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O governo do nosso santo, com ser suave, não deixava de ser forte.
Observava, com vista perspicaz, a conduta dos religiosos.
Aos incorrigíveis, após os meios brandos, empregava atitudes enérgicas, fazendo-os tremer.
Se alguém resolvesse abandonar o Instituto, deixava-o partir, dizendo
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“
Prefiro a observância a todos os indivíduos do mundo. Deus não precisa de ninguém;
poucos e bons!
”
.
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Corrigia as mais leves faltas, porque desejava que todos fossem perfeitos. Falar em voz alta,
rir estrepitosamente, proferir palavras ociosas, mostrar-se demasiado alegre ou delicado,
eram defeitos que não passavam sem correção.
Cantando o divino Ofício no coro, um clérigo cometeu um erro. Voltou-se o santo para ele,
repetindo a sentença:
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“
MALEDICTUS HOMO QUI FACIT OPUS DEI FRAUDULENTER
”
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(Jerem. 48, 10). Essas palavras foram pronunciadas com tal inflexão de voz, que a todos fêz
tremer, servindo de lição para o futuro.
Se alguém não inclinava a cabeça ao GLORIA PATRI ou ao nome ss. de Jesus, repreendia-o
severamente.
Não hesitou em mudar de retiro a um irmão leigo que faltara à santa caridade.
Um religioso se mostrara demasiado familiar e alegre em presença de algumas piedosas
benfeitoras, em visita ao retiro do Santo Anjo. Advertiu-o asperamente, exigindo-lhe para o
futuro mais modéstia e gravidade religiosa, como convém aos filhos da Paixão. Alguma vez
exclamou:
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“
Não conheceis a força que Deus colocou neste peito? Não é bom superior quem
não sabe dizer não
”
.
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Julgava-se réu de grande pecado se, para não perder a estima dos súditos, deixasse de
corrigir-lhes os defeitos. Soía repetir:
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“
Não quero condenar-me por pecados alheios. Jesus imputou a Pilatos sua morte, porque
este se mostrara fraco perante os doutores da lei e Heli foi castigado por não opor-se com
energia às indignas arbitrariedades dos dois filhos
”
.
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Ao comentar a incúria de certos superiores que, ou por fraqueza de caráter ou por falsa
caridade, deixam de repreender os súditos delinqüentes, suspirava
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“
Oh! quantos superiores estão no inferno por pecados de omissão!
”
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Só nomeava superiores serios e de ánimo varonil, que se não deixavam levar por
considerações humanas de timidez ou de outras quaisquer paixões.
Era seu lema:
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“
Não é bom superior o que não sabe dizer, quando necessário: NÃO SE
PODE
”
.
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Não se deve aqui concluir que Paulo fosse inflexivel. Pelo contrário, era compassivo por
natureza. Se os religiosos se humilhavam e se arrependiam, era como se os visse refugiar-se
em santuário inviolável. E passava do rigor á brandura.
Alguns dos nossos estudantes, narra são Vicente Strambi, não sei por que falta,
prostraram-se-lhe aos pes, pedindo perdao.
O santo, sereno e alegre, disse-lhes, a sorrir:
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“
Oh! repreenda-os agora quem fôr capaz!... Que querem que eu faça? Levantem-se, pois
venceram
”
.
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E pós-se a conversar com eles alegremente, como pai amorossíssimo.
Era isento daqueles caprichos que depravam e exasperam o caráter.
Com admirável discernimento, regulava-se na correção pelo grau de virtude do culpado, a
exemplo do Salvador
|
“
que não quebrou a frágil cana, nem apagou a mecha ainda fumegante
”
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Ciente de que o homem deve ser dirigido com delicadeza e respeito para mais fácilmente
triunfar, no coração de Paulo a compaixão e a ternura quase sempre substituíam a repreensão
e o castigo.
Porém, onde mais lhe resplandecen o zelo, foi quando se tratava de gravar no coração dos
religiosos as três virtudes fundamentais do Instituto: POBREZA, ORAÇÃO E SOLIDÃO.
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“
POBREZA! E' O GLORIOSO ESTANDARTE SOB QUE MILITA A CONGREGAÇÃO
”
;
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é
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“
A MURALHA INEXPUGNÁVEL DO INSTITUTO
”
.
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“
Recomendo-vos, dizia aos religiosos, a santa pobreza. Se fordes pobres, sereis santos. Se,
porém, andardes em procura dos bens deste mundo, perdereis o espírito religioso e
desaparecerá dentre vós a observância regular. Os filhos da Paixão de Jesus Cristo devem
viver despojados de todos os bens terrenos. Nossa Congregação deve ser pobre de espírito e
completamente desnuda, Somente assim conservará perene vigor
”
.
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Era zelosíssimo na prática desta celestial virtude. Exigia que pobre fosse o vestuário dos
religiosos, pobre a alimentação, pobres as celas, pobres os edifícios.
Como da santa pobreza nasce a vida perfeitamente comum, tinha esta em grande estima
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“
Oh! que felicidade a vida comum! que grande tesouro encerra!
”
.
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E suas obras se conformavam ao seu parecer. Nunca possuiu coisa alguma como própria e
exigia que entre os filhos tudo fosse comum.
