhes faltava o que as Regras permitem. ou mesmo o mais frugal alimento, ninguém se queixava. vendo em tudo a vontade de Deus. Que de habilidade não empregavam no mortificar o paladar! Misturavam no, alimentos erva. ou pós amargos! Quase todos possuíam o dom da oração e alguns. depois de Matinas, permaneciam diante do ss. Sacramento até a hora de Prima. Estavam sempre recolhidos e de olhos baixos para não perderem a Deus de vista. Os mesmos recreios eram escola de oração. ”

“ Jamais discorriam do mundo nem dos negócios seculares, mas unicamente de Deus, da vida dos santos, da conversão das almas, da ventura de derramarem o sangue pela fé. Dessas práticas hauriam novo fervor, com ardente aspiração de trabalharem e sofrerem muito por Deus. Eram admiráveis na obediência. Bastava conhecerem a vontade do superior para executarem-na imediatamente. Praticava-se a caridade em tão sublime grau, que cada qual. se comprazia em carregar o fardo do companheiro. Acusavam-se a si mesmos para desculpar os coirmãos. Jamais se ouvia a mais leve murmuração ” .

O testemunho genuíno, muito mais prolixo, é citado na integra em Memorie dei Primi Compagni. Esta citação é abreviada e com alguns períodos invertidos; mas deixamo-la assim. Se os religiosos lhe eram de edificação, ele não o era menos aos religiosos. Digno êmulo de suas virtudes, tinha os lábios na chaga do Coração de Jesus, a que consagrara o nome, e bebia sofregamente no manancial das divinas perfeições, luzes e paz até então desconhecidas.

Julgava-se no paraíso. Toda noite, durante o sono, aparecia-lhe em sonho o santo Fundador, entretendo-se com ele em assunto, espirituais. Ilusão ou realidade?. Ignorava-o. Ao despertar para Matinas, era como se saísse de doce êxtase: o coração estuava-lhe de amor...

Em pouco tempo fêz-se perfeito religioso. O santo Fundador, com licença apostólica, julgou-o digno da profissão após dois meses e meio de prova.

O pe. Tomás Maria era modelo acabado de humildade, doçura e penitência, virtudes adquiridas na oração assídua.

Missionário zeloso e infatigável, administrador prudente, foi de grande auxílio ao santo Fundador.

Ocultara-se à sombra da Cruz, mas fê-lo conhecido o resplendor de seu gênio e de suas virtudes. Em 1760, ordem formal de Clemente XIII arrebatava-o à Congregação. Devia seguir para a Córsega, como teólogo do visitador apostólico, o cardeal De Ângelis.

Delicadíssimo era o encargo. Revoltara-se a ilha para sacudir o jugo da república de Gênova e, como julgassem os bispos partidários dos opressores, desterraram-nos. Daqui surgirem ultrages à Religião, ódio mortal a seus ministros, devassidão dos costumes e profanação das igrejas.

Onde quer que se apresentasse o pe. Tomás Maria, sua eloquência doce e insinuante conquistava os corações e acalmava os espíritos.

Pelos trabalhos excessivos em país montanhoso, muita vez com perigo de vida, De Ângelis caíu doente. Obrigado a abandonar a ilha, deixou o pe. Tomás como seu vigário geral. Ao chegar a Roma, teceu-lhe elogios tais, que o Santo Padre o constituíu visitador apostólico e o nomeou bispo de Tiana.

Longe de arrefecerem-lhe o zelo, essas honras deram-lhe maior vida, força e constância. Enfim, por seu intermédio, a grande voz da Igreja conseguiu dominar os furiosos brados de independência nacional. Sua caridade e prudência souberam unificar os ânimos e pacificar a ilha. Todos o amavam como a terníssimo pai. Contudo, a mais digna de suas obras, quer como religioso, quer como apóstolo - permita-se-nos recordá-la aqui, para que o mundo conheça o vinculo que une os filhos de Deus - foi a caridade com que acolheu, consolou e alimentou a quatro mil Jesuítas, heróicos e santos mártires, lançados naquelas praias, após serem tratados da maneira mais iníqua e caluniados como somente o poderia fazer a malícia infernal.

Gênova cedeu a Córsega ao rei de França. Restabeleceu-se a hierarquia eclesiástica, terminando gloriosamente. em 1770, a visita do santo Pastor.

Informado de seus méritos, ofereceu-lhe Luís XV o titulo de metropolita da ilha. As honras, porém, o não atraíam. Sua única aspiração era voltar ao monte Argentário, para janto dos coirmãos, e entregar-se novamente à vida de silêncio e oração.

O rei, patenteando-lhe estima e reconhecimento, enviou-lhe dez mil flancos. O apóstolo recebeu-os quando já se encontrava a bordo e os remeteu imediatamente ao Cabido da catedral, para serem distribuídos aos pobres.

Clemente XIV obrigou-o a aceitar o bispado de Amélia, transferindo-o mais tarde, apesar das lágrimas do rebanho e resistência do Pastor, à Sé de Todi, onde, em 1780, com a idade de 74 anos, falecia em odor de santidade. Seu corpo repousa na catedral de Todi, cercado pela veneração dos fiéis e glorificado por muitos milagres; mas a santa Igreja não pronunciou ainda seu parecer.

Tivemos como obrigação traçar, de relance, a vida desta grande e santa figura de religioso, cuja glória reverbera na fronte augusta de Paulo da Cruz.