SEU DOMÍNIO SOBRE A NATUREZA

Quando o homem, pela completa destruição do pecado, restabelece as leis harmônicas que o unem novamente ao Criador, readquire o soberano império das criaturas.

Em se tratando de distinguir o sinete divino nos escolhidos do Senhor. os animais e até os seres inanimado. parecem dotados de razão: o fogo torna-se orvalho refrigerante; a água solidifica-se como cristal; os animais mais ferozes são mansos cordeiros. Quem se não enternece ao ler, na biografia dos mártires, os tigres, os leões e os ursos lançarem-se-lhes aos pés para os beijar? Quem desconhece o corvo de são Paulo eremita, e os leões que lhe assistiram os funerais? A hiena de são Macário, o lobo de são Francisco de Assis?

Quanto ao nosso santo, já vimos como a chuva, as ondas e as tempestades o respeitavam e lhe obedeciam. São fatos freqüentes em sua vida.

Paulo está gravemente enfermo; querem levá-lo em liteira a Borgheto, mas chove a cântaros. Resolvem enfrentar o mau tempo. Pois bem, em consideração aos méritos do enfermo e à caridade dos que o conduzem, Deus a todos preserva da chuva. Atravessam vários charcos, sem molhar nem mesmo os calçados.

Numa missão por ele pregada, seu zelo apostólico irritou a alguns libertinos, porque lhes arrebatava a presa de suas vis paixões. Para vingar-se, envenenaram-lhe o alimento. O servo de Deus o tomou sem a menor suspeita; mas o veneno respeitou essa existência consagrada a Deus e o santo missionário redobrou de coragem para quebrar os grilhões dos pobres escravos do pecado.

Desejando o santo ir de Fullônica a Porto Ferraio, encontraram somente uma embarcação, que forte tempestade lançara à praia. Apesar da boa vontade do proprietário, fora temeridade fazer-se ao largo com aquela nau.

“ Não temais, disse Paulo. Vamos em nome de Deus ”

Ouçamos agora o capitão de uma nave real, testemunha ocular do fato

“ O proprietário da embarcação sinistrada e seus marinheiros, ajudados por mim e meus marujos, não conseguimos pô-la ao mar. ”

“ Vem então o pe. Paulo em nossa ajuda. Tinha o Crucifixo na mão esquerda e com a direita empurrava o barco. Verdadeiro milagre! Instantes após ei-lo a flutuar! Soube por conhecidos da ilha, que a viagem fora ótima, mas apenas desembarcados abriu-se ao meio a embarcação e foi a pique ” .

Matias Mairé, de Sutri, fora encarregado por Mons. Pedro Picciotti, vigário geral, de levar carta urgente ao pe. Paulo, que pregava missão em Monte Romano. O rio Biédano estava muito cheio e Matias temeu atravessá-lo.

,Alguns carroceiros, práticos do rio, também não ousavam transpô-lo. Enquanto o mensageiro refletia, chegou a cavalo um religioso Franciscano. Ao saber do motivo que levava Matias a Monte Romano, disse-lhe com toda confiança e simplicidade:

“ Vejamos se o pe. Paulo de fato é santo ” .

Tomou pelas rédeas o cavalo de Matias e empreendeu a travessia. A água atingiu o pescoço dos cavalos. Molharam-se bastante, mas chegaram felizmente à margem oposta. Em Monte Romano todos se admiraram como conseguissem atravessar o Biédano naquele dia; cessou, porém. o espanto ao saberem que confiaram no poder do santo missionário.

Acolheu-o o servo de Deus com muita caridade e, restauradas as forças, contra a opinião de todos, ordenou a Matias que regressasse sem mais com a resposta.

“ Parta, disse-lhe o santo, e eu lhe prometo a proteção divina ” .

O pe. João Batista interrogou-o:

“ V. revcia. garante que ele passará o Biédano sem perigo? ”

“ Sim, garanto, respondeu Paulo, mesmo que as águas cubram as copas das árvores, passe sem receio ” .

Com essa garantia, Matias não titubeou.

Prodígio! O cavalo andava sobre as águas como se fora em terra firme! Os carroceiros, supersticiosos, atribuíam o milagre a sortilégios diabólicos.

“ Não há duvidar, diziam, vêm-se até as ferraduras do cavalo ” .