Era a pobreza personificada. Entremos em sua cela: pequena mesa de madeira ordinária,
duas ou três cadeiras de palha, uma enxerga sobre algumas táboas, uma coberta de lã. uni
Crucifixo, uma pia de barro para água benta, alguns quadros ordinários... essas as preciosas
mobílias de Paulo da Cruz! Esmerava-se por ser o mais pobre entre os pobres.
Não era menor seu amor à oração.
|
“
Se formos homens de oração, sentenciava, Deus servir-se-á de nós, embora miseráveis,
para os mais brilhantes triunfos de sua glória. Sem a oração, nada faremos de bom
”
.
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Estimava deveras os religiosos que se entregavam de fato à oração, e com eles se
aconselhava.
Para que o espírito de oração lançasse profundas raízes na alma de seus filhos, exortava-os
ao recolhimento com a lembrança da presença de Deus:
|
“
Este exercício faz com que a
oração seja contínua
”
.
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E prosseguia:
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“
Pessoas há que têm grande devoção em visitar lugares
santos e as igrejas mais célebres. Estou longe de criticá-las; digo, contudo, que o nosso
interior é grande santuário, por ser o templo vivo de Deus. Néle reside a ss. Trindade.
Permanecer nesse templo é devoção verdadeiramente sublime
”
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Com tais expressões inflamava os corações dos filhos no desejo de tratarem familiarmente
com Deus, comunicando-lhes o verdadeiro espirito de oração.
A esta solidáo interior colocava uma centinela: a solidão exterior, sem a qual é impossível a
primeira.
Chamou de retiros aos nossos conventos, para infundir-nos o amor á solidão. Edificou-os,
sempre que possível, longe dos povoados, para que, após as fadigas do apostolado,
encontrassem
|
“
religiosos, no ar puro e na calma do silêncio, o duplo refrigério do espírito e
do corpo.
”
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Quando os religiosos deixavam o retiro, esperava-os ansiosamente, contando as horas da
auséncia. Ao regressarem, não lhes permitia referirem acontecimentos profanos.
|
“
Isto seria trazer o mundo para o convento
”
.
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Como na Congregação o espírito de solidáo devia estar unido ao zélo das almas, também ao
apostolado tinha imenso amor e extremava-se por infundí-lo no coração dos filhos. Repetía:
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“
Levando-se em consideração o bem das almas, vale mais um missionário do que um
convento. Prefiro perder um convento que um missionário
”
.
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Alegrara-se sobremaneira quando os religiosos partiam para as missões. Abraçava-os
ternamente e, chorando, dizia-lhes:
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“
Oh!! se tivesse trinta anos a menos, percorreria de bóa vontade o mundo todo a pregar a
divina misericórdia!...
”
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Ao regressarem, extenuados, venerava-os como vítimas da caridade, assinalados com os
gloriosos estigmas do sacrifício. Desabafava o coragáo em santos afetos. Apertava-os ao
peito, osculava-lhes a fronte, fazia-lhes mil caricias. Deviam ser tratados com a máxima
caridade. Éle mesmo, admirável ancião, os servia á mesa, ensinando a todos o preço do
missionário apostólico.
Folgava em ver entre os filhos o verdadeiro amor fraterno.
A vida religiosa era para ele escola de respeito e caridade. Exigia dos sacerdotes suma
condescendência para com os irmãos leigos, e destes o maior respeito pelos sacerdotes, em
consideração do divino caráter que os revestia. Todos deveriam dar-se a cada um e cada um
a todos.
Com o imolar-se perenemente em prol dos filhos queridos, matava o egoísmo, peste e ruína
das comunidades religiosas, e doutrinava o desprendimento, vida dos convento. Quem não
sabe dar-se, não sabe ser pai.
Para traçar-lhe numa pincelada o governo, diremos: nos limites das santas Regras, doçura
ilimitada: transpostos esses limites, firmeza inquebrantável. E nisto consiste a salvação das
Ordens e Congregações religiosa. e o preservativo do relaxamento,
Eis o governo de são Paulo da Cruz. Governo de prudência e simplicidade, de doçura sem
fraqueza. de força sem aspereza, que obrigava os religiosos a viverem no fervor e na fiel
observância, fazendo o pai venerável derramar lágrimas de inefável consolação.
Fala bem alto o fato seguinte:
Aos religiosos de Santo Eutízio (Soriano), faltava-lhes o necessário para fazerem o pão em
casa. Piedoso benfeitor comprometeu a fazê-lo, devendo os religiosos ir buscá-lo. A família
do bom homem edificava-se desse mister. Ao apresentar-se à porta da casa, modesto e
recolhido, o irmão encarregado apenas pronunciava a palavra: PÃO. Assim procedia, não
por escassez de inteligência ou educação, mas para evitar palavras inúteis e não faltar ao
santo silêncio, prescrito pelas Regras.
Semelhante delicadeza de consciência é prova patente das heróicas virtudes dos primeiros
Passionistas.
O santo Fundador afirmava, jubiloso, que mais de SESSENTA, isto é, todos os que até então
haviam falecido com o santa hábito, gozavam no paraíso os esplendores da glória eterna.
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