FURIOSA TEMPESTADE

Mas eis que se levanta contra a Congregação tão furiosa tempestade, que ameaça destruí-la por completo, lançando a alma de Paulo num oceano de amarguras. Satanás empregou esforço supremo para arruinar a obra de Deus, arrojando contra ela espumas de raiva. Deus assim o permitiu para glória do Instituto.,

Apresentaram ao Papa libelos difamatórios, imputando aos filhos da Paixão crimes horrendos. Diziam que a fé e mesmo a igreja corriam iminente perigo, não fossem logo exterminados os Passionistas.

E' doloroso saber que pessoas eminentes pela santidade caíram na cilada, abraçando em boa fé a causa da calúnia, julgando defender assim a Religião.

Bento XIV, porém, não deu crédito àqueles panfletos mentirosos. Conhecia e admirava os religiosos pintando com tão negras cores. Quando se lhe apresenta-a ocasião. patenteava-lhes cordialíssimo afeto. Perito na arte de conhecer a verdadeira santidade e os refolhos do coração humano, como o demonstrou na admirável obra DE CANONIZATIONE SANCTORUM, desde o primeiro encontro que teve com Paulo da Cruz reputou-o santo extraordinário, recomendando-se a si mesmo e a Igreja às suas orações. Desejava vê-lo amiúde e tratá-lo familiarmente, chegam do a dizer-lhe em presença de outras pessoas:

“ Pe. Paulo, sei que fazeis muitíssimo bem à Igreja ” .

E tão grande era a benevolência do sábio Pontífice para com o nosso santo, a ponto de fazê-lo sentar-se a seu lado e conversar com ele com a maior familiaridade. Concedia-lhe o que pedisse. Valeu-se o servo de Deus, certa vez, de um cardeal para obter um favor. O Papa ressentiu-se, queixando-se docemente:

“ Padre Paulo, quando deseja alguma coisa, não se sirva de intermediário, dirija-se diretamente a Nós ” .

O santo acenara apenas ao Santo Padre sobre a nomeação de um cardeal protetor da Congregação, como possuíam todos os Institutos. O benigno Pontífice respondeu imediatamente:

“ Nós somos o Protetor da vossa Congregação ” .

Desde então o Instituto da Santa Cruz sempre esteve sob a imediata proteção do Vigário de Jesus Cristo.

Todavia, para não faltar ao dever de Pastor vigilante, Bento XIV nomeou secreta comissão de cardeais para vigiar de perto o Fundador e seu Instituto e observar atentamente os costumes dos novos missionários, sua doutrina e ensinamentos.

A perseguição afligia imensamente o nosso santo, sem, contudo, roubar-lhe a confiança nAquele que, do alto dos Céus, toma a defesa do justo.

Pudera solicitar dos bispos, seus verdadeiros admiradores, atestado cie inocência. Não o fêz, todavia. Deus lhe era testemunha e isto lhe bastava.

Longe, pois, de o perturbarem, as perseguições excitavam-lhe mais e mais a caridade; a impetuosidade dos ventos contrários avivava a atividade das chamas que lhe devoravam o coração.

Tudo eram dádivas do divino amor. incomparáveis tesouros de méritos para os filhos bem amados. Discorrendo. no recreio, a. respeito dessa tempestade, exclamou. certa vez. em transportes de júbilo:

“ Sucede amiúde cair um raio e. ao ferir o cume desnudo da montanha, descobre rica mina de ouro. Vereis como o golpe do raio que nos fere irá descobrir-nos essa mina. Deus tirará imenso bem desta provação ” .

Como Deus é admirável em suas obras! A tempestade irá lançar à luz meridiana virtudes que se ocultavam à sombra. Todo aquele aglomerado de falsas acusações, aquelas rigorosas pesquisas dos cardeais serviram tão somente para patentear o rico tesouro de santidade, a pureza sem mácula de doutrina e ensinamentos, beira como o zelo realmente apostólico dos novos campeões da fé!

Bento XIV, que dera a existência jurídica ao Instituto, ao vê-lo surgir mais glorioso da procela, regozijou-se no Senhor, prometendo auxiliá-lo ainda mais para o futuro.

A vitória não fora, porém, completa; outras borrascas sobreviriam.

Desmascarados, os perseguidores lançaram mão de outras armas...

Apelaram para as leis políticas proibitivas de novas fundações na província da Campagna. Miravam eles o retiro de Ceccano e outros, solicitados pelos bispos e já aceitos por Paulo.

O golpe fora armado magistralmente e ai da Congregação, se tivessem conseguido seu intento! Em se cortando os galhos de planta tão tenra, era para temer-se viesse a perecer.

O Servo de Deus. que a regara com lágrimas e a fecundara com tantas orações e ingentes fadiga:. estava preocupado. Muito mais que Deus lhe retirara luzes e consolações. deixando-o em terrível abatimento moral.

Mesmo assim descansava nos braços amorosos do seu Deus!

Nada de processos. Aos snrs. bispos, que insistiam na defesa jurídica da Congregação, Paulo escrevia muitas cartas, rogando desistissem de qualquer demanda.

“ Escrevi várias vezes, dizia, a fim de impedir esses processos. Protestei não desejar obter casas por esse caminho, mas pacificamente. Continuemos a orar muito... ” .

Jamais teve guarida em seu coração o rancor e o ressentimento contra os inimigos; muito ao contrário, sempre lhes teve especial afeto, desculpando a malícia dos atos com a boa intenção. Para evitar contendas com os adversários, deu ordem expressa aos religiosos de Ceccano de abandonarem o retiro apenas recebessem nova carta sua nesse sentido.

Informado secretamente da decisão tomada, o povo ficou profundamente magoado e decidiu impedir-lhe a execução. Certo dia em que a comunidade saiu a passeio, correu o boato de que os padres tinham abandonado o convento. ]Reuniram-se logo uma multidão de homens, armados do primeiro instrumento que lhes veio à mão; correram ao encontro dos religiosos, decididos a fazê-los voltar. Compreende-se o sobressalto que estes tiveram. Ao saberem, porém, que a atitude e aparente hostilidade era prova de amizade, criaram ânimo. O difícil foi persuadir esses bons homens de que não havia perigo de fuga e que voltassem a suas casas. Tiveram os religiosos que renunciar ao passeio nesse dia e retornar ao convento, notificando o santo Fundador do ocorrido.

Paulo agradeceu N. Senhor por essa prova de verdadeiro afeto aos filhos de sua alma.