Matias chegou a Sutri às primeiras horas da noite. O vigário geral, temeroso de algum acidente, estava para enviar nova carta, como aliás predissera o santo.

Fatos como esse há diversos nos processos apostólicos. Quantas vezes não passou o santo a pé enxuto regatos e rios, nas excursões apostólicas?!

Vejamos agora como os próprios animais obedeciam ao santo.

Pregava numa das praças de Orbetello. Dois búfalos, desvencilhando-se do carro, investiram contra a multidão. Confusão e terror! O servo de Deus aconselhou a todos:

“ Ninguém deixe seu lugar. Isto é ardil de Satanás, para impedir o fruto da divina palavra ” .

Tomou o Crucifixo e, dirigindo-se aos búfalos, já à entrada da praça, ordenou-lhes que retrocedessem. Eles obedeceram, enveredando pela rua do açougue, em direção à porta da cidade!

Percorrendo os Campos Romanos, deu Paulo com um lavrador encolerizado pela indocilidade de dois bois recalcitrantes no pinar o arado. O lavrador proferia horríveis blasfêmias. O santo o repreendeu com caridade e doçura.

Longe de comover-se com os paternais conselhos, irritou-se ainda mais o energúmeno, tomando da espingarda e apontando-a contra Paulo. Este, nada temeroso, mas horrorizado belos ultrajes dirigidos ao seu Deus, empunhou o Crucifixo e bradou:

“ Já que não queres respeitar a Deus N. Senhor, respeitem-no os teus bois ” .

Os animais, como dotados de razão, prostraram-se imediatamente com os joelhos em terra.

O blasfemador. atemorizado. lançou-se aos pé, do santo, pediu-lhe perdão e o seguiu até a cidade onde Paulo ia pregar missão, para reconciliar-se com Deus

O convento das religiosas de Farnese fora infetado de répteis venenosos, cansa de transtornos na observância regular.

O santo, instado a livrá-lo do flagelo, escusou-se, por humildade, a fazê-lo, alegando não ter licença para entrar na clausura.

Recorreram as religiosas ao cardeal Rezzonico. Sua eminência escreveu a Paulo:

“ Sentiria se esta carta não o encontrasse aí, para consolar essas Mas filhas com livrá-las das víboras que as molestam. Se estiver ainda em Farnese, faculto-lhe a entrada na clausura. Não me recuse esse favor ” .

O santo rendeu-se às súplicas das religiosas e do Prelado. Suas orações foram eficazes, pois dali por diante nenhum réptil penetrou mais no convento.

Esses milagres humilhavam o servo de Deus e da humilhação nasciam novos prodígios.

Paulo pregava retiro espiritual no convento de Sant'Ana, em Ronciglione. À hora da refeição alguns personagens da cidade, inclusive um eclesiástico, vieram visitá-lo. A casa estava infestada de moscas. O servo de Deus, notando a náusea daqueles senhores, disse-lhes:

“ Sou grande pecador; se fora santo, afastaria estas moscas ” .

“ Conheço um santo homem que desta maneira (e traçou o sinal da cruz) enxotá-las-ia imediatamente ” .

Traçar o sinal da Cruz e desaparecerem as moscas foi uma só coisa! O santo, que não esperava o prodígio, todo confuso, não abriu mais a boca. Os presentes se edificaram por esse silêncio como os maravilhara o milagre.

Paulo jazia enfermo em casa de piedoso benfeitor de Civita-Castellana.

No quarto contíguo, gorgeavam maravilhosamente dois canários. O servo de Deus, para melhor gozar da doce melodia, rogou os trouxessem ao seu quarto. Quiseram convencê-lo de, que, amedrontados, deixariam de cantar.

“ Trazei-mos, trazei-mos ” ,

replicou Paulo.

Apenas as avezitas são colocadas ao lado do leito, olham enternecidas para o doente e, como para contentá-lo, batem as asas e põem-se a cantar admiravelmente. O santo, em sublime concerto com essas criaturinhas, desabafa o coração, em terníssimos afetos ao Criador.

Terminado o êxtase, humilhado, Paulo suplicou ao benfeitor afastasse os canários, mas as encantadoras avezitas continuaram a gorgear por muito tempo.

Bendito sejais, ó Jesus Crucificado, pelos prodígios de amor que operais em vossos santos, por vossas chagas adoráveis e por vossa Paixão ss., vida, doçura e esperança dos cristãos!